Você está na página 1de 164

Autoria:

Prof. Me. Gilberto Scarton (FALE/GWEB)


Referência:
SCARTON, Gilberto. Gua de produção textual:
assim é que se escreve... Porto Alegre: PUCRS,
FALE/GWEB/PROGRAD,
[2002].
Apresentação

O Manual de Redação PUCRS, como se depreende facilmente de sua consulta,


privilegia os aspectos normativos da língua, de modo especial os que maiores
dificuldades oferecem, como o emprego do hífen, de maiúsculas, de abreviaturas, de
pronomes de tratamento, etc. Constitui-se assim em fonte de consulta, intentando ir ao
encontro dos que lidam com a produção de textos e precisam resolver suas hesitações
lingüísticas.

A correção gramatical - e os manuais, em geral, contribuem para tanto - é um dos


requisitos básicos do texto, espécie de credencial ou cartão de apresentação pessoal de
seu emissor. Mas isso, por si só, não basta para caracterizar ou produzir um bom texto,
conforme está referido no prefácio do Manual.

Levando em consideração o exposto e atendendo a inúmeras sugestões de


consulentes do Manual, a Gerência de Web está ampliando sua colaboração de
assessoria lingüística, abrindo espaço para um novo manual, sob o título GUIA DE
PRODUÇÃO TEXTUAL, direcionado para a produção de textos literários e não-
literários.

O Setor Web - dando continuidade ao trabalho com o Manual de Redação PUCRS -


revela que está atento ao fortalecimento da imagem e da comunicação com seus vários
públicos, perseguindo a meta que identifica nossa Universidade de modo singular:
Universidade de qualidade a serviço da comunidade.

Profa. Me. Carmem Sanson


Gerente de Web

Prefácio

Por uma aprendizagem natural da escrita

Sem professor. Sem aula. Sem provas. Sem notas.


Sem computador. Sem dom. Sem queda. Sem inspiração.
Sem estresse!
Só tu.
Tu e tu. Tu e o texto. Tu e a folha em branco.
Que impassível espera ser preenchida, para entretecer contigo a teia de palavras que
liga todas as dimensões de tua existência, nesta travessia de comunicação de ti para
contigo, de ti para o outro.
Sem.
Só tu.
Com teu ritmo. Com tua pulsação. Com paixão.
Na aventura do cotidiano. De resgatar a memória.
De fecundar o presente. De gestar o futuro. Anunciando esperanças. Denunciando
injustiças. In(en)formando o mundo com tua-vida-toda-linguagem.
Sem!
Levanta tua voz: em meio às desfigurações da existência, da sociedade, tu tens a
palavra.
A tua palavra. Tua voz. E tua vez.

Gilberto Scarton

Os problemas da escrita não decorrem (tanto) da falta do domínio das regras


gramaticais. A competência comunicativa na produção textual implica outras variáveis
que ultrapassam os domínios prescritivos, normativos que se aprendem na maioria das
vezes nos livros, no ensino formal. Importa sobretudo que o texto seja coerente, coeso,
ajustado ao contexto de comunicação, informativo quanto do conteúdo e surpreendente
quanto à forma e em diálogo com outros textos.

A competência textual, que se evidencia mediante o domínio desses fatores de


textualidade, não se desenvolve simplesmente pelo próprio exercício da escrita, por
tentativa e erro, em treinamentos, em livros-texto ou nos bancos escolares. Na verdade,
internalizamos os recursos de expressão de que necessitamos para escrever através da
leitura (inteligente), da leitura que decodifica o texto em sua forma,ultrapassando sua
superfície e o interesse apenas por seu conteúdo.

O que sustenta, portanto, a proposta do GUIA DE PRODUÇÃO TEXTUAL é a


certeza de que somente uma relação estreita, inteligente, intensa do leitor com o texto
pode levá-lo à internalização da competência textual.

O talento nada mais é do que assimilação, escreveu o crítico francês Albalat. E a


assimilação, como insistimos aqui e em outros momentos, decorre do ler, do saber ler,
do monitorar a própria leitura, do observar o texto, do surpreender-se, do admirar-se
diante do texto, o que leva a escrever o que se lê, a imitar, a recriar, a encontrar nosso
próprio estilo. Escrevemos o que lemos.

O GUIA DE PRODUÇÃO TEXTUAL tem, pois, a pretensão de ser um manual de


redação que objetiva contribuir para ampliar a competência textual dos interessados, e
fazê-lo mediante, principalmente, a exposição a textos modelares, a observação dos
recursos estilísticos neles existentes, o incentivo à leitura inteligente, a assimilação pela
imitação / internalização ativa da forma lingüística, num permanente acréscimo e
desenvolvimento do repertório de expressão.

Prof. Gilberto Scarton


Como desenvolver a competência textual

Creio

CREIO que a função principal da escola é a de desenvolver ao máximo a


competência da leitura e da escrita em seus alunos.
CREIO na leitura, porque ler é conhecer - o que aumenta consideravelmente o leque
de entendimento, de opção e de decisão das pessoas em geral.
CREIO na leitura como uma reação ao texto, levando o leitor a concordar e a
discordar, a decidir sobre a veracidade ou a distorção dos fatos, desmantelando
estratégias verbais e fazendo a crítica dos discursos - atitudes essenciais ao estado de
vigilância e lucidez de qualquer cidadão.
CREIO na escrita como instrumento de luta pessoal e social, com que o cidadão
adquire um novo conceito de ação na sociedade.
CREIO que, quando as pessoas não sabem ler e escrever adequadamente, surgem
homens decididos a LER e ESCREVER por elas e para elas.
CREIO que nossas possibilidades de progresso são determinadas e limitadas por
nossa competência em leitura e escrita.
CREIO, por isso, que a linguagem constitui a ponte ou o arame farpado mais
poderoso para dar passagem ou bloquear o acesso ao poder.
CREIO que o homem é um ser de linguagem, um animal semiológico, com
capacidade inata para aprender e dominar sistemas de comunicação.
CREIO, assim, que a linguagem é um DOM, mas um DOM de TODOS, pois o poder
de linguagem é apanágio da espécie humana.
CREIO que o educando pode crescer, desenvolver-se e firmar-se lingüisticamente,
liberando seus poderes de linguagem, através da simples exposição a bons textos.
CREIO, por isso, em M. Quintana, que afirmou: "Aprendi a escrever lendo, da
mesma forma que se aprende a falar ouvindo, naturalmente."
CREIO, pois, no aluno que se ensina, no aluno como um auto/mestre, num processo
de auto-ensino.
CREIO que o ato de escrever é, primeiro e antes de tudo, fruto do desejo de nos
multiplicarmos, de nos transcendermos, e mesmo de nos imortalizarmos através de
nossas palavras.
CREIO, juntamente com quem escreveu aos coríntios, que a um o Espírito dá a
palavra de sabedoria; a outro, a palavra de ciência segundo o mesmo Espírito; a
outro, o mesmo Espírito dá a fé; a outro, ainda, o único e mesmo Espírito concede o
dom das curas; a outro o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, ainda,
o dom de as interpretar.
CREIO que a ti te foi dado o poder da PALAVRA.
CREIO, por isso, na tua paixão pela palavra. Para anunciar esperanças. Para
denunciar injustiças. Para in(en)formar o mundo com a-vida-toda-linguagem.
PORTANTO, vem! Levanta tua voz em meio às desfigurações da existência, da
sociedade: tu tens a palavra. A tua palavra. Tua voz. E tua vez.

Gilberto Scarton
1. Introdução

No processo de ensino e de aprendizagem, tudo gira em torno do ensino: ensina-se


Português, Matemática, Geografia, etc., mas pouco ou nada se fala de como se aprende.
Até mesmo nas Faculdades de Educação, haja vista as disciplinas de Didática (em que
se discutem técnicas e métodos que o professor deve usar para produzir um ensino
eficaz), Prática de Ensino, Avaliação de Ensino. Em suma, tudo voltado para a
transmissão do saber.

A ênfase não deve recair sobre o que os professores devem fazer para ensinar bem,
mas sobre aquilo que os alunos devem fazer para aprender bem ... e como os professores
podem ajudá-los. A escola de que precisamos é uma escola centrada no
desenvolvimento de competências, de habilidades, na aprendizagem e no aluno - o ator,
o protagonista de sua própria educação, de sua vida.

Levar o aluno a aprender a aprender como se desenvolve a competência textual deve


ser, pois, tarefa da escola, preocupação de um aluno de redação. É por essa razão que
dedico neste manual GUIA DE PRODUÇÃO TEXTUAL um capítulo em que exponho
minha convicção acerca de como se desenvolve a competência textual, que se realiza
mediante a leitura inteligente, que decodifica o texto em sua forma, ultrapassando sua
superfície e o interesse apenas por seu conteúdo. O "truque" a ser explicado é que tudo
aponta para a imperiosa necessidade de aprendermos a escrever a partir do que lemos.

O presente capítulo tem como fio condutor o texto de Frank Smith (1983) "Ler como
um escritor", em diálogo com outros textos, o que explica as inúmeras citações.

2. O texto: uma vitrine de palavras

Nas primeiras linhas do texto de Frank Smith, lê-se o que segue:

Questionei o mito segundo o qual uma pessoa pode aprender a escrever através da
educação e prática constantes. E deparei com um sério problema: escrever requer
uma enorme bagagem de conhecimentos específicos que não podem ser adquiridos
em palestras, livros-texto, treinamento, tentativa e erro, ou mesmo pelo próprio
exercício da escrita. Um professor pode lançar às crianças tarefas que resultem na
produção de uma quantidade pequena, mas aceitável de frases, mas é necessário
muito mais do que isso para que alguém se torne um competente e versátil escritor de
cartas, relatórios, memorandos, atas, monografias, e talvez até alguns poemas ou
obras de ficção esparsos, adequados às exigências e oportunidades de situações
extra-classe. Onde é que as pessoas que escrevem adquirem todo o conhecimento de
que precisam?

A conclusão a que cheguei então era tão problemática quanto o problema que
precisava resolver: concluí que somente através da leitura é que os escritores
aprendem todos os mistérios que conhecem (...) Para aprender a escrever, as
crianças precisam ler de uma maneira muito especial.
É muito antiga a fórmula "é lendo que se aprende a escrever", e tão divulgada, tão
conhecida que parece valer por si mesma, um postulado, que carece demonstrar.

A mim não me parece que tenhamos que aceitar essa fórmula como uma obviedade,
sem mais, nem menos. Acredito que é função da Escola levar os alunos a "aprender a
aprender", e, por isso, em nosso caso, refletir e aprofundar a discussão sobre o processo
de aprendizagem da escrita, que se dá através da leitura e vivenciá-lo, é tarefa que se
impõe em nossas aulas de Língua Portuguesa.

Feita a observação, seguem mais algumas passagens do autor:

Mesmo os tipos mais comuns de texto envolvem um vasto número de convenções


de complexidade tal que nunca poderiam ser organizados como procedimentos de
educação formal. A abrangência de tais convenções é geralmente desconhecida, tanto
por professores quanto pelos aprendizes.

Onde é que todos estes fatos e exemplos podem ser encontrados, quando não
disponíveis em palestras, livros-texto e exercícios a que as crianças são expostas em
sala de aula? A única resposta possível parece-me tão óbvia quanto espero que agora
seja ao leitor - devem ser encontrados no que outras pessoas escreveram, em textos já
existentes. Para se aprender a escrever para jornais, deve-se ler jornais: livros-texto
sobre o assunto não serão suficientes. Para escrever artigos de revista, deve-se
folhear uma revista antes de fazer um curso por correspondência que ensine a
escrever para revistas. Para escrever poesia, ler poesia. Para aprender o estilo
convencional de memorando de sua escola, consulte os arquivos de sua escola.

Isto tudo me pareceu extremamente evidente assim que deixei de lado a ilusão de
que a instrução prescritiva podia e tinha que ser suficiente para transmitir pelo
menos uma parte daquilo que um escritor precisa saber. Todos os exemplos de língua
escrita em uso mostram suas próprias convenções relevantes. Todos demonstram sua
própria gramática adequada, sua pontuação e recursos estilísticos variados. Todos
são como que vitrines de exposição de palavras. Agora, então, sei onde se encontra o
conhecimento de que os escritores necessitam: nos textos existentes. Está lá para ser
lido. A questão agora é: como este conhecimento penetra a mente do leitor de modo
que ele se torne um escritor? (...)

Aprendemos a escrever sem saber que estamos aprendendo ou o que aprendemos.


Tudo aponta para a necessidade de aprendermos a escrever a partir daquilo que nós
lemos. E este é o truque a ser explicado.
3. Ler como um escritor

A questão que, a seguir, Smith aborda é: como os conhecimentos de que


necessitamos e que estão nos textos penetram na mente do leitor? O autor explica que
esse conhecimento é adquirido a partir de um processo especial de leitura, que ele
domina "ler como um escritor", conforme exemplifica:

A maioria dos adultos letrados está acostumada com a experiência de pausar


inesperadamente durante a leitura de um jornal, revista ou livro, a fim de voltar a
olhar a grafia de uma palavra que chamou sua atenção. Dizemos a nós mesmos: "Ah,
então é assim que se escreve esta palavra", especialmente se a palavra é conhecida,
uma que só se tenha ouvido anteriormente, como um nome, no rádio ou na televisão.
A palavra pode ou não ser escrita como esperávamos que fosse, mas, de qualquer
modo, parece nova. Quando começamos a ler, não esperávamos ter uma lição de
ortografia, e nem ao menos estamos conscientes de estarmos prestando atenção à
ortografia (ou qualquer outro aspecto técnico da escrita) à medida que lemos. Mas
notamos aquela grafia desconhecida - do mesmo modo que notaríamos uma incorreta
- porque estamos escrevendo o texto à medida que o lemos. Estamos lendo como um
escritor, ou no mínimo como um ortografista. Esta é uma palavra cuja ortografia
devemos conhecer, que esperamos conhecer, porque somos o tipo de pessoa que sabe
esse tipo de grafia.

Eis um segundo exemplo. Novamente, estamos casualmente lendo, e novamente


encontramo-nos parando para reler uma passagem. Não por causa da ortografia,
desta vez, nem porque não tenhamos compreendido o trecho. Na verdade, entendemos
muito bem. Voltamos porque alguma coisa naquele trecho foi especialmente bem
colocada, porque respondemos ao toque do artista. É algo que nós mesmos
gostaríamos de fazer e, ao mesmo tempo, algo que acreditamos não estar fora de
nosso alcance. Estivemos lendo como um escritor, como um membro do clube. (...)

E conclui:

Tudo o que o aprendiz gostaria de grafar, o autor grafa. Tudo o que o aprendiz
gostaria de pontuar, o autor pontua. Cada nuança de expressão, cada recurso
sintático relevante, cada estilo de frase, o autor e o aprendiz escrevem juntos. Passo
a passo, uma coisa por vez, mas um número incrível de coisas.

O que se disse pode ser ilustrado mediante o seguinte exemplo, que evidencia
possíveis reações de quem lê como um escritor:
Talvez a maximização da fórmula de "ler como um escritor" seja a de "ler com um
lápis na mão":

Existem dois tipos de livros, os que se lê e os que se lê sublinhando. Na adolescência,


eu certamente teria sublinhado essa frase. Fui uma sublinhadora voraz e nem sempre
imune aos clichês. Certos trechos que pareciam encerrar toda a sabedoria do mundo
e a chave para decifrar o sentido da vida conquistavam a glória suprema de ganhar
um espaço na parede do quarto - copiados com caligrafia caprichada e fixados com
durex enroladinha. Quando, em fim, a cola sumia e o cartazinho desabava junto com
a pintura, já a tal frase havia ficado invisível no mosaico de fotografias, cartazes e
recortes de revistas que então cumpriam a função de anunciar ao mundo - se por
acaso o mundo um dia espiasse pela porta do meu quarto - quem morava ali e com o
que sonhava quando estava acordada.

Claudia Laitano
Zero Hora, 1/10/03

Um exemplo:

Ao se ler como um escritor o texto abaixo, os seguintes aspectos deviam ser notados
ou apreciados (entre outros): as repetições, as enumerações e o uso de ponto-e-vírgula
nas enumerações.
Último discurso de Martin Luther King

Freqüentemente imagino que todos nós pensamos no dia em que seremos vitimados
por aquilo que é dominador comum e derradeiro da vida, essa alguma coisa a que
chamamos de morte.
Freqüentemente penso em minha própria morte e em meu funeral, mas não num
sentido angustiante.
Freqüentemente pergunto a mim mesmo que é que eu gostaria que fosse dito então, e
deixo aqui com vocês a resposta.
Se vocês estiverem ao meu lado quando eu encontrar o meu dia, lembre-se de que não
quero um longo funeral. Se vocês conseguirem alguém para fazer a oração fúnebre,
digam-lhe
- para não falar muito;
- para não mencionar que eu tenho trezentos prêmios, isto não é importante;
- para não dizer o lugar onde estudei.
Eu gostaria que alguém mencionasse aquele dia em que
- eu tentei dar minha vida a serviço dos outros;
- eu tentei amar alguém;
- eu tentei ser honesto e caminhar com o próximo;
- eu tentei visitar os que estavam na prisão;
- eu tentei vestir um mendigo;
- eu tentei amar e servir a humanidade.
Sim, se quiseres dizer algo, digam que
EU FUI ARAUTO:
- arauto de justiça;
- arauto de paz;
- arauto do direito.
Todas as outras coisas triviais não têm importância.
Não quero deixar atrás
- nenhum dinheiro;
- coisas finas e luxuosas.
Só quero deixar atrás
- uma vida de dedicação.
E isto é tudo o que tenho a dizer:
SE EU PUDER
- ajudar alguém e seguir adiante;
- animar alguém com uma canção;
- mostrar a alguém o caminho certo;
- cumprir meu dever de cristão;
- levar a solução para alguém;
- divulgar a mensagem que o Senhor deixou;
então,
MINHA VIDA NÃO TERÁ SIDO EM VÃO.

4. O que Sherlock Holmes tem a ver com isso

Para caracterizar este processo de ler como um escritor, que estou tentando
descrever, é útil fazer referência à figura legendária de Sherlock Holmes, para quem o
bom investigador deveria ter duas grandes qualidades:

acurado senso de observação;


grande conhecimento de muitas áreas;

Eis algumas passagens que foram trazidas ao debate, aproximando as qualidades do


aprendiz da escrita às de um bom investigador.

Sobre a observação:

"Há muito adoto o axioma de que as pequenas coisas são infinitamente mais
importantes." "Você conhece meu método. Ele está baseado na observação das
insignificâncias."

"Você parece ter visto nela uma série de coisas que permaneceram invisíveis para
mim", foi meu comentário. Não invisíveis mas despercebidas, Watson. Você não sabia
para onde olhar e por isso perdeu tudo que era importante. Eu nunca consigo fazer
você perceber a importância das mangas das roupas, o caráter sugestivo das unhas
dos polegares ou as grandes pistas que estão atadas aos cadarços de uma bota.
Agora, o que você conseguiu perceber da aparência daquela mulher? Descreva."

"Bem, ela tinha um chapéu de palha de aba larga, de um azul-acinzentado, com uma
pluma de cor vermelho-tijolo. Sua jaqueta era preta, bordada com contas negras e
com uma franja de delicados ornamentos negros. Seu vestido era marrom, mais
escuro do que cor de café, com detalhes em pelúcia púrpura na gola e nas mangas.
Suas luvas eram acinzentadas e estavam gastas na ponta do dedo indicador direito.
Não observei suas botas. Ela usava um pequeno pingente de ouro redondo nas
orelhas e um certo ar de estar razoavelmente bem para ir levando uma vida vulgar,
confortável, despreocupada."

Sherlock Holmes estalou as mãos em um aplauso suave e riu furtivamente.

"Palavra de honra, Watson, você está se saindo muito bem. Fez um ótimo trabalho de
fato. É bem verdade que deixou escapar todas as coisas importantes, mas você
acertou no método e, ademais, tem um olho clínico para as cores. Nunca confie nas
impressões gerais, mas concentre-se nos pormenores, meu caro. Eu sempre lanço o
olhar, primeiramente, nas mangas de uma mulher. Em um homem, talvez seja melhor
considerar primeiro a parte dos joelhos das calças. Como você observou, a mulher
tinha pelúcia em suas mangas, o que é um material muito útil para mostrar pistas. A
linha dupla um pouco acima do punho no exato lugar que a datilógrafa pressiona
contra a mesa estava maravilhosamente definida. Uma máquina de costura, de tipo
manual, deixa marca semelhante, mas apenas no braço esquerdo, e na parte que é
mais distante do polegar, ao contrário desta marca que mostra o vinco em quase toda
a extensão. Então, dei uma olhadela no seu rosto e, observando a mancha deixada
por um pince-nez de ambos os lados do nariz, aventurei um comentário sobre vista
curta e datilografia, o que a deixou surpresa."

Sobre o conhecimento:

"Veja você... considero que, originalmente, o cérebro de um homem é semelhante a


um ático vazio, que pode ser povoado com a mobília que se desejar.

Um tolo abarrota-o com toda a espécie de traste que encontra pela frente , de modo
que o conhecimento que lhe pode ser útil fica de fora ou, quando muito, soterrado no
meio de muitas outras coisas, tornando-se assim muito difícil o acesso até ele.

Agora, o profissional hábil é muito criterioso com o que introduz em seu cérebro-
ático."

O perfil de um investigador segundo Sherlock Holmes ilustra perfeitamente o


processo de aperfeiçoamento da competência textual e a própria habilidade de expressão
escrita. Não é demais repetir que tal aprimoramento ou habilidade não se explica, não se
processa pelo estudo de regras gramaticais, pela leitura de manuais de redação, nos
bancos escolares onde se realizam exercícios de redação. Explica-se pela assimilação.
Segundo o crítico francês Albalat, talento nada mais é do que assimilação. Assimilação
que decorre do ler, do saber ler, do monitorar a própria leitura, do surpreender-se, do
admirar-se diante do texto, do observar os seus recursos, o que leva a escrever o que se
lê, a internalizar recursos de expressão, a imitar, a recriar, a encontrar nosso estilo.

O que importa é ler com olhos de detetive, cujo método "se baseia na observação".
Observação de detalhes, de aspectos que podem passar despercebidos, observação da
forma lingüística ... e não apenas preocupação em decodificar o conteúdo.

Por outro lado o conhecimento que deve abarrotar o cérebro de um detetive-escritor


diz respeito à leitura, ao conhecimento de textos. Quem escreve não escreve no vazio,
pois um texto não surge do nada. Nasce de/em outros textos. Pode-se dizer que escrever
é a habilidade de aproveitar criticamente, criativamente outros materiais
interdiscursivos, outros textos. Assim, para resumir, pode-se dizer que o escritor se
constrói a partir da observação do que está nos textos e de um cérebro-ático "povoado
com a mobília da leitura".

5. O que acontece quando estamos lendo?

Para aprofundar a questão central da tese de Smith, busquei auxilio em autores que
tratam de estratégias de leitura, pois "ler como um escritor", ler observando os recursos
lingüísticos do texto é uma delas. Tenho como fundamentação o capítulo "A
metacognição", de Vilson J. Leffa ( 1996).
Uma das características fundamentais do processo de leitura é a capacidade que o
leitor possui de avaliar, de monitorar a qualidade da compreensão do que está lendo. O
leitor, em determinado momento de sua leitura, volta-se para si mesmo e se concentra
não no conteúdo, mas no processo que conscientemente utiliza para chegar ao conteúdo.
É o fenômeno da metacognição.

A metacognição envolve, portanto:

a) a habilidade para monitorar a própria compreensão ("Estou entendendo muito bem


o que o autor está dizendo", "Esta parte está mais dificil, mas dá para pegar a idéia
principal", etc.);

b) a habilidade de tomar as medidas adequadas quando a compreensão falha, ("Vou


ter que reler este parágrafo", "Essa dever ser uma palavra chave no texto. Vou ver no
glossário", etc.).

Brown (apud Leffa, 1996) define metacognição como um conjunto de estratégias de


leitura que se caracteriza pelo "controle planejado e deliberado das atividades que levam
à compreensão". Entre essas atividades, destacam-se:

Definir o objetivo de uma determinada leitura ("Vou ler este texto para ver como
se monta este brinquedo", "Só quero ver a data da morte de Napoleão". "Vou
correr os olhos pelo sumário para ter uma idéia geral do livro").
Identificar os segmentos mais e menos importantes de um texto ("Aqui o autor
está apenas dando mais um detalhe". "Esta definição é importante").
Distribuir a atenção de modo a se concentrar mais nos segmentos mais
importantes ("Isto aqui é novo para mim e preciso ler com mais cuidado". "Isto
eu já conheço muito bem e posso ir apenas passando os olhos"). A importância
de um segmento pode variar não só de um leitor para outro, mas até de uma
leitura para outra.
Avaliar a qualidade da compreensão que está sendo obtida da leitura ("Estou
entendendo perfeitamente o que o autor está tentando dizer". "Este trecho não
está muito claro para mim").
Determinar se os objetivos de uma determinada leitura estão sendo alcançados
("Estou lendo este capítulo para ter uma idéia geral do que é fenomenologia,
mas ainda não consegui ter uma noção clara do assunto").
Tomar as medidas corretivas quando falhas na compreensão são detectadas
("Vou ter que consultar o dicionário para entender esta palavra, já que o
contexto não me bastou". "Parece que vou ter que ler aquele outro artigo para
poder entender este").
Corrigir o rumo da leitura nos momentos de distração, divagações ou
interrupções ("Estou tão distraído que passei os olhos por este parágrafo sem
prestar atenção no que estava lendo; vou ter que relê-lo").

A metacognição, no entanto, não se refere apenas ao monitoramento na compreensão


do conteúdo. Estamos também envolvidos num processo de metacognição quando
analisamos a forma lingüística do texto, a linguagem. Isso se dá quando lemos como um
escritor. Aqui também o leitor volta-se para si mesmo e avalia, analisa a forma ou
reflete sobre ela. ("Ah! este texto começa mediante uma fórmula muito empregada,
através de uma pergunta"... "Muito bem estruturado este texto... com importantes
elementos coesivos". "Esta frase curta e esta outra construção nominal estão bem
inseridas nesta passagem"... "Ah! é assim, então, que se escreve esta palavra!...").

Para finalizar, registre-se, com base em Leffa (1996), que

a) a metacognição desenvolve-se com a idade;

b) a metacognição correlaciona-se com a proficiência em leitura. Leitores fluentes


têm mais consciência de seus comportamentos de leitura. São mais capazes de avaliar
sua própria compreensão, selecionar as melhores estratégias de reparo, etc.

c) O comportamento metacognitivo melhora com a instrução. Tem-se observado, por


exemplo, que crianças expostas ao treinamento sistemático de monitoramento melhoram
a compreensão do texto. Nós temos observado também que alunos universitários,
levados ao longo de dois ou três meses de aula a observarem ou monitorarem a forma
lingüística do texto, têm um desempenho lingüístico melhor.

6. E Vygotsky?

Na verdade, conheci um pouco de Vygotsky depois que trabalhei com estas idéias
que estou a expor. É que uma aluna me chamou de "construtivista", e eu tive que saber
o que eu era mesmo. Socorreu-me na empreitada a Profª Carmem Sanson, Mestre em
Educação.

A repercussão que as idéias do psicólogo russo vem obtendo no Brasil tem o sentido
de uma redescoberta: tendo falecido em 1934, sua obra enfrentou décadas de censura
imposta pelo regime stalinista, e somente em meados dos anos 60 seus estudos
chegaram ao Ocidente. Hoje, representa uma tendência cada vez mais presente no
debate educacional, pois Vygotsky deixou idéias extremamente sugestivas que devem
continuar inspirando por este século afora diferentes tentativas de renovação para a
construção de uma nova escola.

Se fosse sintetizar a aplicação de seu pensamento na educação, poder-se-ia dizer que


de sua linha socioconstrutivista se depreendem novos referenciais, levando a uma nova
pedagogia, a uma pedagogia interativa , mediatizada, colaborativa, ativa, dialógica,
construtivista com características sociointeracionistas.

A idéia de que nenhum conhecimento é construído pela pessoa sozinha, mas sim em
parceria com os outros, que são os mediadores, é própria da psicologia
socioconstrutivista de Vygotsky, teoria que traz em seu bojo a concepção de que todo o
ser humano se constitui como tal mediante as relações que estabelece com os outros.

Essa idéia de mediação está claramente posto em Frank Smith: o escritor se constitui
como tal, se constrói mediante as relações que estabelece com os textos de outros
escritores. É por isso que se deve insistir na idéia que os textos são vitrines de exposição
de palavras, o melhor manual ou guia para a produção textual. Para alcançar
competência na escrita é essencial, pois, observar o que se lê e abarrotar o terreno com
leituras.
Já discutíamos como os adultos e amigos mais competentes agem como
colaboradores involuntários à medida que a criança aprende sobre a linguagem
falada. As crianças aprendem indiretamente (...) O argumento que usarei agora é que
todo aquele que se torna um escritor competente usa os autores exatamente do
mesmo modo, mesmo as crianças. Elas devem ler como um escritor, a fim de
aprender a escrever como um escritor. Não existe outra maneira de adquirir o
conhecimento de um escritor em sua intricada complexidade.

7. Frank Smith e Celso Luft

Frank Smith e Celso Luft têm o mesmo entendimento acerca do processo de


internalização das convenções da escrita.

De Frank Smith:

A alternativa que tenho a propor é a de que o conhecimento de todas as convenções


da escrita penetra em nossa mente assim como a maior parte do nosso conhecimento
da linguagem falada, e até do mundo em geral, sem consciência do aprendizado que
está ocorrendo. A aprendizagem é inconsciente, sem esforço, acidental, indireta e
essencialmente cooperativa. É acidental porque aprendemos quando aprender não é
nossa principal intenção; indireta porque aprendemos através do que outra pessoa
faz; e cooperativa porque aprendemos pela ajuda de outros para que alcancemos
nossos próprios objetivos.

De Celso Luft, ao propor uma aprendizagem natural de língua materna:

A primeira aprendizagem da língua: um processo natural. Base (natural): a


capacidade humana inata da linguagem (o homem é um ser de linguagem),
capacidade de aprender e dominar sistemas de comunicação verbal.
Condições: exposição a atos de fala, para que a criança possa, intuitivamente,
depreender as regras (a "gramática") subjacentes. Ao natural, a criança (pequeno
lingüista, gramático) internaliza aquela gramática a que se vê exposta; determinado
nível linguístico correspondente a determinado nível sociocultural: analfabeto, classe
média, alta. Ao fim deste estágio (5-7 anos), a criança é portadora de uma gramática
implícita (GI) da língua.
2. A segunda aprendizagem: na escola. Tese: o ideal é que também seja um
processo natural. Por exposição a atos de fala e escrita , atos de comunicação (agora
mais elevada, mais formal). Exposição à língua culta padrão. Desenvolvimento,
ampliação, complementação da primeira aprendizagem e enriquecimento dos
recursos expressionais da língua pela exposição do falante/ escrevente a modelos
adequados de fala/escrita (olha a ordem!)... para que o aluno, ao natural (isto é,
intuitivamente, com seus poderes de linguagem), possa ir complementando seu
estoque interior de regras, a sua gramática interna, implícita (GI).

6. Teoricamente, pode uma pessoa chegar a manejar superiormente (e até


artisticamente) seu idioma mediante conhecimento e domínio apenas intuitivo
(gramática implícita), educada habilitada pela prática natural de linguagem (muita
leitura, muita exposição a bons textos, e muita escrita: "Aprendi a escrever lendo, da
mesma forma que se aprende a falar ouvindo naturalmente..." M. Quintana). Grandes
escritores, oradores e poetas comprovam Isso. Que estudos gramaticais realizou
Machado de Assis? Quem ensinou Gramática (e análise sintática d' Os Lusíadas...) a
Camões? A Homero?...

8. Assimilação, imitação e plágio

Recorrendo a Albalat (1934), encontro no capítulo dedicado à leitura, a seguinte


passagem:

O talento nada mais é do que assimilação (p.28)

Assimilação, naturalmente, do que encontramos em outros textos.

Antes, no entanto, o crítico francês já havia escrito na mesma obra:

A admiração conduz à imitação, e a imitação é um meio de assimilar as belezas


alheias (p.15)

A propósito do assunto, mais três referências:

A primeira é de Olavo Carvalho, extraída do artigo "Aprendendo a escrever" ( O


Globo, 03/02/01).

A seleção das leituras deve nortear-se, antes de tudo, pelo anseio de apreender, na
variedade do que se lê, as regras não escritas desse código universal que une
Shakespeare a Homero, Dante a Faulkner, Camilo a Sófocles e Eurípides, Elliot a
Confúcio e Jalal-Ed-Din Rûmi.
Compreendida assim, a leitura tem algo de uma aventura iniciática: é a conquista
da palavra perdida que dá acesso às chaves de um reino oculto. Fora disso, é rotina
profissional, pedantismo ou divertimento pueril.
Mas a aquisição do código supõe, além da leitura, a absorção ativa. É preciso que
você, além de ouvir, pratique a língua do escritor que está lendo. Praticar, em
português antigo, significa também conversar. Se você está lendo Dante, busque
escrever como Dante. Traduza trechos dele, imite o tom, as alusões simbólicas, a
maneira, a visão do mundo. A imitação é a única maneira de assimilar
profundamente. Se é impossível você aprender inglês ou espanhol só de ouvir, sem
nunca tentar falar, por que seria diferente com o estilo dos escritores?
O fetichismo atual da "originalidade" e da "criatividade" inibe a prática da
imitação. Quer que os aprendizes criem a partir do nada, ou da pura linguagem da
mídia. O máximo que eles conseguem é produzir criativamente banalidades
padronizadas.
Ninguém chega à originalidade sem ter dominado a técnica da imitação. Imitar
não vai tornar você um idiota servil, primeiro porque nenhum idiota servil se eleva à
altura de poder imitar os grandes, segundo porque, imitando um, depois outro e
outro e outro mais, você não ficará parecido com nenhum deles, mas, compondo com
o que aprendeu deles o seu arsenal pessoal de modos de dizer, acabará no fim das
contas sendo você mesmo, apenas potencializado e enobrecido pelas armas que
adquiriu.
É nesse e só nesse sentido que, lendo, se aprende a escrever. É um ler que supõe a
busca seletiva da unidade por trás da variedade, o aprendizado pela imitação ativa e
a constituição do repertório pessoal em permanente acréscimo e desenvolvimento.
Muitos que hoje posam de escritores não apenas jamais passaram por esse
aprendizado como nem sequer imaginam que ele exista.
Mas, fora dele, tudo é barbárie e incultura industrializada.

As duas outras são de nossos escritores:

De Moacyr Scliar:

"...que o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler.É preciso captar com os
olhos as imagens das letras, guarda-las no reservatório que temos em nossa mente e
utiliza-las para compor depois nossas próprias palavras.
Aprendi que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei
descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros; não se
incomodaram com isso e copiar me fez muito bem."

De Luis Antonio de Assis Brasil:

"Todo mundo começa imitando alguém. É na vida. É nas artes. Não há mal nenhum.
A leitura de um livro empolgante desperta o imediato desejo:
- Eu gostaria de escrever assim.
O primeiro romance que li inteiro foi "O Primo Basílio", isso lá pelos 13 ou 14 anos.
Ao terminá-lo, decidi que, se me tornasse escritor, escreveria um livro igualzinho."
Para encerrar, deve-se mencionar ainda como os maiores autores de todos os tempos
costumam buscar seus temas nas obras de seus colegas de ofício. Antonio Fernando
Borges, em suas aulas da Oficina Literária do Portal Literal
(http://portalliteral.terra.com.br/Literal/calandra.nsf/0/F5E8E1D40F28232103256F7700
5A3E1F?OpenDocument&pub=T&proj=Literal&sec=Agenda) extrai da obra "A ilusão
literária", de Eduardo Frieiro, os seguintes exemplos).

Virgílio escreveu suas epopéias (a Eneida em especial) inspirando-se na obra de


Homero;
O poeta e dramaturgo francês Corneille escreveu seu épico Lê Cid a partir de
uma conhecida lenda espanhola (El Cid campeador).
Todos os enredos de Shakespeare foram extraídos de autores como Plutarco,
Hollinshead e de diversos contistas populares italianos - sem falar de seus
dramas e tragédias históricas, inspirados diretamente nos fatos;
Miguel de Cervantes buscou o tema de Dom Quixote num escritor italiano mal
conhecido;
E a história de Fausto, a obra prima de Goethe, já tinha sido contada por
Christopher Marlowe, no século 16;
Entre os brasileiros, pode-se dizer que o "condoreirismo" de Castro Alves
sempre fez eco ao enfático romantismo de Victor Hugo;
E o grande Machado de Assis, sabe-se, foi buscar muitos de seus enredos e
tramas em romancistas ingleses menores, cujos nomes se perderam com o tempo
...

E conclui:
Certamente, esta constatação não diminui em nada o mérito de nenhum desses autores.
Mas tem, em compensação, o "mérito" de dar um bom conselho aos que se iniciam na
arte da escrita: não se preocupem em ser originais, mas em escrever bem - com
clareza, verdade e beleza.

9. Conclusão

A convicção de que o aprimoramento da competência textual se processa mediante a


leitura e a observação de textos fundamenta-se nos seguintes autores e fatos:

Em Frank Smith, que questiona o mito segundo o qual uma pessoa pode
aprender a escrever através da edução e prática constantes. O autor enfatiza que
somente através da leitura é que os escritores aprendem todos s mistérios que
conhecem. Para aprender a escrever as pessoas precisam ler de uma maneira
especial: ler como um escritor, isto é, observando os recursos de expressão, a
forma lingüística.
Na comparação entre o perfil de um investigador segundo Scherlok Holmes e os
requisitos que deve ter quem almeja ser escritor: o primeiro deve ser um
meticuloso observador do suspeito e do cenário do crime; o segundo, dos textos.
O primeiro deve ter conhecimento de várias áreas; o segundo, de textos, pois
escrever é aproveitar criativamente os materiais interdiscursivos.
Na estratégia de leitura denominada de metacognição, estratégia em que o leitor
monitora sua leitura, avaliando, analisando a forma lingüística dos textos.
Em Vygostky, que defende em seus estudos que nenhum conhecimento é
construído por uma pessoa sozinha, mas em parceria com outros, que são as
mediadoras. Nos processos de ampliação da competência textual, a mediação se
dá mediante as relações que o leitor estabelece com os textos, os autores - a
melhor escola, os grandes mestres na construção do escritor.
Em Celso Luft, para quem a aprendizagem da língua culta (e de todos os
recursos de expressão) é um processo natural, semelhante à aquisição da língua
materna (primeira aprendizagem), que se dá mediante a exposição de modelos
lingüísticos.
Em críticos, como ALBALAT ("O talento nada mais é do que assimilação.");
em escritores como Scliar ("... o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler."),
Assis Brasil ("Todo mundo começa imitando alguém.").
Na vivência de sala de aula, em que experimentei a convicção aqui exposta. A
propósito, anexamos o testamento de alunos, "aprendizes" que foram neste
processo de melhoria da competência Textual.

Depoimentos de alunos

A vivência da sala de aula onde experimentamos nossa convicção de que o


aprimoramento da competência textual decorre do ler, do saber ler, do monitorar a
própria leitura, do observar o texto, do estar exposto a textos modelares, do
surpreender-se diante do texto, do admirar-se teve ótima aceitação por parte dos
alunos, conforme os depoimentos a seguir.

No primeiro texto, Renata Eichenberg rende seu tributo a autores que


contribuíram teoricamente para ampliar sua competência textual. Observe-se que a
autora emprega com habilidade a figura da repetição, traço estilístico incorporado a
seu universo lingüístico mediante proposta constante neste "Guia".

No segundo texto, de Luciana Schmidt Alcover, a autora se confessa surpresa


com o método, que resgatou seu gosto pela leitura e pela escrita.

