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Antonio Quinet

Maria Angélica Peixoto


Nildo Viana
Raimundo Lima

Psicanálise, Capitalismo e
Cotidiano
Antonio Quinet
Maria Angélica Peixoto
Nildo Viana
Raymundo Lima

Psicanálise, Capitalismo e
Cotidiano

Edições
Germinal
© Todos os Direitos Reservados para esta edição à Edições Germinal
Capa: Nildo Viana
Edições Germinal
Goiânia – Goiás
2002

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Germinal
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Índice

Apresentação 07

Universo Psíquico e Reprodução do Capital 09


Nildo Viana

Normalidade, Excepcionalidade e Capitalismo 25


Maria Angélica Peixoto

A Ciência Psiquiátrica nos Discursos da Contemporaneidade 31


Antonio Quinet

Crítica do Gozo Capitalista 39


Raymundo Lima

Super-Heróis, Axiologia e Inconsciente Coletivo 43


Nildo Viana

As Novas Formas do Sintoma na Medicina 61


Antonio Quinet

O Significado do Natal 68
Nildo Viana

O Tempo da Saturação 73
Raymundo Lima

Psicanálise dos Filmes de Terror 76


Nildo Viana
Sobre os Autores:

Antônio Quinet – Psiquiatra, psicanalista, Doutor em Filosofia pela


Universidade Paris VIII, membro da Escola de Psicanálise do Campo
Lacaniano, professor do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, autor de As 4+1
Condições da Análise (Rio de Janeiro, Jorge Zahar), Teoria e Clínica da
Psicose (Forense Universitária), A Descoberta do Inconsciente – Do Desejo
ao Sintoma (Rio de Janeiro, Jorge Zahar) e Um Olhar a Mais – Ver e Ser
visto na Psicanálise (Rio de Janeiro, Jorge Zahar).

Maria Angélica Peixoto – Socióloga, Especialista em Aprendizagem e


Diferenças/UFG; Mestre em Sociologia/UnB; Professora da Universidade
Católica de Goiás; Autora do Livro Inclusão ou Exclusão? O Dilema da
Educação Especial (Goiânia, Edições Germinal, 2002) e de artigos em
revistas e coletâneas.

Nildo Viana – Graduado em Ciências Sociais, Especialista e Mestre em


Filosofia, Mestre em Sociologia/UnB; Doutor em Sociologia/UnB. Professor
da Universidade Estadual de Goiás e autor de diversos artigos e livros, entre
os quais Escritos Metodológicos de Marx (Goiânia, Edições Germinal,
1998/2001); A Questão da Causalidade nas Ciências Sociais (Goiânia,
Edições Germinal, 2001); A Filosofia e Sua Sombra (Goiânia, Edições
Germinal, 2000); Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico (Goiânia,
Edições Germinal, 2002); Violência Urbana: A Cidade Como Espaço
Gerador de Violência (Goiânia, Edições Germinal, 2002).

Raymundo Lima – Graduado em Psicologia em 1980, Mestre em Psicologia


Escolar (1985). Professor do Depto. de Fundamentos de Educação, na área de
Metodologia e Técnica de Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá.
Atualmente cursa o Doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo
(USP). Segue a linha de pesquisa Pensamento em Psicanálise, licenciado da
Biblioteca Freudiana de Curitiba – Centro de Psicanálise. Em Maringá, é
fundador do grupo Ato: Transmissão em Psicanálise, onde também escreve,
mensalmente, assuntos sobre Psicanálise, Educação e Sociedade no jornal
local (Maringá Missão – da Arquidiocese) e no Site:
www.espacoacademico.com.br
Apresentação

O mundo contemporâneo traz a marca do existente em crise e do novo


existente em germe, mas ainda-não-existente. Existe uma crise? Na verdade,
a crise apenas nos ronda, está esboçada. Sabemos dela pelos sinais que nos
envia. Os sinais da crise apontam para a necessidade de repensar a sociedade
existente, repensar o capitalismo, que muitos haviam falado do seu triunfo
definitivo e de sua insuperabilidade. Mas pensar hoje o capitalismo significa
pensar não só o modo de produção capitalista e seu desenvolvimento mas
também seu cotidiano, sua reprodução, suas contradições, suas minúcias,
seus sinais e sintomas. Daí a importância dos artigos aqui presentes,
abordando tais elementos e realizando uma avaliação do mundo em que
vivemos.
Mas que sinais são estes? Os sinais da crise, que nos ronda, podem ser
vistos no processo de produção, de distribuição, de reprodução do
capitalismo e no nosso cotidiano. A destruição ambiental em escala nunca
vista antes na história da humanidade começa a mostrar seus efeitos nefastos,
sendo um dos sinais do qual falamos. Apesar das denúncias da destruição
ambiental e dos seus efeitos concretos sobre parte da população, nada se faz
para impedir a deterioração geral do meio ambiente, demonstrando que a
racionalidade do capitalismo gera a irracionalidade dos seres humanos, isto é,
a dinâmica do capitalismo produz seres humanos que realizam sua auto-
destruição ou deixam que outros o façam sem agir e lutar contra isto. A falta
de percepção da realidade, onde os seres humanos se refugiam no mundo
imaginário, seja o da virtualidade e das ilusões da informática, seja no mundo
das drogas ou das finanças, é apenas outro sinal de uma sociedade que se
deteriora ao transformar o artificial em mediação geral das relações sociais, o
que faz os indivíduos não darem mais conta de distinguir entre o real e o
imaginário, entre a determinação e o determinado. Os problemas psíquicos
(que recebem os nomes da moda, de acordo com a classificação dos
especialistas, produtores e reprodutores do mercado consumidor composto
pelos portadores de tais problemas, consumidores de remédios, terapias,
psicocirurgias etc.) assolam os seres humanos, condenados ao trabalho
alienado, ao lazer alienado, ao mundo generalizado da alienação, da
burocratização e mercantilização das relações sociais.
Outros sinais estão na nossa frente, basta vermos o crescimento da
violência criminal, o aumento da miséria e do desemprego, as dificuldades de
reprodução de países capitalistas subordinados, o fortalecimento da extrema-
direita (fascismo e neonazismo) e o ressurgimento das buscas de alternativas
e do esquerdismo, a ameaça de guerra, o crescimento de seitas religiosas e do
extremismo religioso, a evaporação da estabilidade social, a nova
configuração da organização do trabalho e das relações de trabalho marcadas
pelo aumento da exploração e uso de “métodos secundários de exploração
capitalista”, a supremacia do neoliberalismo e da ideologia do mercado
enquanto regulador absoluto das relações sociais. Milhares de outros sinais
do tempo poderiam ser colocados, mas bastam estes para se ver que algo está
acontecendo e que o resultado deste processo poderá ser o caos ou uma nova
sociedade.
Como explicar estes sinais? A psicanálise assume um papel importante
para explicar alguns destes sinais. Ela consegue revelar o que muitas
ideologias ocultam, inclusive a irracionalidade das ações humanas num
mundo destrutivo, ou melhor, auto-destrutivo. Assim, os textos aqui
presentes apontam para uma melhor compreensão de aspectos do capitalismo
e do cotidiano através de um conjunto de artigos e análises que bebem na
fonte da psicanálise, através de uma pluralidade de contribuições.
No artigo Universo Psíquico e Reprodução do Capital temos uma visão
geral do modo de produção capitalista e seus efeitos sobre a mentalidade dos
indivíduos. Já em Normalidade, Excepcionalidade e Capitalismo temos uma
visão que coloca em questão a idéia de normalidade e a produção capitalista
de “normais” e “anormais”, bem como dos efeitos sobre os “excepcionais”.
Em A Ciência Psiquiátrica e Os Discursos da Contemporaneidade temos a
relação instituída entre o discurso capitalista e o discurso psiquiátrico,
revelando as fontes da ideologia científica nesta área do saber. Em Crítica ao
Gozo Capitalista temos a análise de como o capitalismo cria um gozo
artificial, consumista, e a visão do seu caráter ilusório. Os demais artigos
tratam de temáticas do cotidiano de forma crítica: Super-Heróis, Axiologia e
Inconsciente Coletivo aborda estes seres das revistas em quadrinhos como
expressão dos valores dominantes e ao mesmo tempo do desejo coletivo de
liberdade, revelando seu caráter contraditório; As Novas Formas de Sintoma
na Medicina mostra a relação entre medicina e capitalismo, mostrando
elementos nem sempre perceptíveis em tal relação; O Significado do Natal
mostra a mercantilização do natal e no seu efeito de produção de desejo
inautêntico e de pseudestesia coletiva de alegria; O Tempo da Saturação
também aborda a questão da mercantilização do natal e o relaciona com o
tempo e sua percepção; Psicanálise dos Filmes de Terror busca descobrir a
dinâmica de produção destes filmes, relacionando-os com o psiquismo de
seus produtores.
Enfim, um conjunto de artigos que nos ajudam a pensar o cotidiano e o
capitalismo a partir da contribuição teórica da psicanálise, valendo-se de suas
correntes culturalista, lacaniana e freudo-marxista.
Universo Psíquico e Reprodução
do Capital
Nildo Viana

“O coração faz revoluções, a


cabeça reformas; a cabeça põe as
coisas em posição, o coração põe-
nas em movimento. Mas só onde
existe movimento, efervescência,
paixão, sangue, sensibilidade, aí
reside também o espírito.”
Ludwig Feuerbach

A sociedade capitalista se fundamenta na exploração e alienação de


milhões de seres humanos. No entanto, tal sociedade vem se reproduzindo
durante séculos. Sem dúvida, existe aqueles que resistem, lutam. As lutas
operárias do século 19 e 20 demonstraram que existe um potencial
revolucionário adormecido que em momentos de crise despertam. No
entanto, a reprodução do capitalismo é o cotidiano, o permanente. Quais são
os elementos que permitem a reprodução da dominação do capital? Existem
vários elementos, mas aqui iremos destacar o universo psíquico,
especialmente a mentalidade, como um dos mais importantes destes
elementos. Obviamente que o conceito de mentalidade está relacionado com
outros conceitos, tais como os de inconsciente, repressão, sociabilidade, entre
outros, pois aqui se trata de pensar a reprodução do capital a partir de uma
análise marxista, assimilando a contribuição da psicanálise, o que nos leva a
não isolar – o que seria um procedimento ideológico – os aspectos da
realidade, que estão inseridos numa totalidade concreta. Assim, iremos
analisar a relação entre universo psíquico e reprodução do capital a partir das
contribuições de autores como Freud, Fromm, Marcuse, entre outros.
Freud e Marcuse fornecem elementos teóricos que nos ajudam a
compreender o universo psíquico. O conceito freudiano de “aparelho mental”
é fundamental:
“Ao longo dos vários estágios da teoria de Freud, o aparelho
mental aparece-nos como uma união dinâmica de opostos: do
inconsciente e das estruturas conscientes; dos processos primários e

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


9
secundários; das forças herdadas, ‘constitucionalmente
determinadas’, e das adquiridas; da realidade psicossomática e da
externa. Essa construção dualista continua a prevalecer mesmo na
posterior topologia tripartida do id, ego e superego; os elementos
intermediários e ‘sobrepostos’ tendem para os dois pólos. encontram
sua mais impressionante expressão nos dois princípios básicos que
governam o aparelho mental: o princípio de prazer e o princípio de
realidade”1.
Para Freud, a satisfação das necessidades humanas só pode ser realizada
através do controle sobre a natureza. Este controle se realiza por intermédio
do trabalho e isto faz com que toda civilização realize uma coerção ao
trabalho e a repressão aos instintos. Segundo Freud:
“Expressando-o de modo sucinto, existem duas características
humanas muito difundidas, responsáveis pelo fato de os regulamentos
da civilização só poderem ser mantidos através de certo grau de
coerção, a saber, que os homens não são espontaneamente amantes
do trabalho e que os argumentos não tem valia alguma contra suas
paixões”2 .
Portanto, a dicotomia entre princípio de prazer e princípio de realidade
surge devido as condições de produção e reprodução da vida material
pressionarem os indivíduos para que trabalhem e renunciem aos seus
instintos. Posteriormente, Freud utiliza os conceitos de id, ego e superego
para analisar o aparelho mental. No id reside os “instintos orgânicos” de um
indivíduo, expressões do instinto de Eros e do instinto de destrutividade3. No
ego, realiza-se a percepção consciente e é dirigido por considerações de
segurança. O ego realiza uma mediação entre o id e o mundo externo. Isto,
entretanto, só ocorre até, aproximadamente, a idade de cinco anos, pois nesta
época ocorre uma mudança:
“Uma parte do mundo externo foi, pelo menos parcialmente,
abandonada como objeto e foi, por identificação, incluída no ego,
tornando-se assim parte integrante do mundo interno. Esse novo
agente psíquico continua a efetuar as funções que até então haviam
sido desempenhadas pelas pessoas do mundo externo: ele observa o
ego, dá-lhe ordens, julga-o e ameaça-o com punições, exatamente
como os pais cujo lugar ocupou. Chamamos este agente de superego e

1
MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização – Uma Interpretação Filosófica do
Pensamento de Freud. 8a edição, Rio de Janeiro, Guanabara, 1988, p. 41-42.
2
FREUD, Sigmund. O Futuro de Uma Ilusão. In: Col. Os Pensadores. São Paulo, Abril
Cultural, 1978, p. 89.
3
“O id obedece ao inexorável princípio de prazer” (FREUD, S. Esboço de Psicanálise.
In: ob. cit. p. 239.)
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
10
nos damos conta dele, em suas funções judiciárias, como nossa
consciência. É impressionante que o superego freqüentemente
demonstre uma severidade para a qual nenhum modelo foi fornecido
pelos pais reais, e, ademais, que chame o ego a prestar contas não
apenas de suas ações, mas igualmente dos seus pensamentos e
intenções não executadas, das quais o superego parece ter
conhecimento”4.
É esta introjeção da “razão” e da “racionalidade” submetida ao princípio
de realidade que é denunciada por Marcuse:
“Sob o princípio de realidade, o ser humano desenvolve a função
da razão: aprende a ‘examinar’ a realidade, a distinguir entre bom e
mau, verdadeiro e falso, útil e prejudicial. O homem adquire as
faculdades de atenção, memória e discernimento. Torna-se um sujeito
consciente, pensante, equipado para uma racionalidade que lhe é
imposta de fora. Apenas um modo de atividade mental é ‘separado’
da nova organização do aparelho mental e conserva-se livre do
domínio do princípio de realidade: é a fantasia, que está ‘protegida
das alterações culturais’ e mantém-se vinculada ao princípio de
prazer. Em tudo o mais, o aparelho mental está efetivamente
subordinado ao princípio de realidade”5 .
Portanto, a relação entre princípio de prazer e princípio de realidade é
fundamental para se compreender o funcionamento do universo psíquico do
indivíduo. Acontece que a teoria de Freud e o “complemento” de Marcuse
apresentam alguns equívocos que devem ser colocados. Marcuse demonstrou
que a concepção freudiana do princípio de realidade é conservadora. Freud,
ao considerar eterna a luta pela existência, o que significa que o princípio de
prazer e o princípio de realidade são inconciliáveis e que a repressão aos
instintos é insuperável, acaba realizando uma racionalização da sociedade
repressiva. Segundo Marcuse, o desenvolvimento tecnológico abre
perspectivas para a superação da “luta pela existência” e para a plena
satisfação das necessidades. Além disso, Marcuse busca “extrapolar” os
conceitos freudianos e acrescenta os conceitos de “mais-repressão”, que são
as restrições requeridas pela dominação social, e de “princípio de
desempenho”, que é a forma histórica predominante do princípio de realidade
na sociedade capitalista.
Marcuse avança em relação a Freud ao reconhecer o caráter histórico do
princípio de realidade. No entanto, o seu conceito de “mais-repressão” é
equivocado, pois a sua noção de uma “repressão básica” que seria necessária

4
FREUD, S. Esboço de Psicanálise. ob. cit. p. 245.
5
MARCUSE, H. ob. cit. p. 35. Devemos acrescentar aqui que esta introjeção é a da
racionalidade instrumental e dos valores burgueses que lhe acompanha.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
11
para se perpetuar a espécie humana é apenas citada mas não é fundamentada.
Que instintos essa repressão atinge? E, se estes instintos são reprimidos, eles
não povoarão o inconsciente e assim se perpetuará o antagonismo entre
princípio de prazer e princípio de realidade? Não existe algo como uma
“repressão básica” mas sim uma humanização de “instintos”, o que significa
uma alteração apenas na forma de sua realização e não sua supressão ou
repressão (ou mesmo “modificação”, como diz Marcuse).
O conceito de “mais-repressão” só tem valor se for compreendido como
uma “repressão excedente”, que é uma repressão intensiva, ou seja, superior à
vivida pela maioria das pessoas numa determinada sociedade e que excede a
capacidade humana de suportá-la sem provocar danos psíquicos6.
A definição marcuseana do princípio de realidade na sociedade capitalista
como “princípio de desempenho”, que é identificado com o “trabalho
alienado”, é produto de uma confusão. O trabalho alienado não é um
“princípio” e sim uma realidade, ou seja, é o próprio desempenho ou
realidade e não um princípio introjetado pelo indivíduo em sua consciência.
A confusão de Marcuse tem como base sua aceitação acrítica da teoria
freudiana. A civilização executaria o papel de coagir os seres humanos ao
trabalho e realizar a repressão sexual. Em primeiro lugar, os seres humanos
não são coagidos apenas ao trabalho; em segundo lugar, a repressão não é
apenas da sexualidade; em terceiro lugar, nem todos os seres humanos são
coagidos ao trabalho, pois em certas sociedades ou períodos históricos as
mulheres e/ou os membros da classe dominante são poupados do trabalho
social7.

6
Foi neste sentido que esta expressão foi utilizada em outro trabalho, escrito
posteriormente à versão original deste (cf. V IANA, Nildo. Inconsciente Coletivo e
Materialismo Histórico. Goiânia, Edições Germinal, 2002).
7
Outras teses de Marcuse são criticáveis, tais como: sua aceitação da ficção freudiana
da horda primitiva, mesmo reservando-lhe mero “valor simbólico”, pois o amplo
material historiográfico e etnográfico acumulado desde a época de Freud até os dias
de hoje deveriam ter sido utilizados para confirmar, refutar ou aprofundar as teorias
freudianas; a sua aceitação do “complexo de Édipo”, outra ficção freudiana, mesmo
retirando-lhe a importância; a sua defesa das “perversões sexuais” (veja-se, sobre
isto, uma crítica em: FROMM, E. A Descoberta do Inconsciente Social. São Paulo,
Manole, 1992); a sua postulação, juntamente com Freud da existência de um
“instinto de morte” (veja uma crítica em: MACINTIRE, A. As Idéias de Marcuse. São
Paulo, Cultrix); a sua abstração metafísica dos conceitos de “sociedade” e
“indivíduo”, que deixa de lado as divisões sociais (classe, sexo, raça, etc.), e
individuais; e , por fim, sua crítica equivocada ao “neofreudismo” de E. Fromm, K.
Horney e outros (para uma crítica, veja: V IANA, Nildo. Marcuse e a Crítica ao
Neofreudismo. In: http://orbita.starmedia.com/~nildoviana1/marcuse.html).
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
12
Por conseguinte, se negamos a definição marcuseana do princípio de
realidade estabelecido pela sociedade capitalista (o princípio de
desempenho), então devemos apresentar uma concepção alternativa do
princípio repressivo de realidade da sociedade burguesa. Se tal princípio é a
introjeção no universo psíquico (não utilizamos o conceito freudiano de
“aparelho” porque ele é produto de uma analogia que impõe limites à
realidade que busca expressar) do indivíduo de uma realidade, a nossa tarefa
é descobrir que realidade é essa que é introjetada.
O modo de produção capitalista cria uma sociedade competitiva. Esta
competição está presente entre os capitais individuais, que impulsiona a
acumulação de capital, e entre os trabalhadores que lutam pelo emprego de
sua força de trabalho. A competição se generaliza em toda a sociedade e
ultrapassa os marcos da produção para chegar até as relações de distribuição
e ao conjunto das relações sociais. Tal como colocou E. Fromm:
“O funcionamento econômico do mercado repousa sobre a
competição de muitos indivíduos que querem vender suas
mercadorias no mercado correspondente, assim como o seu trabalho
ou os seus serviços no mercado de trabalho e de personalidade. Esta
necessidade econômica de competição conduziu, especialmente na
segunda metade do século 19, a uma atitude cada vez mais
competitiva, caráctereologicamente falando. O indivíduo se sentia
compelido pelo desejo de ultrapassar o seu competidor, com o que
ficou totalmente invertida a atitude característica da época feudal,
segundo a qual cada um tinha na ordem social o seu lugar
tradicional com o qual devia contentar-se. Produziu-se, em
oposição à estabilidade social do regime feudal, uma mobilidade
social inaudita, na qual todos lutavam por conquistar os melhores
lugares, embora fossem poucos os escolhidos para ocupá-los. nessa
luta pelo sucesso ruíram as regras sociais e morais de solidariedade
humana; a importância da vida consistia em ser o primeiro em uma
corrida competitiva”8 .
A competição para ficar no cume da pirâmide social é revelada pela busca
de status, luta por ascensão social, etc. Esta competição social está presente
no conjunto das relações sociais capitalistas. Além disso, o modo de
produção capitalista cria um processo de crescente mercantilização e
burocratização das relações sociais. A mercantilização das relações sociais é
produto da expansão da produção capitalista de mercadorias que se
generaliza e invade todos os setores da vida social. Os meios de produção, os
meios de consumo e a força de trabalho tornam-se, sob o capitalismo,

8
FROMM, E. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. 8a Edição, Rio de Janeiro,
Zahar, 1976, p. 95.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
13
mercadorias e com o desenvolvimento capitalista tudo passa a ser medido
pelo seu valor de troca, inclusive as pessoas. Embora isto não ocorra
diretamente, as pessoas passam a ser avaliadas não pelo que são e sim pelo
que possuem. Simultaneamente, as pessoas interiorizam isto e passam a se
avaliar pelo que possuem e não pelo que são9. Se as pessoas passam a ser
avaliadas pelo que possuem, então o consumismo desenfreado será
incentivado tanto pela competição social quanto pela compulsão automática
pelo ter como satisfação substitutiva à repressão das potencialidades humanas
realizadas pela sociedade capitalista.
A burocratização das relações sociais é provocada pelo desenvolvimento
do modo de produção capitalista que aumenta a intervenção estatal, expande
o setor de serviços, desenvolve a “sociedade civil organizada” e expande o
domínio burocrático nas empresas privadas devido ao processo de
oligopolização da economia. Portanto, a competição social, a mercantilização
e a burocratização das relações sociais são os elementos constitutivos da
sociabilidade capitalista. Por “sociabilidade” entendemos o conjunto das
relações sociais que realizam, no nível do cotidiano, a reprodução das
relações de produção dominantes. O modo de produção condiciona todas as
outras esferas da vida social criando um verdadeiro modo de vida à sua
imagem e é este último que denominamos sociabilidade10.
Este modo de vida, entretanto, não se implanta imediatamente com a
ascensão do modo de produção capitalista. Aqueles que denunciaram a
integração da classe operária no capitalismo devido ao aumento do seu nível
de renda viram apenas um lado da questão. Na verdade, tal integração
ocorreu graças à instauração de um modo de vida capitalista também no
interior da classe operária.
O que explica isso é o desenvolvimento capitalista. Este é um
desenvolvimento contraditório: ao mesmo tempo que precisa “revolucionar”
constantemente os meios de produção, ele necessita barrar este
desenvolvimento. Isto é provocado pela composição orgânica do capital e,
conseqüentemente, pela tendência à queda da taxa de lucro médio11. Mas o

9
cf. sobre isso: FROMM, E. Ter Ou Ser? 4a Edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1987;
FROMM, E. Do Ter ao Ser. São Paulo, Manole, 1992.
10
Vê-se, portanto, que o conceito de sociabilidade aqui exposto é totalmente
antagônico ao do sociólogo “formalista” G. Simmel. Este elabora o conceito de
sociabilidade tendo como “modelo” as reuniões da classe burguesa e por isso pode
postular sua “autonomia”, seu caráter “lúdico” e sua “artificialidade” (cf. MORAES
FILHO, E. (org.) Simmel. São Paulo, Àtica, 1983)
11
A composição orgânica do capital se caracteriza pelo dispêndio cada vez maior
que o capitalista é constrangido a realizar com os meios de produção, devido ao
valor incorporado neles pela força de trabalho, enquanto que o aumento de mais-
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
14
capitalismo, como demonstrou Marx, cria contra-tendências e busca evitar o
seu colapso. A partir das crises do capitalismo mundial que provocaram as
duas guerras mundiais, a classe dominante buscou superar esta tendência
através da intervenção estatal na produção-distribuição-circulação, da
expansão transnacional e da expansão da produção de meios de consumo e do
setor de serviços. É a partir da segunda guerra mundial que isto se generaliza
na Europa Ocidental e interfere no modo de vida da classe operária. A
burocratização das relações sociais já era uma realidade no início do século.
O estado, as empresas privadas e as instituições civis já manifestavam o
predomínio das relações burocráticas e foi isto que proporcionou o
“desencantamento do mundo” e a teoria da burocracia de Max Weber. A
classe operária também passava a conviver cada vez mais com o
burocratismo nas relações sociais. Tanto nas empresas quanto em suas
próprias organizações se instauravam relações sociais burocráticas12. Era
absolutamente visível a burocratização de partidos e sindicatos. Robert
Michels foi o primeiro grande critico da burocratização das organizações
operárias e avançou ao afirmar que os partidos políticos são “criadores de
novas camadas pequeno-burguesas”13. A burocracia partidária e os
representantes partidários no parlamento e no governo se autonomizam e
desligam-se da classe operária, tanto do ponto de vista material quanto do
teórico, formando as bases sociais do reformismo (com todas as suas
conseqüências: oportunismo, revisionismo de direita, eleitoralismo, etc.) dos
partidos social-democratas, “socialistas” e “comunistas”.
A burocratização dos partidos políticos “ditos” operários é reforçada pela
presença no seu interior da burocracia sindical. O marxismo, desde Engels,
realizou uma critica radical aos sindicatos, mas alguns dos “auto-intitulados”
marxistas não superaram certas ambigüidades14. O processo de
burocratização dos sindicatos também vem se reforçando cada vez mais com
o desenvolvimento capitalista.

