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O Programa de Saúde da Família

OPINIÃO OPINION
e a Puericultura*

Family Health Care Program


and child health care

Luiz Antonio Del Ciampo 1


Rubens Garcia Ricco 1
Julio César Daneluzzi 1
Ieda Regina Lopes Del Ciampo 2
Ivan Savioli Ferraz 1
Carlos Alberto Nogueira de Almeida 2

Abstract This paper suggests a proposal of Child Resumo O trabalho apresenta uma proposta de
Health Care, to children and adolescents, to be atendimento em Puericultura, para crianças e
developed in the Family Health Care Programs. adolescentes, que pode ser desenvolvida no con-
Key words Primary care, Child health, Family texto das atividades dos Programas de Medicina
health, Family practice, Primary child care de Família e Comunidade.
Palavras-chave Atenção primária em saúde,
Puericultura, Medicina de família e comunidade,
Programa de Saúde da Família, Atenção primá-
ria em pediatria

* Trabalho desenvolvido
com o apoio da Faepa –
Fundação de Amparo
ao Ensino, Pesquisa
e Assistência do Hospital
das Clínicas da Faculdade
de Medicina de Ribeirão
Preto da Universidade
de São Paulo.
1 Departamento de
Puericultura e Pediatria,
Faculdade de Medicina
de Ribeirão Preto,
Universidade de São Paulo.
Av. dos Bandeirantes 3.900,
Monte Alegre, 14049-900
Ribeirão Preto SP.
delciamp@fmrp.usp.br
2 Curso de Medicina,
Universidade
de Ribeirão Preto.
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Del Ciampo, L. A. et al.