No terceiro - "Uma Forma Inédita de Ensinar", de Clarissa Laux, lê-se o


depoimento que reforça a idéia de que a melhoria da competência textual se dá
naturalmente, "por instinto"... "que devia haver algo de errado nas aulas que sempre
freqüentei, onde aprender nossa Língua parecia muito mais um martírio do que algo
em que se pudesse encontrar prazer." "Que o importante é que os alunos aprendam a
ler de forma construtiva (...). Este, sim é um conhecimento efetivo e perene."

Finalmente, em "Fluxo Gramatical de Consciência", Aluíso B. Pinheiro expressa


uma crítica contra o ensino da gramática em sala de aula enfatizando a idéia de que
a ampliação da competência textual não se dá mediante definições, classificações,
decoreba de nomenclaturas, de regras - método, infelizmente, muito empregado
ainda em nossas aulas de língua portuguesa.
7 Magos
21 Aprendizados

Renata Eichenberg

Frank Smith
Aprendi que escrever requer uma enorme bagagem de conhecimentos específicos,
adquiridos apenas através da leitura.
Aprendi que somente através da leitura o escritor aprende todos os mistérios que
conhece.
Aprendi que aprendemos a escrever muitas vezes sem saber que estamos
aprendendo.
Aprendi que a ênfase na eliminação de erros resulta na eliminação da escrita.

Celso Luft
Aprendi que o conhecimento e domínio da língua se dá por um processo natural,
através do auto-ensino.

Moacyr Scliar
Aprendi que a cópia não é crime,pelo contrário, é inevitável e natural no início do
processo da escrita. Agora me sinto com a consciência leve, pois já perdi a conta de
quantos autores já me foram úteis na composição dos meus textos.

Nilson Souza
Aprendi que escrever é rescrever. Um bom texto necessita ser relido e rescrito
quantas vezes forem necessárias. A idéia precisa ser clara. Toda a escrita obedece a
um ciclo: escrever, cortar e rescrever repetidamente.
Aprendi que todo o escritor tem que ser autocrítico para eliminar tudo que estiver
"sobrando" ou "atrapalhando" o texto, e paciente e corajoso para apagar um texto e
recomeçar, quando este não foi bem escrito.
Aprendi que todo o escritor deve ser persistente, lutar pela melhor palavra ou
expressão para aquela frase, dentro daquele texto.
Aprendi que o escritor necessita ler, porém escrever também. E, se possível,
submeter seus textos à apreciação de leitores qualificados.
Aprendi que o melhor amigo do escritor é a lata do lixo, uma vez que uma boa
redação só pode ser alcançada com humildade, com o reconhecimento da má obra.
Aprendi que a pontuação é o cimento do texto. Uma vírgula mal colocada pode
mudar significativamente o sentido da frase.

Samuel Johnson
Aprendi que o que é escrito sem esforço, geralmente é lido sem prazer.

Arnaldo Jabor
Aprendi que o escritor possui um desejo de enganar, atrair, mentir, roubar o leitor.
Aprendi que o escritor, constantemente, está em busca do elogio à sua obra, nem
que seja o seu próprio elogio.
Aprendi que o escritor é muito mais falado pelas palavras do que as fala.

Liberato Vieira da Cunha


Aprendi que o escritor deve dominar todas as armadilhas do idioma, mantendo
boas relações mesmo com as mais exóticas entidades.
Aprendi que é essencial para um escritor ousar a criação de algo novo, original,
único.
Aprendi que o escritor deve ser disciplinado, obstinado quase.
Aprendi que o escritor precisa provocar os demônios interiores em horas
determinadas, ou em cada fiapo do tempo disponível.
Aprendi, finalmente, que o escritor, em hipótese alguma, deve desistir quando um
branco se instala em sua mente e nenhum pensamento, nenhuma emoção, fantasia
circula nesse vácuo, por mais persistente que o escritor seja.

Por Uma Aprendizagem Natural

Luciana Schmidt Alcover

Sete e meia da noite, sexta-feira (véspera de carnaval), sala de aula vazia, seis
alunos e um professor. Oito horas da noite, o professor se apresenta e inicia aula, que
mais parece uma conversa informal. Algo que eu nunca havia vivenciado antes.
Existe um ditado popular que diz "a primeira vez a gente nunca esquece", eu
concordo. Impossível esquecer e não me surpreender com tudo o que foi dito em
pouco mais de uma hora e meia de aula. O professor informou aos alunos que seria
um semestre sem provas, sem aulas monótonas, sem livros obrigatórios, sem regras,
sem decorebas e, principalmente, sem aprendizagem forçada. Parecia que tudo aquilo
que eu sempre esperava ser um modelo ideal de aprendizagem realmente existia. Um
método eficaz, chamado pelo professor de Método Natural.
Desde as épocas de colégio, fui acostumada a estudar português da seguinte forma:
assistindo às aulas, decorando regras, fazendo exercícios e lendo os livros solicitados.
Meus professores sempre foram rígidos com horários e muito críticos em suas
avaliações. Por isso, escrever se tornava em problema. As redações, assim como no
vestibular, tinham tema definido na hora, eram feitas em sala de aula, em curto espaço
de tempo. E ainda, deveria ter como características um texto original e sem erros de
pontuação ou ortografia. Caso contrário, poderia aguardar como resultado notas
baixíssimas. Foi dessa forma que perdi um pouco o gosto pela leitura e escrita.
Mas, o tempo passou. Hoje, já recuperada dessas experiências, consegui resgatar
novamente o meu gosto pela leitura e escrita, com a ajuda de...

Uma Forma Inédita de Ensinar

Clarissa Laux

Durante o sucessivos anos em que estive na escola,sempre ouvi os professore de


Língua Portuguesa repetirem, sacal e incessantemente, as regras gramaticais, como se
apenas àqueles que tivessem memória suficiente para armazená-las estivesse
reservado o sucesso. Era um desfile pavoroso de análises sintáticas, morfológicas,
ditongos, tritongos, e outros de seus comparsas. Perdida, eu me perguntava: será que
um dia eu serei capaz de gravar tudo isto?
Terminei o segundo grau sem conseguir compreender nem a metade das tais
regras, mas, surpreendentemente, com ótimas notas em Português. Quando, no
entanto, comecei a preparar-me para o tão temido vestibular, achei que era chegada a
hora de aprendê-las. Depois de aulas e mais aulas, horas de decoreba sem fim,
concluí, estupefata, que ainda não havia assimilado a maioria delas. Resolvi, então,
desenvolver e aperfeiçoar aquilo que utilizara durante os anos de colegial: o instinto.
Por resultado, obtive quase que a nota máxima em Língua Portuguesa e Redação, e
entrei para a faculdade.
O leitor deve estar se perguntando, agora, o que quero dizer por instinto. "Terá ela
um sexto sentido?", deve estar pensando, com um misto de ironia e incredulidade, em
sua cabeça. A resposta é não. E, para afastar qualquer tipo de antipatia precipitada, me
explico.
Em primeiro lugar, sempre gostei muito de ler. A leitura, além de nos abrir
horizontes, nos ensina muito mais do que podemos perceber conscientemente. Isto
porque, quando tentamos decorar algo pura e simplesmente, sem muitas vezes nem ao
menos entender as razões, criamos como que uma barreira, uma parede por onde os
conhecimentos não conseguem passar. Quando, no entanto, nos entregamos à leitura,
absorvemos as informações de um jeito que o cérebro aceita, registra e ainda pede
mais. E quando fazemos dela um hábito, acabamos por gravar, efetivamente, as tão
amedrontadoras regras em nosso subconsciente. Daí por diante, parece que passamos
a reconhecer quando algo está errado, mal construído ou mal colocado, apenas pela
visão. Mágica? Não. Condicionamento do olhar.
Da mesma forma que as regras, todo esse pensamento sempre esteve guardado em
algum canto de minha cabeça. Ao mesmo tempo em que acreditava nisto, repreendia-
me, pois o que os professores diziam era, senão o contrário total, ao menos
discordante. Aí, na primeira aula de Português Aplicado à Comunicação, o professor
introduz um conceito completamente novo de ministrar conhecimentos, ao qual ele
chama "Método Natural de Aprendizagem". Estupefata, vejo ele pregar o ensino do
Português através da leitura, sem a costumeira devoção à Gramática, de forma crítica
e interessante. Consigo, então dar voz àquele sentimento de que devia haver algo de
errado nas aulas que sempre freqüentei, onde aprender a nossa Língua parecia muito
mais um martírio do que algo em que se pudesse encontrar prazer.
Assim, o Método Natural de Aprendizado veio ao encontro das idéias que eu tinha.
Concordo total e irrestritamente com ele, pois penso que o ensino de Língua
Portuguesa deva se dar de forma tal que o aluno se aproxime dela, e não se sinta
amedrontado. Deve-se ensinar mais do que regras; o importante é que os alunos
aprendam a ler de forma construtiva, tirando deste prazer tudo o que ele pode lhes
proporcionar. Este, sim, é um conhecimento efetivo e perene.

Fluxo Gramatical de Consciência

Aluísio B. Pinheiro
Vogais, consoantes, fonemas, dígrafos, sílaba, palavra, oxítona, paroxítona,
proparoxítona. Encontros vocálicos, ditongo, tritongo, hiato e encontros consonantais.
Hífen, minúscula, maiúscula, homônimas, parônimas, por quê?
Radicais, afixos, tema e desinência, prefixos, sufixos e radicais gregos e latinos.
Derivação e composição, onomatopéia, abreviação e hibridismo. Substantivo, artigo,
adjetivo, numeral e pronome, verbo, advérbio, preposição e conjunção, interjeição,
por quê?
Frase, oração e período, verbo transitivo, intransitivo, direto e indireto ou de
ligação. Tempos, predicado e predicativo, complementos nominais, agente da passiva,
adjuntos adnominais e adverbiais, apostos e vocativos, por quê?
Orações sindéticas, períodos compostos, sintaxe, concordância nominal, regência,
crase, por que crase? Pronomes oblíquos, vírgula, ponto-e-vírgula, infinitivo
conjugável, sinônimos, antônimos, homônimos, parônimos. Figuras de linguagem,
metáforas, metonímias, catacrese, elipse, pleonasmo, anacoluto, silepse, hipérbato,
hipérbole, eufemismos e ironias, prosopopéias e antítese, por que, por quê???

Depoimentos de escritores

Que dizem os escritores sobre o percurso de construir-se, de tornar-se um escritor?


Que dizem a respeito do desenvolvimento da competência textual? É uma simples
questão de dom? Que papel atribuem à leitura? À imitação? Ao exercício constante? À
persistência? Ao esforço (penoso) de redigir? À importância da inspiração e da
"transpiração"?

Levar o aluno a aprender a aprender como se desenvolve a competência textual é


tarefa da escola, deve ser preocupação de um aluno-aprendiz de escritor, pois a ênfase
da educação não deve recair sobre o que os professores devem fazer para ensinar bem,
mas naquilo que os alunos devem fazer para aprender bem.

Insistimos neste "Guia de Produção Textual" que o caminho para a construção da


competência textual é a leitura inteligente, que leva à decodificação do texto em sua
forma ... um processo com os outros - os escritores e seus textos.

Consideramos, por isso, oportuno abrirmos espaço para depoimentos de escritores


sobre o processo da produção textual na esperança de que suas experiências e vivências
possam contribuir para a construção da competência textual dos aspirantes a escritor, ao
trazer novas luzes acerca do ato de escrever.

Vinte e uma coisas que aprendi como escritor

Moacyr Scliar

APRENDI que escrever é basicamente contar histórias, e que os melhores livros de


ficção que li eram aqueles que tinham uma história para contar.
APRENDI que o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler. É preciso captar com os
olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e
utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.

APRENDI que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei
descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros. Não se
incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.

APRENDI que, quando se começa a escrever, sempre se é autobiográfico, o que - de


novo - não prejudica. Mas os escritores que ficam sempre na autobiografia, que só
olham para o próprio umbigo, acabam se tornando chatos.

APRENDI que, para aprender a escrever, tinha de escrever. Não adiantava só ficar
falando de como é bonito ( ... )

APRENDI que uma boa idéia pode ocorrer a qualquer momento: conversando com
alguém, comendo, caminhando, lendo (e, segundo Agatha Christie, lavando pratos).

APRENDI que uma boa idéia é realmente boa quando não nos abandona, quando nos
persegue sem cessar. O grande teste para uma idéia é tentar se livrar dela. Se veio para
ficar, se resiste ao sono, ao cansaço, ao cotidiano, é porque merece atenção.

APRENDI que aeroportos e bares são grandes lugares para se escrever. O bar, por
razões óbvias; o aeroporto, porque neles a vida como que está em suspenso. Nada
como uma existência provisória para despertar a inspiração literária.

APRENDI que as costas do talão de cheque é um bom lugar para anotar idéias (é por
isso que escritor tem de ganhar a grana suficiente para abrir uma conte bancária). O
guardanapo do restaurante também serve, desde que seja de papel e não de pano. (...)

APRENDI que o computador é um grande avanço no trabalho de escrever, mas tem


um único inconveniente: elimina os originais, os riscos, os borrões, e portanto a
história do texto, a qual - como toda história - pode nos ensinar muito.

APRENDI que a mancha gráfica representada pelo texto impresso diz muito sobre
este mesmo texto. As linhas não podem estar cheias de palavras; o espaço vazio é tão
eloqüente quanto o espaço preenchido pela escrita. O texto precisa respirar, e quando
respira, fica graficamente bonito. Um texto bonito é um texto bom.

APRENDI a rasgar e jogar fora. Quando um texto não é bom, ele não é bom - ponto.
Por causa da auto-comiseração (é a nossa vida que está ali!) temos a tentação de
preservá-lo, esperando que, de forma misteriosa, melhore por si. Ilusão. É preciso ter
a coragem de se desfazer. A cesta de papel é uma grande amiga do escritor. (...)

APRENDI a não ter pressa de publicar. Já se ouviu falar de muitos escritores batendo
aflitos, à porta de editores. O que é mais raro, muito mais raro, são os leitores batendo
à porta do escritor.

APRENDI a não reler meus livros. Um livro tem existência autônoma, boa e má. Não
precisa do olhar de quem o escreveu para sobreviver.

APRENDI que, para um escritor, um livro é como um filho, mas que é preciso
diferenciar entre filhos e livros.

APRENDI que terminar um livro se acompanha de uma sensação de vazio, mas que o
vazio também faz parte da vida de quem escreve.

APRENDI que há uma diferença entre literatura e vida literária, entre literatura e
política literária. Escrever é um vício solitário.

APRENDI a diferenciar entre o verdadeiro crítico e o falso crítico. O falso crítico não
está falando do que leu. Está falando dos seus próprios problemas.

APRENDI que, para um escritor, frio na barriga ou pêlos do braço arrepiados são um
bom sinal: um livro vem vindo aí.

Selecionamos esta crônica de Moacyr Scliar porque ela reforça nossa convicção de
como se desenvolve a competência textual. Dignos de nota são os parágrafos iniciais em
que o cronista expressa que

a - "... o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler".


Este postulado fundamenta o "Guia de Produção Textual", conforme o exposto no
capítulo "Como se desenvolve a competência textual", em que, com base em diversos
autores/escritores, enfatizamos a idéia de que tudo aponta para a necessidade de
aprendermos a escrever a partir do que lemos, a partir da leitura inteligente, da leitura
que decodifica o texto em sua forma, ultrapassando sua superfície e o interesse por seu
conteúdo.

b - "... quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos
escritores ..."
Segundo o crítico francês Albalat, "talento nada mais é do que assimilação".
Assimilação que decorre de ler, do saber ler, do monitorar a própria leitura, do
surpreender-se, do admirar-se diante do texto, o que leva a escrever o que se lê, a
internalizar os recursos de expressão, a imitar, o plagiar, e recriar, a criar o próprio
estilo.

c - "para aprender a escrever, tinha de escrever."


Quanto à passagem, esclarecemos que devemos desmitificar a idéia de que a
competência textual se desenvolve unicamente ou principalmente mediante a prática
constante. Não podemos nos esquecer nunca do primeiro postulado - "... o ato de
escrever é uma seqüela do ato de ler." Primeiro, portanto, muita leitura. Depois, o
exercício da escrita.

O clube dos teimosos


Liberato Viera da Cunha

Componho esta crônicas para os habitantes de minha rua, para certas pessoas que
residem na inconcreta cidade de Santaclara, para jovens, volúveis deusas que um dia
me enfermaram de paixão. É pois com regular dose de espanto que descubro que
tenho um leitor em Itaquaquecetuba, São Paulo. É de lá que me conta esse dr. N., e eu
não vejo por que duvidar, que é engenheiro de profissão, tem 54 anos, uma esposa
gaúcha e três filhas. Informa a seguir o Dr. N. que dirige uma construtora que os
negócios vão mais bem do que mal, que é vice-presidente de uma ONG ecológica,
que nas férias acampa na Serra da Mantiqueira. Quem sou eu para supor que esses
dados biográficos, quase cadastrais, são incorretos? Mas aí o Dr. N. comete uma
incorreção. O dr. N. me diz que entrou sem querer na vida errada. Que quando estava
no científico ganhou um concurso literário, que na faculdade colaborou na revista do
centro acadêmico. E que agora, "especialmente nos intermináveis fins de semana",
fica pensando que, em vez de empresário, poderia ter sido escritor. O que é que eu
acho?

Eu não acho nada, Dr. N. Os cronistas são seres inconfiáveis, tratam no geral de
bagatelas e de ninharias, não devem ter palpite em tão graves assuntos. No máximo
posso lhe dizer, em homenagem ao apelo de seu post scriptum, que dá trabalho ficar
horas a fio diante de uma tela, maquinando crônicas, contos, ameaças de novelas ou
romances. Ganha-se mais pegando um cinema, assistindo a um concerto,
colecionando cismares baldios. Já que isso de inspiração é como visita de médico, um
aprendiz de escriba tem de penar na dura estiva de desembarcar idéias no teclado,
dispô-las numa ordem razoável, dotá-las de algum ritmo, garimpar à procura da
palavra precisa, da exata expressão, do claro conceito. Deve ter a humildade da
autocrítica, a coragem de podar trechos inteiros, a infinita paciência de recomeçar.
Deve ainda dominar cada armadilha do idioma, manter-se em boas relações com
entidades que atendem por nomes desgraciosos, tipo ênclise, próclise, mesóclise, para
ficar só nessas. Embora os gregos tenham esgotado há milênios todas as situações
dramáticas imagináveis, é essencial ousar a criação de algo novo, de original, de
único. Mister também é ser disciplinado, obstinado quase. Provocar os demônios
interiores em horas determinadas, ou em cada fiapo do tempo disponível. É não
desistir quando um branco se instala em sua mente e você percebe que nenhum
pensamento, nenhuma emoção, fantasia alguma circula nesse vácuo, por mais que
tente convocá-los à ponta de seus dedos.

Se nada disso o assusta, Dr. N., bem-vindo ao clube. Bem-vindo ao clube dos que
escrevem não porque sonham com fama ou fortuna. Não porque os tente a fútil
vaidade do elogio fácil. Não porque os atraia o falso brilho de um fardão. Bem-vindo
ao clube dos que escrevem talvez por teimosos. Ou, quem sabe, porque nenhum outro
talento lhes foi dado.

Tão-só essa tola compulsão de iluminar por instantes com um foco, uma lâmpada,
uma centelha a isso que chamam de condição humana.
Nesta crônica queremos sublinhar o penoso esforço despendido no ato de escrever e
a obstinação exigida. Eis as passagens.

"... dá trabalho ficar horas a fio diante de uma tela (...) Ganha-se mais pegando
um cinema (...)"
"...um aprendiz de escriba tem de penar na dura estiva de desembarcar idéias no
teclado (...)"
"Mister também é ser disciplinado, obstinado quase. Provocar os demônios
interiores em horas determinadas, ou em cada fiapo do tempo disponível. É não
desistir quando um branco se instala em sua mente (...)"
"Deve ter a humildade da autocrítica, a coragem de podar trechos inteiros, a
infinita paciência de recomeçar."

Vê-se, pois, que o ofício de escritor não é tarefa fácil, não é uma simples questão de
inspiração (que é "como visita de médico", segundo o cronista). Depende, como já
dissemos, da "transpiração", isto é, do trabalho, do esforço na "dura estiva de
desembarcar idéias no teclado."

No mundo das vírgulas

Nilson Souza (Zero Hora, 1º/9/1994)

Tive outro dia uma conversa com acadêmicos de Comunicação da PUC e notei certa
ansiedade da garotada em relação a uma rotina da vida jornalística, que é a
obrigatoriedade de escrever sob a pressão do horário e nos limites do espaço
disponível. Tentei tranqüilizá-los: sempre é possível e, com a prática, todo o mundo
consegue, não é preciso ter nenhum dom especial. Difícil mesmo é escrever bem. Para
isso, não basta ter tempo, espaço ou vontade; é necessário, acima de tudo,
persistência. Nunca tive a pretensão de orientar ninguém sobre esta matéria, até
mesmo porque também suo diariamente para dar uma forma apresentável a meus
textos - e nem sempre consigo. Mas recolhi das leituras da madrugada (leiam, leiam,
leiam, mas também procurem escrever e submeter o texto à apreciação de leitores
qualificados!) alguns ensinamentos que agora retransmito, na esperança de que sejam
úteis a quem se interessa pelo tema.

O primeiro deles é de Isaac Bashevis Singer, para quem o melhor amigo do escritor é
a lata de lixo. Pode parecer um tanto desestimulante, mas é um admirável conselho.
Lembra que a boa redação - aliás, como tudo na vida - só pode ser alcançada com
humildade, com o reconhecimento da má obra. Fazer, cortar e refazer repetidamente:
este é o ciclo. Trabalhoso, mas necessário. O que é escrito sem esforço, disse Samuel
Johnson, geralmente é lido sem prazer.

O escritor tem que se preocupar com os mínimos detalhes de sua obra, e


especialmente com estes. Tom Campbell andou certa vez dez quilômetros até a
gráfica que imprimia um dos seus livros (e dez quilômetros de volta) para mudar uma
vírgula num ponto e vírgula. E é exatamente nas vírgulas que tropeçam os redatores
iniciantes, separando o que não deve ser separado e unindo o que não pode estar
junto. A pontuação é o cimento do texto. Querem um exemplo? Leiam a historinha
abaixo, que retirei de uma coletânea de pensamentos de Mansour Challita:

Foi encontrado o seguinte testamento: "Deixo os meus bens à minha irmã não a meu
sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres". Quem tinha direito
ao espólio? Eram quatro os concorrentes. O sobrinho assim pontuou o texto: "deixo
os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do
alfaiate. Nada aos pobres". A irmã pontuou assim: "deixo os bens à minha irmã. Não
ao meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres." O alfaiate
fez a sua versão. "Deixo os bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será
paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres". O procurador dos pobres pontuou assim:
'Deixo os meus bens à minha irmã? Não! Ao meu sobrinho? Jamais! Será paga a
conta do alfaiate? Nada! Aos pobres!".

O anônimo moribundo, como podem perceber os leitores, não era um bom redator. Ou
então tinha - por motivos óbvios - a pressa dos jornalistas nos minutos que precedem
ao fechamento da edição.

Na crônica, Nilson Souza reforça uma idéia já referida neste "Guia de Produção
Textual". Para escrever com desenvoltura "não é preciso ter nenhum dom especial", e
indica o caminho "leiam., leiam, leiam, mas também procurem escrever e submeter o
texto à apreciação de leitores qualificados". Atente-se, assim, para a ordem: em primeiro
lugar está a leitura inteligente (conforme ponto de vista exposto no capítulo "Como
desenvolver a competência textual"); depois, a prática.

O cronista reforça igualmente idéias referidas na crônica anterior - a autocrítica e a


obstinação que devem caracterizar o escritor - ao citar que "o melhor amigo do escritor
é a lata de lixo".

Também há referência ao esforço que é despendido na construção do texto: "Fazer,


cortar e refazer repetidamente: este é o ciclo. Trabalhoso, mas necessário". A propósito,
em outra ocasião o mesmo cronista escreveu que "Um texto se constrói, às vezes
lentamente, muitas vezes penosamente, raras vezes facilmente", o que enfatiza o
pensamento de Samuel Johnson, que disse que "o que é escrito sem esforço é lido sem
prazer".

Por oportuno, transcrevemos também mais este texto do mesmo cronista e jornalista.

Escrever é reescrever

Nilson Souza (Zero Hora, 31-12-1990)

Qualquer pessoa pode redigir desde que tente para valer. O difícil é reler até nada
mais ter para cortar ou acrescentar. A mensagem deve permanecer clara.

Primeiro, é preciso saber que o universo reservou um lugar certo para cada palavra
e só ali ela faz sentido. Como disse Voltaire, uma palavra posta fora do lugar
estraga o pensamento mais bonito.

Mas ninguém nasce com esta clarividência. Um texto se constrói, às vezes


lentamente, muitas vezes penosamente, raras vezes facilmente. Depende do
esforço do construtor. E de sua persistência para refazer a obra quando ela
desabar, seja por insuficiência de alicerce cultural, seja por causa de desvios
temáticos ou de implosões gramaticais.

Qualquer pessoa consegue escrever, desde que tente para valer. Talento natural
existe e ajuda, mas não é tudo.

Uma boa maneira de começar é selecionar o que se tem a dizer e para quem. A
partir daí, da forma mais simples e direta possível, narra-se o fato. Com as
palavras que vierem à cabeça. Até que se esgotem. Depois, sim, começa a tarefa
mais trabalhosa: reler uma, duas, tantas vezes quantas forem necessárias. E ir
retirando, sem autocomiseração, tudo o que parecer duvidoso, exagerado, sem
graça nem sentido. Se não sobrar nada, começa-se de novo. Se sobrar muito,
talvez seja melhor fazer outra leitura.

Quando não houver mais nada para acrescentar ou tirar, e a mensagem principal
permanecer clara, o texto está pronto.

Parece simples, mas dói um bocado. Só que não tem outro jeito.

Com bastante freqüência encontramos escritores que se debruçam sobre o próprio


ofício, para tecer considerações a respeito, expressando sua sistemática de trabalho, a
postura diante da construção do texto, suas ansiedades, o penoso esforço de garimpar a
palavra precisa, o caminho que percorreram para construírem-se como escritores. Por
isso, numerosos outros textos poderiam ser aqui anexados. Pensamos, no entanto, que,
por ora, são suficientes os que foram transcritos, e deles já se pode esboçar uma teoria
acerca da produção textual, expressa mediante o "decálogo" a seguir.

1. Qualquer pessoa consegue escrever, desde que tente para valer. (Nilson Souza)
2. Talento natural existe e ajuda, mas não é tudo. (Nilson Souza)
3. O ato de escrever é uma seqüela do ato de ler. ( Moacyr Scliar)
4. Quando se começa, plagiar não faz não mal nenhum. ( Moacyr Scliar)
5. Um aprendiz de escrita tem de penar na dura estiva de desembarcar idéias no
teclado. ( Liberato Vieira da Cunha)
6. Deve ter a humildade da autocrítica, a coragem de podar trechos inteiros, a
infinita paciência de recomeçar. ( Liberato Vieira da Cunha)
7. E não desistir quando um branco se instala em sua mente. ( Liberato Vieira da
Cunha)
8. O melhor amigo do escritor é a lata de lixo. (Isaac Bashevis Singer)
9. O que é escrito sem esforço é lido sem prazer. (Samuel Johnson)
10. Um texto se constrói, as vezes lentamente, muitas vezes penosamente, raras
vezes facilmente. (Nilson Souza)
Isso "dói um bocado. Só que não tem outro jeito." Mas escrever é uma atividade
que vale a pena. Não para sonhar com a fama e a fortuna. Mas pela "compulsão de
iluminar por instantes com um foco, uma lâmpada, uma centelha a isso que chamam
de condição humana."

Como iniciar textos

1. Introdução

A forma como se inicia um texto - e o próprio título - são importantes estratégias


argumentativas na medida em que é decisiva no sentido de levar o leitor a ler o texto.
De nada adiantam os argumentos, a relevânica do conteúdo, ou a própria
informatividade, se o leitor não for persuadido a ler o que foi escrito. O esforço do
escritor deve se concentrar, pois, em captar o interesse do destinatário de sua
comunicação mediante um título e uma introdução atraente. "Te pego pela palavra",
dizemos quando queremos cobrar de alguém coerência ou a manutenção da palavra
dada. "Te pego pela introdução" - podemos parodiar - para retratar o principal empenho
de quem escreve, que é de conquistar o leitor.

2. Fórmulas para iniciar textos

A seguir, apresentam-se doze fórmulas - as que se julgou mais comuns - para se


iniciar textos.

2.1 Divisão

Consiste em citar os aspectos que serão abordados ao longo do texto. É uma fórmula
bastante empregada, que facilita a organização do que se vai expor.

Cuidado especial merece a retomada dos pontos mencionados nesse tipo de


introdução no desenvolvimento do texto. Expressões do tipo "Quanto ao primeiro item",
"No que tange ao...", "Finalmente, no que diz respeito..." vão dar coesão ao texto.

Exemplos:

A falta que faz a leitura

Quando assumi o cargo de Editor de Qualidade no JB, em 1º de outubro de 1995


(deixei-o em 15 de outubro de 1996, para tornar-me, com grande alegria para mim, um
auxiliar do velho amigo Orivaldo Perin no trabalho de dar forma final à 1ª página), tinha
três preocupações básicas: 1. o empobrecimento da linguagem de jornal; 2. a
vulgarização da linguagem de jornal; 3. a correção dessa mesma linguagem.

A característica básica do empobrecimento é a preguiça, a falta de imaginação ou de


originalidade, e, finalmente, a falta de informação literária ou de intimidade com o
idioma, pois (...)

Vamos ao segundo item, a vulgarização da linguagem, que busquei combater sempre


nos relatórios a que minha função de Editor de Qualidade me obrigava.

Marcos de Castro
Revista de Comunicação, maio, 97

Os meus medos

Tenho vários medos.

Escuro, cachorro, ficar sozinho.

Tenho medo do escuro, porque acho que vai aparecer alguma coisa, tipo
assombração, algum bcho poderá me morder e eu não saber que tipo de bicho foi.

Tenho medo de cachorro porque já fui mordido e precisei tomar várias injeções. Não
quero que isso aconteça novamente.

De ficar sozinho: tenho medo de aparecer ladrão, roubar a minha casa, me seqüestrar
ou me matar.

Poucos medos, né? Mas muito ruins, fora o cachorro.

Willian S. Buchiviese
5ª série

2.2 Citação Direta

A citação direta é a reprodução literal do que alguém falou ou escreveu.

Trata-se de uma fórmula que pode ser bastante importante e, ao mesmo tempo, uma
importante estratégia argumentativa, uma vez que invoca, já no início do texto, a voz da
autoridade.

Exemplos:
A invenção da infância

"Você sabe mais do que pensa." Com essas seis palavras, Benjamin Spock iniciou Meu
Filho, Meu Tesouro - e alterou radicalmente a criação dos filhos. Spock, porém, cedeu a
primazia revolucionária ao bispo morávio Johann Amos Comenius, que viveu 300 anos
antes. Quando aconselhou em A Escola da Infância que os bebês tivessem seus espíritos
estimulados por "beijos e abraços" e escreveu que as crianças precisam brincar para
aprender, Comenius se tornou um pioneiro.

Veja - Especial do Milênio

Mais amigável

"Os computadores não são máquinas simpáticas", diz o canadense Sidney Fels,
professor da Universidade da Colúmbia Britâncica. "Poucos consegum interagir com o
micro com a mesma intimidade com que um pintor usa um pincel." Em busca de uma
melhor interação, o cientista desenvolveu o Glove Talk, uma espécie de luva feita por
realidade virtual que é capaz de transformar sons em linguagem de sinais, usada por
sudos-mudos. Fels também é o inventor do Iamascope, um caleidoscópio que identifica
o rosto do usuário e toca melodias conforme este se movimenta.

Época
29 de junho de 1998

"O cliente é rei!", afirma John Wanamaker, fundador da grande cadeia de lojas que leva
seu nome, "o cliente é ditador", acrescenta Sir Richard Greennsbury, diretor-executivo
da Mrak & Spencer, "o cliente é Deus"", finaliza Michael Dell, diretor-executivo da
Dell Computer Corporation - e todas as empresas querem ter mais clientes. Muitas
empresas, no mundo e no Brasil, criam mecanismos para satisfazer os clientes que já
possuem.

Revista Amanhã - agosto de 1998

2.3 Citação Indireta


É a reprodução não-literal do que alguém falou ou escreveu. A fórmula deve ser
usada quando não sabemos textualmente a citação, pois assim não estaremos
adulterando o que foi dito ou escrito, acrescentando, subtraindo ou substituindo palavras
de seu autor.

Exemplo:

Ser ou não

Disse Alexandre Dumas que Shakespeare, depois de Deus, foi o poeta que mais criou.
Aos 37 anos, já escrevera 21 peças e inventara uma forma de soneto. Era um rico
proprietário de terras e sócio do Globe Theatre, de Londres. Suas peças eram
representadas regularmente para a rainha Elizabeth I. Na Tragégia de Hamlet, Prícipe
da Dinamarca, publicada em 1603, Shakespeare superou a si mesmo, tomando uma
antiga história escandinava de fraticídio e vingança e transformou-a numa tragédia
sombria sobre a condição humana, traduzida quase 1000 vezes e encenada sem cessar.
Sarah Bernhardt, John Gielgud, Laurence Olivier, John Barrymore e Kenneth Branagh,
todos buscaram entender o melancólico dinamarquês.

Veja - especial do Milênio

2.4 Pergunta

Iniciar o texto mediante pergunta(s) desperta a atenção, o interesse do leitor para o


tema, levando-o a refletir sobre ele.

A(s) pergunta(s) orienta(m) o desenvolvimento do texto, todo seu processo


argumentativo.

Exemplos:

Onde estão os melhores programas da TV a cabo? Que programas merecem que se


reserve um bom tempo para a televisão? Quais as diferenças entre canais que oferecem
programação do mesmo gênero? Onde encontrar bons documentários, filmes inéditos,
notícias ao vivo, transmissões esportivas? A equipe da revista da TV sentou-se na frente
da televisão, de controle remoto em punho, e apresenta este número especial, concebido
como um guia da TV que os gaúchos assinam.

Que ninguém se enrosque nos cabos, nas antenas ou na informação. Televisão por
assinatura é toda modalidade que se paga pra acessar. (...)
Zero Hora, 27 de junho de 1999

Adiós, Neruda

Poeta chileno não serve mais nem para arranjar namorada

Sabe aquele Neruda que você me tomou - e nunca leu? Pode ficar com ele. O tempo
mostrou que o chileno Pablo Neruda foi um poeta interessante, mas não um dos maiores
da língua espanhola. Atingiu cedo o auge, com Residência na Terra (1925-1931), mas
nas outras 7000 páginas que se gabava de ter escrito mais diluiu do que refinou esse
êxito. Tratava-se também de uma personalidade notável, só que pelo narcisismo e pelo
dogmatismo político. Escreveu que Stalin era "mais sábio que todos os homens juntos".
Jamais aceitou que o assassinato de milhões pela ditadura soviética pudesse ter algo de
criminoso.

Veja - 12 de setembro de 1998

O armazenamento de ódios

Como descrever a atual configuração do poder mundial? Desapareceu a terrível


simplicidade do conflito bipolar leste-oeste, mas não voltamos ao mundo multipolar do
balanço europeu no século passado, quando várias potências competiam pela liderança.
Existe hoje uma única superpotência - Os Estados Unidos - com poderio global,
político, militar, econômico e cultural. Mas seria exagero falar num mundo unipolar,
como nos tempos do Império Romano, o qual podia impor sua vontade sem buscar ou
temer coligações.

Veja - 28 de abril de 1999

2.5 Frase Nominal

Uma fórmula bastante criativa de se iniciar textos é mediante o emprego de uma ou


mais frases nominais, seguida(s), em geral, de uma explicação.

Exemplos:
Decepção. Foi o que os moradores de Pelotas e distritos sentiram após o anúncio do
plano rodoviário do governo do Estado para 1999. Nenhuma das estradas com a
conclusão prevista para este ano passa pelo município. (...)

Zero Hora - 30 de maio de 1999

Garra. Determinação. Entusiasmo. Esse é o espírito que parece estar de volta ao


Estádio Olímpico. Desde os tempos de Felipão como técnico do tricolor não se via um
time com tanto afinco no gramado do Olímpico.

Zero Hora - 21 de junho de 1999

Com respeito e dedicação. É dessa forma que você e seus investimentos serão
tratados no Citigold.

Anúncio do CITYBANK - Exame, 30 de junho de 1999

ADÚLTERA, MÁ COMPANHEIRA, TRAIDORA... ZÁS!! Lá se ia um nariz. Entre


os séculos V e VI, as mulheres indianas (sempre as mulheres...) que eram julagadas por
prevaricação tinham os narizes amputados. Essa atrocidade machista levou um cirurgião
chamado Susruta a usar um retalho de pele retirado da testa para reconstruir o nariz. A
técnica é utilizada até hoje para algumas cirurgias reconstrutoras e é chamada de retalho
indiano.

De lá para cá, muita coisa mudou. Mas, se a questão não é mais acabar com a
máfama, muita gente sofre por causa de um nariz desproporcional ao rosto.
Revolucionário, vencedor e grande companheiro. Palavras como estas foram ditas
com orgulho, saudade e muita emoção pelos vários amigos que compareceram ontem à
capela do Beira-Rio para o velório de Gilberto Tim, enterrado à tarde no Cemitério
Jardim da Paz, na Lomba do Pinheiro.

Zero Hora, junho de 1999

2.6 Alusão a um romance, filme, conto, etc.

Escrever é aproveitar criativamente outros materiais interdiscursivos, isto é, outros


textos. É muito comum, portanto, ao escrevermos sobre determinado assunto, nos
reportamos a outros textos, como romances, filmes, contos, poemas, etc.

Exemplos:

Fui ao cinema ver Michelle Pfeifer em Nas Profundezas do Mar sem Fim, que conta
a história de uma mãe que perde um de seus filhos, de três anos, num saguão de hotel e
só volta a encontrá-lo nove anos mais tarde. O roteiro preguiçoso resultou num filme
raso, mas uma frase dita pela personagem de Whoopi Goldberg me trouxe até aqui.
Depois de todos os abalos familiares decorrentes do desaparecimento do filho do meio,
a mãe vivida por Michelle Pfeifer se refaz e constrói, aos poucos, o que a detetive vivida
por Whoopi chama de "uma boa imitação de vida".

Pessoas que passam por uma grande tragédia pessoal têm vontade de dormir para
sempre. Nos dias posteriores ao fato, não encontram forças para erguer uma xícara de
café ou pentear o cabelo. Sorrir passa a ser um ato transgressor, que gera uma culpa
imensa, pois é como estivéssemos nos curando do sofrimento. Passada a fase de
hibernação voluntária, porém, é isso que tem que acontecer: curar-se. Voltar a viver.
Mas como, se já não existe a alegria original? Rastreando a alegria perdida para tentar
imitá-la.

Zero Hora, 20 de julho de 1999


Martha Medeiros
Na mitologia grega, Prometeu é o titã que rouba o fogo dos deuses e é por eles
condenado a um suplício eterno. Preso a uma rocha, uma águia devora-lhe
constantemente o fígado. Trata-se de uma lenda altamente simbólica e aplicável à época
atual. O fogo aí alude ao conhecimento, à técnica. Por esse conhecimento, por essa
técnica, paga o ser humano um preço às vezes muito alto. Isso é particularmente
verdadeiro no campo da medicina, sustenta, em artigo publicado no New England
Journal of Medicine, o geriatra James S. Goodwin (Universidade do Texas).

Zero Hora, 12 de julho de 1999


Martha Medeiros

2.7 Narração - descrição por flashes

Introduzir um texto narrando - descrevendo um fato, uma cena de forma


cinematográfica, mediante flashes, isto é, mediante frases curtas, nominais é uma forma
bastante surpreendente de obter a atenção do leitor, fazendo com que ele se interesse
pelo texto.

