Você está na página 1de 31

INCESTO E ABUSO INCESTUOSO

Heleieth Safiotti Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais.

O incesto como violência Quando um homem e uma mulher adultos, capazes, portanto, de discernimento, se amam, devem decidir, ainda que sejam parentes consangüíneos ou afins, se vale a pena estabelecer e preservar a relação amorosa mesmo enfrentando a reação negativa da sociedade. Em havendo convergência de vontades, pode ser compensador desafiar as convenções sociais. Mais do que isto, se ambos se amam, nenhum pratica violência contra o outro. Ao contrário, estão presentes as condições para a realização do encontro amoroso. Obviamente, será necessária muita força para enfrentar sanções sociais negativas, já que a sociedade tudo fará para configurar o incesto como infração a uma norma sagrada e contrária à natureza, na medida em que a justificativa do interdito se tece em nome do sagrado e da biologia. Pessoas enquadradas nesta infração serão, com muita probabilidade, estigmatizadas, o mesmo podendo ocorrer com seus progênitos. Isto representa sofrimento ao qual muitos não conseguem resistir. Mas é bastante distinto das conseqüências geralmente provocadas pelo incesto numa relação díspar: desempenho sexual problemático, diluição da identidade, depressões, condutas destrutivas e autodestrutivas, psicoses, etc.

Para que ocorra a convergência de vontades, não basta a presença do amor e ou do desejo sexual. Faz-se necessário que a relação entre os membros do casal (e isto é válido também para casais homossexuais) seja igualitária ou par. Obviamente, este tipo de relação não pode existir entre uma garota e seu pai ou avô ou entre uma menina ou adolescente e seu tio, irmão ou primo muito mais velhos. A idade, em si mesma, não tem maior significado. Todavia, estatisticamente, as pessoas mais velhas, sobretudo no seio da família, desfrutam de ascendência sobre as mais jovens. Não se pode esquecer de que as sociedades em geral e a brasileira em particular são adultocêntricas. Isto equivale a dizer que os adultos dominam

em quaisquer circunstâncias, especialmente naquelas em que sua autoridade como donos da verdade é reforçada pela posição de mando que ocupam. Estão neste caso os parentes mencionados. É claro que podem existir relações díspares entre irmão e irmã, tio e sobrinha, primo e prima de idades semelhantes, como podem ocorrer relações pares nos casais referidos, mesmo que os homens tenham cinco ou seis anos de idade mais que as mulheres. Estatisticamente falando, contudo, esta hipótese é remota (Saffioti, 1991).

Quando a relação é díspar, não há convergência de vontades, mas a imposição da vontade de um sobre a vontade da outra. Aqui, mais uma vez, fala-se em termos estatísticos, já que em 93% dos casos as vítimas são do sexo feminino (Clarac & Bonnin, p. 141). Quando se afirma que há uma imposição de vontade - e esta é a regra, não a exceção - não se está figurando a vítima como passiva. Ao contrário, sobretudo no incesto, que costuma ser uma atividade continuada, estabelece-se uma relação de violência. Ora, isto significa dizer que a

violência se rotiniza (Saffioti et alii) e que, portanto, a vítima interage com o agressor no interior de uma relação violenta. Mesmo nos casos em que o assalto incestuoso ocorre uma única vez, a vítima reage mesmo quando, aparentemente, não esboça nenhuma atitude reativa. Evidentemente, os recursos de uma criança ou adolescente para reagir à agressão sexual de um adulto que, por sua posição na família, tem ascendência moral e intelectual em relação à vítima, são escassos se comparados aos das pessoas mais vividas. Não se pode, porém, esquecer que crianças e jovens não são bonecos de cera, incapazes de esboçar qualquer reação. Podem ficar petrificadas de medo e não repelirem a agressão, mas poderão expressar seu desagrado seja verbalmente, seja deixando de corresponder ao movimento sexo-genital do agressor. "As mulheres têm medo por causa do poder dos homens, em particular do marido, sobre elas e é este medo que conta na ideologia de justificação do

o medo", segundo esta autora, "engendra o não-

poder." (Mathieu, 1985, p. 194) "

conhecimento" (p. 223). Eis porque a consciência de dominada, mesmo tendo conhecimento dos fatos, apresenta-se fragmentada, contraditória, mais ou menos desestruturada.

A criança (menor de 18 anos), no entanto, pode ter outros tipos de reação, que

aparentemente representam consentimento, mas, na verdade, significam cessão, pois nestes casos "ceder não é consentir" (Mathieu, 1985). O consentimento pressupõe igualdade de condições entre os agentes do contrato. Ora, numa sociedade falocêntrica esta condição

básica está necessariamente ausente. "A violência física e a coerção material e mental constituem um espaço escuro na consciência. Uma ferida do espírito. Depois, se os golpes e

os estupros não são mais necessários a cada momento, isto não significa que as mulheres

'consintam'

De fato, a noção de consentimento implica uma visão de política no sentido

clássico, o modelo do contrato ou da 'representatividade', quer se trate de regimes

autoritários ou de democracias. E, certamente, é o modelo sobre o qual, muitas mulheres

em nossas sociedades, representam suas relações com os homens e com seus maridos. Mas

o que elas não vêem (são impedidas de ver) é que este, não é um contrato entre iguais. (Por

exemplo, elas acreditam casar-se com um indivíduo na mais perfeita complementaridade. Ora, que as mulheres devem ser mantidas inferiores aos homens e servi-los, servir aos 'grupos machos' como diz Freeman, elas o sabem e se lhes transmitem, em nossa sociedade,

como em outras, e, sobretudo, entre os jovens.).” “Elas acreditam, portanto, poder gozar de ”

(Mathieu, p. 228-9), quando a

uma delegação de autoridade e de uma liberdade pessoal

realidade é bem outra, pois a diferenciação entre os conceitos de violência e de consentimento integra o núcleo do discurso do dominante.

Há que se considerar, por outro lado, que crianças não são querubins. Ainda que sua sexualidade não seja genitalizada e, portanto, seja diferente da do adulto, seu corpo pode responder a carícias, excitando-se. Mais do que isto, pode ocorrer o prazer, seja como resposta a toques físicos sensuais, seja na relação sexual. O depoimento de uma vítima de abuso sexual de longa duração por parte de seu pai pode ajudar a compreensão deste fenômeno. No caso, a menina obtinha do pai tudo que queria e, em troca, prestava-lhe favores sexuais, os quais havia sido, forçosamente, habituada por ele desde criança. Seu depoimento ocorreu no momento em que acabava de conseguir do pai a promessa de que

lhe compraria um carro quando ela completasse 16 anos.

"Se eu era capaz de manipular circunstâncias de maneira a que elas me compensassem, talvez a culpa fosse toda minha. Ora, pelo menos, como poderia eu culpabilizar papai por tudo, se eu conseguia tudo que eu queria dele? Meu status como vítima era questionável. Para amenizar esta culpa eu decidi treinar-me para nunca receber satisfação sexual dele. Talvez eu estivesse usando a situação para minhas próprias finalidades, mas eu não podia apreciar nenhuma parte daquilo.

Para atingir este objetivo, eu retomei a masturbação, conduta que eu havia abandonado cerca de dois anos antes como um ato errado e vergonhoso. Se eu me satisfizesse, eu pensava, seria mais difícil que eu respondesse às carícias dele. Durante algum tempo isto funcionou bastante bem. Às vezes, entretanto, enquanto me masturbava, eu fantasiava uma relação sexual com papai e me tornava ainda mais abjeta aos meus olhos.

Quando ele e eu fazíamos sexo, eu tentava negar-me orgasmos, fazendo todo o possível

E eu também aprendi a simular orgasmos para

apressar o fim do episódio. Todavia, havia vezes em que eu sucumbia à sua estimulação e respondia autenticamente. Estas eram ocasiões para severa autoflagelação." (Brady, 1981, p. 81-2).

para ausentar-me do momento sexual. (

)

Como deixa claro esta longa transcrição, o interdito e o "consentimento", isto é, a cessão, constituem uma fonte inesgotável de culpa. Mais do que isto, a traição do corpo coloca a vítima na condição de co-participante ativa, o que a desloca, aos seus próprios olhos, da posição de vítima para a de agente. Os benefícios marginais que a criança retira de uma relação deste tipo, embora satisfaçam seus desejos imediatos, não compensam, pois, ao invés de a elevarem à posição de senhora da situação, constituem mais uma fonte profunda de culpa. Uma análise acurada dos fatos demonstra a fragilidade da criança face às estratégias de sedução do adulto e ao seu uso da ameaça ou da violência física propriamente dita. Eis porque se preferem denominar diferentemente os dois tipos referidos de relações incestuosas.

