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Tipos de pessoas: Alvos em movimento

Ian Hacking

Há muito tenho me interessado nas classificações das pessoas, em como elas afetam as pessoas classificadas e como os efeitos nas pessoas por sua vez mudam as classificações. Desde 1983, isso tem me levado a realizar uma série interminável de estudos: dois livros, um sobre a personalidade múltipla dos anos 1980 e outro sobre a fuga dissociativa dos anos 1890.[1] Artigos sobre a velha criminologia e sobre o abuso contemporâneo de crianças, um estudo

sobre a própria idéia da linha da pobreza.[2] Palestras extensas mas não publicadas sobre gênio

e suicídio. Algumas, on-line em francês, sobre autismo e obesidade.[3] Cunhei dois slogans. O primeiro, “Construindo pessoas” referia-se aos modos pelos quais uma nova classificação científica pode dar forma a um novo tipo de pessoa, concebido e experienciado como forma de ser uma pessoa.[4] O segundo, o “efeito loopingA referia-se ao modo pelo qual uma

classificação pode interagir com a pessoa classificada.[5] Desde o início eu disse que “não há razão para supor que alguma vez contaremos duas histórias idênticas de dois casos diferentes de construção de pessoas”.[6] Mas algumas generalizações são possíveis. Pretendo agora propor um arcabouço segundo a qual tentarei pensar sobre a construção das pessoas e o efeito looping. Muitos tipos de pessoas cabem neste arcabouço, mas não estou preocupado com cada tipo. Isto porque minha atenção especial é para o modo como as ciências sociais, médicas e biológicas criam novas classificações e novo conhecimento. Muitos dos tipos de pessoas sobre os quais pretendo discutir são novos tipos, ou tipos que podem ter nomes antigos mas adquiriram novos sentidos à luz do conhecimento. Alguns tipos sempre têm estado conosco. Sexo, raça e gênero:

estas categorias já foram intensamente examinadas durante todos estes anos, especialmente

à luz dos estudos de gênero e das histórias pós-coloniais. Raça e sexo foram categorias

profundamente importantes muito antes de terem se tornado alvo de ciências especiais. São, de fato, de suma importância, mas não as discutirei hoje.

Ciências humanas

Pensamos em muitos tipos de pessoas enquanto objetos de investigação científica. Às vezes para controlá-las, como as prostitutas, às vezes para ajudá-las, como suicidas em potencial. Às vezes para organizar e ajudar, mas ao mesmo tempo para garantir a segurança, como os pobres ou os sem-teto. Às vezes para mudar para o próprio bem e o bem público, os obesos. Às vezes para admirar, entender, encorajar e talvez até para competir, como (às vezes) com o talento. Pensamos nesses tipos de pessoas enquanto classes definitivas, estabelecidas definidas por propriedades definitivas. Quando recebemos mais conhecimento sobre tais propriedades,

conseguimos controlar, ajudar, mudar ou competir

melhor. Mas não é bem assim.

São alvos em movimento por nossas investigações interagirem com os próprios alvos e os modificarem. E como são modificados, já não são o mesmo tipo de pessoa que eram antes. O alvo mudou. Esse é o efeito looping. Às vezes nossas ciências criam tipos de pessoas que de certa maneira nunca existiram. Isso é construir pessoas. Sim, estou preocupado com as ciências do homem. As ciências humanas incluem não apenas as ciências sociais e humanas, pois conto com a psiquiatria e boa parte da medicina clínica

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entre as ciências do homem. Os “tipos de pessoas” do meu título são aquelas estudadas elas ciências humanas. Mais adiante listarei alguns dos mecanismos usados nestas ciências. São mecanismos de descoberta e também de construção de pessoas. A análise estatística das classes de pessoas

é um mecanismo fundamental. Da mesma forma tentamos constantemente medicalizar. Num

sentido mais geral, tentamos biologizar, reconhecer um fundamento biológico para os problemas que envolvem alguma classe de pessoas. Mais recentemente, esperamos geneticizar tanto quanto possível. Assim, a obesidade, outrora considerada como resultado da vontade, torna-se província da medicina, depois, da biologia e, no presente, procuramos tendências genéticas hereditárias para o ser gordo. Uma história semelhante pode ser contada sobre a busca pela personalidade criminosa.

Nominalismo

Isto é filosofia? Sim. Essas reflexões sobre classificações de pessoas são uma espécie de nominalismo. Mas o nominalismo tradicional é completamente estático. O meu é dinâmico, pois estou interessado em como os nomes interagem com os nomeados.

O primeiro nominalista dinâmico pode ter sido Friedrich Nietzsche. Um aforismo em The

Gay Science começa, “Tem algo que me traz muita dificuldade e continua me incomodando:

Indescritivelmente depende mais de como as coisas são denominadas do que o que elas são”.