Exemplos:

Chegam à casa ao entardecer. São um pequeno grupo de policiais. Todos


uniformizados. Passeiam pela sala e olham a biblioteca. Riem com sarcasmo. Pegam o
livro História da Diplomacia. "Assim que os kosovares descendentes de albaneses
também querem ser diplomatas?" Mudam o tom da conversa. Gritam. "Nos dê chaves",
exigem. "Pegue uma mala", ordenam. "Deixa o resto. Tens 10 minutos. Logo irás para a
Albânia e nunca mais voltarás. Nem sequer poderás voltar a sonhar com Kosovo",
profetizam.

Zero Hora, 16 de junho de 1999


Martha Medeiros

Favela. Clima tenso no ar. Polícia. Tiroteio, desespero. Angústia, apreensão. Uma
vítima: menino, 13 anos de idade, sonhador.
Daniel lemos
2.8 Narração de um fato

Pode-se desenvolver determinado tema iniciando-se o texto com a menção a um fato.


Tal procedimento ajuda a despertar a atenção do leitor, ao mesmo tempo em que
empresta ao tema exposto maior realismo.

Exemplos:

A nave se prepara para pousar. Da escotilha enxerga-se o solo arenoso e acidentado


da Lua. É dia. O Sol brilha, intenso e dourado, como você o vê aqui da Terra, só que
cercado de estrelas, num céu completamente negro. É que na Lua não existe atmosfera
e, sem atmosfera, não tem os gases que, espalhando a luz solar, nos dão a ilusão de que
o céu é azul. Na Lua, o firmamento é sempre escuro. A nave se aproxima ainda mais.
Dá para ver, lá em baixo, jipes e robôs que zanzam pelas colinas. Homens vestindo
macacões super-refrigerados e capacetes com oxigênio caminham pela planície como
que em câmera lenta. É que lá a gravidade é uma lei mais fraca, mal corresponde a um
sexto da gravidade que nos prende à Terra. O foguete pousa suavemente. Os passageiros
se preparam para desembarcar. Colocam suas roupas com proteção térmica. Fora da
cúpula protetora da primeira colônia terráquea, a temperatura atinge esturricantes 123
gruas Celsius.

A cena descrita acima não é real, claro. Mas poderá ser. Já há cientistas da Nasa
sonhando com ela, estimulados pela descoberta de que os pólos lunares contêm água
congelada. Os primeiros cálculos sobre as observações da sonda Lunar Prospector, em
março passado, mostram que o fundo das gélidas crateras polares guarda entre 11
bilhões e 330 bilhões de litros de água congelada. Derretido e purificado, o gelo serviria
para matar a sede de mais 200 mil habitantes de uma base lunar por dois séculos. E
também serviria de fonte de oxigênio, elemento indispensável para criar uma atmosfera
artificial.

Paulo Nilson

O número de processos aumentou sete vezes em apenas uma década

Na sala de cirurgia, o médico Pedro Paulo Monteleone prepara-se para retirar o útero
de Rosa Gonçalves Dias. Ás 7 horas da manhã, a paciente teve o intestino lavado e os
pêlos pubianos raspados. Anestesia peridural que corta qualquer sensibilidade da cintura
para baixo, faz efeito. Como Rosa tivera seus três filhos por meio de cesariana,
Monteleone abre 12 centímetros de pele logo acima do púbis, no mesmo local dos
cortes anteriores, para evitar uma nova cicatriz. É trabalhoso chegar até o útero. O
médico corta uma primeira camada de gordura, abra à aponeurose, um tecido fino que
envolve toda a cavidade abdominal, afasta os músculos peritoniais, e alcança o
intestino. A cada etapa, grampos metálicos são colocados nas bordas das incisões para
manter os órgãos afastados. O intestino é empurrado, com uma compressa, em direção
ao umbigo. Em meia hora, o médico já enxerga bem o útero da paciente. A fase mais
crítica da cirurgia começa agora. Com todo o cuidado, Monteleone corta os ligamentos
que unem as trompas ao útero. Quando a paciente está deitada, a bexiga fica apoiada
sobre o útero. É preciso afastá-lo com uma gaze, lentamente, e ir cortando com uma
pequena tesoura os pedaços de tecido que unem as finas paredes dos dois órgãos. É
como abrir um envelope, descolando as bordas, sem rasgar o papel. Monteleone sabe
que qualquer corte 1 milímetro mais profundo pode perfurar a bexiga. Foi exatamente
isso que aconteceu naquela manhã de agosto de 1994. O médico Monteleone furou a
bexiga de sua paciente Rosa.

Monteleone, 58 anos, obstetra e ginecologista há 33, é formado em uma das


melhores universidades do país, a Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal
de São Paulo, onde também foi professor durante três décadas. Naquela manhã, ao
perceber que tinha cortado a bexiga de Rosa, parou o que estava fazendo. Pediu fio e
agulha apropriados à instrumentadora, costurou o órgão afetado com cinco pontos e só
depois prosseguiu na retirada do útero. Duas horas mais tarde, quando a paciente já
estava no quarto, ainda levemente sedada, o médico explicou-lhe o que ocorrera durante
a operação. Se não fosse pelo rompimento da bexiga, Rosa teria alta do hospital em
menos de 24 horas. Em razão do acidente, ela ficou com uma sonda e a internação foi
prolongada por uma semana, até a ferida interna cicatrizar. Hoje, acadêmico renomado e
profissional de sucesso, Monteleone preside o Conselho Regional de Medicina de São
Paulo, Cremesp. Por sua mesa, na sede da entidade, passam quilos de papéis repletos de
acusações graves contra seus colegas de profissão. São casos de erro médico. Em uma
década, o número de processos por negligência ou imperícia encaminhados anualmente
ao Conselho Federal de Medicina, CFM, a última instância por onde passam processos
vindos de todo o Brasil, aumentou sete vezes. Ao todo, foram 356 processos . O número
de condenados caiu porque o Conselho diz que não consegue julagr tantos casos. Há
200 na fila de espera.

Alexandre Mansur

2.9 Citação de Provérbio

O provérbio é utilizado, muitas vezes, como estratégia argumentativa, para sustentar


o ponto de vista que se pretende defender ao longo do texto.

Exemplos:
"Querer é poder", diz o ditado. Mas, em ciência a voz do povo muitas vezes está
errada. Há 130 anos os cientistas querem encontrar um substituto para o sangue que,
como ele, transporte o oxigênio para as células."

Lúcia Helena de Oliveira, revista Superinteressante, junho de 1998

2.10 Alusão Histórica

Para iniciar textos, pode-se lançar mão de fatos históricos, confrontando-os com o
presente.

Exemplos:

Imitação de Jânio

Itamar usa a oposição para espicaçar FHC

Em 1961, o então presidente da república Jânio Quadros condecorou o guerrilheiro


esquerdista Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Como Jânio não rezava pela
cartilha marxista, na época muitos acharam que, ao tomar a decisão, ele estivesse duas
doses a mais do que o resto da humanidade. Não estava. Ao homenagear Che Guevara,
Jânio queria alvejar os adversários da direitista UDN, o partido que o ajudara a ser eleito
e com o qual havia rompido. O tiro janista saiu pela culatra, mas a madalha concedida
ao guerrilheiro entrou para a História como um clássico da provocação política. Quase
quarenta anos depois, o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, resolveu imitar
Jânio. No dia de Tiradentes, em Ouro Preto, o socialista de estilo montanhês distribuiu
medalhas da Inconfidência, a mais alta honraria do governo mineiro, a personalidades
da opisição. Só para espicaçar o presidente Fernando Henrique Cardoso, seu desafeto.

Veja, 28 de abril de 1999

Diplomacia americana usa como parceiro o míssil que atinge um alvo em qualquer
região do planeta

No início do século, com os Estados Unidos recém-chegados ao time das potências


internacionais, o presidente Teddy Roosevelt adotou a doutrina do porrete - "big stick",
no inglês original - para impor a hegemonia americana aos vizinhos latino-americanos.
Na essência, significava que Washington tinha disposição para desembarcar seus
mariners onde quer que seus interesses fossem desafiados. Quase 100 anos depois, Bill
Cinton escolheu como seu melhor argumento diplomático uma bomba voadora que
pode atingir virtualmente qualquer alvo na superfície do planeta. O nome do porrete é
Tomahawk. Na semana passada, com Saddam Hussein desafiando outra vez as Nações
Unidas, o Tomahawk estava como nunca na ordem do dia.

Veja, 18 de novembro de 1998

2.11 Omissão de Dados Identificadores

Trata-se de iniciar um texto omitindo o tema nas primeiras linhas ou em todo o


primeiro parágrafo, esclarecendo-o em seguida. Cria-se, assim, certa expectativa em
relação ao que será abordado.

Exemplos:

Ilegal, Imoral ou Irracional?

Tente responder às questões abaixo:

a) O seu consumo é expressamente condenado no Antigo Testamento.

b) Os consumidores desta substância foram ameaçados de excomunhão pelo papa


Urbano VII.

c) As pessoas que o usavam eram sumariamente condenadas à morte pelo sultanato


turco no século 17.

De que estamos falando? De cocaína, de heroína, de crack? Não. A resposta à


terceira pergunta é: tabaco. A resposta à segunda: rapé. E a resposta à primeira é carne
de porco.

Nos três casos, a condenação resultou principalmente de razões morais. Podemos


falar, mais apropriadamente, de tabu.

Moacyr Scliar

"Elas já foram finíssimas, como as de Greta Garbo e da top model Twiggy. Ou


médias, como as das divas Audrey Hepburn e Marilyn Monroe. Nos anos 90 já num
tamanho intermediário e com desenho recurvado. As sombrancelhas afinam e
engrossam conforme a moda..."

Marília Cecília Prado, Elle, abril de 1998

Está sempre rondando todos nós. Chega pelo ar e muitas vezes faz tantas vítimas que
se constitui em uma epidemia. Estamos falando de uma moléstia comum, reincidente,
chata: a gripe ou resfriado. Na linguagem médica, os termos se equivalem. Mas o uso
consagrou o nome gripe para designar a doença mais intensa. Mas a pergunta que atinge
a todos é: como podemos nos defender? O resfriado é uma infecção respiratória aguda
causada por vírus específicos.

Super Interessante, setembro de 1990

2.12 Declaração

Uma declaração forte lançada no início do texto surpreende o leitor, desperta seu
interesse e pode levá-lo facilmente à leitura.

Exemplos:

Exagero na dose

É meritório o esforço do Ministério da Saúde para prevenir a transmissão da Aids


entre usuários de drogas injetáveis. A mais recente campanha com tal fim, no entanto,
exagera na dose ao apelar a imagens como a de papel higiêncico, absorvente feminino e
preservativo usados. A intensão é fazer uma associação direta com os perigos do
compartilhamento de seringas descartáveis, fato responsável por um terço dos casos da
doença registrados em Porto Alegre. Ao chocar o público-alvo pela crueza da temática,
porém, os cartazes da campanha correm o risco de agredi-lo moralmente e afastá-lo dos
programas de prevenção.

Zero Hora, 27 de junho de 1999


A marca do século é a comunicação. O diretor-presidente da RBS, Nelson Pacheco
Sirotsky, provou sua afirmação no último dia do 12º Festival Mundial de Publicidade de
Gramado com imagens, gravações antológicas do rádio brasileiro, trilha sonora de
cinema e história da evolução dos meios de comunicação em quase cem anos. Começou
com o código morse e desembarcou no ciberespaço da Internet.Tudo para indicar que o
avanço dos meios intensificou as relações interpessoais. A grande produção, em estilo
road-movie e exibida por quase uma hora, atraiu a platéia recorde do principal evento
do setor na América Latina, que começou na última quarta-feira.

Zero Hora, 12 de junho de 1999

Como Estruturar um Texto Argumentativo

1. O texto argumentativo

COMUNICAR não significa apenas enviar uma mensagem e fazer com que nosso
ouvinte/leitor a receba e a compreenda. Dito de uma forma melhor, podemos dizer que
nós nos valemos da linguagem não apenas para transmitir idéias, informações. São
muito freqüentes as vezes em que tomamos a palavra para fazer com que nosso
ouvinte/leitor aceite o que estamos expressando (e não apenas compreenda); que creia
ou faça o que está sendo dito ou proposto.

Comunicar não é, pois, apenas um fazer saber, mas também um fazer crer, um fazer
fazer. Nesse sentido, a língua não é apenas um instrumento de comunicação; ela é
também um instrumento de ação sobre os espíritos, isto é, uma estratégia que visa a
convencer, a persuadir, a aceitar, a fazer crer, a mudar de opinião, a levar a uma
determinada ação.

Assim sendo, talvez não se caracterizaria em exagero afirmarmos que falar e


escrever é argumentar.

TEXTO ARGUMENTATIVO é o texto em que defendemos uma idéia, opinião ou


ponto de vista, uma tese, procurando (por todos os meios) fazer com que nosso
ouvinte/leitor aceite-a, creia nela.

Num texto argumentativo, distinguem-se três componentes: a tese, os argumentos e


as estratégias argumentativas.

TESE, ou proposição, é a idéia que defendemos, necessariamente polêmica, pois a


argumentação implica divergência de opinião.

A palavra ARGUMENTO tem uma origem curiosa: vem do latim


ARGUMENTUM, que tem o tema ARGU , cujo sentido primeiro é "fazer brilhar",
"iluminar", a mesma raiz de "argênteo", "argúcia", "arguto".
Os argumentos de um texto são facilmente localizados: identificada a tese, faz-se a
pergunta por quê? (Ex.: o autor é contra a pena de morte (tese). Porque ... (argumentos).

As ESTRATÉGIAS não se confundem com os ARGUMENTOS. Esses, como se


disse, respondem à pergunta por quê (o autor defende uma tese tal PORQUE ... - e aí
vêm os argumentos).

ESTRATÉGIAS argumentativas são todos os recursos (verbais e não-verbais)


utilizados para envolver o leitor/ouvinte, para impressioná-lo, para convencê-lo melhor,
para persuadi-lo mais facilmente, para gerar credibilidade, etc.

Os exemplos a seguir poderão dar melhor idéia acerca do que estamos falando.

A CLAREZA do texto - para citar um primeiro exemplo - é uma estratégia


argumentativa na medida em que, em sendo claro, o leitor/ouvinte poderá entender, e
entendo, poderá concordar com o que está sendo exposto. Portanto, para conquistar o
leitor/ouvinte, quem fala ou escreve vai procurar por todos os meios ser claro, isto é,
utilizar-se da ESTRATÉGIA da clareza. A CLAREZA não é, pois, um argumento,
mas é um meio (estratégia) imprescindível, para obter adesão das mentes, dos espíritos.

O emprego da LINGUAGEM CULTA FORMAL deve ser visto como algo muito
es-tra-té-gi-co em muitos tipos de texto. Com tal emprego, afirmamos nossa autoridade
(= "Eu sei escrever. Eu domino a língua! Eu sou culto!") e com isso reforçamos, damos
maior credibilidade ao nosso texto. Imagine, estão, um advogado escrevendo mal ...
("Ele não sabe nem escrever! Seus conhecimentos jurídicos também devem ser
precários!").

Em outros contextos, o emprego da LINGUAGEM FORMAL e até mesmo


POPULAR poderá ser estratégico, pois, com isso, consegue-se mais facilmente atingir o
ouvinte/leitor de classes menos favorecidas.

O TÍTULO ou o INÍCIO do texto (escrito/falado) devem ser utilizados como


estratégias ... como estratégia para captar a atenção do ouvinte/leitor imediatamente. De
nada valem nossos argumentos se não são ouvidos/lidos.

A utilização de vários argumentos, sua disposição ao longo do texto, o ataque às


fontes adversárias, as antecipações ou prolepses (quando o escritor/orador prevê a
argumentação do adversário e responde-a), a qualificação das fontes, a utilização da
ironia, da linguagem agressiva, da repetição, das perguntas retóricas, das exclamações,
etc. são alguns outros exemplos de estratégias.

2. A estrutura de um texto argumentativo

2.1 A argumentação formal

A nomenclatura é de Othon Garcia, em sua obra "Comunicação em Prosa Moderna".

O autor, na mencionada obra, apresenta o seguinte plano-padrão para o que chama de


argumentação formal:
1. Proposição (tese): afirmativa suficientemente definida e limitada; não deve
conter em si mesma nenhum argumento.
2. Análise da proposição ou tese: definição do sentido da proposição ou de alguns
de seus termos, a fim de evitar mal-entendidos.
3. Formulação de argumentos: fatos, exemplos, dados estatísticos, testemunhos,
etc.
4. Conclusão.

Observe o texto a seguir, que contém os elementos referidos do plano-padrão da


argumentação formal.

Gramática e desempenho Lingüístico

1. Pretende-se demonstrar no presente artigo que o estudo intencional da gramática


não traz benefícios significativos para o desempenho lingüístico dos utentes de
uma língua.

2. Por "estudo intencional da gramática" entende-se o estudo de definições,


classificações e nomenclatura; a realização de análises (fonológica, morfológica,
sintática); a memorização de regras (de concordância, regência e colocação) -
para citar algumas áreas. O "desempenho lingüístico", por outro lado, é
expressão técnica definida como sendo o processo de atualização da
competência na produção e interpretação de enunciados; dito de maneira mais
simples, é o que se fala, é o que se escreve em condições reais de comunicação.

3. A polêmica pró-gramática x contra gramática é bem antiga; na verdade, surgiu


com os gregos, quando surgiram as primeiras gramáticas. Definida como "arte",
"arte de escrever", percebe-se que subjaz à definição a idéia da sua importância
para a prática da língua. São da mesma época também as primeiras críticas,
como se pode ler em Apolônio de Rodes, poeta Alexandrino do séc.II ª C.:

"Raça de gramáticos, roedores que ratais na musa de outrem, estúpidas


lagartas que sujais as grandes obras, ó flagelo dos poetas que mergulhais o
espírito das crianças na escuridão, ide para o diabo, percevejos que devorais os
versos belos".

4. Na atualidade, é grande o número de educadores, filólogos e lingüistas de


reconhecido saber que negam a relação entre o estudo intencional da gramática e
a melhora do desempenho lingüístico do usuário. Entre esses especialistas, deve-
se mencionar o nome do Prof. Celso Pedro Luft com sus obra "Língua e
liberdade: por uma nova concepção de língua materna e seu ensino" (L&PM,
1995). Com efeito, o velho pesquisar apaixonado pelos problemas da língua,
teórico de espírito lúcido e de larga formação lingüística, reúne numa mesma
obra convincente fundamentação para seu combate veemente contra o ensino da
gramática em sala de aula. Por oportuno, uma citação apenas:

"Quem sabe, lendo este livro muitos professores talvez abandonem a


superstição da teoria gramatical, desistindo de querer ensinar a língua por
definições, classificações, análises inconsistentes e precárias hauridas em
gramáticas. Já seria um grande benefício". (p. 99)

5. Deixando-se de lado a perspectiva teórica do Mestre, acima referida suponha-se


que se deva recuperar lingüisticamente um jovem estudante universitário cujo
texto apresente preocupantes problemas de concordância, regência, colocação,
ortografia, pontuação, adequação vocabular, coesão, coerência, informatividade,
entre outros. E, estimando-lhe melhoras, lhe fosse dada uma gramática que ele
passaria a estudar: que é fonética? Que é fonologia? Que é fonemas? Morfema?
Qual é coletivo de borboleta? O feminino de cupim? Como se chama quem
nasce na Província de Entre-Douro-e-Minho? Que é oração subordinada
adverbial concessiva reduzida de gerúndio? E decorasse regras de ortografia,
fizesse lista de homônimos, parônimos, de verbos irregulares ... e estudasse o
plural de compostos, todas regras de concordância, regências ... os casos de
próclise, mesóclise e ênclise. E que, ao cabo de todo esse processo, se voltasse a
examinar o desempenho do jovem estudante na produção de um texto. A
melhora seria, indubitavelmente, pouco significativa; uma pequena melhora,
talvez, na gramática da frase, mas o problema de coesão, de coerência, de
informatividade - quem sabe os mais graves - haveriam de continuar. Quanto
mais não seja porque a gramática tradicional não dá conta dos mecanismos que
presidem à construção do texto.

6. Poder-se-á objetar que o ilustração de há pouco é apenas hipotética e que, por


isso, um argumento de pouco valor. Contra argumentar-se-ia dizendo que
situação como essa ocorre de fato na prática. Na verdade, todo o ensino de 1° e
2° graus é gramaticalista, descritivista, definitório, classificatório,
nomenclaturista, prescritivista, teórico. O resultado? Aí estão as estatísticas dos
vestibulares. Valendo 40 pontos a prova de redação, os escores foram estes no
vestibular 1996/1, na PUCRS: nota zero: 10% dos candidatos, nota 01: 30%;
nota 02: 40%; nota 03: 15%; nota 04: 5%. Ou seja, apenas 20% dos candidatos
escreveram um texto que pode ser considerado bom.

7. Finalmente pode-se invocar mais um argumento, lembrando que são os


gramáticos, os lingüistas - como especialistas das línguas - as pessoas que
conhecem mais a fundo a estrutura e o funcionamento dos códigos lingüísticos.
Que se esperaria, de fato, se houvesse significativa influência do conhecimento
teórico da língua sobre o desempenho? A resposta é óbvia: os gramáticos e os
lingüistas seriam sempre os melhores escritores. Como na prática isso realmente
não acontece, fica provada uma vez mais a tese que se vem defendendo.

8. Vale também o raciocínio inverso: se a relação fosse significativa, deveriam os


melhores escritores conhecer - teoricamente - a língua em profundidade. Isso, no
entanto, não se confirma na realidade: Monteiro Lobato, quando estudante, foi
reprovado em língua portuguesa (muito provavelmente por desconhecer teoria
gramatical); Machado de Assis, ao folhar uma gramática declarou que nada
havia entendido; dificilmente um Luis Fernando Veríssimo saberia o que é um
morfema; nem é de se crer que todos os nossos bons escritores seriam aprovados
num teste de Português à maneira tradicional (e, no entanto eles são os senhores
da língua!).

9. Portanto, não há como salvar o ensino da língua, como recuperar


lingüisticamente os alunos, como promover um melhor desempenho lingüístico
mediante o ensino-estudo da teoria gramatical. O caminho é seguramente outro.

Gilberto Scarton

Eis o esquema do texto em seus quatro estágios:

Primeiro estágio: primeiro parágrafo, em que se enuncia claramente a tese a ser


defendida.

Segundo estágio: segundo parágrafo, em que se definem as expressões "estudo


intencional da gramática" e "desempenho lingüístico", citadas na tese.

Terceiro estágio: terceiro, quarto, quinto, sexto, sétimo e oitavo parágrafos, em


que se apresentam os argumentos.

Terceiro parágrafo: parágrafo introdutório à argumentação.


Quarto parágrafo: argumento de autoridade.
Quinto parágrafo: argumento com base em ilustração hipotética.
Sexto parágrafo: argumento com base em dados estatísticos.
Sétimo e oitavo parágrafo: argumento com base em fatos.

Quarto estágio: último parágrafo, em que se apresenta a conclusão.

2.2 A argumentação informal

A nomenclatura também é de Othon Garcia, na obra já referida.

A argumentação informal apresenta os seguintes estágios:

1. Citação da tese adversária


2. Argumentos da tese adversária
3. Introdução da tese a ser defendida
4. Argumentos da tese a ser defendida
5. Conclusão
Observe o texto exemplar de Luís Alberto Thompson Flores Lenz, Promotor de
Justiça.

Considerações sobre justiça e eqüidade

1. Hoje, floresce cada vez mais, no mundo jurídico a acadêmico nacional, a idéia
de que o julgador, ao apreciar os caos concretos que são apresentados perante os
tribunais, deve nortear o seu proceder mais por critérios de justiça e eqüidade e
menos por razões de estrita legalidade, no intuito de alcançar, sempre, o escopo
da real pacificação dos conflitos submetidos à sua apreciação.

2. Semelhante entendimento tem sido sistematicamente reiterado, na atualidade, ao


ponto de inúmeros magistrados simplesmente desprezarem ou desconsiderarem
determinados preceitos de lei, fulminando ditos dilemas legais sob a pecha de
injustiça ou inadequação à realidade nacional.

3. Abstraída qualquer pretensão de crítica ou censura pessoal aos insignes juízes


que se filiam a esta corrente, alguns dos quais reconhecidos como dos mais
brilhantes do país, não nos furtamos, todavia, de tecer breves considerações
sobre os perigos da generalização desse entendimento.

4. Primeiro, porque o mesmo, além de violar os preceitos dos arts. 126 e 127 do
CPC, atenta de forma direta e frontal contra os princípios da legalidade e da
separação de poderes, esteio no qual se assenta toda e qualquer idéia de
democracia ou limitação de atribuições dos órgãos do Estado.

5. Isso é o que salientou, e com a costumeira maestria, o insuperável José Alberto


dos Reis, o maior processualista português, ao afirmar que: "O magistrado não
pode sobrepor os seus próprios juízos de valor aos que estão encarnados na lei.
Não o pode fazer quando o caso se acha previsto legalmente, não o pode fazer
mesmo quando o caso é omisso".

6. Aceitar tal aberração seria o mesmo que ferir de morte qualquer espécie de
legalidade ou garantia de soberania popular proveniente dos parlamentos, até
porque, na lúcida visão desse mesmo processualista, o juiz estaria, nessa
situação, se arvorando, de forma absolutamente espúria, na condição de
legislador.

7. A esta altura, adotando tal entendimento, estaria institucionalizada a insegurança


social, sendo que não haveria mais qualquer garantia, na medida em que tudo
estaria ao sabor dos humores e amores do juiz de plantão.

8. De nada adiantariam as eleições, eis que os representantes indicados pelo povo


não poderiam se valer de sua maior atribuição, ou seja, a prerrogativa de editar
as leis.

9. Desapareceriam também os juízes de conveniência e oportunidade política


típicos dessas casas legislativas, na medida em que sempre poderiam ser
afastados por uma esfera revisora excepcional.

10. A própria independência do parlamento sucumbiaria integralmente frente à


possibilidade de inobservância e desconsideração de suas deliberações.

11. Ou seja, nada restaria, de cunho democrático, em nossa civilização.

12. Já o Poder Judiciário, a quem legitimamente compete fiscalizar a


constitucionalidade e legalidade dos atos dos demais poderes do Estado,
praticamente aniquilaria as atribuições destes, ditando a eles, a todo momento,
como proceder.

13. Nada mais é preciso dizer para demonstrar o desacerto dessa concepção.

14. Entretanto, a defesa desse entendimento demonstra, sem sombra de dúvidas, o


desconhecimento do próprio conceito de justiça, incorrendo inclusive numa
contradictio in adjecto.

15. Isto porque, e como magistralmente o salientou o insuperável Calamandrei, "a


justiça que o juiz administra é, no sistema da legalidade, a justiça em sentido
jurídico, isto é, no sentido mais apertado, mas menos incerto, da conformidade
com o direito constituído, independentemente da correspondente com a justiça
social".

16. Para encerrar, basta salientar que a eleição dos meios concretos de efetivação da
Justiça social compete, fundamentalmente, ao Legislativo e ao Executivo, eis
que seus membros são indicados diretamente pelo povo.

17. Ao Judiciário cabe administrar a justiça da legalidade, adequando o proceder


daqueles aos ditames da Constituição e da Legislação.

Luís Alberto Thompson Flores Lenz

Eis o esquema do texto em seus cinco estágios;

Primeiro estágio: primeiro parágrafo, em que se cita a tese adversária.

Segundo estágio: segundo parágrafo, em que se cita um argumento da tese


adversária "... fulminando ditos dilemas legais sob a pecha de injustiça ou
inadequação à realidade nacional".

Terceiro estágio: terceiro parágrafo, em que se introduz a tese a ser defendida.

Quarto estágio: do quarto ao décimo quinto, em que se apresentam os


argumentos.
Quinto estágio:os últimos dois parágrafos, em que se conclui o texto mediante
afirmação que salienta o que ficou dito ao longo da argumentação.

Como elaborar uma resenha

1. Definições

Resenha-resumo:
É um texto que se limita a resumir o conteúdo de um livro, de um capítulo, de um
filme, de uma peça de teatro ou de um espetáculo, sem qualquer crítica ou julgamento
de valor. Trata-se de um texto informativo, pois o objetivo principal é informar o leitor.

Resenha-crítica:
É um texto que, além de resumir o objeto, faz uma avaliação sobre ele, uma crítica,
apontando os aspectos positivos e negativos. Trata-se, portanto, de um texto de
informação e de opinião, também denominado de recensão crítica.

2. Quem é o resenhista

A resenha, por ser em geral um resumo crítico, exige que o resenhista seja alguém
com conhecimentos na área, uma vez que avalia a obra, julgando-a criticamente.

3. Objetivo da resenha

O objetivo da resenha é divulgar objetos de consumo cultural - livros,filmes peças de


teatro, etc. Por isso a resenha é um texto de caráter efêmero, pois "envelhece"
rapidamente, muito mais que outros textos de natureza opinativa.

4. Veiculação da resenha

A resenha é, em geral, veiculada por jornais e revistas.

5. Extensão da resenha

A extensão do texto-resenha depende do espaço que o veículo reserva para esse tipo
de texto. Observe-se que, em geral, não se trata de um texto longo, "um resumão" como
normalmente feito nos cursos superiores ... Para melhor compreender este item, basta ler
resenhas veiculadas por boas revistas.

6. O que deve constar numa resenha

Devem constar:

O título
A referência bibliográfica da obra
Alguns dados bibliográficos do autor da obra resenhada
O resumo, ou síntese do conteúdo
A avaliação crítica

7. O título da resenha

O texto-resenha, como todo texto, tem título, e pode ter subtítulo, conforme os
exemplos, a seguir:
Título da resenha: Astro e vilão
Subtítulo: Perfil com toda a loucura de Michael Jackson
Livro: Michael Jackson: uma Bibliografia não Autorizada (Christopher
Andersen) - Veja, 4 de outubro, 1995

Título da resenha: Com os olhos abertos


Livro: Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago) - Veja, 25 de outubro, 1995

Título da resenha: Estadista de mitra


Livro: João Paulo II - Bibliografia (Tad Szulc) - Veja, 13 de março, 1996

8. A referência bibliográfica do objeto resenhado

Constam da referência bibliográfica:

Nome do autor
Título da obra
Nome da editora
Data da publicação
Lugar da publicação
Número de páginas
Preço

Obs.: Às vezes não consta o lugar da publicação, o número de páginas e/ou o preço.

Os dados da referência bibliográfica podem constar destacados do texto, num "box" ou


caixa.

Exemplo: Ensaio sobre a cegueira, o novo livro do escritor português José Saramago
(Companhia das Letras; 310 páginas; 20 reais), é um romance metafórico (...) (Veja, 25
de outubro, 1995).

9. O resumo do objeto resenhado

O resumo que consta numa resenha apresenta os pontos essenciais do texto e seu
plano geral.

Pode-se resumir agrupando num ou vários blocos os fatos ou idéias do objeto


resenhado.
Veja exemplo do resumo feito de "Língua e liberdade: uma nova concepção da
língua materna e seu ensino" (Celso Luft), na resenha intitulada "Um gramático contra a
gramática", escrita por Gilberto Scarton.

"Nos 6 pequenos capítulos que integram a obra, o gramático bate,


intencionalmente, sempre na mesma tecla - uma variação sobre o mesmo tema: a
maneira tradicional e errada de ensinar a língua materna, as noções falsas de língua e
gramática, a obsessão gramaticalista, a inutilidade do ensino da teoria gramatical, a
visão distorcida de que se ensinar a língua é se ensinar a escrever certo, o
esquecimento a que se relega a prática lingüística, a postura prescritiva, purista e
alienada - tão comum nas "aulas de português".

O velho pesquisador apaixonado pelos problemas de língua, teórico de espírito


lúcido e de larga formação lingüística e professor de longa experiência leva o leitor a
discernir com rigor gramática e comunicação: gramática natural e gramática artificial;
gramática tradicional e lingüística;o relativismo e o absolutismo gramatical; o saber
dos falantes e o saber dos gramáticos, dos lingüistas, dos professores; o ensino útil, do
ensino inútil; o essencial, do irrelevante".

Pode-se também resumir de acordo com a ordem dos fatos, das partes e dos
capítulos.

Veja o exemplo da resenha "Receitas para manter o coração em forma" (Zero Hora,
26 de agosto, 1996), sobre o livro "Cozinha do Coração Saudável", produzido pela LDA
Editora, com o apoio da Beal.

Receitas para manter o coração em forma

"Na apresentação, textos curtos definem os diferentes tipos de gordura e suas


formas de atuação no organismo. Na introdução os médicos explicam numa
linguagem perfeitamente compreensível o que é preciso fazer (e evitar) para manter o
coração saudável.

As receitas de Cozinha do Coração Saudável vêm distribuídas em desjejum e


lanches, entradas, saladas e sopas; pratos principais; acompanhamentos; molhos e
sobremesas. Bolinhos de aveia e passas, empadinhas de queijo, torta de ricota, suflê
de queijo, salpicão de frango, sopa fria de cenoura e laranja, risoto com açafrão, bolo
de batata, alcatra ao molho frio, purê de mandioquinha, torta fria de frango, crepe de
laranja e pêras ao vinho tinto são algumas das iguarias".
10. Como se inicia uma resenha

Pode-se começar uma resenha citando-se imediatamente a obra a ser resenhada. Veja
os exemplos:

"Língua e liberdade: por uma nova concepção da língua materna e seu


ensino" (L&PM, 1995, 112 páginas), do gramático Celso Pedro Luft, traz um
conjunto de idéias que subvertem a ordem estabelecida no ensino da língua materna,
por combater, veementemente, o ensino da gramática em sala de aula.

Mais um exemplo:

"Michael Jackson: uma Bibliografia Não Autorizada (Record: tradução de


Alves Calado; 540 páginas, 29,90 reais), que chega às livrarias nesta semana, é o
melhor perfil de astro mais popular do mundo". (Veja, 4 de outubro, 1995).

Outra maneira bastante freqüente de iniciar uma resenha é escrever um ou dois


parágrafos relacionados com o conteúdo da obra.

Observe o exemplo da resenha sobre o livro "História dos Jovens" (Giovanni Levi e
Jean-Claude Schmitt), escrita por Hilário Franco Júnior (Folha de São Paulo, 12 de
julho, 1996).

O que é ser jovem

Hilário Franco Júnior

Há poucas semanas, gerou polêmica a decisão do Supremo Tribunal Federal que


inocentava um acusado de manter relações sexuais com uma menor de 12 anos. A
argumentação do magistrado, apoiada por parte da opinião pública, foi que "hoje em
dia não há menina de 12 anos, mas mulher de 12 anos".

Outra parcela da sociedade, por sua vez, considerou tal veredito como a aceitação
de "novidades imorais de nossa época". Alguns dias depois, as opiniões foram
novamente divididas diante da estatística publicada pela Organização Mundial do
Trabalho, segundo a qual 73 milhões de menores entre 10 e 14 anos de idade
trabalham em todo o mundo. Para alguns isso é uma violência, para outros um fato
normal em certos quadros sócio-econômico-culturais.

Essas e outras discussões muito atuais sobre a população jovem só podem


pretender orientar comportamentos e transformar a legislação se contextualizadas,
relativizadas. Enfim, se historicizadas. E para isso a "História dos Jovens" -
organizada por dois importantes historiadores, o modernista italiano Giovanno Levi,
da Universidade de Veneza, e o medievalista francês Jean-Claude Schmitt, da École
des Hautes Études em Sciences Sociales - traz elementos interessantes.

Observe igualmente o exemplo a seguir - resenha sobre o livro "Cozinha do Coração


Saudável", LDA Editores, 144 páginas (Zero Hora, 23 de agosto, 1996).

Receitas para manter o coração em forma

Entre os que se preocupam com o controle de peso e buscam uma alimentação


saudável são poucos os que ainda associam estes ideais a uma vida de privações e a
uma dieta insossa. Os adeptos da alimentação de baixos teores já sabem que
substituições de ingredientes tradicionais por similares light garantem o corte de
calorias, açúcar e gordura com a preservação (em muitos casos total) do sabor.
Comprar tudo pronto no supermercado ou em lojas especializadas é barbada. A coisa
complica na hora de ir para a cozinha e acertar o ponto de uma massa de
panqueca,crepe ou bolo sem usar ovo. Ou fazer uma polentinha crocante, bolinhos de
arroz e croquetes sem apelar para a frigideira cheia de óleo. O livro Cozinha do
Coração Saudável apresenta 110 saborosas soluções para esses problemas. Produzido
pela LDA Editora com apoio da Becel, Cozinha do Coração saudável traz receitas
compiladas por Solange Patrício e Marco Rossi, sob orientação e supervisão dos
cardiologistas Tânia Martinez, pesquisadora e professora da Escola Paulista de
Medicina, e José Ernesto dos Santos, presidente do departamento de Aterosclerose da
Sociedade Brasileira de Cardiologia e professor da faculdade de Medicina de Ribeirão
Preto. Os pratos foram testados por nutricionistas da Cozinha Experimental Van Den
Bergh Alimentos.

Há, evidentemente, numerosas outras maneiras de se iniciar um texto-resenha. A


leitura (inteligente) desse tipo de texto poderá aumentar o leque de opções para iniciar
uma recensão crítica de maneira criativa e cativante, que leva o leitor a interessar-se
pela leitura.

11. A crítica
A resenha crítica não deve ser vista ou elaborada mediante um resumo a que se
acrescenta, ao final, uma avaliação ou crítica. A postura crítica deve estr presente desde
a primeira linha, resultando num texto em que o resumo e a voz crítica do resenhista se
interpenetram.

O tom da crítica poderá ser moderado, respeitoso, agressivo, etc.

Deve ser lembrado que os resenhistas - como os críticos em geral - também se


tornam objetos de críticas por parte dos "criticados" (diretores de cinema, escritores,
etc.), que revidam os ataques qualificando os "detratores da obra" de "ignorantes" (não
compreenderam a obra) e de "impulsionados pela má-fé".

12. Exemplos de resenhas

Publicam-se a seguir três resenhas que podem ilustrar melhor as considerações feitas
ao longo desta apresentação.

Atwood se perde em panfleto feminista

Marilene Felinto
Da Equipe de Articulistas

Margaret Atwood, 56, é uma escritora canadense famosa por sua literatura de tom
feminista. No Brasil, é mais conhecida pelo romance "A mulher Comestível" (Ed.
Globo). Já publicou 25 livros entre poesia, prosa e não-ficção. "A Noiva Ladra" é seu
oitavo romance.

O livro começa com uma página inteira de agradecimentos, procedimento normal


em teses acadêmicas, mas não em romances. Lembra também aqueles discursos que
autores de cinema fazem depois de receber o Oscar. A escritora agradece desde aos
livros sobre guerra, que consultou para construir o "pano de fundo" de seu texto, até a
uma parente, Lenore Atwood, de quem tomou emprestada a (original? significativa?)
expressão "meleca cerebral".

Feitos os agradecimentos e dadas as instruções, começam as quase 500 páginas


que poderiam, sem qualquer problema, ser reduzidas a 150. Pouparia precioso tempo
ao leitor bocejante.

É a história de três amigas, Tony, Roz e Charis, cinqüentonas que vivem


infernizadas pela presença (em "flashback") de outra amiga, Zenia, a noiva ladra,
inescrupulosa "femme fatale" que vive roubando os homens das outras.

Vilã meio inverossímel - ao contrário das demais personagens, construídas com


certa solidez -, a antogonista Zenia não se sustenta, sua maldade não convence, sua
história não emociona. A narrativa desmorona, portanto, a partir desse defeito central.
Zenia funcionaria como superego das outras, imagem do que elas gostariam de ser,
mas não conseguiram, reflexo de seus questionamentos internos - eis a leitura mais
profunda que se pode fazer desse romance nada surpreendente e muito óbvio no seu
propósito.

