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2.

MERCÚRIO E SÃO VITO

FONTE: theurbanearth.wordpress.com
MERCÚRIO E SÃO VITO .3

CLARA PASSARO MARTINS - clarapassaro@gmail.com


Revisão do Trabalho Final de Graduação
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo
Orientadora: Prof. Dra. Joana Gonçalves
Banca: Prof. Dra. Maria Ruth Amaral de Sampaio
Convidadas: arquiteta Isadora Guerreiro (mestranda FAPESP e associada à assessoria técnica USINA) e arquiteta Monica
Dolce (mestranda FAPESP, trabalha na Haplan Planejamento e Projetos)
A apresentação do trabalho para a apreciação da banca foi realizada no dia 02 de dezembro de 2008, 13hs.
Foi atingida a nota máxima - 10,00.
4. MERCÚRIO E SÃO VITO

FONTE: www.theurbanearth.wordpress.com
MERCÚRIO E SÃO VITO .5

[
. ] SUMÁRIO
[ .1] APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................6

[ .2] INTRODUÇÃO .........................................................................................................................................7

[ .3] PRIMEIRA PARTE: “ENTENDENDO” ............................................................................................................9


[ .3.1] O PROJETO ORIGINAL ..........................................................................................................................9
[ .3.2] A SITUAÇÃO ATUAL ...........................................................................................................................26
[ .3.3] REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..........................................................................................................47

[ .4] SEGUNDA PARTE: “PROPONDO” ..............................................................................................................49


[ .4.1] PROPOSTA PARA O CONJUNTO SÃO VITO E MERCÚRIO ...........................................................................54
[ .4.2] PROPOSTA PARA A REOCUPAÇÃO DO EDIFÍCIO SÃO VITO .......................................................................63
[ .4.3] REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...........................................................................................................82
6.
.1 ] APRESENTAÇÃO
[ MERCÚRIO E SÃO VITO

O envolvimento com o tema se iniciou em Paris durante o período em que cursei a Ecole d’Architecture de Paris-
Belleville, dentro do convênio de cooperação internacional existente entre as duas faculdades - a Faculdade de Arquite-
tura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP), pela qual obtive o diploma de graduação, e a Ecole Nationale
Supérieure d’Architecture de Paris-Belleville (ENSAPB), onde cursei o segundo semestre do Master 1 e o primeiro semes-
tre do Master 2, equivalentes ao quinto ano letivo da FAU USP.

Lá, através de algumas disciplinas cursadas dentro da Ecole em conjunto com um programa de estágio realizado para o
laboratório LAA - Laboratoire Architecture Anthropologie - trabalhei com o Conjunto Habitacional Cité des Quatre-Mille,
situado no distrito de La Courneuve, na região periférica da metrópole.

As disciplinas na faculdade me permitiram o contato com o conjunto habitacional em questões pontuais como a
“guetização”, o papel da mídia e o preconceito com estrangeiros; enquanto o estágio ampliou a abordagem para um
cenário internacional. Como “boa brasileira” levei do Brasil alguns exemplos, entre eles o conjunto São Vito - Mercúrio.

De volta à FAU, retomei o tema - conjunto habitacional São Vito e Mercúrio - para o desenvolvimento de uma proposta e
me deparei com um contexto muito mais denso e com questionamentos que não se encerram nos limites físicos do edifí-
cio. Sorrateiramente o Trabalho Final se reconfigurou para se tornar não somente propositivo, mas também teórico, e
neste caderno procurei expor algumas das questões que eu me envolvi durante seu desenvolvimento.

O formato “caderno” procura organizar algumas das questões que a experiência do TFG me trouxe e que me foram colo-
cadas sem nenhuma ordem ou lógica, mas captadas bricolando, “futricando” e remendando. Desta forma, a medida 21
cm por 21 cm foi escolhida para que ele pudesse ser facilmente carregado (menor que o costumeiro A4, mas não tão
pequeno para que os desenhos pudessem estar em uma escala agradável) e os espaços vazios entre os desenhos e os
textos procuram não encerrar as questões e se colocar aberto para quem o folheia.
MERCÚRIO E SÃO VITO .7

[
.2 ] NTRODUÇÃO
O caderno apresenta o trabalho em duas partes.

A primeira parte - “ENTENDENDO” - procura compor um quadro da situação atual do conjunto habitacional, partindo do
contexto econômico político e social da capital paulista no momento da construção dos edifícios e das soluções de dese-
nho empregadas no seu projeto original. Em seguida aborda a população moradora - do edifício Mercúrio atualmente e
do edifício São Vito antes da sua desapropriação - na grande diversidade de sua composição e na forma como eles ocu-
param os espaços do edifício. Esta primeira parte coloca em questão a imagem negativa do conjunto - para muitos co-
nhecido como o símbolo da degradação do centro de São Paulo - através principalmente da sobreposição de informa-
ções. O que influenciou essa visão negativa e o que é verdade e o que é “boato”?

A segunda parte - “PROPONDO” - forma-se a partir de duas decisões importantes tomadas durante o processo de proje-
to. A primeira decisão formou-se a partir da discussão de demolição ou reabilitação de conjuntos habitacionais moder-
nos, que vem tomando as agendas de muitas discussões públicas tanto no Brasil quanto internacionalmente (iniciada
com a demolição do complexo habitacional Pruitt-Igoe, em Saint Louis nos Estados Unidos). Decidido pela reabilitação, a
segunda importante decisão está na forma pela qual o edifício São Vito será reocupado, com ênfase no momento da
ocupação e na gestão pós-ocupação. Desta forma, algumas propostas de intervenção na arquitetura são apontadas no
fim do caderno.
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MERCÚRIO E SÃO VITO .9

[
.3 ] PRIMEIRA PARTE: “ENTENDENDO”
[ .3.1] O PROJETO ORIGINAL

[ .3.1.1] ficha técnica ..............................................................................................................................10


[ .3.1.2] do desenho ................................................................................................................................13
[ .3.1.3] habitação econômica e a arquitetura moderna ................................................................................19
[ .3.1.4] correspondência internacional ......................................................................................................22
10 . MERCÚRIO E SÃO VITO

FOTO: Cristiano Mascaro


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[
.3 ] PRIMEIRA PARTE: “ENTENDENDO”
A SITUAÇÃO ATUAL DO CONJUNTO HABITACIONAL
Os edifícios situam-se na Avenida do Estado, região central de São Paulo, em frente ao Mercado Municipal e próxima ao
Parque Dom Pedro II.
Apesar de compor um único volume na paisagem do centro de São Paulo, este conjunto habitacional é formado por dois
edifícios geminados entre si: o edifício Mercúrio e o edifício São Vito. O volume imponente e a fachada aparentemente
degradada do São Vito - que é considerado o mais “problemático” pelo seu tamanho e sua ocupação - ajudaram na for-
mação de uma imagem negativa do conjunto.
Desde 2004 o conjunto vêm sofrendo intervenções por parte da prefeitura de São Paulo. A ex-prefeita Marta Suplicy,
durante o seu mandato (2001-2004), desenvolveu um projeto de reabilitação para o edifício São Vito no qual parte da
população seria removida para outros edifícios de habitação de interesse social e o restante teria a possibilidade de re-
tornar ao São Vito através do arrendamento de suas unidades (que seriam reformadas em unidades maiores). Este pro-
jeto de reforma pareceu inexistente diante da decisão do atual prefeito da cidade, Gilberto Kassab, de demolir o conjun-
to habitacional inteiro, ou seja, o edifício São Vito - que já foi desapropriado durante o governo Marta - e o edifício Mer-
cúrio, que está ocupado e seus moradores apresentam forte resistência à decisão do prefeito.

O EDIFÍCIO SÃO VITO E O EDIFÍCIO MERCÚRIO EM SOLUÇÕES DE PROJETO


Apesar de comporem na paisagem um único conjunto arquitetônico são bastante diferentes entre si na solução das uni-
dades e na composição das fachadas. O edifício Mercúrio tem no andar-tipo menor quantidade de apartamentos com
maior área cada, entre 32 e 40 metros quadrados. A largura, mais fino que o edifício São Vito, permite melhor ventila-
ção e iluminação natural.
Na composição das fachadas, o São Vito adota brises horizontais (fachadas leste e oeste) e caixilhos em todo o vão da
parede (fachada sul), enquanto o Mercúrio adota brises verticais e combogós.
12 .
.3.1 ] O PROJETO ORIGINAL . ficha técnica
[ MERCÚRIO E SÃO VITO

ESCALA 1:500
PLANTA ORIGINAL DO PAVIMENTO-TIPO (2° ao 25° andar)
MERCÚRIO E SÃO VITO . 13

[
.3.1 ] O PROJETO ORIGINAL . ficha técnica
[ .Edifício São Vito]
. localiza-se na Avenida do Estado n.º 3.179, esquina com a Praça São Vito e com a Rua Luiz de Camões.
(na área central da cidade de São Paulo, à margem do Rio Tamanduateí, próximo ao Mercado Municipal, ao Palácio das
Indústrias - atual Gabinete da Prefeitura - e ao Parque Dom Pedro II).
. foi construído e incorporado pela Construtora Zarzur e Kogan em 1954, recebendo o habite-se em 1959.
. é composto por 555 quitinetes de aproximadamente 28 m\ cada, em um terreno de 784,17 m².
. apresenta 23 pavimentos com unidades habitacionais; térreo, sobrelojas e cobertura, totalizando 27 pavimentos.
. estrutura de concreto armado.

[ .Edifício Mercúrio]
. localiza-se na Avenida do Estado n.º 3.179, esquina com a Praça São Vito e com a Rua Luiz de Camões.
(é geminado ao edifício São Vito e os dois compões um único conjunto arquitetônico conhecido como São Vito, todavia
se diferenciam principalmente na composição de suas fachadas e no tamanho das unidades).
. foi construído e incorporado pela Construtora Zarzur e Kogan em 1952, recebendo o habite-se em 1955
. é composto por 96 apartamentos de dois cômodos e aproximadamente 40m\ e 48 quitinetes de aproximadamente
32m\.
. como o edifício vizinho apresenta 23 pavimentos com unidades habitacionais; térreo, sobrelojas e cobertura, totalizan-
do 27 pavimentos, todavia estes não se correspondem horizontalmente.
[ .3.1 ] O PROJETO ORIGINAL . ficha técnica 14 .