E termina, “

‘coisas’”. A construção das pessoas é um caso especial do fenômeno de Nietzsche. Minha preocupação é menos ampla que a dele, mas tem me dado grandes dificuldades nestes vinte

anos. Não acredito que “depende mais de como as coisas são denominadas do que o que elas são”. Meu sentido de realidade é forte demais para seguir a estrada do idealismo lingüístico. E tem alguma outra coisa errada no texto de Nietzsche, porque soa como se os nomes fizessem sua própria mágica. Como o próprio Nietzsche sabia mas não se preocupava em dizer, os nomes são apenas uma parte da dinâmica. No caso dos tipos de pessoas não há apenas (a)

as classificações e seus nomes, mas também as pessoas classificadas, os especialistas que as

classificam, estudam e ajudam, as instituições onde interagem os especialistas e seus sujeitos

e através das quais as autoridades controlam. Há (e) o corpo evolutivo do conhecimento sobre

as pessoas em questão ― tanto o conhecimento especializado quanto a ciência popular. Dê

basta criar novos nomes e avaliações e aparentes verdades para criar novas

uma olhada neste arcabouço de (a) a (e): classificações, pessoas, instituições, especialistas e conhecimento; cinco aspectos interativos da construção das pessoas. Michael Foucault foi um profissional mais recente do nominalismo dinâmico. Revisando um livro bem conhecido de Kenneth Dover sobre a homossexualidade grega, ele escreveu o

seguinte:

Dover desembaraça um território conceitual desordenado. Ainda se

encontra pessoas que pensam que a homossexualidade sempre existiu. Elas citam como evidência Cambacérès, o Duque de Crequi, Michelangelo ou Timarco. Dover dá uma excelente aula de nominalismo histórico a esses ingênuos. Relações entre duas pessoas do mesmo sexo são uma coisa. Mas amar alguém do mesmo sexo, ter prazer com ele, é outra coisa, completamente outra experiência, com seus próprios

objetos

que ele tenha de si mesmo.

e seus valores, junto como o modo de ser um sujeito e a consciência

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A homossexualidade compreendida por Foucault é uma forma de ser, de experiência, uma

forma muito específica de ser uma pessoa. “O homossexual” é uma espécie de pessoa que existe apenas em determinado cenário histórico-social, hoje, por exemplo, mas não na antiga Atenas. O homossexual “como tipo de pessoa” não existia então, embora houvesse uma porção

de atos entre pessoas do mesmo sexo com complexos códigos sobre que atos fossem certos ou

errados.

O nominalismo histórico é apenas a metade do bolo. Meu nominalismo é histórico, sim, mas

é também nietzschiano, é dinâmico, é sobre a interação entre os nomes e as coisas, ou entre

os nomes e as pessoas. Aprendi esse modo de pensar com Michael Foucault, embora ele não tenha de fato sugerido meu nome para esta filosofia. Retomarei a questão inteira do nominalismo dinâmico na quinta-feira.

Um exemplo fácil

É essencial termos alguns exemplos em mente, para acrescentar detalhes às afirmações

abstratas. Eu gostaria de mencionar sucintamente meu primeiro exemplo de construção e pessoas e o efeito looping, personalidade múltipla. Está em Rewriting the soul. Parece enganosamente fácil. Em torno do ano 1970 surgiram alguns casos de paradigma sensacional de estranho comportamento semelhante ao fenômeno discutido um século antes e em geral esquecido. Alguns psiquiatras começaram a diagnosticar a personalidade múltipla. Era sensacional. Mais e mais pessoas infelizes começaram a manifestar tais sintomas. Primeiro tinham os sintomas que se esperava que tivessem. Em uma década, o número médio era de 17. Isto levou de volta aos diagnósticos e entrou nos padrões dos sintomas. Tornou- se parte da terapia de omitir mais e mais alterações. Os psiquiatras saíram em busca de causas e criaram uma etiologia pseudo-freudiana primitiva e de fácil compreensão do abuso sexual precoce reunida com memórias reprimidas. Sabendo que esta era a causa, os pacientes obrigatoriamente recuperavam a memória. Mais do que isso: isto se transformou num modo de ser uma pessoa. Em 1983 eu disse categoricamente, que nunca poderiam ser barras de divisão, análogas aos bares de gays B . Em 1991 fui para a minha primeira barra de divisão.

Um arcabouço de análise

Tais eventos podem ser colocados no arcabouço de cinco aspectos de elementos interativos que já foi mencionada anteriormente. Temos (a) uma classificação, múltipla personalidade, associada ao que com o tempo foi chamado de “distúrbio”, Distúrbio da Múltipla Personalidade. Este é o tipo de pessoa que é um alvo em movimento. Temos (b) aquelas pessoas infelizes, incapazes de lutar e vencer e que manifestam vários tipos específicos de sofrimento e comportamento anormal. Temos (c) as instituições, entre as quais estão as clínicas e a Sociedade Internacional para o Estudo da Múltipla Personalidade e da Dissociação. Além disso, os programas de bate-papo nas tardes da televisão americana ― Oprah e Geraldo Rivaldo faziam espalhafato com os múltiplos. Programas de treinamento de fim-de-semana para terapeutas, alguns dos quais freqüentei. Como de costume enfatizo o lado organizacional das instituições, e com isto não quero dizer meramente a prática. Há (d) o conhecimento, quero dizer, algo como o sentido de Popper do conhecimento conjetural. Mais especificamente, as inferências que são ensinadas e aplicadas no contexto das

instituições. Especialmente o que é apresentado como fatos básicos, a múltipla personalidade, por exemplo, é causada pelo abuso sexual precoce, de que 5% da população sofre da múltipla personalidade e assemelhados. Pressupostos básicos que mais tarde consideramos como terríveis erros interagem com as pessoas e as classificações tanto quanto os fatos que consideramos estáveis, verdadeiros e fora de qualquer dúvida.