Segundo a própria Atwood, o propósito era construir, com Zenia, uma personagem
mulher "fora-da-lei", porque "há poucas personagens mulheres fora-da-lei". As
intervenções do discurso feminista são claras, panfletárias, disfarçadas de ironia e
humor capengas. A personagem Tony, por exemplo, tem nome de homem (é apelido
para Antônia) e é professora de história, especialista em guerras e obcecada por elas,
assunto de homens: "Historiadores homens acham que ela está invadindo o território
deles, e deveria deixar as lanças, flechas, catapultas, fuzis, aviões e bombas em paz".

Outras alusões feministas parecem colocadas ali para provocar riso, mas soam
apenas ingênuas: "Há só uma coisa que eu gostaria que você lembrasse. Sabe essa
química que afeta as mulheres quando estão com TPM? Bem, os homens têm essa
química o tempo todo". Ou então, a mensagem rabiscada na parede do banheiro:
"Herstory Not History", trocadilho que indicaria o machismo explícito na palavra
"História", porque em inglês a palavra pode ser desmembrada em duas outras, "his"
(dele) e story (estória). A sugestão contida no trocadilho é a de que se altere o "his"
para "her" (dela).

As histórias individuais de cada personagem são o costumeiro amontoado de fatos


cotidianos, almoços, jantares, trabalho, casamento e muita "reflexão feminina" sobre a
infância, o amor, etc. Tudo isso narrado da forma mais achatada possível, sem
maiores sobressaltos, a não ser talvez na descrição do interesse da personagem Tony
pelas guerras.

Mesmo aí, prevalecem as artificiais inserções de fundo histórico, sem pé nem


cabeça, no meio do texto ficcional, efeito da pesquisa que a escritora - em tom
cerimonioso na página de agradecimentos - se orgulha de ter realizado.

Estadista de mitra

Na melhor bibliografia de João Paulo II até agora, o jornalista Tad Szulc dá ênfase à
atuação política do papa

Ivan Ângelo

Como será visto na História esse contraditório papa João Paulo II, o único não-
italiano nos últimos 456 anos? Um conservador ou um progressista? Bom ou mau
pastor do imenso rebanho católico? Sobre um ponto não há dúvida: é um hábil
articulador da política internacional. Não resolveu as questões pastorais mais
angustiantes da Igreja Católica em nosso tempo - a perda de fiéis, a progressiva falta
de sacerdotes, a forma de pôr em prática a opção da igreja pelos pobres -; tornou mais
dramáticos os conflitos teológicos com os padres e os fiéis por suas posições
inflexíveis sobre o sacerdócio da mulher, o planejamento familiar, o aborto, o sexo
seguro, a doutrina social, especialmente a Teologia da Libertação, mas por outro lado,
foi uma das figuras-chave na desarticulação do socialismo no Leste Europeu, nos anos
80, a partir da sua atuação na crise da Polônia. É uma voz poderosa contra o racismo,
a intolerância, o consumismo e todas as formas autodestrutivas da cultura moderna.
Isso fará dele um grande papa?

O livro do jornalista polonês Tad Szulc João Paulo II - Bibliografia (tradução de


Antonio Nogueira Machado, Jamari França e Silvia de Souza Costa; Francisco Alves;
472 páginas; 34 reais) toca em todos esses aspectos com profissionalismo e
competência. O autor, um ex-correspondente internacional e redator do The New
York Times, viajou com o papa, comeu com ele no Vaticano, entrevistou mais de uma
centena de pessoas, levou dois anos para escrever esse catatau em uma máquina
manual portátil, datilografando com dois dedos. O livro, bastante atual, acompanha a
carreira (não propriamente a vida) do personagem até o fim de janeiro de 1995, ano
em que foi publicado. É um livro de correspondente internacional, com o viés da
política internacional. Szulc não é literariamente refinado como seus colegas Gay
Talese ou Tom Wolfe, usa com freqüência aqueles ganchos e frases de efeito que
adornam o estilo jornalístico, porém persegue seu objetivo como um míssil e atinge o
alvo.

Em meio à política, pode-se vislumbrar o homem Karol Wojtyla, teimoso,


autoritário, absolutista de discurso democrático, alguém que acha que tem uma missão
e não quer dividi-la, que é contra o "moderno" na moral, que prefere perder a
transigir, mas é gentil, caloroso, fraterno, alegre, franco ... Szulc, entretanto, só faz o
esboço, não pinta o retrato. Temos, então, de aceitar a sua opinião: "É difícil não
gostar dele".

Opus Dei - O livro começa descrevendo a personalidade de João Paulo II, faz um
bom resumo da História da Polônia e sua opção pelo Ocidente e pela Igreja Católica
Romana (em vez da Ortodoxa Grega, que dominava os vizinhos do Leste), fala da
relação mística de Wojtyla com o sofrimento, descreve sus brilhante carreira
intelectual e religiosa, volta à sua infância, aos seus tempos de goleiro no time do
ginásio ""um mau goleiro", dirá mais tarde um amigo), localiza aí sua simpatia pelos
judeus, conta que ele decidiu ser padre em meio ao sofrimento pela morte do pai,
destaca a complacência de Pio XII com o nazismo, a ajuda à Opus Dei (a quem depois
João Paulo II daria todo o apoio), demora-se demais nos meandros da política do
bispo e cardeal Wojtyla, cresce jornalisticamente no capítulo sobre a eleição desse
primeiro papa polonês, mostra como ele reorganizou a Igreja, discute suas posições
conservadoras sobre a Teologia da Libertação e as comunidades eclesiais de base,
CEBs, na América latina, descreve sua decisiva atuação na política do Leste Europeu,
a derrocada do comunismo, e termina com sus luta atual contra o demônio pós-
comunista. Agora o demônio, o perigo mortal para a humanidade, é o capitalismo
selvagem e o "imperialismo contraceptivo" dos EUA e da ONU.

Szulc, o escritor-míssil, não se desvia do seu alvo nem quando vê um assunto


saboroso como a Cúria do Vaticano, que diz estar cheia de puxa-sacos e fofoqueiros
com computadores, nos quais contabilizam trocas de favores, agrados, faltas e
rumores. O sutil jornalista Gay Talese não perderia um prato desses.

Entretanto, Szulc está sempre atento às ações políticas do papa. Nota que João
Paulo II elevou a Opus Dei à prelatura pessoal enquanto expurgou a Companhia de
Jesus por seu apoio à Teologia da Libertação; ajudou a Opus Dei a se estabelecer na
Polônia, beatificou rapidamente seu criador, monsenhor Escrivã. Como um militar
brasileiro dos anos 60, cassou o direito de ensinar dos padres Küng, Pohier e Curran,
silenciou os teólogos Schillebeeckx (belga), Boff (brasileiro), Häring (alemão) e
Gutiérrez (peruano), reduziu o espaço pastoral de dom Arns (brasileiro). Em
contrapartida, apoiou decididamente o sindicato clandestino polonês, a Solidariedade.
Fez dobradinha com o general dirigente polonês Jaruzelski contra Brejnev, abrindo o
primeiro país socialista, que abriu o resto. O próprio Gorbachev reconhece: "Tudo o
que aconteceu no Leste Europeu nesses últimos anos teria sido impossível sem a
presença deste papa".

Talvez seja assim também com relação ao que acontece com as religiões cristãs no
nosso continente. Tad Szulc, com cautela, alerta para a penetração, na América
Latina, dos evangélicos e pentecostais, que o próprio Vaticano chama de "seitas
arrebatadoras". A participação comunitária e o autogoverno religioso que existia nas
CEBs motivavam mais a população. Talvez seja. Acrescentando-se a isso o lado
litúrgico dos evangélicos que satisfaz o desejo dos fiéis de serem atores no drama
místico, não tanto espectadores, tem-se uma tese.

O perfil desenhado por Szulc é o de um político profundamente religioso. Um


homem que reza sete horas por dia, com os olhos firmemente fechados, devoto de
Nossa Senhora de Fátima e do mártir polonês São Estanislau e que acredita no
martírio e na dor pessoais para alcançar a graça.

Um gramático contra a gramática

Gilberto Scarton

Língua e Liberdade: por uma nova concepção da língua materna e seu ensino
(L&PM, 1995, 112 páginas) do gramático Celso Pedro Luft traz um conjunto de
idéias que subverte a ordem estabelecida no ensino da língua materna, por combater,
veemente, o ensino da gramática em sala de aula.

Nos 6 pequenos capítulos que integram a obra, o gramático bate, intencionalmente,


sempre na mesma tecla - uma variação sobre o mesmo tema: a maneira tradicional e
errada de ensinar a língua materna, as noções falsas de língua e gramática, a obsessão
gramaticalista, inutilidade do ensino da teoria gramatical, a visão distorcida de que se
ensinar a língua é se ensinar a escrever certo, o esquecimento a que se relega a prática
lingüística, a postura prescritiva, purista e alienada - tão comum nas "aulas de
português".

O velho pesquisador apaixonado pelos problemas da língua, teórico de espírito


lúcido e de larga formação lingüística e professor de longa experiência leva o leitor a
discernir com rigor gramática e comunicação: gramática natural e gramática artificial;
gramática tradicional e lingüística; o relativismo e o absolutismo gramatical; o saber
dos falantes e o saber dos gramáticos, dos lingüistas, dos professores; o ensino útil, do
ensino inútil; o essencial, do irrelevante.

Essa fundamentação lingüística de que lança mão - traduzida de forma simples


com fim de difundir assunto tão especializado para o público em geral - sustenta a
tese do Mestre, e o leitor facilmente se convence de que aprender uma língua não é
tão complicado como faz ver o ensino gramaticalista tradicional. É, antes de tudo, um
fato natural, imanente ao ser humano; um processos espontâneo, automático, natural,
inevitável, como crescer. Consciente desse poder intrínseco, dessa propensão inata
pela linguagem, liberto de preconceitos e do artificialismo do ensino definitório,
nomenclaturista e alienante, o aluno poderá ter a palavra, para desenvolver seu
espírito crítico e para falar por si.

Embora Língua e Liberdade do professor Celso Pedro Luft não seja tão original
quanto pareça ser para o grande público (pois as mesmas concepções aparecem em
muitos teóricos ao longo da história), tem o mérito de reunir, numa mesma obra,
convincente fundamentação que lhe sustenta a tese e atenua o choque que os leitores -
vítimas do ensino tradicional - e os professores de português - teóricos,
gramatiqueiros, puristas - têm ao se depararem com uma obra de um autor de
gramáticas que escreve contra a gramática na sala de aula.

Como Redigir Itens Paralelos

O PARALELISMO é uma convenção da linguagem escrita que consiste em


apresentar idéias similares numa forma gramatical idêntica: um verbo deve estar em
paralelismo com outro verbo; um substantivo com outro substantivo; uma oração com
outra, e assim sucessivamente.

Observe os exemplos a seguir.

Os itens do Art. 38 do Estatuto da PUCRS iniciam com uma preposição seguida


de substantivo:

Art. 38 - O patrimônio de uso da Universidade é formado:

I. pelos bens móveis e imóveis que a Mantenedora põe à disposição da


Universidade para seu funcionamento;
II. pelos direitos e bens que adquirir;
III. pelos auxílios e subvenções de poderes públicos e pelo resultado de cada
exercício.

Os itens do Art. 4 iniciam com um verbo:

Art. 4 - Constituída pela comunidade de professores, funcionários e


alunos, a Universidade tem por finalidades:

I. manter e desenvolver a educação, o ensino, a pesquisa e a extensão em


padrões de elevada qualidade;
II. formar profissionais competentes nas diferentes áreas do conhecimento,
cônscios da responsabilidade e do compromisso social como cidadãos;
III. promover o desenvolvimento científico-tecnológico, econômico, social,
artístico, cultural da pessoa humana, tendo como referencial os valores
cristãos;
IV. estender à comunidade as atividades universitárias, com vistas à elevação
do nível sócio-econômico-cultural;
V. trabalhar, como centro educativo superior marista, pela evangelização da
cultura;
VI. promover ambiente interno de desenvolvimento das relações
interpessoais, propiciando o crescimento integrado do ser humano e
o pleno exercício de suas habilidades e potencialidades;
VII. promover o intercâmbio nacional e internacional com instituições
universitárias e congêneres.

Os itens do Art. 41 iniciam com um substantivo:

Art. 41 - A manutenção e o desenvolvimento do patrimônio a uso da


Universidade faz-se por meio de:

I. dotação orçamentária;
II. dotações que a qualquer título lhe concedam os poderes públicos,
pessoas físicas ou jurídicas;
III. rendas patrimoniais e receitas próprias, ordinárias ou eventuais, a
qualquer título;
IV. legados ou doações que lhe façam pessoas físicas ou jurídicas;
V. recursos provenientes de convênios, serviços prestados, atividades
especiais da Instituição.

Observe agora que os itens do texto a seguir (ZH 14/3/98) não estão em paralelismo.

As 12 Recomendações

As instruções que Fernando Henrique transmitiu aos órgãos e ministérios do governo:

1. Mobilização dos órgãos do governo para reverter a alta taxa de desemprego já


no segundo trimestre.

2. Revisar os programas dirigidos à geração de emprego, melhorar o desempenho e


analisar as medidas que podem ser tomadas.

3. Avaliar os programas realizados em parceria para checar se há coordenação e


articulação entre eles.

4. O governo irá solicitar ao IBGE para que identifique as áreas mais críticas do
desemprego. Hoje o IBGE fornece informações apenas sobre as seis maiores
regiões metropolitanas do país.
5. Melhor articulação dos programas de seguro-desemprego.

6. Prosseguir na atualização da legislação trabalhista para remover obstáculos que


dificultem a criação de empregos.

7. Multiplicar os projetos integrados para atender às regiões metropolitanas.

8. Acelerar a implantação da nova política industrial do país, dando prioridade à


indústria nacional.

9. Maior apoio para micro e pequenas empresas, especialmente nos setores de


turismo e serviços.

10. Instruir as agências de financiamento (como Banco do Brasil) e dar prioridade a


projetos que gerem mais empregos.

11. Reforçar mecanismos de informação sobre a qualidade de treinamento para


trabalhadores.

12. Criação de dois grupos, um do Ministério do Trabalho, para examinar sugestões


e experiências bem sucedidas sobre a geração de empregos, e de outro, na
câmara social, para avaliar implementação e acompanhamento dessas ações.

Como se pode observar:

os itens 2,3,6,7,8,10 e 11 iniciam com um verbo

os itens 1,5,9 e 12 iniciam com um substantivo

o item 4 contém duas frases completas

Pode-se reescrever o texto, iniciando todos os itens com um verbo:

1. Mobilizar os órgãos do governo...

2. Revisar...

3. Avaliar...

4. Solicitar ao IBGE...

5. Melhorar a articulação...

6. Prosseguir...

7. Multiplicar...
8. Acelerar...

9. Apoiar mais...

10. Instruir...

11. Criar...

Ou iniciar todos os itens com um substantivo:

1. Mobilização dos...

2. Revisão dos...

3. Melhoria do...

4. Análise dos...

5. Avaliação dos...

6. Solicitação aos...

7. Articulação melhor...

8. Prosseguimento na...

9. Multiplicação dos...

10. Aceleração da...

11. Apoio maior para...

12. Instrução às...

13. Reforço dos...

14. Criação de...

Como Escrever um Fluxo de Consciência

1. Introdução

Escrever em / um fluxo de consciência é como instalar uma câmera na cabeça da


personagem, retratando fielmente sua imaginação, seus pensamentos. Como o
pensamento, a consciência não é ordenada, o texto-fluxo-de-consciência também não
o é. Presente e passado, realidade e desejos, anseios e reminiscências, falas e ações se
misturam na narrativa num jorro desarticulado, descontínuo, numa sintaxe caótica,
apresentando as reações íntimas da personagem fluindo diretamente da consciência,
livres e espontâneas.

É como se o autor "largasse" a personagem, deixando-a entregue a si mesma, às


suas divagações, resultando um texto que lembra a associação livre de idéias, de
feitio incoerente, desconexo, sem os nexos ou enlaces sintáticos de um texto "bem
comportado".

É como se fosse um depoimento, a expressão livre, desenfreada, desinibida,


ininterrupta, difusa, alógica de pensamentos e emoções, muitas vezes de uma mente
conturbada e atônita.

No fluxo de consciência o pensamento simplesmente flui, pois a personagem não


pensa de maneira ordenada, coerente, razão por que o texto se apresenta sem
parágrafos, sem pontos, ininterrupto; numa palavra, caótica.

Na literatura universal, os grandes mestres desta técnica são James Joyce


("Ulysses"), Virgínia Woolf ("Mrs. Dalloway" (filme: As Horas)) e William
Faulkner ("O Som e a Fúria"; "As Lay Dying").

Em nosso meio, entre tantos escritores, poderiam ser citados Antônio Callado
("Assunção de Salviano'), Autran Dourado ("A Barca dos Homens") e Clarice
Lispector ("Perto do Coração Selvagem"; "A Hora da Estrela").

2. Textos

2.1 Textos-modelos

Tléquete/Tlíquete

Gilberto Scarton

O Zaffari da Ipiranga não deixa de ser um ponto de encontro, talvez meu novo
ponto de referência, te vi lá, ontem, teu carrinho (tinha uma roda defeituosa?) fazia
tléquete-tléquete, e te segui, sabes, eu queria saber de ti, afinal lá se vão alguns anos
desde que... deixa pra lá... paraste na seção de artigos para aniversário, balões, copos
de plástico, canudinhos, alguém de aniversário? a Júlia? dez anos! tléquete-tléquete na
imensidão da loja, e se eu desse a volta e, em vez de te seguir, fosse a teu encontro,
fosse de encontro ao teu carrinho e batesse "oh! desculpa!" tua olharias o infrator e...
deixa pra lá... minha timidez, bem sabes, me impediria a tanto, de modo que fui te
seguindo, tu compravas guardanapos e eu remexia nas prateleiras um pouco bastante
atrás, um pouco atrás que eu quisera quase nada, anseio do meu coração para chegar a
ti, bastante atrás que é a distância do meu medo, numa ponta pude avistar que
compravas refrigerantes, e na outra disfarçavas examinando uma nova marca de
cerveja, depois, erguendo a cabeça sobre compradores e produtos pude ver que
desaparecias, caminhei então mais rápido e ouvi o tléquete-tléquete logo mais adiante,
eu-na-paixaria, tu-na-fila-do-cafezinho, quem sabe aí pelo menos um "oi!" que eu
pudesse te dar, a que tu responderias, talvez com um ar de surpresa, quem sabe de
espanto, ou de indiferença, que repercutiria no meu coração como um tlíquete, um
tlíquete de coisa partida, quase silenciosamente partida, doidamente partida,
irrecuperavelmente partida, mas quem sabe, houvesse dois "oh!", vindos lá do fundo
de nossas almas e "estava mesmo com vontade de te ver", "eu também", "saber como
tu vais", "eu também", e te tendo assim tão perto comparar teu rosto com teu rosto de
antigamente, a cor dos alhos, a mesma, o cabelo mais curto, o mesmo talhe esguio do
teu corpo, óleo Violeta X azeite Beira Alta, Isabela X Coroa, tléquete-tlíquete,
pepino/palmito, cebola/tomate, eu-fazendo-de-conta-de-escolher-batata/tu-alface, teu
carrinho/meu coração, "vê como subiu o preço de ervilha?", "que bom te ver", "como
o palmito está caro!", mas nada disso, nem isso, nem uma palavra, nem um
cruzamento de olhares, nem um esbarrão casual, nem uma ultrapassagem rápida (e
perigosa!), nada, discos/bebidas, Al de lá/conhaque macieira, chocolate/balas,
livros/revistas, aqui/aí, des/encontros, um tléquete na loja, um tlíquete no coração.

2.2 Textos de Alunos

puts!

Gabriel da Costa Schmidt

Tô de aniversário, me disseram que estou fazendo três anos, como? se eu nem sei o
que são anos, só sei que estou fazendo três e que hoje sou importante, mas por outro
lado vou ter que agüentar um monte de velhos me bajulando, apertando minhas
bochechas e dizendo: como tá grandinho! se aquela gorda bigoduda, da creche, vier
pra cima de mim vou cuspir, cuspir no meio da cara dela, e vai ser daqueles bem
verdes, ainda mais que tô encatarrado, depois dou uma choradinha e pronto, todos vão
me perdoar... cadê a mãe, hein?! será que ela não notou que eu tô todo cagado, já tá
até ardendo... aí vem ela, puts, banho! a mãe tá achando que eu vou usar este
uniformizinho babaca, não mesmo, ainda mais que tem um patinho amarelo
desenhado, acho que ela não se deu conta que eu estou ficando velho, puts, acho que
ela não está muito preocupada com a minha simplória opinião, não,
nããããããããoooooooo, estou parecendo um daqueles babaquinhas dos comerciais da
Parmalat, mas não vai durar muito tempo, puts, quanta gente! cadê os presentes? sem
beijos, sem beijos, eu disse presen... ugh! argh! irc! ecs! outs, me pegaram... tu não,
sai fora, eu tô avisando hein, não te aproxima, sai, saaaaaaai hec cusp, toma, bem no
narigão, hahahá, acho que a tia vai ter que assoar o nariz, tô precisando de uma
gelatina, só uma gelatina, ali, me dá, plec! acho que a mãe vai ter trocar a minha
roupinha, sem gritos, sem gritos... tô de aniversário, que saco: só ganho roupa, deve
ter roupa pro resto da minha vida em cima do meu berço, vai me dar um trabalhão
para destruí-las, mas vai ser legal, onde estão os brinquedos, estou falando de
brinquedos, não destas coisinhas para babaquinhas que estão infestando o meu quarto,
acho que se juntar todos os chocalhos e as roupinhas que eu tenho daria para montar
uma escola de samba, pelo menos a bateria e as fantasias estariam garantidas, o tema
seria: "dura vida de bebê", por que aquele gurizinho tá olhando para a minha moto?
nem pense nisto, olha que eu tô com a minha espada justiceira, acho bom você
desistir, ah é, é? então toma, POFT... papai? foi ele que começou, buaaaaá... tudo
bem, pai, nós vamos ser amigos, né panacão? hahahá, não acredito, logo no MEU
aniversário, mas isto não fica assim, ah não fica, ainda mais agora que estou com a
minha espada justiceira, vou pegá-lo, juro que vou pegar esta toupeira que colocou o
CD do Tiririca, esta música está destruindo os meus ouvidos, pior que isto, se é que
existe algo pior, só mesmo o CD dos Mamonas, bom... estes já foram, como diz o
ditado: "Deus tarda mas não falha" hahahá, ô DJ, coloca uma lenta aí que eu vou
chegar naquela ali ó, de vermelho, que gracinha né, agora que eu já tô com a minha
camisa do Inter, hahahá, ela não vai resistir, vem cá, querida, sei que por trás desta
fralda está escondida a bundinha mais linda e fofinha da festa. Agora o Dj mandou
bem, a Xuxa é mesmo demais! o nome desta música é: Meu cãozinho Xuxo e ela fez
pro seu cachorrinho que morreu, vou chegar por trás e mandar a minha melhor
cantada: "ficar pertinho de você é melhor do que tirar aquele tatuzão do nariz, aquele
que ao invés de minhoca parece mais um mussum", não disse, essa não falha, ela já se
derreteu todinha, agora é só uma questão de tempo, puts, foto não, foto não, logo
agora que eu estava com a mina, pô tia, cadê a espada justiceira, quando eu falo não, é
não e pronto, buáááááá... deixa eu brincar com esta máquina... crash, puts, caiu, tira o
raio destas fotos agora, hahahá, até que eu me divirto nestes aniversários, hahahá...

15.

Olhos verdes no retrovisor

Stefani Leiria Ligocki

Dou a segunda volta na fechadura de casa no momento em que olho para o relógio,
são oito horas, horário em que deveria estar no escritório, naquela reunião com meu
chefe e assessores, mas estou aqui, ainda virando a chave do meu carro que não quer
pegar, não deveria ter comprado carro a álcool, enfim o carro pega, saio da garagem
do prédio, piso fundo no acelerador rumo ao primeiro engarrafamento do dia, já tem
uma Brasília caindo aos pedaços na minha frente, não anda, se arrasta, buzino, outro
carro buzina, todos buzinam, o sinal abre, os carros se movem um pouco, já estamos
parados outra vez, abre uma brecha no trânsito, faço sinal para mudar de faixa, um
Vectra se adianta e toma o meu lugar, entro logo atrás dele, quero saber quem cortou a
minha frente, encosto meu Opala bem perto da traseira do Vectra, vejo os cabelos
loiros colados ao banco do motorista, me parece uma mulher, quero ver seu rosto,
apressadinha, anda me mostra, vira pra cá, no vidro traseiro do carro tem um adesivo
com dizeres irônicos: "se você consegue ler isto é porque está muito perto", sim, estou
perto do teu paralama, longe do trabalho e do provável esporro do chefe, mas faço
questão de ver quem é a barbeira da frente, desvio o olhar para o seu retrovisor
interno e............... estou hipnotizado, são os olhos mais lindos que já vi, verdes,
luminosos, radiantes a me olhar ironicamente, me desafiando, sim, aquela mulher tem
olhos extraordinários, meus olhos estão fixos naqueles olhos que se mexem na direção
do semáforo que está verde, ela arranca, vou atrás, quero ver o rosto da dona daqueles
olhos estupendos, se os seus olhos são lindos desse jeito como será o resto? como
serão os traços do rosto que contém esses olhos, será que são tão hipnotizantes e
resplandescentes como aquele olhar? O sinal fecha de novo, os carros vão se
posicionando, consigo ficar ao lado do Vectra, e agora vou virar a cabeça para a
esquerda e aqueles olhos que só vi pelo retrovisor vão estar esperando a minha
correspondência, viro a cabeça como num movimento cinematográfico, em câmera
lenta, neste momento vejo o rosto que não frustra as minhas expectativas, é um rosto
tão lindo quanto aqueles olhos verdes, sorrio para a moça como que perguntando "Por
que você fez aquilo?", ela me responde com outro sorriso que escancara toda a sua
beleza, leio seus lábios vermelhos que dizem "desculpe, estou com pressa", faço
menção de perguntar se nome, telefone, sei lá, entretanto o semáforo é implacável, se
torna verde, o Vectra sai cantando os pneus e entra rapidamente à esquerda, sem ao
menos me dar tempo de mirar mais uma vez aqueles olhos verdes, o motorista de trás
já ofende minha mãe pela demora que levo para arrancar em direção ao trabalho, onde
meu chefe já deve estar verde de raiva.

Meu mundinho

Scheila Feijó Fantinel

Ai, como é bom aqui dentro: quentinho, escuro, só quero dormir, às vezes dou uns
chutes e soquinhos, é a forma que tenho de chamar a atenção, ouvi mamãe dizer que
devo chegar no próximo mês, mas chegar aonde? Será que vou ter que deixar essa
vidinha maravilhosa? Sei lá, o papai e a mamãe falam coisas que eu não entendo, me
chamam de Carolzinha e enfeitam meu quarto de rosa pink, que coisa mais feia! Eu
gosto é de cor-de-laranja e o meu nome é José, JO-SÉ, e não zezinho... outro dia me
senti mal, estava muito apertado, eu crescendo e o espaço diminuindo, daí pensei em
sair daqui, mas bateu uma deprê ao me imaginar longe de todos, lutando pelo meu
alimento, sofrendo agressões, sendo um ser humano comum, desisti! Vou ficar no
meu canto, quietinho, recebendo carinho, alimento e esperando a minha hora... nas
últimas semanas resolvi dar uma virada na minha vida: coloquei os pés para cima e a
cabeça para baixo e entrei em uma fase zen, de muita meditação e descoberta
interna... percebi que está tudo agitado lá fora, todos correndo de um lado para outro,
apenas mamãe está calma, no entanto, comecei a sentir uma grande pressão e aí a
correria foi total, no caminho de casa para sei lá aonde, percebi que chegou a hora...
faz isso, faz aquilo, mexe aqui, aperta li, deita, senta, É AGORAAAAAAAAAA! Vi
um clarão, ouvi gritos e fui expelido, que nojento! Me bateram e depois me
embrulharam, me senti um nada, depois todos queriam me ver e alguns choravam na
minha presença, acho que não me amam! Será que sou feio? Essa vida externa é
bastante complicada...

Controle remoto

Fernanda Silva Dora

Txxxxx... ó meu Deus não faça isso, não faça isso, nãããããããããããão! ...txxxxx...
realmente, houve a intenção do jogador, e isso caracteriza o pênalti, está correto o
árbitro ...txxxxx... quinta-feira, nove da noite, rock história e acústico Nirvana
...txxxxx... não Jack, largue esta arma, pense Jack, não vai valer a pena, pare Jack,
pare ...txxxxx... sem querer interromper, já interrompendo, qual a sua aituação em
relação à CPI dos Precatórios... bem, eu não tenho nada a ver com isto, quem está me
envolvendo nisso está mentindo ...txxxxx... mama África, a minha mãe, é mãe
solteira, e tem que fazer mamadeira todo o dia, além de trabalha como empacotadeira
nas Casas Bahia ...txxxxx... Carly, please, open the door, c'mom, open the door, I love
you, I love...txxxxx... daí o senhor Jesus me libertou daquela angústia …txxxxx… o
Cineview chegou ao fim, mas não fique triste, semana que vem tem mais ...txxxxx...
incêndio em prédio no centro de São Paulo assusta moradores... txxxxx... uhhh,
aahhh, ligue, estou esperando você, 0900211076 ...txxxxx... and the Chigaco Bullls
have the last shot...txxxxx... boa noite ...txxxxx... e, um beijo do gordo.
Como empregar a figura da repetição

1. Introdução

A repetição de palavras, expressões ou frases representa um dos recursos mais


expressivos da linguagem para realçar as idéias.

É um recurso que remonta ao período barroco, estudado pela retórica, que se


esmerou em sua subclassificação: anáfora (repetição no início de cada frase), epanalepse
(no meio), epístrofe (no fim), simplace (no princípio e no fim), anadiplose (no fim de
uma oração e no princípio da seguinte).

2. Textos

2.1 Textos-modelos

Último discurso de Martin Luther King

Martin Luther King

Freqüentemente imagino que todos nós pensamos no dia em que seremos


vitimados por aquilo que é o denominador comum e derradeiro da vida, essa alguma
coisa a que chamamos morte.
Freqüentemente penso em minha própria morte e em meu funeral, mas não num
sentido angustiante.
Freqüentemente pergunto a mim mesmo o que é que eu gostaria que fosse dito então,
e deixo aqui com vocês a resposta.
Se vocês estiverem ao meu lado quando eu encontrar o meu dia, lembrem-se de que
não quero um longo funeral.
Se vocês conseguirem alguém para fazer a oração fúnebre, digam-lhe:

para não falar muito;


para não mencionar que eu tenho trezentos prêmios, isto não é importante;
para não dizer o lugar onde estudei.
Eu gostaria que alguém mencionasse aquele dia em que

eu tentei dar minha vida a serviço dos outros;


eu tentei amar alguém;
eu tentei ser honesto e caminhar com o próximo;
eu tentei visitar os que estavam na prisão;
eu tentei vestir um mendigo;
eu tentei amar e servir a humanidade.

Sim, se quiserem dizer algo, digam que


EU FUI ARAUTO:

arauto da justiça;
arauto da paz;
arauto do direito.

Todas as outras coisas triviais não têm importância.


Não quero deixar atrás

nenhum dinheiro;
coisas finas e luxuosas.

Só quero deixar atrás

uma vida de dedicação.

E isto é tudo o que eu tenho a dizer:


SE EU PUDER

ajudar alguém a seguir adiante;


animar a alguém com uma canção;
mostra a alguém o caminho certo;
cumprir meu dever de cristão;
levar a solução para alguém;
divulgar a mensagem que o Senhor deixou

então,
MINHA VIDA NÃO TERÁ SIDO EM VÃO.

Mentira

Rui Barbosa

Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, no céu. Mentira nos
protestos.Mentira nas promessas. Mentira nos progressos. Mentira nos projetos.
Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas soluções. Mentira nos
homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na
palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. (...) Mentira nas
instituições, mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens.
Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas
embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas garantias. Mentira nas
responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólioda
mentira.

Dia de Agradecer

Ivete Brandalise

Obrigada por esse céu que se fez azul depois de tanta tempestade. Obrigada pela
tempestade que me fez sonhar e desejar e descobrir o azul do céu.
Obrigada pelo horizonte que meus olhos não alcançam, embora o concreto tente
limitar meu mundo. Obrigada pelas frestas que ainda existem e que me deixam
encontrar o céu, saber das nuvens, navegar pela mansidão do Guaíba, percorrendo
ilhas e pontes, me perdendo e me achando em espaços indefinidos.
Obrigada pela primavera que aconteceu em mim, pelas flores que brotaram na
noite e se ofereceram regadas de orvalho na manhã. Obrigada pela manhã que veio
luminosa.
Obrigada pela noite que veio banhada de lua. Obrigada pelas estrelas que
passearam por meus olhos. Obrigada pelos olhos que ainda se deixam salpicar de
estrelas.
Obrigada pelo riso, que ainda povoa minha vida. Obrigada pelos encantamentos
que eu ainda encontro no riso fácil dos meus anjos loiros. Obrigada pelos anjos que
fazem a minha poesia, as minhas canções, a minha alegria, o meu amor, até as minhas
apreensões.
Obrigada pelo amor que ainda existe em mim e me faz reviver na possibilidade de
entrega. Obrigada pela ternura que a criança ainda sente num beijo meu.
Obrigada pelas saudades que eu tenho, pelo bem-querer que não morreu.
Obrigada pelo meu trabalho, pelo meu dia, pela minha noite, pelo meu ontem, pelo
meu amanhã. Obrigada pelo alimento, pelo abrigo, pela vida, pelo amigo.
Mas não agradeço o amigo que não tive, muito menos o amigo que partiu. Não
agradeço a fome, o ódio, a guerra. Não agradeço a solidão. Não posso agradecer o
sofrimento, o desamparo, o desemprego. Não posso agradecer as injustiças. Não
posso agradecer a angústia, as tensões, a poluição. Não posso agradecer as perdas, os
desencontros, os desencantos.
Perco o jeito de agradecer quando encontro criança perdida na noite e me calo e
me omito e deixo que ela se encolha na porta de um edifício e cubra seu frio com os
jornais, e cubra sua miséria com o meu descaso e cubra sua infância sofrida com
sonhos de um tempo melhor.
Perco o jeito de agradecer quando vejo a flor murchando nas mãos magras e sujas
da criança esmoleira. Perco o jeito de agradecer quando vejo que as cores não
pertencem a todas as crianças, as flores não brotam para toda a gente, o dia é
luminoso para muito poucos. E perco o jeito de agradecer quando descubro que o
"obrigada" deve vir no singular, que o amor, a ternura, o alimento, a alegria não
existem para todo mundo.
Perco o jeito de agradecer quando me sinto culpada de agradecer.

2.2 Textos de Alunos

Arriscar é Viver...

Deise Konhardt Ribero

Rir é arriscar-se a parecer louco.


Chorar é arriscar-se a parecer sentimental.
Estender a mão para outro é arriscar-se a se envolver.
Expor seus sentimentos é arriscar-se a expor se eu verdadeiro.
Amar é arriscar-se a não ser amado.
Viver é arriscar-se a morrer.
Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção.
Tentar é arriscar-se a falhar.
Mas... é preciso correr riscos.
Porque o maior azar da vida é não arriscar nada...

Medo

Juliana Duzzo

Medo de falar, de ouvir...


De falar muito e muito pouco, de ouvir o que não se quer, ou o que se queria ouvir,
mas imaginava que jamais ouviria.
Medo de encarar...
Medo de encarar os medos, medo de dizer oi, de dizer tchau...
Medo de rir na hora errada e chorar de assustada.
Medo de não saber o que dizer... de ir, de ficar, de não saber se ficar, se ir...
Medo de discar o último dígito, alguém atender e não se saber o que falar...
Medo de discar e não atender nunca mais.
Medo de ter medo. Medo de ter coragem de fazer a coisa errada. Ou, a coisa certa e
acertar. Mas mesmo assim sofrer, mesmo assim chorar.
Medo de tudo, medo do escuro, medo da luz, da noite, do dia, da tarde...
Medo do telefone, do e-mail, do carteiro, dos conhecidos, dos amigos, dos parentes,
dos pais.
Medo de qualquer um que possa dizer o que não se quer ouvir.
Ou dos que não dizem o que se precisa dizer.
Medo de se enganar, ou de já saber demais, mesmo sem nada saber.
Medo de ti.
Medo de mim.

Saudade

Kátia Simone Menegat

Lembrar das coisas ruins, das que me fizeram sofrer, dos sonhos não realizados, eu
não queria. Para que sofrer com coisas inúteis, como o acidente que sofremos há
muitos anos, a mentira que nos contaram, como quando nos difamaram? Eu não
queria.
Se eu pudesse, esqueceria daquele amor não correspondido, das brigas que me
fizeram sofrer, das pessoas que por mim passaram e causaram muitos estragos.
Lembrar, eu não queria.
Mas por que, então? Porque guardamos um espaço em nossa mente e coração para
a imagem de quem não gostamos, de quem desprezamos, de quem não queremos
ouvir falar? Por que ainda memorizamos seus rostos, e também os acontecimento
passados e tão nocivos ao nosso presente, que só nos fazem sofrer? Sinceramente, eu
não queria.
As lembranças que ficam não podem ser apagadas, embora muitas vezes as
tentamos mascarar. E aquela pessoa, aquele acontecimento, aquilo que queríamos
esquecer vai estar sempre lá, mesmo que não a queiramos. E eu, realmente, não os
queria.
Mas a memória tem seu valor, e é isso que faz com que lembremos das coisas boas
que vivemos, apesar dos acontecimento ruins; das pessoas maravilhosas que
encontramos, apesar daquelas com quem nos desencontramos; e dos momentos
preciosos pelos quais passamos, apesar daqueles que apenas passaram por nós.
Mesmo que haja o mau, haverá sempre o bom a ser lembrado, e mesmo que
existam coisas que queríamos esquecer, sem o que lembramos, quem haveríamos de
ser? Sem nossas lembrança, esqueceríamos de muitas coisas, mas mais do que
isso,desconheceríamos o significado de uma coisa que nos faz crescer,idealizar,
sonhar e sorrir: a saudade.
Dizer que não quero lembrar é, então, dizer que não a queria.

....................