FONTE: HABI Centro


MERCÚRIO E SÃO VITO
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[
.3.1 ] O PROJETO ORIGINAL . ficha técnica
ESCALA 1:1000
IMPLANTAÇÃO (Rio Tamanduateí, Avenida do Estado, Mercado Municipal)
16 .
.3.1 ] O PROJETO ORIGINAL . do desenho MERCÚRIO E SÃO VITO

DESENHO DESIGN DESÍGNIO DESEJO


[

PLANTA LIVRE através de uma estrutura independente permite a livre locação das paredes, já que estas não mais
precisam exercer a função estrutural.

FACHADA LIVRE a disposição das aberturas na fachada é independente da configuração estrutural do edifício, assim
os pilares e vigas são projetados internamente ao edifício, e não mais junto à fachada.

PILOTIS sistema de pilares que elevam o prédio do chão, permitindo o trânsito por debaixo do mesmo, no
caso do São Vito o térreo foi ocupado por comércio.

TERRAÇO-JARDIM "recupera" o solo ocupado pelo prédio, "transferindo-o" para cima do prédio na forma de um jardim.

JANELA CORRIDA possibilitadas pela fachada livre, permitem uma relação desimpedida com a paisagem

REFERÊNCIA: “Cinco pontos da nova arquitetura”, Le Corbusier


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[
.3.1 ] O PROJETO ORIGINAL . do desenho
FONTE: artigo realizado pela autora para uma disciplina na Ecole de Paris - Belleville

“Um único espaço em que se exercem as várias funções do habitar”.

A quitenete é uma solução projetual para o conceito de existenzminimum desenvolvido principalmente no segundo CIAM
(Congresso Internacional de Arquitetura Moderna) em 1929, Frankfurt, Alemanha. Em Marselha, uma das tipologias
(tipo B) apresenta também essa solução, assim como a Torre da Cité des Quatre-mille Sud (conjunto habitacional em La
Courneuve,na França).
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FONTE: www.morarcoletivo.blogspot.com
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[
.3.1 ] O PROJETO ORIGINAL . produção habitacional e a arquitetura moderna
“Que se racionalizem os métodos de construção de modo a se obter pelo menor preço, a melhor casa” (Getúlio Vargas,
durante a Segunda República - 1930-1937).

Getúlio Vargas percebeu que o Estado não daria conta de atender toda a demanda habitacional e abriu também para a
iniciativa privada. Assim, a iniciativa privada inaugurou sua presença na produção de habitação econômica com a impor-
tante presença da figura do incorporador e das construtoras, e encontrou dentro do modernismo soluções arquitetônicas
que permitiam baratear o custo das novas construções, acessíveis para as classes sociais mais baixas e ao mesmo tem-
po gerando lucro suficientemente alto para as empresas investidoras.

Foram importados conceitos modernos de arquitetura como a construção em série, possibilitada pela existência de ele-
mentos padronizados e pré-fabricados, que permitiam uma maior rapidez na construção devido à grande quantidade de
unidades construídas ao mesmo tempo.

A implantação dessas incorporações no espaço urbano também segue o pensamento moderno de ampliar o conceito de
habitação como “concepção de vida de uma comunidade”. Nesse sentido, uma grande quantidade desses edifícios cons-
truídos associa a função residencial verticalizada com as funções comerciais e de serviço destinada a um publico mais
amplo e por isso colocada normalmente no térreo, de forma a ter maior interação com a cidade (onde o comércio fica
diretamente voltado pras ruas ou em galerias).

Buscando o maior aproveitamento possível do lote urbano, a implantação normalmente se realiza dentro dos recuos mí-
nimos exigidos, sempre buscando a verticalização excessiva.

Assim, essas unidades são vendidas ou alugadas para uma população de baixa renda que aceita as condições “precárias”
dessas unidades econômicas para morar no Centro, mais próximos à infra-estrutura urbana como comércio, serviços e
ampla acessibilidade por transporte público.
20 . MERCÚRIO E SÃO VITO
MERCÚRIO E SÃO VITO . 21

[
.3.1 ] O PROJETO ORIGINAL . produção habitacional e a arquitetura moderna
CIRCULAÇÃO VERTICAL
1. não apresentam escada de incêndio, as escadas dos dois edifícios são completamente abertas para os corredores in-
ternos;
2. o elevador do edifício São Vito tem paradas intermediárias nos pavimentos, prejudicando a acessibilidade para defici-
entes físicos, pois sempre que sai do elevador é necessário subir ou descer alguns lances de escada;
ILUMINAÇÃO E VENTILAÇÃO NATURAL
3. os corredores internos dos dois edifícios não apresentam algum acesso de iluminação e ventilação natural e são muito
estreitos;
4. os corredores do edifício São Vito são muito extensos e a distância do ultimo apartamento até o acesso de escada
excede o limite de segurança de trinta metros;
5. o edifício é muito largo, dessa forma os cômodos mais internos não tem aberturas para o exterior, entre eles 50% dos
banheiros.

1 3 4 1 2

5 3

Planta original com algumas características de projeto que comprometem a qualidade do edifício
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Demolição do conjunto habitacional Pruitt-Igoe, Saint Louis, EUA FONTE DA IMAGEM: www.agentsofurbanism.com

L’architecture moderne est morte à St Louis, Missouri

« L’architecture moderne est morte à Saint-Louis, Missouri, le 15 juillet 1972 à quinze heure trente-deux (ou à peu
près), quand l’ensemble tant décrié de Pruitt-Igoe, ou plus exactement certains de ses blocs reçoivent le coup de grâce
final à la dynamite. Auparavant, l’ensemble avait eu à subir les déprédations, les mutilations, et les actes de vandalisme
continuellement perpétrés par ses occupants noirs et, malgré les millions de dollars dépensés à tenter de le remettre sur
pied (réparation des d’ascenseurs vitres brisées, réfection des peintures), on décida finalement d’abréger ses
souffrances. Boum, boum, boum ».
Charles Jenks, Le langage de l’architecture post-moderne, Denoël/ Academy editions, 1979, p. 9.

FONTE DO TEXTO: laa-courneuve.net


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[
Serão apresentadas algumas referências que foram estudadas para o estágio na França no laboratório LAA - Laboratoire

.3.1 ] O PROJETO ORIGINAL . correspondência internacional


Architecture Anthropologie, vinculado a Ecole d’Architecture de Paris - La Villete. A intenção principal de trazer estes
casos é mostrar uma correspondência internacional na adoção de desenhos modernistas na produção de edifícios de
habitação para uma população de baixa renda (que pode ser financiada, ou não, pelo poder público).

Os cinco exemplos estão em ordem cronológica pela data do projeto, com o arquiteto, a quantidade total de apartamen-
tos do conjunto e o itinerário: ano de projeto, ano de construção e ano da demolição ou reabilitação, caso houver.

Marseille é considerada a “mãe” destes grandes conjuntos habitacionais modernos. Ela foi projetada por Le Corbusier
como aplicação prática das idéias desenvolvidas para a Ville Radieuse. Suas unidades habitacionais, que variam desde a
kitchennette até a unidade com quatro quartos, são conhecidas como unité, e serviram de referência para muitos proje-
tos posteriores. Um deles é o conjunto mexicano Miguel Alemán, que foi construído por um arquiteto italiano Mario Pani,
aluno de Le Corbusier e tão envolvido com suas idéias que projetou e construiu o conjunto habitacional na Cidade do
México mesmo antes de Marseille ser construída.

Desta maneira, inúmeros exemplos de conjuntos habitacionais modernistas são construídos em cidades pelo mundo,
sendo que grande parte deles foram localizados em regiões periféricas de grandes cidades e normalmente concentrando
em um conjunto uma grande quantidade de unidades habitacionais. E foi exatamente em muitos destes exemplos que se
concentrou uma população marginalizada da sociedade, tornando-os edifícios “problemáticos” aos olhos de moradores
da grande cidade. Esse processo é conhecido como “guetização” - formação de guetos.

A demolição do Pruitt Igoe - bastante divulgada mundialmente - foi a primeira e deu seqüência para uma série de demo-
lições destes conjuntos habitacionais considerados “problemáticos”. Charles Jenks atribui ao ciclo de demolições o fim da
produção arquitetônica nos moldes moderno (ver artigo: “A arquitetura moderna é morta em Saint Louis, Missouri”. La
Cité des Quatre Mille - principal objeto de estudo da pesquisa em Paris - teve quatro de seus edifícios-lâmina demolidos
e o ultimo edifício-lâmina e a torre serão reabilitados. Muitos especialistas consideram a demolição destes conjuntos uma
opção já descartada do calendário das prefeituras, apesar de ainda acontecer.

O arquiteto belga Lucien Kroll tem algumas experiências com reabilitação de edifícios pré-fabricados e considera que a
reabilitação, quando realizada como um processo e não um fim, traz melhores resultados junto à população moradora.
Ele realizou a reabilitação de alguns edifícios do distrito de Hellersdorf, em Berlim, através de um processo participativo,
e foi muito bem aceito pela população.