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Finalmente, há (e) os especialistas ou profissionais que geram o conhecimento (d), avaliam sua validade e o usam em sua prática. Eles servem a (c) instituições que garantem sua legitimidade, autenticidade e status de especialistas. Estudam, tentam ajudar ou dão conselhos quanto ao controle das (b) pessoas que são (a) classificadas em determinadas categorias. Este é um arcabouço verdadeiramente banal de cinco elementos. Suas funções e valores são distintos em cada caso. Não há “qualquer razão para supor que alguma vez encontraremos duas histórias idênticas de dois casos distintos de construção de pessoas”. Este arcabouço

trivial desfavorece um excesso de filosofia. Os estudantes sérios da sociedade não precisam de qualquer lembrete estrutural desse tipo, mas os filósofos, inclusive Nietzsche e eu próprio, precisam. Temos a tendência de dar muita atenção a palavras e coisas ― como se as interações envolvessem apenas nomes e as pessoas nomeadas, ou a classificação e as pessoas classificadas. Não, os nomes das categorias e as pessoas que encaixam nas mesmas interagem em interações mais amplas no prospero mundo das instituições, especialistas e seu conhecimento (e tantos outros). Uma das tantas coisas que aprendemos com Michael Foucault

é o papel capital que o conhecimento por si só desempenha neste processo.

Repetindo, eis, então, os elementos interativos de meu arcabouço. Os cinco elementos listados ― e mais ― são jogadores, usualmente jogadores essenciais, dos efeitos looping e da

construção das pessoas:

a. classificação

b. pessoas

c. instituições

d. conhecimento

e. especialistas

Construção

Forma-se um tipo completamente novo de pessoa, o múltiplo, com um conjunto de memórias

e de comportamentos. Este foi, apesar de alguns precursores, o tipo de pessoa desconhecido na

história da raça humana. Trata-se de uma idéia não muito fácil de expressar. É bem conhecida entre os romancistas e historiadores sociais, mas a linguagem filosófica cuidadosa não está preparada para tanto. O pedantismo está de acordo. Faça a distinção entre estas duas sentenças:

A. Não havia qualquer múltipla personalidade em 1955; havia muitas em 1985.

B. Em 1955 esta não era uma forma de ser gente, as pessoas não tinham esse tipo de experiência, elas não interagiam desta forma com os amigos, familiares, empregadores, conselheiros; mas em 1985 esta era uma forma de ser gente, de ter experiências, de viver na sociedade.

Na minha opinião, ambas são verdadeiras, mas A é muito breve e belicoso. Nosso tópico é B. Para vermos a diferença entre A e B, um entusiasta do que hoje se chama Distúrbio da Identidade Dissociativa dirá que A é falso, porque diversas “outras personalidades” sem

dúvida existiram em 1955, mas não foram diagnosticadas. Um cético também dirá que A é falso, mas exatamente pela razão contrária: a múltipla personalidade é um diagnóstico especioso, e não houve qualquer múltiplo real nem mesmo em 1985. A primeira declaração, A, leva imediatamente a debates acalorados mas sem sentido sobre a realidade da múltipla personalidade. Mas oponentes imparciais poderiam pacificamente concordar com B. Quando falo em construção de pessoas, é B que tenho em mente e é através de B que ocorre o efeito looping.

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Casos mais difíceis

Trabalho com exemplos atuais que estão em intensa discussão, tanto populares quanto científicos. A múltipla personalidade apareceu para mim quando comecei o assunto, com novos eventos quase cada semana. Tomei o assunto abuso infantil cedo quando pedi a uma socióloga feminista conhecida um exemplo de tipo de pessoa que muda diante dos nossos

olhos. “Abuso infantil” foi sua resposta calma e grave. É importante termos diferentes tipos de ilustrações, para não sofrermos do vício de uma dieta magra demais de exemplos e vamos usar a obesidade como contraste. Estes dois exemplos são obviamente atuais, obviamente diferentes. Hoje lemos sobre uma epidemia de autismo e

de obesidade, assim como líamos sobre uma epidemia de múltipla personalidade e de abuso

infantil. Sou um Midas infeliz, assim que toco num assunto ele vira epidemia. Direi algumas palavras sobre obesidade e autismo, dois diferentes exemplos de tipos de pessoa do interesse atual.

Obesidade

Obesidade é um problema mundial, mas eu gostaria de introduzi-lo com algo bem familiar. Obesidade e excesso de peso costumavam ser termos comuns da língua, mas tornaram-

se termos técnicos. Ambos são definidos pelo Índice de Massa Corporal, um conceito

introduzido em torno de 1970. O Índice de Massa Corporal é a ração de peso em quilogramas dividida pelo quadrado do peso em metros. Em 1998 a Organização Mundial da Saúde deu definições exatas dessas expressões familiares.