valia relativa proporcionada pela força de trabalho se torna proporcionalmente


menor em relação a este dispêndio, o que leva à queda da taxa de lucro médio.
12
“É interessante observar que o espírito burocrático penetrou não só a administração
dos negócios e do governo, mas também os sindicatos e os grandes partidos
socialistas democráticos da Inglaterra, Alemanha e França (FROMM, E. Psicanálise
da Sociedade Contemporânea. ob. cit. p. 130).
13
cf. MICHELS, R. Sociologia dos Partidos Políticos. Brasília, UNB, 1982.
14
Veja-se, por exemplo, o caso de Trótski: para ele, a burocracia sindical é
reacionária e contra-revolucionária , e os sindicatos, “neutros” , social-democratas,
“comunistas”, e “anarquistas”, se degeneraram devido ao seu vínculo com o poder
estatal. Mesmo assim, segundo ele, deve-se continuar atuando neles, só que
“discretamente” para evitar a perseguição da burocracia sindical (cf.: TRÓTSKI, L.
Escritos Sobre Sindicatos. São Paulo Kairós, 1978)
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
15
Entretanto, a burocratização de partidos e sindicatos não foram suficientes
para impedir o desencadeamento da luta operária. A Revolução Russa, a
Revolução Húngara, a Revolução Italiana, a Revolução Alemã, entre outras,
demonstraram que a luta de classes no inicio do século estava se
radicalizando. A democracia representativa já era uma forma de dominação
burguesa, mas ainda não tinha a “eficácia política” que possui hoje.
A classe dominante, a partir de então, busca fazer da democracia burguesa
o principal ponto de apoio para sua dominação. O sistema parlamentar e o
sistema eleitoral são organizados de tal forma que, através da democracia
burguesa, não só fique impossibilitado o surgimento de “brechas
revolucionárias” como passa a ser uma fonte de corrupção dos movimentos
políticos de esquerda.
O grande feito do estado capitalista, a partir da segunda guerra mundial, é,
além da intervenção no processo de produção-distribuição-circulação de
mercadorias, a sua intervenção política nas instituições da sociedade civil. O
estado cria novas instituições estatais e amplia as que já existiam (exército,
polícia, escolas, hospitais, etc.) e busca controlar e regular o conjunto das
instituições da sociedade civil através da legislação, das exigências para
dotação de recursos e realização de convênios (o que também é realizado por
instituições privadas fundadas por empresas oligopolistas), etc. A chamada
“sociedade civil organizada” tem como função realizar uma “mediação
burocrática” entre sociedade e estado. Por isso, nada mais equivocado do que
postular uma estratégia política socialista baseada na luta pela conquista dos
“institutos democráticos” da sociedade civil, tal como preconizou Gramsci e
seus adeptos. Se Gramsci escreveu suas teses numa época em que a
“sociedade civil” ainda não era visivelmente uma “sociedade burocrática”, o
mesmo não vale para os gramscianos que com base no pensamento de
Gramsci justificam seu reformismo e capitulação diante das instituições
burocráticas.
A mercantilização das relações sociais invade o modo de vida da classe
trabalhadora a partir do fim da segunda guerra mundial. A produção
capitalista se expande para além das fronteiras da Europa Ocidental
(expansão transnacional), mas também invade lugares que antes eram
ocupados pela produção pré-capitalista. Os investimentos na produção de
meios de produção são, em parte, desviados para a produção de meios de
consumo.
A produção capitalista de meios de consumo surge visando atender
principalmente o consumo da burguesia e só num segundo momento o das
classes exploradas. A partir da segunda guerra mundial, produz-se novos
meios de consumo para a burguesia e também começa-se a produzir meios de
consumo para as massas trabalhadoras que antes tinham outra fonte. Segundo
A. Granou:
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
16
“Praticamente, pode dizer-se que, até cerca da metade do séc. 20,
os meios de subsistência das classes trabalhadoras provinham, para a
quase totalidade, da agricultura e dos pequenos artífices, isto é, de
setores de produção dominados pela pequena produção comercial”15.
O modo de vida capitalista cria relações mediadas pela mercadoria (e
pela burocracia). A produção capitalista invade a agricultura, o setor
de meios de consumo e busca incessantemente aumentar o consumo
produzindo “necessidades fabricadas”16 . A produção de meios de
consumo descartáveis e a obsolescência planejada de certos produtos
são outros meios que o capital utiliza para combater a tendência à
queda da taxa de lucro médio.
A expansão dos serviços sociais (tanto através das instituições estatais
quanto particulares) refletem um duplo processo: de burocratização e de
mercantilização das relações sociais. As instituições estatais, evidentemente,
apresentam um menor grau de mercantilização e um maior grau de
burocratização, enquanto que nas instituições privadas ocorre o fenômeno
inverso. Os indivíduos, inclusive os da classe operária, para terem acesso ao
serviço de saúde, de transporte, educação e aos lazeres, entre outros, devem
passar pela mediação burocrática e mercantil instituída pela sociedade
capitalista17.
Portanto, esta é a realidade que o universo psíquico de um indivíduo
introjeta e reproduz nas suas elaborações mentais. É nesse plano histórico-
concreto que podemos compreender a forma estabelecida pela sociedade
capitalista do princípio repressivo de realidade. O princípio de realidade
também pode ser chamado de mentalidade. O conceito de mentalidade

15
GRANOU, André. Capitalismo e Modo de Vida. Porto, Afrontamento, 1975, p. 45.
16
Sobre “necessidades fabricadas”, cf. GORZ, André. Estratégia Operária e
Neocapitalismo. Rio de Janeiro, Zahar, 1968; FROMM, Erich. Do Amor à Vida. Rio
de Janeiro, Jorge Zahar, 1986.
17
Tendo em vista que este texto teve sua versão original escrita em 1992 e foi
publicado pela primeira vez em 1994, pode se perguntar se essa análise do
capitalismo continua válida. A resposta é positiva, pois a realidade aqui apresentada
continua existindo, apesar das mudanças que vem ocorrendo nos últimos anos,
quando o capitalismo entra em uma nova fase, a da acumulação integral (cf. VIANA,
Nildo. O Significado Histórico do Toyotismo. Teoria Crítica da Sociedade - CEPS.
Nº 2, abril de 2001), pois a competição é exarcebada devido as condições de crise,
desemprego e insegurança vivida nesta nova realidade e a mercantilização se
aprofunda, chegando a algumas poucas esferas que até alguns anos atrás estavam
pouco influenciadas por ela. A burocratização, por sua vez, acompanha a
mercantilização, com exceção da que ocorre na esfera estatal (o neoliberalismo
realiza uma diminuição na intervenção estatal, mas que além de variar com o país e
a época, só atinge algumas esferas e sofre, dependendo das lutas sociais,
retrocessos).
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
17
facilita a percepção do caráter histórico do princípio de realidade. Podemos,
assim, distinguir a mentalidade arcaica das sociedades simples da
mentalidade feudal da idade média na Europa Ocidental. A forma dominante
de mentalidade hoje é aquela que introjeta a sociabilidade capitalista e a
reproduz nas elaborações mentais e pode ser chamada de mentalidade
burguesa.
O conceito de mentalidade não só é mais apropriado do que o de
“princípio de realidade” mas também mais apropriado do que o conceito de
“caráter social” de Erich Fromm. Embora o “princípio de realidade” não seja
apresentado por Fromm como equivalente ao “caráter social”, isto é possível
na medida que tanto um como o outro desempenham o mesmo papel:
“Os membros da sociedade e/ou as várias classes ou grupos
sociais dentro dela tem de se comportar de modo a funcionar no
sentido exigido pelo sistema social. É função do caráter social
modelar as energias dos membros da sociedade de modo que seu
comportamento não seja questão de decisão consciente sobre a
obediência ou não ao padrão social, e sim um desejo de agir tal como
tem de agir, e ao mesmo tempo encontrem satisfação em agir de
acordo com as exigências de sua determinada cultura18.
O processo de introjeção do princípio repressivo de realidade começa,
como observou Freud, na infância19. Segundo E. Fromm:
“A estrutura da sociedade e a função do indivíduo nessa estrutura
determinam o conteúdo do caráter social. A família, por outro lado,
pode ser considerada como o agente psíquico da sociedade, a
instituição que tem a função de transmitir as exigências da sociedade
à criança em desenvolvimento. A família executa esta função de duas
maneiras: 1) pela influência do caráter dos pais sobre a formação da
criança; como o caráter da maioria dos pais é expressão do caráter
social, transmitem dessa forma as características essenciais do
caráter socialmente desejável à criança; 2) além do caráter dos pais,
o método de preparo infantil habitual numa cultura também tem a

18
FROMM, E. Meu Encontro Com Marx e Freud. 7a edição, Rio de Janeiro, Zahar,
1979. p. 78. E. Fromm faz algumas considerações sobre o caráter social que são
válidas e portanto aplicáveis ao conceito de mentalidade: existem diferenças de
mentalidade de acordo com a classe social, a formação cultural, as características de
cada indivíduo, etc. (cf. a tipologia de caráter social em: FROMM, E. Análise do
Homem. 2a Edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1961).
19
“A primeira razão porque os homens servem de bom grado é que nascem servos e
são criados como tais” (LA B OETIE, E. Discurso da Servidão Voluntária. 4a Edição,
São Paulo, Brasiliense, 1987, p. 25).
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
18
função de modelar o caráter da criança numa direção socialmente
desejável”20.
O conteúdo da mentalidade é formado pelos valores, razão e sentimentos
conscientes do indivíduo. É o conjunto de elementos conscientes que fazem
um indivíduo agir, é a força motriz de seu comportamento e também da
produção de idéias e concepções sistematizadas ou articuladas (ideologia,
teoria).
Vimos até aqui como que o princípio repressivo de realidade age no
universo psíquico do indivíduo. A mentalidade dominante possui a aparência
de ser irremovível e intransponível por que não só introjeta a sociabilidade
como é confirmada e exigida constantemente por essa mesma sociabilidade.
A competição social, por exemplo, não só está presente na realidade cotidiana
e na mentalidade dos indivíduos, como exige dele um comportamento
competitivo, sob pena de ser considerado “preguiçoso”, “anormal”,
“fracassado” etc. Assim, A mentalidade burguesa afirma que o ser humano é
tal como é (diga-se de passagem, tal como é na sociedade burguesa) e isto é
confirmado por suas idéias (mentalidade, cultura, ideologia) e por sua prática
(sociabilidade) e é exigido por esta mesma sociabilidade e mentalidade. Com
isto se retira toda a historicidade da formação da mente humana. Por isso, a
transformação da mentalidade em alguns indivíduos é praticamente
impossível sem antes ocorrer (ou começar a ocorrer) uma transformação na
sociabilidade. Somente em períodos de transformação radical das relações
sociais estes indivíduos cedem ao “principio de prazer”. Outros podem até
mesmo aceitar superficialmente as teorias revolucionárias e no cotidiano
reproduzir a mentalidade e a sociabilidade dominantes.
Se até aqui nos limitamos a ver a ação do princípio de realidade sobre o
universo psíquico do indivíduo, é necessário observarmos a ação do
“princípio de prazer”, pois é aí que reside a resistência, ou seja, um dos
elementos de ruptura com a reprodução do capitalismo. Podemos, retomando
Freud, dizer que o “id” obedece aos instintos sexuais e destrutivos, expressos
pelo princípio de prazer. Entretanto, é necessário romper, assim como fez
Reich, com a idéia de existência de um “instinto de morte” ou de
“destrutividade”. Tal concepção é nitidamente conservadora, pois, neste caso,
os “instintos” ganham uma justificativa para serem reprimidos. Segundo um
“freudo-marxista”, a tese do instinto de morte de Freud
“Parece sustentar que a tendência a destruir é um componente
natural da psicologia do homem, e se não for encaminhada para o
exterior, levará à autodestruição. Se isso for certo, sem dúvida estará
coerente com grande parte da historia do homem, repleta de

20
FROMM, E. Meu Encontro Com Marx e Freud. ob. cit. p. 81.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
19
perseguições religiosas e políticas, de torturas e crueldades, e a
presente ameaça de uma destruição nuclear. Mas seria erro pensar
que a teoria freudiana leva inevitavelmente a uma visão pessimista da
capacidade que tem o homem de dominar esses impulsos agressivos.
O eu racional do homem, o produto da interação entre os impulsos do
id de satisfação incondicional e as exigências do mundo exterior,
oferece a esperança de que ele será capaz de dominar essas forças
interiores destrutivas e dirigi-las para finalidades socialmente
valiosas. O próprio Freud teve de criticar os psicanalistas que
adotaram uma opinião demasiada desesperada das possibilidades de
controle racional e assinalou que, por mais fraco que fosse o ego em
relação às forças demoníacas dentro de nós, o crescimento do
conhecimento e compreensão da psicologia humana proporcionou o
melhor meio de libertar o ego de sua servidão aos propósitos do id.
‘Onde houve id, haverá ego’, escreveu ele”21.
Esse postulado da existência de um “instinto de morte” leva,
necessariamente, à defesa da necessidade de repressão. Freud,
definitivamente, não era um revolucionário, mas o freudo-marxismo de
Osborn e Marcuse apresenta-se como tal. Osborn defende claramente a
necessidade de um princípio de realidade repressivo em relação ao instinto de
destrutividade. O ego deve dominar o id. Neste caso, princípio de prazer e
princípio de realidade são inconciliáveis. Osborn acaba justificando certa
forma de repressão na nossa sociedade. Claro que tal repressão se refere ao
instinto de morte. No entanto, se não existir nenhum “instinto de morte”, algo
vai ser reprimido como se fosse este. Assim, uma greve operária, um
assassinato, a guerra entre nações, o massacre de índios, o extermínio de
menores abandonados e a violência contra a mulher podem ser
“interpretados” como manifestação do “instinto de morte” e não como
produto de certas relações sociais. Marcuse é mais refinado teoricamente e
afirma que o “instinto de morte” numa sociedade repressiva é muito mais
destrutivo do que seria em outras condições históricas e sociais e que numa
civilização não-repressiva seria transformado em algo inofensivo. Tal posição
é parecida com a de Erich Fromm22. Para Fromm, necrofilia (amor à morte)
é uma potencialidade humana secundária enquanto que a biofilia (amor à
vida) é uma potencialidade humana primária. A primeira só desenvolve

21
O SBORN, R. Psicanálise e Marxismo. Rio de Janeiro, Zahar, 1966, p. 47-48.
22
“Proponho um desenvolvimento da teoria de Freud na seguinte direção: a
contradição entre Eros e a destruição, entre a afinidade com a vida e a afinidade
com a morte é , de fato, a contradição mais fundamental no homem”; “o instinto de
vida (...) constitui a potencialidade primária do homem; o de morte , uma
potencialidade secundária” (FROMM, E. O Coração do Homem. Rio de Janeiro,
Zahar, 1965, p. 54-55).
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
20
quando a segunda não o faz e isto só ocorre em determinadas condições
sociais e históricas.
Acontece que tanto uma quanto outra análise justifica um certo quantum
de repressão na nossa sociedade. Além disso, se formos analisar casos
históricos-concretos, é impossível defender a existência de um “instinto de
morte”. Segundo Freud, a repressão aos instintos trazem sérios problemas
mentais (psicoses, neuroses, etc.) e quanto maior for a intensidade da
repressão maior será os efeitos psíquicos negativos. Se pegarmos como
exemplos histórico-concretos os padres e as freiras, veremos que o “instinto
de morte” não existe ou então não se manifesta. Neste último caso, onde se
manifestam os efeitos psíquicos negativos? Aliás, tendo-se em vista que esta
é uma hiper-repressão (pois há, neste caso, a simultânea repressão dos
instintos sexuais), deveríamos chegar a conclusão que todos os padres e
freiras são neuróticos...
Esta crítica é válida para Marcuse mas não para Fromm, que não se limita
a tese Freudiana dos instintos. E. Fromm parte do conceito de “natureza
humana” e daí postula a existência de diversas potencialidades humanas que
vão além dos “instintos sexuais” e do “instinto de morte”. Com isso, o
exemplo citado perde validade, pois a repressão de certas potencialidades é
parcialmente (afinal, mesmo neste caso, deveria ocorrer efeitos psíquicos
negativos, mesmo que em menor grau) compensada pelo desenvolvimento de
outras. Entretanto, se o amor à morte (necrofilia)é uma potencialidade
humana, então não faz sentido qualificar as pessoas “necrófilas” de
“doentias”. O que é natural, por definição, não é doentio e vice-versa. Só que
Erich Fromm define Hitler como um “doente mental” em diversas
oportunidades, por ser ele um sádico, um necrófilo23. Portanto, existe uma
incoerência teórica em Fromm e isto foi provocado por sua insistência em
postular a existência de um “instinto de morte”. Neste aspecto, Reich foi o
freudo-marxista mais conseqüente24.
Ao que se refere, pois, o princípio de prazer? Certamente não se refere
aos “instintos orgânicos” teorizados por Freud. As noções de “instintos”,
“pulsões”, “impulsos” devem ser substituídas pelo conceito de necessidades.
Estas expressam potencialidades que precisam se realizar e se referem não só
às necessidades orgânicas como também às necessidades especificamente

23
FROMM, E. O Medo à Liberdade. 13a Edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1981; FROMM,
E. O Coração do Homem. ob. cit.; FROMM, E. Do Amor à Vida. ob. cit.; FROMM, E.
Hitler. in: CANEVACCI, M.(org.). Dialética do Indivíduo 3a Edição, São Paulo,
Brasiliense, s/d.
24
Para uma crítica mais aprofundada da tese do “instinto de morte” e uma
contextualização histórica de seu surgimento, cf. VIANA, Nildo. Inconsciente
Coletivo e Materialismo Histórico. Ob. cit.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
21
humanas, como, por exemplo, a criatividade25. Estas necessidades são
acompanhadas por outras que podem ser consideradas inautênticas26. Por
isso, estão presentes tanto no inconsciente quanto na consciência. As
necessidades reprimidas povoam o inconsciente e as demais necessidades
(autênticas e inautênticas) estão vivas e atuantes na consciência. Portanto, o
princípio de prazer não só comanda o inconsciente como influencia a
consciência. O universo psíquico do indivíduo é, portanto, o palco do conflito
entre princípio de prazer e princípio repressivo de realidade, devido ao fato
de viver numa sociedade repressiva. É necessário acrescentar que as
necessidades frustradas conscientes criam uma contradição no universo
psíquico do indivíduo e ameaça o predomínio absoluto da mentalidade. Uma
parte do princípio de prazer é consciente e cria um “conflito consciente ao
nível da consciência” e outra parte é inconsciente e, conseqüentemente, seus
efeitos são não-conscientes. Se ao nível da consciência também se manifesta
o princípio de prazer, então não é só nas manifestações do inconsciente (na
fantasia e na utopia, segundo Marcuse) que se realiza a crítica do mundo
existente.
Devemos, então, tratar inicialmente do inconsciente e das suas tentativas
de ascender até a consciência. Antes de tudo, deve-se colocar que existe um
inconsciente individual e um inconsciente coletivo. Por inconsciente coletivo
não entendemos nem a concepção metafísica de Jung nem a concepção
conservadora da “história das mentalidades”27. Jung e P. Áries significam um

25
cf. FROMM, E. O Conceito Marxista do Homem. 8a Edição, Rio de Janeiro, Zahar,
1983; LOBROT, M. A Favor Ou Contra A Autoridade. Rio de Janeiro, Francisco
Alves, 1977; VIANA, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. Ob.
cit.
26
Sobre necessidades inautênticas, cf. VIANA, Nildo. A Questão dos Valores. Revista
Cultura & Liberdade. Ano 2, nº 2, abril de 2002.
27
“Nossa psicologia sabe que o inconsciente pessoal nada mais é do que uma camada
superposta que se assenta em uma base de natureza inteiramente diversa. Esta base
é o que chamamos inconsciente coletivo. A razão desta denominação está na
circunstância de que, ao contrário do inconsciente pessoal e de seus conteúdos
meramente pessoais, as imagens do inconsciente mais profundo são de natureza
nitidamente mitológica. Isto significa que estas imagens coincidem, quanto à forma
e ao conteúdo, com as representações primitivas universais que se encontram na
raiz dos mitos. Elas não são mais de natureza pessoal, mas são puramente
suprapessoais e, conseqüentemente, comuns a todos os homens. Por isso é possível
constatar sua presença nos mitos e nas fábulas de qualquer povo e de qualquer
época, bem como em indivíduos que não têm o menor conhecimento consciente de
mitologia” (J UNG, C. G. Psicologia e Religião Oriental. 3a Edição, Petrópolis,
Vozes, 1986, p. 97); “Mas o que é o inconsciente coletivo? Sem dúvida, seria
melhor dizer não-consciente coletivo: comum a toda uma sociedade em
determinado momento. Não-consciente: mal percebido, ou totalmente percebido
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
22
retrocesso teórico em relação à Freud. Em ambos a base concreta (mesmo
sendo de caráter orgânico, instintual) da teoria freudiana é abolida e
substituída por uma teoria da “repetição gratuita”. Com isto abole-se o
aspecto revolucionário da teoria Freudiana. No caso de Áries, o inconsciente
coletivo torna-se equivalente ao conceito de mentalidade e esta se caracteriza
pela repetição automática e mecânica, ou seja, é algo tão manifesto que pode
ser considerado uma “visão de mundo”; no caso de Jung, o inconsciente
coletivo é reduzido à arquétipos autônomos e imutáveis que se manifestam
em todas as épocas e lugares.
O inconsciente individual se refere às potencialidades humanas
reprimidas em um indivíduo e o inconsciente coletivo se refere às
potencialidades humanas reprimidas em um conjunto de indivíduos (classe,
sexo, etc) ou a todos os indivíduos de uma sociedade, já que numa sociedade
repressiva nem mesmo os membros da classe dominante podem desenvolver
todas as suas potencialidades28.
O inconsciente coletivo, assim como o individual, se manifesta em
sonhos, fantasias, etc. Estas formas de manifestações do inconsciente são
formas de tentar ascender ao nível da consciência29.
A outra parte do princípio de prazer chega até a consciência. Um conjunto
de necessidades humanas (fome, sede, etc.) são imediatamente reconhecidas
através da consciência. Tanto a satisfação das necessidades como a
consciência delas são diferentes em grupos sociais diferentes. A mais
importante forma de consciência coletiva é, sem dúvida, a consciência de
classe. A história da humanidade tem sido comandada pela dinâmica da luta
de classes. Toda classe dominante busca conservar as relações de produção
dominantes e assim manter o seu poder. As classes exploradas, por sua vez,
buscam transformar as relações de produção e instaurar um novo modo de
produção. A classe revolucionária realiza uma crítica da sociedade existente
e, ao mesmo tempo, apresenta um projeto político de uma sociedade
alternativa. Este projeto quando possui possibilidade de se transformar em

pelos contemporâneos, porque, é óbvio, faz parte dos dados imutáveis da natureza,
idéias recebidas ou idéias no ar, lugares comuns, códigos de conveniência e de
moral, conformismos ou proibições, expressões admitidas, impostas ou excluídas
dos sentimentos e dos fantasmas” (ÀRIES, P. História das Mentalidades. in: LE
GOFF, J. (org.) A História Nova. São Paulo, Martins Fontes, 1990, p. 174).
28
Cf.: V IANA, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. Ob. cit.
29
Para uma análise mais aprofundada da concepção junguiana, abordando seus
aspectos aceitáveis e inaceitáveis, bem como para uma análise mais detalhada do
inconsciente coletivo, cf. V IANA, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo
Histórico. Ob. cit.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
23
realidade é uma utopia concreta, tal como colocou Ernst Bloch. A
consciência de classe de uma classe revolucionária é uma utopia concreta.
A classe revolucionária de nossa época é o proletariado. Entretanto, a sua
consciência de classe se apresenta, num primeiro momento, como
contraditória, ou seja, possui elementos de aceitação e ao mesmo tempo de
negação da sociedade existente, e, num segundo momento, supera sua
contradição através da luta de classes e se torna consciência revolucionária.
Mas existe um outro obstáculo, derivado da mentalidade burguesa, ao
desenvolvimento da consciência de classe do proletariado, que é o chamado
“realismo” (e seu derivado, o realismo político, que se opõe a todo
“utopismo”). O que é o realismo? Segundo Fromm:
“O ‘realista só vê os aspectos superficiais das coisas; vê o mundo
manifesto, pode reproduzi-lo fotograficamente em sua mente e pode
agir manipulando as pessoas e as coisas tal como aparecem neste
retrato”30.
O realismo, assim, é a incapacidade mental de ultrapassar a aparência e
atingir a essência, pois esta nos remete aos conflitos sociais e psíquicos do
mundo contemporâneo e da necessidade de transformação social. Este é uma
expressão racionalizada da mentalidade burguesa e nada mais que isto, sendo,
pois, mais um elemento consciente que contribui para a reprodução do
capital.
Este texto é uma versão modificada do artigo publicado
originalmente em Revista Ruptura, ano 2, num. 2, maio de 1994,
sob o título de “A Utopia Concreta Contra o Realismo Político”.

