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“Boi Verde”: o Brasil e o comércio internacional de carne bovina

Osvaldo Aly Junior1


Pedro Ramos 2

Resumo:
O presente artigo aborda as implicações da produção do chamado “boi verde”, tida como
ecológica. É feito um paralelo com a problemática ambiental, a chamada globalização e a questão
agrária brasileira para indagar se, de fato, é possível qualificar de ambiental e sustentável uma
atividade tida como impactante. O texto destaca a contradição que representa a certificação social
e ambiental para esta atividade uma vez que ela retira a vegetação, imobiliza grandes extensões
de terra e gera poucos empregos.

Palavras chave: boi verde, meio ambiente e questão agrária.

Introdução

No Brasil, a discussão sobre a produtividade e eficiência da pecuária bovina de corte


associa a lotação de animais por hectare com a idade de abate. Isso leva a que as avaliações sobre
esta atividade estivessem associadas aos latifúndios improdutivos, que se caracterizam pelos
baixos índices de produtividade.
Na criação de bovinos para carne até bem recentemente se considerava que a sua
modernização deveria buscar o aumento da lotação de animais por hectare fosse pela via do
confinamento, da adição de forrageiras como suplementação alimentar, ou pela adoção de
técnicas como, por exemplo, o sistema voison que, piqueteando o pasto, associa a rotatividade
dos animais com uma alta lotação por área.
No presente artigo busca-se abordar as mudanças em curso na produção de carne bovina
de corte na Europa fundamentalmente, nos EUA e no Brasil. Neste último com base na produção
à pasto, em grandes propriedades, logrou elevar os seus índices de produtividade (garantindo o
aumento do número de cabeças por hectare e a diminuição da idade de abate dos animais).
A partir dessa discussão sobre as inovações na pecuária bovina de corte, o presente
trabalho pretende analisar a relação deste segmento com o mercado internacional de carnes e de
como ele rebate na resolução (ou não) da questão agrária brasileira.
Essas mudanças que vêm ocorrendo no mercado mundial de carne bovina e que rebatem
sobre os sistemas de produção no Brasil estão fortemente influenciadas pela crise dos sistemas de
produção principalmente na Europa, e agora também na região do Nafta, em função da
ocorrência de doenças como a “vaca louca” (ou encefalopatia espongiforme bovina) e a febre
aftosa.
Enquanto nos Estados Unidos as restrições a criação de bovinos se davam, até o presente
ano de 2004, pelos impactos ambientais ocasionados, principalmente aqueles que afetam os

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engenheiro agrônomo; mestre em ciência ambiental pelo Procam-USP; analista agrário junto ao INCRA-
SP; alyjunior@itelefonica.com.br
2
economista, professor doutor do Instituto de Economia da Unicamp, peramos@unicamp.br
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recursos hídricos, devido a produção ser realizada com base no confinamento em grandes
criatórios.
No caso brasileiro, a associação entre a criação de bovinos e a questão ambiental tem um
rebate na questão agrária. Isso acontece por que se respalda uma atividade tida como impactante
sobre o meio ambiente, por se associar ao desmatamento das florestas tropicais, e por necessitar
de pouca mão-de-obra.(Folha de São Paulo, 2004)
Dessa forma a moderna pecuária de corte feitas em grandes áreas (de forma extensiva)
porém, com a redução da idade de abate e aumento da lotação de animais nas pastagens (de
forma intensiva) está ganhando uma nova dinâmica e uma certificação ambiental e sanitária.
Esta nova situação contribui para agravar a resolução de um dos principais elementos da
questão agrária brasileira: a inclusão econômica e social da mão-de-obra excedente.