“Normal” é um índice entre 20 e 25, “Excesso de peso” é definido como tendo um Índice de Massa Física de 25 a 30, “Obeso” é definido como tendo um Índice de Massa Física de 30 ou mais. Em dezembro de 2004, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística publicou um relato, O que alimenta o Brasil[7]. Afirmou que em 2003 um pouco mais de 40% dos homens e apenas 40% das mulheres tinham excesso de peso/estavam acima do peso. Houve variações regionais importantes. Os homens eram menos pesados no norte e nordeste. Houve diferenças significativas por idade e sexo: acima dos 55 anos, a proporção de homens acima do peso diminui; o mesmo vale para as mulheres acima dos 65. Mas isso não significa que os homens que hoje têm 50 e as mulheres com 60 percam peso! A verdade é que o grupo mais velho não é gordo. Em 2020, quando os homens e as mulheres velhos de hoje morrerem, as proporções

de pessoas obesas e com excesso de peso aumentará simplesmente devido à morte das pessoas

velhas mais magras.

O relato teve importantes repercussões políticas. A população do Brasil é de quase 183

milhões. Menos de 10% foi considerada abaixo do peso em comparação com aqueles 40%

de excesso de peso ― 18 milhões muito magros, em comparação com os 73 milhões muito gordos. Lula denunciou os resultados, pois deram a impressão de que no Brasil não há

problemas de desnutrição mas de obesidade. Conseqüentemente, o relatório desviaria a atenção, e no fim as finanças públicas, da abordagem do velho problema nacional da pobreza

da família.

Muito freqüentemente, na mídia, as estatísticas sobre pessoas gordas são apresentadas sem muita explicação ou detalhamento. Dificilmente se faz a distinção entre excesso de peso e obeso, embora a obesidade realmente seja grave, enquanto que não está bem claro que o peso em excesso aumente a mortalidade. Deve ser acrescentado que hoje em dia o ser gordo não implica prosperidade. Nas áreas prósperas do mundo, são as regiões ou subpopulações empobrecidas que têm problemas de excesso de peso e obesidade. Além disso, as conseqüências de ser mulher pesada são menos graves do que homem pesado. A gordura

coxas e nádegas não está

acima da pélvis que é grave para a pessoa. A gordura nas

especialmente associada a riscos de saúde. O “perfil masculino”, pelo menos nas populações ocidentais, carrega peso em excesso à barriga, enquanto que no “feminino” é mais abaixo. Acrescenta-se a esse fato, a opinião casual de que a beleza brasileira está no traseiro grande da mulher, e o “excesso de peso” da mulher brasileira pode ser um problema de saúde menor do que sugerem meros números.

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Autismo

A obesidade, portanto, é assunto familiar no Brasil. A “crise de autismo” atualmente é mais

pronunciada na Inglaterra e EUA do que aqui, mas está chegando. A concepção de autismo evoluiu. Os dicionários não são muito bons em conservação. No Novo Dicionário da língua portuguesa, o autismo é definido da seguinte forma:

PSIQ. Fenômeno patológico caracterizado pelo desligamento da realidade exterior e criação mental de um mundo autônomo. Até no Dicionário Houaiss da língua portuguesa de 2004, publicado no Rio de Janeiro, ainda encontramos a velha definição:

Polarização privilegiada do mundo dos pensamentos, das representações e sentimentos pessoais, com perda, em maior ou menor grau, da relação com os dados e exigências do mundo circundante. Mas quando perguntaram a uma psiquiatra brasileira que desse a definição, ela imediatamente referiu-se a tradução portuguesa do “Diagnostic and Statistical Manual” americano. Essa explicação é bem complicada, que distingue três tipos de problemas numa pessoa autista:

Prejuízo marcante no uso de múltiplos comportamentos não-verbais Prejuízo na comunicação também é marcante e persistente Padrões restritos repetitivos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades

A maioria dos dicionários ingleses é idêntica aos portugueses, e dão apenas a velha idéia,

mas um, em 2000 substituiu a velha definição por esta nova: Um distúrbio psiquiátrico que

se manifesta no início da infância, caracterizado por marcantes deficiências na comunicação

e interação social, preocupação com fantasia, prejuízos lingüísticos e comportamentos anormais, geralmente associados a prejuízos intelectuais. Algo deve ter ocorrido para acarretar uma mudança tão radical na definição. A palavra “autismo” foi inventada pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler em 1908. Ele supunha a velha definição dicionarizada de introversão e ensimesmamento anormais. Era um tipo de

comportamento associado ao grupo de esquizofrenias, outra palavra que Bleuler introduziu mais ou menos na mesma época. O novo significado deriva de um diagnóstico de autismo

infantil introduzido em 1943. Todas as autoridades mencionam ainda outras características: uma obsessão pelo literal, uma obsessão pela ordem e manutenção de um mesmismo, terríveis acessos de raiva, mordendo

e batendo quando as coisas deixam de ser as mesmas de sempre. A maioria das pessoas com

autismo é do sexo masculino, numa razão de 4 para 5. Os autistas com freqüência têm o hábito de fazer eco do que tenha sido dito, em vez de falarem. O autismo deste tipo foi pela primeira vez diagnosticado em crianças, mas quase sempre é para toda a vida. É um distúrbio de desenvolvimento que pode ser reconhecido bem cedo, geralmente até os 30 meses, para o qual não há causa conhecida nem cura. No máximo, em geral se acredita que a criança possa aprender a compensar as deficiências, embora haja algumas notáveis recuperações. Outro

aspecto da definição a qual muitos contestam tem a ver com o autismo visto como “distúrbio”, hoje o eufemismo padrão para doença mental. Muitos insistem que o autismo não é nem um distúrbio nem uma doença mas uma incapacidade.

