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O caos das competências

No litoral, na zona do domínio público marítimo, misturam-se, sem consultar


a legislação, pelo menos as seguintes entidades (devem-me estar a escapar
várias):

- As câmaras municipais, que dão ou não as licenças de construção.


Também são elas que dão as concessões para exploração das praias na
época balnear
- As juntas de freguesia, que podem ou não podem tomar a iniciativa de
intervir para delimitar as zonas de risco ou para tentar que autoridades (as
mais diversas) o façam
- os concessionários das praias, que podem abrir ou fechar os olhos. Os
banheiros podem olhar só para o mar, mas podem também dizer aos
banhistas onde podem ou não podem estender as toalhas.
- as polícias, que podem andar apenas à cata de nudistas ou de pescadores
ou de quem leva cães para a praia, para passar multar, mas também
podiam, se as zonas perigosas estivessem delimitadas, multar quem
andasse por ali. À polícia marítima compete, nomeadamente, “fazer cumprir
as normas respeitantes aos banhistas”.
- INAG, Instituto da Água IP, organismo central com jurisdição sobre todo o
território nacional, é um instituto público integrado na administração
indirecta do Estado, dotado de autonomia administrativa e património
próprio.
- Para além do INAG, há ainda os conselhos de região hidrográfica
- IPTM, Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos. Tem por missão
regular fiscalizar e exercer funções de coordenação e planeamento do
sector marítimo-portuário e supervisionar e regulamentar as actividades
desenvolvidas neste sector.
- A competir com as competências do IPTM ainda temos a Autoridade
Marítima Nacional, de que depende a polícia marítima, onde se integram as
capitanias dos portos e a direcção de faróis.
- As Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, a quem
caberia (?) coordenar toda esta gente.
- A Direcção-Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano
(DGOTDU) é o organismo público nacional responsável pela prossecução da
política de ordenamento do território e de urbanismo. Deve realizar os PROT
(planos regionais e ordenamento do território) e acompanhar os planos
municipais
- ICNB, Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, que
intervém pelo menos nos POOC, Planos de Ordenamento da Orla Costeira.
- supostamente também deveria ter competência nesta área quem
realmente sabe de geologia, isto é, os serviços geológicos. Porém o Dec.-Lei
208/2006 extinguiu-os e integrou-os, menorizando-os, na Direcção-Geral de
Energia e Geologia, dependente do Ministério da Economia. Na prática,
Portugal menorizou as melhores competências técnicas nesta área. Desde
1918 que era nos Serviços Geológicos de Portugal que trabalhavam os que
realmente sabiam olhar para uma arriba. Foram para o Laboratório Nacional
de Energia, Geologia, I. P., mas nunca ninguém lhes pede opinião.
- o Instituto do Turismo de Portugal, IP, também mete o bedelho em áreas
como a da praia Maria Luísa, pois muitos dos licenciamentos passam por
ele.
- a ANPC (Autoridade Nacional de Protecção Civil) que também devia
conhecer as zonas de risco por compete-lhe a “análise permanente das
vulnerabilidades perante situações de risco”

Uma das leis que regula este tipo de áreas (a Lei da Água) tem esta
passagem deliciosa:
As medidas de conservação e reabilitação da zona costeira e dos
estuários devem ser executadas sob orientação da correspondente
ARH, sendo da responsabilidade: a) Dos municípios, nos
aglomerados urbanos; b) Dos proprietários, nas frentes particulares
fora dos aglomerados urbanos; c) Dos organismos dotados de
competência, própria ou delegada, para a gestão dos recursos
hídricos na área, nos demais casos.
Com esta redacção acho que no caso da praia Maria Luísa qualquer
advogado consegue repartir a responsabilidade por toda a gente, isto é, por
ninguém.

O POOC do Algarve tem mapas para a praia Maria Luísa, que entre outras
coisas deviam estabelecer:
s) Capacidade de carga da praia - número de utentes admitido
em simultâneo no areal, estimado de acordo com os critérios
constantes dos elementos do POOC ou definido em estudos e
projectos específicos em função da dimensão do areal;

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