Introdução A proposta de atuação

Os serviços de atendimento à saúde são estru- Apoiado nesses preceitos e procurando refletir
turados pela sociedade de modo a atender dois experiências realizadas em outros países, é im-
objetivos principais: plantado no Brasil, em 1994, o Programa de Saú-
1) a otimização da saúde da população por in- de da Família (PSF), com a proposta de modi-
termédio do conhecimento atualizado das cau- ficar e expandir o acesso da população aos ser-
sas e manejo das doenças, visando maximizar o viços de saúde, tornando-se a porta de entrada
bem-estar físico, emocional e social; do sistema vigente até então. Segundo o Minis-
2) a redução das diferenças de oportunidades tério da Saúde5, trata-se de uma estratégia que
entre os distintos grupos populacionais, no que possibilita a integração e promove a organização
diz respeito ao acesso aos serviços de saúde1. das atividades em um território definido, com o
Dentre os diferentes modelos de serviços de propósito de propiciar o enfrentamento e a reso-
saúde, pode-se destacar aqueles que se incum- lução dos problemas identificados. Atuando sob
bem de oferecer a chamada Atenção Básica à a luz dos princípios de integralidade, hierar-
Saúde, cujo trabalho utiliza, fundamentalmen- quização, territorialização e trabalho em equi-
te, profissionais com grande base de conheci- pe multiprofissional, tem como uma de suas
mento, atuando com uma visão interdiscipli- principais metas a redução das desigualdades
nar, com o objetivo de aumentar o índice de re- regionais por meio de intervenções personali-
solução dos problemas, sem causar elevação zadas e individualizadas2.
dos custos2. A atenção primária à saúde ocupa, Como estratégia diretamente relacionada à
desde a 30a Reunião Anual da Assembléia Mun- atenção primária, o PSF deve procurar com-
dial da Saúde, realizada em 1977, lugar de des- preender a saúde das pessoas no contexto dos
taque entre as ações de saúde empreendidas seus diversos determinantes, quer seja no am-
nas últimas três décadas em todo o mundo. Em biente físico da comunidade, quer seja nas rela-
1978, após a Conferência de Alma-Ata, ela foi ções sociais, alcançando muito além do simples
reconhecida como uma ação integral e perma- enfoque sobre a enfermidade dos cidadãos. A
nente que deve compor os sistemas de saúde família, além do indivíduo, passa a ser objeto
bem estruturados e comprometidos com a qua- de atenção no ambiente onde vive, ampliando-
lidade de vida dos cidadãos, tratando simulta- se a sua compreensão diante do processo saú-
neamente o indivíduo e a sua comunidade. de/doença. Em 2004, o País contava com 17.608
A Atenção Básica é desenvolvida por meio equipes, que atuavam em 49.276 municípios e
de um conjunto de ações práticas que reque- cobriam cerca de 57 milhões de habitantes. Es-
rem, para sua implementação, grande plurali- te número vem crescendo continuamente6.
dade de atitudes, habilidades e conhecimentos Estimativas feitas a partir do censo de 2000
técnicos e científicos de relativa baixa comple- apontam que a população brasileira conta,
xidade. Pode ser entendida como o nível de en- atualmente, com mais de 178 milhões de habi-
trada no sistema de saúde, fornecendo atenção tantes. Destes, cerca de 40% (mais de 70 mi-
sobre a pessoa para todas as condições, além de lhões) encontram-se na faixa etária que vai do
coordenar e integrar a atenção obtida em outro nascimento aos 19 anos, sendo 33,6 milhões de
lugar ou por terceiros. Representa a base do crianças até 10 anos de idade e 36,4 milhões de
trabalho de todos os outros níveis do sistema adolescentes7.
de saúde e atua de modo a oferecer ações de Os programas estruturados para oferecer
promoção de saúde, prevenção de doenças, tra- Atenção Básica à saúde da criança têm como
tamento e reabilitação. A Atenção Básica enfo- metas principais promoção da saúde, preven-
ca os problemas de saúde mais prevalentes de ção de doenças, tratamento e reabilitação. Ne-
cada grupo social. Suas ações visam a modifi- cessitam da efetiva participação do indivíduo e
car as condições de vida da comunidade, em da sociedade, pressupondo a integração de di-
função do controle de fatores sociais e ambien- versas classes profissionais que atuam em equi-
tais, além de hábitos e estilos de vida, com o pe, devidamente calcados nos saberes interdis-
propósito de estimular atitudes saudáveis e eli- ciplinares e apoiados pelos diferentes níveis de
minar riscos1,3,4. referência do sistema de saúde. Promover e re-
cuperar a saúde e o bem-estar da criança têm
sido, há muito tempo, prioridade dentro da as-
sistência à saúde infantil, a fim de garantir o
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crescimento e o desenvolvimento adequados em várias décadas de atuação na área de aten-
dos menores nos aspectos físico, emocional e dimento de Puericultura e atenção primária em
social. Desta forma asseguramos o pleno de- Pediatria, este texto pretende divulgar a pro-
senvolvimento do potencial genético da crian- posta de um programa de atendimento em Pue-
ça, que levará a um adulto mais saudável, capaz ricultura que possa ser incorporado às ativida-
e feliz possível, bem como procuramos reduzir des do Programa de Saúde da Família.
as elevadas taxas de morbidade e mortalidade Este Programa de Puericultura (PPUE) de-
ainda verificadas em diversas populações8, 9, 10. ve se estender a toda a população na faixa etá-
A puericultura, área da pediatria voltada ria que vai do nascimento aos 20 anos incom-
principalmente para os aspectos de prevenção pletos, com seguimento longitudinal e distinto
e de promoção da saúde, atua no sentido de entre as diferentes idades, e ser realizado por
manter a criança saudável para garantir seu ple- meio de atendimento ambulatorial individua-
no desenvolvimento, de modo que atinja a vida lizado, visitas domiciliares e participação em
adulta sem influências desfavoráveis e proble- grupos de educação e socialização14. Indepen-
mas trazidos da infância. Suas ações priorizam dentemente da faixa etária atendida, seus obje-
a saúde em vez da doença. Seus objetivos bási- tivos gerais são:
cos contemplam a promoção da saúde infantil, a) vigiar o crescimento físico e o desenvolvi-
prevenção de doenças e educação da criança e mento neuropsicomotor e intelectual;
de seus familiares, por meio de orientações an- b) ampliar a cobertura vacinal;
tecipatórias aos riscos de agravos à saúde, po- c) promover a educação alimentar e nutricional;
dendo oferecer medidas preventivas mais efica- d) promover a segurança e a prevenção de aci-
zes. Para ser desenvolvida em sua plenitude, dentes;
deve conhecer e compreender a criança em seu e) promover a prevenção de lesões intencio-
