HISTÓRIA GERAL DA CIVll..

IZAÇÃO BRASILEIRA
Sob a direção de BORlS FAUSTO com relação. ao período republicano

TOMO

m

o BRASIL REPUBLICANO
3° Volume

SOCIEDADE E POLÍTICA (1930-1964)
por'

ÂNGElA

MARIA DE CASTRO GOMES, MENDES

Eu

DINIZ,

AWÁsIA

DE ALCÂNTARA CAHaGIO SAES E

MARGO, ANTÔNIO TRINDADE, SERGIO

DE ALMEIDAJR., LEÔNCIO

R1CARDO MARANHÃo, RODHIGUES, DÉCIO

ÍTALO THONCA,

MARTINS

MICEI.I

Yedição

CAPÍ11JLO VI

INTEGRALISMO: TEORIA E PRÁXIs POLÍTICA NOS ANOS 30
por
HElGIO TRINDADE

da Universidade Federal e da Porutjicia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

A Primeira República. "1939. da hedionda politica dos Estados.30.Renascença Editora. Este novo campo de pesquisa articula-se com. no período em questão. A Reooluçâo de 30. 1975. São Paulo. São Paulo. pioneiramente iniciado por Hélio Silva.AConstituinte". 1974. No final dos anos 60 quem pretendesse consultar obras de referências sobre o pensamento político brasileiro. "1931. 11 vols. Nos últimos anos foi escrito um conjunto significativo de teses. O Estado Noto. "1926. O Tenentismo.Paulo.A Segunda República. São Paulo.A República VeUJa II (Evolução Política). São Paulo. 1969. para a extincçâo das oligarchias. sociólogos. 72e 73. São. (3) Boris Fausto. Brasiliense. sociedade e economia de 1889a 1930(').AGuerra~aulista". "1930. (2) Edgard Carone . São Paulo. (4) Boris Fausto.O Ciclo de Vargas. desde os primórdios da Primeira República até o final do interregno estadonovista. 1971. DIFEL. de um inusitado interesse como área de estudo para cientistas políticos. DIFEL. O Brasil será integralista. em meados de 1975. historiodorese filósofos. "1937. Tomos -I e 2. 1933. é inexoravel. 1975. São Paulo. 1973. instituições."O Brasil vae para' o Estudo IntegraL para a destruição de todos os partidos. DIFEL. a partir da década de 70. DIFEL. 1976. Movimento glorioso de uma raça que se affirma". PlínioSalgado in Para onde vae o Brasil?.A República VeUJa / (Instituiçôes e Classes Sociais). num enfoque interdisciplinar. para a concepção christã e totalitária da vida. Os Tenentes no Poder". DIFEL. DIFEL. DIFEL. 1970. a publicação dos primeiros volumes para o período republicano da clássica História Geral da Civilização Brasileira onde são acolhidos. DIFEL. A Grande Marcha". para a restauração dos valores intelectuais e moraes da Nacionalidade. São Paulo. 'ensaístas e ideólogos brasileiros. A Revolução Traída".ARepúhlicaNom. embora ainda restrita.ARevolta Vermelha". "1934. "O Brasil Republicano" in História Geralda Cirilização Brasileira. 19D4-1972 (1922) "Sangue na Areia de Copacabana". através da documentação reunida nos volumes do "ciclo de Vargas" (I). No campo da análise das idéias políticas a produção. São Paulo. A marcha é fatal. do trabalho de pesquisa e interpretação históricas realizado por Edgard Carone (2) e da revisão crítica da historiografia sobre a Revolução de . Essa nova tendência da pesquisa voltada para a "teoria" poJ. as contribuições de historiadores. "1933. pp. ensaios e artigos em torno do tema. São Paulo. historiografia e história. . a crescente preocupação em torno do estudo do pensamento político autoritário produzido por teóricos. "1932. desenvolveu-se qualitativamente na última década. Convergentemente a este esforço iniciou-se 'também. cientistas sociais e economistas sobre a estrutura de poder. Todos os golpes se parecem". 1970. DIFEL.A Terceira República. 1976. Com exceção de alguns artigos o (1) Hélio Silva . Terrorismo em Campo Verde". provocada por Boris Fausto (3). Riode Janeiro.ítica nativa não está desvinculada do esforço de reconstituição histórica do período republicano. "1935. Marcha da mocidade. para a unidade absoluta da Pátria. Civilização Brasileira. Véspera da Guerra". Rio de Janeiro. dos regionalismos. defrontar-se-ia com um número extremamente reduzido de publicações. O Brasil vae para uma nova phase de sua História.A Crise do Tenenrísmo". "1938. Integralismo enquanto ideologia ou movimento político tem sido alvo.

(10). Eli Diniz Cerqueira e M. • • (6»). com um interregno entre ambas de mais de três décadas. Paz e Terra. Çivilizaçâo Brasileira. O Integralismo de Plínio Salgado (forma de regressividade no capitalismo hipertardio). FGV. três novos estudos incorporaram-se ao reduzido 'acervo de trabalhos' acadêmicos sobre o pensamento político brasileiro na Primeira Repüblica: refiro-me aos ensaios de Wanderley J. defendida como tese em Filosofia. ed. Melhoramentos. A Ideologia Curupira (análise do discurso integralista). RBEP. Rio de Janeiro 1970. São Paulo. Ciências Humanas. A Cultura Brasileira (Introdução ao Estudo da Cultura no Brasil. Paris. Azevedo Fernando.1977. Rio de Janeiro."AImaginação Político-Social Brasileira". As Ciências no Brasil. "Formação de um pensamento autoritário na Primeira República: uma interpretação" in História Geral da Civilização Brasileira. por autores brasileiros. Stuttgart. DIFEL. Sociais. (8) jarbas Medeiros. e a três estudos sobre a história da AIBelaborados por brasilianistas (10).' 1956. 1938). Aspásia B.300 HISTÓRIA GERAL pA CIVIliZAÇÃO BRASILEIRA isolados e publicações em revistas especializadas ('). (9) Gilberto Vasconcellos. Miguel Reale. L 'Action Integraliste Brésilienne: un mouoemeru de tyre fasciste de annés 30."A Imaginação Política Brasileira". de Alcântara "A Teoria Política de Azevedo Amaral". USP. (5) Wanderley G. embora restrita. Rio de Janeiro. A Presença de A Torres. Brasil Republicano. 1940. 1%8. (7) W. A partir de 1975. as únicas obras abrangentes sobre o período eram os trabalhos clássicos de Fernando Azevedo. Grijalbo. Gustavo Barroso. . São Paulo. "Apontamentos para uma crítica da razão integralista" in Ideologia e Mobilização. Alceu Amoroso Lima e Plínio Salgado). janeiro. 1978. 1978. São Paulo. "Pcrodiqmo e História: a ordem burguesa na imaginação social brasileira" e de Bolívar Lamounier: "Formação de um pensamento político autoritário na Primeira República: uma interpretação" (') e o livro de Jarbas Medeiros. Duas Cidade. José Olympio. 1978.porém.Belo Horizonte. São Paulo. Dep. 1971. que se constitui na primeira leitura minuciosa da obra dos principais representantes do pensamento autoritário (Francisco Campos.José Chasin. Rio de Janeiro. Grijalbo. Dados 213. 1978. Ideologia Autoritária no Brasil 193011945. A segunda de Helgio Trindade. dos Santos . dos Santos.enfatiza o estudo da ideologia. Três Elementos tdeotôgicos do Brasil. Rio de Janeiro. apresentada na Sorbonne em 1971. apoiando-se basicamente em textos doutrinários e a análise comparativa. Ill. Olbiano . IBGE. Tese de Doutoramento. Guerreiro Ramos e Cruz Costa e as recentes histórias das idéias religiosas e filosóficas de João Camilo de Oliveira Torres e Antonio Paim (6). Cabe ainda acrescentar que no campo da ideologia integralista.São Paulo. Barbosa Lima Sobrinho. tem aparecido novas pesquisas e interpretações elaboradas no Brasil. dos Santos . São Paulo. Guilherme dos Santos "Paradigrna e História: a ordem burguesa na imaginação social brasileira" in Ordem burguesa e liberalismo político. Azevedo Amaral.Marinela Chauí.Bolívar Lamounier. Ideologia Autoritária no Brasil 1930/1945 (8). de C. Dados 213.Cedec. 1~68. Cruz Costa. Regina Soares Lima.t6rla'das Idéias no Brasil.Paim Filho. Riode Janeiro 1967. com os movimentos políticos fascistas europeus.1977. Wanderley G. recentemente. Der Brasilianiscae Integralismus (Geschict und wesender Faschistischen Bewegung Brasileirus. Até então a bibliografia existente limitavase a duas teses de doutoramento elaboradas na Europa. Tomo 2. in Crise do Poder no Brasil. A primeira de Karl-Heínrich Hunsche. díreciona-se para o estudo do movimento político (AIB. História das Idéias Filosóficas no Brasil. . Contriõuiçãà l:l Mis. São Paulo. 1971. O Modelo Político de Oliveira viana. contemporâneos à sua elaboração. Oliveira Viana. utilizando-se simultaneamente da análise de textos dos principais teóricos (Plínio Salgado. São Paulo. Rio de Janeiro 1967.1932-1938). CycJe Superieur D'Etudes Politiques. 1~56~l!amosGuerreiro. sobre o fascfsmo nativo (9). Dados 7. 1969.