O ultimo exemplo citado é o edifício Le Corvialle, construído na periferia de Roma, década de 70. Por um atraso dos ar-
quitetos italianos ele foi construído depois da demolição do Pruitt Igoe, em um período de forte resistência a esta arqui-
tetura. Ele atinge quase um quilômetro de extensão e o quarto andar, a exemplo de Marselha, foi destinado a comércio.
Logo depois da sua construção este andar foi ocupado moradias ilegais e hoje é alvo de discussões e há a previsão da
realização de um concurso para a sua reabilitação.
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Marseille, Marselha, França


Le Corbusier
.3.1 ] O PROJETO ORIGINAL . correspondência internacional

326 unidades
Projeto: 1945-47
Construção: 1957
Reabilitação: 1995-96

FONTE: http://home.worldonline.dk

Miguel Alemão, Cidade do México, México


Mário Pani
1080 unidades
Projeto: 1947
Construção: 1949
Reabilitação: - -

FONTE: Graciela de Garay, Modernidad


habitada: Multifamiliar Miguel Alemán
Ciudad de México, 1949-1999 Ciudad
de México, Historia Oral, p.33
[

Pruitt-Igoe, Saint Louis, USA


Minoru Yamasaki
2870 unidades
Projeto: 1951
Construção: 1956
Reabilitação: 1965
Demolição: março de 1972 e julho de 1972

FONTE: www.laa-courneuve.com
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La Cité des Quatre-Mille, La Courneuve, França


Delacroix

[
4232 unidades

.3.1 ] O PROJETO ORIGINAL . correspondência internacional


Projeto: 1957
Construção: 1960-66
Demolição: 1986 . Debussy, primeiro edifício demolido
Demolição: 2002-2008

FONTE: foto da autora

Le Corviale, Roma, Italia


Mario Fiorentino
1246 unidades
Projeto: 1972-1974
Construção: 1975-1982
Ocupação ilegal do quarto andar: 1983
Projeto de Reabilitação “Imaginar Corviale”: 2004-2005

FONTE: www.flikr.com
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Projeto participativo de reabilitação de um conjunto habitacional em Hellersdorf - Alemanha. Realizado pelo arquiteto belga Lucien Kroll.
FONTE: www.lucienkroll.com
MERCÚRIO E SÃO VITO . 27

[
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL
[ .3.2] A SITUAÇÃO ATUAL

[ .3.2.1] da reportagem local .......................................................................................................................29


. o olhar da mídia sobre o conjunto representado por dois jornais de grande circulação: Folha de São Paulo e Estado de
São Paulo; deles foram destacadas as principais manchetes que trataram sobre o assunto nos últimos quatro anos e dois
trechos de notícias, pp. 28 a 30.
. duas imagens de crianças e do edifício - encontradas em buscas do site Google - foram usadas para mostrar como
algumas imagens podem guiar uma interpretação do observador, PP. 31.
. “favela vertical”, “pobreza” e “cortiço” : adjetivos usados para qualificar estes edifícios comparados com dados concre-
tos do levantamento realizado pela Diagonal Urbana Consultoria à pedido da prefeitura de São Paulo através do HABI
Centro, PP. 32 a 35.

[ .3.2.2] desenhos sensíveis .........................................................................................................................36


. durante o mês de agosto foi realizada uma visita ao edifício e alguns apartamentos foram apresentados pelos proprie-
tários; como resultado desta visita foram preparados “desenhos sensíveis” - em contraste com os desenhos técnicos
normalmente utilizados como forma de padronizar a linguagem da arquitetura para a construção - com referência aos
mapas psicogeográficos produzidos pelos situacionistas na década de cinqüenta.
. apresentação das moradoras entrevistadas, PP. 37.
. PLANTA SENSÍVEL: é a unidade habitada, ou seja, nela estão impressas as marcas da ocupação do espaço pelos mo-
radores (a representação da PLANTA DA UNIDADE através das AÇÕES que ocorrem neste espaço), PP. 39 e 41.
. CORTE SENSÍVEL: a partir de um corte comum do edifício os espaços foram apresentados em relação ao tempo de uso
do morador (a representação do CORTE DO EDIFÍCIO com relação ao TEMPO de uso dos espaços), pp. 42 e 43.

[ .3.2.3] levantamento físico .........................................................................................................................44


. em uma planta são apresentados alguns dos principais problemas encontrados pelo levantamento realizado pelo Diag-
nóstico Integrado.
28 . MERCÚRIO E SÃO VITO

FONTE: www.estadao.com.br
MERCÚRIO E SÃO VITO . 29

[
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . da reportagem local
Folha de São Paulo

Sem-teto invadem São Vito e são expulsos


A invasão foi em protesto contra a suspensão do programa bolsa-aluguel; prédio está vazio desde 2004

Estado de São Paulo, 29 de junho de 2008

Região sofre degradação há quase 70 anos


Pobreza afasta investimentos do poder público no Parque D. Pedro II

Estado de São Paulo, 29 de Junho de 2008

Ruim, mas bom de morar. Esse é o sentimento no Mercúrio


Moradores ainda resistem à idéia de deixar o prédio

Folha de São Paulo, 03 de maio de 2004

Morador mais antigo tem destino incerto


Romualdo Vieira da Silva, 86, no São Vito desde 1966, é um dos que ainda não encontraram um novo apartamento

Folha de São Paulo, 17 de maio de 2008

Desapropriações emperram obras de Kassab


As reformas da cracolândia e do parque Dom Pedro não serão concluídas no atual mandato, que termina neste ano
Os projetos, que integram o plano de revitalização do centro de SP, dependem de desapropriações de prédios para posterior demolição

Folha de São Paulo, 12 de agosto de 2008

Justiça não consegue lacrar edifício Mercúrio


Moradores impediram que a Justiça lacrasse 14 dos 144 apartamentos do edifício Mercúrio, ao lado do São Vito (região central de SP), em processo de
desapropriação. De acordo com a Folha de S. Paulo , o elevador foi desligado e a oficial de Justiça não pôde subir para cumprir o mandado.
30 .
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . da reportagem local MERCÚRIO E SÃO VITO

Domingo, 29 de junho de 2008

Mercúrio e S. Vito: degradação de pé.


Ações judiciais impedem a demolição dos prédios e detêm o processo de revitalização do Parque D. Pedro

Diego Zanchetta
São 21h44 de quarta-feira e dezenas de mendigos acendem fogueiras com restos de caixas de madeira espalhados
pelas ruas próximas do Mercado Municipal. Do outro lado do Rio Tamanduateí, o sereno cobre a Avenida Mercúrio e
torna o cenário mais inóspito e fantasmagórico. Passam-se quase 20 minutos e nenhum pedestre cruza a rua onde
fica o desativado São Vito, o "treme-treme" ícone da degradação do centro velho paulistano. Ao lado, debaixo do
Viaduto Diário Popular, o constante piscar de pontos luminosos denuncia o uso de crack por garotos enrolados em
mantas velhas, sob o frio de 13°C.
A região do Parque D. Pedro II segue pouco habitada e violenta, cortada por quatro viadutos que segregam a região
central e a zona leste. Enquanto o governo municipal anuncia investimentos de R$ 90 milhões para a Nova Luz, a antiga
Cracolândia, a principal intervenção para a revitalização do parque não tem previsão de ser cumprida: as demolições
dos Edifícios São Vito e Mercúrio, antes previstas para este ano, são contestadas em 59 processos movidos por
proprietários de baixa renda, atendidos na Defensoria Pública do Estado. Isso torna hoje totalmente impossível a
conclusão das desapropriações.[...]
[

São Paulo, terça-feira, 10 de outubro de 2006

"Treme-treme" já teve mais de 3.000 moradores

DA REPORTAGEM LOCAL
Há mais de dois anos desocupado, o edifício São Vito já abrigou simultaneamente mais de 3.000 pessoas. Não à toa,
ganhou o apelido de "treme-treme". A área do edifício é de 21 mil m2.
O São Vito é formado por 624 quitinetes (com áreas entre 28 m2 e 30 m2). Tem 27 pavimentos -26 residenciais- e cada
andar tem 24 apartamentos.
Chegou a ser considerado uma favela vertical e a ser classificado como um dos símbolos do que a cidade de São
Paulo tinha de pior.
Para modificar essa imagem, o projeto de restauração do São Vito previa a diminuição no número de moradores para
1.000, que se dividiriam em cerca de 390 apartamentos -com tamanhos ampliados para áreas de 352 a 60 m2. A inten-
ção do arquiteto Roberto Loeb, responsável pelo projeto, era deixar cada pavimento com até 15 residências e melhorar a
ventilação. [...]
MERCÚRIO E SÃO VITO . 31

[
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . da reportagem local
FONTE: www.opensadorselvagem.org

FONTE: www.opensadorselvagem.org
32 .
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . da reportagem local MERCÚRIO E SÃO VITO

Além dos assuntos abordados pelas notícias, alguns adjetivos são tão usados pelos veículos de comunicação que se tor-
naram “lugar-comum” quando se trata do tema, todavia alguns destes adjetivos podem ser questionados se confronta-
dos o seu significado com alguns dados levantados pelo Diagnóstico Integrado.

“favela vertical” e “pobreza”


A renda familiar e o valor do aluguel variam muito, o que comprova que existe uma divarsidade de renda da população
[

moradora nos dois edifícios

TABELA 1: variação do aluguel dos imóveis do edifício Sâo Tabela 2: Variação do aluguel dos imóveis do edifício Mercú-
Vito. O valor médio do aluguel é R$ 172,00 rio. O valor médio do aluguel é R$ 268,00

29,41
24,22 25,00
23,44

17,19 20,59
17,65
14,71

8,82
6,25
8,82
1,56 2,34

De 101,00 a De 151,00 a De 201,00 De 251,00 De 301,00 A cima de


De 50,00 a De 151,00 a De 251,00 a Sem
150,00 200,00 a 250,00 a 300,00 a 350,00 350,00
100,00 200,00 300,00 Info rmação

FONTE: Diagnóstico Integrado FONTE: Diagnóstico Integrado


MERCÚRIO E SÃO VITO . 33

[
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . da reportagem local
Edifício São Vito

Faixas de Renda Familiar


Abs. % Edifício Mercúrio
(Salários Mínimos)
Faixas de Renda Familiar
Sem Renda 13 3,4 Abs. %
(Salários Mínimos)
Até 0,5 SM 07 1,9 > 0,5 a 1 SM 01 1,1
> 0,5 a 1 SM 38 10,1
> 1 a 1,5 SM 02 2,3
> 1 a 1,5 SM 39 10,3
> 1,5 a 2 SM 06 6,8
> 1,5 a 2 SM 49 13,0
> 2 a 3 SM 14 15,9
> 2 a 3 SM 86 22,8
> 3 a 4 SM 12 13,6
> 3 a 4 SM 45 11,9

> 4 a 5 SM 36 9,5 > 4 a 5 SM 12 13,6

> 5 a 7 SM 32 8,5 > 5 a 7 SM 10 11,4

> 7 a 10 SM 24 6,4 > 7 a 10 SM 21 23,9


> 10 SM 08 2,1 > 10 SM 10 11,4

TOTAL 377 100,0 TOTAL 88 100,0

FONTE: Diagnóstico Integrado FONTE: Diagnóstico Integrado


34 .
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . da reportagem local MERCÚRIO E SÃO VITO

“cortiço”: Também é denominado como Habitação Coletiva Precária de Aluguel, HCPA. A HCPA é "uma unidade utilizada
como moradia coletiva multi-familiar, apresentando, total ou parcialmente as caracteristicas de:
- ser constituída por uma ou mais edificações construídas em lote urbano, com ocupação excessiva,
- ser subdividida em vários cômodos conjugados alugados, sub-alocados ou cedidos qualquer título, sem proteção da
legislação vigente que regula as relações entre proprietários e inquilinos,
- ter várias funções exercidas no mesmo cômodo,
- ter acesso e uso comum dos espaços não edificados, de instalações sanitárias (banheiros, cozinhas e tanques) e de
instalações elétricas,
- ter circulação e infra-estrutura precárias,
[

- superlotação de pessoas em geral.


