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MARCELO REIS DE MELLO

O SILÊNCIO DE AJAX Verdade e Êxtase no Peri Hupsos de Longino, a partir de Stephen Halliwell

NITERÓI

FACULDADE DE LETRAS UFF

2013

Sublime não é uma palavra como outra qualquer. Seu percurso etimológico é um tanto controverso, pois tem sido interpretada de tantas formas diferentes há tanto tempo, que parece impossível atribuirmos-lhe um sentido final e definitivo. É claro que esta história remonta a conceitos originariamente traçados no ocidente pelos filósofos gregos (embora o termo tenha sido cunhado vários séculos depois). No entanto, duas questões dificultam uma leitura sobre seu sentido mais primitivo; primeiro a sombra e o silêncio que sobre ele se abateram durante cerca de XV séculos; depois, as importantes metamorfoses que o conceito sofreu em Burke e Kant, sem falar nas formas que adquiriu durante o “furor poético” romântico, ou a posterior inclusão dos termos “sublime”, “sublimar” ou “sublimaçãoao léxico psicanalítico, por Freud, já remetendo a ideias totalmente diversas daquelas onde se nota os primeiros indícios de sua aparição. O Livro “Ectasy and Truth” de Stephen Halliwell, conhecido como um dos mais notórios platonistas da contemporaneidade, propõe, entre outras coisas, uma leitura muito particular do tratado que funda os estudos sobre o sublime no ocidente, o Peri Hupsos; este pequeno livro escrito em data indeterminada entre os séculos I e III da Era Cristã, por um retórico ao qual se convencionou atribuir o nome de Longino. Quanto ao projeto de Halliwell, consiste fundamentalmente em aclarar os conceitos de “verdade” e “êxtase” em autores que começam com Homero e terminam justamente em Longino. As perguntas “gregas” que se colocam logo na abertura do prefácio de Halliwell, como “Para que serve a poesia?”, “Que diferença ela pode fazer para quem a lê ou escuta?” ou A poesia pode nos levar à verdade?indicam o caminho a ser traçado no livro. Em suma, ele abarca duas propostas analíticas principais: De um lado, a poesia enquanto “meio de acesso a verdades sobre a vida”, capaz de dar forma às visões de mundo dos seus ouvintes/leitores; de outro, a violência com que somos afetados pelo seu poder transformador, ou, melhor ainda, sobre os modos pelos quais a poesia proporciona aos homens aquilo que os gregos chamavam de ékstasis. Êxtase, cujo significado se aproxima da ideia de arrebatamento, desprendimento ou elevação dos sentidos, mas que também vai aparecer na maioria dos dicionários de língua portuguesa atrelada ao termo “entusiasmo”, do grego enthousiasmós. Sobre isso, é preciso considerar a advertência de

Fernando Muniz quanto à banalização e esvaziamento desse termo, especialmente no ambiente dos Estudos Literários e, ademais, toda complexidade muitas vezes negligenciada da doutrina do entusiasmo desde Platão até aqui (2011, p.13). Por exceder os objetivos deste trabalho, não iremos verificar as diferenças entre os dois substantivos, frisando apenas que esta aproximação (equivocada ou não) deriva de uma mudança no estado normal da consciência que caracteriza o estado extático (estar fora de si) do indivíduo entusiasmado. 1 Mas o mais importante para nós neste momento é entender que o conceito de êxtase está diretamente relacionado à definição do sintagma Peri Hupsos (literalmente: nas alturas), delineado por Longino. O capítulo do livro que iremos analisar se chama “The Mind´s Infinity:

Longinus and the Psychology of the Sublime”. Esse texto está dividido em duas partes e a primeira recebe, não por acaso, o nome de “Thunderbolts and Echoes: The Ecstasy of the Sublime”. O raio e os ecos do trovão. Ou seja, não apenas o efeito luminosamente impactante e momentâneo da poesia, como aquilo que a faz permanecer, considerando que no Hupsos um evento fugaz não caracteriza a experiência do Sublime, sendo justamente uma fonte ilimitada de conhecimento que somente o texto poético pode proporcionar. Mas se o texto poético é mesmo esta fonte ilimitada, o que exatamente ela

emana?