A grande diferença entre os dois tipos de incesto aqui descritos reside na convergência ou divergência de vontades. Esta questão das vontades, nem sempre coerentes com as pulsões sexuais, é tão nuclear que permite continuar denominando de incesto o primeiro caso, mas exige uma denominação distintiva no segundo caso, que poderia ser abuso incestuoso ou, para reforçar através da redundância, abuso sexual incestuoso ou ainda abuso sexual em família. Este último, quer se realize através do processo de sedução, quer pela ameaça ou uso da violência física, implica uma hierarquia entre as pessoas envolvidas: há uma que comanda e se beneficia da relação; há outra que obedece e sofre com a relação, embora possa ter benefícios secundários. Desta sorte, se trata de uma relação de dominação- exploração (Saffioti, 1987).

É evidente que não se pode utilizar uma noção estreita de exploração, ou seja, entender que este fenômeno ocorre apenas no terreno econômico. Rigorosamente, a exploração se dá sempre que uma pessoa retira benefícios de sua relação com outra pessoa, para permanecer no domínio do individual, embora no domínio coletivo o mesmo seja verdadeiro. Para explorar uma pessoa, é preciso dominá-la, vergando sua vontade. Não se trata, pois, de anular a vontade de outrem, como quer Chauí (1984), para caracterizar a violência. A vontade dominada para fins de exploração não é anulada, mas transitoriamente contida pela vontade dominante. Entre homens e mulheres, de um lado, e entre adultos e crianças, de outro, este entrechoque de vontades resulta em amplos esquemas de dominação-exploração, permeados por várias modalidades de violência: intelectual, emocional, física, sexual. Esta última, por ser a mais cruel delas, é capaz de conter todas as demais. O abuso sexual incestuoso, para encarnar inteiramente esta violência completa, não precisa se traduzir numa relação sexual. Basta uma tentativa, uma carícia nas partes pudendas, um roçar o corpo no corpo da outra, algumas palavras, até mesmo apenas um certo olhar de cobiça. Eva conta, ora na primeira, ora na terceira pessoa, a história de Marie, a menina que ela foi e que sofreu uma tentativa de estupro por parte de seu pai.

"Como continuar sendo filha daquele pai? Ele tomou e roubou a identidade que recebi dele ao nascer. Ele a tomou para sempre. A marca de ferro em brasa é isso. Minha filha, eu a marco pois nunca mais você poderá ser de um homem. Doravante, quando um homem se

aproximar, você já não terá vontade própria. A proximidade, o olhar, o desejo de um homem a farão desaparecer. Você será sempre seu objeto, sua boneca, sua puta. Ele poderá pegá-la e largá-la, depois de se ter servido de você. Faço de você uma escrava do homem, pois o medo a paralisará, você ficará fascinada pelo seu olhar. Você já não existe.”

Ele tinha matado o "eu" nela. Em seguida, ela vivera a impossibilidade de dizer "eu" diante

Estava dominada pelo desejo do outro. Então, algumas

vezes, para dar a si mesma a ilusão de dizer "eu", ela se oferecia. Oferecer-se era fazer acreditarem que era dona de seu nariz, que existia de fato, mas era mentira. Ela nadava na mentira. Tinha perdido todos os seus pontos de referência entre verdade e mentira diante do homem.

de um homem que a desejasse. (

)

Se ela tivesse encontrado, amado um proxeneta facilmente teria feito dela uma prostituta. Seu pai a tinha preparado para isso. Por essa razão, sem dúvida, cruzar o olhar dessas

Ela evitava as ruas onde pudesse encontrá-las, porque

mulheres lhe fazia tanto mal. (

essas mulheres, destruídas pelo homem em sua dignidade e identidade, lembravam-lhe a sua própria destruição. Seu pai a tinha matado. ( )

)

“Já não sei dizer não a um homem. Basta uma palavra, um olhar de autoridade para eu me tornar obediente, dócil, submissa. Sou prisioneira do desejo do Outro, presa fácil, sem defesa.”

Você pode não ter violado o meu sexo, mas violou a minha alma, o meu espírito. Roubou- me de mim mesma, quebrou todos os meus sonhos de mocinha nova, pura, e me precipitou no inferno por longos anos. Transgrediu uma interdição, eu transgrido uma outra, transgrido a lei do silêncio para reencontrar o meu "eu", que você me roubou no silêncio de uma noite. Não tenho outra arma a não ser a minha palavra reencontrada, uma palavra nua." (Thomas, 1988, p. 23-4; 144; 73-4).

As identidades sociais - de gênero, de etnia e de classe social - não se diluem neste processo de brutal violência, onde já não se distinguem a pulsão sexual e a pulsão de morte. Marie

continua pertencendo ao gênero feminino, sentindo-se mulher. Mas sua identidade singular, seu "eu" individual denominado Marie, suas idiossincrasias, que a levavam a dizer sim em algumas situações e não em outras, dissolveram-se no quadro da violação de direitos fundamentais, como a integridade física, emocional, moral e intelectual (Rouyer & Drouet,

1986).

No verdadeiro incesto, já que duas vontades se somam para a realização de atos amorosos, não se violam direitos. No abuso sexual incestuoso, ao contrário, existe sempre o desrespeito, a desconsideração, a violação de direitos, enfim, a violência em suas várias formas de manifestação concreta. A atitude do agressor sexual visa ao seu próprio benefício, ao seu conforto, à satisfação de seus desejos sexuais e ou de poder. Como o gênero constitui um eixo ao longo do qual o poder é distribuído/exercido, o acesso dos homens a ele é muito maior que o das mulheres. Isto não significa que estas últimas não o exercem, sobretudo no plano micro. No cômputo geral, todavia, o poder transita muito mais pelo gênero masculino que pelo feminino (Foucault, 1977, 1981; Saffioti, 1992; Saffioti et alii, 1992; Saffioti e Almeida, 1992).

Durante a realização da pesquisa A transgressão do tabu do incesto, a investigadora preocupou-se muito em distinguir o desejo sexual do desejo de exercer poder. Hoje, sua perspectiva é outra: talvez não seja possível distinguir estes dois desejos nas sociedades androcêntricas. Eles parecem mesclados da mesma maneira como a pulsão sexual e a pulsão de morte. Em outros termos, mistura-se numa só atitude - a necessidade de possuir uma criança, mesmo sendo filha - o desejo de fazer sexo com o desejo de praticar violência, como forma de reafirmar a supremacia masculina. Antes de ir para as ruas, a violência está nas residências, sendo praticada contra membros da mesma família. A violência constitui a forma mais fundamental de regulamentação das relações entre os gêneros na sociedade ditas civilizadas, aí incluída a brasileira.

Assim, as mulheres são dominadas pelos homens, especialmente através da violência. A violência que as mulheres perpetram contra as crianças não serve senão para reafirmar o poder dos homens. Por delegação destes, elas defendem os interesses patriarcais e viriarcais

no espaço doméstico, sobretudo na ausência dos homens (Mathieu, 1985; Welzer-Lang, 1991). Presentes estes, porém, ou cessa a delegação ou há uma divisão de autoridade, permanecendo o direito à última palavra com o homem. Desta forma, o homem domina a

mulher e as crianças da família. Mais do que isto, julga-se detentor do direito de posse de todas as fêmeas da família, comportando-se, muitas vezes, concretamente enquanto tal: "A violência é masculina, pois os homens individualmente e coletivamente definem suas

regras. O poder é atualmente masculino, patriarcal e viriarcal. (

doméstica) define o quadro social, afetivo, sexuado no qual, da pequena infância à vida

adulta, homens e mulheres vivem suas relações cotidianas. (

doméstica é o instrumento particular que permite a cada homem, a priori, poder gozar de privilégios específicos conferidos pelo grupo dos homens a cada um, marido ou pai, independentemente de seu lugar nas relações sociais de produção." (Welzer-Lang, p. 277-8)

A violência masculina

Ela (a violência

)

)

Qualquer que seja o sexo anatômico da pessoa que domina no cenário doméstico, o poder discricionariamente exercido, ou seja, a violência doméstica é masculino. O poder do homem face às mulheres e às crianças, particularmente do sexo feminino, não conhece limites neste espaço pontiagudo que é o doméstico, nem neste grupo perigoso que é a família. Os homens são treinados para comandar estas categorias sociais e não as temem. Isto não significa que os homens não conhecem o medo. Eles sentem medo de outros homens. Disto se conclui que quem fixa os limites para a violência praticada pelos homens são outros homens, nunca mulheres.

Não seria a partir deste registro que os prisioneiros instituíram a prática do estupro do recém-chegado violador de mulheres ou, pior ainda, de crianças? Trata-se, parece, das regras de delimitação de territórios. O estuprador invade territórios alheios, interrompendo o fluxo das trocas, para evocar a literatura antropológica utilizada no primeiro capítulo. Como cabe aos homens, meramente pelo fato de serem homens, estabelecerem as regras de convívio entre as categorias de sexo, a infração de qualquer lei disciplinando a "apropriação" de mulheres merece punições prescritas e ou perpetradas por homens. Os homens são ensinados desde o nascimento a desfrutar dos privilégios que lhe confere a ordem patriarcal e viriarcal, não respeitando senão o poder de outros homens. No abuso

sexual tout court e no incestuoso, verifica-se uma ruptura da legalidade masculina. Mas, se o criminoso não for detido, não sofrerá nem as penas da lei nem a justiça feita por aqueles que se sentiram ameaçados em seus direitos sobre as mulheres.