(Censo de Cortiços, SEMPLA - 1992)

SÃO VITO: Registrou-se um número baixo de pessoas por MERCÚRIO: Registrou-se um número baixo de pessoas por
unidade familiar: 2,5. unidade familiar: 2,6.

32,89 32,95
26,32
21,59
18,42 19,32
15,91

10,53
7,37
4,55
2,63 3,41
1,32 0,53 1,14 1,14

Uma Duas Três Quatro Cinco Seis Sete A cima Uma Duas Três Quatro Cinco Seis Set e Oit o
de Oito
FONTE: Diagnóstico Integrado FONTE: Diagnóstico Integrado
MERCÚRIO E SÃO VITO . 35

[
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . da reportagem local
SÃO VITO: 69,8% dos entrevistados que se declararam proprie- MERCÚRIO: 67,3% dos entrevistados que se declararam proprie-
tários possuem escritura. tários possuem escritura.
27,0% possuem outro documento. 28,8% possuem outro documento.

69,81
67,31

25,00
22,64

3,14
3,85 3,85
2,52 1,89

Não Sim, escritura Sim, contrato Sim, recibo Sim, outros Não Sim, escritura Sim, co ntrato de Sim, recibo
de compra e
venda
compra e venda

FONTE: Diagnóstico Integrado FONTE: Diagnóstico Integrado

SÃO VITO: De cada 10 imóveis pesquisados, 03 são vagos. Desses, MERCÚRIO


62,0% encontram-se acima do 15º andar.

58,80 63,24

28,92
19,12 13,97
0,74 0,74 0,74 1,47
4,36 4,68
1,13 0,48 0,97 0,32 0,16 0,16
Residencial Residencial Vago M orador
Residencial Residencial Serviço s Industrial Recusa
/ Industrial Ausente
/ Co mercial

FONTE: Diagnóstico Integrado FONTE: Diagnóstico Integrado


36 .
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . desenhos sensíveis MERCÚRIO E SÃO VITO

- Olá Dona Graça, sou estudante de arquitetura e estou fazendo um


trabalho relacionado ao Edifício Mercúrio. Gostaria da sua colaboração,
se não for incomodar a senhora.
[

- Olha, minha filha, nós não temos abertura para estudantes aqui no
Edifício, não! Eu sinto muito! Um minutinho...
(Seu Antonio se queixa da vizinha)
- Então Dona Graça, antes de vir aqui conversei com algumas pessoas
e tomei nota do que está sendo publicado a respeito do Edifício, princi-
palmente em notícias de jornais, e notei que há uma visão muito nega-
tiva circulando.
(Dona Graça me olha fixamente, um olhar curioso e muito desconfiado)
- Eu não conheço o edifício nem os moradores, mas recebo essas in-
formações com desconfiança, e acredito que morar aqui tem vanta-
gens, e é sobre isso o meu trabalho.
(Mas como?)
- Eu gostaria de ter acesso a dois ou três moradores que aceitassem
ter uma conversa comigo e, quem sabe, apresentar os seus aparta-
mentos.
- Eu moro aqui, podemos começar agora!

Trecho da primeira conversa com a síndica Dona Graça.


MERCÚRIO E SÃO VITO . 37

[ .3.2] A SITUAÇÃO ATUAL . desenhos sensíveis


MARIA DAS GRAÇAS FIDELES
Moradora há 15 anos
Solteira, 4 filhos
João, 21 anos, casado, mora com a mulher
Pedro, 10 anos, estuda no Colégio Romão, na Avenida Celso Garcia, 20 minutos de caminhada.
Freqüenta o colégio das 13hs até 17:30.
Maria, 9 anos, estuda também no Colégio Romão, na Avenida Celso Garcia, 20 minutos de caminhada.
Freqüenta o colégio das 13hs até 17:30.
Joana, 1 ano e nove meses, freqüenta a creche na Rua do Gasômetro, 30 minutos de caminhada.
Freqüenta a creche das 6:30 da manhã até 18:00 da tarde.
Ela mora no edifício faz 15 anos, e trabalha como síndica há 12 anos. Das 6hs da manhã fica na portaria, todos os dias, até as
15hs da tarde. Segundo ela, faz autogestão, administra, é síndica e cuida da portaria.
(É cansativo, 18 horas por dia trabalhando. À noite a preferência é da minha filha, trago ela da creche, ela mama e fico com
ela até ela dormir)
Seu apartamento fica no terceiro andar.
Mora com os três filhos em dois apartamentos, uma quitinete e um apartamento de um quarto, entre os quais quebrou uma
porta criando um acesso. No seu quarto dorme ela e sua filha menor na sua cama, e no outro quarto do outro apartamento
dormem seus dois filhos.
Estudou um ano e um semestre de Direito na Universidade UNINOVE. Parou depois que o governo da prefeitura de São Paulo.

SELMA MARIA DE ANDRADE


Moradora há 24 anos.
Casada, 2 filhos
Luiz Gonzaga Lopes, marido, trabalha no CEAGESP
Laís de Andrada Lopes, filha, 13 anos. Freqüenta o Colégio São Paulo das 7hs às 12hs30. 10 minutos de caminhada à pé.
Luana de Andrada Lopes, filha, 19 anos, cursando Administração na UNIESP, não mora mais no apartamento.
Moram ela, o marido e a filha mais nova num apartamento de um quarto no quinto andar, apartamento 55.
Paraibana, veio para São Paulo com 19 anos.
Ela trabalha no edifício, cuida de algumas crianças no próprio apartamento.
Eles moram num apartamento do ex-patrão do marido dela, e eles só pagam o condomínio.
Não tem condições de bancar um apartamento no centro de São Paulo, caso forem desapropriados.
Está muito angustiada e deprimida.
Gosta mais do quarto e menos do banheiro.
A sala é mais fria que o quarto.
O quarto é bem ventilado no verão e mais quente no inverno.
Até umas 11hs da manhã bate sol direto.
38 .
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . desenhos sensíveis MERCÚRIO E SÃO VITO

apartamento Dona Graça . projeto executivo


[
MERCÚRIO E SÃO VITO . 39

[ .3.2] A SITUAÇÃO ATUAL . desenhos sensíveis


apartamento Dona Graça . planta da ocupação
40 .
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . desenhos sensíveis MERCÚRIO E SÃO VITO

apartamento Dona Selma . projeto executivo


[
MERCÚRIO E SÃO VITO . 41

[ .3.2] A SITUAÇÃO ATUAL . desenhos sensíveis


apartamento Dona Selma . planta da ocupação
42 .
[ .3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . desenhos sensíveis

MERCÚRIO E SÃO VITO


. 43
MERCÚRIO E SÃO VITO [ .3.2] A SITUAÇÃO ATUAL . desenhos sensíveis
44 .
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . levantamento físico MERCÚRIO E SÃO VITO

Edifício São Vito - espaços comuns Edifício São Vito - espaços privativos
Piso danificado em rota de fuga
Obstrução de rota de fuga
Obstrução de rota de fuga
Sobreposição de ligações elétricas
Alarme/ PCF danificado
Rachadura - Alvenaria
Hidrante inoperante
Fissuração - Alvenaria
Extintor inoperante
Extintor inoperante
Vazamento de água/esgoto
Fissuração - Lajes e Forros
Tubulação exposta
Fissuração - Vigas e Pilares
Ausência de abastecimento de água
Ausência de abastecimento de água
Ausência de energia elétrica
Ausência de energia elétrica
[

Gambiarra (telef./antena)
Danificação/ Remoção - Lajes e Forros
Gambiarra elétrica
Vazamento de água/esgoto
Sobreposição de ligações elétricas
Tubulação exposta
C aixas de energia danificadas/ inadequadas
Fiação exposta
Ligações clandestinas de energia
Armadura Exposta - Vigas e Pilares
Falta de iluminação
Obstrução de espaço/passagem
Falta de ventilação
Demolições/acréscimos - Alvenaria
Vedação improvisada - Janelas
Presença de Lixo
Vidro Quebrado/ausente - Janelas
Presença de entulho
C aixilho danificado - Janelas
Armadura Exposta - Lajes e Forros
Rachadura - Alvenaria
Vedação improvisada - Janelas
Danificação/ Remoção - Lajes e Forros
Indícios de vazamento - Alvenaria
Fissuração - Lajes e Forros
Ligações clandestinas de energia
Fissuração - Vigas e Pilares
Falta de iluminação
Armadura Exposta - Lajes e Forros
Piso danificado em rota de fuga
Armadura Exposta - Vigas e Pilares
Fissuração - Piso
Obstrução de espaço/passagem
Agressão Físico-Química - Lajes e Forros
Presença de entulho
Agressão Físico-Química - Vigas e Pilares
Presença de Lixo
Gambiarra elétrica
Fiação exposta
Danificação de revestimento - Piso
Fissuração - Piso
C aixas de energia danificadas/ inadequadas
Demolições/acréscimos - Alvenaria
Falta de ventilação
Fissuração - Alvenaria
Alarme/ PC F danificado
Agressão Físico-Química - Lajes e Forros
Hidrante inoperante
Agressão Físico-Química - Vigas e Pilares
Gambiarra (telef./antena)
Danificação de revestimento - Piso
Vidro Quebrado/ausente - Janelas
Umidade - Piso
C aixilho danificado - Janelas
Indícios de vazamento - Alvenaria
Umidade - Piso

1,00 2,00 3,00 1,00 2,00 3,00

FONTE: Diagnóstico Integrado FONTE: Diagnóstico Integrado


MERCÚRIO E SÃO VITO . 45

[
.3.2 ] A SITUAÇÃO ATUAL . levantamento físico
O edifício São Vito:
1. CIRCULAÇÃO VERTICAL . só um elevador funciona precariamente até o 15o andar;
2. INSTALAÇÕES ELÉTRICAS . devido às gambiarras realizadas nas redes de telefonia, nas instalações elétricas e ante-
nas, havia muita fiação exposta e, por isso, um maior risco de incêndio;
3. INSTALAÇÕES HIDRÁULICAS . muitos vazamentos e infiltrações acabaram causando algumas agressões químicas
em vigas, pilares, lajes e forros; todavia não compromete a eficiência do sistema estrutural (boas condições para a rea-
bilitação);
4. DIVISÓRIAS ORIGINAIS . alto índice de demolições e acréscimos na alvenaria devido a alterações na divisória origi-
nal;
5. CAIXILHARIA . muitos vidros quebrados ou ausentes foram substituídos por uma vedação improvisada (madeirite,
plástico ou alvenaria), grande risco de acidentes;
6. BRISES da fachada . em mal estado de conservação.