L DESCRÉDITO E COMPLEXIDADE DO (. apresentado um modelo de análise alternativo através do qual a ideologia integralista será vista de uma forma mais abrangente do que tem ocorrido nas análises tradicionais de ideologias políticas. de Mello e outros). Teresa A Sadek. Rio de Janeiro. São Paulo. num primeiro momento. Tendência oposta à rejeição do papel mediador da ideologia na articulação entre as transformações sócioeconômicas e a mudança politica é a tentativa de conferir ao aparato ideológico uma autonomia tal que' se transforme na explicação central da mudança da sociedade. seria relevante estabelecer um primeiro balanço dos estudos sobre a ideologia e o movimento integralista no Brasil no contexto de análises mais amplas sobre o pensamento autoritário brasileiro na Velha e Nova Repúblicas. 1978. Macbiaoéis. "constituir o campo de estudos sobre o pensamento político e de reconhecê10 como uma problemática". atitudes ideológicas. ou. dos periódicos integralistas nacionais (A OJJensiva. as análises tradicionais feitas sobre o .atribuem um peso secundário ao papel da ideologia no processo de mutação sóciopolítica: a ideologia transforma-se. S. Nenhum destes extremos supera contudo a caracterização da ideologia como algo sem vigor. . 20. ou rejeita a discussão sobre a ideologia. já que apresenta uma ligação automática e universal com específicos grupos sociais" (11). Com este objetivo. Columbia University Press. por partir de modelos onde este fenômeno não encontra lugar como fonte explicativa. 1970.SOCIEDADE E POLÍTICA 301 Em decorrência destas novas contribuições. inspirando-se na perspectiva desenvolvida por Lamounier. Recente trabalho sobre o pensamento de Octavio de Faria ao tentar. Brasileira. Ela é para ambos uma mera questão de imputação. ed. Tbe vargas Regime: lhe critical years(1934/1938). em outro extremo. New York. The Catholic Universiry of America. Elmer R Broxson. Madnacet.período.AMPO IDEOLÓGICO Uma das conseqüências mais positivas da retomada do estudo do pensamento político autoritário do período entre as duas grandes guerras é a valorização da ideologia enquanto campo de pesquisa considerado crucial à compreensão do processo mais amplo de transformações' da sociedade brasileira. a grosso modo. formas de organização e mobilízação 'políticas do movimento. Hilton. posteriormente. p. uma avaliação crítica da produçõo recente sobre o integralismo e. numa espécie de epifenômeno sem nenhuma autonomia no processo histórico. Geralmente. especialmente as diferentes interpretações sobre a Revolução de 3D. A Tragédia Oaauiana. enfatiza o fato de que "a historiografia brasileira.) "A Ação lntegralista Brasileira: Fascism in Brazil (193211938)" in O Brasil e a Crise Internacional (1930/1945). Plinio Salgado and Brazilian lntegralism (1932/1938). . (S. Anauê e assim como de pesquisas de campo e de entrevistas gravadas com ex-dírígenres e militantes. após uma discussão sobre as dificuldades e fatores que explicam a pouca importância atribuída aos estudos ideológicos no Brasil. 1977. analisando a origem social. busca nas proposições ideológicas o fundamento social de movimentos políticos. Panorama). (1I) M. de fato. Washington. Símbolo. Civilização. 1972. motivações de adesão. O Monitor Integralista. será desenvolvida. Três brasilíanístas se ocupariam também do integralismo numa perspectiva histórica: R Levine.

na expressão' de Wanderley dos Santos. que estivesse realizada essa interdisciplinaridade entre as ciências sociais onde se formulasse uma teoria englobante da ideologia. mas sobretudo uma forma transversal da estrutura social" . bem como as dificuldades da área de estudo em questão. (15) Pierre Ansart. no estágio' atual. em recente ensaio. os (12) Martleria Chauí op. das doutrinas ou ideologias políticas produzidas nos países centrais ("). decorre também de uma dupla conjugação de' fatores: de um lado. nas primeiras décadas da República. ao menos acabou sendo de reelaboração teórica das idéias dominantes na época. São Paulo.(15) Recuperados. São Paulo. no fato de que os sistemas de representação estão implicados em toda práxis comum". da Revolução Soviética e da ascensão do Fascismo italiano. ou "no lugar". como sugere Maria Sylvia de C. pp. insiste que "se nos obstinarmos em considerar a ideologia como reflexo superestruturol do que se passa efetivamente no plano da infra-estrutura..S. Caderno de Debate. revela. "As idéias fora do lugar". Neste contexto do após guerra. Neste sentido considera que a tentação permanente dos estudiosos da ideologia é a de "introduzir um corte entre a prática (que seria o real) e o imaginário (que _seria o ilusório). a partir da década de 20. idéias políticas A existência de um campo autônomo de especificidade do ideológico supõe a resposta a uma série de questões apenas esboçadas pelas ciências sociais: como os símbolos ideológicos traduzem as estruturas sociais. com inteira razão.v 1. "o pensamento autoritário brasileiro. 1974. se nos obstinarmos em considerar o trabalho' do pensamento como um efeito ou uma variável de economia e da po'lítica teremos preparado o terreno para explicações mecanicistas ou funciona. radicalizadas. Brastliense. PUF. Max Weber e Karl Mqnnheim. ainda nõo foi produzida adequadame~te'uma t~oria geral da içleologia: "A ocorrência de uma teoria perfeitamente satisfatória da 'ideologia não é. Rio de)aneiro. n. (16»)oão Cruz Costa. Brasiliense. se não foi de inovação intelectual. A importância crescente atribuída ao estudo das doutrinas e ideologias políticas no Brasil. E adverte que "perceber o desligamento da noção de ideologia para se cobrir' toda atividade do pensamento é no fundo uma operação ideológica" (12). mas também em função dos desafios gerados pelas transformações da sociedade brasileira. - . que permanecem essencialmente as da segunda metade do séc. por preconceito ideológico." 3. Se a ideologia é uma estrutura social (uma instituição) ela não é uma superestrutura separável. e. Marilena Chauí. mera importação imitativa disso. Na realidade. como observa Píerre Ansart. in Estudos CEBRAP n. 347. a presença de um campo aberto à investigação e que. sem nenhuma originalidade.355. surpreendente. Paris. sociológico e psicossociológico". na ótica de Roberto Schwarz. E. somente nas últimas décadas. Les idéotogies politiques. não enfatizam suficientemente a complexidade da área de estudos em questão. Se da Proclamação da República até a Primeira Guerra nenhuma mudança perceptível ocorre no plano das idéias. Franco (17). da "imaginação social e política brasileira". 'esse processo de reprodução ao nível das idéias sociais e políticas. M. de outro lado. parte-se do pressuposto de que não existe pensamento político brasileiro e que a história das idéias políticas no Brasil não passa de um processo de imitação. e mais crindc. p. por quais mecanismos. Pensar e répresentar são momentos da práxis tanto quanto agir". 1956. manifesta-se a preocupação com a criação de um pensamento nacional autônomo para solucionar os problemas brasileiros sem recorrer a modelos estrangeiros. a carência As explicações acerca da pouca valorização dos estudos sobre as idéias políticas no Brasil. XIX. Contribuição à História das Idéias no Brasil. toda uma produção teórica gerada no contexto dos unos 30 em função do "descrédito das idéias autoritárias e notadamente da doutrina fascista do após guerra" (14). ao mesmo tempo. pressupondo-se que as idéias estejam "fora de lugar". torna-se indispensável constatar. (13) "Como poderia". (14) Ibid. desvaloriza-se. embora noutra perspectiva teórica. um esforço significativo de produção ideológica. indaga Lamouníer. Entretanto. como observa Lamounier. janeiro 73. pois. mas acerca de todo e qualquer modo de pensar". Apesar das contribuições de Marx. Lamounier op. fundados em no Brasil razões teórico-ideológicas. em síntese. 9·14 e 15. embora. Em razão da universalidade do problema. Segundo a autora "a produção das representações é uma dimensão da práxis social tanto quanto as oções efetivamente realizadas pelos agentes sociais. (17) Roberto Schwartz . alguns dos principais fatores que explicam a pouca importância atribuída ao campo ideológico nas analises tradicionais sobre a sociedade brasileira.de Carvalho Franco "As idéias estão no lugar". 1976. uma tal teoria suporia que estivesse concluída uma teoria geral do social. duas tendências caracterizam esta evolução intelectual: a utilização de um enfoque sociológico em moda na época estimulará o desenvolvimento de análises mais sistemáticas da sociedade brasileira. fenômeno político. sob o efeito da Grande Guerra. cito pp. cito p.302 HISTÓRIA GERAL ~)A C!"lllZAÇÃO BRASlLETRA INIEGRAllSMO 303 Com a mesma preocupação. começa a 'esboçar-se uma mutação ideológica.)osé Olympio. tem atraído a atenção dos cientistas sociais brasileiros. como constata Cruz Costa. quando um "sociologismo marcado pela influência positivista spenceriana ou o evolucionismo sucederá ao filosofismo do tempo do Império'{"). a pouca importância atribuída ao estudo. quando precisamente a práxis redefine como o que não se pode renovar sem a mediação do simbólico. a posição dos atores sociais e seus conflitos? Como este trabalho de produção e reprodução simbólica pode engendrar uma ocultação das reJações e das experiências? Como a difusão ideológica consegue modificar e'. 102 e 104.listas não só acerca da ideologia. constituir um objeto de estudo?" B. Estudos sobre comportamentos dos agentes sociais? Conclui o autór que "a dificuldade da ideologia (e a dificuldade particular do seu estudo) reside precisamente em sua ubiqüidade.