ambiente familiar e social, além de suas rela- nais, principalmente no ambiente doméstico;
ções e interação com o contexto socioeconômi- f) estimular a promoção da saúde e a preven-
co, histórico, político e cultural em que está in- ção das doenças mais comuns na comunidade;
serida. Isto se torna fundamental pois as ações g) promover a higiene física e mental e a prá-
médicas, além de serem dirigidas à criança, re- tica de atividades de lazer adequadas às faixas
fletem-se sobre o seu meio social, a começar pe- etárias;
la família. Sem o envolvimento desta, as ações h) propiciar a socialização, estimulação cultu-
que visem às crianças não terão sucesso11. ral e adaptação da criança e do adolescente em
O profissional médico que pratica a Pueri- seu meio social.
cultura, por meio de revisões periódicas, deve De acordo com as diferentes faixas etárias
desempenhar seu trabalho com ações não ape- dos pacientes, o PPUE observa algumas parti-
nas clínicas, mas com uma concepção epide- cularidades:
miológica e social, relacionando-as intima- a) O recém-nascido (RN): suas principais ca-
mente com o complexo saúde-indivíduo-famí- racterísticas são a completa dependência do
lia-comunidade3. O puericultor, como é tam- adulto para sobrevivência, grande imaturidade
bém chamado este médico, deve oferecer apoio e incapacidade de controlar impulsos e emo-
constante à família, auxiliando na minimiza- ções. Trata-se de uma criança que apresenta
ção dos efeitos sociais e emocionais das doen- maiores riscos e necessita de cuidados mais in-
ças sobre a criança e seus familiares12. tensos. Portanto, durante a primeira semana de
Dentre os vários papéis desempenhados vida, após a alta hospitalar, deverá receber visi-
pelo puericultor destacam-se o de orientador e ta domiciliar de uma enfermeira, auxiliar de
educador para a saúde, cujo trabalho se dire- enfermagem ou agente comunitário de saúde.
ciona à mãe e à família. Esta, por ser o núcleo Os objetivos desta visita são proporcionar maior
principal dos fatores ambientais e psicossociais, contato entre o binômio mãe-filho e, por parte
e aquela, tendo fortalecido o vínculo com o fi- da equipe de Saúde da Família, identificar dú-
lho e mantendo sua auto-estima elevada, po- vidas e dificuldades da puérpera em desempe-
dem assegurar os melhores cuidados à criança. nhar o papel de mãe, oferecer orientações so-
Citando o inesquecível professor Eduardo Mar- bre os cuidados básicos ao recém-nascido e ava-
condes, podemos afirmar que o puericultor não liar a adaptação da criança ao meio extra-ute-
atende crianças e sim, famílias13. rino. É uma excelente oportunidade para forta-
Diante das considerações apresentadas e da lecer a implantação e estimular a prática do alei-
experiência profissional dos autores, adquirida tamento materno. Ao término dessa visita, já
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será marcada a primeira consulta médica do para receber alfabetização e realizar operações
RN para sua matrícula no programa; concretas. Nesta fase, a criança sofre muitas in-
b) O lactente: caracteriza-se por ser uma crian- fluências externas e é insuficiente e inadequa-
ça que se encontra em um período de rápido damente vigiada pelos adultos. O programa in-
crescimento pôndero-estatural e desenvolvi- dica consultas médicas semestrais, entre sete e
mento neuromotor, que evolui rapidamente de 10 anos de idade;
uma condição de vida dependente para uma e) A adolescência: inicia-se aos 10 anos, carac-
vida de relacionamento com os pais e com o terizando-se por significativas e intensas mu-
ambiente familiar, ganhando autonomia pro- danças físicas e emocionais, que visam a prepa-
gressivamente. A criança adquire maior movi- rar o indivíduo para a vida adulta, definindo
mentação voluntária, amplia seu espaço social sua identidade e integração social. Neste perío-
e é muito estimulada pelo ambiente. Nesta oca- do, ocorre a maturidade física e reprodutiva,
sião ocorrem ainda o início da construção da identidade sexual e psíquica e independência
inteligência e a fase oral do desenvolvimento da emocional. O adolescente necessita de auto-afir-
personalidade. As crianças nesta faixa etária, mação, pois ainda é inexperiente e apresenta
que se estende dos 28 dias aos dois anos de vi- espírito desafiador e aventureiro. A partir dos 10
da, serão acompanhadas por consultas médicas anos, as consultas são semestrais até os 20 anos
mensais, durante o primeiro semestre de vida, de idade. Atenção especial deverá ser dada para
bimestrais, no segundo semestre, e trimestrais, o estadiamento puberal que ocorre durante es-
entre 12 e 24 meses de idade; te período, avaliando-se a maturidade sexual.
c) O pré-escolar: período que se estende dos
dois aos sete anos de idade, caracterizado por
desaceleração do crescimento e menores neces- Considerações finais
sidades nutricionais do que na fase anterior.
Com a especialização do desenvolvimento neu- Finalmente, a propósito das considerações dis-
romotor, a criança vai adquirindo autonomia, cutidas acima, podemos recordar o verso do
ampliando o seu ambiente social e diminuindo poeta inglês W. Wordsworth (1770-1850) “a
a dependência dos adultos, que se torna mais criança é o pai do homem”, que consegue aqui-
emocional e intelectual do que física. Sua evo- latar a importância de um programa de Pueri-
lução sócio-adaptativa e cognitiva permite o cultura eficiente e contínuo, desde o nascimen-
início do processo de aprendizagem formal, em- to (ou até mesmo antes dele), na projeção do
bora ainda tenha pequena capacidade de pre- adulto mais saudável e feliz, pleno de suas po-
ver riscos e de reconhecer o perigo. O objetivo tencialidades e cidadania. De tal forma, esta-
é obter um candidato fisicamente forte, men- mos tão convictos de sua importância que não
talmente capaz e socialmente ajustado para en- hesitamos afirmar que a Atenção Integral à
trar na escola. As crianças serão avaliadas em Saúde da Criança e do Adolescente somente se
consultas médicas semestrais entre dois e sete plenifica ética e tecnicamente quando inclui,
anos; nos papéis de todos os membro da equipe que
d) O escolar: caracteriza-se por ser um perío- dela participam, a doutrina e a prática da Pue-
do de crescimento estável, quando o sistema ricultura.
nervoso central está se completando e pronto

Colaboradores

Os autores participaram igualmente de todas as etapas da


elaboração do artigo.
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Referências

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ponível em: http://www.ibge.gov.br/.
Artigo apresentado em 18/10/2005
Aprovado em 25/10/2005
Versão final apresentada em 30/11/2005