É quase certo que o problema é alguma combinação de anormalidade neurológica, biológica e

saiba

que sistematicamente ajudem a criança a compensar o autismo são comportamentais. São os mais puros condicionamentos operantes, B. F. Skinner em ação, a não ser que funcionem melhor num ambiente de zeloso amor. Em 1943, na verdade em 1973, o autismo era um raro distúrbio de desenvolvimento com um estereotipo bem definido e rigorosamente caracterizado. Uma proporção de 4,5 crianças a cada dez mil eram oriundas de escolas e serviços sociais de Londres, Inglaterra. Mas tal proporção tem crescido rapidamente nos últimos anos. Hoje se citam números de dez vezes àquela

quantidade. Sem dúvida há várias razões para tanto. Uma é que as escolas, assistentes sociais

e serviços de saúde têm sido alertados para os sintomas do autismo. Estamos vendo uma

mudança nos relatórios. Outra razão é que mudamos de uma concepção de sintomas básicos, usados naquelas antigas pesquisas, para o “espectro autista”. Trata-se de uma mudança de

critérios. Assim hoje temos pessoas com autismo de alto nível. Temos o que se chama síndrome de Asperger. Este nome entrou no inglês em 1981 através da psiquiatra britânica Lorna Wing. É adaptação de um diagnóstico feito em 1944 em Viena por Hans Asperger, um distinto pediatra do mundo falante do alemão. Hoje tende a referir-se a pessoas com sintomas de autismo que tiveram poucas dificuldades para aprender a língua, mas têm todos os demais problemas. Em geral serve de sinônimo de autismo de pessoas com autismo de alto nível. Vamos retomar a construção de pessoas. Consideremos certo tipo adolescente ou adulto,

o autista de alto nível. Vamos deixar o Asperger fora. O caso típico é um adulto autista

genética. Infelizmente, não temos idéia do que seja. Os únicos tratamentos que se

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desde criança com posse integral ou quase integral da sua capacidade lingüística e algumas excentricidades residuais de algum tipo de autista, algumas das quais são socialmente prejudiciais e outras possivelmente vantajosas. Algumas pessoas autistas de alto nível falam em formar uma frente de liberação dos autistas. Parem de tentar fazer a gente como vocês. Nós fazemos algumas coisas melhor do que vocês e vocês fazem algumas coisas melhor do que nós, então, deixem-nos em paz. Agora examine A e B novamente, desta vez em relação ao autismo:

A. Não havia qualquer autista de alto nível em 1950; havia muitas em 2000.

B. Em 1950 esta não era uma forma de ser gente, as pessoas não tinham esse tipo de experiência, elas não interagiam desta forma com os amigos, familiares,

empregadores, conselheiros; mas em 2000 esta era uma forma de ser gente, de ter experiências, de viver na sociedade.

Minha opinião sobre este A é bem diferente do que eu disse sobre a múltipla personalidade:

A, em relação ao autismo de alto nível, é completamente falso. Mas B é bem plausível. Antes de 1950, talvez antes de 1975, o autismo de alto nível não era uma forma de ser gente. Provavelmente existissem alguns indivíduos considerados retardados e pior, que se recuperavam, mesmo mantendo os tipos de fraqueza que os autistas de alto nível têm hoje. Mas as pessoas tinham as experiências, não interagiam com os amigos, família, empregados, conselheiros da mesma forma que o fazem hoje. Mais tarde isto se tornou uma forma de ser gente, de ter experiências, de viver na sociedade.

É fácil de ver porque não poderia ter havido pessoas com autismo de alto nível, no sentido

B, antes do autismo em si ter sido diagnosticado. Aquilo simplesmente não era uma forma de ser gente. Os primeiros indivíduos a ter consciência dessa sua situação precisavam primeiro ser diagnosticados como autistas ― impossível antes de 1943 ― e então de forma um tanto misteriosa serem “recuperados”. Eles tiveram de crescer com isso, adquirir habilidades sociais, serem capazes de compreender o que as outras pessoas pensavam e sentiam, superar ou de alguma forma viver de modo não problemático com a necessidade obsessiva do literal. Este era um efeito looping: algumas pessoas diagnosticadas como sendo autistas desenvolveram-se de tal modo que mudaram o próprio conceito de autismo. Eles deram forma à noção de pessoa autista de alto nível. Uma vez havendo tais autistas “recuperados”, foi possível para outros adultos, nunca antes diagnosticados como autistas, serem vistos como pessoas com dificuldades semelhantes,

mesmo sua

Uma forma completamente nova de experiência surgiu. Em conseqüência disso, rapidamente

infância não sendo tão ruim. Eles podiam se ver assim: “Esse sou eu!”.