Meio ambiente, concentração fundiária e globalização

A discussão sobre os sistemas de produção de carne bovina de corte está relacionada com
a forma de como ocorreu a implantação portuguesa na América Latina, através das grandes
unidades de exploração, dada a abundância de terras e a quase inexistência de mão-de-obra. E foi
por este meio que se constitui a teia de interesses e de poder sobre o qual nas fases subseqüentes
da história do País girariam as decisões sobre o desenvolvimento nacional, principalmente do
meio rural. (Furtado, 1972)
Não é possível falar de pecuária bovina de corte no Brasil se não se fala da grande
propriedade e não se pode falar de desenvolvimento ambientalmente sustentável se não se
enfrenta o debate sobre os impactos que a produção de carne bovina ocasiona sobre o meio
ambiente.
No caso brasileiro, e de outros países subdesenvolvidos, esta atividade está diretamente
relacionada com a destruição das florestas tropicais (principalmente a o Centro-Oeste e a região
Amazônica), chamada por alguns de “conexão hamburguer”, e com a valorização imobiliária
facilitada pela pecuária bovina extensiva, já que ela é pouco intensiva em capital e garante a
ocupação da área.
O crescimento das exportações de carne bovina a partir da disseminação da doença da
vaca louca pela Europa abriu para o Brasil a possibilidade da produção e exportação de carne
certificada avalizada por Ong’s e outras certificadoras ambientais.
Novaes, citando o relatório elaborado por Mark Muller para o Instituto para a Agricultura
e Políticas Comerciais, dos Estados Unidos, afirma que para o caso da soja, será ganhador no
aumento da produção o país que estiver disposto a suportar os baixos preços pagos pelo produto e
um maior grau de dano ambiental, podendo amenizar essa situação repassando esses custos para
os seus contribuintes. Essa afirmação permite traçar um paralelo para outras commodities como a
carne bovina, cujo preço no mercado internacional é declinante. (Novaes, 2000)
Este autor, revela um meio pelo qual a globalização impacta sobre a agricultura e o meio
ambiente, é o caso de uma nova divisão internacional do trabalho que está se esboçando. A idéia
de reconstruir plataformas exportadoras de produtos agrícolas empurra países como Austrália,
Brasil e Argentina na direção de retornar ao que se chamava antigamente de um modelo primário
exportador e arcar com os custos ambientais dessa condição. (Graziano da Silva, 1998; Furtado,
1992)
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Esse deslocamento da produção potencialmente impactante sobre o meio ambiente, a


desvalorização do real ante o dólar a partir de 1998 e, o aumento do preço internacional de
algumas commodities contribuíram para a elevação do preço da terra.
Essa situação re-introduz a problemática da distribuição fundiária, uma vez que as
políticas de fomento ao aumento da exportação de produtos agrícolas e de conservação
ambiental, somadas às mudanças ocorridas na Constituição de 1988, tendem a congelar ou até
acentuar as desigualdades fundiárias.
Segundo Graziano da Silva, ao adotar políticas preservacionistas, países que possuem
grandes desigualdades de distribuição fundiária tendem a exacerbar tais desigualdades e, no caso
do Brasil, isso já é um caso muito complicado. Quando se agregam, por pressões ambientais, aos
direitos de propriedades, as questões relativas ao uso dos recursos naturais renováveis, ou não,
complica-se muito a questão dos direitos de produção. (Graziano da Silva, 1998)
Estes deixam de ser universais, e não são mais as bases de legitimidade social da
propriedade, e passam a ser vistos como em competição com o direito de não produzir. Isto
dificulta muito a situação, pois, basear uma política agrária no direito de produzir é uma coisa,
mas assentá-la na base do direito de produzir e de não produzir é outra coisa muito mais
complicada.
Ainda, segundo esse autor, o conjunto dos impactos da globalização sobre o meio
ambiente e do meio ambiente sobre a atividade agrícola mostra que estamos a caminho de uma
nova fase do desenvolvimento agrícola, na qual a relevância aspectos como a preservação
ambiental e a saúde do consumidor emergem como elementos centrais. (Graziano da Silva, 1998)
Infelizmente, nada das preocupações específicas que marcam a agricultura e a questão
ecológica dos países do Terceiro Mundo se faz presente nesse contexto. Quer dizer, em nenhum
momento as questões da distribuição da terra, da renda, da riqueza e do emprego aparecem neste
cenário globalizado, problemas esses que já deviam ter sido resolvidos. (Graziano da Silva, 1998)
Nada aponta, nas novas formas de regulação que emergem das economias globalizadas,
para o aparecimento de novas formas de controle público-privado, para a idéia de uma sociedade
agrária mais eqüitativa, mais humana, de melhor distribuição de renda. (Graziano da Silva, 1998)
Ao contrário as políticas de certificação de qualidade também são políticas
agroambientais fortemente discriminatórias. A tendência predominante é que elas decidirão quem
pode e quem não pode produzir determinado produto. Elas criam barreiras à entrada em
determinados mercados, ao contrário do que ocorreu com a revolução verde as certificações estão
reintroduzindo as barreiras, às vezes altamente excludentes. (Graziano da Silva, 1998)
Tomando como elemento de análise os escritos de Caio Prado Júnior sobre a questão
agrária brasileira, é possível afirmar que a globalização expõe as fragilidades do processo de
construção da nação brasileira:
- falta de condições com relação aos níveis mínimos de condições materiais e espirituais
necessários para a massa da população;
- falta de integração da economia num conjunto em que se articulam a produção e o
consumo, dada a fragilidade da produção voltada para a exportação e das formas
assumidas pelos setores voltados para o mercado interno e;
- a instabilidade e a falta de continuidade da economia no tempo e no espaço: dependente
da exportação, a economia brasileira oscilava (e continua a oscilar) de acordo com as
condições do mercado internacional, assumindo um caráter cíclico. (Prado Jr, 1977)
Nos últimos 30 anos, as transformações que ocorreram no desenvolvimento do país não
modificaram o essencial de nossa economia que ainda apresenta remanescentes de um passado
longínquo. O desenvolvimento brasileiro depende das possibilidades de se localizar estes
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remanescentes e de superá-los, para dar origem a uma nova etapa de desenvolvimento,