Este é o ponto de partida da articulação conceitual de Halliwell, que reconhece e busca comprovar tanto a importância do Êxtase, como também de um tipo muito particular de Verdade em Longino, no interior da qual

convergiriam três fatores principais: 1. Fatores intuitivos; 2. Fatores emocionais

e 3. Fatores metafísicos. Seguiremos a partir de agora o percurso teórico que leva a esta conclusão, elucidando nosso entendimento acerca do Sublime em Longino e, consequentemente, aproximando-nos um pouco das mudanças que

o termo veio sofrendo até a contemporaneidade. Inserido nas tradições gregas de retórica, que analisam as propriedades persuasivas da língua até as suas menores partículas, Longino

1 Êxtase e Entusiasmo são alinhavados brevemente ao final do ensaio “O entusiasmo poético” de Jacyntho Lins Brandão. Vale notar a afirmação do autor de que o Peri Hupsos de Longino completa um percurso histórico do entusiasmo, onde já não apenas as musas, mas também a emulação dos grandes mestres do passado (Platão, Homero) pode tornar o poeta entusiasmado. In: MUNIZ, Fernando (org.). As artes do entusiasmo: a inspiração da Grécia antiga à contemporaneidade. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011.

acredita que através delas os homens podem contemplar, assim como

escreveu Platão na República, Todos os tempos e todos os seres: (

converts even the most ambitious philosophical values into a form which allows them to be traced and inspected within the linguistic fabric of great ‘creative’ writing(2012, p.328). É esse interesse pelo desvelamento da realidade como

um todo a partir da estrutura da língua que faz com que Longino tenha se tornado uma influência seminal até hoje, a despeito das diferentes reinterpretações da sua obra. Mas o conceito retórico de persuasão é apenas uma das rotas de acesso ao argumento do livro. Porque o sublime suplanta a persuasão. Não é este o principal efeito provocado pela sua ação, mas o êxtase (próximo também do termo grego ekplêxis) que Longino compara ao impacto de um raio, nos capítulos 12.4 e 34.4 do Peri Hupsos.

Mas enquanto o êxtase parece fazer referência ao efeito do sublime no mundo interior, subjetivo, a verdade parece depender ou requisitar contato com

o exterior, o lado de fora, o cosmos:

he

)

“Translating Longinus ‘own thunderbolt simile back into literal terms, one might be tempted to compare the difference between a sensation of awed amazement at the violent power of the celestial phenomenon and an expanded vision of the world as a brilliantly revealed or illuminated by the lightning´s flashes”. (Idem)

Porém, estas duas imagens distintas estariam fundidas numa mesma e única experiência, pois se o êxtase sobrepujasse a verdade, afirmando-se como uma força absoluta, teríamos que admitir a irracionalidade no sublime de Longino o que certamente não é o caso. Até porque, para ser considerada autêntica, a comunicação do sublime por via do texto (emissor-mensagem- receptor) precisa se estabelecer intersubjetiva e publicamente, onde o que

poderíamos chamar de “êxtase privado” não passaria de engodo ou de um falso sublime. Ademais, Halliwell se detém sobre esta questão para provar que

o Sublime em Longino não se constrói sobre um modelo não-cognitivo, por se

tratar de uma experiência na qual a própria mente escolhe deixar-se impactar:

“(

decisively to a cognitivist model of the sublime, a model in which thought and emotion both focusing themselves on what Longinus takes to be permanent features of reality, (and making

)

the cumulative thrust of his treatment of language leads

contact, therefore, with a kind of truth) work in close harness. The ‘compulsion’ of sublimity is an experience which the mind itself enthusiastically seeks and embraces. (Idem)

Em seguida, o autor procura corroborar sua tese alegando que para Longino a música não recebe o mesmo status que os “artefatos verbais”, justamente porque não configura uma experiência cognitiva:

My own concern is to emphasize that if Longinus really subscribed to a model of sublime ecstasy as caused by a purely external psychotropic agency, he would have no reason not to attribute to music the same sublime power as he ascribes to verbal artifacts. (Idem)

