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-VERSaO

DE VERAO-
MINIMALISTA
PEQUENA
CURTA
LEVEZINHA
PROVOCADORA
EMIGRANTE
IMIGRANTE
PIONEIRA
cOR-DE-ROSA
CINTILANTE
ACTUALIZADA
NUMERO OITO
AGOSTO
Estamos cá no Verão. Não quisemos fugir para o Algarve como todos fazem.
Alguns, por direito próprio, fugiram. Somos, por isso, pequeninos nesta edição de
Agosto. Mas bons.

CAPA
Life is confusing at this point (SAMO)
Ilustração de Dustin Parker

DIRECTOR DE ARTE E CONTEÚDOS


Ricardo Galésio

COLABORADORES
Dustin Parker
Hugo Mortágua
Paolo Casalis
Pedro Palrão
Sara Toscano 


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Ilustrações por ordem de paginação:

“APHRODITE”
“FASHION FOR FASCISTS (BUSH)”
“FASHION FOR FASCISTS (HITLER IN RED)”
“FASHION FOR FASCISTS (HITLER IN BLUE)”
“FASHION FOR FASCISTS”
“HAIL TO THE KING (ELVIS)”
“HE JUST WANTED A HOME”
“HE LOVED HIMSELF TOO MUCH”
“REPLICATION MACHINE (ANDY WARHOL)”
“LIFE IS CONFUSING AT THIS POINT (SAMO)”
“WHAT WOULD JESUS BOMB” 17
HA COISAS
 Onde foi o tempo, da arte que tem asas e imagina ou da arte interventiva que
pensa em política e em comunidade, da arte que é só fútil mas que tem graça, da
arte que ensina porque é real?

QUE NAO
 
Pensava nisto foi quando ouvi um sussurro vindo da cadeira do lado: já sabemos
onde vir quando não quisermos ver nem dança nem filmes... já agora, percebes

SE EXPLICAM
alguma coisa disto?
 
Bem, há coisas que não se explicam, respondi.

SARA TOSCANO

Fui ver Cinedans - International Dance Film Festival, em Amesterdão.


 
Várias curtas de dança concorriam para o primeiro prémio. Novos talentos com
orçamentos à tangente punham a dança no grande ecrã.
 
Vi muitos filmes mas não todos. Alguns, poucos, inspiravam: tinham dança.
Daquela dança boa, difícil, que nos deixa o queixo mole, pendurado. Outros, com
pouca dança, tinham riso. Era fácil deixar as costas expandirem-se na cadeira e
ver: gozar a cor, os passos, a história...o filme.   E havia outros, aqui e ali, artísticos
o suficiente mas poéticos demais que valiam, por isso, o título de arte.
 
Mas há coisas que não se explicam: músicas agonizantes, cenários urbano-
depressivos, bailarinos tristes ou de sobrolho franzido. Maminhas em excesso.
Para quê? Para contar what happens when our consciousness is not able to explain
our unconsciousness, porque although time touches her, it remains intangible,
para expôr os ambiguous characters, struck by a loss of memory. E porque tudo
passa por personagens looking for confrontations.
 
E eram estes filmes a maioria.
Uma bailarina gesticula e contrái-se numa cave com infiltrações, a roupa um
trapo, os olhos esgasiados. Aqui e ali, uma criança salta entre as sombras. Mary
Go Round era o título. Explicaram-me: a paranoid personage is captive in time
and is flung to and fro between past, present and future. Through inner and outer
impulses she experiences reality as a game which she can barely influence.
 