30
FROMM, E. Análise do Homem. ob. cit. p. 86.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
24
Normalidade, Excepcionalidade e
Capitalismo

Maria Angélica Peixoto

Curioso é notarmos o que por vezes é normal em dada sociedade, noutra


pode ser considerado anormal. Karen Horney, trata assim, a questão da
normalidade:
“O conceito do que é normal varia não só com a cultura, mas
também, dentro da mesma cultura, com o passar do tempo... O
conceito de normalidade muda, igualmente, nas diferentes classes
sociais...”1
Antes de abordarmos outros autores, tais como Fromm e Schneider,
forçoso se torna perguntar: qual a importância de se definir normalidade para
a compreensão da especificidade do excepcional?2 Seguiremos os passos de
Horney para delimitarmos a importância de tal definição. Embora Horney
não tenha se referido especificadamente à questão do excepcional,
tentaremos compreendê-lo dentro da lógica do pensamento de tal autora.
Então, podemos dizer que o excepcional só poderá ser compreendido dentro
de uma dada sociedade, neste caso, a sociedade capitalista. Como tal
sociedade lida com seus membros? O que ela exige de cada indivíduo nela
inserido? Nada mais que a inserção na lógica da competição, em busca de
espaços no seu amplo e vasto universo mercantil.
Neste sentido, o excepcional se dirigirá à escola para sanar suas
“deficiências” (inatas ou adquiridas). Tais “deficiências” se não forem
sanadas integralmente, colocará o aluno excepcional em visível desvantagem
diante da lógica competitiva da sociedade capitalista. A ele, então, serão
reservadas atividades que exigem pouco mais que nada, ou seja, atividades
onde as potencialidades do “deficiente” não estarão sendo trabalhadas
integralmente. Caberá a tal aluno um espaço próximo à marginalidade, visto
que ele estará longe do critério de normalidade adotado pela sua sociedade, o
de estar apto integral e totalmente para a competição. Sua mão-de-obra será
explorada e pouco valorizada.
Erich Fromm completa o pensamento de Horney quando questiona o
relativismo sociológico. Os adeptos de tal postura consideram uma sociedade

1
HORNEY, K. A Personalidade Neurótica de Nosso Tempo. 10a edição, São Paulo,
Difel, 1984, p. 13.
2
Por excepcional entenda-se “pessoa portadora de deficiência”.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
25
normal quando funciona e que a patologia é definida como um desvio da
norma, assim sendo, um indivíduo é considerado como portador de uma
patologia quando possui dificuldades de se ajustar ao estilo de vida da
sociedade na qual se insere. Tal postura, reflete a posição dos positivistas
frente à questão do excepcional. Fromm, a partir do questionamento de tal
relativismo, estabelecerá as premissas básicas de seu pensamento:
“O que tem sido muitas vezes chamado de natureza humana não
passa de uma de suas muitas manifestações – e freqüentemente de
manifestações patológicas...” O verdadeiro problema está em deduzir
a essência comum a toda a raça humana das inumeráveis
manifestações da natureza humana, tanto normais quanto
patológicas, como os podemos observar nos diversos indivíduos e
diferentes culturas”3 .
Importa aqui demarcar a diferenciação entre normal e patológico. Nem
sempre o que é considerado normal em dada formação social, está de acordo
com as reais potencialidades humanas. Numa sociedade capitalista várias
formas de comportamento se manifestam e são consideradas normais e,
outras consideradas patológicas por estarem em flagrante contradição com a
norma.
Exemplificando, podemos eleger como ilustração a variada nomenclatura
construída para enquadrar os que desviam da norma estabelecida. Aqui se
encaixam os alunos que apresentam problemas emocionais, distúrbios de
linguagem, problemas de aprendizagem, etc. No capitalismo, à medida, que
os conflitos de classe vão crescendo, há a necessidade de se criar um
conjunto de ideologias que propiciem uma justificação para o funcionamento
contraditório do sistema.
Vimos, com isso, que não são os indivíduos os responsáveis por esta ou
aquela “deficiência”, mas ao contrário, se esta ou aquela deficiência existe e
passa por uma “validação consensual”, importa reconhecermos que o
problema é da sociedade que propiciou as condições que levaram a tal
deficiência. Assim sendo, a sociedade ao validar como patológicos
comportamentos que manifestam problemas emocionais, distúrbios
comportamentais, etc., como sendo inerentes à natureza individual deste ou
daquele ser, nada mais faz do que revelar o seu caráter conflituoso e
contraditório. Revelando, assim, que o problema reside na estrutura de sua
formação social e não na estrutura individual.
Numa dada formação social, como a formação social capitalista que tem
como essência a exploração de uma classe sobre a outra através da extração

3
FROMM, Erich. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. 8a edição, Rio de Janeiro,
Zahar, 1976, p. 27.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
26
de mais-valor, é recorrente o fato de que os indivíduos terão defeitos
“socialmente modelados” e apresentaram distúrbios freqüentes. Perguntamos,
então, é o sistema capitalista uma formação social capaz de estimular em seus
membros comportamentos e atitudes realmente sadias?
Ao eleger uma nomenclatura que dê conta dos “desvios” de
comportamento, de linguagem, etc., o capitalismo enquanto sistema, nada
mais faz, a partir, de uma validação consensual, do que segregar em grupos
aqueles indivíduos que de certa maneira nada mais fazem do que reagirem à
negatividade do sistema.
Ao dar ênfase nos atributos inatos, como os propiciadores de uma
integração ou não na lógica do sistema, o capitalismo nada mais revela do
que o seu caráter doentio e neurótico, enquanto, formação social e, é
justamente o caráter social que Erich Fromm questiona, na medida em que
ele acredita que se um indivíduo manifesta-se fora da norma, as causas de tal
comportamento deve ser encontradas no próprio sistema – se algum
indivíduo falha não é ele necessariamente o responsável, mas ao contrário, a
responsabilidade e do sistema que propiciou as condições de tal fracasso.
Para Fromm, o que importa na questão da normalidade e anormalidade é
definir através de certos critérios, e neste caso o critério eleito é o do
encontrar respostas que dêem conta de definir a verdadeira natureza humana -
vista aqui como saudável e positiva. Fromm acredita que é possível delinear a
natureza humana, a partir, da observação de várias formações sociais e nelas
observar o que tem de universal em cada uma, ou seja, o que em cada uma é
inerente ao ser humano. Se ao nascer o indivíduo se defronta com uma
formação social incapaz de lhe propiciar as condições necessárias para que
esta verdadeira natureza manifeste, tal indivíduo estará sujeito ao malogro,
tendo apenas uma pequena chance de reagir ao dado.
No caso específico dos excepcionais, que vivem sob o signo do
capitalismo, vimos que tais reações se manifestam quase sempre de forma
passiva. Podemos considerar como reação a uma sociedade doente, a
“doença” mental, só que tal resistência é manifestada passivamente. O
indivíduo considerado doente mental encontra como resposta aos estímulos
negativos impostos pela sociedade, uma gama de comportamentos que serão
considerados por esta mesma sociedade como “doentios”.
Não há nenhuma garantia em afirmar que “n” indivíduo possui
dificuldades de aprendizagem. Tais dificuldades podem apenas serem uma
forma de reação aos conteúdos 0- pouco ou nada interessantes - propostos
pela escola. O mesmo podemos dizer para pessoas diagnosticadas como
portadoras de distúrbios emocionais. Estes distúrbios, podem ser nada mais
do que uma forma de reagir, ainda que passivamente, a estímulos externos
negativos, como por exemplo, a imposição da lógica competitiva que exige
que sejamos os melhores em tudo que fazemos e realizamos. Para os
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
27
deficientes físicos tal reação pode provir da não aceitação dos padrões
estéticos de beleza da sociedade.
Segundo potencialidades, o importante é transformar a resistência passiva
de certos indivíduos, e neste caso, do excepcional (mental, físico, etc.) em
resistência ativa. Como se dá isto? Colocando em xeque tal sociedade. Não
adianta resolver o problema do excepcional de forma parcial, integrá-lo não
significa salvá-lo, mas ao contrário, aumentar ainda mais o grau de
segregação a que estão diariamente sujeitos. Para Schneider,
“Uma teoria psicanalítica materialista da doença deve ter início
com a realização - e deve fazer propaganda do fato no consciente do
público - de que a ‘doença mental’, seja neurose ou psicose, funcional
ou de dependência, deveria ser considerada sempre de dois aspectos
opostos. Da perspectiva da ‘saúde oficial’, isto é, do ponto de vista da
utilização, é um ‘rótulo’ para a força de trabalho deficiente, não-
rentável e até turbulenta. Do ponto de vista do trabalho assalariado,
nada mais é, por outro lado, que uma inconsciente fuga mental, isto é,
uma tentativa para libertar-se das condições de trabalho e
socialização capitalistas, uma recusa sintomática a ‘prosseguir’”4.
Neste sentido, Schneider acredita que se dermos conta de auxiliarmos o
“deficiente” a reagir ativamente, estaremos ajudando-o a colocar em questão
a própria formação social que deu origem aos conflitos individuais e sociais
que são lhe impostos. Só que para tanto é preciso questionar a fundo a
própria estrutura social, desmantelando-a inteira e completamente. E ao
fazermos isto, não podemos deixar de nos incluirmos também aí, porque não
só os excepcionais apresentam problemas de adaptação, nós também os ditos
“normais” estamos envolvidos no processo de alienação imposto pelo sistema
até a raiz.
É principalmente, através da escola, a escola vista aqui como a
propiciadora da reprodução social do capitalismo que os ditos excepcionais
vão dar de frente com sua “deficiência”. E aqui é importante colocarmos que
se tal aluno “excepcional” pertencer a uma classe social desfavorecida os
seus conflitos como indivíduo atingirá um nível de segregação muito mais
elevado. Exemplos não faltam para reforçar esta tese: o baixo capital
cultural5de um aluno pertencente à classe dominada o colocará em visível
desvantagem dentro da lógica competitiva (isto se agrava mais ainda no caso
do aluno “excepcional”); a classe dominante imporá o seu arbitrário cultural6

4
SCHNEIDER, Michael. Neurose e Classes Sociais – Uma Síntese Freudo-Marxista.
Rio de Janeiro, Zahar, 1977, p. 330.
5
Cf. B OURDIEU e P ASSERON, J-C. A Reprodução. Elementos Para Uma Teoria do
Sistema de Ensino. 2a edição, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1982.
6
Cf. B OURDIEU, P. & PASSERON, J-C. Ob. cit.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
28
impossibilitando, assim, através da violência simbólica uma reação realmente
eficaz que dê conta de se desvencilhar das armadilhas, vendo-a em sua
essência e não em sua aparência, neste caso a dominação de classe.
Bueno, ao tratar da relação de normalidade-excepcionalidade, mostra-nos
o quanto é importante inserirmos tal questão em sua formação histórico-
social concreta7. O autor também questiona o conceito de normalidade, no
entanto, não chega a aprofundá-lo. Associa o grau de integração ou não do
aluno excepcional à classe a qual pertence. Se um aluno da classe dominante
possui como deficiência a surdez, ele nem mesmo será considerado anormal
(isto ilustra a afirmação de Horney que associa a variação do conceito de
normalidade também à classe), pois receberá uma gama de atendimentos que
possibilitará sua inserção na sociedade forma favorável. No entanto, se tal
aluno pertencer a uma classe socialmente dominada ele será considerado
surdo-mudo, pois a ele será negado as condições que possibilitem sua
integração na sociedade, estará assim na marginalidade do sistema e portanto,
será considerado anormal.
Para concluir, notamos que os termos “excepcionalidade” e
“normalidade” estão inseridos num discurso ideológico. Mas não existe
excepcionalidade e normalidade? Não existe a norma e a exceção?
Retomando Schneider, podemos dizer que isto deve ser tratado sob dois
aspectos opostos: a) do ponto de vista da ideologia dominante (e das relações
sociais estabelecidas) o indivíduo normal é aquele que possui um
comportamento socialmente aceitável (segue as normas sociais) e um
rendimento adequado no trabalho (ou seja, é produtivo) e o indivíduo
excepcional é aquele que não se encaixa nos padrões de comportamento ou
rendimento socialmente aceitos. Aqueles que possuem “deficiências” físicas
e mentais estarão incluídos, na maioria dos casos (pois a maioria pertence às
classes desfavorecidas), entre os excepcionais, pois às dificuldades de ordem
física e mental junta-se as dificuldades de ordem social; b) do ponto de vista
crítico, a normalidade e a excepcionalidade são categorias ideológicas que
apenas reproduzem no discurso a opressão existente na sociedade. Não
existem indivíduos “normais” e “excepcionais” e sim indivíduos integrados e
marginalizados. Os indivíduos marginalizados são aqueles que possuem um
“comportamento desviante”, para utilizar linguagem da sociologia
conservadora, ou que recusam o trabalho alienado. Os “deficientes”, neste
caso, tendem a ser marginalizados, embora não faltem tentativas de integrá-
los, mas tentativa esta dificultada pelas próprias condições físicas e mentais.
Mas, antes de encerrarmos, devemos deixar claro que existem indivíduos
com dificuldades físicas e mentais maiores na sua inserção social, tal como é

7
BUENO, José Geraldo. Educação Especial Brasileira: Integração/Segregação do
Aluno Diferente. São Paulo, Educ, 1997.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
29
o caso de surdos, mudos, etc. Porém, numa sociedade capitalista, a situação
destes indivíduos se torna mais grave e é isto que cria o seu processo de
marginalização, o que poderia ser superado somente em uma sociedade
igualitária.
É neste sentido que Eric Plaisance afirma que o problema da
“deficiência”, no caso da deficiência física, deve ser analisado em sintonia
com o que ele denomina “deficiência sócio-cultural”. Segundo suas próprias
palavras:
“De nossa parte, seríamos favoráveis a uma limitação do sentido
do termo ‘deficiência’ aos casos em que as deficiências físicas,
mentais ou sensoriais fossem objetivamente reconhecidas (anomalias
diversas devidas a lesões, doenças, lesões hereditárias ou
adquiridas). Mesmo se limitarmos assim o sentido do termo
‘deficiência’, devemos estar atentos à sua dimensão social, que não é
sempre claramente percebida, pois a tendência mais forte é, ao
contrário, de reduzir a deficiência de origem física à sua dimensão
deficitária, numa perspectiva estritamente médica. Uma crítica dessa
visão errônea da deficiência já aparecia nos trabalhos do filósofo
Georges Canguillem, especialista em biologia, que insistia sobre o
aspecto relativo do julgamento de normalidade ou anormalidade,
mesmo quando se trata do corpo (...). Isso porque, dizia ele, é além do
corpo que é necessário olhar para apreciar o que é normal ou
anormal para esse próprio corpo: ‘com uma enfermidade como o
astigmatismo ou a miopia, uma pessoa seria normal em uma
sociedade agrícola ou pastoral, mas anormal na Marinha ou Aviação’
(...). Compreende-se, pois, que julgamentos de valor, com dimensão
necessariamente social, intervenham na distinção do normal e do
patológico e no reconhecimento de uma deficiência. É necessário,
portanto, distinguir o que resulta da enfermidade ou de deficiência (e
a este nível o modelo médico de interpretação e tratamento é
pertinente) o que é decorrente do handicap, na encruzilhada da
enfermidade e das normas sociais (conseqüentemente, o modelo
médico deve ser integrado em um modelo que faça necessariamente
intervir as determinantes sociais)”8.
Por isso é preciso levar em consideração a produção social da deficiência
e as dificuldades de integração dos indivíduos na sociedade, principalmente
aqueles que possuem diferenças físicas ou corporais.
Uma sociedade igualitária seria o estado ideal para a resolução desta
problemática, pois as exigências sociais sobre os indivíduos e o modo de
relação entre eles assumiriam uma dimensão muito mais humana e saudável,

8
PLAISANCE, Eric. Da Deficiência Física à Deficiência Sócio-Cultural. In: N ETO,
Maria I. D. (org.). A Negação da Deficiência. Rio de Janeiro, Achiamé, 1984.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
30
o que possibilitaria aos indivíduos diferentes uma inserção fácil e agradável
no conjunto das relações sociais.
Texto publicado originalmente em: PEIXOTO, Maria Angélica.
Inclusão ou Exclusão: O Dilema da Educação Especial. Goiânia,
Edições Germinal, 2002 (cap. 3, com o título “Normalidade: Uma
Definição”).

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


31
A Ciência Psiquiátrica nos
Discursos da Contemporaneidade
Antonio Quinet

Para abordar a questão da ciência e da ética no que concerne a psiquiatria,


gostaria de introduzir a teoria do discurso, proposta por Jacques Lacan no
final dos anos sessenta, que formaliza os laços sociais entre os humanos na
medida em que são seres de linguagem e de libido.
Discursos: Laços Sociais
Em o Mal-estar na Civilização, Freud aponta o relacionamento com os
outros homens como a causa de maior sofrimento do homem. O mal-estar na
civilização é portanto o mal-estar dos laços sociais. Estes se expressam nos
atos de governar e ser governado, educar e ser educado e também, como
mostrou Freud, tanto no vínculo entre analista e analisante, que ele
inaugurou, quanto no ato de fazer desejar, como as histéricas o ensinaram.
Essas quatro formas de as pessoas se relacionarem entre si - governar, educar,
psicanalisar e fazer desejar – Lacan chamou de discursos pois os laços sociais
são tecidos e estruturados pela linguagem.
Governar corresponde ao discurso do mestre/senhor em que é o poder que
domina; Educar constitui o discurso universitário dominado pelo saber;
Analisar corresponde ao laço social inventado no início deste século por
Freud em que o analista se apaga como sujeito por ser apenas causa libidinal
do processo analítico. E o discurso da histeria é aquele que é dominado pelo
sujeito da interrogação (no caso da neurose histérica, trata-se da interrogação
sobre o desejo) que faz o mestre não só querer saber mas produzir um saber.
A relação médico-paciente pode entrar nessas quatro modalidades de laço
social. Tomemos exemplos simples e um pouco caricaturais. Quando o
médico manda e o paciente obedece (até na prescrição de um remédio)
estamos no Discurso do Mestre; quando o médico ensina ou convence o que
a psiquiatria tem a dizer sobre seu caso, ele se encontra no Discurso da
Universidade; quando o médico cala e ocupando o lugar de objeto causa de
desejo em transferência faz o paciente segredar aquilo que ele mesmo nem
sabia que sabia, vemos a emergência ao Discurso do Analista. E quando o
médico se vê impulsionando a se deter, a estudar e a escrever para produzir
um saber provocado pelo caso do paciente estamos no Discurso Histérico.
Dentre esses quatro discursos, o discurso da ciência se assemelha mais,
por sua estrutura de produção de saber, ao discurso histérico. Histeria, aqui,
não se refere à neurose do mesmo nome, mas uma forma de relacionamento

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


32
humano em que um provoca no outro o desejo e a criação de um saber (tal
como as histerias fizeram com Freud).
O que se espera da ciência é efetivamente a produção de saber sobre o
real. Mas isso não quer dizer que ela não entre nos outros discursos - ela
também entra tanto no discurso universitário quanto no discurso do mestre.
Nossa civilização atual é dominada pela ciência. É uma civilização científica
cujo mal-estar se expressa nas doenças dos discursos. O mal-estar da
civilização científica se apresenta hoje como doenças predominantemente
oriundas do Discurso Capitalista que é nova modalidade do Discurso do
Mestre. São essas doenças do discurso que o psiquiatra é chamado a tratar.
O discurso como laço social é um modo de aparelhar o gozo com a
linguagem na medida em que o processo civilizatório, para permitir o
estabelecimento das relações entre as pessoas, implica a renúncia da
tendência pulsional em tratar o outro como um objeto a ser consumido:
sexualmente e fatalmente. Pois a inclinação do homem é ser o lobo do outro
homem, ou seja, abusar dele sexualmente, explorá-lo, torturá-lo, matá-lo
saciando no outro sua pulsão de morte erotizada. A civilização exige do
sujeito uma renúncia pulsional.
Todo laço social implica um enquadramento da pulsão resultando em uma
perda real de gozo. Todo discurso é portanto um aparelho: aparelho de gozo.
A ciência também pode entrar na categoria de discurso como
enquadramento de gozo na medida em que tem por finalidade a conquista do
real, ou seja, a colonização do real pelos aparelhos simbólicos que as
fórmulas matemáticas representam.
A Ciência no Discurso Universitário
A ciência pode se desenvolver segundo o discurso universitário onde o
saber é quem manda, é ele o agente do discurso pois se encontra no lugar do
comando, ocupado inicialmente pelo mestre antigo (S2). O discurso do
mestre moderno é o discurso universitário: o mestre foi substituído pelo saber
universal científico. Conseqüência: tirania do saber, que exige, a qualquer
custo, a obediência ao mandamento do saber, a ordem que se apresenta como
a verdade da ciência. Essa ordem pode ser assim formulada: “Tudo pelo o
saber!” ou “Saiba tudo sobre tudo, sem nada deixar escapar”. Podemos
continuar a formulação do imperativo epistemológico: “Não importa o que
aconteça, continue avançando; continue trabalhando para o saber”. “Não
importa os meios nem os fins – não deixe de produzir saber”. Eis a
representação-meta que ordena a fala implícita na conquista da ciência; ele é
o significante-mestre que ocupa todo o lugar da verdade no discurso
universitário e por isso mesmo ele a rejeita (S1). A verdade no discurso
universitário – a verdade do sujeito – é rejeitada em prol do mandamento de
tudo saber. O mestre da ciência universitária é o saber e nada pode detê-la
como o tentam os comitês de ética criados para nela colocar uma barreira, um
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
33
freio, uma regulação. Mas em contraposição a uma ciência universitalizante
só é possível uma ética do particular como propõe a psicanálise, que inclua o
sujeito cuja essência, segundo Espinosa, é o desejo.
No discurso universitário da ciência tudo que é tratado pelo saber é
considerado um objeto ( a ), mesmo quando são homens e mulheres tratados
epistemicamente. Trata-se de objetivar, objetalizar para aplicar o saber. Isto
não é segredo nem novidade no âmbito médico.
Qual é o sujeito que corresponde ao discurso da ciência universitária?
Surpreendentemente é o sujeito da crença, o crente. Ao universal da ciência
responde não o sujeito da ciência, mas o sujeito da Igreja Universal. Pois é lá
que ele encontra prêt-à-porter o máximo da totalidade do saber: aquele que
tudo sabe, o Onisciente. Eis a divinização do saber promulgada pela
idealização do discurso universitário da ciência. Deus é o cúmulo do saber.
Paradoxalmente, eis o ápice do discurso da ciência. O desenvolvimento da
ciência não tem produzido mais materialistas agnósticos do que antigamente.
Pelo contrário, há uma multiplicação das práticas mágico-religiosas como
tem acontecido aqui no Brasil, onde, por exemplo, não cabe mais fieis nos
templos e por isso o Bispo Macedo está construindo uma série de maracanãs
para eles. E não só no Brasil, também na França há um crescimento do
número de crentes onde, por exemplo, exorcistas e feiticeiras estão se
multiplicando para atender a demanda de exorcismo e de práticas de
demologia. Isso que também tem ocorrido em outros países, mostra a
produção em massa do sujeito da crença ( $ ), por definição dividido entre o
“no creo en la bujas” e o “pero que las hay, las hay”. O sujeito dividido
como produto da ciência, resto do saber científico é também aquele que é
excluído por ela. E é por isso que ele acredita desacreditando na ciência.
Mas a ciência também produz as suas crenças, digamos assim,
endogâmicas. Será este o caso das neurociências? Será que não há uma
tendência da psiquiatria, influenciada pelas neurociências de criar uma nova
mitologia cerebral? Elizabeth Roudinesco, como disse recentemente, avançou
a hipótese de que estaria ocorrendo neste fim de século o que ocorreu no final
do século XIX em que com a evolução industrial que acompanhou os grandes
avanços da ciência, concomitante ao desenvolvimento da psiquiatria, foi
constituída uma mitologia cerebral que localizava na anatomia do cérebro os
males da alma. Será que hoje não se está constituindo com as neurociências
uma nova mitologia do elo perdido entre o substrato neuro-hormonal e os
fenômenos clínicos?
Afinal, clinicar não é assim tão preciso, como lembrou Gilda Paoliello em
sua abertura. E os psiquiatras não devem ser os crentes do “Neurônio
Universal”. Fazer a ciência se manter fiel a seus postulados é também uma
questão de ética. Uma ética própria à ciência para que ela mantenha seus
limites - se mantenha nos limites de suas descobertas.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
34
A Ciência no Discurso Capitalista
Assim como Freud em O Mal-estar na Civilização, Lacan em Televisão,
em 1974, preocupa-se com o mal-estar na modernidade, diagnosticando-o
como o produto do discurso capitalista.
Este sim, corrige-se Lacan, é o laço social dominante em nossa sociedade
(e não o discurso da universidade como discurso do mestre moderno, como
afirmara no seminário O Avesso da Psicanálise, em 1969/1970).
Isso hoje, em 1999, é ainda mais verdadeiro com o desmantelamento dos
regimes das sociedades não-capitalistas. O capital invadiu tudo: é o que se
chama de globalização. Como afirma Jean Baudrillard em Sociedade de
Consumo, vivemos hoje em uma espécie de evidência do consumo e da
abundância, criada pela multiplicação de objetos, na qual os homens da
opulência não se cercam mais de outros homens e sim de objetos (TVs,
carros, computadores, fax, telefones). Suas relações sociais não estão
centradas nos laços com outros homens, diz Baudrillard e sim na recepção e
manipulação de bens e mensagens. O discurso capitalista efetivamente não
promove o laço social entre os seres humanos: ele propõe ao sujeito a relação
com um gadget, um objeto de consumo curto e rápido [$ ¬ a]. Esse discurso
promove um autismo induzido e um empuxo-ao-onanismo fazendo a
economia do desejo do Outro e estimulando a ilusão de completude não mais
com a constituição de um par, e sim com um parceiro conectável e
desconectável ao alcance da mão. Isso pode efetivamente levar à decepção,
tristeza, tédio e nostalgia do Um em vão prometido ou a diversos tipos de
toxicomanias entre as várias doenças do discurso capitalista.
A sociedade regida pelo discurso capitalista se nutre pela fabricação da
falta de gozo, produz sujeitos insaciáveis em sua demanda de consumo.
Consumo de gadgets que essa mesma sociedade oferece como objetos do
desejo. Promove assim uma nova economia libidinal. Por outro lado, ao
colocar a mais-valia no lugar da causa do desejo, essa sociedade transforma
cada um num explorador em potencial de seu semelhante para dele obter um
lucro de um sobre-trabalho não contabilizado – o que produz a dita “lei de
Gérson”, querer obter vantagem em tudo.
Se o Gérson levou a culpa, isso só faz escamotear que essa é a lei do
discurso capitalista. Obter vantagem para quê? Para consumir mais, mais
objetos produzidos pelo capitalismo científico-tecnológico. Nesse ciclo, o
lugar da mais-valia coincide com o dos objetos de gozo – gozo prometido e
não alcançável por estrutura. “A mais-valia”, diz Lacan, “é a causa de desejo
da qual uma economia faz seu princípio”.
A ciência no discurso capitalista é a produtora dos objetos de consumo,
que operam como causa de desejo. O saber científico nesse discurso é
capitalizado para fabricar os objetos que possam representar os objetos
pulsionais [S2 ® a].
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
35
O Discurso do Capitalista fabrica um sujeito animado pelo desejo
capitalista – desejo que o leva a produzir, ou seja, materializar o significante-
mestre desse discurso: o dinheiro que em seu caráter virtual se chama capital
[$ ® S1].
Esse sujeito como falta-a-ser é o sujeito como falta-a-ser-rico; e a falta-
de-gozo se inscreve como a falta-a-ter-dinheiro, é o sujeito descapitalizado.
Assim o Discurso do Capitalista produz o sujeito inadimplente, o sujeito da
dívida que se eterniza. O Discurso do Capitalista cria a dívida que só
aumenta: começa-se a se pagar os juros, os juros dos juros e os juros dos
juros dos juros. A moratória é, pela lógica do Discurso do Capitalista, ex-
dívida. A moratória constitui uma figura da castração na medida em que
coloca uma barreira à insaciabilidade do capital que se manifesta na
perenização da dívida.
O Discurso do Capitalista difere do Discurso do Mestre/senhor que
estabelece uma laço social entre aquele que manda e aquele que trabalha,
como aparece em Hegel na constituição da consciência de si na dialética do
senhor e do escravo. Neste há uma articulação entre o desejo de um com o
desejo do outro, entre a vida e a morte, entre o trabalho e a casa, entre o
objeto e o gozo. Nessa dialética, o saber transformador que é o trabalho está
do lado escravo. No Discurso do Capitalista não há mais vínculo entre o
senhor moderno, o capitalista, e o proletário. A figura do capitalista de hoje
tende a desaparecer e no lugar dominante temos a figura impessoal do capital
globalizado. O Senhor Absoluto moderno, que vem no lugar hegeliano da
Morte, é o Capital em relação ao qual, vaticina Lacan, somos todos
proletários.
O discurso capitalista ao ser dominante visa a sobrepor o mercado à
sociedade. Para ele, não existiria mais sociedade, só mercado, cujas leis, já
dizia Adam Smith, são invisíveis. A mão invisível que regula o mercado
(ainda que se tente personificar o capital na figura do empresário capitalista)
não tem regulação nenhuma possível pois não há lei, só imperativo. Trata-se
de um discurso sem lei, que foraclui a castração como indica Lacan. Ele é
impossível de ser regulado, confessa o próprio George Soros, ele mesmo
assustado com as ondas de altas e quedas das bolsas provocadas por suas
próprias intervenções.
O Discurso Capitalista não é um laço social que regulariza como o é o
Discurso do Mestre. Sua política é a liberal, do neoliberalismo, do cada um
por si e um contra todos, já que o sol não brilha para todos. O Discurso do
Capitalista não é regulador, ele é segregador. A única via de tratar as
diferenças em nossa sociedade científica capitalista é a segregação
determinada pelo mercado: os que tem ou não acesso aos produtos da ciência.
Trata-se, portanto, de um Discurso que não forma propriamente laço social
mas segrega: daí a proliferação dos sem: terra, teto, emprego, comida, etc.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
36
Os que estão with o discurso capitalista são out: os without. Quem é com
está sem, sua lógica obriga.
Em contraposição, a psicanálise propõe a ética da diferença e não a ética
da segregação.
Como Pensar a Ciência no Discurso do Capitalista?
O discurso capitalista, como dissemos, produz objetos que visam a
saturação do sujeito tamponando sua falta com gadgets que propõe como
objetos de gozo anulando toda questão sobre o desejo. Esse modo de laço
social faz crer que é possível o sujeito encontrar em um objeto sua satisfação.
O significante-mestre capital é quem comanda o saber científico: é ele quem
financia as pesquisas, patrocina os pesquisadores, induz a elaboração do
saber, obrigando este a dobrar-se à “política dos resultados”. Pois o saber
científico, praticamente subsumido pela tecnologia, tem que produzir objetos
S2 ® a. É o que vem apontando, entre outros, Marilena Chauí no que tange a
universidade que está pressionada a uma política de resultados e direcionada
para o mercado.
Na psiquiatria, os objetos produzidos pelo saber da neurociência são os
medicamentos que podem facilmente virar objetos de consumo quando a
psiquiatria entra no discurso do capitalista.
É preciso uma ética que possa vir barrar o imperativo de gozo imposto
pelo discurso capitalista científico neoliberal: império do ter, império do
individualismo, da competitividade. Esse discurso cria uma comunidade
monstruosa de pares, como aponta Roberto Romano. É uma comunidade,
melhor dizendo de pseudo-pares – que se querem ímpares (pois cada um é
ímpar) – em que são menos pares e colegas juntos por uma mesma causa ou
uma mesma orientação, do que inimigos mordidos pela agressividade e pela
competitividade em obter financiamento para suas pesquisas. Basta um sinal
verde para que se soltem os cães ferozes da reserva de mercado atacando-se
colegas, na véspera “amigos”, em nome de uma defesa territorial. É o que se
vê na política universitária, denunciada por Romano, é que se viu
recentemente entre psicanalistas. Degradação dos laços sociais, império do
discurso capitalista na área do saber.
Contra o imperativo do ter, a psicanálise propõe a ética da falta-a-ter, que
se chama desejo, e a gestão, não do capital financeiro, mas do capital da
libido, por definição, sempre no negativo. Contra o imperativo da
competitividade neoliberal, a ética da diferença.
Gostaria de lançar aqui a seguinte questão: até que ponto o
desenvolvimento das neurociências e da psicofarmacologia se presta ao
Discurso Capitalista? O dinheiro investido em suas pesquisas não poderiam
estar invertendo a ordem das coisas? Em vez de termos drogas cada vez mais
eficazes para combater novos males decorrentes da transformação da