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expandiu-se a classe dos autistas de alto nível. Alguns desses indivíduos tinham habilidades de um, outros tinham habilidades de outro tipo.

A evolução conceitual do autista altamente funcional surge assim das interações entre os cinco

elementos de nosso arcabouço. Temos (a) uma nova classificação, um novo tipo de pessoa possível de ser. (b) Indivíduos em particular mudam, uma vez que são reconhecidos como sendo desse tipo ou vêem-se como autistas de alto nível. (c) Tudo isto requer instituições, inclusive escolas, serviços sociais e de saúde, que disseminem e revisem o novo (d) conhecimento. Enfim há os (e) especialistas. As instituições são imensamente mais

ramificadas e os especialistas de campos mais diversos do que no caso da múltipla personalidade. Que tal A e B para o autismo em si? A afirmação (A) declararia que não havia crianças autistas antes de 1943, o ano em que Kanner introduziu o diagnóstico do autismo infantil. Isto

é francamente falso. É claro que havia crianças autistas antes de Kanner tê-las distinguido.

Contudo, peço que você reflita sobre B: antes de Kanner, o autismo não era uma forma de ser gente. Mas se, como em geral se supõe, o autismo for deficiência neurológica congênita, certamente havia crianças autistas rejeitadas como retardadas, imbecis, etc., a antiga ladainha de epítetos reprovadores.

Mecanismos de descoberta

Como ocorre a construção das pessoas?

Os tipos de pessoas que nos interessam são aqueles estudados nas ciências humanas, da sociologia à medicina. Aqui o conhecimento, um dos aspectos de meu arcabouço de cinco partes, desempenha um papel central, junto com os especialistas que o geram e as instituições nas quais ele é produzido e aplicado. Houve construção de pessoas em todos os tempos e lugares, mas apenas nos últimos 200 anos as ciências têm sido tão centrais para a compreensão humana do que somos. Construímos a nós mesmos em nossa própria imagem científica dos tipos de pessoas que possamos ser. Mas a ciência não é uma coisa, nem o é o método científico. As ciências humanas foram guiadas por diversos mecanismos de descoberta. Tais mecanismos são tidos como decifradores dos fatos, mas são também mecanismos de construção de pessoas. Eis sete, ordenados mais ou menos com a época em que entraram em vigor. Assim classificamos e contamos diferentes tipos de pessoas (Mecanismo 1) muito antes de sermos capazes de procurar índices genéticos (Mecanismo 7). Apresento estes mecanismos como imperativos para os que queiram descobrir. Se você quiser compreender as pessoas de um tipo, diferenciar os autistas dos obesos, por exemplo, precisa contá-los, depois de tê-los distinguido. Hoje, se você quer compreender o autismo ou a obesidade, precisa verificar as correlações genéticas de tais anormalidades. Os imperativos mais notáveis e gerais são:

1. Conte!

2. Quantifique!

3. Crie Normas!

4. Faça Correlações!

5. Medicalize!

6. Biologize!

7. Geneticize

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Estes sete mecanismos de descoberta não são os únicos mecanismos que guiam tanto o conhecimento quanto a construção de pessoas. Eis outros três que explicarei a seguir.

O oitavo é um mecanismo de organização e controle. O nono é de administração. Geralmente

são o que os leitores de Foucault têm em mente quando falam em efeitos de poder do conhecimento. O décimo mecanismo tem sido cada vez mais poderoso ultimamente. Tem a ver com a resistência do conhecido aos conhecedores e tem sido a fonte de muitos efeitos looping.

8.

Normalize!

9.

Burocratize!

10.

Recupere nossa identidade!

Os sete mecanismos em funcionamento

O sucesso dos sete mecanismos de descoberta tem sido extraordinário. Não é crítica dizer

que eles têm efeitos colaterais, que às vezes dão forma a novos tipos de pessoas, no sentido modesto das proposições do tipo B. Não é crítica dizer que eles afetam os tipos de pessoas estudadas. Os mecanismos têm de ser abastecidos de talento, que sempre esperamos que os (e) especialistas tenham, e de dinheiro. Uma quantidade módica de apoio popular é necessária para manter as (d) instituições funcionando. De que forma o talento e os recursos são consumidos é tópico próprio da sociologia do conhecimento científico.

Eis alguns breves comentários que sugerem o que implica cada um dos sete mecanismos. O autismo e a obesidade fornecem ilustrações convenientes de contraste para os sete mecanismos. Freqüentemente, o modo de um mecanismo ter levado a interações envolvendo autismo é muito diferente do modo de trabalhar com a obesidade. Com esses dois modelos diferentes, você deve ser capaz de ir mais a fundo com seus próprios exemplos.

1. Contagem. As pessoas têm sido a muito tempo contadas para fins de taxação e

recrutamento. Mas a contagem das pessoas para outros fins começou já no século XIX

e nunca parou. As primeiras tentativas de contar crianças autistas deram índices, como vimos, de aproximadamente 4,5 por 10.000. Hoje há em torno de oitenta contagens publicadas, e o número cresce à proporção do autismo que alguns já estimam em 6 por 1000. Um relatório recente fez a mídia declarar em manchete que o autismo hoje

é “comum” entre crianças americanas de 4 a 18 anos de idade.