Por outro lado, o abuso sexual intrafamiliar pode ser insulado e, portanto, ocultado da sociedade. Seja através de ameaças, seja pelo jogo da sedução, o homem estabelece o segredo entre a criança e si próprio, de modo a impedir que os fatos alcancem o conhecimento dos outros membros da família e do público. O segredo constitui verdadeira prisão para a vítima, que se sente privilegiada por compartilhá-lo com o adulto investido de autoridade, daí derivando seja o medo de não ser acreditada se o revelar a outrem, seja o receio de magoar sua mãe e perder seu amor, seja ainda o profundo temor de que as ameaças do agressor se concretizem (matar a mãe e ou os irmãos, por exemplo). A literatura especializada é farta em análises do segredo, estratégia do adulto para continuar se aproveitando dos contactos sexuais com a criança e mantê-la aprisionada à relação incestuosa. (Rush, 1980; Francis, 1967; Gallop, 1983; Finkelhor, 1983; Bass & Thornton, 1985; Feminist Review, 1988; Nelson, 1988; Hill, 1985; Butler, 1979; La Fontaine, 1990; Russell, 1986)

O estabelecimento do segredo permite que o abuso sexual continue ignorado em sua real magnitude, como também que este tipo de violência masculina siga grassando impunemente em famílias de qualquer classe social e etnia. Como as mulheres são ensinadas a obedecer e a suportar toda sorte de violência masculina, são as maiores vítimas de abuso sexual, atinja ele o estupro ou não. Rigorosamente, o abuso sexual e o medo que lhe corresponde integram o processo de socialização feminina, passando a constituir uma peça importante da própria vida das mulheres. "A ideologia do estupro consiste na atitude e na prática que mantém as mulheres em um estado de medo e de dependência isolada em relação aos homens, tanto no lar quanto fora dele. Há uma 'generalidade' na violação das filhas pelos pais, porque cada filha está sozinha em seu corpo de mulher e cada pai tem a sanção positiva das atitudes relativas à supremacia do homem, supremacia esta, que prevê o uso do sexo como poder sobre as fêmeas, onde e quando ele puder. O fato de que alguns pais estupram filhas sob seus cuidados e de que outros não o fazem, constitui um fator

capaz de emprestar credibilidade à assustadora cegueira da sociedade, que evita, até

mesmo, considerar o assunto como 'geral, universal'. (

são as principais vítimas desta imensa cegueira. Vítimas da estrutura da família, elas são, também, vítimas da extrema dependência econômica, física, social e legal das crianças; e do violento nexo entre poder e sexo, o instrumento de estupro, pelo qual, mulheres e meninas são controladas na sociedade falocêntrica.” (Ward, 1985, p. 94-5). Acrescente-se a isto a diferenciação da ideologia do estupro quando se trata de relação pai-filha: o agressor é quase sempre perdoado, enquanto a filha e sua mãe são culpabilizadas.

As meninas estupradas pelo pai

)

As estatísticas internacionais apontam, no máximo, cerca de 10% de meninos dentre as vítimas de violência sexual. Isto é, para cada menino sexualmente vitimizado existem nove ou mais meninas nas mesmas circunstâncias. Dado o androcentrismo das sociedades, é bastante provável que um bom número de garotos sexualmente molestados não apareça nas estatísticas. De qualquer forma, o resultado de quase dez meninas vítimas de abuso sexual para cada menino nas mesmas condições, em várias investigações, leva à conclusão de que as crianças do sexo feminino estão muito mais sujeitas a este tipo de violência. Agregue-se ainda o fato (nem é preciso invocar Freud, pois já faz parte do inconsciente coletivo) de que o uso sexual de um garoto por um adulto simboliza a castração do primeiro, porquanto ele é transformado em uma "mulherzinha". Na pesquisa realizada em São Paulo, um médico que atendeu uma garota grávida de seu pai, expressou seu ódio contra o agressor, desejando que ele fosse transformado em uma "mulherzinha", na prisão, como relata Saffioti (1992).

Assim, a violência doméstica não é gender-free, ou seja, ela tem gênero. A rigor, ela tem um gênero quando se toma seu agente - gênero masculino - e tem outro gênero quando se toma sua vítima - o gênero feminino. Não se pode responsabilizar exclusivamente a estrutura familiar por esta situação, uma vez que a organização social de gênero, onipresente em todas as relações sociais, recobre a sociedade por inteiro. Dê-se a ela o nome de patriarcado, de viriarcado, de falocracia, o fato é que ela garante a supremacia masculina sobre as mulheres, assegurando aos homens ampla impunidade quando eles extrapolam os limites fixados pelas próprias leis androcêntricas.

Enquanto sistema político que distribui desigualmente o poder, o gênero consubstancia-se num conjunto de leis com pretensão à objetividade. A dominação-exploração das mulheres pelos homens é, assim, traduzida pela pretensa imparcialidade do governo das leis. Ora, o Estado liberal é masculino, na medida em que homens tomam decisões de alcance geral, englobando toda a população ou certas categorias de pessoas como, por exemplo, as mulheres. Não se nega o fato de que mulheres participam do Estado. Ressalta-se, porém, que elas ou não desfrutam de capacidade decisória, ou ratificam posições androcêntricas, por possuírem consciência de dominada. É muito recente a conquista de alguns espaços de autonomia para mulheres, no seio do Estado. Estas já podem, por exemplo, formular políticas públicas endereçadas à população feminina, não tendo ainda conquistado o direito de implementá-las. Ora, se de sua aplicação fica encarregado o Estado e este consiste em um aparelho de viés notoriamente masculino, o conteúdo de tais políticas acaba por sofrer distorções (Saffioti & Almeida, 1992).

O Estado camufla o governo dos homens, apresentando-o como governo das leis. Estas leis são tidas como derivadas de enfoques absolutamente objetivos dos problemas sociais. Seu caráter abstrato, ou melhor, a lei como garantia de direitos abstratos é inteiramente inócua como política de redução de desigualdades entre as categorias de gênero. Ocorre, ainda, que tal "objetividade" não representa senão a perspectiva masculina, ou seja, daqueles que tentam, de todas as formas, preservar o status quo falocêntrico. "A assunção onipresente de que as condições características dos homens na base do gênero aplicam-se também às mulheres, isto é, a assunção de que a desigualdade de sexo não existe de fato na sociedade, é fundante desta neutralidade." (MacKinnon, 1989, p. 163).

A óptica masculina travestida de objetividade garante no plano de jure as desigualdades que, ao nível de facto, existem entre homens e mulheres. Se os homens, cuja consciência de gênero dominante é aguda, distribuem privilégios e obrigações através de um conjunto abstrato de leis, é óbvio que as mulheres, cuja discriminação se dá em toda a sociedade civil, não são beneficiadas, na medida em que esta mesma sociedade civil não é atingida pelas garantias legais. Desta sorte, as chamadas leis protetoras da mulher não fazem senão acentuar diferenças transformadas em desigualdades entre homens e mulheres. Embora não

haja pesquisa isolando a variável maior duração da licença maternidade como determinante do aumento abusivo de esterilizações de mulheres, há veementes indícios de que aquela medida tenha contribuído grandemente para tais mutilações. A proteção legal não estaria, assim, reforçando a discriminação contra a mulher?

Para que esta incorporação das desigualdades sociais de facto seja feita no sistema de jure,

é necessário coibir exageros. Assim, se um homem se revela um estuprador contumaz, tanto

de mulheres estranhas quanto de parentas, deve ser punido de acordo com a lei. Se, entretanto, vive maritalmente com sua filha, tendo filhos com ela, pode, dependendo de certas circunstâncias, ser mantido em liberdade, uma vez que o incesto em si, como se verá mais adiante, não constitui crime. Não é raro ouvirem-se, de pais incestuosos sem cultura, o seguinte discurso:

"Doutora, eu tive que trabaiá tanto pra criá essa fia, que eu não vô dá ela pra nenhum malandro judiá. Ela é minha. Tá tudo certo, fui eu que criei. A única coisa que eu não sei é se eu registro as crianças como fio o como neto." (Pai favelado, fora do universo empírico da pesquisa, vivendo maritalmente com a filha adolescente, com a qual já tinha duas crianças.)

Este breve discurso mostra como o sistema legal não alcança a sociedade civil, no que

tange à violência cotidianamente exercida pelos homens contra as mulheres. A lei considera

o espaço privado como o espaço da liberdade pessoal e, realmente, ele o é para o homem.