Fabio Abreu dos Santos

Droga. Oito da manhã e ele estava, novamente, atrasado para o serviço. Seu chefe
iria querer sua cabeça. Levanta-se correndo e vai até o banheiro. Ao lavar o rosto, fita
seu reflexo no espelho. Pára por um momento e analisa as rugas que traz na face. Não
pode deixar de sentir um pouco de tristeza. Afinal, já passou da casa dos quarenta
anos, e julgava-se, em suas próprias palavras, um perdedor. Como sua vida fora parar
naquele ponto? Não suportava sua mulher, depois de mais de vinte anos de
casamento. Seus dois filhos, um de dezoito e outra de quinze, só lhe traziam
problemas. Problemas e despesas.O mais velho não queria saber de trabalhar e a mais
nova gastava todo seu tempo em passeios pelo shopping e saídas com as amigas.
Mas o pior de tudo era o seu emprego. Não suportava seu chefe, não suportava
seus colegas, não suportava sua função. Era contador, o que por si só já seria motivo
de um eterno tédio. Mas tinha um agravante, era contador já há vinte e dois anos, na
mesma empresa, no mesmo cargo. Nunca fora promovido. Seu salário estava longe de
poder sustentar a família. Por isso, tinha de conseguir rendas extras, fazendo vários
serviços como free-lance. Em resumo, sentia-se velho, cansado, triste e, pior,
fracassado.
Mas de repente, ao olhar-se no espelho, não sabe bem por que, lembra-se de uma
história em quadrinhos que havia lido em sua infância, quando tinha a maior coleção
de revistinhas de ficção científica de seu bairro. A história se passava num universo
paralelo ao nosso, o universo X14, onde existiam clones de todas as pessoas que
existem em nosso próprio universo. Se lembrava bem, a historieta mostrava que o
único momento em que os dois, clone e original, se encontravam, era quando estavam
frente a um espelho. O espelho seria, então uma passagem, ou uma janela, entre os
dois universos, o nosso universo e o universo paralelo.
Se isso fosse verdade, continua com seus pensamentos, o seu clone do universo
paralelo, o seu clone do universo X14, poderia ser uma pessoa bem diferente. Não
fisicamente é lógico, mas em relação à vida que levava. Na verdade no universo X14,
seu clone poderia ser muito feliz. Poderia, não. Era muito feliz. No universo X14, seu
clone deveria estar levantando àquela hora e indo até o espelho, só para se arrumar e
ir fazer jogging matinal. Afinal, era muito importante manter a forma. No universo
X14, seu clone teria deixado, deitada na cama, uma de suas inúmeras amantes
maravilhosas. No universo X14, seu clone não deveria se preocupar com chefes.
Aliás, no universo X14, seu clone deveria ser o chefe. E não de uma firma de
contabilidade qualquer, mas sim de uma poderosa multinacional. No universoX14,
seu clone não deveria ter preocupações com filhos. No universo X14, seu clone já
deveria ter se separado da mulher com a qual casara e, sem dúvida, ela teria ficado
com as pestes das crianças.
Não pode deixar de sorrir. Na verdade, ele era um cúmplice da tão estupenda vida
que levava seu clone no universo X14. Estava orgulhoso de ter um clone tão
importante e poder fazer parte de sua vida, mesmo que fosse apenas por alguns
momentos, quando o clone procurasse o espelho para se mirar. Se não fosse ele, seu
clone seria um infeliz sem reflexo. Quase inconscientemente, leva a mão até o espelho
e toca seu reflexo, como que felicitando seu clone por ter proporcionado um momento
de alegria em sua porcaria de existência.
Engraçada a vida. Como, às vezes, pequenos detalhes ou grandes fantasias podem
torná-la tão melhor, tão mais feliz, tão mais maravilhosa.
Enquanto isso, no universo X14...
Droga. Oito da manhã e ele estava, novamente, atrasado para o serviço. Seu chefe
iria querer sua cabeça. Levanta-se correndo e vai até o banheiro. Ao lavar o rosto, fita
seu reflexo no espelho...
Como escrever com frases curtas, construções nominais e
fragmentadas

1. Introdução

A FRASE NOMINAL é a frase que prescinde de verbo, constituída, portanto, apenas


por nomes.

É característica de muitos provérbios e máximas: Cada louco com sua mania; Cada
macaco no seu galho.

É uma frase curta, incisiva que tanto pode expressar ações quanto apontar os
elementos essenciais de um quadro numa descrição.

"A cama de ferro, a colcha branca, o travesseiro com fronha de morim. O lavatório
esmaltado, a bacia e o jarro. Uma mesa de pau, o tinteiro niquelado, papéis, uma
caneta. Quadros nas paredes".

(Érico Veríssimo, Clarissa, p. 220)

Na literatura brasileira contemporânea, quase todos os novelistas e cronistas dela


servem, quase sempre na descrição.

A FRASE FRAGMENTADA é geralmente uma oração subordinada ou um adjunto


que se apresentam isoladamente, isto é, não anexados à oração principal.

Othon Garcia, em "Comunicação em prosa moderna", p. 100, dá bem a idéia do que


é frase fragmentada:

"A festa de inauguração da nova sede estara esplêndida. Gente que não acabava mais.
Todos muito animados. Mas uma confusão tremenda. E um calor insuportável. De
rachar. De modo que grande parte dos convivas saiu muito antes de terminar, muito
antes mesmo da chegada do Governador. Porque era impossível agüentar todo aquele
aperto, aquela confusão. E principalmente o calor".

Os períodos do texto são, na verdade, "pedaços" de períodos, verdadeiros


fragmentos. São frases fragmentadas.
De acordo com a sintaxe ortodoxa, o período (e a pontuação) deveria ser assim
construído:

Mas uma confusão tremenda e um calor insuportável, de rachar, de modo que grande
parte dos convivas saiu muto antes de terminar, muito antes mesmo da chegada do
Governador, porque era impossível de agüentar todo aquele aperto, aquela confusão, e
principalmente o calor."

A frase fragmentada é um recurso de estilo, próprio da literatura moderna.

A FRASE CURTA, incisiva, direta também é característica da literatura moderna, ao


contrário do período longo, característica do classicismo, do parnasianismo e do
romantismo.

É um estilo entrecortado, soluçante,"asmático", na expressão de Othon Garcia. Ou


um estilo "picadinho", segundo José Oiticica.

Não raro, frases nominais, fragmentadas e curtas se misturam, dando como resultado
um estilo "estertorante", "convulsivo", "asmático", segundo, ainda, expressões de Othon
Garcia.

Observe uma vez mais o texto "Por uma aprendizagem natural da escrita", onde
aparecem frases curtas, nominais e fragmentadas.

Por uma aprendizagem natural da escrita

Sem professor. Sem aula. Sem provas. Sem notas.


Sem computador. Sem dom. Sem queda. Sem inspiração.
Sem estresse!
Só tu.
Tu e tu. Tu e o texto. Tu e a folha em branco.
Que impassível espera ser preenchida, para entretecer contigo a teia de palavras que
liga todas as dimensões de tua existência, nesta travessia de comunicação de ti para
contigo, de ti para o outro.
Sem.
Só tu.
Com teu ritmo. Com tua pulsação. Com paixão.
Na aventura do cotidiano. De resgatar a memória.
De fecundar o presente. De gestar o futuro. Anunciando esperanças. Denunciando
injustiças. In(en)formando o mundo com tua-vida-toda-linguagem.
Sem!
Levanta tua voz: em meio às desfigurações da existência, da sociedade, tu tens a
palavra.
A tua palavra. Tua voz. E tua vez.

Gilberto Scarton

O leitor que quiser mais informações relativas a esses tipos de frase, fará bem
consultar a excelente obra de Othon Garcia "Comunicação em prosa moderna".

2. Textos

2.1 Textos-modelos

Letra de Música

Germano Jacobs

Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. Àquela hora, sete da
noite, o bar estava cheio. Ele se encontrava sozinho, numa mesa no canto, quase escondido. Devia ter
45 anos e gostava de conversar consigo mesmo, de relembrar os bons tempos, aqueles que não voltam
mais, essas coisas sentimentais do lugar-comum.
Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. Vai ao banheiro. Volta.
Continua o ritual. Droga de vida, os bons tempos não resolvem coisa alguma. Parece letra de música
destas duplas que infestam o rádio, mas os últimos anos foram uma sucessão de dramas. Dramas, não,
dramalhões. Encontrar a mulher na cama com seu melhor amigo foi o começo. Bem que andava
desconfiado, mas como é que podia imaginar tamanha sem-vergonhice? Ela ainda riu na sua cara,o seu
amigo vestiu-se calmamente, fazendo pouco caso de sua presença. Quase que pediu desculpas por
encontrá-los em adultério. Mais tarde perdoou a mulher, mas ela preferiu mesmo ficar com seu melhor
amigo.
Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. Tosse. A desgraçada
está voltando. Tosse. Vinte anos na mesma empresa. Auxiliar de contabilidade. Cumpridor de seus
deveres, de jamais faltar ao serviço. Certo dia, sem mais nem menos, o aviso de demissão. "Por que eu,
o que fiz, em que falha incorri?" "Contenção de despesa", a resposta, "a crise está braba". Sem mulher e
sem emprego. E o emprego? Faz a escrita contábil do bar que freqüenta, da verdureira da esquina, da
sapataria de um compadre seu, vai se virando. Ganha para comer, pagar o quartinho da pensão e tomar
a cerveja de todos os dias. É o único luxo que se permite.
Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. O dois filhos, de 19 e 17
anos, estão por aí, no mundo. Eles que se virem. Ele quer ficar só, os outros que se danem. Se
conseguisse esquecer da mulher, tudo seria diferente. Aí é que está, mesmo que continuasse a traí-lo,
com seu melhor amigo, com quem quer que fosse, não importa, suportaria tudo para estar junto dela.
Isso o deixa louco de raiva: "Que merda de homem sou eu?", se pergunta, e encontra à sua frente o
copo de cerveja e o cigarro.
Uma tragada. Um copo de cerveja. Mais um copo de cerveja. Uma tragada. Tem certeza que nunca
vai encontrar resposta. E continua o ritual.

Felicidades

Beertolt Brecht - Poemas


O primeiro olhar da janela de manhã.
O velho livro perdido e reencontrado.
Rostos animados.
A neve, a sucessão das estações.
Jornais.
O cachorro.
A dialética.
Tomar um banho, nadar um pouco.
A música antiga.
Sapatos macios.
Compreender.
A música nova.
Escrever, plantar.
Viajar, cantar.
Ser Camarada.

2.2 Textos de alunos

Inocentes Reflexões

Renata Eichenberg

Viver é desejar. Realizar nossos sonhos. Crescer. Amadurecer. Amar. Descobrir.


Procurar. Acredito ser a vida preciosa, atraente, misteriosa, surpreendente. Não basta
apenas vivê-la, temos que sonhá-la, imaginá-la, supô-la, adivinhá-la.
Se eu pudesse ter sete vidas, certamente teria sete desejos, sete anseios, sete
amores, sete pais, sete filhos, sete sonhos.
Como só tenho uma, porém intensa e preciosa, espero, durante a minha vivência
terrena:

conhecer muitos lugares, povos, costumes, tradições;


provar todas as formas e tipos de chocolates;
escrever, pelo menos, uma obra;
ter dois filhos, uma menina e um menino;
viver em uma praia tranqüila;
sentir, todo o dia, o cheiro de terra, mar, areia;
ter coragem de mergulhar, conhecendo os mistérios da água;
ver o pôr-do-sol sem a sombra de um arranha-céu;
viver a vida inteira ao lado de um único homem;
amar e ser amada;
sugar a essência do mundo;
provar de todos os vinhos;
arrancar suspiros;
simplesmente viver.
Devastação

Scheila Feijó Fantinels

Noite escura. Chuva caindo lá fora.


Continua chovendo. O cachorro late prevendo alguma coisa.
Aumenta a chuva.
Granizo. Vento. Chuva.
Começo a sentir medo.
A água ultrapassa as portas.
Telhas voam e não ouço nada. Pavor. Choro.
Os minutos parecem horas. Rezo...
Silêncio. O pesadelo acabou.
Devastação.
Árvores caídas, casas derrubadas, lágrimas, alguns feridos.
Ninguém segura a natureza.

Como redigir um texto não revelando o objeto

1. Introdução

Esta técnica foi mencionada quando foram apresentadas fórmulas para iniciar textos.
Omitir, no início do texto, o objetivo ou idéia (e só revelá-los adiante) é um artifício
original que desperta a curiosidade do leitor. O expediente, no entanto, pode se estender
a todo o texto, como demonstramos nesta seção.

A par de outros ganhos que podem advir da produção de textos dentro deste modelo,
é preciso ter presente que essa tarefa, de cunho lúdico e desafiador, se presta, ao lado de
outras aqui apresentadas, a desenvolver ou resgatar o gosto pela escrita.
Foi observado, com freqüência, a satisfação do aluno, a auto-estima aumentada, por
ter produzido algo novo, criativo, surpreendente. O aluno sente-se mais confiante, pois
se reconhece como um ser criativo, com poderes de linguagem.

2.Textos

2.1 Textos-modelos

Objeto Estranho
Carlos Drummond de Andrade

Um objeto estranho ameaça incorporar-se à elegância masculina, segundo informa


o colega Zózimo. Seu aparecimento ocorreu na Itália, e sua presença já se faz sentir
em outras capitais européias.
É a maçaranduba.
A primeira singularidade da maçaranduba consiste em que ela absolutamente não
participa da sorte das demais peças do equipamento humano a que se junta. É que a
maçaranduba fica perto do vestuário, sem se ligar a ele. É ciosa de sua independência,
ao contrário dos outros elementos que colaboram na apresentação do homem em
público. Estes seguem conosco na condição de servos dóceis, ao passo que ela
mantém liberdade de movimentos. E exige de nossa parte atenções especiais, sob pena
de abandonar-nos à primeira distração. Concorda em fazer-nos companhia, mas sem o
compromisso de aturar-nos o dia inteiro. Dir-se-ia, mesmo, que nós é que a
acompanhamos no seu ir e vir pretenciosamente pelas ruas.
A maçaranduba está sempre à mostra, ostensiva e vaidosa. Sua tendência é para
assumir a liderança do conjunto e exibir-se em envoluções fantasistas, que exigem
certas habilidades do portador. Assim, quando não tem o que fazer (e de ordinário não
tem) descreve círculos e volteios que pretendem ser graciosos em sua gratuidade.
A maçaranduba parece ter mau gênio? Parece, não: tem. Já o demonstrou sempre
que algum transeunte lhe despertou antipatia ou lhe recordou episódios menos
agradáveis. Pois é. A maçaranduba não é de suportar opiniões contrárias às suas. À
falta de melhor argumento, na polêmica, ergue-se inopinadamente, avança como um
raio e procura alcançar a parte doutrinária alheia nos pontos mais vulneráveis, desde o
lombo até os óculos. Sua agressividade impulsiva costuma levá-la à polícia, quando
não se recolhe inerte e indiferente a um canto deixando que seu portador pague a nota
dos estragos.
A maçaranduba é basicamente feita de madeira, às vezes se beneficia de espécies
vegetais não compactas, o que lhe permite estocar recursos ofensivos de grande
temibilidade. Ao vê-la se aproximar, tome cuidado, pois sua ira não se satisfaz com
simples esquimoses.
A maçaranduba costuma gostar de ornatos, e uma que pertencia a Balzac era
cravejada de pedras preciosas...
A impertinência da maçaranduba, para não dizer arrogância, deve-se talvez ao fato
de que em outras eras foi símbolo de poder e, sob formas diversas, esteve ligada à
realeza e a seu irmão gêmeo, o absolutismo. Em mãos governamentais, era
duplamente terrível: pela contundência material e pela espiritual.
Ter sido a maçaranduba elemento de garridice feminina, durante a Idade Média até
a Renascença, não lhe adoçou o temperamento. Passando a andar só com os homens,
nem por isso dispensa maior cortesia às mulheres e, na hora de zangar-se, é incapaz
de distinguir is sexos.
Diga-se em favor da maçaranduba, para que o retrato não fique excessivamente
carregado, que algumas espécimes são inclinadas à generosidade, e se comprazem em
ajudar pessoas encanecidas ou faltas de visão. Contudo trata-se de exceção.
A maçaranduba tem um irmão soturno, que paradoxalmente só se anima a passear
quando começa a chuva, e sob o aguaceiro se diverte disputando lugar. Muitas vezes
este irmão gêmeo imita a mania elegante, no ataque ao próximo.
Cuidado com a maçaranduba, amigos pacíficos: trata-se de objeto às vezes voador,
identificado.
Chega, Basta e Fora!

Cyro Silveira Martins Fº

Os acontecimento que o Brasil viveu nessa quinta-feira mostram que caminhamos


para um terreno perigosamente pantanoso.
As trevas rondam.
A anarquia ressurge dos bueiros com poder e majestática soberba.
A autoridade que deveria se impor parece inerte e o Brasil hesita e titubeia diante
da vontade de uma minoria hábil, atuante e turbulenta, que consegue utilizar-se com
destreza da mídia - impressa, falada e televisionada - e consegue impor sua vontade à
imensa maior parte dos cidadãos contribuintes e votantes.
E, mais, consegue arrastar em sua cantilene de sereia curvilínea os ingênuos e os
que ainda têm a consciência em formação.
Poucos gatos, pingados, mas ardorosos e ousados, que não respeitam leis,
regulamentos, regras nem lógica, história, tradição ou costumes.
Nós, os brasileiros verdadeiramente patriotas, não podemos assistir placidamente
ao Brasil tendo seu leme quebrado, perdendo o rumo, submetido pela força das idéias
exóticas, totalmente desvinculadas de nossa realidade de povo manemolente. Idéias
que em nada dizem respeito à nossa natureza espontânea, à nossa exuberância criativa
de nação multifacetada étnica, cultural e geograficamente.
Esses, que tentam se impor pela força, desprezando a opinião da avassaladora
maioria, se opondo à opinião pública manifestada democraticamente, só contribuem
para fragilizar o Brasil diante dos outros países. E para transformar o país numa
presa fácil para os predadores estrangeiros. Porque tanto Europa como América
Latina só esperam um momento de fraqueza nosso para arremeter e tentar nos colocar
de joelhos diante de seus ataques.
Mais ainda.
A arrogância desses que se autoconcedem a onisciência de apenas eles, e ninguém
mais que eles, saberem o que é bom para o Brasil, esses que se julgam certos ab initio
ad infinitum, esses, que sequer se dignam a explicar aos demais o raciocínio anterior a
suas atitudes, a arrogância dessa casta, diante da estupefação de milhões de pessoas,
prenuncia uma tempestade de efeitos terríveis sobre a vida, o coração e alma de nós,
brasileiros e patriotas.
Não é possível que isso seja levado adiante.
Não podemos, nós, que estamos vendo o Brasil ameaçado, permanecer calados.
Há cheiro de 1974 no ar.
Por isso: chega e basta.
Fora Zagalo.

2.2 Texto de aluno


.....................

Fábio Abreu dos Santos

No começo, ela era minha companheira nos momentos mais difíceis. Sempre que
eu estava só, magoado com alguma coisa, houvesse brigado com minha esposa,
discutido com os colegas do trabalho, me irritado com meus filhos, eu ia à sua
procura. Aliás, com o tempo, qualquer motivo era suficiente para que corresse até ela,
tal era o prazer que tal encontro me proporcionava. Ela sempre estava lá, de braços
abertos, pronta para me receber, sem me fazer perguntas. Conseguia, de forma
milagrosa, confortar-me e fazer-me novamente feliz em questão de segundos. Seu
brilho me seduzia, sua voz era como música para meus ouvidos. Uma aura emanava
em torno dela. Às vezes na sala, às vezes no quarto, com as luzes apagadas, eu era
seduzido por ela, de tal forma que respondia, sem dizer não, a todos os seus apelos.
Mas hoje, parece que ela já perdeu um pouco daquele brilho, aquela cor que enfeitava
sua fronte. Nossa relação amorosa foi, pouco a pouco, se deteriorando. Talvez fosse a
idade dela, talvez fosse seu tamanho. Afinal, convenhamos,14 é muito pouco. Resolvi
trocá-la por outra, muito mais bonita, maior, um pouco usada, mas nem tanto. Minha
família, após descobrir minhas intenções, até deu-me incentivo para realizar a troca.
As crianças, agora, não saem da frente dela. Minha mulher é sua fã número um.
Sinceramente, não sei como conseguimos viver até hoje sem uma tv de vinte e uma
polegadas.

Como redigir um texto só com substantivos

1. Introdução

Poder-se-ia dizer que um texto construído apenas com substantivos é a exacerbação


do estilo que emprega frases nominais.

A apropriação desta técnica por parte do aluno é tarefa muito fácil. Mesmo assim, a
produção de textos calcados neste esquema é muito útil, uma vez que abre espaço para
que se discuta com os alunos a originalidade ou a informatividade do texto. Dito de
outro modo, é preciso alertar os alunos de que eles deverão criar, recriar a partir de
outros textos, uma vez que "escrever é aproveitar criativamente outros materiais
interdiscursivos". É preciso alertá-los de que deverão ser originais, criativos na escolha
da situação a ser narrada mediante esta técnica, e não repetir as dos modelos.

2. Textos

2.1 Textos-modelos

Circuito Fechado

Ricardo Ramos
Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água,
espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria,
água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça,
meias, sapatos, telefone, agenda, copo com lápis, caneta, blocos de notas, espátula,
pastas, caixa de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo.
Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas,
vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete,
cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel,
caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz,
papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres,
garrafa, guardanapo. xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes,
pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo,
telefone interno, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço,
relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires,
prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e
poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel,
relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel,
telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço
de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa,
cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e fósforo. Poltrona,
livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa,
sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama,
travesseiro.

A Pesca

Affonso Ramos de Sant'Anna

o anil
o anzol
o azul
o silêncio
o tempo
o peixe

a agulha
vertical
mergulha

a água
a linha
a espuma

o tempo
a âncora
o peixe
a boca
o arranco
o rasgão

aberta a água
aberta a chaga
aberto o anzol

aquelíneo
ágilclaro
estabanado

o peixe
a areia
o sol

2.2 Textos de alunos

Vidinha Redonda

Kátia da Costa Aguiar

Esperma, óvulo, embrião, parto. Bebê, choro, sobressalto, cocô, xixi, fralda, leite,
colo, sono. Doença, vômito, pavor, pediatra, remédio, preço. Murmúrio, passos, fala.
Escola, lancheira, material, professora. Curiosidade, descoberta. Crescimento,
desenvolvimento, pêlos pubianos, seios, curvas, menstruação, modess, cólica,
atroveran, adolescência. Primeiro beijo, paixão, shopping center. Batom, esmalte,
rinsagem, depilação. namorado, pressão, intimidade, culpa. Festa, pai, ciúme, relógio,
motel, desculpa, dissimulação. Faculdade, trabalho, consciência, cansaço, sossego,
idade. Noivado, loja, fogão, geladeira, cama, mesa, banho, aliança, chá-de-panela.
Cartório, igreja, núpcias. Sexo, trabalho, sexo, trabalho, sexo, esperma, óvulo, licença,
parto.

Trânsito

Luzia Fialho, Leandro Rangel, Paola Teodoro

Porta, banco, cinto


chave, afogador.
Ufa!

Acelera, engata, foi!


2ª, 3º, 4ª,
sinaleira,
freio.

Laranja,
jornal,
esmola,
acelera, engata, foi!

Salvador França,
Ipiranga.

Acelera, engata, foi!


Ôpa! ficou
Congestionamento

Liga rádio -
Voz do Brasil...
Desliga.

Calor,
cigarro,
estacionamento lotado!

Fila.
Espera.
Vaga.
8 horas...
Atrasado.

Dona-de-casa

Carine Vargas

Sol.
Bom dia, dentes, filhos, uniforme,
merenda, café, carro, escola, carro, supermercado,
carne, pão, banana, refrigerante, alface, cebola,tomate. Carro,
casa, cama, lençol, travesseiro, colcha, roupa, lavanderia, máquina, sabão, sala,
almofada, pano, pó, cortina, tapete, feiticeira. Banheiro, descarga, balde, água,
desinfetante, toalha molhada, lavanderia, arame, prendedor. Cozinha, pia,
tábua, faca, panela, fogão, bife, arroz, molho, feijão, salada, mesa, toalha,
pratos, talheres, copos, guardanapos, carro, escola, filhos, carro, almoço, mesa,
pia, louça, armário, fogão, piso. Televisão, jornal, filhos, tema, lanche, leite,
nescau, pão, margarina, banana, louça, pia, armário. Carro, filhos, natação,
futebol, mensalidade, espera, revista, filhos, carro, casa. Vizinha, conversa
rápida, lavanderia, arame, roupas, agulha, linha, camisa, calça, ferro de passar.
Janta, marido, filhos, sala, televisão, família reunida, dinheiro, discussão,
cozinha, mesa, louça, pia, armário. Filhos, sono, escova, creme dental, cama,
beijo, durmam com os anjos. Portas chaveadas, janelas fechadas,
banho, sabonete, água, toalha, creme no corpo, camisola,
renda, escova, cabelo, perfume, dentes limpos,
cama, marido, sexo, sono, boa noite,
Lua.

Quinhentos anos sem respirar

Fábio Canatta

Oca, pajé, tribo, mata, virgem, caça, pesca, coleta, pureza, perfeição. Santa Maria,
Pinta e Nina. Descoberta. Portugueses, povoamento, contato, colonização, dominação.
Pau-brasil, devastação, comércio. África, negro, banzo, trabalho, humilhação,
escravidão. Engenho, moenda, caldeira, senzala, sofrimento, agressão. Senhores,
quilombo, Palmares, luta, liberdade, prisão. Entradas, bandeiras, violência,
domesticação. Ouro, extração, arrobas, derrama, inconfidentes, esgotamento, rebelião.
Brasil, império, D. Pedro, proclamação. Primeiro, segundo reinado, constituição,
regência, continuação. Conturbação, agitação, guerras: Balaiada, Sabinada, Farrapos
(separação). Chimangos, maragatos, República Rio-Grandense do Prata, sonho,
revolução. Café, crise, comércio, importação, abolição, imigração. Suíços, belgas,
italianos, alemães. República. Café-com-leite, Hermes, Nilo, Pena e Venceslau.
Canudos, Conselheiro, revolta, Antônio, misticismo, monarquia, sertão, genocídio e
covardia. Operário, indústria, crise, revoltas, tenentes, dezoito, constituição, de novo.
Estado, novo? Autoritarismo, Getúlio, Guerra, Segunda. Redemocratização,
atentados, mortes, ricos, poucos, pobres, muitos. Jk, Brasília, vários, outros. Ameaça,
comunismo - comunismo? - Estados Unidos da América, Brother Sam, Jango, golpe,
tirania e repressão. Opressão, medo, violência, ditadura. Castelo, Geisel, Médici.
Mais, crise, multinacionais, abertura, burrice, degradação. Guerrilha, luta, seqüestro,
tortura, política, submissão. resistência. Gabeira, Marighela, Lamarca, extradição. AI-
5. Protesto, passeata, Herzog, 100 mil, pressão, povo, rua, emoção. Lágrimas,
marchas e contramarchas. Manifestos, anistia, abertura, lenta, gradual. Diretas, já,
povo, cidadãos. Tancredo, civil, conciliação, transição. Tumor, benigno, cirurgias,
seis, fé, rezas, medo, morte. Frustração. Choro, Sarney, Constituição, cruzado, verão,
fiscais, recorde, inflação. Eleições, Fernando, Lula, Brizola. Campanha, segundo,
turno, Globo, Collor, Lula. Baixarias, ofensas, comunismo, medo. Lula, ignorante,
operário, feio, burro. Collor, vitória. caçador, marajás. marajá, caçado. Globalização,
abertura, de novo, tudo, crise, poupança, confisco. Povo, de novo, rua, manifesto,
passeata, impeachment. Itamar, moeda, real, ministro, futuro, candidato. Eleições,
sociólogo-ex-ministro, versus, torneiro-mecânico. Plim-plim. De novo. Fernando, de
novo, tudo, de novo, crise, pobreza e humilhação. Imperialismo, colônia, my brother,
desnacionalização, economia, pobreza, real, irreal, medo, aniversário, 500, anos.
Brasil, país, futuro, incerto.
Como realizar a intertextualidade

1. Introdução

A competência em leitura e em produção textual não depende apenas do


conhecimento do código lingüístico. Para ler e escrever com proficiência é
imprescindível conhecer outros textos, estar imerso nas relações intertextuais, pois um
texto é produto de outro texto, nasce de/em outros textos.

A essa relação (que pode ser explícita ou implícita) que se estabelece entre textos dá-
se o nome de intertextualidade. Ela influencia decisivamente, como estamos afirmando,
o processo de compreensão e de produção de textos.

Quem lê deve identificar, reconhecer, entender a remissão a outras obras, textos ou


trechos. As obras científicas, os ensaios, as monografias, as dissertações, as teses, por
exemplo, remetem explicitamente a autores reconhecidos, que corroboram os pontos de
vista defendidos. A compreensão de uma charge de jornal implica o conhecimento das
notícias do dia. A leitura de um romance, conto ou crônica aponta para outras obras,
muitas vezes de forma implícita.

Nossa compreensão de um texto depende assim de nossas experiências de vida, de


nossas vivências, de nosso conhecimento de mundo, de nossas leituras. Quanto mais
amplo o cabedal de conhecimentos do leitor maior será sua competência para perceber
que o texto dialoga com outros, por meio de referências, alusões ou citações, e mais
ampla será sua compreensão.

As referências são muitas vezes facilmente perceptíveis, identificadas pelo leitor. Por
exemplo, no anúncio publicitário sobre meias "Os fins justificam as meias", o leitor
percebe de imediato a recriação da máxima "Os fins justificam os meios". Há, por outro
lado, referências, alusões muito sutis, compartilhadas ou identificadas apenas por alguns
leitores, que têm um universo cultural, um conhecimento de mundo muito amplo. O
texto a seguir ilustra o que foi dito.

Outras Vidas

Vanessa Mello

Acredita-se que, para viver outras vidas, é necessário morrer primeiro e, depois de
algum tempo, voltar. Eu já vivi muitas vidas, e nada disso foi preciso. Morei em
outros países, em épocas diferentes e até em séculos passados. Tudo em uma única
vida, a minha.
Beber "Cherry Brand" nos bares de Paris era uma das coisas que eu adorava fazer,
mas um dia, algo terrível aconteceu e acabou com minha alegria. Me transformei em
barata. Todos se afastaram de mim, tinham medo e nojo. Até que conheci uma velha,
acho que era vidente, que me falou sobre meu amor, tão perto de mim e eu o
desconhecia. Foi na Ilha de Paquetá e eu realmente encontrei o amor. Estava naquele
garoto que eu conhecia desde criança.
Casei-me com um homem incorrigível, que amava e odiava ao mesmo tempo. Ele
morreu, mas não me deixou e passei pela deliciosa experiência de ter dois maridos.
Vivi uma paixão impossível e valsei sem melancolia, sem arrependimento.
Presenciei a ditadura, no ano de 1968 e, apesar de algum tempo, parece que ainda
não acabou. Construí o império dos Diários e Emissoras Associados e muito contribuí
para a comunicação. Passava os dias na Praça da Alfândega, convivendo com os mais
variados tipos, na época de seus Anos Dourados.
Conheci muitos lugares. Viajei de barco durante cem dias e fiquei maravilhado
com a natureza, com o litoral brasileira e até com a África que nunca chamou minha
atenção. Ainda sinto o cheiro do mar. Outra viagem interessante que fiz me revelou
fatos que não conhecia sobre o descobrimento do Brasil.
Integrei o Clube do Picadinho, que diminuía a cada encontro. Sabíamos de quem
era a vez, mas nunca desistimos. A emoção e o perigo faziam com que essas fossem
as melhores refeições.
Esses são apenas alguns relatos de minha vida. Poderia ficar por horas contando
minhas aventuras, descrevendo todas as pessoas que conheci e relembrando os
infinitos amores que tive. Talvez em outro encontro. Mas antes de me despedir, quero
contar como foi o meu primeiro contato com esse mundo maravilhoso.
Aconteceu quando eu ainda era criança e minha mãe me apresentou à Turma da
Mônica e depois ao palhacinho Alegria. Eles se tornaram meus companheiros e, à
medida que fui crescendo, ganhei novos amigos.
Tenho um poder espantoso. Através dele, conheci novo sentimentos, senti o gosto
de novas comidas e bebidas, sem nem mesmo ter experimentado, vesti-me como as
"sinhazinhas" do século passado, senti fome como Fabiano. Essa capacidade mágica
que tenho não é exclusividade minha, ela está adequada a minha personalidade, mas
todos podem ter, é só querer.
Além de adquir cultura e informação, desenvolvi minha criatividade, tive uma
visão mais ampla de certos assuntos. Dou asa a minha imaginação, e permito-me
conhecer novos costume, lugares, vidas, mundos, sentimentos.

No segundo parágrafo, a autora faz referência a três livros: "Paris é uma festa" (E.
Hemingway), "A moreninha" (J. M. de Macedo) e "Metamorfose" (F. Kafka). No
terceiro, a "Dona Flor e seus dois maridos" (J. Amado) e "Valsa para Bruno Stein" (C.
Kiefer). No quarto, a "Chateau, o rei do Brasil" (F. Moraes). No quinto, a um livro de
Amir Link. Mais adiante, a Maurício Cardoso e finalmente, a "Vidas Secas" (G.
Ramos). O texto se refere às experiências de leitura da autora.

Os teóricos costumam identificar tipos de intertextualidade, entre os quais podemos


destacar:

a que se liga ao conteúdo, isto é, a que se refere a temas ou assuntos contidos em


outros textos, mediante referências explícitas (citações, com identificação da
fonte) ou mediante referências implícitas;

a que se associa ao caráter formal, isto é, mediante textos que imitam o estilo, a
liguagem de um autor ou obra (imitação de linguagem bíblica, jurídica; imitação
da linguagem de João Guimarães Rosa; etc.). Um leitor competente identifica
facilmente essas relações, esse diálogo entre textos.
A intertextualidade, como dissemos, também diz respeito à possibilidade de um texto
ser criado a partir de outro(s) texto(s).

Quem escreve não escreve no vazio, pois um texto não surge do nada. Nasce de/em
outro(s) texto(s). Pode-se dizer que escrever é a habilidade de aproveitar criticamente,
criativamente outros materiais interdiscursivos, outros textos. É por isso que quem lê
(de forma inteligente, conforme expusemos no capítulo "Como desenvolver a
competência textual") está em situaçõa privilegiada para escrever, uma vez que se
apropria, mediante a leitura, de idéias e de recursos de expressão.

Para ilustrar o fenômeno da intertextualidade bem como para pôr em destaque sua
relevância no momento da produção textual, apresentamos a proposta de trabalho
aplicada nas salas de aula da Famecos / PUCRS.

Trata-se de produzir uma crônica a partir de uma notícia de jornal: uma mãe dá à luz
um filho, às portas do hospital, e é socorrida por populares, que envolvem a criança na
Bandeira do Brasil, pois participavam do desfile de 7 de Setembro.

Para a realização do texto, apresenta-se a crônica de Fernando Sabino, em que o


aluno observa, entre outros fatos, o estilo (frases curtas, nominais, repetições, etc.).
Apresenta-se também pequeno trecho do poema "Morte e Vida Severina" de João
Cabral de Melo Neto.

A tarefa consiste em produzir a crônica apropriando-se do estilo de Fernando Sabino


e inserindo adequadamente passagens do poema.

2. Textos

2.1 Textos dos quais os alunos devem se apropriar

Notícia de Jornal

Fernando Sabino

Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor


branca, 30 anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em
pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante 72 horas, para
finalmente morrer de fome.
Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos e comentários, uma ambulância do
Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar
auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.
Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou
que o caso (morrer de fome) era da alçada da Delegacia de Mendicância, especialista
em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.
O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Anatômico sem
ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome.
Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem
caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um
pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa - não é um homem. E os
outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e
duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de
nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum. Passam, e o
homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem
socorro e sem perdão.
Não é da alçada do comissário, nem do hospital, nem da rádiopatrulha, por que
haveria de ser daminha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer
de fome.
E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido.
Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais
morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais
puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse,
para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que
morresse de fome.
E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição, tombado em plena rua, no
centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, Estado da Guanabara, um
homem morreu de fome.

Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto

De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.

Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.

Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já adivinha.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.

De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.

De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.

É tão belo como a soca


que o canavial multiplica.
Belo porque é uma porta
abrindo-se me muitas saídas.
Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

Belo porque tem do novo


a surpresa e a alegria.
Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

E belo porque com o novo


todo o velho contagia.
Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

2.2 Textos de alunos

Pariu no Corredor do Hospital

Renata Appel

Leio no jornal a notícia de uma mulher que pariu no corredor do Hospital Fêmina.
Jovem, negra, pobre, pariu no corredor do hospital, com poucos socorros, em pleno
banco estofado, em meio a enfermeiras, médicos e pacientes. Somente abriu as pernas
e deu à luz.
Pariu no corredor do hospital. Gritou por ajuda, clamou por assistência médica. No
entanto, o tempo não pôde esperar e acabou parindo em pleno corredor.
Gestante pariu no corredor de hospital. A enfermeira disse que havia falta de
quartos. Fêmina apresentava super lotação de parturientes. E a pobre negra somente
abriu as pernas e deu à luz.
Eis que de seu ventre surge um menino magro. De muito peso não é, mas tem peso
de homem, de obra de ventre de mulher. É uma criança pálida e franzina. Mas tem a
marca de homem, marca de humana oficina.
Pariu no corredor do hospital. Entre diversas enfermeiras, médicos e pacientes.
Mulher pobre. Sozinha. Miserável. Gestante. Jovem demais. Negra. Baixo nível.
Ignorante. Um bicho, uma coisa - não foi tratada como digna parturiente. E pariu no
corredor do hospital. E eis que de seu ventre salta uma criança pequena. É tão bela
como um sim numa sala negativa.
Não é responsabilidade dos profissionais, nem do hospital, nem das autoridades. O
que têm a ver com o fato? Deixa a mulher parir em pleno corredor.
E ela, o que faz? Jovem e destemida dá à luz sobre um banco estofado, sem
recursos e com pouco auxílio. E eis que de seu ventre nasce o menino. Somente após
o ocorrido, a jovem é amparada. Nos braços, o rebento abençoado infecciona a
miséria com vida nova e sadia.

Observe-se como a autora se apropria habilmente de recursos lingüísticos


encontrados na crônica de Fernando Sabino:

Crônica de Fernando Sabino Texo de Renata Appel

A repetição "morreu de fome" A repetição "pariu no corredor do


(18 ocorrências) Hospital"
(7 ocorrências)
Frases nominais: "Um homem caído na rua.
Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, Frases nominais: "Mulher pobre.
um anormal, um tarado, um pária, um Sozinha. Miserável. Gestante. Jovem
marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa demais. Negra. Baixo nível. Ignorante.
- não é um um homem." Um bicho, uma coisa - não foi tratada
como digna parturiente."

Observe-se igualmente como a autora insere passagens do poema de João Cabral de


Melo Neto:

" Eis que de seu ventre surge um menino negro. De muito peso não é, mas tem peso
de homem, e franzina. Mas tem a marca de homem, marca de humana oficina.

É tão bela quanto um sim numa sala negativa

... infecciona a miséria com vida nova e sadia.

É evidente que a repetição de expressões, o uso adequado de frases curtas,


nominais, fragmentadas e a referência aos versos do poema "Morte e vida severina"
conferem à crônica traços de literariedade.

Como escrever uma paródia

A paródia é a recriação de um texto, geralmente célebre, conhecido, uma reescritura


de caráter contestador, irônico, zombeteiro, crítico, satírico, humorístico, jocoso.

A paródia constrói, assim, um percurso de desvio em relação ao texto parodiado,


numa espécie de insubordinação crítica, cômica.

Texto-Base: No Meio do Caminho

Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra


tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei desse acontecimento
que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no
meio do caminho
no meio do caminho
tinha uma pedra

Paródia No Meio do Caminho

Deise Konhardt Ribeeiro

No meio do caminho tinha um fuquinha


tinha um fuquinha no meio do caminho
tinha um fuquinha
no meio do caminho tinha um fuquinha.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na ida de minhas noitadas tão agitadas.
Nunca me esquecerei
que no meio do caminho
tinha um fuquinha
tinha um fuquinha no
meio do caminho
no meio do caminho
tinha um fuquinha.

Texto-Base: Primeiro Ato

Gilberto Scarton

Sem professor. Sem aula. Sem provas. Sem notas


Sem computador. Sem dom. Sem queda. Sem inspiração.
Sem estresse!
Só tu.
Tu e tu. Tu e o texto. Tu e a folha em branco.
Que impassível espera ser preenchida, para entretecer
contigo a teia de palavras que liga todas as dimensões de
tua existência, nesta travessia de comunicação de ti para
contigo, de ti para o outro.
Sem.
Só tu.
Com teu ritmo. Com tua pulsação. Com paixão.
Na aventura do cotidiano. De resgatar a memória.
De fecundar o presente. De gestar o futuro. Anunciando
esperanças. Denunciando injustiças. In(en)formando o
mundo com tua-vida-toda-linguagem.
Sem!
Levanta tua voz em meio às desfigurações da existência,
da sociedade, tu tens a palavra.
A tua palavra. Tua voz. E tua vez.

Paródia: Primeiro Filho

Antonio Carlos Paim Terra

Sem telefone. Sem campainha. Sem cachorro.