A questão principal que procura enfrentar o trabalho de Vasconcellos é buscar a especificídude do integralismo enquanto discurso numa sociedade capitalista periférica. os fundamentos concretos da dependência". explica o autor. nessa utopia. A Ideologia Curupira (análise do discurso integralista). cit. subordinando-se aos interesses das corporações multinacionais" (21). (René Gertz . a denúncia. pp. p.. OFRGS. tornaram o campo especialmente fértil para a penetração do fascismo. Chasin. a problemática da natureza do integralismo (19). NOVAS ÚITERPRETAÇÕES SOBRE AJDEOLOGIA OOEGRAUSTA malogrado o nacional-populismo. A redefinição da dependência em 1930. .) A maior complexidade social ali existente (nas zonas de colonização alemã). op. 1978.como conciliar o nacionalismo. No capítulo intitulado "Fontes nacionais do discurso integralista". os militantes e dirigentes '-locais do movimento em São Leopoldo. de outro. São Paulo. analisando criticamente as interpretações tradicionais. nacionais é estrangeiras" (24)..' 11. de um lado. todavia. p.. op. representativo da ideologia considerada globalmente. op-cit. soa certamente mais derrisório ainda o sonho curupira (bem como sua irmã gêmea a ideologia do desenvolvimento nacional burguês. fica aquém. quanto ào' relevância para a situaçãó brasileira e em certos casos até mesmo quanto ào' procedência da inspiração autoritária que aqui vicejoú. A partir desta A partir de 1977 a produção acadêmica se enriquece com duas novas teses de doutoramento. a existência de três grupos tliferenciados:"os "nazistas". "O cerne da nova tese". finalmente. Alegre. não questiona o mérito indiscutível da contribuição do sociólogo paulista que propõe uma interpretação original sobre a natureza da ideologia integralista: "embora de ponta a pónta mimético. 61 . o estudo sociológico dos resultados eleitorais e sua distribuição nos diferentes distritos e sede do município. (21) (22) (23) (24) G. abordando. Vasconcellos. a meu ver. também foi elaborada uma dissertação de Mestrado em Ciência Política.. (19) Em 1977. a alguma influência ligada ao sistema de valores associados à origem étnica. O Iruegralismo de Plinto Salgado.'\~ ."' Porto'. (20) G. São Paulo. ed. ca. ainda que abstrata do imperialismo econômico e o arremedo às claras. que é vista como intrusão forasteira. a passagem da agroexportação para a fase em que o setor industrial. 41 (25) Yasconcellos. os "íntegralistas" recrutando elementos mais jovens. Vasconcellos se. Resultaria desse quadro emaranhado de contradições a resposta fantasmagórica à dependência" (22).. Na sua opinião esta interpretação não responde "a questão de sua . Vasconcellos.majoritariamente localizados no interior do município. 347. Neste sentido. num beco sem scrídc. mais interessados na preservação da cultura alemã do que na política hitlerista e.. 131 Vasconcellos. o objetivo. articulando-se com a análise histórica e com a coleta de depoimentos e de documentação inédita em língua alemã. que já-não cumpre nenhuma função). Dep. 1977 e). isto é. teuto-brasileíros e .. pois.Os Teuto-Brasileiros e o Iruegraíismo nq Rio Grande do Sul: Corttribuição para interpretação de um fenômeno polltico controoertido. identificados ao nacional-socialismo e geralmente constituídos "por alemães natos. cito p. passa a ser o pólo dinôrnico da economia brasileira. apresentam características em que a variável étnica é de importância relativa.. na exata medida em que a burguesia local se internacionaliza. isto é.a1emã no Rio Grande do Sul. p. 1977). por Gilberto Vasconcellos (A Ideologia Curupira: análise do discurso integralista) e a outra defendida. posto que todo discurso fascista ostenta ineludivelmente . sob diferentes perspectivas analíticas. A "ideologia curupira" O trabalho de G. (. o discurso ostenta um traço que o diferencia de seus congêneres europeus a saber: a fantasmagoria de uma utopia autonomística em relação às nações capitalistas hegemônicas. em nível local. aliada obviamente. Vasconcellos.uma salada teórica. inclusive ~ de origem policial: O autor constata.4. (18) B.' como exemplo. valorizam a qualidade acadêmica do estudo em questão. por José Chasin na Escola de Sociologia e Política de São Paulo (O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipettardio) a) (20). não lhe satisfaz a caracterização do integralismo como uma "ideologia eclética para designar o fato de ter ele se abeberado das mais diversas fontes.. cidade mais representativa da~~lha colonização . 1 e 2 . A primeira delas! foi apresentada ao Departamento de Ciências Sociais da Universidade de 'São Paulo. op. Ciências Humanas. uma vez que o paradigma da "ideologia curupira à luz de hoje.. vai ~lém do que o título promete. Fantasmagoria não só porque é irrealizável o desejo de converter o país numa região apartada do processo civilizatório ocídentcl. o autor refere-. uma vez que a análise do discurso deixa a desejar porque centrado em textos preponderantemente do pensamento pré-integralista (anteriores à criação da AlE em 32) não sendo. Ciências Sociais da USP.. a historiografia que assim se desenvolveu há muito vem reclamando uma revisão" (18). apoiando-se em pesquisa realizada em São Leopoldo.forma de regressiuidade no capitalismo bipertardio. p. brasileiro. cit. proteger o Brasil da luta de classes.quer floresça num país hegemônico ou periférico . Ilustramos. Ao contrário. op.especificidade. cit." A análise crítica das interpretações tradicionais.. mas no limite inconfesso. mas também porque são elididos. dos fascismos europeus. quanto à importância teórica. Tal paradoxo. os "gerrnanístas''. Nesta perspectiva.se "a uma ambivalência na configuração do discurso integralista: seus principais traços ideológicos teriam sido extraídos tanto do fascismo europeu quanto de uma tradição intelectual autoritária no Brasil" (23). Lamouníer. que o integralismo conquistava estes adeptos com maior facilidade quando eram dadas certas condições políticas e locais específicas. a presença dos dois fatores conjugadamente constituíam numa situação apropriada para o seu florescimento. E estas variáveis associadas eventualmente à variável étnica. "é que o integralismo.) "O agente da utopia seria o Estado Integral. em dezembro. explicam o fenômeno ( . uma ideologia heteróclita em virtude de seu extremo irracionalismo" (25). a ausência de grupo social específico e de condiçães locais favoráveis reduziam a força integralista ao mínimo.304 HISTÓRIA GERAL DA CIVIliZAÇÃO BRASILEIRA " SOCIEDADE E POLÍTICA 305 de análises sobre o pensamento político reflete-se na própria interpretação histórica do período: "equivocada. Vasconcellos op. deixou perplexos os "camisas verdes".