Para a mulher, todavia, o espaço privado é a esfera da subordinação, da obediência, da servidão. Mais do que isto, a esfera doméstica, onde deveria haver lugar para a privacidade, constitui, para a mulher, o espaço do abuso da intimidade, da humilhação, da dissolução da identidade singular. Nela a mulher não encontra nem liberdade nem possibilidade de se afirmar enquanto pessoa. Este fenômeno tem gênero, pois é quase sempre a mulher a pessoa dominada-explorada, inclusive sexualmente. "Os homens culpados de estupro têm consciência de ser homens, verdadeiros homens, não "mulherzinhas" ou homens que não têm esta consciência." (Welzer-Lang, p. 279). Como se pode facilmente observar, expressar

a violência através do exercício da sexualidade constitui um verdadeiro instrumento de

reforço do poder masculino. É importante frisar que não é a sexualidade que se expressa através da violência, mas, ao contrário, esta que se exprime através da primeira. Há múltiplas evidências de que a pulsão sexual e a pulsão de morte caminham juntas nas sociedades falocráticas.

Se a organização de gênero é responsável por, pelo menos, uma grande parte da violência específica que os homens perpetram contra as mulheres, por que a maioria das pessoas não tem consciência disto? O gênero está envolto em uma nebulosa de falácias. Embora nenhum(a) pesquisador(a) tenha, até o presente, conseguido descobrir e traçar o perfil do agressor físico e ou sexual, há um mito que o caricatura como monstro, doente, alcoólatra, membro das camadas pobres, incapaz de controlar seus impulsos quando sob o efeito do estresse, portador de uma sexualidade incontrolável. Na verdade, estas crenças não correspondem à realidade cotidiana, o que dificulta extremamente o estudo da violência doméstica, aí incluído o abuso sexual incestuoso.

O excesso de álcool diminui a censura, permitindo ao indivíduo expressar o que traz dentro de si. Nem todos os alcoólatras são violentos e nem todos os homens violentos são alcoólatras. Pesquisas demonstram que apenas 2.0% dos homens violentos apresentam distúrbios mentais. O estresse pode desencadear um processo de violência gestada anteriormente, mas não gerar violência. Homens violentos estão democraticamente distribuídos pelas diferentes classes sociais, sendo mais visível a violência praticada por pobres, cujos recursos para ocultá-la são escassos. Várias pesquisas revelam que agressores sexuais desempenham as mais variadas ocupações (Ward, 1985).

Resta examinar um elemento do mito: a incontrolabilidade das pulsões sexuais. Diferentemente do estupro perpetrado na rua ou em outros lugares públicos, o abuso sexual incestuoso tende a perdurar, às vezes, por muitos anos. As pessoas envolvidas têm contactos sociais cotidianamente, ou seja, a criança está permanentemente ao alcance do agressor. Ademais, o abuso não pode ocorrer diante de outros membros da família, especialmente da mãe. Logo, não pode ser deixado ao acaso da emergência do desejo sexual. Deve, então, ser planejado para acontecer quando a mãe está hospitalizada,

viajando, trabalhando fora do lar, fazendo compras, dormindo, etc. Ora, como acreditar em uma sexualidade incontrolável, se muitos abusos sexuais incestuosos duram sete, oito anos, antes de serem descobertos? Como desenvolver atividades clandestinas, mormente sexuais, se tudo não estiver planejado?

O mito do homem violento como uma criatura excepcional tem servido para ocultar as verdadeiras normas que regulam as relações sociais entre, de um lado, os machos e, de outro, mulheres e crianças. Agregue-se, ainda, que a família figura, na ideologia, como um ninho de amor e não como um grupo onde há hierarquias, desigualdades, luta pelo poder, que de fato é. Na esteira desta ideologia tão difundida, radica-se a idéia de que o perigo reside fora de casa, ocorre longe dos olhos da família, situa-se no espaço público. Na verdade, pelo menos potencialmente, o perigo está presente em todas as famílias: brancas ou negras, ricas ou pobres, cultas ou ignorantes. Todas elas são regidas pelo poder do macho. Alguns dados poderão auxiliar a compreensão deste fenômeno: 99% dos estupradores de crianças são homens; 93% das vítimas são do sexo feminino. Os estupros incestuosos ocorrem, com freqüência, primeiro contra a filha mais velha, depois contra a segunda e assim sucessivamente até a vitimização de todas as meninas da mesma família. A pesquisa em São Paulo encontrou um caso de um pai que vitimizou sexualmente uma enteada e três filhas. A enteada e uma das filhas estão grávidas.

Diferentemente do que se pensa, a adolescência não constitui a idade preferida pelos agressores sexuais, pois a incidência maior de estupros incestuosos situa-se na faixa dos 8 aos 12 anos. Entre 32% e 46% do contingente de menores de 15 anos são vítimas de agressão sexual. Isto significa que pelo menos um terço destas crianças é sexualmente vitimizado. Um quarto das meninas sofre abuso sexual antes de completarem 13 anos de idade. Estima-se que somente entre 5% e 15% dos agressores sexuais de crianças situam-se fora do círculo familiar. Dentre os agressores de crianças, 72% são seus pais. Das crianças agredidas, pelo menos 10% não haviam atingido a idade de 5 anos. Um quinto das meninas é vítima de agressão sexual cometida por um familiar (Clarac & Bonnin, p. 141-2).

A família constitui, assim, um agrupamento perigoso para mulheres e crianças, categorias

socialmente subalternizadas nas sociedades falocêntricas. Obviamente, as raízes da

violência não podem ser encontradas na instituição da família, mas deve ser buscada, como

se tentou mostrar, na organização social de gênero. Este tipo de família decorre exatamente

da conversão das diferenças entre os gêneros em desigualdades (Saffioti, 1992a). Há, pois, que transformar as categorias de sexo em socialmente iguais para que as diferenças possam ser prazerosamente vividas. Simultaneamente, mas sem automatismos e com muita luta, transformar-se-ão a família e o Estado. Este só poderá ser equânime se contiver ambas as ópticas: a masculina e a feminina. Só assim as políticas de discriminação positiva poderão surtir o efeito desejado. Só assim as leis deixarão de regular direitos e deveres abstratos para incidir sobre as situações de fato e reparar as múltiplas discriminações de que são alvos as mulheres de todas as idades e crianças do sexo masculino. Dadas às diferenças de perspectivas entre os gêneros, este alvo só pode ser atingido se as mulheres passarem, não apenas a participar do processo legislativo, mas também da aplicação das leis.

Incesto: Leis e fatos

O Código Penal brasileiro (CP) não contempla o incesto enquanto tipo penal. Os crimes de

natureza sexual, no Brasil, embora tenham conseqüências deletérias para a saúde do corpo e da alma da vítima, não são considerados crimes contra a pessoa, mas contra os costumes. Do artigo 213 ao 220, são tipificados os seguintes crimes: estupro, atentado violento ao pudor, posse sexual mediante fraude, sedução, corrupção de menores, rapto violento ou mediante fraude e rapto consensual. O estupro só admite penetração vaginal, única prática compreendida pela expressão "conjunção carnal", presente no tipo penal. Se a penetração for oral ou anal não se configura o estupro, mas o atentado violento ao pudor. Até 25/07/90, quando foi sancionada a Lei nº 8.072, a desclassificação do crime do artigo 213 para o 214 significava redução de pena. Com este novo dispositivo legal, ambos os crimes são considerados hediondos, não apenas se ampliando a pena, mas ainda perdendo seu perpetrador as seguintes regalias: I. anistia, graça e indulto; II. fiança e liberdade provisória, assim como regime aberto para cumprimento da pena.

São altamente questionáveis as conseqüências desta lei. Endurecimento na punição, ao que indicam os dados mundiais, parece não alcançar o objetivo de redução da criminalidade. O grande drama brasileiro no que tange ao crime, especialmente, aos sexuais, consiste na impunidade. Chega à polícia um percentual muito pequeno dos crimes cometidos contra mulheres e crianças, sobretudo os de natureza sexual. Só uma proporção ínfima destes alcançam os tribunais. Embora sobre crimes sexuais não haja dados disponíveis, pode-se fazer uma idéia da precariedade dos registros, transformação de inquéritos policiais em processos criminais e punição dos culpados através do exame de informações parciais a respeito de violência doméstica contra a mulher. De acordo com estimativa de Rosemary Corrêa, primeira delegada da primeira Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher de São Paulo, cerca de 40% dos crimes cometidos no interior da família vão a julgamento. A titular de uma Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher do Rio de Janeiro declarou que dos 2.000 casos de espancamentos de mulheres por ela investigados em 1990 não resultou nenhuma punição dos acusados. Das mais de 4.000 queixas de mulheres registradas na principal delegacia de São Luís, Maranhão, no período 1988-1990, somente três centenas transformaram-se em processos judiciais, havendo apenas dois agressores sido condenados e presos. (AMERICAS WATCH, 1992) A impunidade configura-se, desta forma, como uma premiação aos homens violentos, sendo responsável, seguramente, por uma grande parcela de reincidência.