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


37
sociedade, será que não são os “males” que agora são criados e categorizados
em novas síndromes para serem então tratados pelas novas drogas?
O Diagnóstico a Serviço do Discurso Capitalista
Temos aqui duas hipóteses: a evolução da ciência na psiquiatria produz
novos remédios para novos males; ou ela produz os “males”, pseudos novos
males, para que sejam tratados por medicamentos que ela fabrica. Neste caso,
vemos as neurociências a serviço do discurso capitalista não só produzindo
novas drogas (novos gadgets) mas produzindo também novas categorias
diagnósticas que justificariam assim “médica-mente” a utilização dos
psicofármacos. Senão, vejamos.
O que orienta hoje o psiquiatra em sua função diagnóstica?
Para que o diagnóstico não seja uma etiqueta ou um simples
procedimento classificatório digno de um “jardim das espécies” apropriado
para a botânica ou para o zoológico, é necessário que ele cumpra a função de
remeter à estrutura que o condiciona. Como não temos na psiquiatria a
autópsia que venha confirmar a doença da qual o sintoma seria o sinal, é na
construção do caso clínico – a partir de um saber sobre a subjetividade
particular de cada paciente que a psicanálise permite elaborar – que um
diagnóstico aparecerá como conclusão do processo de investigação.
O que vemos hoje nos manuais psiquiátricos de diagnóstico? Os tipos
clínicos clássicos da neurose não mais se encontram no DSM IV ou no CID
10. A neurose obsessiva foi substituída por TOC (Transtornos Obsessivos
Compulsivos) e a histeria por Transtornos Dissociativos e Somatoformes.
Ao substituir as doenças próprias da psiquiatria clássica por transtornos
opta-se mais pela descrição e pela comunicação desses fenômenos entre
colegas que por uma clínica em que cada caso seja efetivamente um caso e
onde os fenômenos sejam considerados sintomas, ou seja, formações de
compromisso entra as diversas instâncias do aparelho psíquico. Os manuais
de diagnóstico atuais parecem tomados pela preocupação de se constituir uma
língua comum entre psiquiatras de todo o mundo, como um esperanto que
pudesse terminar com o mal-entendido próprio à comunicação. Baseados no
ideal da visibilidade e na dualidade saúde versus transtorno, os manuais dão a
impressão de se pretenderem um instrumento que associa o máximo da
descrição (um paciente pode receber vários números correspondentes a
múltiplos diagnósticos) dentro de uma margem mínima de erro com o ideal
de transmitir um modelo médico para a psiquiatria. Se o próprio médico fosse
fazer, a título de exercício, seu próprio diagnóstico com franqueza e sem
pudor, ele certamente encontraria muitos números que Ihe cabem. E assim
como Simão Bacamarte, generalizaria a tal ponto os diagnósticos que eles
perderiam totalmente seu valor clínico. Os manuais de diagnóstico são
deliberadamente a-teóricos, voltando-se para uma descrição que seja
partilhada pela maioria dos psiquiatras do mundo. Assim toda e qualquer
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
38
hipótese etiopatogênica é excluída, como também desaparece o próprio
conceito de doença, uma vez que esta não deixa de estar vinculada a um
processo do qual se espera conhecer, um dia, seus elementos e sua dinâmica.
Fundar uma prática de diagnóstico baseada no consenso estatístico de termos
relativos a transtornos, que por conseguinte devem ser eliminados com
medicamentos, é abandonar a clínica feita propriamente de sinais e sintomas
que remetem a uma estrutura clínica, que no caso, é a estrutura do próprio
sujeito. É estar a serviço de uma psiquiatria ativa de resultados já
estabelecidos previamente pela lógica do mercado de psicofármacos.
Situando o problema no âmbito da ética, podemos nos perguntar se não
estaria havendo uma inversão do procedimento psiquiátrico: os
medicamentos determinam os diagnósticos. O desaparecimento da neurose da
classificação psiquiátrica não teria alguma relação com o lançamento de
medicamentos propondo o tratamento de transtornos neuróticos? Podermos
dar como exemplo a propaganda de Zoloft para tratar de TOC.
Restituir a função diagnóstica no tratamento psiquiátrico a partir de uma
clínica do sujeito é um dever ético que a psicanálise propõe a psiquiatria.
Assim como ir contra a dissolução da clínica substituída pelo binômio norma
X transtorno, para privilegiar o sintoma como uma manifestação do sujeito.
Isto é uma forma de sair do discurso do capitalista que condiciona desde o
diagnóstico até o tratamento para restituir à medicação seu justo valor
paliativo e não resolutivo do sofrimento mental. Pois a psicanálise não se
opõe à psiquiatria, mas sim a todo Discurso que suprime a função do sujeito.
Pois clinicar é preciso e não existe clínica dessubjetivada. Eis a ética da
diferença que a psicanálise contrapõe à prática normativa da psiquiatria
enquanto serva do capital.
Não devendo sujeitar-se nem ao discurso universitário nem ao discurso
capitalista, a ciência – eis a tarefa que cabe aos cientistas – deve corresponder
à estrutura de discurso que mais dela se aproxima: o discurso da histérica.
No caso da psiquiatria, isto significa que o avanço na ciência aqui deve
ser motivado pelo sujeito patológico, sofredor, sujeito dividido, sujeito da
esquize que se manifesta na clínica. É preciso que o agente das neurociências
seja o sujeito da clínica ( $ ) que ao interpelar com seu pathos o mestre-
cientista, ( S2 ), o faça produzir o saber ( S2 ), mesmo sabendo que este
saber não dará conta de todo real ( a ) em jogo na verdade de sofrimento
subjetivo.
Texto publicado originalmente em: Psicanálise e Psiquiatria -
Controvérsias e Convergências (Editora Rios Ambiciosos),
coletânea organizada pelo autor que fez parte da Coleção
Bacamarte ao lado de Extravios do Desejo - Depressão e
Melancolia (org. A. Quinet), A Clínica da Esquize - Autismo e
Esquizofrenia na Clínica da Esquize (org. S. Alberti); A

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


39
Psicanálise e a Clínica da Reforma (F. Tenório) e Na Mira do
Outro - A Paranóia e seus Fenômenos (org. A. Quinet).

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


40
Crítica ao Gozo Capitalista
Raymundo de Lima
O final de ano é ao mesmo tempo bom e ruim. Bom momento para se
fazer reconhecimento quanto as realizações e os ganhos. É quando revemos
parentes e amigos, uma maneira de dar provas que continuamos vivos, apesar
de tudo. Mas, também é momento se encarar o lado negativo: reconhecer as
perdas, os danos e o que ficou por se realizar. Imagens de tristezas e de dor
nos obriga a elaborar lutos, imprescindíveis para podermos bem continuar a
vida. No âmbito social, nos vemos jogados na repetição dos anos anteriores
do consumismo, pressionando-nos a comprar objetos que na maioria não
necessitamos. O ideologia proclama “consuma, para existir”.
Como se não bastasse passar o ano sob os efeitos da globalização, a
competição do mercado, o medo do desemprego ou de fechar a loja ou
empresa no final do ano, temos ainda que suportar ouvir em todos os lugares
aquelas harpas de Natal, hoje dividindo espaço com o romantismo tristonho
de Roberto Carlos e o som carismático-alegrinho do Padre Marcelo, ambos
seduzindo-nos a comprá-los.
Ao lado da crítica marxista, a psicanálise pós-Freud, também fez uma
crítica ao discurso capitalista, que, como sabemos, atravessa até mesmo os
descapitalizados, dos trabalhadores aos micro-empresários. O capitalismo
constitui um modo de pensar e agir que influencia a todos,
inconscientemente. Sua função é produzir desde coisas até idéias, valores e
crenças que se situam no lugar da causa do desejo humano. Portanto, a
função ideológica do sistema capitalista serve tanto para justificar suas
contradições quanto para disfarçar sua radical falta de ética.
No capitalismo, todos perdem sua condição de sujeitos autônomos e
viram consumidores-objetos. Mas, compensados pela ilusão de liberdade. A
bem da verdade, no capitalismo, ao consumir coisas somos também
consumidos pelo sistema. É próprio dele se intensificar o superego de todos,
uniformizando-os na resposta a ordem: “Consuma. Tenha. Só assim gozarás
a vida”.
Desgraçados aqueles coitados que não conseguem responder
afirmativamente a ordem do capital. Pagam com a marginalização, a exclusão
e a angústia. Os pobres, são visivelmente excluídos do sistema porque falta-
lhes o poder de compra. Os de classe média, quer sustentados por salário ou
algum capital da micro empresa, tentam, mas também não conseguem
acompanhar os apelos do poder capitalista. Quem já não sentiu ansiedade por
não poder acompanhar o lançamento do mais novo tipo de celular, de carro,
do DVD que vai substituir os CDs? Após ter comprado um videogame, vi o
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
41
entusiasmo dos meus filhos quase ficar abalado quando um vizinho disse-lhes
que já tinha um modelo mais novo no mercado. Ou seja, tais objetos
representam mais que coisas de uso. Sendo fetiches, eles transbordam em
significados, tais como: estar sintonizado com os últimos lançamentos da
tecnologia, o status social, prestígio, poder de compra (“eu tenho, você não
tem”). É bom estar incluído e causa angústia se ver excluído. E, o modo de
ser incluído no capitalismo é ter coisas. Não ter é se tornar marginal ao
sistema. Em verdade, a operação capitalista faz o objeto agir amarrando o
sujeito. Hoje em dia, esse objeto “amarrador” é produzido pela ciência, ou
melhor, pela tecnologia, definitivamente a serviço da ideologia do mercado.
A universidade não fica fora desse jogo. Cada vez mais os projetos de
pesquisa e ensino estão voltados para apoiar a lógica de mercado. Não mais
existe produção de saber desinteressado.
O capitalismo é mestre em colocar em todos os espaços “a mais-valia no
lugar da causa do desejo e transformar cada um em explorador potencial do
outro, para dele obter lucro, um sobre-trabalho não contabilizado”
(A.Quinet).
Diante dessa dominação sem limites, de corpos e mentes, em escala
mundial, surge uma pergunta: para além do posicionamento tradicional de
esquerda, e das ONGs – recentemente em protesto contra a globalização em
Nice-Franca, será que existem outros tipos de reações “inconscientes” a essa
dominação e uniformização de tudo?
O psicanalista Antonio Quinet, em recente seminário em Belo Horizonte,
ensaiou uma reflexão que aponta alguns atos psicossociais como formas de
protestos contra o imperialismo capitalista.
O primeiro protesto “inconsciente” estaria em marcha por movimentos
religiosos. Ou seja, tanto os discursos capitalista e científico que pretendem a
dominação total dos espaços humanos estariam provocando, hoje, uma reação
religiosa de massa. Por traz do crescimento das várias religiões e seitas
haveria aí a recusa de acreditar na ideologia que diz que a totalidade do poder
está no Capitalismo e todo o saber está na Ciência. Ora, para o crente, “a
totalidade de tudo está é em Deus. Quem é onisciente é Deus. Só Deus é o
Poder”. Esse “argumento” atravessa tanto as seitas, os esoterismos até mesmo
as grandes religiões tradicionais ou modernas, da Teologia da Libertação aos
Carismáticos e Fundamentalistas cristãos ou islâmicos. Ao contrário de
Marx, Freud e Nietzsche, que imaginaram a ciência reinando em paz sem o
“ópio” ou “ilusão religiosa”, observa-se hoje um fato social curioso: quanto
mais se desenvolve a ciência, mais há um aumento impressionante da
religiosidade. “O desenvolvimento da ciência não tem produzido mais
materialistas agnósticos ou ateus, mas tem produzido mais religiosos”, de
crentes tradicionais aos que acreditam em milagres, duendes, fadas ou o
poder dos astros. O mundo continua sendo vítima de fanáticos como Jin
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
42
Jones, Koresh, Assarara, o Hesbbolah, mas, há também grupos de religiosos
que dialogam fé e razão, são críticos dos maus governos e, lutam pelo
ecumenismo e pela paz. Também multiplicaram-se as formas de
religiosidade. Se há demanda de artistas excêntricos, alguém funda uma nova
igreja para atendê-los. Se há muitos humildes se sentindo pouco à vontade
em templos suntuosos, então funda-se mais uma portinha com uma placa
“igreja/templo” na frente, geralmente num bairro de periferia. Vale até
mesmo fazer o culto numa sala de estar de família. A cultura pós-moderna já
chegou as coisas da fé. Como qualquer negócio, estão se alastrando
construções em série de igrejas e mega-encontros nos estádios de futebol,
praças ou ruas. Evidentemente que o capitalismo está por traz dessa explosão
religiosa. Sem nenhuma má fé e sem pudor, ele explora mais um ramo de
negócio. Estamos numa época cujos valores “plantam bananeira” e a fé para
ser reconhecida tem que virar show, com músicas segmentadas e
coreografadas tudo made in capitalismo, estetizado por Hollywood.
As reações patológicas constituem a segunda forma de protesto contra o
discurso capitalista. Doenças como a depressão, o alcoolismo, os
espancamentos domésticos de mulheres e crianças, as toxicomanias nas suas
mais variadas formas, desde medicamentos às drogas ilícitas, são resultados
de uma ideologia que promete, mas jamais satisfaz a alma das pessoas. As
coisas dos shopping centers podem trazer conforto, jamais felicidade. Em
verdade, o segredo do capitalismo é manter os sujeitos sempre em falta. O
sistema sabe calcular como fazê-los voltar a demandar mais e mais coisas.
Suspeita-se que as toxicomanias jamais serão erradicadas no capitalismo
porque o sistema é quem as sustenta. “O toxicômano é o modelo de
consumidor contumaz”, declarou a psicanalista Angela Valore. Claro, de
consumidor, ele termina também sendo consumido duas vezes: pelas drogas e
pelo sistema. Mas, calcula o narcotraficante “inteligente” a exemplo do que
vinha acontecendo com os consumidores de crack, ele não deve ser
consumido todo. Se todos morrerem de consumir crack, não haverá mais
produção, nem comércio. A lógica do narcotraficante e do ideólogo do
capitalismo é que, há de se ter um consumidor dependente mas distante na
morte. O capitalismo é um sistema que vicia a sociedade no limite do
consumo.
Terceiro, há ainda, uma patologia advinda dessa ideologia: Como as
pessoas são mediadas por valores mais representativos para o sistema
capitalista, tais como: coisas, títulos, cargo, função, elas terminam sendo
transformadas em objetos. Alienadas de sua totalidade existencial, as pessoas
muito pouco se dão umas as outras. No trabalho e nas escolas há colegas,
nunca amigos. Nas igrejas, irmãos em Cristo. No mundo dos negócios,
parceiros. No crime, cúmplices. Resulta daí um “autismo induzido” (sic!);
um faz de conta que somos autênticos nos relacionamentos de trabalho, na
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
43
escola, na universidade, nas igrejas, nos clubes. Faz de conta que somos
amigos, mas no fundo, todos sabem da pouca confiança existente com relação
ao outro, sentem a falta de profundidade nas trocas humanas e o pouco tempo
que sobra para conversar e se conhecer melhor o próximo. O sistema
capitalista impõe-nos um mascaramento automático: “tudo bem?” e o outro:
“tudo”. Não há disposição ou interesse de perguntar “e você, como vai?”
Afinal, no capitalismo, os incluídos no consumo se sentem bem porque estão
“preenchidos” pelo Deus do consumismo.
Como disse K. Popper, todas as tentativas ideológicas de trazer o céu para
a terra, não só fracassaram como até fundaram o inferno entre os homens. Foi
o caso do nazi-fascismo, do comunismo, dos fanatismos de todos os tipos, e
no momento, do capitalismo de corte neoliberal.
Que haja mais conscientização e que as pessoas não percam sua condição
de sujeitos de seu desejo na onda consumista das festas de fim de ano. É uma
simples sinalização psicanalítica para o próximo milênio.
O presente texto foi publicado originalmente na Revista Espaço
Acadêmico (http://www.espacoacademico.com.br/).

