MICHAEL SAYERS e ALBERT E.

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A GUERRA SECRETA CONTRA A RÚSSIA S O VI É T I C A

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EDITÔRA BRASILIENSE SÃO PAULO

X XIV — O CASO DOS D EZESSEIS

CAPITULO

XXIV

O CASO DOS DEZESSEIS
Nos derradeiros meses da- segunda guerra mundial, o prin­ cipal tema de propaganda e agitação anti-soviética na GrãBretanha e nos E.U.A. foi a questão da Polônia. Quando o Exército Vermelho se arremessou para o oeste, cruzando as fronteiras polonesas e libertando a maior parte da Polônia dos invasores nazistas, os tories britânicos e os isolacionistas americanos acusaram a União Soviética de estar pondo em perigo a “liberdade polonesa.” Durante semanas, a imprensa de Hearst e Patterson-McCormick nos Estados Unidos apelou |)ara uma ação anti-soviética a fim de libertar a Polônia do ‘bolchevismo.” No Congresso dos E.U.A. e no Parlamento britânico houve discursos que denunciaram reiteradamente “os intuitos imperialistas vermelhos na Polônia”, e acusaram o go­ verno soviético de traição aos princípios das Nações Unidas. Grande parte dessa propaganda anti-soviética baseava-se em declarações e material oficial fornecido pelo govêrrfo polonês exilado em Londres e por seus representantes em Washington. O govêrno polonês no exílio compunha-se de militaristas, in­ térpretes dos latifundiários feudais da Polônia, alguns fascistas poloneses e alguns poucos líderes camponeses e socialistas, que tinham encontrado abrigo na Inglaterra depois do colapso da Polônia em 1939 (102.)
(102) O govêrno polonês exilado em Londres considerava-se o legítimo herdeiro do regime de Pilsudsld, cuja política tradicional baseara-se na oposição à Rússia Soviética. Como escreveu Raymond Leslie Buell no seu livro: Polônia: a chave da Europa: “Pilsudski acreditava que a Polônia devia ter um território. Por motivos históricos era mais fácil conseguir essa base com prejuízo da Rússia do que com prejuízo da Alemanha.” A diplomacia polonesa de anteguerra, sob a direção do antigo funcionário do S. S. anti-soviético, Coronel Josef Beck, foi