A postura aqui assumida consiste na defesa da apuração dos fatos e punição dos julgados culpados de qualquer tipo de violência doméstica, excluindo a hipótese de aumento de pena. Aliás, em matéria de violência doméstica, valem mais uma pena alternativa, já que a reclusão do agressor pode privar a família de seu sustento, e uma boa reeducação. Seguindo a distinção aqui feita entre incesto (convergência de vontades) e abuso sexual incestuoso (imposição de uma vontade sobre outra), defende-se a criminalização apenas da segunda prática. Esta está contemplada no CP através da presunção de violência, capitulada no artigo 224, se a vítima tiver idade inferior a 14 anos e através do artigo 226, inciso II, que aumenta de um quarto a pena "se o agente é ascendente, pai adotivo, padrasto, irmão, tutor, ou curador, preceptor ou empregador da vítima ou por qualquer outro título tem autoridade sobre ela".

Como se vê, o irmão é colocado no mesmo nível de autoridade que o pai biológico ou social, sem nenhuma referência à diferença de idade entre ele e sua irmã. Ainda que a diferença de seis ou mais anos entre as idades do agressor e de sua vítima (parâmetro mundial) seja um indicador grosseiro da existência de uma relação assimétrica, constitui, sem dúvida, um indício a ser investigado. O CP, todavia, não estabelece diferenciações e nem poderia fazê-lo, dada sua antigüidade. Cabe chamar a atenção para a desproteção da menina maior de 14 e menor de 18 anos, período da vida em que a lei não estabelece a presunção de violência. A prova de que houve abuso, como se sabe, é extremamente difícil. Atente-se para o fato de que a participação da vítima não exclui a hipótese de abuso, de acordo com a postura aqui assumida. A mulher, com sua consciência de dominada, pode não apenas ceder às investidas do agressor como considerá-las verdadeiros encômios, em certos momentos. Dada a socialização da mulher no papel da caça no jogo caça/caçador, ela tende a se sentir gratificada com a abordagem masculina amorosa, mesmo quando este sentimento é vivido mesclado com repulsa por se tratar de homem sobre quem recai o interdito do incesto. Eis porque é extremamente complexa a questão da apuração das responsabilidades por profissionais da polícia e da justiça, inteiramente desprovidos de qualquer preparo intelectual sobre organização social de gênero.

Uma proposta de reforma do CP, elaborada pelas advogadas feministas Ester Kosovsky, Luiza Nagib Eluf e Silvia Pimentel, prevê mudança substancial no crime de estupro, que passaria a não se referir apenas à penetração vaginal compreendida na expressão "conjunção carnal", mas englobaria também a penetração oral e a anal. A favor desta propositura há o argumento de que estas duas últimas formas de penetração são mais graves do que as práticas usualmente compreendidas pela sociedade como atentado violento ao pudor. Embora pareça justo diferenciá-las de outros atos libidinosos, a introdução destes dois tipos de penetração no tipo penal estupro torna este crime possível para vítimas masculinas. A referida proposta reúne os crimes capitulados nos artigos 213 e 214:

Estupro e atentado violento ao pudor

"Constranger alguém a praticar relação sexual, mediante violência ou grave ameaça:

Pena - reclusão de 6 (seis) a 10 (dez) anos. Parágrafo único - Considera-se relação sexual o coito vaginal, anal, ou oral."

A proposta envolve a supressão de todos os artigos deste capítulo do CP, exceção feita

daqueles que modifica, como se verá a seguir. No crime de corrupção de menores, a idade destes é elevada para 18 anos.

O artigo 225 passa a ter a seguinte redação:

"Nos crimes definidos nos capítulos anteriores, a ação do Ministério Público depende de representação do ofendido. Parágrafo único - Procede-se, entretanto, mediante ação penal pública, independente de representação, se o crime é cometido com abuso de autoridade advinda de vínculos familiares, consangüíneos ou não, ou advinda da tutela ou da curatela."

O artigo 226 fica alterado para:

"A pena é aumentada:

I - de quarta parte, se o crime é cometido com o concurso de duas ou mais pessoas;

II - de metade, se o agente é ascendente, pai ou mãe adotivos, padrasto ou madrasta, tio,

irmão, tutor, curador, preceptor, ou empregador da vítima, ou pessoa que, por qualquer outro título, tenha autoridade sobre ela."

Introduziram-se, com base na experiência da pesquisadora, os seguintes tipos penais novos:

"Estupro incestuoso Constranger alguém a praticar relação sexual - vaginal, anal ou oral - mediante violência ou grave ameaça, abusando de autoridade advinda de vínculos familiares:

Pena - reclusão de 8 (oito) a 12 (doze) anos. Abuso sexual incestuoso Constranger alguém se submeter à prática de ato de natureza libidinosa diverso da relação sexual, abusando de autoridade advinda de vínculos familiares:

Pena - reclusão de 1 (um) a 6 (seis) anos."

Argumenta-se, em geral, que o estupro só pode ser praticado contra a mulher (conjunção carnal) em virtude de sua capacidade reprodutiva. Efetivamente, só são legais no Brasil

dois tipos de aborto: quando a gravidez põe em risco a vida da gestante e quando resulta de estupro (art. 128 do CP). Enquanto não se ampliarem as possibilidades de aborto legal no país, ele estará vinculado à questão da vida e sua reprodução. Mas, se houver um processo

de

liberalização, o conceito de aborto poderá ser alterado e, com ele, a noção de estupro.

O

abuso sexual incestuoso traduz-se por um número infinito de formas. Aquelas que,

aparentemente, são inócuas do ponto de vista do trauma podem ser vividas com extremas ansiedade e angústia, resultando em somatizações que não se apresentam somente enquanto

dura o abuso, mas que perduram por longos anos e, às vezes, por toda a vida da vítima. Já

se ressaltou o peso do tabu do incesto na maneira como se vive uma relação amorosa. No

caso do abuso incestuoso, este peso é muito maior, dada à divergência de vontades ou a incapacidade da vítima de discernir, pelo menos no início, entre as carícias que traduzem ternura e as que visam a um relacionamento genitalizado.

Não se trata de defender posições moralistas, mas de proteger categorias socialmente fragilizadas pela assimetria das relações de gênero, como são as mulheres em qualquer etapa da vida e as crianças também do sexo masculino, embora em menor escala. Trata-se, também, de se fazer uma releitura dos direitos humanos, para pôr-se a nu a raiz política da violência doméstica e contra as mulheres em qualquer lugar, visando ao controle de seu corpo e, especificamente de sua sexualidade. (Bunch, 1991) Como a violência masculina não deriva da natureza, mas é socialmente construída, é possível desconstruí-la, estabelecendo-se relações simétricas de gênero. A releitura dos direitos humanos, incorporando-se a óptica de gênero, significa assegurar igualmente o espaço da diferença e o espaço da igualdade. Quando homens e mulheres puderem, não obstante suas numerosas

diferenças, tratar-se reciprocamente como iguais, ter-se-á desconstruído a presente e iníqua organização social de gênero. "Concebemos a igualdade como o respeito e o

reconhecimento das diferenças, não como a possibilidade de sermos iguais a

o paradigma

do humano'. Considero que se a comunidade internacional deseja, verdadeiramente, promover o respeito pelos Direitos Humanos, deve buscar maneiras de eliminar a

subordinação da mulher e promover a igualdade dos sexos, não "elevando" a mulher à condição de homem, mas procurando reconceituar os princípios fundamentais em que se baseiam os Direitos Humanos. Deve também aceitar que a "humanização" da mulher não é um projeto secundário que se pode conseguir tão logo se eliminem outras imperfeições como a exploração de classe, o racismo, a guerra, etc., mantendo com esta atitude a milenar subordinação da mulher a outros projetos revolucionários, produto da concepção que estes mesmos revolucionários têm do valor da mulher como subordinada. Da "humanização" da mulher depende a "humanização" do homem, porque enquanto a mulher não for humana, o significado de "humano" continuará sendo parcial." (Facio, 1991, p. 121 e 133).

Tem razão Facio de cobrar da comunidade global, representada pelos organismos internacionais, uma releitura dos Direitos Humanos na óptica do gênero. A Declaração Universal dos Direitos Humanos não contempla nenhuma especificidade feminina. É verdade que o véu existente sobre a violência doméstica começou a ser levantado depois que as feministas se puseram a estudá-la, o que ocorreu há cerca de dois decênios. É verdade também que a ONU conhece sobejamente o fenômeno, sabendo inclusive que, quase sempre, o agressor é o homem e que as raras vezes em que a mulher figura como agente da violência é em legítima defesa, sendo este comportamento não repetitivo. Ou seja, o homem reitera seus atos violentos, enquanto a mulher pode agredi-lo para se defender, mas não tende a reproduzir este tipo de conduta. (UN, 1989)

Quanto à análise da violência sexual contra crianças no contexto das relações de gênero, teve início mais recentemente. Embora já se conte com um acervo considerável de conhecimentos, os estudos incidem sobre universos empíricos restritos e os casos não são selecionados aleatoriamente. Este fato, de difícil superação, repercute negativamente nas estatísticas globais.