4 3 1

5 6 2
46 . MERCÚRIO E SÃO VITO

“Os apartamentos me foram apresentados e em todo momento era visível o medo dos moradores da possibilidade de
perderem suas casas. Senti um orgulho por parte deles de morar no centro de São Paulo, e isso valorizava muito o imó-
vel, todavia muitos moradores que conversei já estavam no edifício a 15 ou 20 anos, e o apego pelos seus apartamentos
não era mais simplesmente resultado da localização, mas de um vínculo afetivo. Está já criada uma identidade do mora-
dor com o apartamento, o edifício, o entorno...”
(texto da autora escrito no dia da visita)
MERCÚRIO E SÃO VITO . 47

[
.3.3 ] REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BLOCH, Janaína Aliano. “O direito à moradia. Um estudo dos movimentos de luta pela moradia no centro de São Paulo”.
Dissertação de Mestrado. São Paulo: FFLSCH, 2007.
Orientadora: Prof. Dra. Heloisa Helena Martins
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. 1. Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
D’ANDREA, Tiaraju Pablo de. “Nas Tramas da Segregação: O Real Panorama da Pólis”. Dissertação de mestrado. São
Paulo: FFLSCH, 2006.
Orientador: Profa. Dra. Vera da Silva Telles
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
HIRATA, Marcia Saeko. “Formação do espaço e espaço da formação : contexto e prática do projeto participativo na
RMSP”. Dissertação de Mestrado. São Paulo: FAUUSP, 2004.
Orientadora: Prof. Dra. Maria Cecília Loschiavo dos Santos
JACQUES, Paola Berenstein. Apologia da Deriva - Escritos Situacionistas sobre a Cidade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra,
2003
JACOBS, Jane. Morte e vida das grandes cidades.
KROLL, Lucien. Bio,Psycho Socio, Eco, Écologies urbaines. L'Harmattan, 1996.
OLIVEIRA, Francisco de. “O Ornitorrinco”
RENSHAW, Nicholas. Anarquioquê?. www.rizoma.net
ROLNIK, Raquel. Um novo lugar para o velho centro. www.vitruvius.com.br
SAMPAIO, Maria Ruth do Amaral (org.). A promoção privada de habitação
econômica e a arquitetura moderna, 1930-1964. São Carlos: RiMa, 2002.
Diagnóstico Integrado e Participativo realizado pela Diagonal Urbana Consultoria, sob coordenação da SEHAB - Secretari-
a Municipal de Habitação, dentro do Programa HABICENTRO e financiado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvi-
mento)
48 .
.3.3 ] REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS MERCÚRIO E SÃO VITO

Proposta de reabilitação de um Conjunto Habitacional Pré-fabricado no Distrito de Hellersdorf, Berlim, Alemanha


Arquiteto: Lucien Kroll
Ano: 1944

ENTREVISTAS
MARIA DAS GRAÇAS FIDELES. Moradora do Edifício Mercúrio há 15 anos. Solteira, quatro filhos.
MARIA REGINA DA SILVA. Moradora do Edifício Mercúrio há 30 anos. Solteira. Não tem filhos.
SELMA MARIA DE ANDRADE. Moradora do Edifício Mercúrio há 24 anos. Casada, dois filhos.

ARTIGO DE PERIÓDICOS
[

“Mercúrio e S. Vito: degradação de pé”


“Região sofre degradação há quase 70 anos”
“Secretário atribui demora à politização”
“Ruim, mas bom de morar. Esse é o sentimento no Mercúrio”
Publicados dia 29 de junho de 2008 no Jornal Estado de São Paulo.
“Morador mais antigo tem destino incerto”. Publicado dia 03 de maio de 2004 no jornal Folha de São Paulo.
“Treme-treme” já teve mais de 3.000 moradores. Publicado dia 10 de outubro de 2006 no jornal Folha de São Paulo.
“Desapropriações emperram obras de Kassab” Publicado dia 17 de maio de 2008 no jornal Folha de São Paulo.
“Justiça não consegue lacrar edifício Mercúrio” Publicado dia 12 de agosto de 2008 no jornal Folha de São Paulo.

ENCONTROS
Anais do encontro “Cotidiano, cultura popular e planejamento urbano.” Organização de Maria Irene de Q. F. Szmrecsan-
yi. São Paulo: FAUUSP, 1982.
“Teoria e métodos no estudo das práticas cotidianas”. Michel de Certeau.
“Planejamento, consumo e prazer”. Carlos Nelson Ferreira dos Santos.
“Comunidade e movimentos sociais urbanos”. Ruth Cardoso.
“Habitação social em São Paulo”. Carlos Lemos.
“Adaptação do morador ao embrião: Projeto Piloto do PROMORAR Vila Maria. Maria Ruth Amaral de Sampaio.
“Do palacete ao cortiço: Prédio Martinelli”. Maria Cecília Naclério Homem.
MERCÚRIO E SÃO VITO . 49
50 . MERCÚRIO E SÃO VITO
MERCÚRIO E SÃO VITO . 51

[
.4 ]: SEGUNDA PARTE: “ PROPONDO”
[ .4.0] SEGUNDA PARTE: “PROPONDO”

[ .4.0.1] histórico das intervenções municipais.................................................................................................53


[ .4.0.2] bolsa-aluguel, PAR, locação social ....................................................................................................54
[ .4.0.3] situação atual dos edifícios ..............................................................................................................55
[ .4.0.4] demolição X reabilitação...................................................................................................................57
52 . MERCÚRIO E SÃO VITO
MERCÚRIO E SÃO VITO . 53

[
.4 ] SEGUNDA PARTE: “PROPONDO” . histórico
GOVERNO MARTA SUPLICY (2001 - 2004)

2001 . Marta Suplicy inicia seu mandato;


2002 . foi contratada a empresa Diagonal Urbana Consultoria pela Prefeitura do Município de São Paulo através do
HABI-CENTRO para a realização do “Diagnóstico Integrado Participativo” junto à população moradora do edifício São
Vito;
dezembro 2002 . foi iniciado o trabalho de mobilização da população moradora do edifício São Vito através do agen-
damento de reuniões convocadas por meio de visitas domiciliares e de fixação de cartazes distribuídos pelos andares do
edifício;
abril 2003 . finalizado o Diagnóstico Integrado, foi apresentado um relatório com o perfil sócio-econômico da popula-
ção moradora do conjunto e um levantamento das condições físicas do edifício São Vito;
. o edifício foi decretado de interesse social e decidiu-se pela readequação do edifício, de forma a diminuir número de
apartamentos garantindo diversificação de tipologias;
2003 . a prefeitura de São Paulo, através do HABI-CENTRO, realiza reuniões com os moradores do Edifício São Vito
para explicar a iniciativa da Prefeitura e colocá-los a par das estratégias de intervenção para reabilitar o edifício e as
modalidades de atendimento disponíveis para atendê-los (Bolsa Aluguel, Locação Social e PAR).

GOVERNO GILBERTO KASSAB (2005 - 2008)

2005 . foi cancelado o início das obras de reabilitação do edifício São Vito;
2005 - 2007 . os contratos dos moradores com o Programa Bolsa-Aluguel não foram renovados;
janeiro 2007 . decreto do prefeito Kassab para a desapropriação dos moradores do edifício Mercúrio;
dezembro 2007 . a prefeitura de São Paulo consegue, diante a justiça, a posse dos apartamentos do edifício Mercú-
rio;
julho/agosto 2008 . 40 famílias moradoras foram desapropriadas e transferidas para um imóvel na Rua Riachuelo,
275;
. muitos moradores que foram desapropriados e realizaram a mudança acabam voltando a freqüentar o Mercúrio e ale-
gam que as condições do edifício são piores que as condições atuais do Mercúrio: a porta do elevador não funciona cor-
retamente, eles não tem linha telefônica;
novembro 2008 . a prefeitura de São Paulo abriu licitação pública para a demolição do conjunto.
54 .
[ .4 ] SEGUNDA PARTE: “PROPONDO“ . histórico MERCÚRIO E SÃO VITO

Bolsa-aluguel: programa que atribui um subsídio a famílias cadastradas pela Secretaria de Habitação e Desenvolvi-
mento Urbano - SEHAB, utilizável na complementação do aluguel mensal no mercado privado, por um período de até 30
meses, podendo ser prorrogado por igual período. Oferece também um aval da Prefeitura como garantia do contrato de
locação. O objetivo é atender a famílias com renda de 1 a 6 salários mínimos, moradoras em áreas de risco ou de insalu-
bridade, em edifícios desapropriados ou objeto de uma intervenção da Prefeitura, que exija sua saída temporária ou per-
manente.

Programa de Arrendamento Residencial (PAR): Administrado pela Caixa Econômica Federa,l procura atender as famí-
lias com renda entre três a seis salários mínimos. Durante o período do arrendamento, 180 meses, ela administra o con-
domínio do prédio, procurando manter o prédio sempre em boas condições. Neste caso as famílias pagam o condomínio
e a prestação a Caixa, não podendo comprometer mais do que 30% de sua renda com essas despesas.