diferenciada quantitativamente e qualitativamente. (Prado Jr, 1977)
Os remanescentes, segundo Prado Jr, encontram-se no campo, na miséria da massa de
trabalhadores rurais e pequenos produtores. Não lhes é dada (ou é retirada) nenhuma base
material que lhes permita melhorias. O futuro depende do interior do país, da massa da população
rural que migra para as cidades. É muito grave o efeito do processo de inchamento das cidades e
somente a reforma agrária poder ser a terapêutica para seus efeitos desastrosos. (Prado Jr, 1977)
Uma reforma agrária que opere em favor da massa da população rural e lhe assegure um
nível adequado e pelo menos decente de subsistência. Ela consistiria na eliminação do monopólio
da propriedade rural e, portanto, não pode ser relegada aos interesses do jogo de mercado. (Prado
Jr, 1977)
O autor justifica sua afirmação dizendo que o progresso tecnológico e quantitativo não é
suficiente, a política de modernização não viabiliza a mudança nas condições de vida da massa
pobre do meio rural (bóias frias e agricultores pobres) que migrou para as cidades. A
redistribuição de terras elevaria a condição de vida desse público, representando uma alternativa
de ocupações e que irá rebater no mercado de trabalho, no sentido de contribuir para elevar os
níveis salariais. (Prado Jr, 1977)
Também Furtado vê na reforma agrária uma distribuição primária de renda, uma forma de
aumentar a quantidade de ativos nas mãos dos pobres e, também elevar a sua participação nos
benefícios do crescimento. Pois somente contando com sua força de trabalho, como ativo a
população pobre não tem como romper o ciclo da miséria. (Furtado, 1992)

O Brasil e o mercado mundial de carne bovina

O consumo mundial de carnes tem crescido continuamente desde 1980, porém, esse
aumento está mais relacionado com o consumo das carnes de frango e suínos. O consumo de
carne bovina tem aumentado muito lentamente no mundo como um todo, a exceção fica por
conta da Ásia. (IEL-Sebrae-CNA, 2000)
Em dezoito anos a produção mundial saltou de 45,5 milhões de toneladas, em 1980, para
53,7 milhões de toneladas, em 1997. Nesse mesmo período a produção de carne bovina na área
da União Européia caiu de 8,5 milhões de toneladas para 7,9 milhões de toneladas. Nos EUA, há
quase vinte anos a produção de carne bovina se encontra estagnada em 19 milhões de toneladas e
as exportações têm compensado a queda do consumo interno. (Gazeta Mercantil, 22/08/01; IEL-
Sebrae-CNA, 2000)
Existem duas características marcantes com relação ao consumo mundial de carne bovina.
A primeira diz respeito a uma mudança nos padrões alimentares por que tem passado a
sociedade, influenciada principalmente pelo crescimento da renda, pelas mudanças nos preços
relativos das carnes concorrentes (frango e suínos) e também, por uma preocupação crescente
com a saúde e, com a conservação do meio ambiente.
A segunda característica está diretamente relacionada à primeira e diz respeito à
estabilidade esperada no consumo de carne bovina no futuro. Efeitos compensatórios entre as
regiões desenvolvidas e as em desenvolvimento do mundo, explicam porque o consumo parece
ter atingido uma certa estabilidade. (IEL-Sebrae-CNA, 2000; Novaes, 2000; May, 1997)
Com referência a influência do preço, na opção entre adquirir carne bovina ou suas
substitutas, é importante destacar que este é um dos elementos mais importantes que influenciam
a demanda.
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Os preços da carne bovina, na segunda metade da década de 1980, tiveram um aumento