Na década de 70, exerceu-se muita pressão sobre os organismos internacionais, daí derivando a aprovação, a 18/12/1979, por parte da Assembléia Geral da ONU, da Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. A 01/03/1980, a Convenção foi aberta à assinatura dos países, tendo entrado em vigência a

03/09/1981. Quase uma centena (93) de países já haviam, até maio de 1987, aceitado adotá- la, seja por ratificação, seja por adesão, de forma obrigatória e não facultativa, inclusive o Brasil. Não obstante representar esta Convenção um enorme passo na releitura dos direitos humanos das mulheres, não há um só item sobre a violência doméstica que, como mostra muito bem Welzer-Lang (1991), constitui a forma mais fundamental de violência, uma vez que é perpetrada cotidianamente para reafirmar o poder do macho sobre mulheres e crianças. A reiteração diária desta violência não-punida reforça a crença na masculinidade enquanto força bruta. Obviamente, este fenômeno acaba por extravasar o âmbito da família. O efeito da violência doméstica seja física ou sexual, não é, na vítima, o mesmo de atos violentos praticados extrafamiliarmente. Estes são esporádicos, não gerando na vítima o hábito de obedecer. O abuso sexual continuado, característico da violência intrafamiliar, produz a submissão da mulher ao homem no que a pessoa tem de mais íntimo: sua sexualidade.

Talvez não seja exagero afirmar que, de uma forma ou outra, todas as mulheres são vítimas de abuso sexual, podendo este variar desde um olhar que desnuda, passando por um roçar "distraído" da mão do agressor no corpo da vítima e chegando a formas mais fortemente constrangedoras, como o estupro. Em pesquisa realizada por Kelly (1988), foram entrevistadas 60 mulheres, às quais se perguntou se antes dos 16 anos elas haviam tido experiências que elas houvessem considerado sexualmente abusivas, tendo-se verificado que 89% delas estavam neste caso. Quase dois terços destas haviam sofrido dois ou mais abusos sexuais. A pesquisa de Gordon (1988a), na década de 80, nas agências de proteção à criança de Boston, revelou que 10% da violência familiar conhecida continham incestos. Russell & Howell (1983) executaram uma pesquisa em San Francisco, Estados Unidos, com 930 mulheres. Destas, 44% haviam sofrido estupro pelo menos uma vez e, a metade delas, haviam vivido o estupro, concretamente, mais de uma vez. As mulheres têm 44% de probabilidade de serem vítimas de violação sexual ou tentativa de estupro, sendo de 26% a chance de um estupro efetivar-se. Obviamente, as cifras aqui expostas estão aquém da violência sexual praticada no seio da família, pois em torno dela se forma uma verdadeira conspiração do silêncio. (Butler, 1979) Muitos outros dados subestimam o fenômeno. Neste ano, conversando com uma professora norte-americana, a autora inteirou-se de que nos

Estados Unidos já se desvelou que em 30% das famílias ocorrem abusos sexuais de crianças. Embora este percentual seja gigantesco, ainda está aquém do real, na medida em que, um número ignorado de práticas sexuais abusivas continua invisível.

"Sem pressão de feministas, o incesto reapareceu (na literatura) como neutro do ponto de vista do gênero. De fato, a própria classificação de todas as formas de atividade sexual

intrafamiliar como incesto obscurece os significados destes comportamentos. Por exemplo, a atividade sexual entre irmãos ou sexo entre outros parentes de idades semelhantes é extremamente comum, difícil de identificar e não necessariamente abusivo. O incesto mãe- filho(a) é extremamente raro e, de acordo com meus achados, mais freqüentemente que no incesto pai-filho(a) associado com doença mental do adulto: contrastantemente, pais incestuosos têm perfis extremamente `normais'. Mesmo assim, muitos especialistas em

o mais perigoso

abuso de crianças ignoraram as diferenças de gênero, nos anos 70. (

lugar para crianças é o lar, o agressor mais provável, o pai." (Gordon, 1988a, p. 61).

)

A Constituição Federal de 1988 consagrou o capítulo VII à família, à criança, ao

adolescente e ao idoso. Lê-se no caput do artigo 226: "A família, base da sociedade, tem

especial atenção do Estado". O parágrafo 8º deste artigo reza: "O Estado assegurará assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações".

De acordo com o texto da carta magna, já se passou o tempo em que "em briga de marido e

mulher não se mete a colher". Todavia, a maioria esmagadora da população ignora que o Estado não apenas pode, mas deve intervir na família para garantir a harmonia das relações de seus membros. Até a própria polícia, em tese garantidora da ordem, ignora a

Constituição, considerando as violências intrafamiliares de qualquer espécie como "assunto

de família", isto é, da alçada privada. Como já se mostrou, nesta chamada esfera privada,

não existe, muitas vezes, privacidade, pois os corpos e mentes sofrem invasões agressivas, cujas seqüelas são imprevisíveis. Mesmo que não houvesse conseqüências, em longo prazo,

deletérias para a vítima, as perturbações causadas pelo abuso sexual incestuoso enquanto

da infância não

ele transcorre já seriam suficientes para se buscar preveni-lo. "

traumas

deveriam ser postos de lado, porque não se podem demonstrar 'efeitos de longo prazo'. O abuso sexual de crianças precisa ser reconhecido como um sério problema da infância, mesmo que se focalizem o sofrimento, a confusão e os transtornos imediatos que dele

a pesquisa revelou que o abuso sexual entre as idades de 7 e 13 anos

resultam. (

produziu a maior incidência de psicopatologia clinicamente significativa." (Kugler, 1987, p. 52-3; Browne & Finkhelhor, 1986). Mesmo que aparentemente o incesto vivido na infância tenha sido elaborado e, portanto, superado, é freqüente encontrar em suas vítimas a frigidez

e a dispareunia, sintomas de uma dissociação entre o desejo e a repulsa (Rouyer & Drouet,

1986). A preocupação aumenta quando se pensa que é exatamente a faixa dos 8 aos 12 anos

a preferida pelos agressores sexuais de crianças, sobretudo os parentes.

)

A literatura é farta em enumeração de distúrbios sexuais e da personalidade causados pelo estupro, sobretudo perpetrado pelo pai. De certa forma, todo homem que comete violência sexual contra uma mulher, especialmente uma criança, é visto como pai. Aliás, enquanto a maternidade é instituída pelo filho, de preferência pelo filho homem, a paternidade é auto- instituinte. Todo homem pode arvorar-se em pai de qualquer pessoa, mesmo sem ter filhos biológicos. Esta constitui uma forte razão para se pensar no conceito de patriarcado como adequado para a designação da organização de gênero das sociedades complexas da atualidade, inclusive e especialmente a brasileira. Obviamente, não se trata do conceito weberiano, formulado a partir das comunidades sem Estado, mas da dominação da figura masculina enquanto pai-patrão, enquanto patriarca mesmo. Por isto não se concorda com certas críticas feitas à utilização deste conceito (Barrett, 1980; Al-Bibri, 1981; Brown, 1981; Ferguson & Folbre, 1981; Harding, 1981; Stewart, 1981; Coward, 1983; Weinbaum, 1983; Shaver, 1989).

Quando nós cessamos de nos cegar, nós nos lembramos das investidas sexuais que experienciamos na infância. Para a maioria de nós não era estupro; para muitas de nós não era nosso pai ou mesmo um dos pais: mas para virtualmente todas as mulheres havia pelo menos um homem sobre quem nós sabíamos. Para uma mulher não cega pelos mitos, este conhecimento é visível nas faces de uma menina bem pequena quando o pai (homem confiável) coloca-a em seus joelhos e fala com ela de uma certa maneira. Ela sabe. Ela sabe

que ele está se aproveitando dela de alguma forma. Ela sabe que ele não a ama realmente:

ela sabe que o amor que ele aparenta por ela é limitado por suas próprias necessidades e pelo usufruto de alguma espécie de satisfação, que não tem nada a ver com ela enquanto uma pessoa. A diferença entre aquelas de nós que foi estuprada por um pai e aquelas que não o foram `É de grau, não de espécie'." (Ward, p. 97; Adler, 1928, p. 131).

A rigor, ainda que não se verbalize o tabu do incesto, a criança sabe, mesmo na fase edípica, que ela é o terceiro excluído. E a exclusão dá-se precisamente em razão do interdito. Muitas vezes, a criança não sabe definir o que sente, mas sabe que não lhe agradam certas carícias aparentemente desprovidas de intenções sexo-genitais, uma vez que a família é considerada um grupo de paz, amor filial e fraternal.