Locação Social: Este programa oferece locação de unidades habitacionais de propriedade do poder público para famílias
com baixa renda (até três salários mínimos) e que não se encaixam em programas habitacionais de aquisição de imóvel.
O comprometimento financeiro com a moradia é proporcional à renda familiar, ou seja quanto menos se ganha menos
se paga.
MERCÚRIO E SÃO VITO . 55

[
.4 ] SEGUNDA PARTE: “PROPONDO” . histórico
AS PROPOSTAS DESTE TRABALHO PARTEM DA SITUAÇÃO ATUAL DOS EDIFÍCIOS (em novembro/2008)

Edifício São Vito desapropriado:


O edifício São Vito, desapropriado pela Prefeitura de São Paulo em 2004, permanece vazio.
Durante a desapropriação os ex-moradores levaram consigo o máximo de material construtivo que lhes era possível re-
mover (fios elétricos, portas, janelas, caixilharia, fios elétricos, entre outros), da mesma forma, depois da desapropria-
ção, alguns invasores removeram o restante de material reutilizável.
A justificativa da desapropriação foi a reforma do edifício São Vito, para habitação de interesse social, que abrigaria al-
guns dos antigos moradores dentro do programa de arrendamento residencial do governo federal (PAR), financiado pela
Caixa Econômica Federal. Estes moradores que voltariam para o edifício depois de reformado foram distribuídos, tempo-
rariamente, em imóveis localizados também no Centro de São Paulo, durante o período de dois anos previsto para a
reforma do edifício. Durante este período eles estariam recebendo do governo um auxílio moradia temporário, o “bolsa-
aluguel”.
Visto que o PAR (Programa de Arrendamento Residencial) atende somente famílias com renda mensal de 3 a 6 salários
mínimos e que o edifício São Vito durante a sua reforma teria a quantidade de unidades habitacionais diminuída para
garantir melhores condições de moradia, os antigos moradores do edifício São Vito que não se encaixam no programa
seriam reposicionados em outros imóveis através da “locação social”.
O trabalho de desapropriação do edifício foi realizado individualmente com cada família, procurando um imóvel específico
de acordo com necessidades individuais. Como não havia anteriormente uma organização espontânea entre os morado-
res e esta não foi estimulada pela prefeitura (exceto os moradores proprietários, que criaram uma associação), essa
população, dispersa pela cidade, ficou ainda mais enfraquecida diante de qualquer decisão do governo. E quando o go-
verno Kassab entra na prefeitura não renova os auxílios e cancela a reforma do edifício, estes se encontraram de mãos
atadas sem alguma possibilidade de mobilização, manifesto, paralisação para reivindicarem os seus direitos.

Edifício Mercúrio em processo de desapropriação:


No caso do edifício Mercúrio, a justificativa da desapropriação foi a demolição do conjunto. Os moradores proprietários
foram procurados para assinar um contrato através do qual receberiam uma indenização de R$ 30.000,00 a R$
40.000,00, que julgam ser insuficiente para comprarem algum imóvel no centro de São Paulo. Enquanto os moradores
que alugam (locatários) os imóveis seriam mudados para um imóvel na Rua Riachuelo, de propriedade da prefeitura,
através da locação social. Segundo alguns moradores, o edifício da Rua Riachuelo apresenta piores condições de moradia
que o edifício Mercúrio atualmente. O elevador tem a porta quebrada, dificultando o acesso para deficientes físicos, e os
apartamentos não possuem linha telefônica. Muitos moradores que assinaram o contrato o fizeram diante a pressão de
serem desapropriados à força e acabarem ficando sem opção de moradia. Realizaram a mudança para o imóvel na Rua
Riachuelo, mas muitos deles acabaram voltando para o Mercúrio.
56 . MERCÚRIO E SÃO VITO

“Este panorama aparentemente confuso esconde as reais intenções não só para o conjunto habitacional São Vito - Mer-
cúrio quanto para a existência de moradias populares na região central da cidade de São Paulo. Acompanhando o texto
de Raquel Rolnic “Um novo lugar para o velho centro” nota-se a tendência européia de revalorização de antigas centrali-
dades urbanas que estão vinculadas à extinção dos espaços degradados, uma vez que, na cabeça de muitos, estes espa-
ços estão vinculados à existência de uma população de baixa renda...”
(texto da autora escrito durante o desenvolvimento das pesquisas)
MERCÚRIO E SÃO VITO . 57

[
.4 ]: SEGUNDA PARTE: “ PROPONDO”
Breve apresentação das justificativas que vêm sido apresentadas pela prefeitura de São Paulo em relação a demolição e
a reabilitação do conjunto:

DEMOLIÇÃO:
. criação mais um espaço público para a cidade de São Paulo (segundo Andrea Matarazzo, será construída uma praça
pública, possivelmente com um estacionamento subterrâneo) e liberação da visão para importantes edifícios históricos
como o Mercado Municipal;
. passo simbólico para a valorização imobiliária da região;
. a demolição é mais econômica financeiramente, mesmo considerando a desapropriação dos moradores e a indenização
aos proprietários;
. não poderá ser realizada uma implosão devido à localização do conjunto, vizinho ao Mercado Municipal, cujos vitrais
têm grande valor histórico (criados pelo artista russo Conrado Filho) e monetário; dessa forma a destruição deve ser
realizada com “martelinho”;
. estima-se 75 mil toneladas de entulho resultantes da demolição. Sua remoção levaria alguns meses.

REABILITAÇÃO:
. ambientalmente o reaproveitamento de uma estrutura existente apresenta benefícios, assim como a manutenção de
uma alta densidade em centros urbanos;
. a população de renda baixa que se espalharia pelos mananciais e em áreas de grande risco seria alocada na região
central da cidade de São Paulo, com grandes vantagens como a proximidade aos serviços e fácil acesso ao transporte
público;
. a manutenção de população de baixa renda na área central da cidade é também alternativa diante o grande déficit
habitacional que a cidade apresenta.
58 . MERCÚRIO E SÃO VITO
MERCÚRIO E SÃO VITO . 59

[
.4.1 ] PROPOSTAS PARA O CONJUNTO
[ .4.1] PROPOSTA PARA O CONJUNTO
[ .4.1.1] a proposta ....................................................................................................................................61
[ .4.1.2] as intervenções ..............................................................................................................................62
60 .
.4 ] SEGUNDA PARTE: “PROPONDO”
[ MERCÚRIO E SÃO VITO

A proposta para ser melhor compreendida foi dividida em duas partes. As duas partes são caracterizadas por duas im-
portantes decisões, a primeira é em questão ao conjunto São Vito e Mercúrio como um todo e a segunda proposta se
concentra na forma de ocupar o edifício São Vito.
A explicação de cada decisão foi dividida em partes:

. ANTECEDENTES . justificativas da escolha


. importantes questões que guiaram a proposta

. A DECISÃO . a proposta

. FORMAS DE AÇÃO . como a decisão será colocada em prática


. quais as intervenções arquitetônicas
MERCÚRIO E SÃO VITO . 61

[
.4.1 ] PROPOSTAS PARA O CONJUNTO
. ANTECEDENTES . déficit habitacional da cidade de São Paulo e alta demanda por habitação;
. a periferia “inchando”;
. infra-estrutura urbana presente no centro da cidade como rede de água, rede de esgoto e energia
elétrica;
. acessibilidade privilegiada do transporte público, comércio e serviços;
. o sistema estrutural do conjunto arquitetônico em boas condições;

. A DECISÃO . manter o conjunto de edifícios São Vito e Mercúrio

. FORMAS DE AÇÃO . edifício Mercúrio . não intervenção nos apartamentos e manutenção da população moradora;
. edifício São Vito . reocupação do edifício;
. intervenções no conjunto . melhorar a acessibilidade e as condições de segurança contra-
incêndio; dar iluminação e ventilação natural aos corredores de circulação e criar condições
para diminuição dos gastos condominiais (aquecimento de água por energia solar e coleta de
água da chuva).
62 . MERCÚRIO E SÃO VITO

INTERVENÇÕES:

1. nova caixa de circulação externa para o edifício Mercúrio para a construção de uma escada dentro das condições de
segurança contra-incêndio (pois a caixa de escadas existente é inteiramente aberta para o corredor) e novos elevadores,
mais rápidos;
. ver IMPLANTAÇÃO 1:500 para entender o novo acesso criado e a nova configuração da calçada (p.65);
. ver PLANTA DO PAVIMENTO TIPO 1:500 para entender como os novos acessos se configurarão em relação as unida-
des habitacionais existentes (p.64);
. ver CORTE GERAL 1:750 e CORTE 1:250 (p.66 e 67).

2. novos elevadores mais rápidos e a fachada do hall dos elevadores refeita com tijolo-de-vidro inclinado permitindo o
acesso da iluminação e ventilação natural e novos espaços comuns nos pavimentos que permitem mais usos comuns
dentro dos pavimentos e melhoram o acesso de iluminação e ventilação natural aos corredores internos;
. ver PLANTA DO PAVIMENTO TIPO 1:500 (p.64);
. ver desenho esquemático do tijolo de vidro (p.69).

3. nova caixa de escadas para o edifício São Vito também dentro das condições de segurança contra-incêndio;
. ver PLANTA DO PAVIMENTO TIPO 1:500 (p.64).

4. adaptação de algumas unidades habitacionais do edifício São Vito para espaços comuns do pavimento cujo uso será
definido durante a ocupação, com preferência para lavanderias coletivas.

5. sistema de captação de água da chuva pela cobertura e sistema de aquecimento solar de água através da disposição
do encanamento na fachada;
. ver desenho esquemático do encanamento externo (p.69).