acentuado sofrendo a partir daí um processo de recuo, com uma alta no ano de 1994 e voltando a
cair nos anos 1995 e 1996. Esperava-se que a queda dos preços trouxesse maior competitividade
para a carne bovina, aumentando a sua participação no mercado.
Contudo, principalmente na Europa, a queda de preços não tem sido capaz de melhorar a
posição da carne bovina no mercado. De fato, a participação da carne bovina tem caído em razão
dos inúmeros problemas sanitários e ambientais que afetaram a imagem do produto (a vaca louca,
a contaminação da alimentação por dioxinas, a febre aftosa, poluição de rios e do lençol freático,
entre outras). (IEL-Sebrae-CNA, 2000; Gomes & Borba, 2001)
Nos EUA, a produção conjunta de carnes (suínos, aves e bovinos) tem crescido
significativamente e exercido pressão para baixar os preços da carne bovina. O aumento do custo
da alimentação dos bovinos, nesse país, tem reduzido as margens de lucro e forçado a uma
redução dos rebanhos de bovinos de corte, desde 1996, esse efeito é típico das fases de contração
dos ciclos, baixando os preços. (IEL-Sebrae-CNA, 2000)
Enquanto nos países desenvolvidos o cenário da produção e consumo de carne bovina é
de recuo, no brasileiro a situação é inversa. Entre os anos 1980 e 1997, a produção praticamente
dobrou, saindo da casa dos 2,8 milhões para 5,1 milhões de toneladas. Esse aumento de produção
de carne esteve baseado na melhoria do padrão genético do rebanho e no uso de novas práticas de
alimentação e manejo, que elevaram o peso médio das carcaças abatidas. É importante destacar
que este processo foi alavancado quase que exclusivamente a partir do mercado de consumo
interno, pelo aumento da renda e pela queda nos preços da carne, uma vez que o país ainda,
diante do tamanho de seu rebanho, é um pequeno participante no mercado internacional. (IEL-
Sebrae-CNA, 2000)
No período de 1980 à 1997 a participação brasileira no mercado internacional foi bastante
instável em função dos diversos planos econômicos, que afetaram diretamente o poder de compra
dos consumidores e consequentemente as exportações. Nos anos 1986, após o Plano Cruzado;
1990, no Plano Collor e; 1994 após a Plano Real, as exportações caíram drasticamente, em razão
do aumento do poder de compra e da maior demanda de carne no país. (IEL-Sebrae-CNA, 2000)
No setor de carne bovina a maioria das exportações tem como destino o mercado europeu
(principalmente Itália, Alemanha, Países Baixos, Reino Unido e Espanha), que em alguns anos
consomem 70% da carne in natura exportada, ficando em segundo lugar os países da América do
Norte (Estados Unidos e Canadá). No entanto, as importações americanas de carne vêm
crescendo, elas representaram 37%, em 1998, contra 22%, em 1993.(IEL-Sebrae-CNA, 2000)
Em 2003, o saldo registrado pela balança agrícola comercial cresceu 27%, em relação ao
ano de 2002. Os maiores destaques foram as carnes (bovina, suína e frango), o complexo soja
(grão, farelo e óleo) e os produtos florestais. (Gazeta Mercantil, 2004, 08/01)
A melhoria das condições de exportação da carne brasileira prejudicou o abastecimento
do mercado interno. Em 1999, por exemplo, o embarque de carne para o exterior estava estimado
em 560 mil toneladas, enquanto, em 1998, ele foi de 360 mil toneladas. Esse aumento nas
exportações significou uma menor oferta de carne no mercado interno e o aumento do seu custo
para o consumidor. (Gazeta Mercantil, 10/2000)
Os problemas sanitários na Europa também favoreceram os embarques de carne bovina. O
Brasil conquistou mercados antes abastecidos pelos europeus, que reduziram a sua participação
no comércio internacional após a proliferação da “vaca louca” e da febre aftosa. As vendas de
carne “in natura” e industrializada somaram US$ 4 bilhões, em 2003, de 48,7% em relação a
2002. (Agroanalysis, 2004, jan)
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Apesar do avanço da carne brasileira no mercado internacional, ela ainda sofre várias
restrições quanto a sua entrada nos países desenvolvidos: os Estados Unidos, o Japão e o Canadá
não importam carne in natura brasileira. A União Européia (UE) cobra uma tarifa de 12,8% sobre
o valor do produto. Com relação a carne bovina industrializada, os EUA cobram 29% sobre o
valor do produto, o Japão 25,9% e a U.E. cobra uma tarifa de US$ 2.200,00 por tonelada
importada. (Gazeta Mercantil, 11/09/2001)
Esse é um dos problemas que se buscam superar nas negociações levadas a cabo pelo país
em termos da sua adesão a alguns dos blocos econômicos (Alca ou Mercado Comum Europeu)
ou pela via das certificações sejam elas de caráter ambiental, pureza de raça, etc.