No Brasil de hoje, o Estado obriga-se, através da Constituição Federal, a assegurar à criança e ao adolescente uma série de direitos, dentre os quais figuram a dignidade e o respeito, "além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão" (Art. 227). Também no Estatuto da Criança e do Adolescente, os menores de 18 anos são titulares de direitos humanos. A fim de não alongar demasiadamente este capítulo, transcrevo somente dois artigos daquele dispositivo legal.

Art. 13 - "Os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais." Caso os maus-tratos se refiram a abuso sexual por parte de certos familiares, o agressor pode ser levado a responder perante as autoridades independentemente de representação, já que o crime (contra os costumes) é de ação pública, quando "é cometido com abuso do pátrio poder, ou da qualidade de padrasto, tutor ou curador" (art. 225, inciso II, do CP).

Art. 17 - "O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais."

Este artigo revela que a consciência jurídica do país, representada pelo legislador, estende os direitos humanos à criança e ao adolescente, visando, precipuamente, ao seu desenvolvimento harmônico. Há, no entanto, um gigantesco fosso entre os dispositivos legais que protegem os menores de 18 anos e a realidade a que estão expostos. Deixando de lado os que vivem nas ruas, e em outras condições de desamparo, e tomando-se exclusivamente aqueles vivendo com a família em situação considerada adequada, pode-se afirmar que uma grande parcela deles tem sua integridade física, psíquica e moral violada cotidianamente, sem que o Estado, em suas várias instâncias, intervenha.

Não basta um estatuto para garantir a mencionada integridade. Uma criança que sofre abuso sexual intrafamiliar, por exemplo, necessita ser afastada de seu agressor. O ideal seria retirar o agressor do convívio familiar. Isto, contudo, é difícil, porquanto, em geral, ele é ou o único ou o maior provedor das necessidades materiais da família. Nos países avançados em matéria de intervenção, como é o caso do Canadá, retira-se a criança da família, colocando-a, seja num lar substituto, seja numa instituição apropriada de acolhimento destas vítimas. Este procedimento, porém, está longe de ser ideal, na medida em que priva a vítima do convívio com os outros membros não-agressivos da família, o que pode ser vivido pela criança como uma punição. Mas, inquestionavelmente, apresenta uma dimensão positiva, pois retira a vítima do alcance do agressor. Ora, se no Brasil só há três ou quatro abrigos para mulheres espancadas, fenômeno muito mais visível que o abuso sexual em família, não se pode esperar que haja instituições para acolher as vítimas deste último fenômeno. E, para muitas crianças, a implementação do artigo 17 do Estatuto depende da existência das instituições referidas e ou do preparo de famílias que possam servir como substitutas, o que, por sua vez, depende da formulação e aplicação de uma série de políticas públicas, visando ao bem-estar e ao desenvolvimento harmonioso da criança.

Além da falta de recursos financeiros e de vontade política para a implantação de tais políticas, uma série de fatores contribui para manter intocável a instituição familiar, não obstante ela possa ser portadora de muita violência: o medo, a vergonha, o isolamento individual, a falta de apoio de outros membros da família que auxiliam o processo de

transformação da vítima em ré, etc. Estes sentimentos/condições não estão presentes exclusivamente no Brasil, mas existem em qualquer parte do mundo. Assim, são milhões de crianças no mundo a sofrerem abusos sexuais intrafamiliares, recebendo educação para temer o homem estranho, aquele que não se conhece. Enquanto a sociedade não tomar consciência da necessidade de transformar a organização social de gênero, a fim de permitir que as diferenças entre homens e mulheres sejam vividas na igualdade, crianças continuarão, no Brasil como alhures, a ser sexualmente vitimizadas, inclusive em família. No Brasil, apesar da existência de 150 Delegacias de Polícia de Defesa da Mulher (15 na grande São Paulo e 68 no interior do Estado), a situação continua muito grave. A maioria destas delegacias não conta com pessoal preparado para atender mulheres, de todas as idades, vítimas de violência sexual, para não mencionar a falta de infra-estrutura. Eis porque muitas queixas levadas a delegacias não chegam sequer a ser registradas. Embora não exista a figura da retirada da queixa na legislação brasileira, "esquecê-la" numa gaveta a pedido de sua portadora sempre foi uma conduta costumeira dentre os delegados de delegacias ordinárias. Quando se criou a primeira DDM em São Paulo, a delegada passou a cumprir a lei. Explicava-se à mulher que ela dispunha de quanto tempo necessitasse para refletir se apresentava ou não a queixa. Uma vez apresentada a queixa, o processo de abertura de inquérito não teria volta, prosseguindo seu curso normal até o poder judiciário, se fosse o caso. Lamentavelmente, este procedimento não foi adotado por todas as delegadas. Assim, em caso de abuso sexual incestuoso, a mãe da criança pode apresentar queixa à delegacia, recompor-se com seu parceiro e "retirar" a queixa.

Referências bibliográficas

ADLER. UNDERSTANDING HUMAN NATURE. Allen and Unwin, 1928, apud WARD. AL-HIBRI, Azizah. CAPITALISM IS AN ADVANCED STAGE OF PATRIARCHY: BUT MARXISM IS NOT FEMINISM. In: SARGENT, Lydia (ed.) WOMEN AND REVOLUTION: A DISCUSSION OF THE UNHAPPY MARRIAGE OF MARXISM AND FEMINISM. Boston: South End Press, 1981, p. 165-193. AMERICAS WATCH. INJUSTIÇA CRIMINAL X A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO BRASIL. Usa: Human Rights Watch, 1992.

ARMSTRONG, Louise. KISS DADDY GOODNIGHT: A SPEAK-OUT ON INCEST. New York: Pocket Books, 1978.

AZEVEDO, M.A., GUERRA, V.N.A. PELE DE ASNO NÄO É SÓ HISTÓRIA

ESTUDO SOBRE VITIMIZAÇÄO SEXUAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM FAMÍLIA. São Paulo: Livraria Roca Ltda., 1988. BADINTER, Elisabeth. L'AMOUR EN PLUS. Montrouge: Fammarion, 1980. BARRETT, Michèle. WOMEN'S OPPRESSION TODAY. London: Verso Editions, 1980. BASS, Ellen, THORNTON, Louise. NUNCA CONTEI A NINGUÉM. São Paulo: Editora Harper & Row do Brasil Ltda., 1985. BELOTTI, Elena Gianini. O DESCONDICIONAMENTO DA MULHER. Petrópolis:

Editora Vozes Ltda., 1975. BERTAUX, Daniel. DESTINS PERSONNELS ET STRUCTURE DE CLASSE. Vandôme: P.U.F., 1977. BROWNE, Angela, FINKELHOR, David. Impact of Child Sexual Abuse: a Review of the Research. PSYCHOLOGICAL BULLETIN 99/1 [1986]: 68 apud KUGLER, Paul K. Childhood Seduction: Psysical and Emotional. Dallas: SPRING, 1987. BRADY, Katherine. FATHER'S DAYS. New York: A DELL BOOK, 1981. BROWN, Carol. MOTHER, FATHERS, AND CHILDREN: FROM PRIVATE TO PUBLIC PATRIARCHY. In: SARGENT, Lydia (ed.), op. cit., p. 239-267.

UM

BUTLER, Sandra. A CONSPIRAÇÄO DO SILÊNCIO: O TRAUMA DO INCESTO. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979. CANTF, Casare. HISTÓRIA UNIVERSAL. São Paulo, 1967, vol. II, p. 214, apud DOTTI, René Ariel, O INCESTO. Curitiba: Editora Lítero-Técnica, 1976. CHAUí, Marilena. Participando do debate sobre mulher e violência. In: PERSPECTIVAS ANTROPOLÓGICAS DA MULHER. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984, p. 25-62. CLARAC, Viviane, BONNIN, Nicole. DE LA HONTE A LA COLERE. Poitiers: Les Publications Anonymes, 1985. CÓDIGO CIVIL BRASILEIRO. São Paulo: Edição Saraiva, 1980. CÓDIGO PENAL. São Paulo: Sugestões Literárias S/A, 1981.

COWARD, Rosalind. PATRIARCHAL PRECEDENTS. London: Routledge & Kegan Paul, 1983. DOTTI, René Ariel. O INCESTO. Curitiba: Editora Lítero-Técnica, 1976. FEMINIST REVIEW. FAMILY SECRETS: CHILD SEXUAL ABUSE. London, Nº 28,

spring 1988, special issue. FINKELHOR, David. THE DARK SIDE OF FAMILIES. London: Sage Publications,

1988.

FERGUSON, Ann, FOLBRE, Nancy. THE UNHAPPY MARRIAGE OF PATRIARCHY AND CAPITALISM. In: SARGENT, Lydia (ed.), op. cit., p. 313-338.