Além disso, acrescenta o fato de que o sublime é citado sempre nos textos onde um magnífico transbordamento de sentidos (surplus of meaning, p.341) impede sua apreensão momentânea por via de uma única leitura, em um único flash, repercutindo ou ecoando infinitamente na razão. Por isso, também não se trata de um “prazer negativo”, como em Kant, onde a mente é elevada e simultaneamente frustrada na sua vã tentativa de alcançar imagens de inacessível magnitude. Porque o modelo de Longino incorpora uma espécie de êxtase transformativo (transformative ecstasy, p.343), mediado tanto pelos poderes cognitivos quanto emocionais da mente. Nesse caso, a mente ao invés de se deparar com sua limitação e falibilidade, é preenchida e se expande com seu próprio potencial; o que nos leva diretamente ao desafio de saber o tipo de conteúdo cognitivo que participa da experiência do sublime e, mais ainda, na elucidação do tipo de verdade que este conteúdo poderia implicar. Na segunda parte do capítulo, denominada “Methaphysics, Realism, Imagination: The complex truth of the sublime”, a tese de Halliwell aponta para o que ele chama de verdade metafísica, aludindo à comparação que Longino faz dos grandes mestres da palavra (Homero, Demóstenes, Platão) a semideuses; visionários que nos deixam a caminho de uma revelação metafísica. Contudo, não lhe escapa o fato de que os exemplos citados no tratado ocupam-se geralmente de assuntos naturais, históricos, militares e psicológicos (p.344). O fato é que Longino parte do princípio de que a arte é sempre a habilidade (e o habilidoso ocultamento) de uma simulação, nunca

uma representação fiel da natureza. É isso que se lê, por exemplo, na seguinte passagem:

“Pois, exatamente da mesma maneira que as pessoas interrogadas por outras são excitadas e respondem no ato ao que lhes é dito com veemência e conforme exata verdade, assim também a figura da interrogação e da resposta leva o ouvinte a pensar que cada um dos trechos maduramente pensados foi suscitado e pronunciado na improvisação e assim o engana”. (1996, 18.2, p.76)

O desafio da análise de Halliwell se torna, aqui, conseguir localizar e integrar no esquema de valores de Longino, as diferentes espéciesde verdade. Neste momento ele introduz o seu esquema tripartite que consiste no seguinte:

1. Verdade intuitiva: O contato direto com a grandeza da mente, ao tocar ou assimilar pensamentos sublimes.

(p.354)

2. Verdade emocional: A autenticidade das intensas emoções expressas e comunicadas por um texto sublime. (p.355)

3. Verdade metafísica: A visão” diferenciada dos semideuses da literatura sobre a grandeza do cosmos e, por outro lado,

a demonstração do potencial da mente humana para

internalizar tal grandeza. O sublime é o eco da grandeza

da alma(1996, 9.2, p.54).

O autor não se detém para explicar os desdobramentos de cada um desses tipos de verdade, mas - embora pareça ter priorizado uma abordagem da verdade metafísica” – procura mostrar como as três estão atadas nos exemplos que o texto fornece. A passagem que de forma mais rica e curiosa ilustra sua tese talvez seja a cena do implacável silêncio de Ajax no Hades, retirada do Canto XI (Nekya) da Odisseia. Inquirido por Odisseu sobre sua condição, Ajax não pronuncia uma única palavra. Ao lembrarmos que o primeiro capítulo do texto de Halliwell se chama Thunderbolts and Echoes, convém sublinhar que neste caso não se trata de um eco qualquer, já que nenhuma palavra é pronunciada pelo herói. Longino trespassa definitivamente

os parâmetros tradicionais da teoria retórica ao propor um sublime possível para além da vocalização. E aquilo que Márcio Seligman-Silva vai chamar de oximoresco eco mudo” (2005, p.260), Halliwell chama de algo inescapably paradoxical” (2012, p.357). Porque para este “retórico anônimodo início da Era Cristã, o silêncio de Ajax é grande e mais sublime do que qualquer discurso” (1996, p.54). Entretanto, não se trata de um silêncio per se, pois o que ecoa é a própria grandeza da mente, acionada tanto pela recusa de Ajax em falar quanto pela poesia de Homero, que foi capaz de conceber esta recusa

(p.357).