Sem estresse. Sem vizinho. Sem tudo. Sem nada.
Sem roupa!
Só tu.
Eu e tu. Tu e o teu corpo. Tu e o clima romântico.
Eu impassível espero por ti, para entrelaçar
contigo uma teia de carinhos que liga toda a dimensão de
nossos corpos, nesta travessia de vibrações de ti para
comigo, de mim para contigo.
Sem camisinha.
Só prazer.
Com nosso ritmo. Com minha pulsação. Com paixão.
Na aventura do cotidiano. De rasgar a tua roupa.
De fecundar o presente. De gestar o futuro. Anunciando
um bebê. Informando ao mundo
o nascimento de uma vida.
Sem preparativos!
Levemos o fato para a sociedade.
Nós temos a felicidade.
O nosso filho. Daqui a nove meses. Será a tua vez.

Texto-Base: Carreira Hereditária

BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!


BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!
BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!
ANALISANDO ESSA CARREIRA HEREDITÁRIA
QUERO ME LIVRAR DESSA SITUAÇÃO PRECÁRIA
(REPETE)
ONDE O RICO CADA VEZ FICA MAIS RICO
E O POBRE CADA VEZ MAIS POBRE
E O MOTIVO TODO MUNDO JÁ CONHECE
É QUE O "DE CIMA" SOBE
E O "DE BAIXO" DESCE...

Texto-Base: Carreira Estagiária

Luciana da Silva Rocha

BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!


BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!
BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!

ANALISANDO MINHA CARREIRA ESTAGIÁRIA


QUERO ME LIVRA DESSA SITUAÇÃO PRIMÁRIA...
ONDE O EFETIVO CADA VEZ FICA MAIS RICO
E O ESTAGIÁRIO CADA VEZ É MAIS OTÁRIO,
E O MOTIVO TODO MUNDO JÁ CONHECE...
O EFETIVO SOBE, O ESTAGIÁRIO DESCE.

BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!


BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!
BOM XI BOM XI BOMBOMBOM...!

MAS EU SÓ QUERO É COMPRAR MEUS LIVROS,


PAGAR A MINHA MENSALIDADE COM MUITA DIGNIDADE,
EU QUERO VIVER BEM,
TERMINAR DE ESTUDAR,
MAS A GRANA QUE EU GANHO
NÃO DÁ NEM PARA CONTAR...
E O MOTIVO TODO MUNDO JÁ CONHECE...

Texto-Base: Ser Mãe

Coelho Neto

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra


o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio, que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor cantando vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra


sobre um berço dormido! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo bem que a mãe goza é bem do filho,


espelho em que se mira afortunada,
luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!


Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso.

Paródia: Ser Moderna

Marco Antonio F. Conde

Se moderna é remontar fibra por fibra


o peitão! Ser moderna é não ter o receio
de ficar bonita, botando silicone no seio,
onde a natureza, recriada, balançando vibra!

Ser moderna é ter um marmanjo que se libra


sobre o busto rígido! É ser dois seios,
é não necessitar de outros meios,
é ter força, onde o vestido se equilibra!

Todo o bem que goza é bem da humanidade,


espelho onde se mira, sem culpa,
ser menina, em qualquer idade!

Ser moderna é ser siliconada!


Ser moderna é ter prótese mamária!
ser moderna é ser um colírio pra gurizada!

Como se realiza a coesão

1. Que é coesão?
Leia o texto a seguir completando mentalmente as lacunas

1. O papa João Paulo II disse ontem, dia de seu 77º aniversário, que seu desejo
2. é "ser melhor". ................. reuniu-se na igreja romana de Ant'Attanasio com
3. um grupo de crianças, uma das quais disse: "No dia do meu aniversário
4. minha mãe sempre pergunta o queeu quero.E você, o que quer? .................
5. respondeu: "Ser melhor". Outro menino perguntou a ..................... que
6. presente gostaria de ganhar neste dia especial. "A presença das crianças me
7. basta", respondeu ............................ . Em seus aniversários, ...............
8. costuma compartilhar um grande bolo, preparado por irmã Germana, sua
9. cozinheira polonesa, com seus maiores amigos, mas não sopra as velinhas,
10. pois este gesto não faz parte das tradições de seu país, a Polônia. Os
11. convidados mais freqüentes a compartilhar nesse dia a mesa com................
12. no Vaticano são o cardeal polonês André Marie Deskur e o engenheiro
13. Jerzy Kluger, um amigo judeu polonês de colégio. Com a chegada da
14. primavera, .............. parece mais disposto. .............. deve visitar o Brasil na
15. primeira quinzena de outubro.

Agora complete as lacunas com

o aniversariante
O Pontífice
João Paulo II
O Sumo Pontífice
O Santo Padre
o Papa

Como você pode constatar, a palavra "papa" foi substituída várias vezes pelas
palavras e expressões acima indicadas. Essas substituições evitam a repetição pura e
simples da mesma palavra e propiciam o desenvolvimento contínuo ou o encadeamento
semântico do texto, na medida em que se recupera numa frase ou passagem um termo
ou idéia presente em outra.

O pronome "seu(s)" (linhas 1 e 7) também recupera semanticamente a expressão


"papa João Paulo II", assim como "este gesto" recupera "sopra as velinhas"; "nesse dia",
o "dia do aniversário do Papa".

Assim, um texto não é uma unidade constituída por uma soma de sentenças ou por
um amontoado caótico de palavras e frases. Os enunciados, os segmentos do texto estão
estritamente interligados entre si; há conexão entre as palavras, entre as frases, entre os
parágrafos e as diferentes partes. Há encadeamento semântico.

Diz-se, pois, que um texto tem COESÃO quando seus vários elementos estão
organicamente articulados entre si, quando há concatenação entre eles.
2. Mecanismos de coesão

A língua possui amplos recursos para realizar a coesão. Eis os principais.

2.1 Coesão por referência

Exemplo:
João Paulo II esteve em Porto Alegra.
Aqui, ele disse que a Igreja continua a favor do celibato.
Onde "aqui" retoma "Porto Alegre", e "ele" retoma "João Paulo II".

Os elementos de referência não podem ser interpretados por si mesmos; remetem a


outros itens do texto, necessários a sua interpretação.

São elementos de referência os pronomes pessoais (ele,ela, o, a, lhe, etc.),


possessivos (meu, teu, seu, etc.), demonstrativos (este, esse aquele, etc.) e os advérbios
de lugar (aqui, ali, etc.).

2.2 Coesão por elipse

Exemplo:
João Paulo II esteve em Porto Alegre. Aqui, disse que a Igreja continua a favor do
celibato.

Onde = a João Paulo II, ou seja, o leitor, ao ler, ao ler o segmento B, se depara com o
verbo disse e, para interpretar seu sujeito, tem que voltar ao segmento A e descobrir que
quem disse foi João Paulo II.

2.3 Coesão lexical

2.3.1 Coesão lexical por sinônimo

Exemplo:
João Paulo II esteve em Porto Alegre.
Na capital gaúcha, o papa disse que a Igreja continua a favor ....
Onde "Porto Alegre" = "capital gaúcha" e 'João Paulo II" = "papa"

A coesão lexical permite àquele que escreve manifestar sua atitude em relação aos
termos, Compare as versões:

João Paulo II esteve em Porto Alegre. Aqui, Sua Santidade disse que a Igreja ...
João Paulo II esteve ontem em Varsóvia. Lá, o inimigo do comunismo afirmou ...

Rui Barbosa, na sua magistral conferência sobre Oswaldo Cruz, em 1917, nos dá
lições acabadas da arte da sinonímia.
Santo Presente

(Zero Hora, 19/05/1997)

Para dizer febre amarela, por exemplo, empregou todas estas expressões sinônimas:
vômito negro, a praga amarela, estigma desastroso, contágio brasileiro, o mesmo
flagelo, germe amarílico, a tenaz endemia, a prega, a terrível doença, o contágio
homicida, calamidade exterminada, a devoradora calamidade, a maligna
enfermidade, essa desgraça, a terrível coveira, infecção xantogênica, esse
contagio fatal ... nada menos que dezessete formas e recursos para evitar a repetição
enfadonha.

Referindo-se aos ratos, eis a série por ele excogitada: rataria, rasteira e abjeta
família, esses vilíssimos roedores, essa espécie roaz, ralé inumerável, raça
insaciável dos murídeos.

Mencionando o fato da morte assim resolve Rui o problema da não repetição de


termos: a cólera-mórbus deu morte ... a peste negra roubou 25 milhões de indivíduos
à Europa ... dessa calamidade apenas escaparam um terço dos habitantes ... o
número dos sepultados excede o dos sobreviventes ... de vinte mal se salvam duas
pessoas ... no Hotel-Dieu expiram quinhentos ... para servirem de sepulcrário aos
corpos que nos cemitérios já cabem ... Paris registra cinqüenta, Londres cem mil
óbitos ... A Itália perde a metade de sua população ... vinte cinco milhões, pelo
menos, desaparecem ... se diz haver arrebatado ao gênero humano cem milhões de
vidas. Onze recursos de sinonímia num trecho de 34 linhas apenas!

(LEITE, Ulhoa Cintra Marques. "Novo Manual de Redação e Estilo", Rio de Janeiro,
1953)

A substituição de um nome próprio por um nome comum se processa muitas vezes


mediante a antonomásia. Trata-se de um recurso que expressa um atributo inconfundível
de uma pessoa, de uma divindade, de um povo, de um país ou de uma cidade. Veja os
exemplos.

Castro Alves - O Poeta dos Escravos


Gonçalves Dias - O Cantor dos Índios
José Bonifácio - O Patriarca da Independência
Simon Bolívar - O Libertador
Rui Barbosa - O Águia de Haia
Jesus cristo - O Salvador, o nazareno, o Redentor
Édipo - O Vencedor da Esfinge
Átila - O Flagelo de Deus
Aquiles - O Herói de Tróia
D. Quixote - O Cavaleiro de Triste Figura
Cuba - A Pérola das Antilhas
Veneza - A rainha do Adriático
Jerusalém - O Berço do Cristianismo
Egito - O Berço dos Faraós
Ásia - O Berço do Gênero Humano
Leônidas - O Herói das Termópilas
Sólon - O Legislador de Atenas
Moisés - O Legislador dos Judeus
Hipócrates - O Pai da Medicina
Heródoto - O Pai da História
José de Alencar - O Autor de Iracema
Raimundo Correa - O Autor de As Pombas
Vênus - A Deusa da Beleza

2.3.2 Coesão lexical por hiperônimoe

Muitas vezes, neste tipo de coesão, utilizamos sinônimos superordenados ou


hiperônimos, isto é, palavras que correspondem ao gênero do termo a ser retomado.

Exemplo:

Gênero

Mesa móvel

Faca talher

Termômetro instrumento

Computador equipamento

Enceradeira eletrodoméstico

Exemplo:

Acabamos de receber 30 termômetros clínicos.


Os instrumentos deverão ser encaminhados ao Departamento de Pediatria.

2.3.3 Coesão lexical por repetição do mesmo item

Exemplo:

O papa viajou pelo Brasil.


O papa reuniu nas capitais grande multidão de admiradores.

2.4 Coesão por substituição

A coesão por substituição consiste na colocação de um item num lugar de outro


segmento.
Exemplo:

O papa ajoelhou-se. As pessoas também.


O papa é a favor do celibato. Mas eu não penso assim.
O papa ajoelhou-se. Todos fizeram o mesmo.

3. Observação de textos

Melhor do que teorizar sobre o assunto, com definições e classificações, é


OBSERVAR os textos, conforme convicção exposta no capítulo "Como desenvolver a
competência textual", que embasa a proposta deste "Guia de Produção Textual". A
melhor escola é a leitura inteligente de textos modelares.

3.1 Leia o texto a seguir completando mentalmente as lacunas.

Uma cocheira para dois

David Coimbra - (Zero Hora, 28/3/1996)

Algumas pessoas têm a sensibilidade de um cavalo. São poucas, porém. Nem todas
demonstram tanta ternura quanto ...................... que se equilibram sobre quatro
ferraduras. E às vésperas de um grande acontecimento do mundo ...... , como o GP
Bento Gonçalves do próximo domingo, eles se tornam ainda mais dados a melindres,
tais são os mimos que lhes dispensam cavalariços, proprietários, jóqueis e treinadores.
........... são carentes. Nada pior para eles do que a solidão. Precisam de uma
companhia. Qualquer uma. Outros ......... , se possível. Não sendo, se contentam com
uma ovelha, um galo-de-briga, até um radinho de pilha. Em último caso, serve um
espelho para lhes dar a ilusão de que não estão sós no escuro da cocheira. O ........
inglês Dani Angeli, três anos de idade, se afeiçoou especialmente a uma ..................
que vive no Grupo de Cocheiras Clóvis Dutra, na Vila Hípica do Cristal.

Quando ............ não está por perto, ................ fica inquieto. Não dorme sem ela. Uma
noite longe da ............... significa uma noite de insônia, de ranger nostálgico de dentes
e patadas nervosas na forragem que lhe serve como leito. Ao raiar da manhã, o
cavalariço o encontra irreconhecível, estressado, incapaz de enfrentar um dia de
trabalho ............... e a ovelhinha dormem juntos, passeiam diariamente lado a lado e
até quando ele viaja para disputar alguma prova fora do Estado ela precisa ir junto.
Sem .................... Dani Angeli não é ninguém.

3.2 Agora observe os mecanismos de coeão.

3.2.1 - Coesão lexical por sinônimos

Complete as lacunas com


- a companheira encaracolada
- a amiga lanuda
- ovelhinha
que substituem a palavra "ovelha".

Complete as lacunas com

- puro sangue
- esses espíritos suscetíveis
- eqüino
que substituem a palavra "cavalo(s)".

3.2.2 - Coesão lexical por repetição do mesmo item

Complete as lacunas com

- cavalos
- cavalos
- Dani Angeli

Que efeito estilístico decorre da substituição de "ovelha" por "ovelhinha", "a


companheira encaracolada" e "a amiga lanuda"? Em outras palavras, que atitude
o autor do texto expressa mediante tais substituições?

3.2.3 - Coesão lexical por referência

Circule os pronomes que se referem a "ovelha".


Sublinhe os pronomes que se referem a "cavalo".

3.2.4 - Coesão por elipse

* Identifique os elipses em
- Precisam de uma companhia
- ... se contentam com uma ovelha ...
- ... não estão sós no escuro da cocheira
- Não dormem sem ela
- ... passeiam diariamente lado a lado

3.3 Complete mentalmente as lacunas do texto a seguir

Duas trajetórias nada edificantes

Augusto Nunes - (Zero Hora, 11/04/1996)

Não são poucas as semelhanças entre Alphonse Capone e Frnando Collor de Mello - a
começar pelo prenome inspirado no mesmo antropônimo originário do Latim. ............
nasceram em famílias de imigrantes ........ teve ascendência italiana, o ...............
descende de alemães, ... sempre apreciaram charutos, noitadas alegres, uísque, verões
em Miami, ternos bem cortados, companhias suspeitas e largos espaços na imprensa.

............... quanto .................... chegaram ao poder muito jovens. E dele acabaram


apeados por excesso de confiança: certos de que as asas da impunidade estariam
eternamente abertas sobre seus crimes, não trataram com o devido zelo da remoção de
todas as pistas.

Mais de 60 anos depois da prisão de Al Capone, Fernando Collor acaba de tropeçar na


mesma armadilha que destruiria a carreira e a fortuna do ............. .

Dono de um prontuário escurecido por assassinatos, seqüestros, roubos e outras


violências, ....... foi trancafiado num catre pela prática de um delito bisonho para um
.................. do seu calibre: sonegação de impostos. Dono de uma folha corrida
pontilhada de proezas nada edificantes, ............... enredou-se nesta semana na malha
fina da Receita Federal. Depois de ter driblado acusações bem mais pesadas,
................ irá para a cadeia se não pagar R$ 8 milhões de impostos atrasados. Caso
consiga o dinheiro, seguirá em liberdade. Mas terá fornecido outra evidência de que
saiu do Palácio do Planalto muito mais rico do que era quando ali chegou.

3.4 Agora, complete as lacunas com

- o primeiro
- o segundo
- ambos
- um e outro
- Tanto o rei do crime em Chicago
- o ex-presidente
- Capone
- Collor
- legendário Scarface
- gânster

3.5 Observe, finalmente, o terceiro texto completando as lacunas com

- Ribamar
- O autor de "Marimbondos de Fogo"
- ex-presidente da República
- as beldades

Erva e marimbondos

(Zero Hora, 18/04/1996)


A rainha e princesas da Feira Nacional do Chimarrão, de Venâncio Aires, animaram a
manhã do presidente do Senado, José Sarney, ontem.

.................... é convidado especial da Fenachim, que se realiza de 3 a 12 de maio.

Ciceroneadas pelo governador Antônio Britto, ................. entregaram um pacote de


boa erva ao .......... .

Não será de grande proveito. Natural do Maranhão e eleito pelo Amapá, ......................
está mais acostumado com água de coco.

Como Encaminhar o Curriculum Vitae

A carta de apresentação

1. Definição
- É uma carta que apresenta o candidato à vaga numa empresa, encaminhando o
currículo. Por isso, é o primeiro documento que uma empresa tem em mãos para avaliar
os concorrentes, servindo de instrumento de pré-seleção dos inúmeros currículos.
- É uma carta muito breve cujo conteúdo principal é o resumo das experiências,
competências e habilidades de um candidato.
- É uma ferramenta de marketing pessoal tão importante quanto o currículo. Por ter
papel determinante no processo seletivo, deve apresentar o perfil do candidato sob o
melhor ângulo, a fim de estimular a leitura do currículo e gerar uma entrevista.

2. Principais características
- Deve ser breve: não mais do que três ou quatro parágrafos (ou uma página). A
apresentação detalhada do candidato encontra-se no currículo.
- Deve ser persuasiva: não se deve esquecer que a carta que encaminha o currículo é a
porta de entrada para conquistar a vaga, por isso deve causar boa impressão, a fim de
que gere a leitura/ análise do currículo e uma entrevista.
- Para tanto, o perfil profissional deve ser apresentado sob o melhor ângulo, com
diferenciais.
- Deve ser impecável em termos de correção lingüística. É importante ressaltar que,
mediante a linguagem, transmitimos não apenas informações, mas também inúmeros
outros aspectos, como nossa educação, cultura, instrução, escolaridade, "status" social.
Nesse sentido, a linguagem também é um cartão de visita, um cartão de apresentação.
Nesse processo de conquistar uma vaga, nada desabona mais do que uma carta de
apresentação com erros.

3. Estrutura

O texto da carta de apresentação contém três partes:


a) Introdução (um parágrafo), que pode ser assim:

Estou à procura de nova colação no mercado na área de xxxxxxxxxxxx e acredito que a


empresa possa ter interesse por minha experiência e qualificações.
ou

Em resposta ao anúncio publicado no jornal xxxxxxxxxxx, de (data)


xxxxxxxxxxxxxxxxxx, referente à vaga de xxxxxxxxxx, venho apresentar minha
candidatura, encaminhando, em anexo, meu currículo.

b) Desenvolvimento (um ou dois parágrafos) em que o candidato apresenta muito


resumidamente seu perfil diferenciado, mencionando suas qualificações e experiências.
Pode mencionar, por exemplo, habilidades valorizadas pela empresa ou pelo mercado,
como saber resolver problemas, lidar com pessoas, trabalhar em equipe, cumprir prazos,
manter-se atualizado, ser empreendedor, ser capaz de trazer soluções inovadoras, estar
constantemente comprometido e motivado, etc.

c) Conclusão em que se menciona a disposição para uma entrevista com o intuito de


detalhar informações profissionais. Assim:

Seria um prazer ter a oportunidade de detalhar melhor minhas experiências e


competências em entrevista.

ou

Coloco-me, desde já, à disposição para uma entrevista, ocasião em que poderei
detalhar melhor minhas experiências e competências.

ou

Envio em anexo meu currículo e coloco-me à disposição para uma entrevista, quando
poderei fornecer mais informações sobre minhas experiências e competências.

4. Modelo
À
Nome da Empresa
At.: Sr.(a) xxxxxxxxxxxxxxxx
Ref.: vaga de "webdesigner"

Porto Alegre, xxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Prezado Sr.(a):

Gostaria de apresentar minha candidatura para o cargo de webdesigner, conforme


anúncio publicado no jornal xxxxxxxxxxxxxxx, de xxxxxxxx (data), encaminhando em
anexo currículo para apreciação.

Sou formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, no curso
de Publicidade e Propaganda (ou "estou em fase de conclusão do curso"). Fui estagiário
nessa universidade, no Setor de Web, durante dois anos. Domino as tecnologias HTML,
JAVASCRIPT e PHP, bem como os softwares COREL DRAW, HOMESITE,
DREAMWEARE e FLASH. O estágio na referida instituição contribuiu de forma
expressiva para minha formação, aprimorando aptidões como a de resolver problemas,
de trazer soluções inovadoras, de lidar com pessoas, de trabalhos em equipe, de cumprir
prazos, dentre outras.

Tenho a confiança de que apresento as qualificações necessárias para exercer a


função de forma adequada e desde já coloco-me à disposição para uma entrevista,
objetivando o detalhamento de informações profissionais.

Cordialmente,

Fulano de Tal
- Assinatura -

Anexo: Curriculum Vitae

Como redigir uma ementa

1. Definição

Ementa é uma descrição discursiva que resume o conteúdo conceitual ou conceitual /


procedimental de uma disciplina.

2. Características formais

Os tópicos essenciais da matéria são apresentados sob a forma de frases


nominais (frases sem verbo);
Não é necessário que os tópicos sejam elencados em itens (um embaixo do
outro): a redação é contínua.
Para a elaboração da ementa, que reúne conteúdos conceituais e procedimentais,
podem ser utilizadas, dentre outras, expressões como: "estudo de"...,
"caracterização de"..., "estabelecimentos de relações entre"..., "busca de
compreensão de"..., "reflexão sobre"..., "análise de"..., "exame de questões
sobre"..., "descrição de "..., "pesquisa de"..., "investigação sobre"..., "elaboração
de"..., "construção de"..., "introdução a"..., "fundamentação de"...,
"desenvolvimento de"..., "aplicação de"..., "explicitação de"..., "crítica de"...,
"interpretação de"..., "aprofundamento de"..., "produção de"..., "criação de"...,
"organização de"..., "confecção de"..., "demonstração de"..., "levantamento
de"..., "definição de"..., "processamento de"..., "expressão de"..., "comunicação
de"..., "participação em"..., "experimentação de"..., "detalhamento de"...,
"discussão de"..., "orientação sobre"..., "comparação entre"..., "confronto
com"..., "interface entre"..., etc.

3. Exemplos
1) Português Histórico: A origem e a formação da língua portuguesa. O latim
clássico e o latim vulgar. A evolução fonológica, morfológica, sintática e semântica.
A constituição do léxico. A expansão da língua portuguesa.

2) Didática: Análise dos efeitos das mudanças culturais, científicas e tecnológicas


na Educação e na Didática. Estudo da interdependência dos elementos
constitutivos das situações de ensino e de aprendizagem. Estudo dos objetivos
educacionais como norteadores da ação educativa.

Como evitar o erro de ortografia

1. Introdução

Nossa ortografia é, em certos aspectos, difícil. Bastante difícil. Principalmente para


quem não lê de forma intensiva e inteligente; para quem não está constantemente em
contato com a escrita; para quem não tem uma “consciência ortográfica”; para quem
não tem preocupação, zelo com a escrita correte.

Constate:

hífen, com acento; mas hífens, sem acento


destróier, com acento; mas heróico, sem acento
baú, com acento; mas urubu, sem acento
pastéis, com acento; mas epopeia, sem acento
juízes, com acento; mas juiz, sem acento
Juçara, com ç; mas Larissa, com ss
erva, sem h; mas herbívoro, com h
carro-forte, com hífen; mas carro esporte, sem Etecétera.

A propósito, um grupo de alunos elaborou o seguinte teste:

PEGA- RATÃO

PARA CONHECER MELHOR SEU UNIVERSO LINGÜÍSTICO, ELABORAMOS


UM PEQUENO TESTE PARA SUA DIVERSÃO. DETERMINE A ORTOGRAFIA
CORRETA DAS VINTE PALAVRAS QUE SE SEGUEM E, APÓS, CONFIRA OS
RESULTADOS:

COMPLETE COM J/G, S/Z, X/CH, X/S.

1. ENRI___ECER 8. IMPROVI___O 15. ___AFARIZ


2. ___EITOSO 9. RA___URA 16. E___PECTATIVA
3. MAN___EDOURA 10. MAI___ENA 17. E___PECTADOR (que assiste)
4. TI___ELA 11. CA__UMBA 18. E___PLÊNDIDO
5. SAR___ETA 12. ___ALE 19. E___PONTÂNEO
6. CATALI___ADOR 13. ___ISPA 20. E___TRAVASAR
7. BALI___A 14. RE___AÇAR

Resultado: observe a chave de respostas abaixo e confira sua avaliação.

Lamentável dizer isto, mas você não passa de uma toupeira camuflada. Um
0a5
bom mobral seria de grande utilidade. Largue a faculdade, ela é demais para
acertos:
esse seu Q.I.
Você está levemente abaixo do ideal. Faça do Aurelião seu livro de
6 a 10 cabeceira. Todas as noites, antes de dormir, leia um capítulo inteiro do
acertos: dicionário. Dessa forma seu conhecimento se expandirá e você terá diversão
garantida por um bom tempo.
Desempenho razoável. Você não é um caso perdido, procure ler bastante e
11 a 15
prestar atenção na ortografia a sua volta. Entretanto, a leitura deve ser de
acertos:
nível, deixe de lado as suas prediletas, como Sabrina, Júlia...
Você está legal. Obteve um desempenho satisfatório. Prevejo um futuro
12 a 20
brilhante para você como, quem sabe, uma Cadeira na Academia Brasileira
acertos:
de Letras? Se o Sarney chegou lá, você também pode.
Que vergonha! Você é um ... um Celso Luft enrustido. Existem outras coisas
20
além de livros e gramáticas. Procure se divertir. Telefone agora para sua
acertos:
namorada e libere sua energia mal aplicada.

Alunos: Adriana Dias, Carlos Nucci, Clarissa Manente, Cláudia Trindade, Cristina
Nabinger

Respostas:

1. J 6. S 11. X 16. X
2. J 7. Z 12. X 17. S
3. J 8. S 13. CH 18. S
4. G 9. S 14. CH 19. S
5. J 10. S 15. CH 20. X

Em que áreas de nossa ortografia residem as maiores dificuldades ?


Por que nosso sistema de escrita é, em vários aspectos, difícil ?
O que fazer para evitar o erro de (orto)grafia ?

2. Por que nossa ortografia é difícil

2.1 O critério etimológico

Nossa ortografia é, em certos aspectos, difícil, por causa do critério etimológico


utilizado no registro de muitas palavras. Isso quer dizer que grafamos boa parte das
palavras de nossa língua respeitando a grafia da palavra originária.
Ch ou x ?
J ou g ?
Com h ?
Sc ou c ?
X ou s ?

A escolha de uma ou outra letra depende, muitas vezes, da origem da palavra. Observe a
seguir:

CH ou X ?

Português Origem Letra (s)


Mochila Mochila (espanhol) Ch
Chalé Chalet (francês) Ch
Relaxar Relaxare (latim) X
Taxar Taxare (latim) X

J ou G ?

Português Origem Letra (s)


Jeito Jectu (latim) J
Majestade Majestate (latim) J
Gesto Gestu (latim) G
Tigela Tegula/tegella (latim) G

Português Origem Letra (s)


Haver Habere (latim) H
Haste Hasta (latim) H

SC ou C ?

Português Origem Letra (s)


Rescindir Rescindere (latim) SC
Adolescente Adolescente(latim) SC
Recensão Recensione (latim) C
Penicilina Penicillin (inglês) C

X ou S ?

Português Origem Letra (s)


Exímio Eximiu (latim) X
Êxito Exitu (latim) X
Esplêndido Splendidu (latim) S
Espontâneo Spontaneu (latim) S

2.2 O critério fonológico

A grafia de nossas palavras, no entanto, nem sempre obedece ao critério etimológico.


Muitas vezes seguimos o critério fonológico, que não leva em conta as letras que não se
pronunciam, ou as letras presentes da forma originária;

Veja os exemplos:

Como deveria ser a grafia de acordo com a origem


Português Origem
etimológica
Cena Scena (latim) Scena
Ciência Scintia (latim) Sciência
Cintilar Scintillare Scintilar
Misto Mixtu (latim) Misto
Mistura Mixtura (latim) Mixtura
Estranho Extraneu (latim) Extranho
Exquisitu
Esquisito Exquisito
(latim)
Erva Herba (latim) Herva
Inverno Hibernu (latim) Hinverno
Espanhol Hispanus (latim) Hespanhol
Teatro Theatru (latim) Theatro
Pharmacia
Farmácia Pharmacia
(latim)

3. Em que aspectos residem as maiores dificuldades quanto à grafia?

Listamos a seguir os aspectos principais, oferecendo ao mesmo tempo exercícios de


reflexão sobre o assunto.

1. Um mesmo fonema transcrito por letras diferentes


Constate as dificuldades:

1. Complete os espaços com ç, c, sc, ss ou xc

Excur...ão di...ídio mi...elânea preten....ioso


Fa...ículo di...plicente maci...amente ob...ecado
Na...iedade exce....ivo ob...eno e...itante

2. Complete com s ou z

Desli...e catali...ador bu...ina parali...ia


Atra...ado extrava...ar here...ia anali...ar
Abali...ado fregue...ia va...ilhame prima...ia

3. Complete com j ou g

Berin...ela ba...eense gor...eta here...e


Ti...ela man...erona ultra...e sar...eta
Lambu...em cafa...este pa...é vare...ista

4. Complete com s ou x

mi...to e...pontâneo e...tasiado he...itante


ade...trado e...quisitice e...tranheza e...traviado
e...trovertido ine...gotável e...tropiado de...treza

5. Complete com ch ou x

en...ergar atarra...ar ....eque-mate co...ilar


em...urrada la...ante pe...in...ar rela...ar
em...aqueca co...i...ar em...arcar ...ampu

2. O emprego das letras i e e (representando o fonema /i/); e o emprego das letras o


e u (representado o fonema /u/ )

Observe:

I ou E ?
1. Irr___quieto
2. ___mpecilho
3. P___riquito
4. Deat___frício
5. Pr___vilégio
U ou O ?
6. B___teco
7. C___curuto
8. B___eiro
9. Reb___liço
10. Pir___lito
Respostas:

1. E 6. O
2. E 7. O
3. E 8. U
4. I 9. U
5. I 10. U

3. A grafia de certas palavras como partículas, locuções

abaixo
debaixo
embaixo
por baixo
acima
em cima
por cima
de alto a baixo
de baixo a cima
acerca de
a fim de
afora (exceto)
à medida que
na medida em que
decerto
defronte
de repente
de trás para a frente
enfim
por isso
sequer
tampouco
tão - só
tão - somente

4. A grafia de homônimos e parônimos

4.1 Definições

- Homônimos: vocábulos que se pronunciam da mesma forma, e que diferem no


sentido.
- Homônimos perfeitos: vocábulos com pronúncia e grafia idênticas (homófonos e
homógrafos).
Ex.:
São: 3ª p. p. do verbo ser. - Eles são inteligentes.
São: sadio. - O menino, felizmente, está são.
São: forma reduzida de santo. - São José é meu santo protetor.

- Homônimos imperfeitos: vocábulos com pronúncia igual (homófonos), mas com


grafia diferente (heterógrafos).
Ex.:
Cessão: ato de ceder, cedência
Seção ou secção: corte, subdivisão, parte de um todo
Sessão: espaço de tempo em que se realiza uma reunião

- Parônimos: vocábulos ou expressões que apresentam semelhança de grafia e


pronúncia, mas que diferem no sentido.
Ex.:
Cavaleiro: homem a cavalo
Cavalheiro: homem gentil

4.2 Lista de Homônimos e Parônimos

É importante saber que existe um número considerável de palavras homônimas e


parônimas e que podem suscitar dúvidas quanto à grafia. Nesse caso, deve-se consultar
um dicionário.

Acender - pôr fogo a


Ascender - elevar-se, subir

Acento - inflexão de voz, tom de voz, acento


Assento - base, lugar de sentar-se

Acessório - pertences de qualquer instrumento ou máquina; que não é principal


Assessório - diz respeito a assistente, adjunto ou assessor

Aço - ferro temperado


Asso - do v. assar

Anticéptico - contrário ao cepticismo


Antisséptico - contrário ao pútrido; desinfetante

Asar - guarnecer de asas


Azar - má sorte, ocasionar

Brocha - tipo de prego


Broxa - tipo de pincel

Caçado - apanhado na caça


Cassado - anulado

Cardeal - principal; prelado; ave; planta; ponto (cardeal)


Cardial - relativo à cárdia

Cartucho - carga de arma de fogo


Cartuxo - frade de Cartuxa

Cédula - documento
Sédula - feminino de sédulo (cuidadoso)

Cegar - tornar ou ficar cego


Segar - ceifar

Cela - aposento de religiosos; pequeno quarto de dormir


Sela - arreio de cavalgadura
Censo - recenseamento
Senso - juízo

Censual - relativo a censo


Sensual - relativo aos sentidos

Cerra - do verbo cerrar (fechar)


Serra - instrumento cortante; montanha; do v. serrar (cortar)
Cerração - nevoeiro denso
Serração - ato de serrar

Cerrado - denso; terreno murado; part. do v. cerrar (fechado)


Serrado - particípio de serrar (cortar)

Cessão - ato de ceder


Sessão - tempo que dura uma assembléia
Secção ou seção - corte, divisão

Cevar - nutrir, saciar


Sevar - ralar

Chá - infusão de folhas para bebidas


Xá - título do soberano da Pérsia

Cheque - ordem de pagamento


Xeque - perigo; lance de jogo de xadrez; chefe de tribo árabe

Cinta - tira de pano


Sinta - do v. sentir

Círio - vela de cera


Sírio - relativo à Síria; natural desta

Cível - relativo ao Direito Civil


Civil - polido; referente às relações dos cidadãos entre si

Cocho - tabuleiro
Coxo - que manqueja

Comprimento - extensão
Cumprimento - ato de cumprir, saudação

Concelho - município
Conselho - parecer

Concerto - sessão musical; harmonia


Conserto - remendo, reparação

Concílio - assembléia de prelados católicos


Consílio - conselho

Conjetura - suposição
Conjuntura - momento

Coringa - pequena vela triangular usada à proa das canoas de embono; moço de barcaça
Curinga - carta de baralho

Corisa - inseto
Coriza - secreção das fossas nasais

Coser - costurar
Cozer - cozinhar

Decente - decoroso
Descente - que desce

Deferir - atender, conceder


Diferir - distinguir-se; posicionar-se contrariamente; adiar (um compromisso marcado)

Descargo - alívio
Desencargo - desobrigação de um encargo

Desconcertado - descomposto; disparato


Desconsertado - desarranjado

Descrição - ato de descrever


Discrição - qualidade de discreto

Descriminar - inocentar
Discriminar - distinguir, diferenciar

Despensa - copa
Dispensa - ato de dispensar

Despercebido - não notado


Desapercebido - desprevenido

Édito - ordem judicial


Edito - decreto, lei (do executivo ou legislativo)

Elidir - eliminar
Ilidir - refutar

Emergir - sair de onde estava mergulhado


Imergir - mergulhar

Emerso - que emergiu


Imerso - mergulhado
Emigração - ato de emigrar
Imigração - ato de imigrar

Eminente - excelente
Iminente - sobranceiro; que está por acontecer

Emissão - ato de emitir, pôr em circulação


Imissão - ato de imitir, fazer entrar

Empossar - dar posse


Empoçar - formar poça

Espectador - o que observa um ato


Expectador - o que tem expectativa

Espedir - despedir; estar moribundo


Expedir - enviar

Esperto - inteligente, vivo


Experto - perito ("expert")

Espiar - espreitar
Expiar - sofrer pena ou castigo

Esplanada - terreno plano


Explanada (o) - part. do v. explanar

Estasiado - ressequido
Extasiado - arrebatado

Estático - firme
Extático - absorto

Esterno - osso dianteiro do peito


Externo - que está por fora

Estirpe - raiz, linhagem


Extirpe - flexão do v. extirpar

Estofar - cobrir de estofo


Estufar - meter em estufa

Estrato - filas de nuvens


Extrato - coisa que se extraiu de outra

Estremado - demarcado
Extremado - extraordinário

Flagrante - evidente
Fragrante - perfumado
Fluir - correr
Fruir - desfrutar

Fuzil - arma de fogo


Fusível - peça de instalação elétrica

Gás - fluido aeriforme


Gaz - medida de extensão

Incidente - acessório, episódio


Acidente - desastre; relevo geográfico

Infligir - aplicar castigo ou pena


Infringir - transgredir

Incipiente - que está em começo, iniciante


Insipiente - ignorante

Intenção - propósito
Intensão - intensidade; força

Intercessão - ato de interceder


Interseção - ato de cortar

Laço - nó que se desata facilmente


Lasso - fatigado

Maça - clava; pilão


Massa - mistura

Maçudo - maçador; monótono


Massudo - que tem aspecto de massa

Mandado - ordem judicial


Mandato - período de permanência em cargo

Mesinha - diminutivo de mesa


Mezinha - medicamento

Óleo - líquido combustível


Ólio - espécie de aranha grande

Paço - palácio real ou episcopal


Passo - marcha

Peão - indivíduo que anda a pé; peça de xadrez


Pião - brinquedo

Pleito - disputa
Preito - homenagem

Presar - aprisionar
Prezar - estimar muito

Proeminente - saliente no aspecto físico


Preeminente - nobre, distinto

Ratificar - confirmar
Retificar - corrigir

Recreação - recreio
Recriação - ato de recriar

Recrear - proporcionar recreio


Recriar - criar de novo

Ruço - grave, insustentável


Russo - da Rússia

Serva - criada, escreva


Cerva - fêmea do cervo

Sesta - hora do descanso


Sexta - redução de sexta-feira; hora canônica; intervalo musical

Tacha - tipo de prego; defeito; mancha moral


Taxa - imposto

Tachar - censurar, notar defeito em; pôr prego em


Taxar - determinar a taxa de

Tráfego - trânsito
Tráfico - negócio ilícito

Viagem - jornada
Viajem - do verbo viajar

Vultoso - volumoso
Vultuoso - inchado

Além das palavras listadas, existem outras formas parônimas e homônimas


imperfeitas, com pronúncia igual (homófonas) e grafia diferente (heterógrafas). É
evidente que essa semelhança causa hesitações e induz a erros no ato de redigir.

1. PORQUÊS

- Porque: é conjução subordinativa causal; equivale a pois. Ele não veio porque choveu.
- Porquê: é a mesma conjunção subordinativa causal substantivada; é sinônimo de
motivo, razão. Não sei o porquê da ausência dele.
- Por que: é a preposição por seguida de pronome interrogativo que; eqüivale a por que
motivo, pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais. Por que ele não veio? Eis o
motivo por que não veio.
- Por quê: é o mesmo por que anterior, quando em fim de frase. Você não veio por
quê?

2. ONDE/ AONDE

- Onde: empregado em situações estáticas (com verbos de quietação). Onde moras?


- Aonde: empregado em situações dinâmicas (com verbos de movimento). Equivale a
para onde. Aonde vais?

3. -EM, -ÉM, -ÊM

- em (tônico): em vocábulos monossilábicos: bem, cem, trem.


- ém: em vocábulos oxítonos com mais de uma sílaba: armazém, ninguém, ele mantém.
- êm: em formas da 3ª pessoa do plural do presente do indicativo dos verbos ter e vir e
seus derivados: eles têm, vêm, provêm, detêm.