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


44
Super-Heróis, Axiologia e
Inconsciente Coletivo

Nildo Viana

O sucesso das histórias em quadrinhos no século 20 é espetacular. Elas


começaram a ocupar um espaço cada vez maior a partir do início deste
século. Um conjunto de pesquisadores começaram a se debruçar sobre elas e
fornecer sua explicação, tais como sociólogos, semiólogos, etc. Uma das
constatações que se pode retirar do estudo das histórias em quadrinhos1 é a de
que ela pode ser dividida em diversos gêneros. Podemos citar os quadrinhos
humorísticos, eróticos, de aventuras, entre outros. Iremos, aqui, tratar de um
desses gêneros, a saber: o gênero da super-aventura. Neste gênero os
personagens principais são os super-heróis.
Este gênero surge num determinado período histórico. Geralmente a
história das histórias em quadrinhos é dividida em períodos, a saber: o
primeiro período, correspondente à época da formação, vai de 1895 a 1928,
marcado pela existência dos primeiros quadrinhos Yelow Kid (menino
amarelo) e Buster Brown (embora existam interpretações discordantes a
respeito do nascimento dos quadrinhos e do papel pioneiro geralmente
atribuído a Yelow Kid) e pelo seu desenvolvimento com as histórias de Little
Nemo in Suberland (O Pequeno Nemo no País dos Sonhos, de Oucault),
Krazy Kat e o surrealista e ainda atual Félix, The Cat (O Gato Félix). Neste

1
Apesar de ser repetitivo em textos sobre histórias em quadrinhos, nunca é demais
lembrar que as Histórias em Quadrinhos recebem diversas denominações em países
diferentes: em Portugal, são chamadas de histórias aos quadradinhos; na Itália,
fumetti (“fumacinhas”, os balões do diálogo); na França, Bandes Dessinées (Bandas
— ou “tiras” — Desenhadas); nos Estados Unidos, Comics (derivado de Comics
Trips, Tiras Cômicas), Comix, Comics Trips, Funnies (“engraçados”), que apesar de
perderem o seu caráter exclusivamente humorístico, manteve o nome de origem; na
Espanha Tebeo (derivado do nome de uma Revista em Quadrinhos muito popular
neste país cujo título era a sigla T. B. O. que ficou sendo chamado tebeo ou tabeó);
no México, Historieta; no Japão, Mangá; no Brasil, Histórias em Quadrinhos ou
Gibi (derivado de uma antiga revista com o mesmo nome, palavra que significava
originalmente “moleque”). Sobre estas denominações, cf. BIBE-LUYTEN, Sônia. O
Que é História em Quadrinhos. 2a edição, São Paulo, Brasiliense, 1987; MOYA,
Álvaro (org.). Shazam! São Paulo, Perspectiva, 1972; B ARON-C ARVAIS, Annie. La
Historieta. México, Fondo de Cultura Económica, 1989.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
45
período, os quadrinhos apareciam em tiras de jornais e não em revistas e
eram produzidos no círculo dos jornais. Mas esta situação mudou:
“Este ciclo de libérrima fantasia criativa, tanto na escolha dos
personagens e situações, como em audácias técnicas e narrativas, entrou em
declínio por volta de 1915, devido em parte à estandardização e
conservadorismo industriais impostos ao gênero, quando os comics ficaram
tutelados pelos Syndicates distribuidores de material desenhado aos jornais,
poupando assim às empresas jornalísticas a manutenção de desenhistas
privativos, embora tivessem de renunciar ao luxo do ‘exclusivo’ nesse campo.
Estes Syndicates, que representaram o fim de uma fase jornalística
tradicional em benefício de um mais elevado nível capitalista de divisão do
trabalho e da produção, foram na realidade uma conseqüência lógica do
prévio desenvolvimento das agências distribuidoras de notícias na indústria
jornalística: a francesa Havas (1835), a inglesa Reuter (1851) e as norte-
americanas Associated Press (1848) e a United Press (1907). Paralelamente
às agências de notícias, Irving Bacheller criou, em 1880, uma agência de
representação de jornalistas, detendo os direitos exclusivos de suas crônicas
e reportagens, iniciativa esta aplicada em 1881 por S. S. McClure para a
produção de novelistas (como Arthur Conan Doyle, Rudyard Kipling e Robert
Stevenson). Além disso, a existência de um novo e crescente mercado para
ilustrações, anedotas gráficas e comics motivou o aparecimento, desde o
início do século, de agências distribuidoras deste material, além do literário,
tais como: Color Process Syndicate, Otis Wood Syndicate, etc. No entanto, o
máximo impulso que esta atividade recebeu proveio do germano-americano
Moses Koenigsberg, que desde 1905 se ocupava na distribuição de comics
para a cadeia Hearst; em 1915, criou o King Features Syndicate, poderosa
agência de dimensão internacional, à qual se seguiriam o Chicago Tribune-
New York News Syndicate, fundado em 1919 pelos diários de Chicago e Nova
York, o United Features Syndicate, filial da agência United Press, etc.”2.
Desta forma, ocorre uma estandardização tanto formal quanto temática
(segundo Gubern, “preferência por assuntos e situações inocentes, evitando
incomodar sua vasta e heterogênea clientela”) das histórias em quadrinhos.
Esta burocratização e mercantilização da produção e distribuição das histórias
em quadrinhos teve como conseqüência uma diminuição considerável da
liberdade de produção dos criadores de histórias. A chamada “tira familiar”
que, embora fizesse uma sátira com a família (mas reafirmando-a), passou a
se impor, tal como na obra de McManus (criador de Pafúncio e Marocas).
O período posterior foi marcado pelo apogeu das histórias em quadrinhos.
De 1929 a 1939 surge e se desenvolve com sucesso o gênero aventura,
expresso nas aventuras de Tarzan (Harold Foster), O Príncipe Valente
(também de Foster), Buck Rogers (Dick Calkins), Mandrake e Fantasma

2
GUBERN, Román. Literatura da Imagem. Rio de Janeiro, Salvat, 1979, p. 88.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
46
(ambos de Lee Falk), Terry e Steve Canyon (criados por Milton Caniff),
Agente Secreto X-9 e Flash Gordon (os dois de Alex Raymond) e o detetive
Dick Tracy (produzido pelo escritor de romance policial Chester Gould),
entre inúmeros outros. Estas histórias em quadrinhos abriram caminho para o
fantástico e para o gênero da super-aventura. O medieval Príncipe Valente
tinha fantásticas aventuras enfrentando monstros da pré-história, Tarzan
também se aventurava em civilizações esquecidas convivendo
simultaneamente com situações típicas do passado (pré-história) e do
presente, Mandrake realizava as mais fantásticas mágicas e efeitos
ilusionistas em suas aventuras, Flash Gordon vivia aventuras em outros
planetas, Brick Bradford também realizava viagens inacreditáveis, inclusive
no mundo microscópico (veja o fantástico Viagem ao Interior de uma
Moeda) e assim por diante. Do mundo dos heróis ao mundo dos super-heróis
foi um passo3.
Quem São os Super-Heróis?
Alguns poderiam falar em gênero dos super-heróis, mas a definição de
super-herói que forneceremos a seguir irá esclarecer a escolha da
denominação de super-aventura. Em primeiro lugar, é necessário distinguir o
herói do super-herói. Em sentido amplo, o herói é um indivíduo que possui
qualidades consideradas especiais, tais como habilidades físicas, mentais ou
morais. A coragem é o atributo mais característico do herói. A qualificação
de herói, no entanto, não é reservado apenas ao mundo da fantasia, pois ele é
aplicável a indivíduos concretos que se destacam em nossa sociedade. O
herói, portanto, possui uma existência real. Ele pode ser transportado para a
literatura, as histórias em quadrinhos, o cinema, a televisão, etc.4. Nas

3
Esta periodização está incompleta, pois deveria abranger o período posterior que
apresenta não só a super-aventura como também a criação dos quadrinhos mais
ideológicos de todos os tempos: Disney, que surge com Mickey Mouse e se
desenvolve com toda a “Família Disney” (sobre a família de patos burgueses veja-
se: D ORFMAN, Ariel & MATTELART, Armand. Para Ler o Pato Donald.
Comunicação de Massa e Colonialismo. 2a edição, Rio de Janeiro, Paz e Terra,
1980; MIRANDA, Orlando. Tio Patinhas e os Mitos da Comunicação. 2a edição, São
Paulo, Summus, 1978; MARTINS, José de Sousa. Tio Patinhas no Centro do
Universo. In: Sobre o Modo Capitalista de Pensar. 3a edição, São Paulo, Hucitec,
1982). Posteriormente, ocorre o desenvolvimento de outros gêneros tais como o
erótico (Barbarella, Jodele, Saga de Xam, etc.), o violento (Kriminal, Diabolik,
Satanik), o gênero marginal (crítico e politicamente engajado), entre inúmeros
outros. O período da crise (1939-1948) foi superado e novos gêneros surgiram e
continuam se desenvolvendo. Sobre o desenvolvimento histórico das histórias em
quadrinhos se encontra diversas informações em Marny, Gubern, Bibe-Luyten,
Baron-Carvais e Moya.
4
Sobre o herói na ficção: cf. KOTHE, Flávio. O Herói. São Paulo, Ática, s/d.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
47
histórias em quadrinhos existem muitos heróis, tais como Tarzan, Akim,
Targo, Tex Willer, Tintin, Asterix, etc.; nos seriados de TV se pode ver Zorro
(os dois “zorros”, o capa e espada e o cowboy), James Bond, O Aranha-
Negra, Daniel Boone, Paladino, A Justiceira, etc.
O que distingue um super-herói de um herói? A primeira resposta, e a
mais simples, é a de que o herói possui habilidades excepcionais mas
humanamente possíveis enquanto que o super-herói possui habilidades sobre-
humanas. Os super-heróis são sobre-humanos e o modelo que encarna este
ser extraordinário é o Super-Homem. A palavra inglesa “super” tem como
correspondente em português a palavra “sobre”, e isto quer dizer que Super-
Homem significa sobre-homem. Mas isto é insuficiente para definir um
super-herói. Um super-herói só é um super-herói quando tem que colocar em
prática seus poderes e isto só pode ocorrer havendo uma população de seres
poderosos num mundo em que ele vive e combate, ou seja, o super-herói só
pode existir, ao contrário do herói, em constante relação com super-vilões e
com outros super-heróis. Em poucas palavras, o super-herói só pode existir
havendo um mundo habitado por seres super-poderosos.
O Super-Homem, o primeiro super-herói criado (em 1938), vive num
mundo habitado por Lex Luthor, Batman, Aquaman, Arqueiro Verde,
Coringa, etc. O Homem-Aranha convive com o Dr. Octopus, o Homem-
Areia, o Duende Verde, o Hulk, o Homem de Ferro, etc. Por conseguinte,
podemos dizer que um super-herói é: 1) um ser que possui poderes sobre-
humanos, extraordinários; 2) um ser que existe numa convivência com outros
seres extraordinários e poderosos como ele. Só pode existir um super-herói
no interior de uma Super-Aventura, ou seja, no interior de uma aventura
extraordinária envolvendo outros seres extraordinários.
Mas como surge um super-herói? De onde vem os seus poderes sobre-
humanos? Alguns já nascem com estes super-poderes, tal como é o caso de
super-heróis (e super-vilões) que são de outros planetas ou mundos, como é o
caso do Super-Homem (que veio do planeta Clipton) e de Thor, o deus do
trovão, que já nasce com super-poderes por ser um deus. Os super-heróis que
nascem humanos adquirem seus super-poderes por três vias diferentes: a)
através de suas habilidades físicas e mentais excepcionais criam roupas e
instrumentos que multiplicam suas capacidades. Este é o caso de Batman,
Homem de Ferro, Gavião, o Arqueiro, etc. Estes, na verdade, poderiam ser
considerados apenas heróis, mas por estarem inseridos numa super-aventura
(o mundo de Batman é o mesmo do Super-Homem, Mulher-Maravilha,
Aquaman, etc.; e o mundo do Homem de Ferro e do Gavião é o mesmo do
Homem-Aranha, Thor, Surfista Prateado, Namor, X-Man, etc.); b) através do
contato com radioatividade, energia nuclear ou cósmica, etc., eles realizam
um mutação e adquirem super-poderes. O Homem-Aranha ganha seus
poderes graças a uma picada de uma aranha contaminada com radioatividade;
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
48
o Quarteto Fantástico (Homem-Elástico, o Coisa, Tocha Humana e Mulher-
Invisível) adquire seus poderes após pousar numa ilha infectada de
radioatividade cósmica; Hulk através da exposição do cientista Bruce Banner
(no seriado da televisão, David Banner) aos raios gama; o Surfista Prateado
através dos poderes cósmicos doados a ele por Galactus; c) através da
iniciação no mundo da magia, onde se adquire poderes mágicos, tal como é o
caso do Dr. Estranho.
A partir disto podemos distinguir três tipos de super-poderes: o poder
tecnológico, o poder mágico e o poder energético (ou “cósmico”). O poder
tecnológico é uma extensão do corpo humano, é um instrumento (roupa,
arma, etc.) que permite ao seu portador ultrapassar os limites humanos (voar,
lançar raios, etc.); o poder mágico se inspira no pensamento religioso e é daí
que vem o seu caráter misterioso, inclusive de sua origem; o poder energético
é um poder que se extrai da natureza, ou seja, o ser humano (ou qualquer
outro ser) se apossa da energia (cósmica ou qualquer outra) e ela se torna
uma parte dele. A diferença entre o poder tecnológico e o poder energético ou
mágico se encontra no fato de que o portador do primeiro depende do seu
aparato tecnológico (Batman depende de sua roupa, cinto, carro, etc.; o
Homem de Ferro depende de sua armadura) enquanto que o portador do
poder energético ou mágico contém o poder em sua própria estrutura
orgânica. No mundo dos super-heróis a magia (o sobrenatural) e a ciência (o
tecnológico) se misturam e mantêm suas especificidades.
Os super-heróis não são apenas aquilo que se vê nas revistas em
quadrinhos. Existe algo mais que não está escrito ou desenhado. Trata-se da
emergência dos super-heróis. Por qual motivo surgem os super-heróis? Para
respondermos esta questão teremos que, brevemente, tratar da relação entre
super-heróis e sociedade. Os super-heróis surgem na sociedade capitalista
contemporânea, sendo que esta proporciona suas condições de possibilidade.
Para existir histórias em quadrinhos é necessário existir meios de produção
(tecnologia de reprodução em massa, por exemplo) e distribuição de histórias
em quadrinhos, bem como um mercado consumidor. Mas estas
determinações estão presentes não só no gênero super-aventura mas em
qualquer outro gênero de histórias em quadrinhos. O que possibilita este
gênero específico, além das determinações gerais das histórias em
quadrinhos, é o surgimento de um mercado consumidor específico, a
juventude, que começa a ser explorado com o gênero da aventura na década
de 30 (1931-37), com as histórias fantásticas de Flash Gordon, Mandrake,
Dick Tracy, Príncipe Valente, Buck Rogers, Tarzan, Brick Bradford, Jim das
Selvas, Fantasma, Garth, etc.). Além disso, o enclausuramento dos
indivíduos em instituições burocráticas e o domínio do mercado na vida
social da sociedade capitalista propiciaram uma necessidade de se sentir algo
no imaginário que não se podia sentir na realidade. O processo de
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
49
burocratização e mercantilização das relações sociais no capitalismo cria a
necessidade, através da fantasia, de superar a prisão que se tornou a vida
social e conquistar uma liberdade imaginária para compensar a falta de
liberdade real.
No presente texto deixaremos de lado o problema das determinações
sociais do gênero da super-aventura e desenvolvermos uma análise de apenas
como elas se manifestam concretamente nas histórias, ou seja, em sua
estrutura narrativa própria. Iremos destacar, neste sentido, num primeiro
momento, a relação entre super-heróis e axiologia (“ideologia”), e num
segundo momento, a relação entre super-heróis e inconsciente coletivo. Isto,
sem dúvida, nos remeterá ao estudo da relação entre super-heróis e sociedade,
mas isto só ocorrerá de forma subordinada ao nosso objetivo central.
Super-Heróis e Axiologia
A partir da definição acima de super-herói, podemos, agora, relacionar
super-herói e “ideologia” (axiologia)5. Muitos já denunciaram o caráter
“ideológico” dos super-heróis. Os nazistas, por exemplo, afirmaram que “o
Super-Homem é judeu”. Sem dúvida, a era da super-aventura surge no
período que antecede a Segunda Guerra Mundial. A necessidade de heróis de
carne e osso para sacrificar sua vida na guerra criou a necessidade da fantasia
dos super-heróis. O Super-Homem surgiu neste contexto e a afirmação dos
nazistas é correta em um certo sentido: o Super-Homem não é judeu no
sentido correto do termo, já que ele não possui religião (e nem no sentido
nazista e ideológico do termo, já que o Super-Homem não é um ser humano,
não poderia ser da “raça” dos judeus) mas é “judeu” no sentido de que
realmente ele é inimigo dos nazistas e defensor dos Estados Unidos, devido

5
Utilizaremos as expressões ideologia e ideológico em dois sentidos. Um é o
utilizado por alguns dos “críticos” das histórias em quadrinhos e tem o significado
de uma concepção valorativa. Porém, numa perspectiva dialética, toda forma de
consciência é valorativa. Desta forma, não há sentido em acusar algo de ser
valorativo, pois tudo é valorativo. Quando se acusa as histórias em quadrinhos de
serem valorativas o que se quer dizer na verdade é que elas possuem outros valores,
que não os mesmos dos seus críticos. O que alguns querem dizer, neste caso, é, na
verdade, “axiologia” e “axiológico”. Entendemos por axiologia o padrão dominante
de valores em nossa sociedade, os valores burgueses (cf. VIANA, Nildo. A Questão
dos Valores. Revista Cultura & Liberdade. ano 2, n. 2, abril de 2002). Quando
utilizarmos os termos ideológico e ideologia neste sentido usaremos aspas para
demarcar a diferença desta concepção com a nossa, mas na maioria dos casos
substituiremos estas expressões por axiologia e axiológico. Para nós, ideologia é
uma falsa consciência da realidade elaborada de forma sistemática (que, sem
dúvida, carrega valores, que são correspondentes aos interesses da classe
dominante). Sobre ideologia, cf. MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A Ideologia
Alemã (Feuerbach). 8a edição, São Paulo, Hucitec, 1990.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
50
ao fato dele simbolizar o “homem livre” norte-americano. Desta forma, ele
assume a característica comum de todos os “inimigos imaginários” criados
pelos nazistas, assumindo a forma de mais um “conspirador judeu”.
O caso do Capitão América é ainda mais esclarecedor. A sua origem, na
ficção, ocorre durante a Segunda Guerra Mundial. Steve Rogers era um
soldado que foi exposto a uma experiência científica que pretendia criar
super-soldados norte-americanos para combater os seus inimigos na Segunda
Guerra Mundial. Um soro foi criado para fornecer uma força sobre-humana
aos soldados e a experiência com Steve Rogers apresentou os resultados
esperados. O super-herói foi reforçado por um uniforme – que é inspirado na
bandeira dos Estados Unidos – e um escudo poderoso. Ele foi responsável
por inúmeras vitórias do exército norte-americano. Por fim, ele caiu numa
geleira e ficou congelado por décadas, até que, por acaso, Namor, O Príncipe
Submarino, em um momento de irritação com os seres humanos, joga para
longe uma imensa geleira e esta derrete libertando o Capitão América, que
passa a atuar em nossa época.
O Homem de Ferro também surgiu num contexto de guerra – a guerra do
Vietnã – e foi no contexto desta guerra que Tony Stark foi obrigado a criar a
armadura do super-herói, mais tarde alterada para uma cor e forma diferente.
O seu caráter axiológico se encontra também na atividade enquanto indivíduo
comum: “Tony passa a ser proprietário de um poderoso complexo industrial
onde aperfeiçoa e constrói armas e materiais para guerra, em defesa do
mundo capitalista”6.
Mas, sem dúvida, a origem, o nome, a finalidade, a ação, as ligações com
o poder oficial e o uniforme do Capitão América fazem dele o mais
axiológico dos super-heróis existentes. A própria personalidade do Capitão
América, marcada pelo “espírito de liderança” e “bom senso”, é expressão da
axiologia norte-americana segundo a qual os Estados Unidos tem o papel de
“líder mundial”. As histórias antigas do Capitão América durante a Segunda
Guerra Mundial são extremamente axiológicas, e contam não só com a figura
de Hitler e vilões poderosos (Caveira, Capitão Nemo, etc.) como aliados de
confiança (Buck, O Patriota, Tocha Humana Original, Namor, etc.) como
também aliados “duvidosos” na luta contra o nazismo, tal como o super-herói
russo Guardião Vermelho, que até aparece conversando com outro ditador
famoso da época, Stálin. Foi nesta mesma época que surgiu o herói Tio Sam,
desenhado pela primeira vez pelo renomado Will Eisner e que fornece uma
idéia do clima da época, pois o seu uniforme e nome, assim como os do
Capitão América, já diz tudo.
Muitos heróis e super-heróis foram acusados de serem axiológicos
(“ideológicos”) devido ao racismo que se vê em alguns deles e isto reflete,

6
C AVALCANTI, Ionaldo. Esses Incríveis Heróis de Papel. São Paulo, Mater, p. 68.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
51
em alguns casos, a verdade. Estes e outros aspectos axiológicos podem ser
encontrados em inúmeros super-heróis.
O gênero da super-aventura é acusado de ser “ideológico” (axiológico)
por outros motivos, tais como o “anonimato social” (identidade secreta), o
“exemplo social” do super-herói, a imagem da sociedade como não sendo
dividida em classes sociais, “mistificação do arsenal nuclear”, caráter
atemporal das histórias7.
Entretanto, consideramos que reside aí alguns exageros. O anonimato
social ou identidade secreta (que, aliás, ao contrário do que pensa este autor,
acompanha a maioria mas não todos os super-heróis), segundo o antropólogo
Luís Fernando Baêta Neves, serve para demonstrar “a possibilidade de uma
continuidade entre a vida quotidiana de qualquer indivíduo (de qualquer
leitor, portanto) e a vida maravilhosa e plena de realização, de poder e de
notoriedade de um herói sacralizado”8. Desta forma, há um ocultamento da
personalidade civil que se expressa no exercício de uma “profissão
corriqueira”. Os super-heróis trabalham como qualquer cidadão (Baêta Neves
cita Batman como uma exceção e se esquece do Homem de Ferro, que
também é um milionário), mas não usam seus super-poderes para se
manterem financeiramente. Por qual razão? Por dois motivos, segundo este
antropólogo: a) se fizesse isso estaria rompendo com a axiologia que
apresenta o trabalho como “dignificante e enaltecedor”, que é aquele que é
realizado dentro da ordem social e das normas legais; b) a grande ação
heróica aparece como “gratuita” e como “obrigação” de todos, servindo como
“exemplo social”. Desta forma, tal aspecto da vida do super-herói se
apresenta como axiológica e conservadora, pois apresenta uma falsa
consciência da realidade e faz apologia da sociedade e dos valores existentes.
Esta visão apresenta alguns problemas. O “anonimato social” (identidade
secreta) tem sua razão de ser na própria estrutura do gênero da super-aventura
(e também dos heróis comuns) que é uma extensão da sociedade capitalista.
Qual é a razão da identidade secreta? Em primeiro lugar, para proteger
pessoas próximas do super-herói, que podem ser vítimas de seus inimigos. Os
inimigos existem devido a luta pelo poder, a criminalidade, que são geradas
pela desigualdade (social). Tendo-se em vista a existência dos super-vilões
(quase que totalmente ausentes na análise de Baêta Neves) e a possibilidade
de vingança, seqüestro, etc., nada é mais natural e necessário – numa
sociedade caracterizada pela desigualdade e que por isso necessita de super-
heróis – do que a identidade secreta. Em segundo lugar, existem super-heróis
que estão bastante próximos do poder (Batman e Robin, Capitão América,

7
Cf. B AÊTA NEVES, Luís Fernando. O Paradoxo do Coringa. Rio de Janeiro, Achiamé,
1979.
8
Cf. B AÊTA NEVES, Luís Fernando. Ob. cit., p. 92.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
52
etc.) mas a maioria possui uma relação ambígua com o poder. Basta citar os
exemplos do Homem-Aranha e do Hulk para ver isto. De onde vem esta
ambigüidade? Vem do fato de que a idéia de justiça e a ação do super-herói
nem sempre está de acordo com a justiça oficial. Esta contradição entre a
justiça oficial e a justiça do super-herói aponta para um questionamento da
ordem jurídica-institucional e isto vai contra a argumentação de Baêta Neves.
O fato do super-herói trabalhar como qualquer cidadão não é tão genérico
assim, pois, além dos capitalistas (Batman, Homem de Ferro) existem
aqueles que simplesmente não trabalham (Namor, Hulk, Visão, Surfista
Prateado, etc.). Além disso, a profissão exercida geralmente não é de tempo
integral, pois isto dificultaria a ação do super-herói, tal como a de jornalista
(Super-Homem, Homem-Aranha), advogado (Demolidor), médico (Thor),
etc., ou seja, são free-lance ou profissionais liberais. Há também casos onde
os super-heróis usam seus poderes para ganhar dinheiro: o jornalista Peter
Parker (Homem-Aranha) sempre usa suas habilidades para tirar fotografias
para vender para o jornal O Clarim; a principal habilidade natural de Tony
Stark (Homem de Ferro) é a intelectual, que ele utiliza como empresário,
mas, mais importante que isso, o Homem de Ferro se apresenta socialmente
como guarda-costas de Tony Stark (ou seja, de si mesmo em sua identidade
de homem comum) e de suas empresas, o que significa que é um super-herói
“por profissão”. Por fim, o fato da ação heróica ser “gratuita” e ser vista
como “obrigação” não é, em si mesma, conservadora ou axiológica, pois num
mundo onde tudo foi mercantilizado e o trabalho deve ser retribuído com
dinheiro, este tipo de atividade “desinteressada” (no sentido de interesse
pessoal egoísta) apresenta, na verdade, uma visão alternativa do trabalho. Daí
seu “exemplo social” não ser problemático nem axiológico.
A afirmação de que a super-aventura transmite uma visão da sociedade
como se ela não fosse dividida em classes sociais é questionável. Sem
dúvida, a super-aventura não focaliza a questão social e nem os conflitos
sociais mas nem por isso se pode dizer que ela apresenta uma visão da
sociedade como destituída de divisão social. A própria existência de
criminosos, de super-vilões, as causas das origens de alguns super-heróis e
super-vilões apontam para a existência de conflitos sociais. O Homem-
Aranha, por exemplo, após adquirir seus poderes os utiliza para ganhar
dinheiro e é somente quando um familiar seu é assassinado por um criminoso
é que ele resolve combater a criminalidade. Aí está presente a manifestação
aparente de um conflito social mas o desenvolvimento das histórias acaba
apresentando outros elementos para se observar as origens sociais da
criminalidade e, por conseguinte, a visão das injustiças sociais.
Mas aqui aparece realmente uma visão axiológica da sociedade não tanto
pelo fato de que a divisão social não é enfatizada e sim pela própria
característica do heroísmo: o individualismo. As histórias dos super-heróis
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
53
são histórias de indivíduos extraordinários e nunca de grupos sociais, tal
como se vê na historiografia tradicional, que se caracteriza por retratar a
história dos “grandes homens” e não a dos grupos sociais. Além do
individualismo se revela aí um “desenraizamento social” do super-herói.
Quando este desenraizamento se rompe, tal como no caso do Capitão
América, o super-herói se vê forçado a assumir uma posição e, portanto, ficar
ao lado de um dos grupos sociais existentes, que geralmente são os grupos
dominantes e isto reforça o seu caráter axiológico. Jacques Marny colocou
que a evolução interior dos heróis (e dos super-heróis, diríamos nós) no
decorrer dos anos apresenta a tendência para se adaptar às normas sociais.
Segundo ele:
“A tendência que se verifica na maior parte dos casos é para um
alinhamento segundo as normas sociais. No princípio duma série, o herói é o
homem marginal, o franco-atirador da ordem e da justiça. Mas há um dado
momento em que colabora com as forças da ordem organizadas, tais como o
exército e a polícia do seu país. Foi o que aconteceu com Tarzan, Flash
Gordon, Superman, Terry, o Fantasma e muitos outros. Contudo, temos de ter
em conta que esta colaboração episódica foi devida, na maior parte das
vezes, as circunstâncias históricas, concretamente a última guerra mundial: o
herói mobilizou-se espontaneamente, visto que a luta contra as forças do mal
requeria a união sagrada”9.
Embora existam exceções (tal como Batman, que está sempre do lado da
polícia, ou seja, do poder), é o momento histórico que faz com que o super-
herói reencontre suas raízes sociais. Isto, no caso dos heróis (e aqui
distinguimos herói de super-herói), é diferente, pois as suas características
humanas extraordinárias mas não sobre-humanas fazem dele um ser
enraizado socialmente e é por isso que se pode encontrar um herói de
“esquerda” (tal como Robin Hood e Zorro, um lutando contra o despotismo
feudal e outro contra a colonização espanhola) 10 muito mais facilmente que
um super-herói de “esquerda”.
A “mistificação do arsenal nuclear” é apontada por Baêta Neves como
mais um aspecto axiológico da super-aventura:

9
MARNY, Jacques. Sociologia das Histórias aos Quadradinhos. Porto, Civilização,
1970, p. 128.
10
Sobre o herói de “esquerda”: KOTHE, Flávio. Ob. cit. Aqui se trata do Zorro de capa
e espada e não do cowboy (que no Brasil recebeu o mesmo nome mas que se trata
de uma alteração totalmente sem sentido, pois no original norte-americano ele é
Lone Ranger, “Cavaleiro Solitário”), este sendo considerado extremamente
“ideológico” (cf. D ORFMAN, Ariel & J OFRÉ, Manuel. Super-Homem e seus Amigos
do Peito. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978).
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
54
“Quando se dá a atribuição de super-poderes por acidente e/ou
experiência com arma altamente desenvolvida, ocorre, também, a
mistificação e fetichização do arsenal nuclear. Isto se dá porque este é
valorado de modo absoluto quanto a seu poder e quanto à
irreversibilidade dos efeito que produz. Do lado do caráter de fetiche
do instrumento nuclear pode-se ler, também, uma crítica liberal à
atuação deste sobre o ser humano, que se deforma ao se expor a ele.
Assim, dentro de uma posição tecnocrática dominante, aparece uma
palavra de crítica que visa aplacar e não destruir a vigência da
ideologia tecnocrática, mitificadora da técnica e da ciência”11.
Existe na super-aventura, sem dúvida, uma visão ambígua da ciência (no
que se refere às ciências naturais). Basta ver os casos de Hulk, X-Man, o
Quarteto Fantástico, etc., para se compreender isto. O Hulk e o Coisa
(membro do Quarteto Fantástico) são exemplos de uma crítica dos efeitos da
ciência: a deformação do corpo humano. Neste caso se vê a contradição entre
um efeito estético indesejável (ambos se transformam em figuras
monstruosas do tipo Frankstein, que pode ser considerado o modelo seguido
e o tema clássico da simbolização artística dos monstros que a ciência pode
criar) e a potência adquirida. Estes dois super-heróis simbolizam a
ambigüidade do desenvolvimento científico e que o “avanço” provocado por
ela (domínio sobre a natureza e a sociedade) traz em si aspectos indesejáveis
(a feiúra, mas que no caso pode ser considerado um símbolo da
desumanização e do sentimento de culpa que acompanha a ciência, o que
leva o indivíduo a se sentir “feio”). Mas, a nosso ver, o que a super-aventura
faz não é uma crítica liberal à ciência e sim uma reprodução do caráter
contraditório da ciência, que, ao mesmo tempo, realiza progresso e
retrocesso, desenvolve o controle e o descontrole sobre o meio ambiente onde
vive a humanidade (transformando-o e destruindo-o), melhora e piora a
qualidade de vida e assim por diante.
A última questão colocada por Baêta Neves é o caráter atemporal da
super-aventura. Os super-heróis estão fora da história, pois não vivem
eventos em sua vida que se desenvolvem cronologicamente. Geralmente não
se formam, não se casam, não tem filhos, etc. O mesmo ocorre com a
sociedade onde eles vivem. Em primeiro lugar, é preciso colocar que existem
muitas exceções e que recentemente isto começou a mudar, basta citar o
casamento do Homem-Aranha como exemplo. Em segundo lugar, a estrutura
própria da super-aventura dificulta o desenvolvimento de certos
acontecimentos, pois casamento, filhos, etc., criam obstáculos para a ação do
super-herói (tal como o trabalho em tempo integral). Em terceiro lugar, se o
super-herói se desenvolvesse normalmente como um indivíduo comum ele

11
BAÊTA N EVES, Luís Fernando. Ob. cit., p. 95.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
55
seria muito mais axiológico do que já é12. Em quarto lugar, se a sociedade se
transformasse radicalmente, acabando com as desigualdades sociais e por
conseguinte com a razão de ser da criminalidade e dos super-vilões, então
acabaria a razão de ser do super-herói. A super-aventura possui uma
temporalidade que é marcada pela seqüência sucessiva de aventuras, onde o
passado não pode mais voltar mas explica o motivo de muitas ações
presentes. Isto é axiológico? Ora, se imaginarmos um super-herói
revolucionário que interfere nas relações sociais buscando a transformação
social, a mesma coisa ocorreria. Se a desigualdade acabasse, o super-herói
também acabaria. Isto é próprio da estrutura da super-aventura.
Mas uma análise do mundo dos super-heróis deve também distinguir
entre os “mundos” povoados por diferentes super-heróis, tal como o mundo
Marvel – da Marvel Comics, criadora do Homem-Aranha, Os Inumanos,
Hércules, Magneto, Demolidor, Hulk, etc. –, o mundo Detective Comics
(conhecida pela sigla DC) – criadora do Super-Homem, Flash, Lanterna
Verde, Homem-Borracha, Batman e outros. Estas são as duas mais poderosas
fábricas de super-heróis. A DC Comics produz super-heróis e histórias não só
mais simples como também mais axiológicas. A recém-criada Image
(fundada por ex-desenhistas e roteiristas da Marvel) vem ganhando espaço e
competindo com ambas com sua safra de super-heróis, cujo mais famoso é
Spawn, que se transportou recentemente para as telas do cinema (Spawn, O
Soldado do Inferno), mas também apresenta outros como Dragon,
Hitchblade, Angela, etc. Esta nova fábrica de super-heróis se caracteriza pela
alta qualidade do desenho e pela pobreza dos roteiros, além de possuir um
caráter muito mais axiológico que as outras duas (para se ter uma idéia, a
maioria dos seus super-heróis trabalham para a polícia e suas histórias são
recheadas de anticomunismo grosseiro – o que não deixa de ser estranho,
tendo em vista que ela surgiu nos anos 90 e se comporta como se o
marcartismo ainda estivesse em moda e a URSS existisse e fosse ameaça — e
pela expressão fascista “comuna” para se referir aos “comunistas”). Também
poderíamos citar os fracassados super-heróis brasileiros, tais como Fantastic
Man, Raio Negro, Mylar, Fantasma Negro, Capitão Atlas, Capitão Estrela,
Mistyko, Hydroman, etc.
A sua estrutura, então, é que é conservadora? Julgamos que não, pois a
estrutura da super-aventura reproduz a sociedade capitalista contemporânea e
somente surgiu devido as condições sociais originadas dela. Mas a
permanência da estrutura da super-aventura (e da própria super-aventura, o

12
Este é o caso do Homem-Aranha que, “recentemente” (...) se casou e passou a ter
preocupações corriqueiras (ciúmes, vontade de chegar em casa mais cedo, etc.),
além de um monótono “amor perfeito”, sem conflitos internos (como se isso fosse
possível em nossa sociedade...). Isto sim é axiológico...
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
56
que é a mesma coisa) é resultado das contradições da própria sociedade
contemporânea e o conservadorismo seria a ilusão de que não há mais
contradições sociais e que, por isso, não há mais necessidade de super-heróis
e super-aventuras.
Consideramos que a raiz dos equívocos de Baêta Neves se encontra no
fato dele não ser um leitor de histórias em quadrinhos. Ele mesmo reconhece
que sua análise foi baseada no Pequeno Dicionário dos Super-Heróis, artigo
publicado na Revista Vozes, de Moacir Cirne, um especialista em semiologia
dos quadrinhos. Fundamentar-se em um texto desta natureza sem ir à fonte é
questionável, pois uma análise não pode se basear só em descrições estáticas
retiradas de um dicionário, pois deve também ter acesso ao movimento vivo
da super-aventura. Neste caso, uma tal análise só poderia provocar equívocos.
Por último, podemos dizer que a preocupação com o caráter axiológico da
super-aventura e das histórias em quadrinhos em geral é legítima quando nos
dedicamos a pesquisar tal fenômeno social; porém, todas as formas de
manifestações culturais que são de ampla circulação (e que são transmitidas
através de empresas oligopolistas de meios de comunicação de massas) são
axiológicas e por isso a análise da super-aventura deve ir além da constatação
óbvia do seu caráter axiológico. Deve desvendar seu processo de formação,
suas características e o que mais existe no seu interior.
Os Super-Heróis e o Inconsciente Coletivo
Até agora discutimos os aspectos axiológicos e conservadores
possivelmente encontrados na super-aventura, mas a partir de agora iremos
tratar de outro aspecto: o da super-aventura como manifestação do
inconsciente coletivo. Isto é necessário devido ao fato de que o mundo dos
super-heróis é um mundo de fantasia, produzido pela imaginação, e por isso
mesmo é locus de manifestação do inconsciente, tal como afirma a
psicanálise. Porém, não trataremos aqui do inconsciente individual e sim do
inconsciente coletivo, que definiremos mais adiante, pois não se trata de
analisar obras de autores enquanto indivíduos e sim um gênero como um
todo, o que leva a analisar a obra coletiva de uma infinidade de autores
individuais.
Os super-heróis são seres sobre-humanos e que por isso mesmo superam
as limitações humanas. Segundo Jacques Marny, “eles são personagens
vivos, mágicos da ilusão e da fantasmagoria, mas também são mestres do
sonho e símbolo do desejo de poder”13. É justamente aí que encontramos a
relação entre super-heróis e inconsciente coletivo. Mas antes de tratar desta
relação é preciso analisar o que é o inconsciente coletivo. Freud dizia que o
universo psíquico (ou, segundo suas palavras, “aparelho psíquico”) do
indivíduo era composto pela consciência e pelo inconsciente (inicialmente ele

13
MARNY, Jacques. Ob. cit., p. 277.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
57
o dividia em dois componentes – princípio de prazer e princípio de realidade
– e posteriormente em três – id, ego e superego –, embora um grande número
de psicanalistas prefiram utilizar sua concepção inicial). O inconsciente era
produto da repressão que a sociedade fazia aos instintos do indivíduo, o lugar
onde vivem os desejos reprimidos.
Freud nunca usou a expressão “inconsciente coletivo”, considerando que
não haveria nenhuma vantagem com sua utilização, embora aceitasse a idéia
de um conteúdo coletivo para o inconsciente, tal como propôs Jung14. O
primeiro a se referir a um inconsciente coletivo foi o seu colaborador e
posteriormente dissidente, Carl Gustav Jung, que forneceu uma visão
metafísica deste conceito, que representaria, segundo ele, arquétipos
universais e imutáveis. A renovação ocorreu com Erich Fromm (embora ele
fale de “inconsciente social” e não em “inconsciente coletivo”).
Erich Fromm define inconsciente social da seguinte maneira:
“A diferença entre a expressão de Jung, ‘inconsciente coletivo’, e o
‘inconsciente social’ aqui empregada é a seguinte: o ‘inconsciente coletivo’
indica diretamente a psique universal, grande parte da qual não pode nem
mesmo tornar-se consciente. O conceito de inconsciente social parte da noção
do caráter repressivo da sociedade e se refere àquela parte específica da
experiência humana que uma determinada sociedade não permite que atinja a
consciência”15 .
Desta forma, o inconsciente coletivo é expressão de um desejo reprimido
socialmente que atinge o conjunto da sociedade ou então grupos sociais no
seu interior. A posição de Fromm, entretanto, é limitada, pois sua visão do
inconsciente é puramente cultural, esquecendo que o processo psíquico é um
processo energético. Além disso, Fromm considera que tudo o que é
reprimido faz parte do inconsciente, o que é um equívoco16.

14
“Não nos é fácil transferir os conceitos da psicologia individual para a psicologia de
grupo, e não acho que ganhemos alguma coisa, introduzindo o conceito de um
inconsciente ‘coletivo’. O conteúdo do inconsciente, na verdade, é, seja lá como
for, uma propriedade universal, coletiva, da humanidade” (FREUD, Sigmund.
Moisés e o Monoteísmo. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio
de Janeiro, Imago, 1975, p. 156). Isto revela uma certa ambigüidade e a solução de
Freud é “trabalhar com analogias”, o que é um procedimento menos proveitoso do
que aceitar a idéia de um inconsciente coletivo.
15
FROMM, Erich. Meu Encontro com Marx e Freud. 7a edição, Rio de Janeiro, Zahar,
1979, p. 109.
16
Para uma visão mais detalhada da concepção de inconsciente coletivo em Jung e
inconsciente social em Fromm, bem como uma visão crítica, acompanhada por uma
proposta alternativa inspirada no marxismo, cf. V IANA, Nildo. Inconsciente
Coletivo e Materialismo Histórico. Goiânia, Edições Germinal, 2002.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
58
O inconsciente coletivo, do nosso ponto de vista, é o conjunto de
necessidades/potencialidades reprimidas em todos os indivíduos que formam
uma coletividade (grupo, classe etc.). É no mundo da fantasia, dos sonhos,
etc., que ele se manifesta mais constantemente. Os sonhos comuns em um
grupo social ou na sociedade são geralmente inacessíveis mas a fantasia não.
As aventuras dos super-heróis expressam uma fantasia que é expressão do
inconsciente coletivo: o desejo de poder.
Ora, vivendo em uma sociedade dominada pela repressão, pela
burocracia, etc., nada é mais natural do que buscar, na fantasia, ultrapassar
este estado de coisas. Citemos dois exemplos colocados por Erich Fromm:
“Deve haver muitos comerciantes em nossas cidades grandes que tenham
um cliente que precise muito, digamos, de um terno, de roupa, mas que não
dispõe de dinheiro suficiente para comprar nem mesmo o mais barato. Entre
comerciantes (especialmente os mais abastados), haverá uns poucos que
sintam o impulso natural e humano de dar essa roupa ao cliente, pelo preço
que este puder pagar. Mas quantos se permitirão adquirir consciência de tal
impulso? Creio que serão poucos. A maioria o recalcará, e poderemos ver
entre eles alguns que terão, na noite seguinte, um sonho que expressará o
impulso reprimido, de uma forma ou de outra”.
“O moderno ‘homem de organização’ pode sentir que sua vida não tem
sentido, que seu trabalho o aborrece, que tem pouca liberdade de fazer e
pensar como quer, que está perseguindo uma ilusão de felicidade que jamais
se torna verdade. Mas se ele tivesse consciência de tais sentimentos, seria
muito prejudicado em sua atuação social. Sua consciência constituiria um
perigo real para a sociedade tal como está organizada, e em conseqüência o
sentimento é recalcado”17.
A partir destes dois exemplos, podemos observar que a falta de liberdade
na sociedade contemporânea cria o desejo de liberdade, de poder (não no
sentido de dominação e sim de potência). Entretanto, este desejo é reprimido
e não se manifesta na consciência coletiva mas tão-somente no inconsciente
individual e coletivo. O desejo reprimido de liberdade, de ser livre e superar
os limites impostos pela sociedade repressiva, encontra no mundo dos super-
heróis uma de suas formas de manifestação mais espetaculares. Estes
rompem com os limites impostos, combatem a injustiça (embora a idéia de
justiça que se passa é mais a ditada pela consciência do que pelo
inconsciente), defendem os “fracos e oprimidos” – que são aqueles que
continuam submetidos à opressão –, etc. Voar, por exemplo, é um símbolo de
liberdade, de superação de limites, e muitos super-heróis possuem este poder.
Desta forma, a super-aventura é, em parte, manifestação do inconsciente
coletivo e é por isso que ela (e não só ela como também os heróis comuns)

17
FROMM, Erich. Ob. cit., p. 115.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
59
tem um público tão grande. Revela-se aí, o potencial emancipador das
aventuras dos super-heróis ao manifestar o desejo reprimido de liberdade.
O processo de criação da super-aventura é um processo consciente no
qual o criador envia uma mensagem na maioria das vezes axiológica. Porém,
nenhuma produção cultural é somente consciente e junto com o processo
consciente caminha o processo inconsciente. No caso da ficção isto é ainda
mais forte. Na super-aventura a imaginação ganha autonomia na narrativa e
isto permite uma manifestação mais forte do inconsciente. Porém, além do
inconsciente individual derivado da repressão individual que se manifesta em
cada obra individual, também se manifesta o inconsciente coletivo, derivado
da repressão coletiva. Tal repressão coletiva é a do mundo burocrático e
mercantil em que vivemos. Se lembrarmos que a produção da super-aventura
é uma forma de manifestação da criatividade, que é uma potencialidade
humana reprimida em nossa sociedade, então podemos supor que ela é, para
os criadores, um momento de liberdade e de realização. Porém, devemos
reconhecer que tal criatividade se manifesta mas de forma controlada. Os
criadores de super-aventuras não são livres para produzirem o que quiserem e
como quiserem. Eles estão submetidos às grandes empresas que controlam
esta produção, seja a Marvel Comics, a DC, a Image, ou qualquer outra. Tais
empresas são tão burocráticas e mercantis quanto qualquer outra. A partir
disto se conclui que tal controle é um dos elementos que originam tal
produção.
A vontade de liberdade inconsciente cria aventuras onde o ser humano
rompe com seus limites (naturais e sociais). Essa ruptura com os limites faz
dele um “super-homem”, um ser impotente diante da burocratização e da
mercantilização que se torna um ser “poderoso”. Um ser que pode superar as
injustiças fazendo justiça por suas próprias mãos, alguém destituído de poder
e dominado no trabalho, na escola, na família, etc., que se levanta e passa por
cima de tudo que lhe aprisiona e realiza os seus desejos de aventura e
liberdade. O modelo exemplar, o Super-Homem, acompanhado por suas
cópias, Capitão Marvel (Shazam), Homem-Aranha, Thor, Hulk, Batman, etc.,
são aqueles que fazem o que gostaríamos de fazer mas não fazemos: desafiar
o mundo. Ser um super-herói significa ser sobre-humano, o que quer dizer ser
mais do que um simples marionete da sociedade repressiva. A super-aventura
significa a carta de alforria imaginária do ser humano escravizado no
mundo da burocracia e da mercadoria.
O público leitor da super-aventura é composto em grande parte por
crianças e jovens que ainda não estão envolvidos neste mundo institucional
repressivo. Porém, estão submetidos à outras formas de repressão (familiar,
escolar, entre outras) e se identificam com os atos heróicos que expressam
seu desejo de liberdade. Por isso, surge um mercado consumidor bastante fiel
da super-aventura. Mas, de qualquer forma, tanto os produtores quanto os
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
60
consumidores da super-aventura manifestam o desejo inconsciente de
liberdade em resposta ao mundo burocrático e mercantil fundamentado na
repressão.
Porém, o inconsciente coletivo só se torna explosivo quando se torna
consciente. O inconsciente coletivo tornar-se consciente (que só pode ser uma
consciência coletiva, fruto de um processo coletivo), neste caso, significa o
reconhecimento da necessidade de liberdade. Tal como Marx colocou, a
consciência do que não é consciente é fundamental para o processo de
libertação humana:
“É preciso tornar a opressão real mais opressiva, acrescentando-lhe a
consciência da opressão; é preciso que a vergonha se torne ainda mais
vergonhosa, apregoando-a. (...). É preciso mostrar e ensinar ao povo a
assustar-se de si próprio, para infundir-lhe coragem”18.
Descobrir o inconsciente coletivo por detrás das produções axiológicas é,
portanto, fundamental para o desenvolvimento desta consciência coletiva e
tarefa essencial do pensamento marxista. É impossível para o marxismo
contemporâneo desconhecer a importância da psicanálise para compreender
as lutas sociais e, em especial, as produções axiológicas e imaginárias, tal
como as histórias em quadrinhos.
Super-Heróis: Entre a Axiologia e o Inconsciente Coletivo
O mundo dos super-heróis tem, portanto, duas faces: a axiologia (com seu
caráter conservador) e a do inconsciente coletivo (com seu caráter
contestador). Essa dupla face dos super-heróis revela que o objetivo
consciente dos criadores das histórias é determinado pelos valores
dominantes e em certos períodos históricos isto se torna mais forte ainda.
Entretanto, ao dar vida à história, escapa-lhes o seu domínio total e quando a
fantasia se manifesta, o inconsciente coletivo também aparece. Os leitores,
porém, não são atraídos graças aos aspectos axiológicos e sim pelo aspecto
inconsciente.
O aspecto “ideológico”, sem dúvida, exerce influência sobre os leitores
mas em grau muito menor do que se pensa, pois a atenção do leitor fica mais
presa não nos detalhes da narrativa que expressam o seu caráter axiológico e
sim nos aspectos fantásticos da história (os combates, a luta pelo poder, os
tipos de poderes, os mundos estranhos e maravilhosos, etc.).
Os aspectos axiológicos da super-aventura, e das histórias em quadrinhos
em geral, é palco de uma disputa política intensa e isto é tão verdadeiro que a

18
MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução. In: Revista
Temas de Ciências Humanas. Nº 2, 1977, p. 4.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
61
intervenção do estado neste tipo de produção, visando manter a “moral e os
bons costumes”, produziu uma extensa legislação restritiva a respeito19.
Mas, ao contrário do caso dos heróis, onde surgiram vários “heróis
revolucionários” e “contestadores”, no mundo dos super-heróis quase não há
contestação consciente. Poderíamos dizer que existem poucos super-heróis
contestadores, tal como Namor, O Príncipe Submarino – que sempre aparece
na superfície terrestre para combater a poluição e destruição ambiental que
afeta os mares. Porém, as últimas histórias de Namor provocaram uma
reviravolta neste personagem. Este, em seu passado, chegou a se unir com O
Incrível Hulk para derrotar Os Vingadores – grupo de super-heróis
comandados pelo Capitão América e que teve diversas formações, sendo que
a formação desta época contava com o Homem de Ferro, Thor, Homem-
Formiga, entre outros –, um grupo tão bem visto pelo poder que tinha sua
sede fornecida pelo governo dos Estados Unidos. As últimas histórias deste
super-herói apresentaram sua reformulação e sua personalidade foi alterada.
O seu “ódio contra a humanidade” (na verdade contra suas ações destrutivas
e irracionais) foi explicado por um “desequilíbrio sangüíneo” que provocava
“flutuações de personalidade” (em especial sua ira...) e um dispositivo de
reciclagem “corrigiu o problema”. A partir daí Namor não seria mais o
mesmo: tornou-se calmo e controlado como qualquer outro super-herói
conservador.
A luta cultural que existe nos demais gêneros das histórias em quadrinhos
está praticamente ausente no mundo dos super-heróis. Neste mundo, criado a
partir de um contexto histórico preciso e voltado para satisfazer necessidades
de uma nação em guerra (os primeiros super-heróis da história – Super-
Homem e Capitão América – surgem nos Estados Unidos, tanto os da Marvel
Comics quanto os da DC Comics, e só depois começam a ser criados também
em outros países e só nestes casos começam a romper com o
conservadorismo exacerbado existente nos EUA), não se poderia esperar
nenhuma mudança revolucionária consciente. Tal mundo se desenvolve de

19
Cf. MARNY, J. Ob. cit. A censura oficial aos quadrinhos, como não poderia deixar
de ser, assumiu um caráter extremamente conservador. No Brasil, o Código Moral
que rege as Editoras especializadas tem os seguintes itens: “as histórias em
quadrinhos devem ser um instrumento de educação, formação moral, propaganda
dos bons sentimentos, a exaltação das virtudes sociais e individuais; é necessário o
maior cuidado para evitar que as histórias em quadrinhos, descumprindo sua
missão, influenciem perniciosamente a juventude ou dêem motivo a exageros da
imaginação da infância e da juventude; não é permitido o ataque ou a falta de
respeito a qualquer religião ou raça; os princípios democráticos e as autoridades
constituídas devem ser prestigiados, jamais sendo apresentados de maneira
simpática ou lisonjeira os tiranos ou inimigos do regime e da liberdade” (CIRNE,
Moacir. A Explosão Criativa dos Quadrinhos. Petrópolis, Vozes, 1974, p. 11).
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
62
forma ligada às grandes empresas oligopolistas, mantendo íntima relação
com o poder. Isto esvaziou o seu conteúdo crítico consciente.
Por outro lado, em nenhum gênero de história em quadrinhos se encontra
a presença tão marcante do inconsciente coletivo como na super-aventura. E
sobre o inconsciente coletivo a única censura possível é a que a consciência
dos indivíduos realiza e, portanto, não é possível nenhuma censura estatal,
pois o estado não pode censurar o que já foi censurado e aquilo do qual ele
não tem consciência.
Este texto é uma versão modificada do artigo publicado
originalmente em Revista Cultura & Liberdade, Nupac, Goiânia,
ano 2, num. 2, abril de 2002, com o título de “O Mundo dos
Super-Heróis”.