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Nessa ocasião, havia dois governos poloneses. Além do govêmo emigrado, em Londres, existia na Polônia o govêmo polonês provisório, chamado governo de Varsóvia. O govêmo de Varsóvia, baseado em uma aliança dos partidos antifascistas poloneses, repudiou a Constituição fascista de Pilsudski, de 1935, ainda sustentada pelo govêmo polonês de Londres. O go­ vêmo de Varsóvia empreendeu reformas políticas e econômidirigida não contra a Alemanha nazista, mas contra a Rússia Soviética. O exército polonês, com mais larga percentagem de cavalaria do que qualquer outro exército do mundo, foi organizado para operar nas pla­ nícies ucranianas. As indústrias polonesas concentraram-se na fronteira alemã; as fortificações militares polonesas concentraram-se na fronteira soviética. Desde a sua formação, a Polônia dominada por militaristas e proprietários feudais, foi a base do cordão sanitário anti-soviético, e o rendez-vous dos agentes internacionais que conspiravam a derrocada do govêmo soviético. Boris Savinhov montou o seu Q. G. tía Polônia depois de ter fugido da Rússia e, com o auxílio direto de Pilsudski, organizou um exército branco na Polônia, composto de 30.000 homens para serem utilizados contra a Rússia Soviética. No fim de 1920, os conspiradores da Torgprom foram entender-se com o alto comando polonês, a fim de obterem que a Polônia fôsse uma das bases principais da nova guerra de intervenção que êles vinham tramando contra a Rússia Soviética. O S. S. polonês estabeleceu estreitas relações de tra­ balho com tôdas as fôrças anti-sovíótícas, inclusive a organização sub­ terrânea trotskisla-bukharínisln. Hin 1938, o Pncto dc Munique mani­ festou claramonto o caráter nntl-sovlótlco dos chefes poloneses. Quando os nazistas apresentaram o sou iiltimnto i\ Tclieco-Eslováquia e os tchecos se prepararam para resistir, o govêmo polonês mobilizou o seu exército e colocou-o diretamente como empecilho a qualquer possível assistência da União Soviética aos tchecos. Como recompensa, Hitler permitiu que os poloneses se apoderassem do distrito de Teschen dos tchecos, por ocasião da partilha da Tcheco-Eslováquia. Em 1939, na véspera do ataque nazista à Polônia, os militaristas poloneses ainda se recusavam a re­ ver a sua suicida política anti-soviética; rejeitaram um acôrdo militar com a Rússia Soviética; e não permitiram que o Exército Vermelho cruzasse as fronteiras polonesas para se encontrar com a Wehrmacht nazista. As conseqüências dessa política foram desastrosas para a Po­ lônia e quase imediatamente depois da invasão nazista o govêmo po­ lonês fugiu para o exterior, levando consigo as reservas de ouro polo­ nês. A princípio na França, e posteriormente na Inglaterra, os repre­ sentantes dêsse govêmo polonês, que se constituíram como govêmo exilado, continuaram as suas intrigas anti-soviéticas e levaram a sua nação à ruína. Nas suas intrigas, êles foram secundados por poderosos elementos nos círculos econômicos, políticos e religiosos internacionais, os quais olhavam a vitória da Rússia Soviética na guerra contra a Alemanha nazista como uma ameaça aos seus próprios interêsses.

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cas, abolição dos estados feudais, relações amistosas e "es­ treitas com a União Soviética. Na conferência de Ialta, em fevereiro de 1945, Roosevelt, Churchill e Stálin discutiram amplamente a questão do futuro da Polônia e concordaram que o govêmo de Varsóvia deveria “reorganizar-se em bases democráticas mais amplas, com a inclusão de líderes da Polônia e de poloneses no ex­ terior”, devendo assim ser reconhecido como o govêmo pro­ visório legítimo do país. O acôrdo de Ialta encontrou grande oposição da parte dos emigrados poloneses em Londres c de seus aliados bri­ tânicos e americanos. Foi denunciado como “traição à Polô­ nia.” Mobilizou-se a intriga diplomática para impedir a con­ sumação da decisão de Ialta. A agitação anti-soviética e a intriga em tôrno do caso polonês atingiram o seu ápice quando em mnio do 1945 o ovêmo soviético anunciou que prendera dezesseis agentes porneses do govêmo exilado em Londres, acusados de cons­ piração anti-soviética. Êsse ato do govêrno soviético, declara­ ram os poloneses emigrados em Londres, era o mais ilustra­ tivo exemplo do programa de Moscou para sufocar a "demo­ cracia polonesa” e impor uma "ditadura vermelha” ao povo polonês. . . O nome mais conhecido dos 10 presos pelo govêmo so­ viético era o do General Leopold Bronislav Okulicki, antigo chefe do estado-maior do exército polonês no exílio. Êsse exer­ cito desempenhara um papel decisivo na campanha anti-so­ viética dos emigrados poloneses . . . O exército polonês foi originàriamente organizado no solo soviético em 1941 por um acôrdo polonês-soviético, para lutar ombro a ombro com o Exército Vermelho contra os alemães. Foi comandado pelo General Vladislaw Anders, antigo mem­ bro da “camarilha de coronéis” que tinham dominado a Po­ lônia sob a ditadura de Pilsudski. Para treinar e equipar o exército de Anders para a açâo militar contra a Alemanha, o govêmo soviético assegurou-íhe um empréstimo sem juros de 300 milhões de rublos, e deu-lhe tôdas as facilidades militares de recrutamento e acampamento. Entretanto, os generais An­ ders, Okulicki e outros militaristas poloneses opunham->se se­ cretamente à aliança com o Exército Vermelho. Acreditavam