Observe:

SINGULAR PLURAL
ELE TEM ELES TÊM
ELE VEM ELES VÊM
ELE CONTÉM ELES CONTÊM
ELE DETÉM ELES DETÊM
ELE RETÉM ELES RETÊM
ELE SE ATÉM ELES SE ATÊM
ELE PROVÉM ELES PROVÊM

4. -ÊS (-ESA)/ -EZ (-EZA)

- Ês (-esa): anexa-se a substantivos

SUBSTANTIVO SUFIXO ADJETIVO DERIVADO


MONTE +ÊS MONTÊS
CORTE +ÊS CORTÊS
BURGO +ÊS BURGUÊS
MONTANHA +ÊS MONTANHÊS
CHINA +ÊS CHINÊS

Observações:
- Terminam com o sufixo -ês os gentílicos: francês, japonês, inglês, marquês,etc.
- Também terminam com o sufixo -ês títulos nobiliárquicos e outros.
- O sufixo -esa é o mesmo sufixo -ês no feminino: portuguesa, marquesa,etc.

- Ez (-eza): anexa-se a adjetivos

ADJETIVO SUFIXO SUBSTANTIVO ABSTRATO


ÁCIDO +EZ ACIDEZ
ALTIVO +EZ ALTIVEZ
HONRADO +EZ HONRADEZ
CLARO +EZA CLAREZA
TRISTE +EZA TRISTEZA
POBRE +EZA POBREZA

5. -ISA/-IZ (-IZA)

- Isa: anexa-se a substantivos

SUBSTANTIVO MASCULINO SUFIXO SUBSTANTIVO FEMININO


DIÁCONO +ISA DIACONISA
PAPA +ISA PAPISA
POETA +ISA POETISA
PROFETA +ISA PROFETISA
SACERDOTE +ISA SACERDOTISA

- Iza: é a terminação feminina correspondente a substantivos masculinos em -iz:


juiz/juíza

6. -IZAR/-ISAR

- Izar: anexa-se a substantivos ou a adjetivos que não tenham "s" no radical.

SUBSTANTIVOS/ ADJETIVOS SUFIXO VERBO


AGONIA +IZAR AGONIZAR
AMENO +IZAR AMENIZAR
IDEAL +IZAR IDEALIZAR
SUAVE +IZAR SUAVIZAR

SUBSTANTIVO COM RADICAL EM -IZ SUFIXO VERBO


CICATRIZ +AR CICATRIZAR
RAIZ +(EN) +AR ENRAIZAR
VERNIZ +(EN) +AR ENVERNIZAR
DESLIZ(E) +AR DESLIZAR

- Is(ar): corresponde a palavras acabadas em –iso, isa, -ise, -is

TERMINAÇÕES EM -ISO, -ISA, -ISE E -IS +AR VERBO


ANÁLISE +AR ANALISAR
PESQUISA +AR PESQUISAR
PISO +AR PISAR
AVISO +AR AVISAR
ÍRIS +AR IRISAR

7. -SINHO/-ZINHO

- Sinho: corresponde a substantivos cujo radical termina com "s".

SUBSTANTIVOS TERMINAÇÃO DIMINUTIVO


ADEUS +INHO ADEUSINHO
CHINÊS +INHO CHINESINHO
MÊS(A) +INHA MESINHA
PRINCES(A) +INHA PRINCESINHA

Observação:

O sufixo é, na verdade, -inho, que se acrescenta a substantivo com radical que termina
em "s": mês(a) + inha = mesinha

- Zinho: anexa-se a palavras cujo radical não termina em "s".

SEM S +(Z)INHO DIMINUTIVO


ANEL +Z+INHO ANELZINHO
CAFÉ +Z+INHO CAFEZINHO
PAI +Z+INHO PAIZINHO
SÓ +Z+INHO SOZINHO
PÉ +Z+INHO PEZINHO

Observação:

O sufixo é, na verdade, -inho, que se liga ao radical mediante a consoante de ligação -z


Anel + consoante de ligação -z + sufixo -inho = anelzinho.
O diminutivo plural se forma de acordo com o seguinte processo:
+
SUBTRAÇÃO CONSOANTE + SUFIXO -
SUBSTANTIVO PLURAL
DE -S DE LIGAÇÃO INHO(S)
-Z
ANEL ANÉIS ANEI ANEIZ ANEIZINHOS
CORAÇÃO CORAÇÕES CORAÇÕE CORAÇÕEZ CORAÇÕEZINHOS

Simplificadamente: rei(s) + z + inhos = reizinhos

8. A FIM / AFIM

- Afim: parente por afinidade; semelhante. Não podem casar os afins.


- A fim (de): para. Ele veio a fim de ajudar.

9. ENFIM / EM FIM

- Enfim: finalmente. Enfim sós.


- Em fim = no final. Ele está em fim de carreira.

10. SE NÃO / SENÃO

- Se não: caso não. Viajarei se não chover.


- Senão caso contrário; a não ser; mas. Vá, senão eu vou.

11. ACERCA DE/ A CERCA DE/ HÁ CERCA DE

- Acerca de: sobre, a respeito de. Fala acerca de alguma coisa.


- A cerca de a uma distância aproximada de. Mora a cerca de dez quadras do centro da
cidade.
- Há cerca de faz aproximadamente. Trabalha há cerca de cinco anos.

12. AO ENCONTRO DE/ DE ENCONTRO A

- Ao encontro de: a favor, para junto de. Ir ao encontro dos anseios do povo. Ir ao
encontro dos familiares.
- De encontro a contra. As medidas vêm de encontro aos interesses do povo.

13. AO INVÉS DE/ EM VEZ DE

- Ao invés de: ao contrário de


- Em vez de: em lugar de. Usar uma expressão em vez de outra.
14. A PAR/ AO PAR

- A par: ciente. Estou a par do assunto.


- Ao par: de acordo com a convenção legal, sem ágio, sem abatimentos (câmbio, ações,
títulos, etc.).

15. À-TOA/ À TOA

- À-toa (adjetivo): ordinário, imprestável. Vida à-toa.


- Ao par (advérbio): sem rumo. Andar à toa.

6. A aplicação incorreta das regras de acentuação

Você deve distinguir:

• constroem, destroem etc. X constrói, destrói, mói, sói, rói, dói, etc.
• grau, mau, nau, etc. X céu, dói, etc.
• guri, urubu, bauru, descobri, etc. X xará, pajé, cipó, etc.
• amá-lo, merecê-lo, compô-lo, etc. X feri-lo, admiti-lo, etc.
• guri, colibri, urubu, etc. X Itajaí, baú, etc.
• hifens, item, etc. X hífen, líquen, etc.
• juiz, raiz, bainha, rainha, etc. X juízes, saída, raízes, etc.
• traz, capaz etc. X atrás, através etc.

7. O emprego do hífen

Hora-aula com hífen mas hora extra sem hífen


Pré-vestibular com hífen mas preestabelecimento sem hífen
Pós-escrito com hífen mas poscéfalo sem hífen
Pró-aliado com hífen mas procônsul sem hífen
Bem-me-quer com hífen mas benquisto sem hífen

4. Como evitar o erro de (orto)grafia

1. Conheça os aspectos de nossa grafia que oferecem dificuldades. Assim saberá quais
são os pontos em que deverá ter cuidados especiais.

2. As regras de acentuação e as poucas regras aqui citadas são as que você deve
conhecer. Afora isso, saiba que a grafia correta das palavras é internalizada/
memorizada mediante a leitura intensiva e inteligente.

3. Pratique o exercício de dúvida. Duvide. "O ignorante não duvida porque desconhece
que ignora" (Sócrates). Pergunte-se: será que é com 'ss' ou "ç" ? com "x" ou "ch"? com
"h" inicial? com "j" ou com"g"? com hifen? etc. A dúvida é o ponto inicial da reflexão,
do conhecimento.

4. Use uma outra palavra ou torneio de linguagem para evitar a palavra cuja grafia
oferece dúvida.

Você pode substituir,na dúvida,

Corpo doCente por professores


Corpo diSCente por alunos
EnXergar por ver
Xingar por destratar
AJeita por arrumarr
GorJeio por o cantar dos pássaros
Etc.

Como Ler e Escrever Poesia

Haverá,
ainda,
no mundo
coisas tão simples
e tão puras
como a água
bebida na
concha
das mãos?
(Mário Quintana)

Chega mais perto e contempla as palavras.


Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhes deres:
Trouxeste a chave?

(Carlos Dummond de Andrade)

1. Introdução

Para escrever poesia, é preciso ler poesia e saber onde se encontra a essência dessa
forma de expressão.
A seguir, transcrevemos seis poemas (cuja autoria foi omitida). Pedimos que faça
uma avaliação: atribua a cada um deles um conceito - ótimo, muito bom, bom, regular,
fraco.

Trata-se, evidentemente, de um teste: ele pode servir para avaliar a noção que você
tem acerca de poesia.

LUAR

A lua majestosa
passeia
no tapete das nuvens
na imensa quietude
do universo.

E com seus raios argentinos


rompe o véu negro da noite
com claridade branda e suave,
e faz da terra
um manto branco de virgem.

LUA CHEIA

Boião de leite
que a noite leva
com mãos de treva
pra não sei quem beber.
E que, embora levado
muito devagarinho,
vai derramando pingos brancos
pelo caminho.

POEMA DA PARTIDA

Perdoa, se fui
a pedra,
a nuvem,
ou o espinho
e não flores
em teu caminho...

Esquece o que fui.

Esquece esta nota desafinada


que soou perdida
na harmoniosa tranqüilidade
de teus dias...

Perdoa esta nuvem


que pousou inconsciente
sobre o brilho de teus dias...

Esquece tudo.
E vê como os horizontes
te são azuis
e quanta promessa de luzes
e de festas
tuas manhãs te reservam.

Ouve e vê
como todas as coisas
parecem orquestrar
para ti
uma linda canção
de felicidade.

Então, depois, esquece.

Foste sempre
a longe estrela do céu
e eu o lago
a possuir-te em minhas águas
ilusoriamente...

SONETO DA SEPARAÇÂO

De repente do riso fez-se o pranto


Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento


Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente


Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante


Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

AMOR

Quisera nas cordas de uma harpa de arcanjo


tanger de mansinho com dedos divinos
meus mais ternos versos, pra ti, ó meu anjo,
pra ti, ó meu anjo, meus mais belos hinos.

Quisera num berço de rosa macias


teu sono formoso feliz embalar
ao som das cantigas que a brisa cicia,
ao som das espumas e das ondas do mar.

E ouvir com os ouvidos colados em teu peito


a música leve de teu respirar
e em êxtase casto de amor neste leito
dormir para sempre, não mais acordar.

CONSOADA

Quando a Indesejada das gentes chegar


(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios).
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Ao longo de nossa exposição, vamos comentar os poemas transcritos e a avaliação


que você fez.

2. Que é poesia

Que é Poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos os lados.

Que é o Poeta?
um homem
que trabalha o poema
com o suor de seu rosto
um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.

(Cassiano Ricardo)

Poesia é um texto literário, em prosa ou em verso, que se caracteriza pela linguagem


sugestiva, conotativa, metafórica, figurada, criativa, inusitada - a chamada função
poética.

Retomaremos adiante essa definição. Por ora, vamos nos deter em algumas
considerações sobre prosa e verso.

3. Prosa e verso

Vou cantar a vida


Em verso e prosa
Vou me vestir de rosas
E me fazer toda prosa
Pra conquistar teu coração.

(Letícia Thompson)

3.1. A distinção entre prosa e verso

Os textos em prosa apresentam uma característica marcante: as linhas são contínuas


e se agrupam em parágrafos. Quando você lê uma carta, uma crônica, uma notícia ou
reportagem de jornal, um conto ou um romance, você está lendo textos em prosa.

Nos textos em verso, as palavras são dispostas graficamente em linhas descontínuas


chamadas versos, como nos poemas que aparecem no início desta parte ou no texto
Cajueiro Pequenino, a seguir:

3.2. O verso: classificação

Os versos podem ser de duas espécies:


- verso medido ou tradicional
- verso livre ou moderno

3.2.1. O verso medido ou tradicional é o verso que tem o mesmo número de sílabas
em toda a estrofe ou em todo o poema.

Observe o número de sílabas na primeira estrofe do poema Cajueiro Pequenino, de


Juvenal Galeno:
No verso medido ou tradicional, contam-se as sílabas até a última sílaba tônica. Os
versos do poema Cajueiro Pequenino têm, portanto, sete sílabas.

Duas ou mais vogais, quando se encontram no fim de uma palavra e no começo de


outra e podem ser pronunciadas numa só emissão de voz, unem-se numa única sílaba.

Observe o exemplo:

Tu és um sonho querido
De minha vida infantil.
Desde esse dia... Me lembro...
Era uma aurora de abril.

O verso tradicional ou medido, além de ter o mesmo número de sílabas em todas as


estrofes do poema, apresenta uma disposição regular das sílabas tônicas.

Nos versos do poema Cajueiro Pequenino são sílabas tônicas:

- a 1ª, a 3ª, a 5ª e a 7ª
- a 1ª, a 3ª e a 7ª
- a 1ª, a 4ª e a 7ª
- a 3ª, a 5ª e a 7ª
- a 2ª, a 4ª e a 7ª
- a 2ª, a 5ª e a 7ª
- a 3ª e a 7ª
- a 4ª e a 7ª

Observe a distribuição das sílabas tônicas na quinta estrofe. Nós negritamos as


sílabas tônicas que obedecem à disposição mencionada:
É necessário mencionar ainda outro elemento do verso tradicional ou medido: a rima.

Rima é a coincidência de sons no fim de palavras ou versos.

As rimas não estão presentes apenas nos poemas tradicionais. Elas aparecem com a
mesma força também:

nos provérbios:
Lé com lé, cré com cré, um sapato em cada pé.
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

na linguagem do dia-a-dia:
Como vai, vai bem? Veio a pé ou veio de trem?
Sol e chuva, casamento da viúva; chuva e sol, casamento do espanhol.

na linguagem publicitária:
Amor com Primor se paga.

nos jogos e nas brincadeiras:


Uni, duni, tê
Salamê, mingüê
Um sorvete colored
O escolhido foi você!

nas trovas ou quadras populares:


Tudo acaba... Tudo passa...
Tudo quebra... Tudo cansa...
Mas mesmo em uma desgraça
Há sempre um fio de esperança.
(Inocêncio T. Souto)

Esperanças são jangadas


No porto de nossos dias:
De manhã vão carregadas,
De noite voltam vazias.
(E. Sebastião Soares)

Quando a gente é criancinha


Canta quadras pra brincar
Quando fica gente grande
Ouve quadras a chorar.
(Dorival Caymi)

Quem diz que de muitos gosta,


Quem diz que a muitos quer bem,
Finge carinhos a todos,
Mas não gosta de ninguém.
(Quadra Popular)

Nas estrofes, as disposições mais freqüentes das rimas são as seguintes:

Rimas emparelhadas, quando se sucedem duas a duas:

Ele deixava atrás tanta recordação!


E o pesar, a saudade até no próprio chão,
Debaixo dos seus pés, parece que gemia,
Levantava-se o sol, vinha rompendo o dia,
E o bosque, a selva, o campo, a pradaria em flor
Vestiam-se de luz, como um peito de amor.
(Alberto de Oliveira)

Rimas alternadas, quando, de um lado, rimam entre si os versos ímpares e, de outro,


os versos pares:

Dorme, ruazinha... É tudo escuro...


E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos...
(Mário Quintana)

Rimas opostas, quando o 1º verso rima com o 4º e o 2º com o 3º:

De tudo, ao meu amor serei atento


Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
(Vinícius de Morais)

O verso tradicional pode conter até doze sílabas. Versos com uma sílaba são muito
raros. Os com duas sílabas são mais comuns. Observe os que seguem:

Tu, ontem, De amores


Na dança Que louco
Que cansa, Senti!
Voavas Valsavas:
Co' as faces - Teus belos
Em rosas Cabelos,
Formosas Já soltos,
De vivo, Revoltos,
Lascivo Saltavam,
Carmim; Voavam,
Na valsa, Brincavam,
Tão falsa No colo
Corrias, Que é meu:
Fugias, E os olhos
Ardente, Escuros
Contente, Tão puros,
Tranqüila, Os olhos
Serena, Perjuros
Sem pena Volvias,
De mim! Tremias,
Quem dera Sorrias,
Que sintas Pra outro
As dores Não eu!
(Casimiro de Abreu)

Os versos de Vinícius de Moraes contêm quatro sílabas.

Vamos conferir?

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus.

Nas quadras e trovas populares, nas cantigas de roda e nos desafios, os versos têm,
em geral, sete sílabas, como os do poema Cajueiro Pequenino.

Quando a trova é mesmo boa,


é sempre assim que acontece:
- o dono fica esquecido...
mas a trova não esquece.
(Luiz Otávio)
Eu não quero nem brincando,
Dizer adeus a ninguém:
Quem parte leva saudades.
Quem fica sofre também.
(Quadra Popular)

Os versos a seguir têm dez sílabas. Confira:

O que eu adoro em ti é no teu rosto


O angélico perfume da pureza;
São teus quinze anos numa fronte santa
O que adoro em ti, minha Tereza!

São os loiros anéis de teus cabelos,


O esmero da cintura pequenina,
Da face a rosa viva, e de teus olhos
A safira que a alma te ilumina!
(Álvares de Azevedo)

3.2.2 Verso livre ou moderno

O verso livre ou moderno não tem um número fixo de sílabas em cada verso, nem
uma disposição regular das sílabas tônicas, nem rimas, muitas vezes.

Os poemas a seguir são belos exemplos de poemas com versos livres.

Projeto

Quando eu morrer com certeza vou


pro céu.
O céu é uma cidade de férias, férias
boas que não acabam mais.

Chegando, pergunto pela


minha gente que foi na frente.
Dou beijos, dou abraços, pergunto
uma porção de coisas e depois,
depois quero ir na casa de
São Francisco de Assis, ficar amigo dele,
tão amigo, tão amigo, que ele
há de me chamar: - Alvinho! e
eu hei de lhe chamar:
- Chiquinho!...
(Álvaro Moreyra)

Verso avulso

O meu amor é belo como um barco!


(Mário Quintana)

Imagem

O gato é preguiçoso como uma segunda-feira.


(Mário Quintana)

O sabiá pousou em cima da mangueira e cantou, cantou uma semana inteira.


Depois foi-se embora, nunca mais voltou.
A mangueira ficou triste, mas toda cheia de mangas.
Mangas tão doces, tão bonitas, a mangueira nunca deu.
Deu agora de saudades, porque a mangueira sofreu...
Quanta mulher-sabiá!
Quanto homem-mangueira!...
(Álvaro Moreyra)

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,


Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,


Não era um gato,
Na era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
(Manuel Bandeira)

A vida é feita de nadas;


De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.
(Miguel Torga)

Coisas

Uma rãzinha verde no gris da manhã...


Um sorriso na face de um ceguinho...
Uma nota aguda como uma pergunta de criança...
Um cheiro agradecido de terra molhada...
Um olhar que nos enche subitamente de azul...
(Mário Quintana)

Gastei uma hora pensando um verso,


que a pena não quer escrever.
No entanto, ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
(Carlos Drummond de Andrade)

4. Retomando a definição de poesia

"Que é Poesia?
uma ilha
cercada de palavras
por todos os lados (...)"
(Cassiano Ricardo)

Poesia é palavra. É linguagem. Todo o gênio do poeta reside na invenção verbal


(Jean Cohen - crítico de literatura). Poesia é uma forma peculiar de dizer, de expressar.

Poesia não é, pois, a mera expressão de sentimentos. De uma dor de cotovelo. De


uma decepção amorosa. De uma canção de amor.

Poesia não é a comoção diante de um pôr-do-sol ou diante de uma paisagem. Até


pode haver poesia numa declaração de amor ou num poema que descreva o entardecer.
Mas - insista-se - a essência da poesia não está no próprio assunto, na expressão do
sentimento, da comoção, do encantamento. Poesia é palavra.

"Não é com idéias que se fazem


versos, é com palavras".
(Mallarmé, poeta francês)

"O poeta é poeta não pelo que


pensou ou sentiu, mas pelo que disse.
Ele não é criador de idéias, mas de palavras.
Todo seu gênio reside na invenção verbal."
(Jean Cohen, professor e crítico literário)

Na poesia, a língua ultrapassa sua função meramente comunicativa e se torna, ela


própria, a matéria prima para a obra de arte. Dito de outro modo, na função poética o
esforço do autor incide sobre a estrutura da mensagem, sobre a forma de dizer.

Na poesia se evidenciam as potencialidades da linguagem: a conotação, a metáfora,


todas as figuras de linguagem, a sonoridade, o ritmo; em suma, a maneira peculiar,
diferente, nova, artística, criativa de expressar.

Vamos aos exemplos?

Como você avaliou o primeiro poema - "Luar"? Ótimo? Muito bom? Pois saiba que
ali não há poesia. Não há poesia nesse poema simplesmente porque não existe ali a
função poética, a linguagem poética, a maneira peculiar, diferente, nova, artística,
criativa de expressar. A linguagem do poema "Luar" é um amontoado de lugares-
comuns - palavras e expressões que andam na boca de todo mundo ou de um escritor ou
poeta principiante. "Lua majestosa", "tapete de nuvens", "imensa quietude do universo",
"raios argentinos", "véu negro da noite", "claridade branda e suave" e "manto branco de
virgem" são expressões gastas pelo uso, surradas, sem originalidade, sem criatividade. E
poesia é justamente a antítese de lugar-comum.

A primeira pessoa que assim tivesse se expressado seria poeta, e seu poema poderia
ser classificado de poesia.

O poema "Luar" é de autoria de Gil Dumont Vêneto. Trata-se de um poema "ad hoc"
(escrito para esse fim), para exemplificar o que não é poesia.

O segundo poema - "Lua Cheia" - é de Cassiano Ricardo. Observe como o poeta é


original ao identificar a lua cheia com um boião de leite, isto é, com um recipiente de
vidro, cheio de leite. Trata-se de uma metáfora. Originalíssima. Criativa. Poética.
Surpreendente. Observe também que Cassiano Ricardo considera a noite uma pessoa
(personificação): "que a noite leva com mãos de treva". Há, finalmente, mais uma
metáfora: o poeta concebe os raios do luar como se fossem "pingos brancos", que caem
do "boião de leite".

Não bastasse, o autor imprimir ritmo ao seu poema: há o predomínio de versos com
quatro e seis sílabas, com acentuação bem definida.

Em resumo, as metáforas originais, a personificação, o ritmo e a acentuação dão ao


poema "status" de poesia.

Vamos ao terceiro poema - "Poema da Partida". Talvez você já tenha condições de


rever seus conceitos... sua avaliação. Pode-se dizer que no poema há poesia?

Não, não há! E o motivo você já sabe: a linguagem não é poética, original, inusitada,
artística. O poema é (quase) todo uma seqüência de lugares-comuns. Não deixa, no
entanto, de ser um trabalho válido como iniciação à arte de escrever poesia. Talvez seja
assim que os poetas comecem a escrever: repetindo o que os outros já disseram até
chegar à originalidade.

Para não deixar de citar a autoria do poema... ele também foi escrito por Gil Dumont
Vêneto.

É de Vinícius de Moraes o quarto poema. Mas não é por ser de Vinícius que há
poesia nesse poema. É porque ali está presente a linguagem poética.

Eis alguns aspectos, presentes no texto de Vinícius de Moraes, que caracterizam a


função poética:

1. Os versos contêm o mesmo número de sílabas.


1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
De/re/pen/te/do/ri/so/fez-/se o/ pran/to
si/len/ci/o/so e/bran/co/co/mo a/bru/ma
e/das/bo/cas/u/ni/das/fez-/se a es/pu/ma
e/das/mãos/es/pal/ma/das/fez-/se o/pran/to

Observações:

1. A contagem das sílabas dos versos vai até a última sílaba tônica.
2. Quando duas (ou mais) vogais se encontram no fim de uma palavra e no começo
de outra, podendo ser pronunciadas numa única emissão de voz, unem-se numa
só sílaba.

2. As palavras rimam.
pranto vento de repente
bruma chama amante
espuma pressentimento contente
espanto drama distante
errante
de repente

3. A sílabas tônicas repetem-se com intervalos regulares. Observe a incidência da sílaba


tônica na 6ª e na 10ª sílabas:

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
De/re/pen/te/do/ri/so/fez-/se o/ pran/to
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
De/re/pen/te/da/cal/ma/fez-/se o/ ven/to
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
De/re/pen/te,/não/mais/que/de/re/pen/te

A sucessão de sílabas tônicas e átonas com intervalos regulares cadenciam o verso,


tornando-o melodioso.

4. Os versos agrupam-se dentro de uma fórmula especial.


duas primeiras estrofes contêm quatro versos cada uma e as duas últimas, três. A
essa disposição dá-se o nome de soneto.

5. Há a repetição intencional da expressão de repente, e do verso de repente, não mais


que de repente.

A reiteração mencionada, além de dar ritmo e melodia ao poema, é uma maneira


(insistente) de o poeta expressar como se deu a separação.

6. Há a utilização de figuras como a antítese, a comparação, a metáfora.

Antítese
A antítese consiste na aproximação de palavras ou expressões de sentido oposto.
Observe como o poema de Vinícius de Moraes é antitético:

riso x pranto
calma x vento
amigo próximo x o distante

Comparação
A comparação, como o próprio nome diz, é o fato de confrontar, de estabelecer
semelhanças entre seres ou coisas, tendo por finalidade tornar mais clara, mais
compreensível e mais expressiva a idéia que se quer expressar:

De repente do riso fez-se o pranto


Silencioso e brando como a bruma

Metáfora
Metáfora é o uso de uma palavra ou expressão num sentido diferente daquele que lhe é
comum. As metáforas, portanto, por serem palavras e expressões usadas em sentido
figurado devem ser "traduzidas", ou melhor, bem decodificadas.

METÁFORAS DECODIFICAÇÃO
(linguagem artística) (linguagem comum)
De repente do riso fez-se o pranto De repente a felicidade virou tristeza
De repente da calma fez-se o vento De repente a paz virou desarmonia

O quinto poema também é de Gil Dumont Vêneto. Tem rima. Tem ritmo: é uma
valsa. É romântico. É delicado. Expressa o amor. Com certeza, agrada à maioria dos
jovens. Mas não é poesia!

Não basta rimar para escrever poesia. Não basta ter ritmo para ser poesia. Um texto
não é poesia por ser romântico, por emocionar, por ser uma declaração de amor.

Poesia é palavra, é linguagem, é invenção verbal, é originalidade. E no poema


"Amor" não há isso. Há só lugares-comuns.

"Tanger de mansinho", "ternos versos", "berço de rosas macias", "sono formoso",


"ao som das cantigas que a brisa cicia", "ao som das espumas e das ondas do mar",
"música leve do teu respirar", etc. são exemplos de que não há invenção verbal,
exemplos de lugares-comuns, de expressões que, de tão repetidas, se tornaram gastas,
surradas, sem originalidade.

O sentir, o amar, o apaixonar-se é comum a todos; cabe ao poeta expressar o


sentimento, o amor, a paixão de uma maneira singular. Tudo já foi dito. O poeta
expressa o que foi dito mediante uma forma inusitada.

Para finalizar, Manuel Bandeira, em "Consoada", dá uma lição de poesia.

Em dez linhas apenas, com palavras simples, conhecidas (com exceção, talvez, de
"consoada", "caroável" e "sortilégios"), expressa sua preparação para receber a morte (a
Indesejada das gentes), que vem para um último encontro, para uma "consoada"
(refeição ao final do dia) e encontrará o poeta com o dever cumprido ("encontrará
lavrado o campo") e preparado para recebê-la ("a casa limpa, a mesa posta, com cada
coisa em seu lugar.").

Não há rimas (a rima nem sempre é a solução). Os versos não apresentam o mesmo
número de sílabas. O ritmo não é marcado. Isso tudo não importa. O que confere
"status" de poesia ao poema é a maneira peculiar (a linguagem figurada) com que o
poeta expressa sua alta preparação para receber a morte, que vem para um "jantar", um
encontro a dois, e "Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta, / Com
cada coisa em seu lugar."

Ao concluirmos esta seção, queremos sublinhar, uma vez mais, o seguinte: para
escrever poesia, é preciso ter cuidado especial com a forma, com a maneira de
expressar, explorando com originalidade todos os recursos que o sistema lingüístico
oferece nos planos fônicos (rimas, ritmos, etc.), léxico (escolha das palavras), sintático
(combinação de palavras de forma inusitada, singular) e semântico (emprego da
linguagem figurada, etc.), revelando assim novas formas de ver o mundo.

Poesia é isso: uma aventura de linguagem. A arte de dizer o comum de forma


incomum.

O texto poético assim construído se torna intocável, isto é, as palavras que o autor
utilizou, as combinações que fez, os recursos que empregou não podem ser alterados
sob pena de comprometer a obra, desconstruí-la, despoetizá-la.

Cabe lembrar, para encerrar, que um texto em forma de prosa pode ser considerado
poesia, se a função predominante for a função poética, se nele estiver presente a
linguagem poética. Trata-se de um texto em prosa, em sua forma; poesia - em sua
essência. Dito de outro modo é prosa poética.

5. O poeta: um lutador
Retomemos a segunda estrofe do poema de Cassiano Ricardo:

Que é o poeta?
um homem
que trabalha o poema
com o suor de seu rosto
um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.

Fixemo-nos na definição de que o poeta é "um homem que trabalha o poema com o
suor de seu rosto." De imediato, percebemos que escrever poesia não é tarefa fácil... não
é algo que se produz num momento de inspiração. Implica trabalho. Esforço. Suor.
Busca de originalidade. Da metáfora iluminadora. É uma dura estiva de desembarcar no
papel e idéias novas, novas concepções de mundo.

Muitos poetas escreveram a respeito de seu esforço criador. Por exemplo, Olavo
Bilac, no soneto "A um poeta"

Longe do estéril turbilhão da rua,


Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Um dos mais importantes poemas da poética de Carlos Drummond de Andrade é o


poema "O Lutador", em que fala de seu processo criador.

O Lutador

Lutar com palavras


é a luta mais vã.
Entretanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,


perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue...
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,


luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor

me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

(Carlos Drummond de Andrade)

No poema, é necessário ressaltar que

a. poesia é palavra:
-"as palavras" são muitas (...) /Algumas, tão fortes /como o javali,"
- "apareço e tento /apanhar algumas /para meu sustento /num dia de vida."
- "e um sapiente amor /me ensina a fruir /de cada palavra /a essência captada, /o sutil
queixume".

b. o poeta é um lutador: luta com as palavras:


- "Luto corpo a corpo, /luto todo o tempo"
- "Cerradas as portas, /a luta prossegue /nas ruas do sono."
- etc.

c. a luta com as palavras é tarefa difícil (o que significa que construir um poema
envolve muito esforço):
- "Lutar com palavras /é a luta mais vã."
- "Deixam-se enlaçar, /tontas à carícia /e súbito fogem"
- "Sem me ouvir deslizam, /perpassam levíssimas, /e viram-me o rosto."
- etc.

A luta que o poeta trava com a palavra, a busca pela perfeição formal, a ânsia de
almejar, alcançar a beleza a qualquer custo, e a impotência, a angústia experimentada
pelo poeta para a realização dessa tarefa - isso tudo está expresso no poema clássico de
Olavo Bilac, "Inania verba" (Fúteis palavras).

Inania verba

Ah! quem há-de exprimir, alma impotente e escrava,


O que a boca não diz, o que a mão não escreve
- Ardes, sangras, pregada à tua cruz e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:


A forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo


Ai! quem há-de dizer as ânsias infinitas
Do sonho e o céu que foge à mão que se levanta

E a ira muda e o asco mudo e o desespero mudo


E as palavras de fé que nunca foram ditas
E as confissões de amor que morrem na garganta

(Olavo Bilac)

É tamanha a ânsia, o esforço do poeta na busca do ideal poético que chega a sentir-se
um fracassado, considerando impossível a expressão correta das idéias pelas palavras.
Para Bilac, a construção de um poema é também comparada a uma cidadela
inconquistável:

Nunca estarei jamais no teu recinto;


na sedução e no fulgor que exalas,
ficas vedada, num radiante cinto
de riquezas, de gozos e de galas. (Perfeição)

É a mesma a concepção de João Cabral de Melo Neto acerca do processo de criação


de um poema em "O ferrageiro de Carmona" (ferrageiro = ferreiro; Carmona= cidade da
Espanha e, também, uma espécie de tranca).

O poema distingue duas maneiras de trabalhar o ferro: a fundição e o forjamento. Na


fundição, o ferro é derretido e derramado no molde. Ao esfriar, torna-se sólido, tomando
o formato do molde. Já no forjamento, o ferro é aquecido e trabalhado/moldado pelo
ferreiro com o auxílio do malho (um grande martelo de ferro).

Segundo o poema, o trabalho com a linguagem é análogo ao trabalho com o ferro. A


"fundição" deve ser entendida como a construção de um poema a partir de uma fórmula,
em que, por isso, não há originalidade; o "forjamento" é criação, é enfrentar
dificuldades no fazer artístico. Assim, o poema "forjado" é fruto do esforço, do suor,
resultado do trabalho intenso e não de uma inspiração fugaz, da imitação - sinônimo de
facilidade.

Eis o poema na íntegra:

O ferrageiro de Carmona

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
"Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado


que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde
quero.

O ferro fundido é sem luta


é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.

Existe a grande diferença


do ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?


De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.


Flores criadas numa outra
língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.

Dou-lhe aqui humilde receita,


Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.
Forjar: domar o ferro à força,
Não até uma flor já sabida,
Mas ao que pode até ser flor
Se flor parece a quem o diga.

(João Cabral de Melo Neto)

Dignas de nota são também as cartas de Rainer Maria Rilke (1875-1926), o maior
poeta da língua alemã do séc. XX.

Rilke recebe uma carta de um jovem chamado Franz Kappus, que aspira a se tornar
poeta e que pede conselhos ao já famoso escritor. O fato dá início a uma troca de
correspondências na qual o poeta responde aos questionamentos do rapaz e expõe suas
opiniões a respeito de ser poeta, da necessidade de escrever, da criação artística, entre
outros assuntos.

Foram dez as cartas, das quais transcrevemos a primeira.

Primeira Carta de Rainer Maria Rilke

Paris, 17 de fevereiro de 1903


Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável
confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da
feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada
menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre
resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas
tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos
acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca
pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de
arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.
Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição
própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior
clareza no último poema, "Minha Alma". Aí, algo de peculiar procura expressão e
forma. No belo poema "A Leopardi" talvez uma espécie de parentesco com esse grande
solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de
independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável
carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler
seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são
bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a
periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são
recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de
aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é
justamente o que menos deveria fazer neste momento.
Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure
entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende
suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria,
se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais
tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma
resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um
forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua
vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o
testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se
fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de
amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis,
pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal
num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir
dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece;
relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas
de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a
própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga
consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com
efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse
numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus
ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse
tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações
submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão
há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o
ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro,
deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for
se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses trabalhos, pois há
de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma
obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu
critério, - o único existente. Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro
conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua
vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar.
Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez
venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e
carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que
possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar
tudo em si e nessa natureza a que se aliou. Mas talvez se dê o caso de, após essa
descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar
poeta.
(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o
direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido
inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam
bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.
Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal
de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade
ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e
aguardar de fora respostas e perguntas a que talvez somente seu sentimento mais
íntimo possa responder na hora mais silenciosa.
Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por
esse amável sábio uma grande
estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É
bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.
Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-
lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio
desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela
do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,

Rainer Maria Rilke

(Esta Primeira Carta do livro "Cartas a um jovem poeta" foi traduzida por Cecília
Meireles, retirada da edição: "Cartas a um jovem poeta e Canção morte do porta-
estandarte Cristóvão Rilke", ed. Globo, 1983.)

Não poderíamos também deixar de transcrever a "Carta a um jovem poeta (por um


não-poeta)", de Paulo Avelino (http://fla.matrix.com.br/pavelino/carta.html).

Paulo Avelino toca com extrema habilidade em aspectos essenciais da poesia.

- "Não confunda tema com poema. Nunca, nunca." E vale a pena ver como o autor
do poema explica esse aspecto.

- "Outro Nunca: nunca veja a poesia como expressão de sentimentos ou expressão do


seu eu ou coisa parecida." A explicação da afirmação você já sabe, mas é importante
reforçar essa convicção. Por isso transcrevemos a carta.

Carta a um jovem poeta (por um não poeta)


Paulo Avelino

[Um jovem poeta me escreveu. Essa é a resposta que fiz a ele.]

Caro Caio,

Você tem catorze anos e revela que quer ser poeta. É uma boa idade para isso, e não
digo isso poeticamente (!), mas por que com essa idade você terá tempo para se
aperfeiçoar. Há grandes poetas que se decidiram aos nove. É uma boa idade a sua.

Você enviou um poema falando de mães. Mães são um tema válido. Namoradas são um
tema válido. A pátria, também. Pulgas, cachorros vadios, latas enferrujadas que um
menino de rua chuta distraidamente na calçada, a derrota do meu time, as proezas do
arcanjo Gabriel no combate aos demônios, tudo isso são temas válidos.

Dizem que Churchill, quando pediram que dissesse uma mensagem à juventude, disse
apenas: "Nunca se dêem por vencidos. Nunca, nunca, nunca..." Eu poderia dizer algo
parecido: "Não confunda o tema com o poema. Nunca, nunca..."

O tema é uma coisa, o poema é outra completamente diferente, e as virtudes de um


simplesmente não se comunicam para o outro. Se você escreve um poema e as respostas
que você tiver se referirem ao tema, elogiando o tema, tome isso como sinal de que está
no caminho errado.

Por isso, não precisa se preocupar em escolher Os Grandes Temas (assim mesmo, com
maiúsculas): Amor, Mãe, Morte, Solidão... O que não significa que sejam proibidos.

Pense em quantas pessoas já passaram por esse mundo antes de você. Quantas pessoas
escreveram. A cada dia eu me surpreendo mais com quanta coisa maravilhosa se
encontra escondida em prateleiras de bibliotecas. Será que essas pessoas deixaram
algum tema original, não tocado, para você? A resposta é não. Todos os temas, caro
Caio, já foram explorados (e muito bem explorados) por gente muito boa. E isso não é
de hoje, creio que quando os gregos entraram em decadência todos os temas já tinham
sido devidamente visitados.
Então, há algum sentido em escrever hoje? Por que não ficamos simplesmente
reeditando e lendo as maravilhas do passado?
Porque as coisas precisam ser ditas e reditas de forma nova e impactante. As palavras
e expressões são como facas, elas se desgastam. E a mesma coisa precisa ser dita de
outra forma, de uma forma original. Esse é o sentido de você escrever, é o sentido de
qualquer um escrever.
Diga as coisas de forma original. Invente metáforas novas, comparações inusitadas.
Existe um veneno para o poema ou para qualquer tipo de literatura, que se chama
lugar comum. Não diga que sua amada é linda e você não poderia viver sem ela. Não
diga que se sente só. Ou melhor, diga... mas de forma original, nova.
Outro Nunca: não veja a poesia como expressão de sentimentos ou expressão do seu eu
ou coisa parecida. Poesia é uma arte, é um fazer, é um trabalho. Se diante de um
poema seu uma pessoa elogiar a sua pessoa, do tipo "que pessoa linda que você é"
aceite educadamente, mas sempre se conscientize de que essa pessoa elogiou um autor
que não é você, é o autor do poema, que não se confunde com você pessoa física. Vou
tentar explicar melhor.