Todos já conhecemos as horrendas cifras de obesidade. Não importando se a obesidade faz ou

não mal à saúde, as taxas de fato têm aumentado em todo o mundo nas duas últimas décadas.

O autismo serve de contraste. Aí debatemos se os índices excessivos de autistas indicam que

o predomínio do autismo está crescendo ou apenas temos definições expandidas e estamos mais atentos aos possíveis diagnósticos. Esse tipo de debate não vale para a obesidade: não importa como definimos a obesidade, há mais pessoas obesas no mundo do que qualquer

época do passado, e isto vale tanto para as regiões pobres e subdesenvolvidas quanto as ricas

e

prósperas.

 

2.

Quantidade. No caso do obeso, a quantidade é incorporada. Em 1903, companhias de

 

Seguro de Vida definiram o estar “acima do peso” como estar acima da média das

pessoas asseguradas de sua própria idade, altura e sexo. Elas diziam que “A obesidade

é

definida como acúmulo excessivo de gordura no corpo”. Nos anos 1970, entra em

vigor o Índice de Massa Corporal, uma quantidade definida como razão do peso de uma pessoa em quilogramas dividida pelo quadrado da altura em metros. Apenas em

1998

(!), a Organização Mundial da Saúde, acompanhados por numerosos organismos

nacionais, define o acima do peso como BMI (Índice de Massa Corporal) das pessoas com mais de 25 e a obesidade como BMI das pessoas com mais 30. Para ter-se uma idéia de o que significam esses números, no seu apogeu James Joyce tinha um BMI de 23,8. Marylyn Monroe variava entre 21 e 24. “Abaixo do peso” é definido como

abaixo de 18.5. Nos

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últimos vinte anos, as modelos da Playboy têm despencado

de 19 a 16,5. Rauja Singh, o maratonista britânico, 94 anos, o homem mais rápido da Terra com mais de 90 anos de idade, tem um BMI de 15.4.

O

autismo, em contraste, resiste às quantidades. Há diversos questionários de diagnóstico, mas

é

difícil de quantificar deficiências.

 

3. Normas. As normas quantitativas seguem a idéia do homem médio introduzida em meados do século XIX. Sim, nós temos “a média normal” do Índice de Massa

Corporal de 20 a 25. Muitos de nossos exemplos são desvios da norma, para melhor ― gênio ― ou pior ― obesidade.

4. Correlação. Este é o mecanismo essencial às ciências sociais. Começou em torno de

1870 com o coeficiente de correlação da estatística. O resto é história.

Tentamos relacionar o autismo com tudo, sem excluir nem mesmo o relativo comprimento dos dedos da mãe nem a testosterona no feto. Quanto menos sabemos, mais procuramos correlações na esperança de que estas nos direcionem para algo importante. Algumas correlações não carecem de qualquer teoria estatística nem análise: quarto de cada cinco crianças com autismo são do sexo masculino. Por outro lado, o excesso de peso precisa

estatísticas mais sutis. Diz-se que um Índice de Massa Corporal de 25 a 30 faz mal para a saúde pela correlação significativa com numerosos fatores de risco, que são em si entidades estatísticas. É uma situação estranha. Estar acima do peso, diferente de ser obeso, não afeta significativamente a expectativa de vida, embora, a não ser que você faça musculação ou seja um atacante de rúgbi, lhe deixará menos atraente na sociedade atual, menos fisicamente ativo e

assim por diante. Diferente da obesidade, o estar acima do peso relaciona-se a fatores de risco

e não com índices de mortalidade.

5. Medicina clínica. Medicalizamos inflexivelmente as pessoas que saem do padrão e

nem sempre temos êxito. O conceito moderno de abuso infantil foi introduzido por médicos dos anos 1960, mas tem havido verdadeiras batalhas em torno do chamado “modelo médico” desde então. Sempre existiram pessoas gordas, algumas até doentes. Mas pessoas corpulentas e roliças freqüentemente têm estado em voga, como nos lembram as obras de Rubens ou Renoir. Hoje tratamos os corpulentos como doentes e os obesos como pessoas com séria carência de ajuda médica. Uma nova geração de medicamento anti-craving está pronta para fazer

fortuna. O autismo era considerado como diagnóstico feito por psiquiatra infantil e, portanto,

é registrado como distúrbio mental e, conseqüentemente no fim, como problema médico. Mas se o considerarmos mais e mais como invalidez, parecerá menos e menos médico.

6. A biologia que inclui a neurologia. O autismo é um tipo de invalidez, mas tem causas biológicas, especificamente neurobiológicas. Um dos grandes benefícios morais de biologizar o que costumava ser um vício é que assim se alivia a pessoa de responsabilidade. O comer demais atribuído a desequilíbrios químicos deixa de ser uma deficiência moral

7. Genética. Há hoje uma forte tendência de observar o problema médico como biológico e o biológico como genético. Há um amplo programa de pesquisa de busca das causas genéticas do autismo ― é quase um ato de fé na comunidade de pesquisa de que haja tal causa. Um programa menos extenso tenta descobrir tipos de obesidade que sejam genéticos. Esta confiança na herança do desvio não é nova. Um século atrás houve uma grande investida no sentido de descobrirem-se as origens genéticas do comportamento criminal, da personalidade criminal, etc., e isto voltou em formas mais prudentes.