Boi verde e a produção de carne bovina certificada

Pensando em atender as exigências dos novos importadores no mercado internacional que


buscam segurança e qualidade com relação ao alimento ingerido, a produção ecológica de carne
bovina está se tornando uma das principais estratégias diferenciais dos frigoríficos e seus
pecuaristas. Além disso, a procura internacional permite vender todas as peças do animal e não
apenas cortes nobres. (Gazeta Mercantil, 2001)
Quando referida aos impactos sobre o nível produtivo, a internacionalização da economia
(ou transnacionalização ou globalização) em determinados ramos é bastante ampla.
No caso da carne bovina é possível identificar uma caminhada nesta direção através do
melhoramento genético para a padronização do rebanho e o mesmo pode ser identificado nos
sistemas produtivos, relativamente consolidados, indiferenciados e difundidos em todo o mundo
e que originam os chamados produtos mundiais. (Graziano da Silva, 1998)
No entanto, não se pode dizer que toda a agricultura esteja globalizada, mas que é
possível reconhecer a importância crescente dos segmentos globalizados ou transnacionalizados,
que difundem e homogenizam em todo o mundo, principalmente para as parcelas mais
privilegiadas da população, uma maneira de produzir e de consumir. (Graziano da Silva, 1998;
Furtado, 1992)
Esta internacionalização e homogeinização de hábitos alimentares, significando, no caso
brasileiro, a introdução de novos hábitos alimentares, secundarizando tradições culinárias do país,
podem colocar em risco um elemento importante que é base de uma política de segurança
alimentar.
No caso da carne ecológica, na Inglaterra, a Nestlé tem buscado carne orgânica para a sua
fábrica de alimentos infantis. Juntamente com a Inglaterra, a Alemanha também tem interesse nos
cortes dianteiros do boi verde . (Gazeta Mercantil, 2001)
Em função do aumento das possibilidades de se colocar a carne bovina no mercado
internacional algumas iniciativas tem sido identificadas nos Estados que conformam o chamado
Circuito Pecuário do Centro-Oeste (Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato
Grosso, Goiás, Tocantins e Distrito Federal). Todas elas buscam trabalhar a propaganda
relacionada com a alimentação de origem vegetal dada aos animais, fundamentalmente pasto.
(Gazeta Mercantil, 07/06/2001; Gazeta Mercantil, 07/08/2001)
A primeira a ser citada está em andamento no Estado de São Paulo. O Fundepec (Fundo
de Desenvolvimento da Pecuária de Corte) que surgiu, em 1992, para exercer o controle da febre
aftosa e depois de atingir esse objetivo, em 1999, está expandindo sua atuação para o campo da
certificação de raças e qualidade das carnes. Em 2000, o Fundepc conseguiu a ISO 9002, do
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Inmetro, por prestação de serviços de qualidade e está certificando carne para as grandes redes de
supermercado, como é o caso do Grupo Pão de Açúcar.
Outro campo de ação do Fundepec será a certificação de carne orgânica no Brasil. Em
2002, o Fundepec passou a certificar frigoríficos aptos a abaterem o “Red Beef Conection” um
modelo de carne, ainda em estudo, 5/8 européia e 3/8 zebu, sempre com sangue angus, que será
rastreada da fazenda ao supermercado.
A segunda experiência em andamento está localizada na região do Pantanal,
principalmente no Estado do Mato Grosso do Sul. Ali, com o apoio do Governo do Estado, está
sendo desenvolvido o Vitelo do Pantanal (Vitipan), que será criado em pastos naturais, sem
rações. A meta é abater o animal com cerca de 180 quilos, com idade de 7 a 12 meses. (O Estado
de São Paulo, 15/08/01 e; 07/01/04)
Os atores envolvidos na criação do vitelo orgânico pantaneiro consideram que este é um
produto sofisticado, criado para o mercado internacional e para o consumidor exigente do Brasil
A terceira experiência se localiza na região do Triângulo Mineiro, onde está sendo
produzido o Boi Verde Mineiro, que deverá receber o selo Tropical Beef. Esta produção
certificada se dá em torno do Núcleo de Criadores de Novilho Precoce do Triângulo Mineiro. (O
Estado de São Paulo, 15/08/01)
Com relação ao que se pode conceituar com produção carne “verde” ou “orgânica”,
Darolt (2001) e Melado (s/d), consideram que ela é resultante da pecuária a campo, que exclui o
uso de agrotóxicos no controle das pragas do pasto e do gado, e minimiza o uso de
medicamentos. É necessariamente uma carne livre de resíduos químicos, resultantes da aplicação
de defensivos, antibióticos, aditivos alimentares ou modificações orgânicas. Além disso, é
preferível que ela seja obtida de um animal jovem, que tenha nascido e crescido em um ambiente
confortável e acolhedor, que mais se aproxime de seu hábitat ideal.
Ainda admite-se neste sistema de criação que o animal receba sal proteinado e que fique
semi-confinado no fase final da engorda. Essa receita permite levar os bovinos ao abate aos 18
meses de idade e produzir uma carne de qualidade comum custo de R$ 35 por arroba. Esse valor
é cerca da metade dos gastos realizados pelos criadores dos Estados Unidos e Austrália. (Globo
Rural, ago, 2001; Darolt, 2001; Melado s/d)
O presidente do frigorífico Independência, Antonio Russo Neto, considera que o boi verde
é a terceira revolução vivida pela pecuária nos últimos trinta anos, depois do sucesso da
braquiária nas pastagens e da redução na idade de abate. (Gazeta Mercantil, 2001, Mielitz Netto,
1994)
No Brasil, o IBD (Instituto Biodinâmico) é um dos agentes que respondem pela
certificação do boi verde. O sistema de produção veta o uso de agrotóxicos e fertilizantes
químicos, substitui medicamentos por homeopatia e fitoterapia e conta com rastreabilidade
completa desde a fazenda até o frigorífico. (Gazeta Mercantil, 2001)