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que a Rússia Soviética estava fadada a uma rápida derrota pela Alemanha nazista, e agiam conseqüentemente. Um informe do Tenente-coronel Berling, posteriormente lí­ der das fôrças armadas do govêmo de Varsóvia, revelou que em 1941, logo depois da formação das primeiras unidades po­ lonesas no solo soviético, o General Anders tivera uma con­ ferência com os seus oficiais na qual declarou: “Ao ocorrer o colapso do Exército Vermelho sob o golpe dos alemães, o que sucederá dentro de pou­ cos meses, devemos estar em condições de irromper pelo Irã, via Mar Cáspio. Enquanto formos o único poder armado nesse território, estaremos na posição em que nos será possível fazer o que quisermos/ Quando, ao contrário das expectativas do General Anders, o Exército Vermelho mostrou que não se dobrava diante da guerra-relâmpago nazista, o comandante polonês informou os seus oficiais de que êles não deveriam levar em conta os têrmos do acôrdo militar polonês-soviético de lutarem juntos con­ tra a Alemanha. “Não há motivo para precipitação”, disse Anders ao General Borucie-Spiechowiczow, comandante da V Divisão da Infantaria Polonesa. Anders e seus oficias, conforme o Tenente-coronel Ber­ ling, “fizeram todo o possível para retardar o treinamento e equipamento das divisões”, a fim de não entrarem em ação contra a Alemanha. O chefe polonês do estado-maior, Ge­ neral Okulicki, sabotou vivamente o equipamento das tropas polonesas. Segundo as palavras de Berling: “Okulicki sabotou a organização da base no Mar Cáspio destinada a receber armas e provisões inglêsas do Irã. As autoridades soviéticas construíram um ra­ mal ferroviário especial e armazéns no litoral do Mar Cáspio, mas o comando do General Anders impediu que íôsse transportado por ali um só fuzil, tanque ou saco de suprimentos.” Os oficiais e soldados poloneses que estavam ansiosos por receberem auxílio e pegarem em armas contra os invasores alemães de sua pátria, foram amedrontados pela camorra rea­

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cionária chefiada pelos Generais Anders e Okulicki. Compi­ laram-se listas de ‘amigos dos Sovietes” que eram “traidores da Polônia.” Um índice especial conhecido por Arquivo B continha os nomes e fichas de todos os suspeitos de “simpa­ tizar com os Sovietes* Incentivou-se a propaganda anti-semita e fascista sob o comando polonês. “Falou-se abertamente’”, re­ latou Berling, “da necessidade de ajustar as contas com os judeus, e houve casos freqüentes de espancamento de judeus.” O Dwojka, serviço de espionagem do exército de Anders, co­ meçou secretamente a acumular dados sôbre fábricas de mu­ nições soviéticas, granjas do Estado, depósitos de armamentos e posições das tropas do Exército Vermelho. Pela primavera de 1942, o Exército do Anders na Rússia ainda não travara uma única batallui contra o inimigo ale­ mão. Ao invés disso, os oficiais c soldados poloneses vinham sendo intensivamente doutrinados na ideologia anti-semítica e anti-soviética dos seus generais. Finalmente o comando polo­ nês solicitou a evacuação do seu exército para o Iríi, sob os auspícios dos britânicos. Em agosto de 1942, 75.491 ofi­ ciais e soldados poloneses e 37.776 membros de suas famílias tinham deixado o território soviético, sem terem lutado nem uma só vez pelo seu país natal. Aos 13 de março de l ? " 1 ondente australiano James Aldridge cabografou Times uma reportagem não censurada sôbre a atitude fascista dos líderes do exército polonês emigrado no Irã, Aldridge afirmava que cie desejaria publicar os fatos acêrca dos emigrados poloneses ha­ via já um ano, mas a censura aliada não lhe permitira. Um censor aliado disse a Aldridge: “Sei que tudo isso é ver­ dade, mas que posso fazer? Nós reconhecemos o govêmo po­ lonês, você sabe disso.” Eis alguns fatos relatados por Aldridge: “O acampamento polonês era dividido em classes. Quanto mais baixa a situação de cada classe, pio­ res as condições do acampamento. Os judeus eram separados num gueto. O acampamento era organiza­ do em moldes totalitários. . . Os grupos reacionários moviam uma campanha contínua contra a Rússia. . . Quando se estipulou que 300 crianças judias, deve­ riam ir para a Palestina, a elite polonesa,, sumamente