Controle, burocracia e resistência

Os mecanismos de descoberta são da mesma espécie. O contar é antigo, a genética é recente, mas os sete mecanismos visam a produção de conhecimento, compreensão e o potencial de melhora ou controle de seres humanos fora do padrão. Chegamos finalmente em três

cada qual derivado dos mecanismos de

descoberta e do conhecimento que eles produzem, mas cada qual agindo do seu jeito.

mecanismos de uma natureza diferente,

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8. Normalização. Em muitos casos, tentamos transformar os diferentes no mais próximo possível do normal. Esse é o objetivo das terapias comportamentais dirigidas ao autismo; esse é o objetivo das drogas anti-craving dirigidas aos obesos. Uma perspectiva diferente da minha enfatizaria que é aí que se dá toda a ação. Não são as idéias que mudam as pessoas, mas os tratamentos, sejam eles comportamentais ou farmacêuticos.

têm burocracias bem complexas que selecionam crianças com problemas de desenvolvimento nos primeiros anos escolares e os dirigem a serviços especiais. O sistema vê-se como forma objetiva de determinar quem precisa de ajuda, mas

a relação é recíproca. Os critérios usados pelo sistema definem por sua vez quais

encaixam nas várias categorias tais como a dos autistas. Este é um efeito de repercussão. O autismo é, entre outras coisas, um conceito burocrático, usado na administração e gerência de crianças estranhas da idade escolar.

Novamente a obesidade serve de contraste, pois não foi muito burocratizada. Mas não vamos nos esquecer que foi penalizada pelas burocracias na forma das companhias de seguros de vida. Isto nos remonta ao princípio do século XX. Os seguradores definiram os primeiros padrões por estarem convencidos de que as pessoas gordas eram um risco.

10. Resistência.Os tipos de pessoa que são medicalizados, normalizados e administrados

cada vez mais tentam libertar-se o controle do jugo dos especialistas e instituições, às vezes criando novos especialistas, novas instituições. O caso famoso é a homossexualidade, tão medicalizada desde a época de Kraft-Ebing ao final do século XIX. Foi este o período em que as instituições legais empenharam-se em punir

a homossexualidade. O orgulho homossexual e seus predecessores devolveram aos

homossexuais o controle das classificações em que se encaixaram. Citei movimentos na direção de uma “frente de liberação dos autistas”, algo que tornaria os autistas altamente funcionais os especialistas de sua condição. Há um número de organizações de pessoas acima do peso e obesas tentando recuperar o orgulho e a dignidade aos corpos pesados.

Alvos em movimento

Os dez mecanismos produzem efeitos nos tipos de pessoas às quais são aplicados. Alteram fronteiras. Alteram características. Isto não é de forma alguma depreciação do fato de sete destes serem mecanismos de descoberta. Sobram conjeturas sobre causas, formas de tratamento e cura da obesidade e do autismo. Felizmente há competição. Diferentes grupos têm diferentes opiniões sobre qual seja corroborado. Poderíamos descobrir que não há qualquer base genética para o autismo, e nenhuma para não mais do que uma pequena proporção de pessoas obesas. Ou poderíamos descobrir que a maior parte da obesidade e todo autismo estão ligados a certa organização de anomalias genéticas. É importante saber. Tentamos descobrir usando os sete mecanismos científicos listados. De fato noto que tendemos a pensar neles em termos de alvos fixos. Sugiro que os mecanismos modificam os alvos. Isto de forma alguma põe em dúvida sua objetividade.

[1] Rewriting the Soul: Multiple Personality and the Sciences of Memory (Princeton University Press, 1995).

Mad Travelers: Reflections on the Reality of Transient Mental Illnesses (Charlottesville, University Press of Virginia, 1995; Harvard University Press, 2002). [2] Um exemplo de cada tópico: “Criminal behavior, degeneracy and looping”, Genetics and Criminal Behavior, David T. Wasserman e R. T. Wachbroit (eds.) (Cambridge University Press, 2001), 141-167. “The Making and

Molding of Child Abuse”, Critical Inquiry,…. “Façonner les gens: le seuïl de

pauvreté”,… L’ère du chiffre….

[3] Nas palestras de 2004-5 no site

did the BMI come from?” e “The Many faces of Autism”. [4] “Making Up People”, Reconstructing Individualism,… Esta palestra foi dada no outono de 1983. Reimpresso em minha Historical Ontology (Harvard…)…

Pretendo publicar parte deste material em inglês, sob os títulos “Where

[5] “The Looping Effects of Human Kinds”, D. Sperber,… Causal Cognition. An Inderdisciplinary Debate (Oxford…)… [6] “Making up People”, p. 23; reedição, p. 114. [7] Agradeço a Anna Carolina Regner de Porto Alegre por esta informação.