6. com algumas destas medidas serão melhorados os acessos de ventilação e iluminação natural aos corredores internos
tanto no edifício São Vito quanto no edifício Mercúrio;
. ver planta esquemática (p.68).
MERCÚRIO E SÃO VITO . 63

[
.4.1 ] PROPOSTAS PARA O CONJUNTO
3 2 4

ESCALA 1:500 4
PLANTA ORIGINAL DO PAVIMENTO-TIPO com a indicação das intervenções a serem realizadas no conjunto
64 .
.4.1 ] PROPOSTAS PARA O CONJUNTO
[ MERCÚRIO E SÃO VITO

ESCALA 1:500
PLANTA DO PAVIMENTO-TIPO (nova circulação vertical para São Vito e Mercúrio com escada com seguranca contra incendio)
MERCÚRIO E SÃO VITO . 65

[
.4.1 ] PROPOSTAS PARA O CONJUNTO
ESCALA 1:500
IMPLANTAÇÃO (novas caixas de circulação vertical, novos acessos, nova configuração da calçada)
66 .
.4.1 ] PROPOSTAS PARA O CONJUNTO
[ MERCÚRIO E SÃO VITO

ESCALA 1:750
CORTE GERAL (novas caixas de circulação vertical)
MERCÚRIO E SÃO VITO . 67

[
.4.1 ] PROPOSTAS PARA O CONJUNTO
ESCALA 1:250
CORTE (novas caixas de circulação vertical)
68 .
.4.1 ] PROPOSTAS PARA O CONJUNTO
[ MERCÚRIO E SÃO VITO

PLANTA ESQUEMÁTICA mostrando a iluminação e ventilação natural conseguida com as novas aberturas
MERCÚRIO E SÃO VITO . 69

[
.4.1 ] PROPOSTAS PARA O CONJUNTO
ESQUEMA dos tijolos de vidro mostrando a iluminação e ventilação natural conseguida com a nova abertura;
ESQUEMA dos novos encanamentos externos na fachada do São Vito e do Mercúrio.
70 . MERCÚRIO E SÃO VITO
MERCÚRIO E SÃO VITO . 71

[
.4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO
[ .4.2] PROPOSTA PARA A REOCUPAÇÃO DO EDIFÍCIO SÃO VITO

[ .4.1.1] a proposta ....................................................................................................................................71


. antecedentes, decisão e formas de implementação;
. apresentação de três formas de gestão condominial presentes em edifícios de habitação social;
. apresentação de três propostas.

[ .4.1.2] as intervenções ..............................................................................................................................85


72 . MERCÚRIO E SÃO VITO

. ANTECEDENTES . justificativas da escolha


. importantes questões que guiaram a proposta

. A DECISÃO . a proposta

. FORMAS DE AÇÃO . como a decisão será colocada em prática


. quais as intervenções arquitetônicas
MERCÚRIO E SÃO VITO . 73

[
.4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO
. ANTECEDENTES . a situação física em que o edifício São Vito se encontrava antes da intervenção do governo Marta:
falta de manutenção dos equipamentos comuns (como os elevadores, corredores internos, aces-
sos e fachada), realização de “gatos” para energia elétrica (que deixou a fiação exposta aumen-
tando o risco de incêndio) e não pagamento das contas com a FAPESP (devido a uma grande por-
centagem de moradores que não pagavam a taxa de condomínio);
. gestão condominial atual do edifício (quais as alternativas de gestão condominial comumente utili-
zada em edifícios de habitação social e, dentre eles, qual seria o mais interessante para o edifício
São Vito, muito grande e com uma grande quantidade de apartamentos).

. A DECISÃO . reocupar o edifício São Vito


. mudar a relação do morador com os espaços comuns edifício: não mais visto como “propriedade de
ninguém” ou “propriedade deles”, mas “nossa propriedade”;
. forte presença do profissional (não somente o arquiteto) durante a reforma do edifício e no momento
da ocupação criando condições para que estes espaços sejam mantidos pela população moradora;

. FORMAS DE AÇÃO . para a reocupação do edifício será exposta três propostas diferentes, a primeira realizada pelos
arquitetos Roberto Loeb e Helena Saia durante o governo Marta e as outras duas são “contra-
propostas” desenvolvidas neste TFG.
. as propostas serão apresentadas de acordo com a propriedade: a primeira proposta, do Rober-
to Loeb e Helena Saia, propõe a co-propriedade do edifício, ou seja, parte do edifício de propri-
edade privada e parte de propriedade estatal; a segunda proposta aborda a propriedade priva-
da através do arrendamento residencial e a terceira proposta trata de propriedade estatal, onde
os pavimentos são alugados.
74 . MERCÚRIO E SÃO VITO

A mobilização dos movimentos de moradia para a viabilização de projetos é evidenciada principalmente na área central,
pois todos os projetos para moradores de cortiço, de reciclagem e reforma tem na sua história anos de reivindicação,
ocupação e perseverança. A organização prévia e a mesma origem dos moradores influenciam diretamente no sucesso
da gestão condominial. (SANCHES, 2008)
MERCÚRIO E SÃO VITO . 75

[
.4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO
GESTÃO CONDOMINIAL

AUTOGESTÃO . gestão independente do governo ou de uma administradora externa, pode ser realizada por um síndico
ou por uma organização dos moradores;
. o edifício Mercúrio tem uma autogestão com forte presença da síndica (dona Graça), assim como o
edifício Master, no Rio de Janeiro

ADMINISTRADORA EXTERNA . geralmente os edifícios de Habitação de Interesse Social cuja reforma foi financiada pela
Caixa Econômica Federal são administrados por uma empresa externa por exigência do
próprio programa de financiamento;
. o edifício Labor, cuja reforma foi financiada pela Caixa, tem uma administradora exter-
na, todavia seus moradores se organizam na limpeza dos pavimentos para diminuir os
gastos e se organizam para decidir para onde vão as despesas do condomínio; a admi-
nistradora age somente oficialmente, no momento de pagar as contas, mas na prática
são os moradores que administram.

ADMINISTRAÇÃO DO PODER PUBLICO . ocorre em casos de locação social em que o edifício e o apartamento são pro-
priedades do governo e alugados por um valor proporcional à renda familiar
do inquilino (geralmente 10% da renda);
. o empreendimento Parque do Gato é de propriedade do governo e funciona
com o aluguel social.
76 .
[ .4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO MERCÚRIO E SÃO VITO

FOTO: Edifício Labor, rua Brigadeiro Tobias, 298. São Paulo.


FONTE: reabilita.pcc.usp.br

EXEMPLO 1: Edifício Labor


. localização: Rua Brigadeiro Tobias, n.º 298;
. edifício com 9 pavimentos, além do térreo e subsolo;
. obras de reabilitação concluídas em janeiro de 2004;
. 84 unidades habitacionais criadas.
MERCÚRIO E SÃO VITO . 77

[
.4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO
FOTO: capa do DVD do Documentário “Edifício Master” do diretor Eduardo Cou-
tinho
FONTE: www.paradoxo-rs.blogger.com.br

EXEMPLO 2: Edifício Master


"Eu queria botar um prédio bonito, digno, descente... Graças a Deus eu consegui. Eu uso muito Piaget. Quando não dá
certo, eu parto para Pinochet", declara o síndico do edifício Master, no Rio de Janeiro, Sérgio Cases.
78 .
[ .4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO MERCÚRIO E SÃO VITO

FONTE: www.lobarquitetura,com,br
MERCÚRIO E SÃO VITO . 79
CO-PROPRIEDADE PRIVADA E ESTATAL - arrendamento residencial das unidades e es-
paços institucionais no térreo, sobrelojas e cobertura.

[
.4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO
. proposta dentro do projeto dos arquitetos Roberto Loeb e Helena Saia para a reforma do edifício São Vito;
. os apartamentos são arrendados para as famílias atingidas pelo programa, e os espaços no térreo, sobrelojas e cober-
tura são de propriedade estatal

INSTRUMENTO DE FINANCIAMENTO . PAR - Programa de Arrendamento Residencial


. programa da Caixa Econômica Federal destinado a famílias com renda mensal de 3 a 6 salários mínimos. As unidades
habitacionais são arrendadas por 180 meses, com taxa mensal de 0,7% do valor da unidade. Após esse período, as fa-
mílias têm a propriedade do imóvel.

GESTÃO CONDOMINIAL . administradora externa


. este tipo de gestão é normalmente requisito para os programas de arrendamento da Caixa Econômica Federal

FORMA DE OCUPAÇÃO
. o edifício será dividido em dois condomínios com acessos independentes;
. o número de unidades originalmente será diminuído de 555 apartamentos do projeto original para 375 apartamentos
divididos em dois condomínios com 200 e 175 unidades cada.

ADMINISTRAÇÃO
. os espaços públicos são administrados pelo governo e os condomínios por uma administradora externa.

PROPRIEDADE
. esta proposta não muda as formas habituais de lidar com a propriedade - propriedade privada ou propriedade pública
- apesar de as duas coexistirem em um mesmo edifício.

PRESENÇA DO GOVERNO
. somente nos espaços institucionais.

RISCOS
. a diminuição significativa do número de unidades e, conseqüentemente, aumento da metragem das unidades individu-
ais pode estimular um processo “gentrificação”;
. algumas pesquisas e experiências indicam que a gestão condominial por administradora externa em habitações de
interesse social não garante a integridade e manutenção dos espaços comuns do edifício e os moradores tem grande
dificuldade em se identificar com os espaços do edifício.
80 .
[ .4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO MERCÚRIO E SÃO VITO

ESQUEMA: explicação dos con-


domínios horizontais e da admi-
nistração central (a composição
e suas respectivas responsabili-
dades).
MERCÚRIO E SÃO VITO . 81
PROPRIEDADE PRIVADA - arrendamento residencial

[
.4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO
. os apartamentos são arrendados para as famílias atingidas pelo programa, que depois de quitado o apartamento
(normalmente 180 meses) têm a propriedade do mesmo.

INSTRUMENTO DE FINANCIAMENTO . PAR - Programa de Arrendamento Residencial


. programa da Caixa Econômica Federal destinado a famílias com renda mensal de 3 a 6 salários mínimos. As unidades
habitacionais são arrendadas por 180 meses, com taxa mensal de 0,7% do valor da unidade. Após esse período, as fa-
mílias têm a propriedade do imóvel.

GESTÃO CONDOMINIAL
. a forma pela qual os apartamentos serão ocupados estimula uma organização entre os moradores e sugere o forma-
to da autogestão.

FORMA DE OCUPAÇÃO
. as famílias atingidas pelo programa receberão não mais uma unidade habitacional fechada, mas um espaço proporcio-
nal ao tamanho da família em um pavimento determinado do edifício.
. para que este espaço “virtual” ganhe forma, todas as famílias que irão “habitar” deverão se reunir antecipadamente -
com a presença de um profissional - para decidir as suas unidades.