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anti-semita fêz pressão sôbre as autoridades do Iraque para que não deixassem passar as crianças judias. . . Ouvi muitos americanos dizerem que gostariam de saber da verdadeira história acêrca dos poloneses, mas seria inútil, porque os poloneses têm uma camorra mui­ to poderosa em Washington.. Do Irã os emigrados poloneses locomoveram-se para a Itália, onde, sob a direção do alto comando inglês e apoiado pelo Vaticano, o exército emigrado estabeleceu o seu Q. G. A ambição dos Generais Anders, Okulicki e seus apaniguados, que êles não procuravam esconder, era converter o exército emigrado polonês em um núcleo de um novo exército branco para uma eventual ação contra a Rússia Soviética. Quando o Exército Vermelho se aproximou da fronteira olonesa na primavera de 1944, os emigrados poloneses de ondres intensificaram a sua campanha anti-soviética. “Uma condição essencial quer para a nossa vitória como para a nossa própria existência é pelo menos o debilitamento, se não a derrota da Rússia”, declarou Penstwo Polski, um dos jor­ nais subterrâneos que circulavam na Polônia, divulgados por agentes do governo exilado. Instruções secretas do governo polonês de Londres aos seus agentes subterrâneos declaravam: ‘Custe o que custar, é preciso fazer-se um esforço para se conservarem em bons têrmos as relações com as autoridades civis alemãs.” O govêmo polonês no exílio estava-se preparando para a ação armada contra a União Soviética. A agência incumbida dessa ação era a Armia Krajowa, ou AK, um aparelho mili­ tar subterrâneo dentro da Polônia, organizado e controlado pelo govêmo emigrado em Londres. A Armia Krajowa ou AK era chefiada pelo General Bor-Komorowski. No comêço de março de 1944, o General Okulicki foi convocado ao Q. G. do General Sosnkowski, representante mi­ litar do govêmo emigrado polonês em Londres. Mais tarde, o General Okulicki descreveu como segue essa conferência se­ creta:

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" . . . quando fui recebido pelo General Sosnkowski, antes de voar para a Polônia, êle disse que pode­ ríamos esperar num futuro próximo uma ofensiva d&

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Exército Vermelho que resultaria no desbarato dos ale­ mães na Polônia. Nesse caso, disse Sonskowski, o Exér­ cito Vermelho ocuparia a Polônia e não permitiria a existência da Armia Kjajowa no território polonês co­ mo organização militar subordinada ao govêmo polo­ nês em Londres.” Sosnkowski propunha que a Armia Krajowa executasse uma dissolução simulada depois do Exército Vermelho expul­ sar os nazistas da Polônia, e que se estabelecesse um “quartelgeneral de reserva” secreto, para operar na retaguarda do Exército Vermelho: “Sosnkowski declarou que êsse Q. G. de reserva teria de dirigir a luta da AK contra o Exército Ver­ melho. Sosnkowski pediu que essas instruções fôssem trans­ mitidas ao comandante da AK na Polônia, General Bor-Komorowski.. Logo depois, o General Okulicki voou misteriosamente pa­ ra a Polônia ocupada pelos alemães, onde prontamente en­ trou em contacto com o General Bor-Komorowski, transmitin­ do-lhe as instruções de Sosnkowski. O comandante da AK disse a Okulicki que iria montar um aparelho especial, in­ cumbido das seguintes tarefas: “1. Esconder armas para atividades subterrâneas e para o caso de um levante contra a UBSS. 2. Criar destacamentos de combate armados de 60 homens cada um. 3. Formar grupos terroristas e de "liquidação” pa­ ra assassinar os inimigos da AK e os de represen­ tantes do comando militar soviético. 4. Treinar sabotadores para operações atrás das li­ nhas soviéticas. 5. Desenvolver o S. S. militar e as atividades de espionagem na retaguarda do Exército Vermelho. 6. Preservar as estações rádioemissoras já mon­ tada»- pela AK e manter comunicações com o comando central da AK em Londres. '