alguns aspectos merecem ser comentados. o autor. Mesmo o pensamento de Plínio Salgado. inspirada nos fascismos europeus dos anos 30. no tipo de combíncçôo entre o nacionalismo nascente. . (28) A Formação Política Burguesa (1934). vide in Helgio Trindade. pp. em busca de canais de manifestações políticas e que se exprimem através de uma contra-ideologia que não logra a conquista do poder político. p. é a seguinte: até que ponto a redução da especificidade da ideologia à "utopia autonomística" não corresponde na realidade a uma leitura preponderante dos textos pré-integralistas da fase modernista de Plínio? O questionamento se justifica porque se constata na análise a ausência de referências à literatura de conteúdo mimético mais explícito. ínspírando-se no. Schmidt. o que conduzia necessorícmenfe ao ecletismo do discurso.37).. a expressão do "estágio evolutivo do pensamento'" burguês na periferia". . paradoxalmente. a presença de uma transformação dos conteúdos ideológicos através do tempo. com a "ruptura imaginária dos traços de dependência". quanto do "nacional-populismo dos anos 70". O Operariado e o Integralisrno (1934). Neste nível. modalidades de discurso ideológicas. solidariedade ideológicá com o fascismo internacional. prefere a expressão: chamada por ele ~esmo de "Estado social-totalitário Integra!". op. em síntese. O Capitalismo Internacional (1937). A "ideologia curupírc". sem prejuízo do reconhecimento da fertilidade conceitual da hipótese central do autor. No nível explicativo global não sutisfoz a crítica à interpretação do ecletismoideológico integralista. (29) Enquanto Plínio desenvolve um modelo de Estado familiar corporauvo . corporauvismo italiano e Barroso por sua vez que era mais influenciado pelo nacional-socialismo. Verifica-se. Aiuaiidade de um mundo antigo (19~6) e ABC do IntegraltsmO. com exceção do fascismo italiano. Maiores detalhes sobre a concepçao do Estado Integralista. preciscmente. um nacionalismo exacerbado e uma influência e. que se encpntra ausente na análise (29). é desenvolvida essencialmente por Miguel Reale. porém. VasconceIlos. Miguel Recrie:faltam. . A questão que poderia ser posta. O próprio nacionalismo que é um dos temas constantes de sua obra. De outro lado. apesar de alguns traços permanentes. a sínçulcrídcde do discurso ideológico fascista se configura. . se poderia ser enquadrado. respondem a estágios do desenvolvimento capitalista diferenciado e. 81. seria interessante centrar as çonsiderações críticas apenas no discurso integralista e em sua interpretação. Judaísmo. p. In ? Barroso. na medida em que f(~ga no interior do discurso. e do Secretário Nacional da Doutrina. cinco obras importantes para a compreensão de seu pensamento político-ideológico (28). exprimindo "a contradição de uma burguesia que. . uma utilização restritq da literatura integralista produzida no período da vigência da Ação Integralista Brasileira (1932 a 1937): os escritos de Plínio utilizados estão mais direcionados a questões relativas à problemática do modernismo e as suas polêmicas literárias e na bibliografia não aparecem os livros anti-semitas de Gustavo Barroso (7'). porém. até mesmo. e as ideologias do "desenvolvimento nacional" ou "nccíonal-populísto" difundidas sob a capa protetora da dominação política e econômica dos anos 60 e 70? Deixando de lado. tanto na ideologia do "desenvolvimento nacional" dos anos 50. nã!?podem representar interesses de classe homogêneos. (1?. cujo objetivo seria o de converter o Brasil num país isolado da civilização ocidental. \li partir da orgamzaçao sindical. em função da fundamentação empírica da hipótese de Vasconcellos. O argumento desdobrado pelo autor como paradigma explicativo da emergência de "ideologias do desenvolvimento nacional" é inteiramente plausível. Integralismo em Marcha. Rio de janeiro.. evolui sensivelmente. -----cz:7) . a ideologia integralista preponderantemente associada às camadas médias urbanas dos anos 30. de uma "utopia autonómística" com relação às nações ccrpitcrljstus hegemônicas. se reproduz genericamente sob a forma da "ideologia curupírc" (simbolizada pelo "duende de pés voltados para dentro" como expressão da resistência nacionalista à influência estrangeira). de um lado. Teoricamente a hipótese parece fascinante. como manifestação dos mesmos interesses da burguesia. neste caso. mesmo na Europa. Reale constrói Q modelo do "Estado-smdical-corporativo". seria.. embora subordinada economicamente. começa a se apegar à ideologia d~ desenvolvimento nacional" (28). cit. CUJO nucleo de base é a organização dos grupos naturais a partir da_unidade familiar. a discussão em tomo do paradigma analítico subjacente. embora mereça alguns reparos no que concerne à ideologia integralista. Brasil-Colônia de Banqueiros (1934). a nível ideológico. Em todo fascismo coexistem. O Q~to Império (1935) e A sinagoga paulista (1937). em conseqüência. uma especificidade que. i Eoolução do ~mento Outra dimensão que poderia ser questíoncdc é a ausência de uma perspectiva evolutiva da ideologia. segundo. pois. desde os primeiros escritos no (26) G. Neste sentido. cit. com vigência explicativa para os períodos posteriores à década dos 30. o que existe de consistente na teoria do Estado Integral que. teria como objetivo "proteger o Brasil da lutcr' de classes". ainda que contendo evidentes traços 'comuns. enquanto expressão do "pensamento burguês na periferia". raça nova e comunismo (1937). uma vez que esta é precisamente a especificidade de todo o fascismo que se reproduz. 3. 1933. em' cada sociedade onde ele florescia e a percepção de um sentido da história marchando para o fascismo em ese~la internacional. Caberia perguntar. O discurso de'Plinio Salgado ideológico é apresentado estaticamente quando se percebe de forma explícita.306 HISTÓRIA GERAL DA CIVIliZAÇÃO BRASILEIRA lNTEGRAllSMO 307 postura crítica propõe como hipótese central que o traço diferenciador do integralismo com relação aos fascismos europeus foi a elaboração. segundo a interpretação contida na tese. Noutro nível de análise. 227-232. op. não parece caber na mesma categoria de "ideologia curupiro". ao menos.