Existiu um poeta português no começo do século que escreveu alguns dos poemas mais
conhecidos da língua. Além da qualidade indiscutível do seu trabalho esse poeta tinha
um diferencial em relação a outros grandes poetas, ele escreveu coisas importantes
sobre o fazer poético. Ele disse uma coisa bem conhecida mas que muita gente boa
passa por cima: "o poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que
é dor/a dor que deveras sente". Ou seja, você não precisa estar apaixonado para
escrever um poema de amor. Você pode escrever um belo poema de louvor a Deus e ser
um ateu. Sobre a pátria e não ser patriota. Quem tem de ficar com/movido com o seu
poema é o seu leitor, não você! Assim, se alguém lhe diz que você é uma pessoa linda,
ou uma bela alma, pense assim, a pessoa que eu fingi ser é linda, não necessariamente
eu. E como diz o poeta, essa pessoa (ou essa Pessoa) fingida pode ser até você mesmo,
e nem por isso será menos fingimento! Não precisa fazer de sua poesia um strip-tease
das próprias emoções. Esse poeta tem uma frase cortante a respeito: "Sentir? Sinta
quem lê!" Claro que você sabe que estou falando do velho Fernando.

Você está tendo, e terá por algum tempo, aulas de literatura. Saiba que seu professor
de literatura vive noutro mundo, bem diferente do seu. Não se trata de inferioridade ou
superioridade, apenas de tarefas e visões diferentes. O professor, ou qualquer crítico,
tem uma função de analisar e depois fazer uma síntese. Ele busca dar um significado. É
a função dele. Ele chega ao macro. Você tem de partir do micro. Atribuir grandes
significados não é tarefa sua. Você tem que buscar uma técnica. E com o tempo você
dominará essa técnica, você ficará à vontade com ela, brincará com ela (como sempre
gostamos de brincar com algo que fazemos bem), e as sínteses devem primordialmente
ficar a cargo de outros. Seu professor, por exemplo, dirá que tal poeta "é a autêntica
expressão do seu tempo", ou que tal poetisa "expressa perfeitamente a alma feminina".
Nunca tente partir de tais afirmações gerais para a sua poesia. Você poderia ficar
pensando "como fazer esse poema ser a expressão do meu tempo, ou dos anseios da
minha geração"? Não pense assim. Crie uma técnica, coisas originais, que funcionem,
que dêem certo. Para isso precisa ler muito. Leia os clássicos e fique atento ao que foi
publicado hoje na resenha do jornal. E as grandes sínteses do significado da sua
poesia, deixe para os outros.

Bem, é isso. Você escolheu ser poeta. É uma vida difícil. Mas qual não é? Se você me
dissesse que queria ser médico eu diria a mesma coisa, analista de sistemas, a mesma,
professor... engenheiro... Você vai navegar num mar de amadorismo e muitas vezes vai
se sentir imensamente só. Mesmo que esteja cercado de mulher, parentes e amigos e
pessoas que o amam, sua solidão profissional vai tão espessa que você vai poder até
tocá-la. E os resultados vão demorar, talvez quando surjam você nem esteja mais
interessado em louvores dos outros. Mas se é chamado é chamado, e nisso eu não
diferencio a literatura de qualquer outra profissão. O cara tem uma tendência para
aquilo. Se vai ter determinação e coragem para atender o chamado é outra história. E
sequer você pode se orgulhar de ter vocação. Não foi você que escolheu, foi escolhido,
e portanto não é mérito.

Enfim, coragem, firmeza e paciência.

Abraços,

Paulo Avelino

6. Conclusão

No uso comum, "poesia" é termo utilizado para nomear o texto escrito em forma
de verso. No rigor do termo, no entanto, "poesia" não é sinônimo de verso
metrificado, rimado. A essência da poesia é a palavra. O trabalho com a palavra. O
dizer o comum de forma incomum. O dizer poeticamente. De forma original.
Inventando metáforas novas. Comparações inusitadas. Impactando. Oferecendo a
palavra como espetáculo.

Esqueça, pois, que poesia é sentimento. Comoção. A expressão do amor. De uma


saudade. De uma dor de amor. Não diga a sua amada que quer vê-la repousando
num berço de rosas macias, ao som das cantigas que a brisa cicia, no doce balanço
das ondas do mar. Que ela é o sol de sua vida, o pão com que você saciará sua sede
de carinho. Seu ontem. Seu hoje. Seu amanhã. Seu sempre. Aliás, diga tudo isso,
mas de forma poética, nova, original. Afinal, poesia é a arte de dizer. Da palavra.
Nova.
Como ser criativo, original

Entrevista com Giscar Otreblig, escritor e crítico literário, professor e ministrante de


oficinas de escrita criativa.

Giscar Otreblig, nascido na Arábia Saudita, com passagem por


Portugal e radicado no Rio de Janeiro, concede entrevista para o
GUIA DE PRODUÇÃO TEXTUAL
(www.pucrs.br/gpt/index.php) de autoria de Gilberto Scarton.
Giscar é, além de escritor, crítico literário, professor e
ministrante de oficinas de escrita criativa.

Gilberto Scarton

GPT - E a literatura árabe?


Giscar - Vai bem, obrigado. Editores descobrem a atual geração de escritores de língua
árabe. E cresce, surpreendentemente, o número de mulheres árabes escritoras.

GPT - Por exemplo?


Giscar - Rajaa Alsanea, ameaçada de morte, por revelar em seu livro "Vida dupla",
como vivem os jovens de classe média alta na Arábia Saudita. E Fadia Faqir, ativista
jordaniana que defende os direitos da mulher no mundo árabe. Vejo o seu livro "Meu
nome é Salma".

GPT - Qual o maior nome da literatura árabe moderna?


Giscar - É Naguib Mahfouz, Nobel de literatura em 1988.

GPT: Além de professor e escritor, o senhor é crítico literário e ministra oficinas


de escrita criativa. Que é mesmo escrita criativa?
Giscar - A escrita criativa, em certo sentido, se opõe à escrita utilitária, burocrática.
Poderia ser denominada de escrita literária, lúdica. A escrita de poemas, de contos, de
jogos de palavras, etc...

GPT - Mas uma dissertação não pode ser criativa?


Giscar - Sem dúvida. Escrita criativa tem um sentido mais amplo do que aquele
mencionado anteriormente: a criatividade exerce-se em todos os níveis de produção
lingüística. Manifesta-se em diferentes tipos de texto.

GPT - Até numa receita culinária?


Giscar - Até numa receita culinária. Que o diga o Sr. Houaiss. Mas observe-se: há graus
de criatividade.

GPT - Então, quando um texto é criativo?


Giscar - Um texto é criativo quando se afasta da vala comum dos outros textos. Quando
divergir, tanto quanto possível, de outros textos na abordagem do tema, no emprego dos
recursos gráficos e fônicos, na seleção dos vocábulos, na construção das frases, no
emprego dos recursos semânticos, etc.

GPT - O senhor falou "tanto quanto possível..."


Giscar - Sim. Foi Voltaire quem disse: "a originalidade não é senão uma imitação
prudente. Os mais originais escritores pegaram emprestado uns dos outros".

GPT - Então nenhum texto é inteiramente original?


Giscar - Acho que não. Cada texto é uma transformação de outros textos. Isso é muito
fácil de ser entendido. Nenhum texto se produz no vazio ou nasce numa inocente
solitude. Ao contrário, alimenta-se de outros textos. É o fenômeno da
intertextualidade...

GPT - Qual a implicação do que o senhor acaba de afirmar para um "aprendiz da


escrita", para o ensino da língua portuguesa?
Giscar - Quanto mais lemos e bem, mais possibilidades temos de compreender um
texto, um poema, determinado escritor, de entender os caminhos percorridos por ele.
Por outro lado, mais aptos estaremos de escrever nossos próprios textos. Ler não é
apenas um verbo... ensinar a ler é a prática mais importante na Educação.

GPT - Então uma oficina de escrita criativa tem importância relativa?


Giscar - Eu diria que sim. Diria mais: quem deseja cursar uma oficina de escrita criativa
deveria conhecer os objetivos da oficina, fazer algumas aulas e, a partir daí, decidir se é
conveniente, bom, produtivo fazer todas as aulas.

GPT - Que objetivos o senhor estabelece para suas oficinas?


Giscar - Desfazer mitos, preconceitos a respeito da escrita; ensinar o aluno a ler;
entender os mecanismos da escrita criativa; vivenciar a experiência de construir textos
criativos; resgatar no oficineiro a consciência de que ele é um ser criativo...

GPT - Ensinar a ler?


Giscar - Sim, exatamente. Ensinar a ler como um escritor. Desnudar cada palavra. Cada
frase. Cada parágrafo, texto ... para descer às profundezas da linguagem e fruir o belo.

GPT - Mas tem-se dito muito que escrever é um dom. Que o senhor acha?
Giscar - Escrever é um dom... mas um dom de todos, pois a linguagem é apanágio da
espécie humana.

GPT - Posso concluir que também não é uma questão de inspiração...?


Giscar - Inspiração é/deve ser como visita de sogra. Está chegando e ... já deve estar
saindo. (Giscar queria retirar essa comparação... pois considera (e é) preconceituosa.
Diz que sua sogra é generosa como uma geladeira: sempre obsequiosa, prestativa...).

GPT - É questão de trabalho, de transpiração, para usar de um lugar comum?


Giscar - Fernando Sabino afirmou que não tem facilidade nem para escrever uma carta.
E Paulo Mendes Campos disse quem tem facilidade para escrever não é escritor, é
orador. Escrever é uma dura estiva de desembarcar idéias na folha branca, imaculada. É
um desafio constante. É um constrangimento. Mas é isso que nos empurra para o
desafio da escrita, para as situações criativas, para gerar histórias, poemas, textos. A
criatividade surge da dificuldade, da necessidade de resolver um problema. Olavo Bilac,
quando se punha a escrever, dizia que baixava um anjo diabólico e lhe sussurrava: hoje
estás fadado a escrever sem inspiração. Escrever é trabalho, é cavar fundo na memória,
é voar com a imaginação, é desvendar subterrâneos, desbravar galerias... reescrever...

GPT - Escrever é um exercício humano.


Giscar - Escrever é um exercício humano. Requer disciplina, disposição, ambição, uma
boa dose de imaginação (a louca da casa), sensibilidade, ter uma dor de cotovelo, estar
de bem com a vida (ou não...). E alguns quilômetros rodados. De preferência, desde a
infância. Escrever é um exercício de liberdade. E de coragem: as palavras queimam. E é
um exercício de solidão... mas que nos arranca de nós mesmos e nos leva ao encontro
dos outros, do mundo, solidarizando-nos.

GPT - Louca da casa?


Giscar - "Louca da casa" é a expressão empregada por Santa Teresinha do Menino Jesus
para referir a imaginação. Rosa Montero se apropriou da frase para dar nome a um de
seus livros. A escritora madrilenha diz que imaginação é a louca fascinante que mora no
sótão. Ser romancista (e escritor, e poeta, e...) é conviver feliz com a louca lá de cima. E
não ter medo de visitar todos os mundos possíveis e alguns impossíveis".

GPT - Li, não lembro onde, que muitos romances, contos, poemas nascem de uma
frase.
Giscar - É mesmo. Nascem de uma célula, de um ovinho, como costumo dizer. Esta
célula pode ser uma emoção, um rosto, uma frase, um fato. Meu primeiro romance
"Oásis" nasceu de uma frase "o sertão é dentro da gente... viver é muito perigoso".

GPT - O senhor escreve muito?


Giscar - Estou sempre escrevendo. Escrevo antes de deitar, dormindo, nas horas de
insônia, quando acordo, quando passeio com meus cachorros... Eu escrevo mentalmente
sempre. As frases, as idéias estão sempre borbulhando no meu sótão. E se não anoto a
tempo...

GPT - Voltando à gênese de uma obra: da dor de perder também nasce a obra...
Giscar - A frase é do psicólogo Phillipe Brenot, autor de "O gênio da loucura". "...
Nasce de uma experiência profunda, captada pela sensibilidade do artista que apreende
momentos perturbadores da existência: as perdas, os danos, os enganos, os logros, os
malogros, os desenganos, os segredos, os amores, os desamores, o nascimento, a vida, a
morte, a opressão, a angústia, a náusea, o ser, o não-ser, o ciúme, a inveja, a ira, a
solidão... Fazer literatura, ler literatura, é falar/ler sobre nós mesmos... sobre mim...
sobre ti. Sobre o mundo. Da vida feita de angústias e felicidades.

GPT - A literatura é então conhecimento?


Giscar - A literatura é luz. É relâmpago que abre clareiras na treva. É trovão. Que pode
sacudir as mentes, que lança chamas que incendeiam e clarificam a realidade. Escrever
é, então, um ato maiêutico. É um ato solidário. É um ato libertador. É um ato político. É
um ato de amor.

GPT - Muito obrigado!


Giscar - ODeixem o hífen em paz

Ana Maria Wertheimer


Gilberto Scarton

1. INTRODUÇÃO

O hífen - dizem - é tracinho diabólico. O calcanhar de aquiles dos regimes e reformas


ortográficas. Traço de (des)união. Hifenização – uma infernização. E – afirmam -
continua, mesmo com o Acordo de 1990, agora em vigor: foi nosso arquiinimigo, e
continua sendo nosso arqui-inimigo.

Pois este artigo pretende dar pequena contribuição para entender onde está o nó do
tracinho. Quem sabe nos tornemos mais condescendentes com esse sinal diacrítico...
Para tanto, distingue na questão dois aspectos: o emprego do hífen com prefixos,
elementos prefixados e sufixos; e o emprego nas chamadas palavras compostas.

2. O EMPREGO DO HÍFEN

2.1 O emprego do hífen com prefixos, elementos prefixados e sufixos

A bem da verdade, diga-se que o Acordo de 1990 trouxe considerável simplificação


quanto a esse aspecto. Para constatar a afirmação, basta cotejar o que é/era estabelecido
pela norma ortográfica do Formulário Ortográfico de 1943 com as novas disposições
de 1990.

2.1.1 As regras do Formulário Ortográfico de 1943

Com base no Formulário Ortográfico , gramáticos, autores de livros didáticos,


professores sistematiza(va)m as regras do emprego do hífen com prefixos, elementos
prefixados e sufixos em quatro grupos, que abaixo reproduzimos.

A. Prefixos e elementos prefixados sempre seguidos de hífen

Prefixos Exemplos
Além- além-túmulo; além-fronteiras; além-mundo
Aquém- aquém-fronteiras; aquém-mar
Bem- bem-aventurado; bem-querer;bem-apresentado
Co(m)- co-autor; co-educação; co-produção
Ex- ex-aluno; ex-prefeito; ex-diretor
Grã- grã-cruz; grã-fino; grã-ducado
Grão- grão-mestre; grão-duque; grão-rabino
Pós- pós-datar; pós-escrito; pós-guerra
Pré- pré-alfabetizado; pré-datado; pré-história
Pró- pró-reitor; pró-americano;pró-britânico
Recém- recém-chegado; recém-nascido; recém-fabricado
Sem- sem-vergonha; sem-fim; sem-amor
Vice- vice-diretor; vice-reitor; vice-prefeito

B. Prefixos e elementos prefixados seguidos de hífen antes de...

Prefixos Antes de Exemplos com hífen Exemplos sem hífen


Vogal H R S B
AB- X ab-rogar Abjurar
AD- X ad-renal advérbio; adjunto
ANTE- X X X ante-histórico; ante-solar antecâmera; antediluviano
ANTI- X X X anti-herói; anti-social antiaéreo; anticristo
ARQUI- X X X arqui-rival arquiinimigo
AUTO- X X X X auto-estima; auto-retrato autobiografia; autocontrole
CIRCUM- X X circum-adjacente circunscrever
CONTRA- X X X X contra-ataque; contra-senso contracheque
ENTRE- X entre-hostil entrelinhas
EXTRA- X X X X extra-oficial; extra-regimental extraconjugal
HIPER- XX hiper-humano; hiper-raivoso hipermercado
INFRA- X X X X infra-estrutura infracitado
INTER- XX inter-humano; inter-regional intercolegial
INTRA- X X X X intra-ocular; intra-regional intramuscular
MAL- X X mal-educado; mal-humorado malcheiroso
NEO- X X X X neo-humanista; neo-republicano neoclássico
OB- X ob-rogar obdentado
PAN- X X pan-americano pandemônio
PROTO- X X X X proto-história protoplasma
PSEUDO- X X X X pseudo-herói; pseudo-sábio pseudopoeta
SEMI- X X X X semi-selvagem semifinal
SOB- X sob-roda sobpor
SOBRE- X X X sobre-humano; sobre-saia sobrecapa
SUB- X X sub-ramo; sub-bibliotecário subchefe
SUPER- XX super-requintado supermercado
SUPRA X XXX supra-esofágico; supra-hepático supracitado

C. Prefixos e elementos prefixados nunca seguidos de hífen

Prefixos Exemplos Prefixos Exemplos


Aero- Aerotransporte Mega- Megassismo
Agro- Agroindústria Micro- Microcomputador
Ambi- Ambidestro Mono- Monocultura
Anfi- Anfiteatro Morfo- Morfossintático
Arterio- Arterioesclerose Moto- Motocasa
Astro- Astrofísica Multi- Multiangular
Audio- Audiovisual Neuro- Neurocirurgião
Auri- Auricular Octo- Octocampeão
Bi(s)- Bicentenário Oni- Onipresente
Bio- Biossocial Orto- Ortocentro
Bronco- Broncodilatador Para- Parapsicologia
Cardio- Cardiovascular Penta- Pentacampeão
Cata- Catabiótico Per- Perpassar
Centro- Centroavante Peri- Pericentral
Cis- Cisandino Pluri- Plurianual
De(s)- Desfazer Pneu- Pneumococo
Di(s)- Distrofia Poli- Poliácido
Ego- Egolatria Pos- (átono) Posfácio
Eletro- Eletrocardiograma Pre- (átono) Predeterminar
Endo- Endovenoso Pro- (átono) Proclítico
Estereo- Estereótipo Psico- Psicomotor
Filo- Filogenético Quadri- Quadrigêmeos
Fisio- Fisioterapia Quilo- Quilograma
Foto- Fotogravura Rádio- Radioterapia
Gastro- Gastropulmonar Re- Refazer
Geo- Geopolítico Retro- Retrovisor
Hemi- Hemiciclo Rino- Rinoceronte
Hepta- Heptacampeão Sacro- Sacrossanto
Hetero- Heterossexual Sesqui- Sesquicentenário
Hexa- Hexacampeão Socio- Sociolingüístico
Hidro- Hidroginástica Tele- Telecomando
Hipo- Hipoderme Termo- Termodinâmico
Homo- Homossexual Tetra- Tetracampeão
Idio- Idioadaptação Trans- Transcontinental
Ido- Idolatria Traqueo- Traqueotomia
In- Infeliz Trans- Transamazônico
Intro- Introjeção Tres- Tresavô
Iso- Isométrico Tri- Tridimensional
Justa- Justapor Turbo- Turbomotor
Iso- Isométrico Uni- Unicelular
Justa- Justapor Vaso- Vasodilatador
Labio- Labiodental Xanto- Xantocéfalo
Linguo- Linguodental Xilo- Xilogravura
Macro- Macroeconomia Zoo- Zootecnia

D. Sufixos sempre antecedidos de hífen

Quanto a sufixos, o Formulário Ortográfico de 1943 prescrevia o uso do hífen antes dos
sufixos tupi-guaranis –açu (capim-açu) , -guaçu (araçá-guaçu) e –mirin (araçá-mirin);
e do sufixo –mor (altar-mor)1.

É evidente que uma pessoa normal ou tinha enormes dificuldades de memorizar tal
quantidade de elementos e as respectivas regras para seu emprego, ou simplesmente
recusava-se a fazê-lo.

2.1.2 As regras do Acordo de 1990, que passaram a valer a partir de 2009

O Acordo de 1990 veio, como se disse, simplificar a questão. Com base no que
prescreve sobre o assunto, é possível estabelecer DUAS regras básicas acerca do
emprego do hífen com prefixos, elementos prefixados e sufixos:

REGRA 1 - CASOS QUE SEMPRE EXIGEM HÍFEN

a) As formações com os seguintes prefixos, elementos prefixados e sufixos:


além-, aquém-, bem-, recém-, sem-, grã-, grão-, ex-, vice-, sota-, soto-, vizo-2 , pré-
(tônico), pós-(tônico), pró-(tônico), -açu, -guaçu, -mirim.
Exemplos: além-fronteiras, aquém-mar, bem-dizer, recém-nascido, sem-cerimônia,
Grã-Bretanha, Grão-Pará, ex-diretor, vice-presidente, sota-mestre, soto-capitães, vizo-
rei, pré-datado, pró-africano, pós-graduação, andá-açu, amoré-guaçu, Ceará-Mirim.

b) As formações com prefixos e elementos prefixados, quando o segundo elemento


inicia com h (exceto com des- e in-, pois nessas formações o segundo elemento perde o
h inicial como em desumano, desumidificar, inábil, inumano).
Exemplos: ante-herói, auto-hemoterapia, micro-história, semi-hospitalar.

REGRA 2: CASOS QUE EXIGEM HÍFEN SOMENTE EM CERTOS


CONTEXTOS

a) Nas formações em que o prefixo ou elemento prefixado termina na mesma letra com
que se inicia o segundo elemento.
Exemplos: anti-ibérico, contra-almirante, semi-interno, micro-onda, anti-inflamatório,
hiper-requintado, inter-racial, super-revista.
b) Nas formações com circum- e pan-, quando o segundo elemento começa por vogal,
m, n, b ou p, além de h.
Exemplos: pan-africano, pan-mágico, pan-negritude, pan-brasileiro, pan-psiquismo,
circum-navegação, circum-hospitalar.

c) Nas formações de substantivos e adjetivos com mal, quando combinado com


elementos iniciados por vogal ou h.
Exemplos: mal-afamado, mal-entendido, mal-estar, mal-humorado, mal-informado.

d) Nas formações com ab-, ob-, sob-, sub-, quando combinados com elementos
iniciados por b, h ou r: ab-rogar, ob-rogar, sob-roda, sub-raça.

e) Nas formações com ad-, quando combinado com elementos iniciados por d, h ou r:
ad-digital, ad-rogar.

A par da explicitação das regras acima apresentadas, ressaltam-se dois pontos:

(1) nunca se emprega o hífen antes dos prefixos e elementos prefixados não, quase, co-,
re-, pre-(átono), pro-(átono), pos-(átono).
Exemplos: não fumante, não cumprimento, quase nada, copiloto, coadjunto, recomeço,
reerguer, preliminar, prolongar, pospor.

(2) nos casos em que não está previsto o uso do hífen, dobra-se a letra r ou s do segundo
elemento: antessala, antissemita, contrarregra, microssistema, minissaia.

As novas regras do emprego do hífen assim podem ser resenhadas: permanece


inalterado o que fora estabelecido em 1943 em relação a prefixos sempre seguidos de
hífen (cf. letra A, em 2.1.1), bem como em relação a certos sufixos (cf. letra D, em
2.1.1); e juntam-se numa mesma regra os prefixos e elementos prefixados que não
admitiam hífen ou admitiam em certos contextos. É claro que tal configuração pode ser
memorizada, com uma dose de boa vontade...

2.2 O emprego do hífen em palavras compostas

É aqui que reside o problema. O nó do tracinho. O busílis.

Veja-se, em primeiro lugar, o que preceituam as duas normas, a de 1943 e a de 1990.

2.2.1 O Formulário Ortográfico de 1943 e o Acordo de 1990: convergências

O Formulário Ortográfico de 1943 reza:

HÍFEN

Só se ligam por hífen os elementos das palavras compostas em que se mantém a


noção da composição, isto é, os elementos das palavras compostas que mantêm a sua
45
independência fonética, conservando cada um a sua própria acentuação, porém
formando o conjunto perfeita unidade de sentido.
46 Dentro desse princípio, deve-se empregar o hífen nos seguintes casos:
1º -Nas palavras compostas em que os elementos, com a sua acentuação própria, não
conservam, considerados isoladamente, a sua significação, mas o conjunto constitui
uma unidade semântica: água-marinha, arco-íris, galinha-d'água, couve-flor, guarda-
pó, pé-de-meia (mealheiro; pecúlio), pára-choque, porta-chapéus,etc. Observação 1ª -
Incluem-se nesta norma os compostos em que figuram elementos foneticamente
reduzidos: bel-prazer, ês-sueste, mal-pecado, su-sueste, etc.

Por seu turno, a Base XV – Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos


vocabulares – do Acordo de 1990, estabelece:

1º) Emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas
de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal,
constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo
dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido: ano-luz, arce-bispo-bispo, arco-íris,
decreto-lei, és-sueste, médico-cirurgião, rainha-cláudia, tenente-coronel, tio-avô, turma-
piloto; alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano,
porto-alegrense, sul-africano; afro-asiático, cifro-luso-brasileiro, azul-escuro, luso-
brasileiro, primeiro-ministro, primeiro-sargento, primo-infeção, segunda-feira; conta-
gotas, finca-pé, guarda-chuva.
Obs.: Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de
composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé,
paraquedas, paraquedista, etc.

Do cotejo dos dois preceitos, conclui-se que há uma diferença significativa: o Acordo de
1990 introduziu a seguinte cláusula: que não contêm formas de ligação. No mais se
equivalem.

Dito isso, cumpre afirmar que esse princípio norteador do emprego do hífen é
extremamente complexo e exige, por isso, que se proceda passo a passo, detalhando os
diversos requisitos, o que se fará adiante.

2.2.2 Requisitos para o emprego do hífen em palavras compostas

São vários, portanto, os requisitos a serem levados em conta para utilização do hífen,
observando-se, agora, tão somente o que dispõe o Acordo de 1990:

a) Palavras compostas...
b) ...por justaposição...
c) ...que não contêm formas de ligação...
d) ...e cujos elementos de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal...
e) ...constituem uma unidade sintagmática e semântica...
f) ... e mantêm acento próprio...
g) ...podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido.

Por partes.

a) Palavras compostas

Uma palavra composta é uma única unidade lexical, com entrada própria no dicionário
(verbete), cujos elementos constitutivos ( dois, três e até mais ) designam, mediante a
composição , um referente ( ser, fenômeno, etc.).

Um dos motivos principais pelo qual se formam novas palavras (compostas) é a


necessidade de nomeação de seres, fenômenos, invenções: secretária-eletrônica, bolsa-
família, vale-transporte, licença-paternidade, etc.

Os constituintes de uma palavra composta perdem muitas vezes seu sentido original, em
benefício da significação nova – uma significação metafórica, figurada. Exemplos:

Uma coisa é Outra coisa bem diferente é


mesa redonda mesa-redonda
cachorro quente cachorro-quente
dedo duro dedo-duro
onça pintada onça-pintada
boina verde boina-verde

Em exemplos dessa natureza, o sentido é coeso, não analisável na base de seus


componentes: uma mesa-redonda, não é, na verdade, uma mesa redonda, circular, mas é
determinada forma de debater, expor um assunto; um cachorro-quente não é um
cachorro escaldado, mas um tipo de alimento. E assim sucessivamente. Pode-se dizer,
em consequência, que, nesses casos, não há maiores dificuldades quanto ao emprego do
sinal.

Deve-se mencionar finalmente que, dada a evolução da língua, algumas palavras


compostas perderam, em certa medida, a noção de composição, e passaram a ser escritas
aglutinadamente: mandachuva, vaivém, passatempo, reviravolta, madrepérola, rodapé,
sobremesa, sobremaneira, bancarrota, cantochão, claraboia, girassol.

b) Composição por justaposição

As palavras compostas são formadas por dois processos: justaposição e aglutinação. No


processo de justaposição, as palavras (os radicais) se dispõem lado a lado conservando
sua integridade gráfica, fonológica: beija-flor, guarda-chuva, cachorro-quente, etc.; já
na aglutinação, como o próprio nome diz, os constituintes, ao se unirem, perdem
fonemas (letras), sílabas: aguardente ( água+ardente ), viandante ( via+andante), etc.

c) Palavras compostas por justaposição sem elemento de ligação.

É elevado o número de palavras compostas que apresentam elemento de ligação: pé de


moleque; olho de sogra, ele é um maria vai com as outras, pau para toda obra, chove e
não molha, pôr de sol, mula sem cabeça, calcanhar de aquiles; comum de dois, general
de divisão, etc.

Mandava o Formulário Ortográfico de 1943 grafar com hífen tais palavras. O Acordo
de 1990 aboliu essa exigência, vindo a simplificar consideravelmente o emprego do
traço de união nesse caso. Acabaram-se, por exemplo, divergências como as que
existiam antes do Acordo:
fim-de-semana (Portugal) fim de semana (Brasil)
caminho-de-ferro (Portugal) estrada de ferro (Brasil)
fogos-de-artifício (Portugal) fogos de artifício (Brasil)
dona-de-casa (Aurélio) dona de casa (Houaiss)
café-da-manhã (Houaiss) café da manhã (registro mais comum)

Acabaram-se também as dúvidas, as hesitações, as perplexidades quanto a esse


particular, suscitadas pelo Formulário: carro de combate (tanque) e carro de boi
grafavam-se com e sem hífen, respectivamente.

É de se registrar, todavia, nesta questão, que o hífen permanece nos compostos que
designam espécies botânicas, zoológicas e áreas afins, estejam ou não seus constituintes
ligados por preposição ou outro elemento: andorinha-do-mar, bem-me-quer, fava-de-
santo-inácio, lesma-do-mar, feijão-cabeludo-da-índia, feijão-de-olho-preto, feijão-rei-
dos-come-se-tudo, etc. Permanece igualmente, como exceção, nas palavras água-de-
colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à
queima-roupa e em compostos entre cujos elementos há o emprego do apóstrofo, como
em mãe-d’água.

d) Compostos de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal

Essa passagem da regra do emprego do tracinho diz respeito às diferentes formações de


palavras compostas, assim sistematizadas:

1. Substantivo + substantivo: decreto-lei, cirurgião-dentista, etc.

Nesse caso, é importante sublinhar que muitas vezes o segundo elemento limita a
significação do primeiro, expressando idéia de semelhança, finalidade, forma, espécie,
função, conforme os seguintes exemplos: auxílio–doença, licença–maternidade, vale-
refeição, vale–transporte, navio-escola, cidade-satélite, etc.

Vale ressaltar também que não se deve confundir com expressões em que um dos
elementos é adjetivo (ou um substantivo em função de adjetivo), que mantêm seu
sentido literal, como é o caso de diretor comercial, professor adjunto, professor horista,
professor orientador, secretário nacional, secretário executivo, etc.

2. Substantivo + adjetivo: guarda-noturno, etc.

Em relação a esse tipo de formação não se pode esquecer compostos que indicam
função, divisão ou cargo, em que o segundo elemento é o adjetivo geral: cônsul-geral,
procuradoria-geral, secretário-geral, etc. e que não se deve confundir com outros casos
do tipo assembleia geral, reunião geral, ensaio geral, etc.

3. Adjetivo + substantivo: alto-relevo, etc.

4. Forma verbal + substantivo: guarda-roupa, porta-estandarte, etc.

5. Adjetivo + adjetivo: amarelo-ouro, azul-celeste, greco-latino, etc.


6. Numeral + substantivo: quando indicam função, posto, cargo: primeiro-ministro,
primeiro-tenente, etc.

7. Advérbio + adjetivo: meio-morto, etc.

e) Unidade sintagmática e semântica

O hífen sinaliza a aderência semântica, isto é, que a palavra é composta, formada, como
já se mencionou, por dois ou mais constituintes que se juntam para estruturarem uma
ÚNICA UNIDADE LEXICAL (com entrada no dicionário), passando a denotar,
mediante essa associação, um único referente. Os compostos formam, pois, um bloco
único.

No entanto, ao lado das palavras compostas existem também as locuções, que são
agrupamentos, sequências de duas ou mais palavras que igualmente funcionam em
blocos, sem constituírem uma única unidade lexical e semântica. Na escrita, o hífen, em
princípio, distingue essas duas realidades linguísticas.

Observe o exemplo hipotético do título de um livro O Dedo Duro. Não existisse o hífen
para diferenciar sequências, o título seria ambíguo: tratar-se-ia de um dedo que está
duro ou de um delator? O emprego ou não do hífen desambiguaria o enunciado: com
hífen indicaria o delator, uma palavra composta; sem, que o dedo estaria duro, uma
locução.

Acontece, no entanto, que a distinção entre palavra composta e locução é extremamente


complexa muitas vezes, principalmente quando se trata de sequências
substantivo+de+substantivo (fim de semana, dona de casa, etc.) e, no caso presente, de
substantivo+adjetivo, uma vez que seus limites são tênues.

Não é sem razão, pois, que a linguística moderna (e mais ainda a gramática tradicional)
deixem a desejar quanto a um esclarecimento definitivo ou satisfatório acerca do
assunto. Não é sem razão que lexicógrafos, professores, estudiosos divirjam, portanto,
quanto ao emprego ou não do sinal diacrítico em muitos casos. De se mencionar ainda a
contradição: certas palavras compostas sem e locuções com hífen.
Levem-se em conta os exemplos para melhor ilustrar a questão:

(1) amor livre


amor materno

(2) ventre inchado


ventre livre

(3) guerra atômica


guerra fria

(4) conta-corrente
conta bancária

Trata-se de duas sequências formadas por substantivo+adjetivo. Em termos estruturais


seriam idênticas? São palavras compostas? Locuções? Uma é palavra composta e a
outra é uma locução? Alguma delas formaria uma unidade sintagmática e semântica?
Hífen onde?

O que está em jogo aqui, insista-se, é a distinção entre palavra composta (que possui
unidade semântica e, portanto, seus elementos perdem mais ou menos o sentido
individual em proveito de uma sentido global, grupal, muitas vezes figurado); e locução
(que não forma um todo com perfeita unidade semântica, pois seus elementos
associados preservam seu sentido individual). E, como já referido, o principio geral do
emprego do hífen é marcar com o sinal diacrítico só as palavras compostas, não as
locuções (embora, deixe-se bem claro, isso nem sempre aconteça na prática).

A dificuldade se torna ainda maior por parte do falante que, por sua intuição linguística,
não percebe essa diferença nas sequências a seguir, citadas como exemplo:

carro-pipa x carro fúnebre


carro-forte x carro esporte
diretor-geral x diretor comercial
carta-bomba x carta circular
cirurgião-dentista x professor doutor

É neste particular, portanto, que reside hoje em dia a maior dificuldade no que diz
respeito ao emprego do hífen.

A tentativa de acordo ortográfico levada a cabo em 1986, para fugir a essa dificuldade,
estabeleceu que (a) as palavras compostas com flexão no primeiro elemento ou ligadas
por preposição ou artigo escrever-se-iam sem aglutinação e sem hífen (amor perfeito,
guarda noturno, couve flor, médico cirurgião); b) os compostos formados por
elementos sem flexão interna escrever-se-iam aglutinadamente (portoalegrense,
sulafricano, afrolusobrasileiro).

Esse acordo, no entanto, por ter sido considerado radical nos dois lados do Atlântico
(haja vista também que eliminava os acentos nas proparoxítonas e paroxítonas ), morreu
na origem.

f) Manutenção do acento próprio

A manutenção do acento nos constituintes é característica das palavras compostas. Por


exemplo, em couves-flores, os dois constituintes mantêm a acentuação (tônica); em
médico-cirúrgico também e, nesse caso, recebem acento gráfico; já em mandachuva, em
que se perdeu a noção de composição, ocorre apenas um acento.

g) Redução do primeiro elemento.

A redução do primeiro elemento ocorre em pouquíssimas palavras compostas, a


exemplo de bel-prazer, és-sueste, su-sueste.
1
Os sufixos -açu e -guaçu significam grande, e -mirim significa pequeno.
2
Soto- (sota-) prefixo que significa posição inferior, subordinação: sota-vento, soto-pôr,
soto-posto.
Vizo- prefixo que significa vice- usado no português antigo.

3. CONCLUSÃO

Este artigo é uma primeira tentativa de desatar o nó do hífen ao procurar trazer alguns
elementos para explicar a má fama desse tracinho e de nossos “legisladores“, que dele
se ocupam no labirinto oficial das normas e dos acordos ortográficos. Não é para
menos: é questão complicada essa do hífen, o vilão das reformas, da normatização
ortográfica. Mas explicável: Como distinguir locução de composição? Que é unidade
semântica? Que é todo semântico? Etecétera. E tem mais: se simplifica muito (como no
Acordo de 1986) é porque simplifica muito, tacham o acordo de radical, que vai contra a
tradição, que as novas formas gráficas - couvesflores, sulafricano, etc. - ferem a vista...
Se simplifica pouco é porque simplifica pouco, é um acordinho, acordo pífio. Em
suma...

Quanto ao emprego do hífen, há que se distinguir as seguintes situações: - o emprego


com prefixos, elementos prefixados e sufixos: a) há um pequeno número de prefixos e
sufixos com os quais sempre se emprega o sinal; b) há um pequeno conjunto de regras
que mandam empregá-lo em determinados contextos. Nesses dois casos, o Acordo 1990
trouxe simplificação.

- o emprego do hífen em palavras compostas: a) há casos que não oferecem dificuldade,


pois os elementos da palavra composta hifenizada têm o sentido alterado, não analisável
na base de seus componentes individualizados (mesa-redonda, cachorro-quente, etc.); b)
há outros, porém, em que a distinção entre palavra composta e locução (com hífen/sem
hífen) se torna difícil, pois nem mesmo os dicionaristas se entendem. Nesse caso, é
melhor sempre consultar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da
Academia Brasileira de Letras...

Fugia da competência dos autores e do propósito do artigo entrar na discussão do que é


uma palavra, um composto, uma locução. Nossas gramáticas não esclarecem
satisfatoriamente os limites entre os dois processos, nem mesmo as abordagens feitas no
âmbito da linguística moderna. Fica, no entanto, como sugestão de pesquisa preliminar
na área as referências feitas na bibliografia.

Para finalizar, consideramos oportuno apresentar um quadro resumo acerca do emprego


do hífen com (1) prefixos, elementos prefixados e sufixos e com (2) palavras
compostas.

I. Hífen com prefixos, elementos prefixados e sufixos

Regra 1- Casos que sempre exigem hífen


a) além-, aquém-, bem-, recém-, sem-, grã-, grão-, ex-, vice-, sota-, soto-, vizo-, pré-
(tônico), pós-(tônico), pró-(tônico), -açu, -guaçu, -mirim.
b) As formações com prefixos e elementos prefixados, quando o segundo elemento
inicia com h (exceto com des- e in-, pois nessas formações o segundo elemento perde
o h inicial como em desumano e inábil).

Regra 2 Casos que exigem hífen somente em certos contextos

a) Nas formações em que o prefixo ou elemento prefixado termina na mesma letra


com que se inicia o segundo elemento.

b) Nas formações com circum- e pan-, quando o segundo elemento começa por vogal,
m, n, b ou p, além de h.

c) Nas formações de substantivos e adjetivos com mal, quando combinado com


elementos iniciados por vogal ou h.

d) Nas formações com ab-, ob-, sob-, sub-, quando combinados com elementos
iniciados por b, h ou r.

e) Nas formações com ad-, quando combinado com elementos iniciados por d, h ou r.

II. Hífen com palavras compostas

Emprega-se o hífen nas palavras compostas (ou seja, nas palavras que exprimem um
conceito novo, independente do sentido individual de seus componentes), quando elas
não contêm elemento de ligação.

BIBLIOGRAFIA

CÂMARA JR. J.M. Dicionário de lingüística e gramática. 21 ed. Petrópolis:


Vozes,1972

BECHARA, E. Moderna gramática portuguesa. 37 ed. Rio de Janeiro: Lucerna,


2001

CUNHA,C & CINTRA.L.L. Nova gramática do português contemporâneo, 2 ed.


Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1985

LUFT, Celso Pedro. Novo guia ortográfico. Porto Alegre: Globo, 1973

------, Moderna gramática brasileira. 3 ed. Porto Alegre: Globo, 1979

MONTEIRO, L. Morfologia portuguesa. 4 ed. Campinas: Pontes, 2002


SANDDMANN,A.j. O que é um composto. In : D.E.L.T,A .São Paulo: EDUC,
1990,n 1 v 6. p.01-18

Vocabulário ortográfico da língua portuguesa. Academia Brasileira de Letras. 5 ed.


São Paulo: Global, 2009. brigado a você.