ADMINISTRAÇÃO
. o edifício de vinte e cinco pavimentos será então dividido em doze “condomínios horizontais” de dois pavimentos cada;
. estes condomínios gerem seus espaços comuns independentemente da administração geral
. cada ”condomínio horizontal” tem um representante perante a administração geral.

PROPRIEDADE
. esta proposta não muda as formas habituais de lidar com a propriedade.

PRESENÇA DO GOVERNO
. o governo tem forte presença no momento da ocupação e alguma presença no início da pós-ocupação, dando condi-
ções que o a manutenção do condomínio seja realizada com uma organização dos moradores sem mais interferir na
manutenção do mesmo.

RISCOS:
. ausência de qualquer controle externo da administração condominial na pós-ocupação, a proposta apenas estimula e
propõe uma organização, mas deixa livre para os moradores;
. esta liberdade dada para a organização dos moradores pode provocar diferentes soluções para a administração.
82 .
[ .4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO MERCÚRIO E SÃO VITO

ESQUEMA: explicação dos espaços virtuais (a forma pela qual os moradores terão definidos o tamanho de suas unidades)
MERCÚRIO E SÃO VITO . 83

[
.4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO
O trabalho social desde a mobilização até o pós-morar é de fundamental importância para o sucesso da gestão condomi-
nial, pois é necessário o conhecimento da população a ser beneficiada, a preparação e capacitação com direitos e deve-
res para a nova forma de morar em condomínio e o trabalho sócio educativo na pós-ocupação. O poder público não está
preparado, mas deve realizá-lo em todos os programas habitacionais, através de profissionais gabaritados.
(SANCHES, 2008)
84 . MERCÚRIO E SÃO VITO
MERCÚRIO E SÃO VITO . 85
PROPRIEDADE ESTATAL- locação social

[
.4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO
. o edifício é de propriedade estatal e os pavimentos são alugados para uma comunidade - um conjunto de moradores
que terão o direito comum de uso dos espaços.

INSTRUMENTO DE FINANCIAMENTO . locação social


. o instrumento do governo aluga os apartamentos à famílias - com renda de até três salários mínimos - por valores
compatíveis a seus rendimentos (normalmente este valor é 10% da renda familiar);
. neste caso os locatários não seriam uma família, mas sim uma comunidade que “alugaria” o pavimento;
. não existe no Brasil nenhuma lei relativa à propriedade comum.

GESTÃO CONDOMINIAL . autogestão


. a comunidade gere o pavimento inteiro, enquanto o governo mantém os espaços comuns do edifício.

FORMA DE OCUPAÇÃO
. as unidades devem ser resolvidas de forma que exista uma maleabilidade no projeto arquitetônico mesmo depois de
ter as unidades ocupadas;
. a solução arquitetônica deve responder a uma forma não rígida de ocupação das unidades, visto que as famílias que
usam uma unidade podem tanto crescer (com o nascimento de filhos), quanto diminuir (quando, por exemplo, filhos
casam e vão constituir família) e os apartamentos deverão seguir essa maleabilidade.

PROPRIEDADE
. esta proposta é mais ousada ao mudar o conceito de propriedade privada aproximando-se ao conceito de propriedade
comum;
. uso coletivo do imóvel.

PRESENÇA DO GOVERNO
. o governo municipal tem a posse do edifício e é responsável pela manutenção da circulação vertical e dos espaços no
térreo, na sobrelojas e na cobertura, podendo dar a eles usos públicos através de equipamentos públicos- como no pro-
jeto do arquiteto Roberto Loeb e Helena Saia.

RISCOS:
. um formato de autogestão “imposto” é uma das críticas de Francisco de Oliveira em relação aos mutirões autogeridos.
86 . MERCÚRIO E SÃO VITO
MERCÚRIO E SÃO VITO . 87

[
.4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO
INTERVENÇÕES ARQUITETÔNICAS . procuram responder espacialmente as duas propostas apresentadas.

CIRURGIA . são intervenções que aproveitam ao máximo a estrutura existente do edifício São Vito de lajes, pilares,
vigas e divisórias;

ELEMENTOS ESTRUTURAIS . criação de um novo sistema hidráulico e elétrico através da implementação de shafts es-
truturais e a criação de um banheiro modulado que pode existir ou não conforme as novas divisões das unidades;

.
MALEABILIDADE DAS UNIDADES . permite a variação das unidades dentro do padrão a seguir (cada pavimento terá

intervenções arquitetônicas
diferentes quantidades de unidades pequenas, médias e grandes colocadas de forma independente):
. unidades menores: de 23m\ a 28m\, mantém as quitinetes do projeto original (pode atender uma pessoa ou um
casal);
. unidades médias: de 30m\ a 44m\, são formadas basicamente por uma quitinete e meia (podem atender
aproximadamente um casal e dois ou tres filhos);
. unidades maiores: de 47m\ a 49m\, resultado da união de duas quitinetes (para atender as famílias mais
numerosas);

MALEABILIDADE DENTRO DOS APARTAMENTOS . divisórias de gesso construídas a partir de um modelo flexível dão
grande liberdade na ocupação.
88 .
[ .4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO . intervenções arquitetônicas
ESQUEMA: explicação do módulo dos banheiros

MERCÚRIO E SÃO VITO


. 89
MERCÚRIO E SÃO VITO [ .4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO . intervenções arquitetônicas

ESQUEMA: explicação das divisórias de gesso


90 .
intervenções arquitetônicas
. MERCÚRIO E SÃO VITO

CORTE AA CORTE BB
[ .4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO

ESCALA 1:100 ESCALA 1:100

A A

PLANTA DA UNIDADE MENOR destacando os novos shafts de hidráulica e elétrica


ESCALA 1:100
MERCÚRIO E SÃO VITO . 91

[
.4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO
CORTE AA CORTE BB
ESCALA 1:100 ESCALA 1:100

.
intervenções arquitetônicas
B

PLANTA DA UNIDADE MENOR destacando os novos shafts de hidráulica e elétrica


ESCALA 1:100
92 .
intervenções arquitetônicas MERCÚRIO E SÃO VITO

unidades médias: de 30m\ a 44m\, são formadas basicamente por uma quitinete e meia (podem atender
.
[ .4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO

unidades maiores: de 47m\ a 49m\, resultado da união de duas quitinetes (para atender as famílias mais numerosas);
MERCÚRIO E SÃO VITO . 93

[
.4.2 ] PROPOSTAS PARA REOCUPAÇÃO DO SÃO VITO
unidades menores: de 23m\ a 28m\, mantém as quitinetes do projeto original (pode atender uma pessoa ou um casal)

.
intervenções arquitetônicas
94 .
[ .4.3 ] REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS MERCÚRIO E SÃO VITO

CORBELLA, Oscar; YANNAS, Simmos. Em busca de uma arquitetura sustentável para os trópicos: conforto ambiental.
CREMBIL, Gustavo e CAPITANELLI, Pablo. ARQUITETURA TÁTICA – Uma breve convocatória para uma prática arquitetô-
nica furtiva, horizontal e inclusiva. www.rizoma.net
LAGUEAUX, Maurice Arquitetura e Participação. www.rizoma.net
LENGEN, Johan van. Manual do arquiteto descalço.Rio de Janeiro : Tibá, 2004.
MARICATO, Ermínia. Brasil, cidades. Alternativas para a crise urbana. Petrópolis: Editora Vozes, 2002. (texto:
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VIANNA, Nelson Solano ; GONÇALVES, Joana Carla S. Iluminação e Arquitetura. São Paulo: Virtus, 2001.
FAPERJ. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2003.

MEMET, Adnan; PRADO,Ana Paula; FAGGION, Flavio; RADOLL, Gabriella; HISAYASU, Thelma e BOERENDONK, Thomas.
“Programa Recupera. Estabelecimento de uma política pública para habitação. Estudo de caso: Edifício Júlia Cristianini”.
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LOPES, Ana Carolina Louback e DOMENICO, Anita R. Tan De.
“Largo do Paissandu. Intervenção com inclusão”. Trabalho Final de Graduação. FAUUSP - 2002. Orientador: Prof. João
Sette Whitaker Ferreira
DOLCE, Monica “Avaliação do desempenho técnico construtivo do Edifício União”. Trabalho para a disciplina AUT5828,
FAUPGR - 2008
SANCHES, Débora. “Gestão Condominial de Habitação de Interesse Social”. Dissertação de Mestrado. São Paulo: IPT,
2008. Orientação: Prof. Dr. Ricardo de Souza Moretti
CARLOS, Ana Fani Alessandri. Espaço-tempo da vida cotidiana na metrópole. São Paulo: FFLCH – Departamento de Geo-
grafia, 2000.
MERCÚRIO E SÃO VITO . 95

[ .4.3 ] REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


Biker Wall, moradia coletiva em Newcastle, Inglaterra.
Arquiteto: Ralph Erskine (membro do Team 10)
“Tabula Rose”. Processo de projeto participativo.
Escritório de arquitetura com sede em Paris: Polimorph www.polimorph.net
Projeto de Reforma para o Edifício São Vito
Arquitetos: Roberto Loeb e Helena Saia
Ano: 2004
Edifício Máster. Diretor Eduardo Coutinho.
www.laa-courneuve.net
www.laacourneuve.wordpress.com
www.laa.archi.fr
www2.cronologiadourbanismo.ufba.br
www.urbanismocontemporaneo.com.br
www.vitruvius.com.br
www.pucsp.br/artecidade
www1.folha.uol.com.br
www.vivaocentro.org.br
www.laboratoriourbano.ufba.br
www.rizoma.net
www.osservatorionomade.net
www.polimorph.net
www.planum.net/journals/spaceandsociety.html
archi_villes_mondialisation.paris-belleville.archi.fr
www1.caixa.gov.br

Diagnóstico Integrado e Participativo realizado pela Diagonal Urbana Consultoria, sob coordenação da SEHAB - Secretari-
a Municipal de Habitação, dentro do Programa HABICENTRO e financiado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvi-
mento)
http://www.diagonalurbana.com.br

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