1932. pp. pp. segundo Vcsconcellos. Riode janeiro. Uma das implicações desta postura analítica repercute na questão das fontes nacionais do discuF. H Trindade p. Plínio Salgado. na 'realidade exclui qualquer referência a espaço histórico na configuração da ideologia. não se pode desmerecer a criatividade das suas duas partes centrais que se constituem nas principais contribuições do autor: a primeira oferece uma rica interpretação psicanalítica do discurso ideológico integralista. . que denomina "Associação dos Fósforos de Segurança". cit. diante dos seus alunos.. op. Este personagem é obviamente sensível à polarização sertão/litoraL à desagregação cosmopolita. 66 e 75. (32) G. as condições internas favoráveis não se referem às fontes ideológicas. na cena em que degola os papagaios. O Plínio modernista de 1922/30 é o intelectual interiorano que se transfere de São Bento de Sapticaí para São Paulo vivenciando o impacto urbano. inclusive. '0 Plínio chefe da Ação Integralista Brasileira de 1932/1938 terá o comportamento de um dirigente político que definirá sua estratégia política e sua produção ideológica em função dos desafios gerados pelo contexto político posterior à Revolução de 30 e a atitude de Plínio. Evolui igualmente sua atitude em relação ao fascismo: o nacionalismo do professor Juvêncio. incorporando ao campo analítico do integra lista a complexa literatura sobre o tema. 59. março/abril. fundada no nacionalismo telúrico do futuro chefe integralista do que algo representativo da ideologia considerada em sua totalidade. personagem central do romance O Estrangeiro de 1926. Este Plínio sofrerá o fascínio da experiência fascista e escreverá. a segunda. Neste sentido. demonstrá-Ia. ou seja. referido não era o de determinar a especificidade do discurso integralista. O paradoxo da análise decorre da valorização explícita do autor quanto à importância crucial do período histórico no qual se insere o Integralismo para explicar algumas das proposições centrais do trabalho e o fato de que todo o estudo passa-se num limbo societal. mas o de definir a natureza de um movimento político. 1936 e o artigo "Corno eu vi a Itália". que o Integralismo tenha sido exclusivamente um mimetismo ideológico. A obje. . .iva do discurso pré-integralista.289.o)deo~ógico. O Plínio fascista de 1930/32 revela-se insatisfeito coma experiência jomclísticc no Correio Paulistano e. a ausência de uma análise histórica do período não permite distinguir as mudanças sensíveis no posicionamento ideológico do chefe integralista. corresponde mais à fase pré-integralísta centrada na experiência modernista e jornalística de Plínio Salgado do que a fase marcada pelo advento da Revolução de 30 à qual o Manifesto de 32 e a fundação da AIB pretendem ser uma resposta condicionada basicamente por parâmetros históricos nacionais. ed. até os escritos ideológicos do após-3D. a referência não diz respeito apenas à ideologia. (31) Helgio Trindade. sociais e políticos com a crise ideológica das elites íntelectuaís. cit. incorporando a evolução da mesma e suas tendências doutrinárias internas? Outro aspecto que merece um comentário no trabalho de Gilberto Vasconcellos diz respeito à relação entre. porque cantavam o hino fascista. os comentários críticos ao estimulante trabalho desenvolvidp por Gilberto Vasconcellos poder-se-ia dizer que a "ideologia curupirc" em estado puro. 203. seu encontro com o Duce (33). tais condiç6es surgem durante a evolução histórica entre as duas guerras mundiais pela conjugação dos conflitos econômicos. Finalmente. 45 e 219·226. de modo sastifatório. O questionamento subjacÊmte à observação crítica feita anteriormente poderia ser recolocado nos sequintes termos: a "utopia autonomista" enquanto especificidade da ideologia integralista não seria. entretanto.ção deste ângulo parece equivocada porque o objetivo do t~abalho (30) Neste particular vide Helgío Trindade. Hierarcbia. Na realidade.. Não se pode dizer.a ideologia integralista e o contexto histórico brasileiro.. que cria uma organização pólítícc hierarquizada. não será homogênea. aos amigos sobre a obra de Mussolini e. A adesão ao fascismo de setores importantes da população e a aceitação de sua organização paramilitar não se explicam sem condições internas favoráveis.' Ora. p. Yasconcellos. Panorama. em análises que não conseguem. cit. com características fascistas (31). (33) Yide cartas de Plínio na obra coletiva. mais express. publicado em 1932." op. op.308 HISTÓRIA GERAL DA CIVIliZAÇÃO BRASILEIRA SOCIEDADE E POLÍTICA 309 Correio de São Bento em 1916. no contexto do período de 1920a 1940. exclusivamente. especialmente no capítulo dedicado à "utopia narcisista". ao choque de valores diluidores da identidade nacional e ao mal urbano. mas às condições históricas internas e externas que se conjugam na emergência da Ação Integralista Brasileira. O texto que dá origem à observação supra citada é o seguinte: "E verdade que seu conteúdo ideológico se apoiou amplamente no fascismo europeu. quando está afirmado na conclusão que não se pode dizer que o "integralismo tenha sido. neste particular. um mimetismó ideológico". se não se consegue mostrar sua diferença em relação aos fasçismos europeus porque então não reconhecer que o integralismo é inteiramente mimético?" E acrescenta: " Até mesmo a análise de Helgio Trindade se afunda nesse imposse" (32).s. op. mas a condições históricas que explicam a implantação e expansão de um movimento político-ideológico que se transformou no primeiro movimento político de massa no Brasil. Mesmo questionando-se alguns aspectos da análise do trabalho de Gilberto Vasconcellos. cit. Em conseqüência. na verdade. social e político dado. Esta limitação transparece na re'ferência a um "imposse" na determinoçõodc especificidade da ideologia:/'a busca de especificidade do discurso integraHsta. Retomando em síntese. sobretudo. com a impossibilidade de renovar o velho perrepismo paulista. tem redundado em equivocadas deturpações ideológicas ou. Por sua vez. é diferente da atitude exacerbada da figura visionária do filósofo Morcndubc do Cavaleiro de Itararé. São Paulo. com entusiasmo. sofre alterações significativas no conteúdo ("').p. e partindo em viagem pela Europa numa atitude simbólica de ruptura. Constata-se cofínal da leitura que a perspectiva analítica que supõe a incorporação de um contexto econômico.