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7. Dirigir a propaganda oral ou impressa contra a União Soviética.” No outono de 1944 o Exército Vermelho atingiu as bar­ rancas do Vístula e deteve-se diante de Varsóvia para rea­ grupar as suas fôrças e prover-se de suprimentos novos de­ pois de sua prolongada ofensiva de verão. A estratégia do alto comando soviético era não lançar um ataque frontal sôbre a capital polonesa, mas uma súbita operação envolvente, preservando assim a cidade e a sua população. Mas, sem o conhecimento do alto comando soviético e atuando sob as or­ dens de Londres, o General Bor-Komorowski iniciou um levante geral dos patriotas poloneses em Varsóvia, declarando que o Exército Vermelho estava marchando sôbre a cidade. Com o Exército Vermelho completamente desprevenido na ocasião pa­ ra cruzar o Vístula, o alto comando nazista pôde bombardear sistemàticamente tôdas as secções da cidade detidas pelos pa­ triotas poloneses insurretos. Eis a narrativa do próprio Gene­ ral Okulicki sôbre o papel de Bor-Komorowski na última ren­ dição das fôrças polonesas em Varsóvia: “No fim de setembro de 1944, o comandante da AK, General Bor-Komorowski, negociou a rendição com o comandante das tropas alemãs em Varsóvia — SS. Obergruppenfuehrer von Den-Bach. Bor-Komorowski indicou o chefe-deputado do segundo departamento do Q. G., o General Bogulawski, para as negociações como representante do estado-maior da AK. Informando Bor-Komorowski em minha presença acêrca dos têrmos de rendição adiantados pelos alemães, Bogulawski disse que von Den-Bach pensava que fôsse necessário que os poloneses cessassem a luta armada contra os ale­ mães, porque era a União Soviética o inimigo comum da Alemanha e da Polônia. Encontrando-me com Bor-Komorowski no dia da rendição eu lhe disse que von Den-Bach talvez tivesse razão e Bor-Komorowski con­ cordou comigo.” Nos meses de outono e inverno de 1944 e na primavera de 1945, com o Exército Vermelho operando gigantescas ofen­ sivas destinadas ao esmagamento final do poder militar ale­