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


63
As Novas Formas do Sintoma na
Medicina
Antonio Quinet
A medicina hoje aparece mais do que nunca como um produto da
conjunção da ciência com o discurso capitalista. A corrida pela descoberta da
vacina da Aids, a medicalização crescente não mais apenas da doença mas
principalmente da saúde, a fabricação de novas demandas endereçadas ao
médico, a biologização dos ideais estéticos, a hormonização de processos
antes naturais, tudo isso e muito mais é impulsionado pela mão, não mais tão
invisível como queria Adam Smith, que regula um mercado ferozmente
competitivo. Essa “mão” hoje dita as linhas de pesquisa científica a serem
seguidas, por que é ela quem as financia: essa “mão” é que escreve os
currículos dos médicos-cientistas fazendo-os aparecer como figuras do
mestre moderno, quando, de fato, estão a serviço do discurso do capitalista,
que constitui, como mostra Lacan em Televisão, o discurso dominante de
nossa civilização, responsável portanto por seu mal-estar1.
“Marx , disse Lacan, foi o primeiro a ter a idéia do que é um sintoma”2.
Esse sintoma, relativo ao discurso capitalista, é a conhecida jornada de
trabalho, onde se revela a mais-valia, e que obedece a um imperativo, ou em
seus termos, a um “apetite”, a uma “cupidez cega”, que não há lei que o
barra, pois “parece ser para muitos fabricantes uma tentação grande demais
para que possam resistir a ela”3. Esse gozo do sintoma social aplicado à
Medicina faz os médicos horrorizados se reunirem em Comitês de Ética e
apelarem ao Legislativo para que fabrique leis capazes de refrear “a paixão
desordenada do capital”. Um exemplo pitoresco disso é o desenvolvimento
do que se chama de “a psicologia do consumidor”. Sendo a sociedade de
consumo a expressão mais banal do discurso do capitalista, que promove um
endividamento progressivo do indivíduo e uma alienação crescente ao Outro
do apelo comercial que multiplica objetos imaginários de desejo, nada mais
lógico do que se detectar novos sintomas e novos doentes: “os compradores
compulsivos”. O Dr. Peter Lunt, do Departamento de Psicologia da
University College de Londres, estudioso deste novo sintoma afirma que ele

1
LACAN, J. Télévision. Paris, Seuil, 1974, p. 25 e 26.
2
LACAN, J. “Conférences et Entretiens dans les Universités Nord-Américaines – Yale
University, Etourdit”. Scilicet 6/7, Paris, Seuil, 1976, p. 34.
3
Retirado de um relatório de um inspetor de fábrica, in: MARX, K. Le Capital, cap.X,
Garnier-Flammarion, p. 193 – citado em N AVEAU, P. “Marx e o Sintoma”, Falo 3,
Salvador, Fator, p. 116.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
64
pode ser “a expressão de uma insatisfação ou como um tipo de experiência
quase sexual”. Se sua manifestação de gozo não passa desapercebida, nada
impedirá que seus portadores sejam enquadrados pela DSM IV como TOC
(Transtorno Compulsivo Obsessivo) para serem medicados com Aropax ou
similares.
Por outro lado, condicionada pelo discurso da ciência, a medicina,
foraclui de seu âmbito a dimensão do sujeito por lidar com um real que não é
o mesmo real da psicanálise. Enquanto para esta o real em jogo é relativo à
castração e à falta do Outro, o real para a ciência é tudo aquilo que ainda não
foi simbolizado por seu discurso. O projeto da ciência de colonizar todo o
real com seus significantes lhe confere um aspecto de loucura ao rejeitar de
sua esfera qualquer subjetividade. Não há nada na própria ciência, e podemos
dizer, na própria Medicina, que possa deter seus avanços. Eis o outro aspecto
que impele à formação de Comitês de Ética na tentativa de frear ou pelo
menos canalizar o projeto científico.
A Medicina Cosmética
Localizada antes nos salões de beleza, a cosmetologia parece invadir cada
vez mais a medicina: não apenas a dermatologia, mas também a
endocrinologia e a cirurgia. Comandada pelos ideais estéticos de um
Imaginário, a medicina com sua oferta cria novas demandas para aqueles que
pretendem se furtar ao confronto com a falta reparando alguma falha
anatômica de seu corpo. A resposta médica ao incidir no corpo com
implantes, próteses, enchimentos de silicone, inibidores do apetite,
estimuladores da libido, hormônios rejuvenescedores, anabolizantes,
virilizantes, feminizantes, etc. recusa o aporte da psicanálise que demonstra
que o corpo do humano não se desvincula do sujeito do Inconsciente. É no
corpo humano que o simbólico toma corpo, pois o corpo “a ser levado a
sério, é, primeiramente, aquilo que pode trazer a marca para ser colocado em
uma seqüência de significantes”4.
A medicalização, por exemplo, da puberdade e da menopausa insere, por
um lado, o sujeito no discurso capitalista transformando-o num consumidor
de drogas e objeto da indústria do climatério, e, por outro lado, no discurso
da ciência reduzindo-o a um corpo doente a ser tratado.
A medicina ao responder com medicação, cirurgia ou hormônios não
detecta que toda demanda é demanda de complementação do ser do sujeito
que é pura falta-a-ser. Faz crer assim, respondendo à demanda de juventude,
de beleza, de correção sexual, que a complementação é possível.
Não se trata para nós de lamentar os malefícios do progresso da medicina,
recusando seus benefícios terapêuticos. Seríamos, no mínimo, chamados de
ingratos. Trata-se, antes, de seguir a orientação de Lacan, em seu texto “A

4
LACAN, J., “Radiophonie”. Scilicet 2/3, Paris, Seuil, 1970, p. 61.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
65
Ciência e a Verdade”, e de “reintroduzir o Nome-do-Pai na consideração
científica”5. O que isto significa em relação à medicina cosmética? Significa
sustentar que o corpo é o lugar privilegiado do princípio da castração para o
sujeito capitonado, baseado no simbólico pelo Nome-do-Pai. E o princípio da
castração faz objeção ao UM totalizador do Imaginário do corpo que a
medicina cosmética coloca em oferta no mercado do desejo. Introduzir o
Nome-do-Pai significa opor um NÃO aos imperativos da moda estética. A
moda é comparada por Lacan ao leito de Procusto, personagem da mitologia
grega que, instalado no meio de uma estrada, submetia os viajantes ao
seguinte suplício: ele fazia os pequenos se deitarem em um leito grande e os
grandes em um leito pequeno. Os pequenos eram estirados até ficarem do
tamanho do leito e os grandes tinham suas pernas cortadas para caberem no
leito. Eis a função da moda para Lacan. A medicina cosmética é, na verdade,
uma clínica feita no leito de Procusto.
O próprio sujeito do Inconsciente, como sujeito de desejo denuncia o faz-
de-conta desse simulacro cosmético da medicina. Foi publicada uma
reportagem no Jornal O Globo (5/4/1997) sobre os Drag kings, mulheres
virilizadas artificialmente através de hormônios, que levam o semblante de
bancar o homem às máximas conseqüências. Entre esses novos senhores um
caso bastante freqüente chama a atenção. Trata-se de mulheres que se
transformam em homens para terem um relacionamento com homens, suas
relações adquirindo assim seu traço “homossexual”. Os Drag kings são,
portanto, fruto da transformação da histeria pela ciência médica a serviço dos
semblantes: fingem com a plástica ter um pedaço de salmão quando na
verdade continuam sendo o salmão por baixo do plástico. Utilizando o
recurso da ciência médica, a histérica continua denunciando a impostura do
mestre, como sempre foi sua função social. Sendo a histeria o próprio
Inconsciente em exercício, sua manifestação sempre aponta para uma falha
no saber médico.
A Genética
“Muitos cientistas acreditam que a terapia genética seja o quarto estágio
da medicina, depois da descoberta dos microorganismos patogênicos, da
anestesia, da introdução das vacinas e dos antibióticos”6. O termo clonagem,
derivado do grego klón que significa broto, é uma forma de reprodução
assexuada, cuja prémière feita a partir de embriões de mamíferos foi estrelada
pela ovelha escocesa Dolly. Órfã de pai e mãe, brotada como cópia fiel,
Dolly fez estremecer o Imaginário do planeta. E a realização do sonho ou
pesadelo de fabricação in vitro do homem ainda ficou mais próxima com a
lembrança de que já em 1993 os cientistas norte-americanos da Universidade

5
LACAN, J. “La science et la vérité”. In: Ecrits. Paris, Seuil, 1966, p. 875.
6
Mais! Folha de São Paulo (13/4/1997).
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
66
George Washington já tinham feito a clonagem de embriões humanos que foi
interrompida quando os clones ainda tinham poucas células.
Dolly trouxe à cena pública o ideal da eternização de ídolos populares
cujos clones se perpetuariam e se reproduziriam e, por que não? – a ponto de
se chegar a comprar um clone de uma Catherine Deneuve aos vinte anos. Ao
se pensar em quem seria não mais um colunável, mas um clonável, não se viu
nas pesquisas de opinião a proposta de se clonar pessoas anônimas, anódinas
ou anômalas. E sim pessoas famosas, belas, inteligentes. Não se evocou a
clonagem de um deficiente físico ou de um limítrofe, mas só aqueles que
podem representar nossa bela raça humana. O que não está longe do ideal
eugênico. A “clonagem humana”, como diz Umberto Eco, “nada mais seria
do que tentar novamente aquilo que os nazistas já tentaram: produzir através
de hábeis cruzamentos somente indivíduos altos, louros, saudáveis e fortes,
para obter um exército de super-homens”7. A discussão sobre a clonagem
confirma a previsão de Lacan relativa à incidência social da medicina a qual
“que não poderá evitar”, diz ele, “nem o eugenismo nem a segregação da
anomalia”8.
Por outro lado, a clonagem atiça a fantasia da reprodução de cópias
idênticas, geminadas trazendo a possibilidade de o indivíduo vir a encontrar
um si mesmo no outro – o que Lacan há setenta anos já mostrara ser a base da
constituição do eu no Estádio do Espelho. Hoje, o estádio da clonagem é uma
reatualização da miragem do eu que se projeta das almas gêmeas aos corpos
clonados. “Nas elucubrações fantásticas sobre a clonagem”, como diz ainda
Umberto Eco, “há uma forma de determinismo materialista ingênua, segundo
a qual o destino de uma pessoa é definido unicamente por seu patrimônio
genético”.
Introduzir aqui o Nome-do-Pai é reafirmar o materialismo dos
significantes que determinam o sujeito e que não há sujeito que não esteja
atrelado ao desejo do Outro. O clone humano é uma ficção científica que
foraclui a dialética do desejo, degradando o Nome-do-Pai ao reduzi-lo a um
patrimônio de DNA.
Através da transgenética – transferência de material genético – é possível
se criar seres mistos como um animal transgênico que é produzido a partir de
um embrião em cuja carga genética foi incorporada uma seqüência de DNA
de outra célula. Pode ser assim feito um porco com algum órgão humano que
sirva mais tarde para transplante. Assim teremos bancos de órgãos vivos. Se
isso é possível a ciência já tem condição de criar efetivamente animais que
até então só povoaram nosso Imaginário. Em quanto tempo veremos Pégasos
e Unicórnios, Sereias e Centauros na Disneylândia da ciência? Ou um museu

7
VIP-Exame, abril 1997
8
LACAN, J. Ecrits. ob. cit., p. 854.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
67
de horrores onde o lugar de honra seria aquele rato com orelha humana cuja
foto escandalizou a todos há não muito tempo. Enquanto isto não aparece,
podemos dizer com Lacan que a “questão é de saber se, devido à ignorância
de como esse corpo é sustentado pelo sujeito da ciência, vai-se chegar no
Direito a se desmembrar esse corpo em função de troca”. Questão que nos é
colocada efetivamente aqui no Brasil pela lei de doação compulsória de
órgãos pós mortem e sobre o mercado pirata de órgãos em vida. Com a
psicanálise aprendemos que o órgão é significantizado, pois o corpo enquanto
tal é tomado pelo corpo simbólico, não sendo portanto objeto de troca a ser
mercantilizado ou posto à disposição do Outro social. O transplante de um
órgão não equivale à troca de uma bobina, pois implica um grande trabalho
subjetivo e uma reordenação da imagem corporal.
Reprodução Assistida
O banco de esperma, a inseminação artificial e a fecundação in vitro, a
barriga de aluguel e o congelamento de embriões que podem permanecer
vivos durante 50 anos – tudo isso é hoje uma realidade, que a ciência põe à
disposição do consumidor. Entre o desejo sexual e a reprodução humana há
algo que se chama vagamente de vida, que Freud nomeou como Eros, deus
do desejo para os gregos, pulsão de vida para os modernos. É propriamente o
Eros feminino que faz na subjetividade essa ligação, pois ele, como o
descreve Freud, vai do Penisneid, inveja e desejo de pênis ao desejo de filho.
Nada é evidente no percurso que vai do desejo de filho à sua realização,
como nos mostra os percalços desse desejo em análises de mulheres. É nesse
hiato que se interpõem as ciências da vida, da biologia à medicina, para
responder ao enigma da insatisfação do desejo feminino.
A resposta é baseada na desvinculação da reprodução e do ato sexual. Se
os métodos contraceptivos cortam esse vínculo para fazer valer o sexual,
liberando Eros da reprodução, por outro lado a ciência promove a partir de
seu método conceptivo a fecundação com a exclusão de Eros. A distinção
entre o Nome-do-Pai e o pai imaginário que introduz a psicanálise mostra que
o desejo feminino não é separável da lei simbólica e que não se pode pré-
julgar a concepção sem pai ou a produção independente, pois não há mulher
igual a outra.
O Stress Busines
Ao lado da depressão há outra doença que vem sendo considerada pela
mídia como a doença da atualidade. “Na base da competição sem lei,
ameaças de desemprego e lucro a todo custo, a selvageria do sistema
econômico fez do estresse a doença deste fim de século”9.
E para novas formas do sintoma, novas tecnologia são inventadas e
avalizadas pelo mestre moderno da medicina, que com seus diplomas e

9
Revista de Domingo/JB, 30/3/97.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
68
títulos garante a “seriedade” do negócio. Mas hoje em dia, o Mestre médico
não tem pudor de se manifestar como agente do discurso capitalista. “Todo
sofrimento cria um mercado” – diz o neurologista dono das academias de
ginástica Fisilabor e do Wellness Center. E o dono da clínica Med-Rio Stress
acrescenta: “Investi R$ 1 milhão e espero ter retorno em 3 anos”.
Apoiado nos progressos da neurologia, faz-se no Wellnes Center, o
cliente passar os primeiros 20 minutos numa poltrona japonesa que
massageia a coluna enquanto ouve música suave e vê imagens da natureza. A
meia hora seguinte, ainda com música, ele recebe de olhos fechados os
lampejos produzidos por óculos elétricos cuja freqüência das luzes fazem o
cérebro relaxar, como nos explica o doutor. Mas ainda há uma outra opção
para os mais estressados: uma cápsula de isolamento sensorial apelidada de
Kinder Ovo gigante.
O médico Eric Albert, fundador do Instituto Francês da Ansiedade e do
Estresse, denuncia o trabalho como a maior causa do estresse revelando que
mais de 50% de seus clientes são assalariados10. Efetivamente, como disse P.
Naveau, “é no corpo do trabalhador que Marx há muito, já havia lido o gozo
do mestre para detectar o sintoma social, como uma manifestação de um
estudo patológico do funcionamento do corpo social”11. Se antes a Medicina
do trabalho podia ser considerada uma aliada do trabalhador para barrar o
gozo do Mestre, hoje a Medicina do estresse parece estar a serviço do
capitalista ao tratar o rebotalho do seu discurso com máquinas de reciclagem
para que voltem à ativa mas sem excessos. Daí o tratamento desse novo
doente: o workaholic.
O saber sobre o gozo que a Psicanálise com sua contribuição traz para a
comunidade científica se contrapõe à concepção higiênica descrita pelo Dr.
Eric Albert que declarou que “Do ponto de vista fisiológico é claro que o
sexo acalma por causa da circulação de substâncias endógenas que o ato
sexual provoca”. Reintroduzir aqui o Nome-do-Pai é reafirmar que o sexo
caminha pelas suas impossibilidades e se um corpo é feito para gozar, o gozo
do corpo do Outro não é sinal de seu amor e o gozo próprio ao corpo se situa
fora dele, em um objeto sem substância que o condensa em qualquer objeto
do mundo empírico. A angústia, como o excesso de gozo que retorna sobre o
sujeito, denota a presença desse objeto que o remete a sua própria castração.
E para esta não há remédio, só desejo. Não é possível medicalizar a angústia
que é, segundo Freud, sempre angústia de castração.
O parâmetro mais importante para os adeptos da Medicina do Estresse é,
de acordo ainda com Dr. Albert, a auto-estima, significante-choque de outro
subproduto dessa medicina-psicanalítica: a neurolingüística. Esta, que

10
Jornal do Brasil, 16/3/97.
11
N AVEAU, P. ob. cit., p. 19.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
69
confessa tomar por base a imagem da informática como paradigma do
humano, considera, segundo o Dr. Lair Ribeiro, que tudo o que somos e que
acreditamos está codificado, programado, formatado no cérebro de cada um.
O computador é o modelo para a lógica do pensamento. Mas essa banalização
faz do homem uma máquina neuronal de onde o desejo e o inconsciente estão
excluídos. E tudo é canalizado para a auto-sugestão, a auto-imagem, a auto-
estima, mostrando que essa “neurolingüística” é nada mais nada menos do
que um subproduto, um refugo da cultura do narcisismo que promove a
inflação do imaginário.
A psicanálise recebe os rebotalhos do discurso da ciência lá onde
desponta o sintoma no sentido analítico como “o retorno da verdade na falha
de um saber”12. É o que sempre acontece quando a Medicina reduz a um
organismo o sujeito – este se manifestará então no sintoma mostrando o furo
no saber. Como, por exemplo, o sujeito hemofílico que vivia causando-se
ferimentos em acidente, mesmo sabendo o quanto lhe poderiam ser fatais: seu
comportamento constituía assim uma falha no saber médico.
A psicanálise poderá ser a saída dos impasses da medicina acossada entre
o discurso da ciência (cuja estrutura é, para Lacan, quase idêntica ao discurso
da histérica) e o discurso do capitalista, modalidade moderna do discurso do
mestre. A medicina é o sintoma dessa conjunção. Do lado da ciência, a
Medicina-histérica faz de seus médicos impotentes produtores de um saber
que lhes escapa. Do lado do capitalismo, a Medicina-mestre impõe seus
enxames de significantes-mestres e fabrica objetos de gozo para engordar o
futuro de uma ilusão que se espatifará quando do próximo encontro com o
real. Os rebotalhos do discurso médico constituem para o analista novas
formas do sintoma que ao serem observados de perto são tão velhas quanto as
roupas do rei quando ele está nu. O riso do analista que indica a saída desse
discurso constitui uma maneira de dizer NÃO aos imperativos de gozo do
mestre desfazendo com o Witz os semblantes de sua autoridade, como o
menino do conto de Andersen.
Texto publicado originalmente em: A Descoberta do Inconsciente -
do Desejo ao Sintoma (Jorge Zahar Editor) da coleção do autor ao
lado de As 4+1 Condições de Análise e Um olhar a Mais - Ver e
Ser Visto na Psicanálise.

12
LACAN, J. Ecrits. Ob. cit., p. 234.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
70
O Significado do Natal
Nildo Viana

Se olharmos no dicionário, veremos que o natal é uma festa cristã


realizada no dia 25 de dezembro, cujo objetivo é comemorar o nascimento de
Jesus Cristo. Logo, o significado do natal é puramente religioso, cristão. No
entanto, uma análise histórica e crítica nos revela que as coisas não são bem
assim. O natal sofreu mudanças de significado no decorrer da história da
humanidade e é isto que iremos colocar no presente texto.
O natal foi, em sua origem, uma festa pagã. Como sabemos, o paganismo
é uma doutrina religiosa politeísta que era predominante antes da era cristã.
As festas pagãs de Saturnália (17 a 24 de dezembro) e Brumália (25 de
dezembro) faziam parte da cultura popular na Roma Antiga (e na região da
Pérsia) e foram substituídas pelo natal cristão. Na Brumália, o nascimento de
Júpiter (também chamado Mitra), o Deus-Sol, era comemorado no dia 25 de
dezembro e se chamava Mitraica. Apesar disto, a festa em si não tinha caráter
religioso e sim “mundano”.
A maioria dos símbolos do natal também possui origem pagã. A origem
da árvore de natal possui duas hipóteses: para uns, ela foi introduzida como
símbolo da festa por Martinho Lutero, um dos principais arquitetos da
reforma protestante (Século 16); para outros, sua origem se encontra na
mitologia babilônica, segunda a qual Ninrode (filho de Cam, neto de Noé),
depois de morto, gostava de receber presentes debaixo de uma árvore, no dia
do seu aniversário, dia 25 de dezembro. Se a hipótese verdadeira for a
segunda, a árvore de natal também teria origem pagã.
As velas constituíam uma tradição pagã, pois eram acesas durante o
crepúsculo para homenagear o Deus romano Júpiter. A guirlanda, coroa
verde com fitas e bolas coloridas, fazia parte dos costumes populares para
decorar edifícios.
O Papai Noel tem sua origem na lenda de Nicolau, Bispo de Mira, Século
5. A lenda diz que ele presenteava, em segredo, três crianças de uma família
pobre, todos os anos, no dia 06 de dezembro. No entanto, a mitologia
babilônica de Ninrode, citada anteriormente, já colocava a oferta de
presentes, mas que era feita para a “divindade” e não para crianças pobres.
Outras versões do Papai Noel existiram, tal como a expressa no conto
popular russo Babushka. O conto relata a história de Babuskha, uma velhinha
que foi convidada pelos três reis magos para ir à Belém ver o Menino Jesus
que havia acabado de nascer e que recusou o convite devido ao frio intenso
que fazia naquela noite. No dia seguinte, ela juntou presentes para o Menino

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


71
Jesus, mas como não sabia o caminho e os três anciãos já haviam partido,
partiu procurando-o sem nunca encontrá-lo, mas deixando para todos os
meninos que encontrava um brinquedo como presente de natal. O Papai Noel
tem diversos nomes (e formas) em países diferentes. Na Alemanha, é Kriss
Kringle (“criança de cristo”); na França, é Pere Noel; Nos Estados Unidos e
Canadá é Santa Claus (devido à origem lingüística holandesa, derivada de
São Nicolau); na Inglaterra é Father Christmas; na Costa Rica, Colômbia,
algumas partes do México, é El Niño Jesus; em Porto Rico ele é substituído
pelos Três Reis Magos (Melchior, Baltazar e Gaspar); na Suécia é Jultomten;
na Holanda, Kerstman; na Finlândia, Joulupukki; na Rússia, é Grandfather
Frost ou Babushka; na Itália é Befana ou Babbo Natal; em Portugal é Papai
Natal (Noel é o mesmo que natal); no Japão é Jizo e na Dinamarca é Juliman.
O Papai Noel recebe nomes diferentes em países diferentes, mas em alguns
recebe “formas” e origens diferentes, tal como em Porto Rico (três reis
magos), na Rússia (Babushka) e na Itália (Befana, uma bruxa que desce pela
chaminé e entrega presentes).
A questão do presente é mais complexa. Na verdade, o natal se
apresenta, na atualidade, como uma troca de presentes entre adultos e no ato
de presentear crianças. No mito babilônico há oferta de presente para a
divindade; enquanto que na lenda de São Nicolau e Babushka, há oferta de
presentes para crianças. Mas sua origem parece estar ligada à cultura popular
pagã, pois a troca de presentes era um costume tanto na Mitraica quanto na
Saturnália.
De tudo isto que vimos, podemos dizer que o natal tem sua origem
numa festa pagã. Esta festa pagã se converteu em festa cristã a partir do
século 4, quando Constantino, Imperador Romano convertido ao
cristianismo, transformou o dia do Deus-Sol em dia do nascimento de Cristo
(cuja data exata é desconhecida). Tal como coloca o historiador das religiões
Mircea Eliade, “desde o princípio, o cristianismo sofreu influências múltiplas
e contraditórias, sobretudo as do gnosticismo, do judaísmo e do
‘paganismo’”. Ele acrescenta que os padres da Igreja “cristianizaram os
símbolos, ritos e os mitos asiáticos e mediterrânicos ligando-os a uma história
santa”1.
A Igreja Romana introduziu o natal como festa cristã, pois a hegemonia
do cristianismo surgiu num terreno dominado por uma cultura popular, de
forte influência pagã, que ela não podia simplesmente descartar, já que isto
provocaria resistência à doutrina cristã. Desta forma, a Igreja Romana buscou
assimilar a cultura popular e cristianizá-la, fornecendo, assim, um significado
cristão a uma festa pagã, mas, ao mesmo tempo, mantinha grande parte de

1
ELIADE, Mircea. Aspectos do Mito. Lisboa, Edições 70, 1980, 143.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
72
suas características e assim fazia uma concessão necessária para facilitar sua
aceitação.
Desta forma, o significado original do natal era mundano, de caráter
pagão, ou seja, orientado para os prazeres da alimentação farta, alegria, etc. A
Igreja Romana forneceu uma ressignificação do natal, dando-lhe um
significado religioso. Este significado predominou durante toda a Idade
Média, período em que a religião cristã dominou absoluta no mundo feudal
ocidental, embora tenham sobrevivido alguns resquícios da influência pagã
na cultura popular.
No entanto, um novo significado passaria a ser atribuído ao natal na Idade
Moderna, ou seja, na sociedade capitalista. O significado religioso
permanece, mas é, em alguns aspectos, relegado a segundo plano, e, em
outros, é assimilado pelo novo significado que adquire.
Qual é este novo significado do natal? É o significado mercantil. O natal
se torna uma grande festa consumista, amplamente explorada pela
publicidade. O significado mercantil assimila o significado religioso e
transforma o sentido dos símbolos natalinos. O fundamental passa a ser o
presente e a figura preponderante passa a ser o Papai Noel, um velhinho que
distribui presentes para todas as crianças (e não apenas para as pobres, como
originalmente) sem nenhuma justificação. Este personagem vem apenas para
apresentar como natural e universal algo que é constituído histórica e
socialmente e que serve a interesses “ocultos”.
A troca de presentes se torna generalizada e tem atrás de si um conjunto
de interesses: oferece-se um presente em troca de outro presente ou então de
um favor, ou, ainda, de algo que revela um interesse oculto. Uma pessoa pode
dar um presente para outra visando receber outro presente em troca e tal troca
pode representar uma posição social ou status (o valor financeiro do presente
varia com a posição do indivíduo na hierarquia social). Um presente pode ser
oferecido a um subalterno esperando que ele retribua não com outro presente,
mas sim com gratidão, trabalho, dedicação (é o caso, por exemplo, das
empresas que fornecem “cestas de natal” aos funcionários).
O presente pode ser oferecido pelo subalterno ao seu superior, esperando,
em troca, um presente melhor (devido suas “posses”), benevolência ou
qualquer outra vantagem (devido seu “poder”). O bajulador é o principal
distribuidor de presentes.
Por fim, o presente pode ser expressão de afetividade: presenteia-se a
quem se gosta e, se ele for um “igual” (adulto), espera-se que ele retribua sob
a mesma forma, e, se for uma criança, espera-se a retribuição em forma de
afetividade ou gratidão. O problema aparece, neste último caso, devido ao
fato de que o processo de mercantilização das relações sociais cria em muitas
pessoas a idéia de que o presente é equivalente ao amor e não apenas uma
forma, entre inúmeras outras, sob a qual ele se manifesta. Realiza-se, assim,
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
73
uma inversão entre o símbolo (presente) e o simbolizado (amor), no qual a
primazia passa a pertencer ao primeiro em detrimento do segundo. Desta
forma, não receber um presente aparece como o mesmo que não ser amado.
Cria-se, assim, o fetichismo do presente.
As crianças são treinadas para viver nesse mundo mercantil desde cedo:
em uma idade em que não possuem recursos financeiros para dar presente,
um adulto lhe fornece dinheiro para comprá-lo e entregá-lo, principalmente
no Dias das Mães e dos Pais, mas também no natal (há casos em que os pais
dão dinheiro para os filhos comprar presentes para eles mesmos ou para o
outro – o pai para a mãe ou vice-versa...). A publicidade, os costumes, cria na
criança uma expectativa de ganhar presente. No natal, para o imaginário
infantil, é um dia para se ganhar presente.
O processo de troca de presentes na sociedade capitalista existe durante o
ano inteiro (aniversário, dia da criança, dias dos namorados, dia dos pais, dia
das mães, etc.) mas se intensifica no natal. No dia do aniversário, apenas o
aniversariante ganha presente; no dia das crianças, apenas as crianças e assim
por diante. No natal, a troca de presentes (mercadorias) se torna generalizada.
Os meios de comunicação e a publicidade se encarregam de inculcar nas
pessoas a necessidade de receber e dar presentes. O desejo de receber
presente tem sua fonte na idéia transmitida pela publicidade e pelos meios de
comunicação de que ele é um equivalente do amor ou então devido a
interesses de aquisição de bens e vantagens. O desejo de dar presentes é
produto tanto da publicidade quanto da pressão social (aquele que não dá
presente não ama...) que, caso não seja efetivado, produz remorso
(sentimento de culpa) no indivíduo.
Assim, o capitalismo manipula sentimentos e produz valores visando
aumentar o mercado consumidor. Todos sabem que no fim de ano, devido ao
natal e ao ano novo, há um aquecimento nas vendas e no processo de
produção em alguns setores, nos quais alguns setores do comércio e indústria
são extremamente beneficiados (indústria e lojas de brinquedos, por
exemplo). Outros costumes e desejos são fabricados, como a “ceia de natal”,
decoração, determinados alimentos, etc. Numa sociedade onde houve a
“mercantilização de tudo”2, isto tudo se torna mercadoria (presente, alimento,
decoração, roupa, etc.) e se tornam necessidades fabricadas pelo capitalismo
visando a reprodução ampliada do mercado consumidor. Isto recebe
incentivo através do 13o salário e dos empregos temporários da época. Resta,
para aqueles que não possuem dinheiro para realizar o ato fundamental do
natal atual – comprar –, a insatisfação manifestada sob as mais variadas
formas (tristeza, conflitos familiares, etc.).