E esse problema não se refere apenas a uma questão emocional (o ressentimento de Ajax). Afinal, ele deve ter algo a ver com a noção de grandeza heroica, muito embora isso só possa ser aferido intuitivamente (p.358). E é a intuição de um sublime que, para que possa ser considerado sublime, deve ecoar pela eternidade”. O que nos leva, portanto, a uma verdade metafísica, onde, mais uma vez, o importante é a capacidade infinita da mente em explorar e expandir seus próprios limites. Logo, a conclusão coincide com a proposta de ilustrar a integração entre os três tipos de verdade propostos anteriormente:

“But it is clear enough that if, for Longinus, there is a kind of truth to be identified in the passage from Odissey 11, the ‘thought’ to which it belongs must bring with it a synthesis of intuition (ideas that reverberate beyond the level of the literal), emotion (the open-ended realm of the soul´s impulses), and implicit methaphysics (the capacity of the mind to transcend the material and the finite). (2012, p.360)

Antes de encaminhar o texto para o fim, Halliwell faz uma pequena pausa para mostrar algumas diferenças entre o Hupsos de Longino e o Sublime em Burke, destacando o fato de que para este o terror proporcionado pelo confronto com a escuridão infinita funciona como princípio gerador do sublime, enquanto para aquele consiste mais em uma afirmação heroica diante do perigo (p.361). Em seguida, frisa a sutil diferença entre a “verdade emocional” em Sapho e em Homero, mais uma vez para ilustrar a existência dos três diferentes tipos de verdade em Longino, já que em Sapho parece haver uma identificação muito mais realistado leitor com os problemas

emocionais da poeta, que acabam constituindo verdades para a vida (true-to- life, p.363); e distintamente, em Homero, resta-nos intuir através da descrição do autor quais seriam as verdadeiras paixões dos personagens, tendo em vista que agora já não se trata de pessoas comuns como nós, mas de heróis e deuses aos quais não teríamos qualquer acesso sem a mediação do texto poético (p.362). Integrando, finalmente, estas diferentes formas de encontro com o sublime, assevera: “The communication of the sublime is a ‘communionof minds in which truth (contact with the real) and ecstasy (moments of transformative consciousness) meet(p.263-364). Para corroborar sua tese de que a verdadedo sublime abarca a convergência de fatores emocionais, intuitivos e metafísicos, Halliwell analisa o trecho citado por Longino do juramento de Demóstenes sobre a batalha de Maratona. Começa por frisar que discurso do grande orador grego revela uma perfeita interdependência entre razão e emoção; pois sem a razão as emoções ali presentes não seriam tangíveis, bem como sem reconhecer as emoções que ali estão em jogo, seríamos incapazes de identificar a sua razão de ser. Sem entrar nos pormenores do episódio histórico citado por Longino, Halliwell reconhece ali, mais uma vez, a importância dos três tipos de verdade que sustenta desde o início. Nesse caso, a verdade intuitiva estaria expressa no paradigma de que os ancestrais servem como exemplo supremo de excelência e virtude. A verdade emocional, no apaixonado sentimento de afinidade entre os tempos passado e presente. Finalmente, a verdade metafísica pode ser identificada no movimento de divinização ou autodivinização por parte do escritor. Porque os mestres, como já vimos anteriormente, são considerados em suas semelhanças com os deuses; são semideuses. Dessa forma, um aspecto sobre-humano passa a ser determinante sobre a concepção de verdade no texto de Longino. Não há, desta forma, verdades encontráveis em proposições particulares, nem nos sentidos orgânicos das obras completas, “but flashes of intuitive-cum-emotional insight which may be embodied in many kinds of context (descriptive, narrative, discursive, lyric, etc.)(p.367). O locus do sublime em Longino, conclui Halliwell, é metafísico. Em outras palavras, é a capacidade da alma humana de entrever o que há além do plano material, além do tempo presente e além das limitações do ego mundano. Ou, como conclui o próprio Longino:

“A natureza não fez de nós um ser vil e baixo (eu quero dizer o homem); mas ela nos introduziu na vida e em todo o universo como numa grande panegíria, para sermos contempladores de tudo que se passa e lutadores cheios de ambição; logo ela fez nascer em nossas almas um amor invencível a tudo que é eternamente grande e aquilo que é, comparando conosco, mais divino(1996, p.94).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HALLIWELL, Stephen. Between Ecstasy and Truth: Interpretations of Greek Poetics from Homer to Longinus. Oxford: Oxford University Press, 2012.

LONGINO. Do Sublime. Tradução Filomena Hirata. São Paulo: Martins Fontes,

1996.

MUNIZ, Fernando (Org.). As artes do entusiasmo: a inspiração da Grécia antiga à contemporaneidade. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011.

SELIGMAN-SILVA, Márcio. O local da diferença: ensaios sobre memória, arte, literatura e tradução. São Paulo: Editora 34, 2005.