o trabalho de José Chasin peca por qualidades inversas.: ~ possibilidade de Idenhf~car o porquê de o ideólogo tanto insistir na brcailidude. Este ardor paradoxalmente revi sionista em função da postura teórica do autor írcque]c. porem economlco-pohhca exprimindo assim a democracia orgânica" (39). editado em 1950. Con~ta. o problema crucial da "politização do modernismo". Chasin. Chasin. O l~tegrahsmo mantém o princípio da organização sindica~ num r~g. r b) A ideologia do "capitalismo hipertardio". o que é mais grave. Chasin. op.s obras de Miguel Recle).'a nosso ver. Chasin mesclou anahhcamente textos pré-integralistas anteriores ao manifesto de outubro d~ 1932 com textos posteriores ao fechamento da Ação lntegralista.su. sensibilizando-se com a autocrítica do chefe da AIB: "Neste livro além 'de recomposição histórica de fatos maldosamente deturpados. à maneira do fascismo. mas cinco anos mais velho". os protestos e as afirmações de Sclqcdo a mero resultado de dissimulação tática. . cit. de 1937. declara que o mtegrahsmo. ~~~ os aspectos antipluralistas da ideologia fora~. de suas for~. integro:l" . 131. A partir desse equívoco iniciaL Chasin começa criticar os autores que "reduzindo. (35) J. pp. cit. INTEGRAllSMO 311 reinterpretando.lsmo n. como documentação de apoio à sua conclusao fmal de q. E conc~ul n~~ tom justiceiro: . como se vê dos Estatutos da Sociedade que fundou e do Manifesto com que . op. de saída. (38)J. Vasconcellos. justamente no hvro de Plínio Salgado cltad~ antenormente. (36) J. Teoricamente monolítico e apoiando-se exclusivamente em textos de Plínio Salgado... embora não de forma esccncorcdo. p. op. op.!~açoes. poder-se-é apreciar toda a evolução de um pensamento político cristão. de desfazer-se da roupagem fascista em 1950. cit.310 HIST6RIA GERAi DA CIVIliZAÇÃO BRASILEIRA costumes alienígenas.ce ~ 'plural~dade sindical dentro do regime liberol vigente. como que se esquecendo da epígrafe de Marx. Decorre que. e também. o fio condutor de sua análise é um esforço exaustivo e monocórdio em negar o caráter fascista do integralismo a fim de presérvar sua premissa básica que só admite a existência de fascismo como "um fenômeno de expansão da fase superior do capitalismo" (35). . já se observa.pnmldo~. E.?gund~ ~uerra.. jamais efetivam uma anahse de ~eus textos". E acusa a estes autores de terem considerado "com demosícdc ligeireza a questão que assim definha em simp~es ~~q~iavelismo ~âo sendo efetivamente alçada à condição de Pl12blema científico .. Procurando. 3 e 33 Estes deslizes iniciais poderiam ser irrelevantes no conjunto da obra se eles não prenunciassem uma utilização sistematicamente inadequada. sem que ele disto se dê conta.. 239. nota 4. teria sido atribuído ao integralismo. Penetrado de sentimento brasileiro até a medula e tírnbrcndo em criticar acremente todas as instituições e (34) G. n~ hvro refendo aparece apenas esta frase: "no Estado lntegra~. nas primeiras páginas de sua "Introdução": abstraindo qualquer cronologia histórica e não percebendo a tentativa de Plínio. .apareceu. Chasin.1 acr~scentada a seguinte frase: "O integralismo é pela or~amzaça? c?rpOra~l~a nao meramente econômica. O artigo XXIVfoi tambem modificndo: ~o Est~do Integral tornam-se desnecessários os partidos políticos (. Pau Brasil de Oswaldo de Andrade. todos os brc. an!olog~c~ e teleologicamente fascismo e integrali~mo se op~e~ como ob)et~vaçoes dls~mtas" (38).lme p~~lhCO onentado por princípios cristãos". " atribuíram-lhe a vergonha de copiador de regimes ~~l=s Textos irue- Se a tese de Vasconcellos pode ser considerada polêmica em função da diversidade. E Chasin não concordando com o anéitema de fascismo que. o movimento modernista e.. at. favore. no seu interior. pois: ~ontestar a qualificação de fascista ao discurso pliniano. e~cri~osno apos s. das fona er: tes do pensamento de Salgado. O ertíqo XXdas Du~trizes lntegralistas". sobretudo. p. p. 6 p. onde. Chasin acrescenta o seguinte comentário visivelmente enredado na linguagem de Plínio: "Estes trechos revelam melhor sua intenção se a eles se ocrescentcrr um outro pertencente ao mesmo livro.ue. lança-se numa minuciosa e discutível tentativa de penetrar no sentido último da cosmovisão pliniana.op. democrático e nacionalista" (grifo nosso). 34. 652.ta-se. cit. A preocupação de Chasin com a natureza da ideologia integralista transparece desde as primeiras páginas de seu trabalho.rsl~eU. no afã de escamotear a linguagem ícscistc do seu discurso ideológico (menos enfático deve-se reconhecer do qu: transparece na. o chefe integralista. injustamente. elinlina-se. provocou deliberadamente adulteraçoes nos textos onginais dos documentos oficiais transcritos. de enfoques analíticos utilizados para captar multíformes dimensões do discurso pliniano. nota 10 .. o caráter político da produção literária de 22" CU). para a formaçao do po~er p~bhco . em responder ao apelo do chefe integralista que "reiteradamente afirma a originalidade de seu pensamento. Na r~produçâo ~este texto foi eliminada qualquer referência à umdade ~mdlca~:.?S co~aborarão. No texto transcnto.ao fere a ~emocracia extinguindo os partidos políticos". defende a tese de que "desde 24. transcreve novamente uma passagem de um Salgado travestido em democrata cristão: "(o integralismo) baluarte do respeito à pessoa humana desde sua primeira hora. op. afasta-se ao mesmo tempo a posaíbrlidcde de (37)J. por ~xemplo.rr raiz brasileira de suas idéias e sua distinção do fascismo europeu" (36). com argúcia e sensibilidade literária. cit. no grupo a que pertencerem. (39) Maiores detalhes sobre este aspecto. após escolher como epígrafe um texto de Marx ("Toda ciência seria supérflua se a aparência das coisas coincídiase diretamente com sua essência"). vide Helgío Trindade. Preocupa-se. mas tambem o prmcipro da rrgorosa unidade sindical num regime político. começa a citar passagens de O Iiüeqralismo perante a Nação.e fO. classificaram-na como ideologia destruidora da liberdade. porém.. exóticos" (37).. por parte do autor. ano da publicação do primeiro manifesto modernista. 'portanto. ) O lntegral.

mas também como penetram em segmentos mais amplos da sociedade? Na realidade. o autor concluísse que o seu conteúdo não seria nem mimético. aflora o segundo equívoco que inspira sua revisão da "análise tradicional". supõe que. cujos textos são buscados de forma indiscriminada antes. no erro de comparar a ideologia int~9lista global com corporíficcções diversas da ideologia pliniana. a partir das condições reais nacionais buscar o que faz com que idéias européias desloquem-se de seu lugar e. buscar a refutação de estudos de natureza abrangência diferentes ("). o trabalho tem o mérito de postar-se. utilizando-se apenas do discurso de um dos seus teóricos. como muito bem observa M. O caráter extensivo da leitura de Chasin à ideologia pliniana é diretamente proporcional à necessidade de legitimar seu argumento: "o fascismo é uma ideologia da mobilização nacional para a guerra imperialista (40)]. A referida interpretação. Este equívoco decorre da afirmação mecanicista ao reverso que. muita genérica. p. A distorção básica da análise de Chasin provém. Não seria o caso de questionar se a viabilidade de um mimetismo ideológico não suporia que as idéias estivessem "fora de lugar". (44) Recente artigo de Ricardo B. E nesta busca. . poderíamos perguntar se não mereceria estudo ou debate sobre o que foi importado.Teresa A Sadek. 1978. tenta caracterizar o capitalismo brasileiro da década de 30 como sendo "hipertordio". metodologicamente. "não só o mimetismo é afirmado. seria o de. Chasin. num trabalho sobre o Integralismo." M. a concepção analítica subjacente à abordagem de Chasin. estando sua análise centrada tão-somente no pensamento de Plíâío Salgado. de um lado. ao fato de que "a crítica ao integralismo tem sucumbido à explicação mimética na medida em que esta tem sido o pressuposto mesmo das análises até hoje realizadas e não o seu produto analítico" ("). é misturar níveis analíticos diferentes e. mas também o modo pelo qual aquela ideologia. e Nesta linha de análise.Teresa Sadek: "A questão da imitação foi com freqüência mal colocada. cit. metodologicamente. incorporado no movimento integralista. a questão análise de conteúdo de textos. não apenas uma deformação (deslocamento). a análise desenvolvida sobre a sociedade brasileira fundamentasse o mimetismo na existência no Brcsíl da época de condições "semelhantes às da Itália.si mesmo porque se tenha preferido imponar tal teoria e não outras. Tampouco responde porque. para rejeitar. Se levarmos em consideração que a ciência não é caracterizada pela noção que a produziu. Alemanha e outros países da mesma época ("). 34 e 35. e as condições do Brasil de 30 são entendidas como fundamentalmente semelhantes às da Itália. (41)]. o menos fascista dos teóricos integralistas. 161-180.Sadek. Araújo (Ricardo Benzaquende) "As classificaçõesde Plínío: uma análise do pensamento de Plínio Salgado em 1932 a 1938". tentar captar. Em outros termos. embora tenha permanecido rium nível descritívo. op. ao mesmo tempo. 24. evitando as confusões entre análise de ideologia e do movimento. deixem de ser abstrações dos processos a que se referem. a possibilidade de vigência de qualquer tipo de fascismo. desempenha sua função . Mas. Em conseqüência incorre. pp. nem fascista.pp. endosso os. como estas idéias conseguem ser importadas e reelaboradas não só pelas elites intelectuais. que se colocaria para o analista das idéias no Brasil. como foi utilizado ou deformado. o chefe integralista foi. mas que considerou o integralismo como um movimento político inserido concretamente no processo histórico dos anos 30 (43). porém. procurou o autor dar fundamento de realidade à ope~ação mimética hipoteticamente constatada.permitindo que as pessoas se integrem no processo social através de convicções refletidas e não (só através) da força bruta" ("').. Chasin se opõe de forma radical. até mesmo. na sua ótica. Apesar de não ser inteiramente convincente 'a classificação do pensamento pliniano como sendo uma visão conservadora do mundo" diferenciada e. "as idéias estão no lugar quando representam abstrações do processo a que se referem". 26. e que o objeto da explicação deveria. op. portanto. no trabalho criticado. Revista de Ciência Política. que é evidentemente fundamental (40). com traços semelhantes ao fascismo ideológico. Alemanha e outros países de mesma época" (o que seria uma aberração histórica) e.. 177). de outro lado. parece contestável" a assertiva de que o mimetismo seja um "pressuposto". p. ao menos no contexto do estudo aludido.)uI!Set. ca. em se. admitir que. do ponto de vista doutrinário.cornentáríos críticos de M. (45) M. Teresa Sadek. justamente.op: cit. a especificidade da ideologia que colocou como problema fundamental "o da relação entre indivíduo e sociedade" (p. Ora. de sua tentativa em negar o mimetismo ideológico.. eu. (42)/bid (43) Com relação à questão do "mímetísmo". tratando de sociedades econômica e socialmente diferentes. citando Schwarz. embora fora de lugar. ela é uma hipótese de trabalho comprovada empiricamente através de uma análise sistemática que não se cingiu ao nível do discurso ideológico. consegue estabelecer um esboço sintético da "lógica específica da reflexão" de Plínío Salgado. mesmo no período da AIB. de Araújo propõe-se a fazer "uma análise sistemática das categorias (no sentido que ele é dado por Durkheim) que formam o discurso íntegralísta". esta sofre transformações específicas. a nível de discurso ideológico. DA CIVIliZAÇÃO BRASILEIRA SOCIEDADE E POLÍTICA 313 determinar a natureza real de sua doutrina. bem como. a partir de uma Além disto. mas também as condições de sua possibilidade.T. A partir desta perspectiva crítica adotada pelo autor no início de seu trabalho. que muitas vezes afastam-se de tal modo da -orígínal que apenas dificilmente poderia Identificar-secom a que lhe deu vida. p. portanto. Nestas condições o integralismo é um fascismo. com o objetivo de "perceber a lógica própria do pensamento de Plínío". Chasin... 34. 21 (3). transferindo-as para um contexto que tem muito pouco a ver com sua matriz original (. por definição. ao ser escolhida determinada ideologia. O que não parece plausível. op. Poder-se-ia. durante e depois da existência da AIB. já que. acrescenta: "Se no Brasil as 'Idéias estão fora do lugar' é porque delas nos apropriamos.312 HISTÓRIA GERAÍ. uma vez que ninguém pode negar que. Pois O simples fato da importação de idéias não responde em .00) o problema central.