Considerações Finas

As evidências colhidas para a elaboração do presente artigo apontam para o crescimento,


no Brasil, da produção de bovinos para a exportação. E isso pode estar dentro de um novo
contexto que é do deslocamento dessa produção animal dos países ricos para os países periféricos
com grandes áreas como é o caso do Brasil, da Argentina e da Austrália. Essa mudança é
decorrência da pressão ambiental, principalmente por conta do seu impacto sobre os recursos
hídricos, e sanitária, por conta das doenças que afetam tanto as pessoas como os animais.
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O aumento da exportação de carne bovina pelo Brasil é mais um reflexo da crise dos
sistemas de produção desenvolvidos na Europa que não vem acompanhado de um aumento no
consumo desse produto e da diminuição de barreiras protecionistas (tarifárias e não tarifárias) dos
blocos U.E. e Nafta.
Já com relação a transferência da produção de carne bovina para o Brasil, esta parece
estar relacionada ao papel que o Brasil no caso comércio internacional de produtos agropecuários
com a Alca e a União Européia tenderá a ficar com as atividades que provocam maior impacto
sobre o meio ambiente.
No Brasil esse “boom” da produção de carne bovina vem ganhando contornos ecológicos
pela sua característica extensiva, que produz uma baixa lotação de animais por hectare e garante
uma alimentação a pasto. Isso só foi possível devido a imobilização de extensas áreas agrícolas.
Este surto exportador aliado ao advento da “certificação ambiental” conferidos à produção
de carne bovina, que ajuda a firmar o conceito do direito de não produzir, contribuem para
dificultar a resolução de problemas históricos que estão relacionados com a formação da nação
brasileira, o do desenvolvimento do mercado interno como elemento para impulsionar o
crescimento do país e o da garantia dos direitos de cidadania –principalmente ocupação produtiva
e renda- para a maioria da população excluída, que para serem alcançados passam
necessariamente, como afirmou Caio Prado, pela realização de um amplo processo de reforma
agrária.
Por último, também é importante afirmar que a produção ecológica de carne bovina para o
mercado internacional, por exigir certificação ambiental e impor um pacote para a sua produção,
não representa uma ampla oportunidade de acesso àquele mercado para o conjunto de pecuaristas
brasileiros.

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