2
WALLERSTEIN, Imannuel. O Capitalismo Histórico. São Paulo, Brasiliense, 1975;
V IANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital (no presente volume).
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
74
O natal também possui um significado de produzir uma pseudestesia
coletiva de alegria. O clima de festividade, mesclado com o consumismo e
mensagens religiosas de harmonia e paz, provoca uma falsa sensação de
alegria – para aqueles que se inserem no mercado consumidor – que logo se
dissipa e é substituído pela dura realidade da vida cotidiana, com todos os
seus conflitos e dilemas.
Desta forma, o natal ganha um significado predominantemente mercantil
na sociedade contemporânea e os apelos para a recuperação de seu sentido
religioso só possuem ecos em círculos restritos, nos quais a religiosidade
ainda é importante. Assim, o natal revela ser aquilo que Marx afirmou ser a
religião, pois ele revela ser a expressão e, ao mesmo tempo, a “dignidade
espiritualista”, a “sanção moral”, o “complemento solene”, o “consolo” e a
“justificação” deste mundo mercantil e coisificado. A superação da
pseudestesia coletiva de alegria que é o natal, a falsa alegria, deve, pois, ser
substituída pela verdadeira alegria, que vai muito além da coleção de
mercadorias e presentes ou de apelos hipócritas a uma religiosidade
silenciada pelo reino da mercadoria. O natal é expressão deste mundo e a
superação deste é o meio necessário para a superação da pseudestesia
natalina. Desta maneira, as flores imaginárias que enfeitam nossa prisão e nos
consolam para continuar nela, uma vez descobertas, deverão ser arrancadas
para que no lugar delas possam brotar flores verdadeiras, pois somente assim
a alegria imaginária será substituída pela alegria real.
O presente texto foi publicado originalmente no Jornal Opção, em
28 de Dezembro de 2001, contendo algumas alterações formais.

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


75
No Tempo da Saturação
Raymundo Lima

Você já notou como as pessoas andam exclamando “como passou rápido


esse ano?”, “já é natal?!!!” Também se tornou comum nos surpreendemos já
com 50 anos, meio século de vida! Os filhos, como cresceram tão rápido! A
frustração daqueles que não conseguiram encontrar seu amor e casar na
marca dos 30, vê o tempo passar ainda mais rápido...
Não faz muito tempo, tínhamos prazer em participar do ritual do fim de
ano. Tínhamos tempo disponível para escolher os presentes e cartões de boas
festas para os parentes e amigos, colegas etc. Escolhíamos alguns com
desenhos personalizados para cada um dos nossos endereçados (lembro-me
que, quando matávamos um porco também era assim: o pedaço mais nobre ia
para uma autoridade ou alguém melhor posicionado na hierarquia da família,
já os pedaços menos nobres ia para os de menor prestígio).
A ideologia capitalista imprimiu a idéia obsessiva de que tempo é
dinheiro. Que é preciso correr contra o tempo. Ora, o tempo em si não tem
nada a ver com dinheiro, não corre, não muda e não para. O tempo é eterno.
“O tempo foi e não é mais e vai ser e ainda não é” (Corbisier). No dizer de
Aristóteles, o tempo parece ser o movimento e a mudança. Todavia, o
movimento e a mudança estão unicamente nas coisas, ao passo que o tempo
está em toda parte e em todas as coisas igualmente. O tempo não existe sem
movimento e, no entanto, o tempo não é movimento, mas alguma coisa do
movimento. É, portanto, a força da ideologia em nos, adicionada a velocidade
rápida das coisas em transformação no mundo atual que nos faz ansiosos com
relação ao tempo. Estamos sempre com a sensação de que estamos perdendo
tempo. Hoje, tudo parece rápido demais para podermos processar o
entendimento das complexas transformações. A rapidez traz cansaço porque
temos muito mais coisas para fazer que a trinta anos atrás. Se o computador
melhorou o nosso rendimento e diminuiu as tarefas manuais, por outro lado,
aumentou muito nossa carga de trabalho. Se antes atendíamos um telefonema
por dia, com o celular o sujeito se obriga a atender um enorme volume de
ligações. Ninguém sabe ainda qual é o nosso limite para responder as novas
tecnologias. Sentimos pressionados a andar rápido, a ser eficiente e estar bem
informado sobre tudo. O aumento da velocidade da informação e mudança da
ordem das coisas certamente está afetando o psiquismo humano. Vivemos os
acontecimentos on-line. Se cai a bolsa de valores de Kuala Lumpur, no
minuto seguinte estamos ansiosos porque no Brasil muita gente pode perder o
emprego. Minutos após a proibição da salsicha na Alemanha devido ao medo

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


76
da doença da vaca-louca, sente-se o contentamento dos criadores de gado
daqui. Afinal, irão exportar mais e a melhor preço.
Um palestrante da moda disse que, o mundo não premia esforços mas
resultados. É terrível essa verdade. Gente da direita, de esquerda e do centro,
religiosos e não religiosos, todos correm para recuperar o prejuízo antes de
vir a ser prejuízo. Tanto no Japão como no Brasil, todos querem ser primeiro
lugar ou pelo menos estar incluído na onda do momento. Podem não gostar
da globalização mas o sistema capitalista fundado na globalização pressiona
todos a competirem, a se informarem, a se atualizarem, a curto prazo.
O tempo, pensado pela física, é relativo. No sistema econômico ele é
pragmático e objetivo. O tempo, pensado pela psicanálise, é subjetivo. No
inconsciente não há tempo. O inconsciente não tem história. Nele os
acontecimentos são après-coup, isto é, o indivíduo modifica posteriormente
os acontecimentos passados em função de experiências novas. Os registros
do inconsciente se atualizam sempre como se não houvesse registros fiéis do
acontecido. Portanto, há e sempre haverá choque entre o mundo subjetivo e o
mundo capitalista globalizado. São interesses distintos. As pessoas desejam a
felicidade, algo difícil de ser definido, mas que necessariamente passa pela
subjetivação (não existe “a felicidade” mas, “minha felicidade”, “sua
felicidade”...) já o sistema demanda eficiência e lucro. Muitos gurus da
globalização, os babacas de plantão do sistema, discursam que a felicidade
está em responder as pressões do mercado. Nada é mais ideológico do que
esse posicionamento.
Portanto, não é o tempo que está andando muito rápido, mas a velocidade
dos acontecimentos de nosso tempo faz com que as distâncias pareçam cada
vez menores. A física antecipou essa constatação empírica. Se tudo é mais
veloz e não conseguimos acompanhar, filtrar, processar e reter o sentido, é
possível resultar em nosso psiquismo certa sensação de esquizofrenia ou
loucura. Ficamos em estado de ex-tase, isto é, fora-de-nosso-centro. O
normal de tudo isso é ficamos divididos entre o que conseguimos captar e o
que falta de significação. Ficamos confusos entre o passado conhecido e a
incerteza do futuro. Alguém certa vez disse que, o “absurdo é o que está
esvaziado de sentido”. Estamos, vivendo o absurdo da existência. Nela há
escoamento do sentido. “Pra quê tudo isso?” sinalizou o escritor José
Saramago.
A vida corrida como está não a usamos, não a saboreamos porque falta-
nos sabedoria. Falta-nos o carpe diem, a escolha, a coragem e a determinação
de colher a vida, aproveitá-la enquanto é tempo. A vida escorre-nos e logo
irá embora. Ninguém volta a viver o minuto que escapa. Resta-nos a sensação
de espanto do que já foi rápido demais. Essa sensação de rapidez e
escoamento é a primeira vez que a humanidade sente na história.

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


77
Podemos estar saturados da pressão ideológica capitalista, mas ainda a
suportamos, tanto é que terminamos nos rendendo aos apelos das datas
comemorativas ou comerciais que nos obriga a comprar, comprar e comprar.
Consumir é a ordem para sermos preenchidos de nadas. Há ainda, uma outra
ordem de pressão: atualize-se, faça curso, ascenda na sua carreira. Ora,
progredir não é mais sinônimo de saber, mas de poder numa hierarquia de
valores tecnoburocráticos. Se você está competindo, logo existe. Se parou, ou
se nega entrar nesse jogo, é visto como um Zé Ninguém, um coitado, um
revoltado, um dinossauro ou um louco...
Por noticiários vemos que os mais aquinhoados não mais se satisfazem
em comprar no Brasil ou no Paraguai. Vão fazer compras em Miami ou New
York. Lá não se sentem saturados, mas empanturram-se de novidades no
paraíso das compras. E depois dos EUA, onde irão, já que a compulsão
neurótica às compras sempre aumenta, sempre pede algo a mais? Existe gente
sonhando ser possível no futuro consumir num shopping, em Marte ou em
Alfa Centauro.
Nessa época do ano, o chamado “espírito de Natal” anda tão saturado
pelos brasileiros que vivem nos EUA, que terminam voltando ao Brasil para
passar o fim de ano. Minha opinião é que os americanos do norte gozam
desse espírito natalino devido ao seu infantilismo capitalista sui generis.
Não demorará muito tempo para que as pessoas nessas épocas estejam tão
saturadas, tão consumidas por esse capitalismo voraz que esquecerão de
desejar aos conhecidos “Feliz Natal”. Já notaram o pouco entusiasmo como
as pessoas desejam votos de boas festas? Já sentiram o constrangimento de
ter que participar de sessões de amigos secretos, nem sempre amigos e, ao
receber presentes que não necessitamos, ter ainda que fazer cara que gostou?
Atualmente, muito pouco se envia cartão de boas festas. Dizer “Feliz natal e
Próspero Ano Novo”, virou lugar comum e dito descartável. Mas, que fazer
se são poucas as opções quanto a desejar votos? Afinal, ainda precisamos dos
ritos de passagem de ano, de século, de milênio, etc.
O presente texto foi publicado originalmente na Revista Espaço
Acadêmico (http://www.espacoacademico.com.br/).

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


78
Psicanálise dos Filmes de Terror

Nildo Viana

Qual é a lógica que está por detrás dos filmes de terror? Existem algumas
características comuns a quase todos os filmes de terror. O apelo ao
sobrenatural está presente em todos. O sobrenatural, por sua vez, possui sua
origem no pensamento mítico e foi substituído pelo pensamento religioso. O
sobrenatural, nas sociedades onde o pensamento mítico foi substituído pelo
pensamento religioso, está ligado à distinção entre o bem e o mal. É o
sobrenatural de caráter religioso que distingue o absurdo e o extraordinário
destes filmes com os que se vê nos contos de fadas, nos sonhos, na literatura,
etc. A dicotomia entre o bem e o mal existentes nos filmes de terror não pode
ser explicada apenas pelo seu caráter religioso, pois é preciso explicar o
motivo de sua permanência em nossa sociedade, marcada por um amplo
processo de racionalização que a torna uma sociedade extremamente
“racionalista”. A própria permanência da religião deve ser explicada. A
religião persiste porque a “miséria real” persiste, ou seja, porque a sociedade
continua sendo marcada pela miséria, exploração, alienação e repressão.
A sociedade contemporânea reprime as potencialidades humanas. O
“sucesso econômico”, a busca de status, a competição social, substituem e
reprimem a realização dos desejos autênticos que são reprimidos1. A
repressão dos desejos humanos faz com que estes sejam lançados no mundo
do inconsciente. Este, então, como já havia colocado Freud2, se manifesta nos
sonhos, na fantasia, etc. Os desejos reprimidos povoam o inconsciente e este
se manifesta em diversas oportunidades. Mas, além disso, a não-satisfação de
desejos cria a sombra, um novo componente psíquico, que gera distúrbios
psíquicos (neurose, psicose, etc.), agressividade etc. Quanto mais o
inconsciente se manifesta, mais se descarrega a ansiedade e as tensões;
quanto menos, menor, por conseguinte, será a descarga, que será concretizada
de outra forma. Assim, quanto maior a repressão e quanto menor a descarga
do inconsciente, ou o desenvolvimento da persona (sublimação), maior será a

1
Cf. V IANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital (no presente
volume).
2
Cf. FREUD, Sigmund. Esboço de Psicanálise. São Paulo, Abril Cultural, 1978.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
79
força da sombra3. Esta análise poderá colaborar com a compreensão da
estrutura dos filmes de terror.
Os filmes de terror mais antigos apresentavam um conflito entre o bem e
o mal, tais como os mais recentes. Porém, entre os mais antigos e os mais
recentes há uma diferença fundamental: nos mais antigos, o que predominava
era a vitória do bem sobre o mal e nos mais recentes ocorre o contrário. Qual
o motivo desta mudança? Podemos supor que a razão disto se encontra na
identificação com o bem, no primeiro caso, e com o mal, no segundo. A
identificação com o bem, neste caso, significa uma identificação com o bem
tal como este é concebido pelos valores cristãos e assume um caráter de uma
tentativa de assustar os “infiéis” pelo temor. Esta hipótese só pode ser
comprovada mediante uma pesquisa concreta. Mas ela é confirmada, pelo
menos parcialmente, pelos discursos aterrorizantes de certas igrejas que
permanecem até os dias de hoje.
Mas o que nos interessa aqui são os filmes de terror mais recentes.
Podemos dizer que nestes filmes há uma identificação do criador do seu
enredo com “o mal”. Esta hipótese não tem como fundamento apenas o fato
de que o mal triunfe mas também pela própria estrutura de tais filmes.
Neste sentido, é exemplar o filme O Monstro Canibal. Ele conta a história
de uma desenhista. Ela era especialista em história em quadrinhos de terror
que se encontrou com alguns “amigos” (invejosos e plagiadores, com apenas
uma exceção) em um casarão num fim de semana. Ela passou a sua estada
discutindo com o seus colegas e, a cada discussão, encontrava inspiração para
desenhar um monstro canibal devorando suas vítimas, que ela desenhava com
todas as características físicas de suas companhias de fim de semana.
Entretanto, o monstro aparecia na realidade (do filme, é claro) e devorava
realmente as pessoas, que iam desaparecendo uma por uma e ninguém
desconfiava de nada, pois, como o monstro era canibal, ele comia suas
vítimas e não sobravam restos e assim todos os restantes pensavam que eles
tinham simplesmente ido embora. No final do filme, ocorre a tragédia de que
o único dos presentes que era amigo da desenhista acaba sendo devorado pelo
monstro e ela se torna consciente de que era responsável por tudo, ou seja,
que era o seu desejo e o seu ódio (seu “mal” interior, sua sombra) que fazia
surgir o monstro, que o alimentava e dava força e tudo que daí decorria,
através dos seus desenhos. Ela também percebeu que isto estava cada vez
mais longe do seu controle, tal como se pode notar no fato de seu amigo
também ter sido devorado, ou seja, a sombra tomou conta dela. Os desenhos
anteriores são todos queimados e ela cria, então, um desenho onde o monstro

3
Uma exposição do significado destes conceitos (sombra, persona etc.) se encontra
em: VIANA, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. Goiânia,
Edições Germinal, 2002.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
80
desaparece e todos os seus amigos retornam ao mundo dos vivos. Mas da
lixeira retorna o monstro que devora a todos, inclusive a desenhista. O
retorno do monstro apenas simboliza que o mal está dentro dela e que seu
esforço “racional” em superá-lo é inútil, pois ele é mais forte e sempre volta.
É a vitória do mal sobre o bem.
Este filme é paradigmático, pois revela que o mal (no caso, o monstro
canibal) tem origem no ódio que a desenhista sente em relação a algumas
pessoas. O que se vê, a partir disto, é que uma obra fictícia (a história em
quadrinhos de um monstro canibal) expressa sentimentos reais (o ódio da
desenhista). O mesmo pode ser dito a respeito do próprio filme O Monstro
Canibal, uma criação fictícia que manifesta sentimentos reais e que toma esta
própria relação entre ficção e sentimentos como tema e isto é feito de tal
forma que revela a lógica de produção deste tipo de filme.
Mas se O Monstro Canibal apresenta de forma um tanto quanto explícita
esta relação, o mesmo não ocorre com os demais filmes de terror. Entretanto,
em muitos se percebe esta relação de forma implícita. Basta ver o tema
recorrente do perigo do espelho ou dos sonhos. O que o espelho e os sonhos
refletem além de nós mesmos? O mal está do outro lado do espelho e nos
ameaça a devorar ou destruir e os sonhos, tal como no filme O Pesadelo, é
onde o mal se manifesta e busca penetrar no nosso período de vigília (quando
estamos acordados). O “outro” que é o mal (a sombra) está nos sonhos e
espelhos, o que reflete o nosso “lado obscuro”. Enfim, estes filmes retratam
os conflitos dos seus criadores com os seus fantasmas interiores. A
identificação com o mal é decorrente da situação do criador do filme, não só
pelo fato de que assim ele descarrega seu ódio destrutivo de forma fictícia,
sendo uma mistura da manifestação da persona (o que Freud chama de
sublimação)4 comandada pela sombra, mas também pelo fato de que ele é o
“dono” da história e é ele que irá descarregar o ódio e por isso o mal não lhe
é ameaçador mas sim para aqueles que ele odeia.
Aliás, daí podemos sugerir a hipótese de que as pessoas que são
destruídas nestes filmes sejam símbolos de tipos de pessoas que o criador da
história realmente odeia. O ódio é produto do sentimento de impotência e da
vontade de vingança. Este ódio é produto da sombra, das energias destrutivas
acumuladas no indivíduo devido à mais-repressão da sociedade repressiva.
Podemos abrir um parêntesis aqui para explicar que o sentimento de
impotência pode produzir diversas reações. Entre estas reações se destacam o
ódio e o medo. Isto ocorre principalmente no interior de relações sociais nas
quais o sentimento de impotência diante de injustiças ou das ações de pessoas
tirânicas produz ódio ou medo. Juntamente com o ódio vem o desejo de

4
Cf. FREUD, Sigmund. Ob. cit. No entanto, nossa concepção tem algumas diferenças
em relação à de Freud (veja Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico).
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano
81
vingança e junto com o medo vem a submissão. Cada indivíduo possui uma
predisposição maior para um ou para outro e isto depende do seu processo
histórico de vida, que fornece uma determinada configuração ao seu universo
psíquico, embora isto possa ser alterado no conjunto das relações sociais (a
diminuição da repressão, por exemplo, pode alterar tal configuração).
Entretanto, é preciso ressaltar que há o predomínio de um ou de outro
mas ambos estão, de certa forma, presentes. Não há nenhum submisso que
não alimente um quantum de ódio pelo seu tirano e não há nenhum revoltado
que não carregue em sim um quantum de medo, a não ser em casos concretos
raros. Se não fosse assim, o medroso seria incapaz de qualquer ato de
rebeldia, o que não se verifica na realidade, e o revoltado tentaria concretizar
sua vingança imediatamente, o que não ocorre efetivamente e é justamente
esta situação que permite a emergência do ódio e do medo. O ódio contido
pode se manifestar através de outras formas de violência e agressividade, ou
mesmo sob formas socialmente permitidas, tal como, segundo nossa hipótese,
a produção de filmes de terror.
No caso de O Pesadelo, as vítimas do criminoso “ressuscitado” Fred
Krueger (que morreu queimado pelos moradores do bairro onde se
desenvolve o filme após ter sido absolvido pelo crime de assassinato de
crianças) eram três jovens “normais”, um jovem envolvido com drogas e uma
mulher alcoólatra, mãe de uma das vítimas.
Estes jovens passam a sonhar que um homem/monstro misterioso que
possui lâminas nas mãos os perseguem (individualmente) e eles acordam
pouco antes de serem mortos. Fred Krueger voltou para se vingar e a
vingança surge a partir do momento em que, passando por cima da lei e da
decisão judicial, os moradores fizeram justiça com as próprias mãos. Duas
das vítimas eram parentes de um delegado (uma era a esposa, que participou
da perseguição a Krueger e que inclusive guardou a arma que ele utilizava
para matar as crianças – laminas que se encaixavam nas mãos como uma
espécie de luva – e a outra era a filha). O delegado não fez e nem podia fazer
nada para salvá-las, assim como também não salvou Fred Krueger. No
fundo, o ódio do criador deste filme, podemos supor, é direcionado para
aqueles que fazem justiça com as próprias mãos. Isto, entretanto, é apenas
uma hipótese provisória que somente uma pesquisa sobre tal criador poderia
confirmar ou refutar.
Mas é bem mais provável e menos discutível a idéia de que o filme de
terror manifesta os conflitos interiores de seu criador. De qualquer forma, no
universo psíquico do indivíduo convive as energias reprimidas, incluindo a
sombra, o lado perverso provocado por um processo de mais-repressão e de
falta de possibilidade de auto-realização individual, seja através da
manifestação da persona, ou de qualquer forma de satisfação substituta.

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


82
O presente texto foi publicado originalmente no Jornal Opção, em
julho de 1997, contendo algumas alterações formais e de
conteúdo.

Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano


83
Coleção Temas Germinais

A Coleção Temas Germinais pretende germinar pensamentos, idéias,


críticas, questionamentos e abrir espaço para que se possa semear um
novo mundo.
A Questão da Causalidade nas
Ciências Sociais é um texto que
interessa a quem trabalha com
epistemologia, filosofia, ciências sociais,
marxismo e outros temas próximos. Este
livro apresenta um breve histórico da
idéia de causalidade na filosofia e nas
ciências naturais e faz uma abordagem
de sua elaboração nas ciências sociais e
apresenta a concepção de Marx sobre as
múltiplas determinações dos fenômenos
sociais em oposição à idéia de
causalidade.

TEMAS GERMINAIS 02

Inclusão ou Exclusão: O Dilema da Inclusão ou Exclusão?


O Dilema da
Educação Especial é um ensaio crítico e
A Coleção Temas Germinais pretende
atual a respeito de um dos temas mais Educação Especial
debatidos na área educacional nos últimos
anos. Livro de interesse para educadores,
sociólogos, por um lado, e para indivíduos Maria Angélica Peixoto
“excepcionais”, bem como seus familiares
e profissionais que trabalham com
educação especial. A autora desvenda a Edições
fonte ideológica que está por detrás da
Germinal
visão da excepcionalidade e descobre a
origem das concepções de educação
especial, revelando que a proposta de inclusão está intimamente ligada à
política neoliberal do Estado Capitalista contemporâneo, expressão da
tentativa de solucionar o problema da crise de acumulação de capital.