Olhei à volta a minha geração: todos são citadinos, artistas e internacionais. O
dinheiro existe e paga mestrados e cigarros. Os seus dramas são as suas escolhas.
Porque podem escolher. E ao exporem-se, falam de dor e angústia. Uma angústia
sem contexto ou conteúdo. Uma dor mentirosa, sem preocupações reais...
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ROMA:
o DOMINIO
DO PASSADO
Chegou à cidade numa viagem demasiado longa para que, num escuro e elegante haverem lá mulheres, mas tão só bandidos, aventureiros e camponeses de
autocarro com mordomias de serviço e ares frescos, o seu espírito aguentasse em organizar grandes jogos extraordinários para raptarem as mulheres dos sabinos,
calma o que o bom censo aconselha. Revolvido o corpo tantas vezes na cadeira que obedeciam a Titus Tácius. Estes que os visitaram, sem as mulheres ficaram.
e a face encostada à janela, observava os novos edifícios da velha cidade de Grandes são as portas de cor de bronze esverdeado que se erguem entre os
Roma. Mais que uma vez imaginara a sua arquitectura, mas a cidade apresentou- mármores do templo de Rómulo, tão querido e grande ele foi para os seus
se tão forte aos seus olhos como qualquer sonho que nos trás de volta à vida num romanos.
segundo. Constituída por traços tão grandes e maciços como era antigamente
viu colunas imponentes que apontam o céu e seguram sem dificuldade edifícios O Foro Romano estende-se debaixo do Sol escaldante que lhe fustiga a cabeça
enormes em peso e tamanho, erguidos para serem habitados por gigantes, pois é e o atormenta nos pés que calcorreiam a avenida dos mortos ilustres que ali são
assim que são em espírito os que ali habitam. adorados: Constantino que venceu Maxêncio, o deus-rei Saturno que ocultou aos
romanos a escravidão, o crime, a guerra e a fome durante o seu reinado, Tito
Por esta altura da manhã já o Sol de braços dourados estendia sobre a cidade a saqueador de Jerusalém, César que ali morreu assassinado pelo seu filho Brutus
sua força enfeitiçante que dura desde que o céu existe e há memória. Ninguém e tantos outros que estão na memória do mundo inteiro. Ali, no Foro Romano o
estava indiferente, pois traziam todos roupa larga e clara, ou outros mais prudentes tempo verbal que faz sentido deixar sair pelos dentes é o passado. Relembrando
cobriam o corpo e a cabeça com chapéus claros e cremes de cheiros adocicados. as histórias e os sentimentos dos mortos renasce a alma e o espírito crítico do
A cidade derretia numa atmosfera quente com cheiros de frutos e almíscar que é justo e heróico.
misturados com os cheiros que saíam de todos os restaurantes com fornos de
pão a lenha. À sua frente falta-lhe caminhar a Via Sacra até chegar ao Coliseu. Lá irão renascer
os cidadãos sedentos de sangue, os escravos, os gladiadores, os prémios das
Saído do autocarro estendia-se à sua vista curta as escadas que sobem até à virgens romanas e os políticos. E debaixo da poeira artificial dos seus sonhos,
praça onde Minerva recebe os visitantes e os convida, com uma inteligência que tigres e leões e pumas o cercarão à espera de conhecer a morte na saudação que
só ela conhece, a largarem dos seus bolsos o peso das moedas na fonte que vibra no bronze da espada: Morituri Te Salutant.
tem aos seus pés protegida por dois enormes deuses de cabelos longos, ombros
largos e pernas que se assemelham a dois troncos antigos de um sobreiro.
HUGO MORTÁGUA
Ao largo do edifício, dobrando a esquina pela direita está imóvel no alto de uma
coluna a loba que amamenta Rómulo e Remo, lembrando aos visitantes a história
de uma cidade que sobreviveu graças ao espírito agudo de Rómulo, que depois
de matar o seu irmão e fundear a cidade com o seu nome, se lembrou, por não
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The Series
Binnu VS Paolo is the name of a series of works dedicated to the evil and to man’s fears.
The series depicts the fight between me (Paolo) and Binnu, alias Bernardo Provenzano,
Mafia’s godfather recently arrested in Italy after more than 40 years on the run.
Every work depicts a single aspect of the evil: drugs, homicides, death, crimes.
It is a sort of struggle, a match between myself and the evil; soon I will fight other
struggles, I will meet other enemies.

Technique
The works are realized on wooden panels with the ancient “buon fresco” on wet plaster
technique, but with the modern methods of stencil-art: the photographs, most of all
taken from report articles, have been digitally elaborated, in order to get an essential
and expressive black and white image.
Then I print out the image and I perforate the paper along the lines of the cartoon
drawing, leaving a visible trace on the plaster.

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Uma
Casa
do Dom
e da
Troca
O Chapitô é um projecto em que a
Formação, a Criação, a Animação
e a Intervenção promovem dia-a-dia,
cruzamentos múltiplos.

Somos uma retaguarda cultural


e uma vanguarda humanista.

É da história deste projecto (história


dedicada, complexa e irreverente), incluir
para formar; formar para profissionalizar;
profissionalizar para activar a sociedade
civil com as artes.
O Chapitô é uma casa suficientemente
grande para nos receber a todos, ancorados
na solidariedade da festa,
e suficientemente pequena para abrigar
cada um de nós.
O Chapitô é um terreno de ousadia
e contingência.

Uma casa do dom e da troca. Sempre.