FOUCAULT, Michel. VIGIAR E PUNIR. Petrópolis: Editora Vozes Ltda., 1977.

, M. MICROFÍSICA DO PODER. Rio de Janeiro: EdiCGes Graal Ltda, 1981.

GALLOP, Jane. THE DAUGHTER'S SEDUCTION. Ithaca: Cornell University Press,

1982.

GAY, Michelle. Le viol. Ministère de la Justice du Québec, s/d, apud WELZER-LANG,

1988.

GODELIER, Maurice. LA PRODUCTION DES GRANDS HOMMES: POUVOIR ET DOMINATION MASCULINE CHEZ LES BARUYA DE NOUVELLE-GUINÉE. Paris:

Fayard, 1982.

GORDON, Linda. HEROES OF THEIR OWN LIVES: THE POLITICS AND HISTORY OF FAMILY VIOLENCE. Boston: Penguin Books, 1988.

, L. The Politics of Child Sexual Abuse: Notes from American History. FEMINIST

REVIEW, nº 28, op. cit., 1988a, p. 56-64. HALIMI, Gisèle. Libération, 13/09/1985, apud WELZER-LANG, 1988. HARDING, Sandra. WHAT IS THE REAL MATERIAL BASE OF PATRIARCHY AND CAPITAL? In: SARGENT, Lydia (ed.), op. cit., p.135-163. HILL, Eleanore. THE FAMILY SECRET: A PERSONAL ACCOUNT OF INCEST. New York: Capra Press, 1987. KELLY, Liz. What's in a name?: Defining Sexual Abuse. FEMINIST REVIEW (Family Secrets. Child Sexual Abuse), Cambridge, University Press, nº.28, 1988, p. 65-73. KUGLER, Paul K. Chilhood Seduction: Psysical and Emotional. Dallas: SPRING, 1987.

LA FONTAINE, Jean. CHILD SEXUAL ABUSE. Oxford: Polity Press, 1990. LISAK, David. Sexual Aggression, Masculinity, and Fathers. SIGNS, The University of Chicago Press, Vol. 16, Nº 2, Winter 1991, p. 238-262.

London Incest Survivers' Group, National W.A.V.A.W. Conference, London, Winter 1981, apud CLARAC & BONNIN, op. cit. London Rape Crisis Centre. SEXUAL VIOLENCE. London: LRCC, 1984. MACKINNON, Catharine A. TOWARD A FEMINIST THEORY OF THE STATE. London: Harvard University Press, 1989. MACLEOD, Mary, SARAGA, Esther. CHALLENGING THE ORTHODOXY: Towards a Feminist Theory and Practice. In: FEMINIST REVIEW, Nº 28, 1988, p. 16-55. MARCO ANTONIO, Alda. O jovem e a criança. In: Chalita, Gabriel (ed.) VIDA PARA SEMPRE JOVEM. São Paulo: Editora Siciliano, 1992, p. 13-20. MASSON, Jeffrey Moussaieff (ed.) A CORRESPONDÊNCIA COMPLETA DE SIGMUND FREUD PARA WILHELM FLIESS: 1887-1904. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda., 1986.

, J.M. THE ASSAULT ON TRUTH: FREUD'S SUPPRESSION OF THE SEDUCTION THEORY. New York: Harper Perennial, 1992.

MATHIEU, Nicole-Claude. Quand céder n'est pas consentir. Des déterminants matériels et psychiques de la conscience dominée des femmes, et de quelques-unes de leurs interprétations en ethnologie. In: MATHIEU, N.-C. (ED.) L'ARRAISONNEMENT DE FEMMES, CAHIERS DE L'HOMME. Paris: Éditions de l'École des Hautes Études en Sciences Sociales, 1985. MAUSS, Marcel. THE GIFT: FORMS AND FUNCTIONS OF EXCHANGE IN ARCHAIC SOCIETY. New York: Free Press, 1954. MEILLASSOUX, Claude. FEMMES, GRENIERS & CAPITAUX. Paris: F. Maspéro,

1975.

MIDDLETON, R. A Deviant Case: Brother-Sister and Father-Daughter Marriage in Ancient Egypt. AMERICAN SOCILOGICAL REVIEW, XXVII, 5, Oct. 1962, apud WELZER-

LANG, 1991.

NELSON, Sarah. INCEST: FACT AND MYTH. Edinburgh: Stramullion Co-operative Limited, 1988.

PETERS, Joseph. Letter to the Editor. NEW YORK TIMES BOOK REVIEW. 16/11/75, apud HERMAN, Judith, HIRSCHMAN, Lisa. Father-Daughter Incest. THE SIGNS READER; WOMEN, GENDER & SCHOLARSHIP. Chicago: The University of Chicago Press, 1983, p. 257-78. PLAZA, Monique. Nos dommages et leurs intérêts. QUESTIONS FEMINISTES, Nº 3, 1978, Paris, Éditions TIERCE, p. 93-103. RIPOLLÉS, Quintano. NUEVA ENCICLOPEDIA JURGDICA. Barcelona, 1965, vol. XII,

p. 133, apud DOTTI, op. cit.

ROUYER, Michelle, DROUET, Marie. L'ENFANT VIOLENTÉ: DES MAUVAIS TRAITEMENTS A L'INCESTE. Paris: Éditions du Centurion, 1986.

RUBIN, Gayle. The Traffic in Women: Notes on the `Political Economy' of Sex. In: REITER, RR. (ed.) TOWARD AN ANTHROPOLOGY PF WOMEN. New York: Monthly Review Press, 1975, p. 157-210. RUSH, Florence. THE BEST KEPT SECRET. New York: McGraw-Hill Book Company,

1980.

RUSSELL, Diana E. H. THE SECRET TRAUMA: INCEST IN THE LIVES OF GIRLS

AND WOMEN. USA: Basic Books, 1986. SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. O PODER DO MACHO. Sã Paulo: Editora Moderna,

1987.

, H.I.B. A síndrome do pequeno poder. In: AZEVEDO, M.A., GUERRA, V.N.A.

CRIANÇAS VITIMIZADAS: A SÍNDROME DO PEQUENO PODER. São Paulo: Iglu Editora, 1989, p. 13-21.

, H.I.B. Circuito fechado: abuso sexual incestuoso. Caxambu, 1991, mimeo.

[Comun. apres. ao GT Relações Sociais de Gênero, 15º Encontro Anual da ANPOCS]

, H.I.B. Filhas de pais sexualmente abusivos. São Paulo, 1992, mimeo. [Comun.

apres. ao Congresso Internacional América 92: Raízes e Trajetórias]

, H.I.B. Rearticulando gênero e classe social. In: COSTA, A. de O., BRUSCHINI,

C.

(ed.) UMA QUESTÄO DE GÊNERO. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 1992a,

p.

183-215.

, H.I.B. e ALMEIDA, Suely Souza de. Epistemologia, Estado e Políticas Públicas

Dirigidas à Mulher. Caxambu, 1992, mimeo. [Comun. apres. ao GT Relaçöes Sociais de

Gênero, 16º Encontro Anual da ANPOCS]

, H.I.B., CANÇADO, Maria Elena Ruschel e ALMEIDA, Suely Souza de. A

Rotinização da Violência contra a Mulher: o Lugar da Práxis na Construção da Subjetividade.

Säo Paulo, 1992, mimeo. [Comun. apres. ao Congresso Internacional América 92: Raízes e

Trajetórias]

SHAVER, Sheila. GENDER, CLASS AND THE WELFARE STATE: The Case of Income

Security in Australia. FEMINIST REVIEW, nº 32, summer 1989, p. 90-110.

STEIN, Robert. INCESTO E AMOR HUMANO. São Paulo: Edições Símbolo, 1978.

STEWART, Katie. THE MARRIAGE OF CAPITALISM AND PATRIARCHAL

IDEOLOGIES: MEANINGS OF MALE BONDING AND MALE RANKING IN U.S.

CULTURE. In: SARGENT, Lydia (ed.), op. cit., p. 269-311.

UN. VIOLENCE AGAINST WOMEN. New York: 1989.

THOMAS, Eva. A VIOLAÇÄO DO SILÊNCIO. São Paulo: Livraria Martins Fontes

Editora Ltda., 1988.

WARD, Elizabeth. FATHER-DAUGHTER RAPE. New York: Grove Press, Inc., 1985.

WEINBAUM, Batya. PICTURES OF PATRIARCHY. Boston: South End Press, 1983.

WELZER-LANG, Daniel. LE VIOL AU MASCULIN. Paris: Editions L'Harmattan, 1988.

,

,

D. LES HOMMES VIOLENTS. Paris: Lierre & Coudrier

Editeur, 1991.

Fonte: Texto selecionado do CD- ROM da Associação Brasileira de Magistrados e Promotores de Justiça da Infância e Juventude – ABMP – “Acervo Direitos da Criança e do Adolescente”.