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mão na Frente Ocidental, a AK sob o comando do General Okulicki executava uma larga campanha de terrorismo, sabo­ tagem, espionagem e batidas armadas na retaguarda dos exér­ citos soviéticos. “As medidas do comando militar soviético na zona de hostilidades foram sabotadas”, declarou mais tarde Stanislaw Jasiukovicz, vice-primeiro-ministro da Polônia do govêmo exi­ lado em Londres e um dos aliados de Okulicki. Nossa im­ prensa e nossas estações de rádio iniciaram uma propaganda difamatória. O povo polonês vinha sendo incitado contra os russos.” Destacamentos de Okulicki dinamitaram trens de tropas do Exército Vermelho, destruíram depósitos de suprimentos soviéticos, minaram estradas .por que tinham de passar as tropas russas e obstruíram de todo modo possível as linhas de transportes e comunicações soviéticas. Uma ordem baixada aos 17 de setembro de 1944, por um dos auxiliares de Okulic­ ki, dizia o seguinte: “As operações devem ser totais — destruição de trens militares, caminhões, trilhos, pontes e populações. Deve ser guardado o maior segrêdo.” Um comandante de um destacamento da AK de nome Lubikowski, que dirigia uma escola secreta especial de espio­ nagem e sabotadores, relatou mais tarde com respeito a al­ gumas tarefas realizadas pelos seus agentes: “Recebi uma relação escrita da execução da minha, ordem. . . de Ragner, que me informou que execu­ tara doze atos de sabotagem, descarrilara dois trens, demolira duas pontes e danificara uma linha ferroviá­ ria em oito pontos.” Grupos especialmente treinados de terroristas da AK es­ peravam de emboscada e assassinavam soldados do Exército Vermelho e representantes do govêmo de Varsóvia. Segundo os dados incompletos posteriormente publicados pelas auto­ ridades militares soviéticas, os terroristas da AK mataram 594 oficiais e soldados do Exército Vermelho num período de oito meses e feriram mais 294 . . .

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Na mesma ocasião, atuando com instruções recebidas pelo rádio do comando polonês em Londres os agentes do Gene­ ral Okulicki desempenharam operações de extenso serviço se­ creto atrás das linnas soviéticas. Uma diretiva do govêmo polonês em Londres, dirigida ao General Okulicki e datada ae 11 de novembro de 1944. n.° 7201 — 1 — 777, dizia o seguinte: “Desde que o conhecimento das intenções e pos­ sibilidades militares. . . dos sovietes a leste é de fun­ damental importância para a previsão e planejamento de futuros desenvolvimentos na Polônia, essa lacuna deve ser preenchida pela transmissão de informações de acôrdo com as instruções do serviço de espionagem do quartel-general.” A diretiva continuava pedindo informações pormenoriza­ das acêrca das unidades militares soviéticas, trens de supri­ mentos, fortificações, aeródromos, armamentos e indústria de guerra. Durante semanas uma rêde de radioemissoras operando ilegalmente na retaguarda do Exército Vermelho pôs-se a des­ pachar informações do serviço sccreto para os poloneses em Londres. Um radiograma típico, n.° 621-2 enviado de Cracow ao comandante-chefe em Londres, e interceptado pelo S. S. militar soviético, dizia o seguinte: “Na segunda metade de março uma média de 20 trens com tropas e munições (artilharia, tanques ame­ ricanos, infantaria, da qual um têrço era de mulheres) passaram diàriamente em direção ao oeste... Em Cra­ cow foi afixada uma ordem de convocação das classes de 1895-1925. Realizou-se em Cracow, com a participa­ ção do General Zymierski, a cerimônia de comissiona­ mento de 800 oficiais vindos de leste. . . ” Aos 22 de março de 1945, o General Okulicki resumiu as últimas esperanças de seus superiores em Londres, numa discreta diretiva dirigida ao Coronel “Savbor”, comandante do distrito ocidental da AK. A diretiva extraordinária de Okulicki dizia o seguinte:

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“A hipótese da vitória da URSS contra a Alema­ nha ameaçará não só os interêsses britânicos mas lan­ çará o pânico na Europa inteira. . . Considerando os seus próprios interêsses, os britânicos terão de proce­ der à mobilização das fôrças da Europa contra a URSS. É claro que tomaremos o nosso lugar nas posições de vanguarda dêsse bloco anti-soviético europeu; é impos­ sível também encarar ôsse bloco sem a participação da Alemanha, que será controlada pelos britânicos.” Êsses planos e esperanças dos emigrados poloneses tive­ ram curta duração. No comêço de 1945, o S. S. militar so­ viético começou a prender os conspiradores poloneses atrás das linhas soviéticas. No verão de 1945, os nós da cadeia estavam nas mãos dos soviéticos. Dezesseis dôles, inclusive o General Okulicki, defrontaram o Collegium Militar da Suprema Côrte da URSS. O julgamento começou aos 18 de junho na Casa dos Sindicatos em Moscou. Durou três dias. O depoimento de­ monstrou que os emigrados poloneses e o seu aparelho sub­ terrâneo tinha sido movido pelo seu ódio à Rússia Soviética, o que o levara a dar apoio substancial aos nazistas invaso­ res de seu país. Durante o julgamento, travou-se o seguinte diálogo entre o promotor soviético, Major-general Afanasiev, e o líder do movimento polonês anti-soviético, General Okulicki: “— Afanasiev. Sua ação interferiu nas operações do Exército Vermelho contra os alemães . . . ? — O kulicki . . . Interferiu. — Afanasiev. Ajudando a quem? — Okulicki. Naturalmente, ajudando os alemães.” O Major-general Afanasiev comunicou à Côrte que êle não pediria a sentença de morte para os réus, porque êles tinham sido meros joguetes dos emigrados poloneses de Londres, e porque “nós já estamos desfrutando agora dos dias Jubilosos da vitória, e êles não nos oferecem maiores perigos.' O pro­ motor soviético continuou: ,

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“Êste julgamento encerra as atividades dos reacio­ nários poloneses que durante anos lutaram contra a União Soviética. Sua política acarretou a ocupação da Polônia pelos alemães. O Exército Vermelho lutou pela liberdade e pela independência contra a barbárie... A União Soviética, com o auxílio dos aliados, desempe­ nhou papel decisivo na derrota da Alemanha. Mas Okulicki e outros quiseram cortar o Exército Vermelho na retaguarda. . . Êles preferem um cordão sanitário em tomo da Rússia à amizade com ela...” Aos 21 de junho, o Collegium Militar Siviético baixou o seu veredito. Três dos acusados foram despronunciados. O General Okulicki e onze dos seus companheiros foram julgados culpados e sentenciados à prisão desde dez anos a 4 meses (103.) Depois do julgamento, os E.U.A. e a Grã-Bretanha re­ cusaram o seu reconhecimento ao govêmo polonês exilado em Londres (104.) O govêmo de Varsóvia reorganizado de acôrdo com os termos do entendimento de lalta, foi formalmente reconhecido como o govêmo provisório da Polônia.
(103) O julgamento do décimo sexto indivíduo acusado, AntonPaidak, foi adiado por causa de sua enfermidade. Quando êsses 16 poloneses foram originàriamente presos pelas autoridades soviéticas, o secretário de Estado americano, Edwàrd R. Stettinius, e o ministro do Exterior britânico, Anthony Eden, protestaram vigorosamente, de­ clarando que os homens aprisionados eram importantes “líderes demo­ cráticos" poloneses. Depois do julgamento, Stettinius e Eden mantive­ ram um discreto silêncio. (104) O govêmo soviético tinha cortado relações diplomáticas com o govêmo polonês exilado dois anos antes, em 25 de abril de 1943, por causa das atividades conspirativas anti-soviéticas do govêmo polonês de Londres. Desde o seu início, o govêmo polonês exilado tinha sido especial­ mente protegido e financiado pelo govêmo britânico. Depois ao re­ conhecimento do govêmo de Varsóvia, estava compreendido que alguns dos emigrados poloneses receberiam cidadania britânica e talvez en­ cargos policiais nas colônias britânicas. Ao saberem da decisão aliada de reconhecerem o govêmo de Varsóvia, o General Anders e seus auxiliares declararam publicamente que as tropas emigradas polonesas sob o seu comando nunca aceitariam essa decisão dos aliados, permanece­ riam leais ao seu “govêmo” em Londres e só retomariam a sua terra natal “de armas nas mãos.” No outono de 1945, entretanto, nume­ rosos soldados emigrados poloneses começaram a desertar da causa de seus líderes reacionários e a convite do govêmo de Varsóvia, começa­ ram a voltar à Polônia para participar da tarefa de sua reconstrução.

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