Teresa Ricou

Chapitô - Acção Social, Formação, Cultura www.chapito.org

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O ESPELHO
prazer que me davas não se transformasse em náusea (olhando agora podia ter-
me agarrado a uma ilusão de poder e valor que tal situação à distância provoca).
Além disso, a imagem que espreitava na minha mente revolta de quando em
quanto, de tu a arrancares os mesmos suspiros à minha filha, tornavam tudo mais
estranho.
…Perdida em tantos dilemas quase nem dei conta que tinhas terminado. Sem
palavras, sem olhares desperdiçados, compuseste-te e foste para o quarto. Eu?
As canas…é tudo quanto me lembro…uma floresta de canas dançando ao
Eu fiquei estendida na cama…esgrouviada, desalinhada e com o vestido de Verão
vento…ondulando ao longe…O som? Era um assobio. O vento escapulia-se nas
puxado para cima e com as cuecas tortas. Levantei-me vagarosamente e olhei-me
frestas das janelas, batendo as portadas de quando em quando. Nos momentos
ao espelho que observava a cama. Por entre o cabelo despenteado o meu rosto
de alguma lucidez imaginava o rodopiar da areia na praia…O sol recusava-se a
desmaquilhado parecia esborratado…as rugas pareciam cravar-se mais fundo na
deixar de brilhar embatendo nos vidros, trespassando-os com o calor…O vento
pele. Em míseros instantes senti-me envelhecer anos em fugazes minutos (culpei-
ajudava, empurrava para longe as nuvens que pudessem impedir o esplendor
te e desprezei-te por seres tão jovem). E o espelho parecia rejubilar ao mostrar-me
da estrela diurna. Cá dentro? Calor…muito calor. As paredes pareciam destilar
com singular clareza os traços do passar do tempo cravados na pele, as rugas
o quente. Com as janelas e portas fechadas para evitar indiscrições, os nossos
sorrindo-me firmemente, gloriosas de se verem realçadas. Depressa esqueci o
corpos emanavam o vapor quente que nos consumia enrolados um no outro
que se tinha passado entre nós. Tinha sido bom, mas havia demasiadas pressões
(Estava a acontecer tudo tão depressa!). No andar de baixo o vazio ocupado por
para que houvesse oportunidade de repetir. Além disso pressentia que te ia deixar
pessoa nenhuma ecoava o mais pequeno ruído…o que não me deixava acalmar
de ver em breve, por isso esquecer-te seria fácil, não obstante ter de ver aquele
e entregar-me completamente a ti que me consumas fervorosa e vorazmente
que eu traíra a tentar a sua sorte na cama comigo (ele sabia perfeitamente o
(perguntei-me porquê tamanho desejo o teu, o tempo todo). Lá fora o barulho
quão pouco me satisfazia e o frio que assolara o corpo acabara por subir-me
intermitente e imprevisível de uma tarde de férias de Verão desconcertava mais
ao coração). Acarinhava-o, mas pouco mais…não tanto para me sentir tão mal
um pouco o ritmo acelerado das batidas do meu coração (sempre nervoso e
assim.
preocupado). Mas (não posso negá-lo), o prazer que me davas sobrepunha-se por
De frente ao espelho só conseguia pensar numa coisa…parecia que as veias se
momentos ao restante. Ao olhar para a tua cara sentia uma corrente de energia
queriam juntar às rugas e desenhavam mais alguns socalcos na minha pele…e
fluir-me pelas veias acima, uma explosão de vigora cá dentro…bem no fundo, que
num estalar de dedos passei as mãos pelo cabelo e pelo rosto numa tentativa
me enchia de vida.
vã de me compor. Ao ouvi-los chegar, de tão irritada que estava compus a roupa
O tempo passava lento e lânguido (mais tarde apercebi-me do pedaço
e mesmo sem lhes dar oportunidade de pousarem os sacos de compras, desci
ridiculamente pequeno que partilhámos), e eu vertia gotas grossas e ácidas de
as escadas de rompante e indignada limitei-me a dizer: “Quando voltarmos das
suor que misturavam em si um medo nervoso e um prazer imenso (que parecia
férias vou fazer um lifting!”
aumentar com o meu receio). O tiquetaque irritante do relógio pequeno assistindo
a tudo na mesa-de-cabeceira irritava-me cada vez mais…e assustava-me (não
fosse uma ideia tão estranha diria mesmo que temia que ele pudesse denunciar
PEDRO PALRÃO
tudo a quem devia saber). Havia momentos que por entre a confusão emaranhada
da minha mente parecia distinguir um leve desejo de que as paredes ruíssem, que
o tecto caísse por sobre as nossas cabeças para nos encobrir (na altura a razão
escapava-me, daí que não antevisse que tal catástrofe levaria decerto a sermos
encontrados colados e desfraldados, denunciando-nos e mesmo morta não o
quereria). Depressa me perdia noutro fio de pensamento, ou então sucumbia ao
prazer visceral que os meus sentidos transbordavam.
Os altos e baixos que me provocavas no corpo soavam a magnitude dos anos
de vida que me afastavam de ti (Como é que eu pude? Logo contigo!). Durante
todo o tempo que tivemos juntos (nunca vi tão pouco tempo durar tanto) afastei
constantemente o pensamento de que podias ter saído do meu ventre para que o
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LISBOA
PORTO
Jazz em Agosto
Ricardo Parreira | Ana Moura
3 a 11 de Agosto
11 de Agosto, 22h, Praça
Fundação Calouste Gulbenkian
Casa da Música

CINEMA

ISTANBUL
Who are you? Ahmet Polat
Até 26 de Agosto
Istanbul Museum of Modern Art

LAUREAR
LISBOA
Maria João, Lux Jazz Sessions
8 de Agosto, 23h
A PEVIDE
Lux Frágil

LONDRES
Dalí at Tate Modern
Até 9 de Setembro
Tate Modern Gallery
PRAIA A CRU A número nove sai a 4 de Setembro. 33
FESTIVAIS

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