(52)].. aliás. dissociá-los é uma empresa nova e arrojada. negar a presença de qualquer traço ideolóqíco faSCista no mtegrahsmo. a inconsistência maior da' tese de Chasin decorre de . 31' e os discursos do da Câmara dos Dep'1. contanto que não seja pago o ô~u_sde_um~ . Até mesmo quando Plínio manifesta explícitas slm~tlas pelo foscismo. em diferentes sentidos é o "tema mobilizador dos lntegralistas: "A· dramaturgia da crise. em seu estimulante ensaio sobre a AlB (de cuja leitura. 149). pp. op cit. AnaIS . que "Roma fascista. seria improcedente".e Ideológicas)? In Chauí (Marilena). embora respeitando a abordagem teórica de Chasin.' op cit. uma proposta de freiagem de desenvolvimento das forças produtivas com um objetivo ruralista" (<6). levando a certo perigo de particularização que' pode comprometer o entendimento adequado dos fatos. .~ndante da ideologia salgadiana" é "Esplritualismo.. sendo que o espirítualísmo é a última Instância da ideologia pliníana'' ].que teve o mérito de tentar uma penetração em profundidade no pensomento de Plínio Salgado e de incorporar ~ anédise.34). de forma elegante. . Chasin aceita o argumento megalomaníaco de Plínio Salgado de que "o integralismo e fascismo não se confundem na ~edida em que o fascismo é dado como um estágio inferior ao integralismo" ( ). ruralista. pp. ninguém melhor que Antônio Cândido para. 647. constitui atualmente a suprema garantia da ~lberda~e ( ). apos seu retomo de viagem à Europa. importação de idéias. 616. independentemente do fascls?t0. 235. segundo os destínatários que el~gem". propõe. reahzando monótonos 'vaivéns analíticos..u!lhzaçao . mas na realidade sua proposta de análise é bem mais modesta: enquanto o filósofo húngaro percorre "dezenas de autores. por exemplo. ~ara dar..nao é outra coisa do que uma figura muito próxima à própna pr<:. cit...m.. p. mas também receio de sucitar confusões ("). Aliás. No longo percurso d~scritivo..' próprio prefácio do livro de Chasin. Marilena. . p. Em síntese. mas este aí se encontra genericamente convertido à fórmula integralista" (52).. publicado em abnl de 1932. . Penso que o fascismo funciona como um destes. despreparo. cit. tradicionaIisrno e irracíonalísmo . etc. 16. ~?caín~ literária. 462 e 463. (50) Segundo Ch:. Divergindo. que desperta no autor admiração. Chasin limita-se apenas à obra de Salgado desvinculada de qualquer análise do período histórico em qu~stão. escrupulosomente. não a continuidade cultural em relação às matrizes européias. . pp. a . a crítica fundamental: "Negando que seja possível aplicar no Brasil. p. A drarnaturgía da crise é o contraponto necessáno para neutralizar a revolução" (p. p. foi o de ter conseguido estabelecer uma lógica interna na temática ideológica de Salgado que o próprio autor jamais conseguiu ou pretendeu realizar!. (47)]. ~onta da stngularízação histórica brasileira isto é das práticas sociais (vale dizer econômicas. onde se entrevistara com Mu~solini. a tríade . (48)]. Chasin. 462 e 463. mas também alguma coisa que ela tem de menos seguro. Na perspectiva do autor. além desse papel que permite ~ emergência da ideologia nacionalista e mítica. . conceitos extraídos de outros contextos históricos e sociais. ele mterpreta como recurso tático. como no artigo "Como eu vi a Itália". o nosso autor. afirmando. Sua argumentação apresenta o que há de melhor nesta linha. e.. ) Em outros termos. . A panir desta postura analítica. estimulada pela crítica de Chasin à interpretação "tradicional". tão caluniada pelos ~bnos d~. no. em relação ao integralismo. caricaturalmente. irracionalista" da ideologia integralista. . op cit.mas que e~te é.vazio.t~ de 1928 a 1930. mas a representação do real veiculada r:1o texto. porém. (53)] Chasin. um prestigioso porcerro a quem taticamente convém remeter. nccíonolísto. Chasin. imaturidade. Concordo com Marilena Chauí quando diz que "Se número.~atlca ~o fasc~smo não pode ser dissimulada. não se pode negar uma certa frustração. sem mais aquela. op. ambos de autoria do futuro chefe íntegralísta. Quando. op. Finalmente. muitas vezes. ao analisar "o imaginário integralista". porém. O autor propõe-se a oferecer uma "explicação alternativa" a partir de uma "investigação balizada pelo talhe histórico-genético praticado por Luckccs". a autora dispõe-se a penetrar ~a 'complexa qu~stao do desunatlr!? do discurso" integralista para. colocar.: p. do político e da história e.. quando se atinge ao final do livro. GOmo explicar que os intérpretes usem categorias como atr~ tardio. entao. conseqüentemente. espaço e tempo I)ão diferenciam. Chasin. para sustentar sua hipótese básica. cit. (51)].. ~p. Apesar da desproporção entre a ambição teórico-metodológica do autor e o campo da análise efetivamente percorrido. se não exprimem o proc~o intern_opelo qual aquílo é o mesmo (o modo de produção capitalista) existe engendrando suas díferencíações internas necessárias (no caso os diferentes países capitalistas). a teoria pliniana da história. cit. inclusive documentação inédita (49).314 HIST6RIA GERAL . 39 e 61. Salgado em alguns de seus artigos de A Razao faz a defesa e o elogio do fascismo. em conseqüência vincula-se a um outro universo ideológico. polítícas . ""-li\. "o mte~rahsmo de Salgado se põe. na prolixo retórica de Salgado. como nova abordagem.posltura mte!1ralista( . porque impede o retomo dialético aos conceitos.identificaç~o que. mterpretar as diferenças e conflitos entre os documentos segundo as representaçoes que oferecem do social. . . na última pane de seu ensaio. em função do conteúdo "espiritualista. (46)]. op. Chasin. enfatizados por Chasin ("'). mesmo porque seria aberrante no contexto d~ se~ quadro teórico. tem um outro mais preciso e que a alimenta. cit. a partir de uma ordenação discutível dos textos. 25. Um dos méritos indiscutíveis de Chasin. então Chasin prefere dizer . em sua essencialidade.que o fa~clsm<:. op. (49) Por exemplo: o Manifesto da Legião Revolucíonárta de São Paulo de. rastreando a composição genética do nacional-socialismo" (48). sugerir que a imagem da Crise . da mesma forma em que Gustavo Barroso ao escrever seu livro O Integralismo e o Mundo reduz. se esta perde seu caráter fascista e. em certa medida e a um tempo dado. o autor se embaraça. os fascismos a manifestações imperfeitas da idéia integralista.op. Chasin. mes!D0 quando dela discordo.Entretonto. DA CIVIliZAÇÃO BRASILEIRA lNTEGRAllSMO 315 que se pôs nas formações de capitalismo tardio quando estas emergem na condição de elos débeis da cadeia imperialista e o integralismq uma manifestação de regressividade nas formações de capitalismo hipert~rdio. Chasin. brotam perspectivas analíticas novas) "não tomar como critério a adequaçao ?U ínadequação entre o texto e o real. Ch~sin pr~ura. a questão controvertida que per~anece é a de saber. e. se engrena numa linha de pensamento que prefere salientar a diferença brusíleíro.

foi um movímenfo político e que seu caráter fascista provinha não apenas de semelhanças entre sua temática e a dos fascismos europeus. enfim. passando por outras corncdos. quando o objeto de estudo é o movimento político. Além da complexidade da análise da ideologia vinculada a um movimento ou partido político. as críticas referidas aos novos trabalhos sobre' a ideologia integralista são enfáticas não tanto pelo conteúdo interpretativo atribuído ao universo ideológico . Neste sentido. op. transmitidas pela imprensa partidária ou a percepções de dimensões individualizadas da ideologia a nível dos militantes e eleitores (55). o problema torna-se mais complexo. em princípio. No caso do integralismo não se pode dissociar. porque estes só enriquecem o nível de conhecimento sobre o temo). (54) O tema "ideologia" está sendo utilizado no contexto desta discussão no sentido empregado por Jean Touchard no seu estudo sobre a ideologia do Partido Comunista Francês: "considerando de noss~ parte que é tão legítimo falar de 'ideologia gaullísta'. por tratar-se de um movimento de inspiração facista.. um ou mais teóricos e. O comunismo dos eleitores do partido. com os estudos que analisam a ideologia de um partido de tal tipo. Paris. às vezes.recusando a pno.. Quando. as interferências ou conclusões devem permanecer em seu ômbito próprio. certamente. nem sempre são homogêneos entre si (54). tradicionalismo e irracionalismo ideológico" ou seja como "pensamento conservador" seriam consistentes na medida em que refluíssem de uma postura teórica ou metodológica unívocas. sem que se procure penetrar em outras camadas da ideologia. a ideologia da rmprenso partidária. e.hnclusive. base social de recrutamento. expurgou do universo ideológico integralista as contribuições relevántes de Miguel Reole. apesar das aparências.n considerar ideologia política como expressão de um grupo social determl~ado . a partir desta penetração nas diferentes camadas ideológicas. de uma maneira mútuo geral. a fim de que sua configuração capte as diferentes dimensões de uma organização política complexa. motivações de adesão-de seus militantes e sentimento de solidariedade com o fascismo internacional. reduzir-se a proposições fragmentárias e. . já explicitado na análise crítica de trabalhos anteriores. uma vez que a ideologia enquanto doutrina sistemática somente vigora e se reproduz a nível dos ideóloqos ou dos intelectuais do partido. (55) Touchard propõe a análise da ideologia comunista na França em quatro níveis: o comu~lSmo dos dírígentes do partido. A CONCEPÇÃO PIRAMIDAL DA IDEOLOGIA INTEGRALISTA As difi~uldades com que se defrontam os estudiosos do integralismo decorrem basicamente de dois tipos de fatores. O que tem ocorrido quando estas regras elementares não são seguidas é. cit. a ideologia dos dirigentes políticos. a origem social dos dirigentes e militantes. mas poroquilo que elas contêm de iníerêncícrs discutíveis. a caracterização da ideologia integralista seja como "utopia autonomística". 84/5. segundo as interpretações de um teórico ou de diferentes teóricos. é preciso distinguir diferentes níveis do discurso ideológio que. Parece indispensável conceber diferenciações sob a forma de uma concepção piramidal da ide~logiaem cujo topo estivesse a expressão mais elaborada da ideologia. finalmente. Secretário Nacional de Doutrino e de Gustavo Barroso. acima de tudo. pretendendo superar d explicação mimético. a ideologia e a organização porque existe uma relação explícita entre a estrutura desta e o conteúdo daquela. sua análise ficou a nível do significado interno dos textos. Se esta limita-se ao discurso ideológico. O primeiro. a relação entre o partido e a sociedade no qual está inserido. seja como "espírttuclísmo. compreendendo. • Estas dimensões cruciais para a elucidação da natureza do integraÜsmo enquanto ideologia e práxis política escaparam. Neste caso. o seu espectro perderíc a conceitualização coerente observável nos textos doutrinários para misturar-se com as questões de táticas ou de estratégia dos documentos produzidos pelos órgãos de decisão do partido e. mas pretende ser uma interpretação global de uma organização política com características fortemente ideológicas. mas. Chefe Nacional da Milícia. essencialmente. cujos escritos reforçaram o conteúdo fascistizante da _ ideologia: o primeiro com a concepção de Estado inspirado no fascismo italiano e a segunda com os componentes anti-semitas do nacional-socialismo. pela sua forina de organização.pp. recusando igualmente empregar o termo ideológico com uma conotaçao pejorauva como o fazem. conforme sua latitude. . As fontes de referê.ou . panfletos e todo: tipo de material pertinente disponível ao pesquisodor): no entanto. é que a análise tem se limitado aos teóricos do movimento. o integralismo. o comunismo dos intelectuais' cujas obras procedem de uma reflexao ínspirada no pensamento comunista. O que acontece. mais preocupado em combater as "aparências empíricas" da pesquisa do que apresentar uma nova interpretação da sociedade brasileira que gerou e rejeitou. Assim que.) nós pensamos que é possível poupar-se de longas defiOlçcx:s prévias e considerar. contraditórias. os escritos ideológicos ou doutrinários. além da ideologia do qual ele é porta-voz. sem considerar que o integralismo. a ideologia dos eleitores ou simpatizantes do movimento. provém de uma confusão entre níveis analíticos. de um partido de tal tipo tem que ser examinada sob diferentes dimensões. finalmente. a ideologia comunista como uma certa concepção de mundoprópria aos que se reclamam do comunismo" Touchard (jean) lntroduction à l'ideo 10gie du Parti Comuniste Français in Le Comunisme en France. Ill. Mas. a ideologia dos militantes de base. a confusão conceitual geradora de equívocos sob a capa protetora da "científícídode". a Chasin. de 'ideologia liberal' ou de 'ideologia de SFIO.316 HISTóRiA GERAL DA CIVlUZAÇÃO BRASILEIRA SOCIEDADE E POLÍTICA 317 deficiência ria documentação selecionada que.. A ideologia . sobretudo. geralmente.. a questão não se restringe ao estudo da ideologia em si. o estudo sobre a natureza de uma orqcníaoçõo envolve outros aspectos igualmente cruciais. in jean Touchard. mais do que uma ideologia. em geral. se for o caso.Colin 1969. o campo analítico deve abranger também a organização. o comunismo dos militantes e. todos os que consideram a Ideolo~la como uma degração da idéia (. Ao se indagar sobre a natureza do integralismo deve-se definir em que nível a análise está sendo proposta. tais como. outras fontes escritas (implensa. IJ' 85. mais ou menos conscientemente. porém. homogêneo.ncia serão. Neste particular também é relevante o estudo da organização em função do papel que desempenha como instrumento de socialização político-ideológica dos militantes. Provavelmente. historicamente.

ASinagogaPaulisla. Rio de]aneiro. que já produzira. de que elas exprimiam as linhas básicas do corpo ideológico. na medida em que se possa obter este tipo de informações através de entrevistas. Maçonaria e Comunismo. provocou a percepção constatada empiricamente. Levanta-te Brasil. duas questões devem ser enfrentadas. da origem sociol dos dirigentes e militantes a fim de melhor compreender sua inserção na relação de forças políticas da sociedade. A convergência dessas contribuições sob a forma de livros.1931. elaboração teórica sofisticada para evitar a simplificação envolvida na idéia de que a obra intelectual reflete ou espelha a posição ou classe social de seus autores". 1934. a cmálíse da ideologia de um partido político qualquer deve ser mais compreensiva e complexa do que a análise de textos dos seus teóricos. Estabelecidas estas premissas teóricas e metodológicas. Civilizaçâo Brasileira 1934. embora reveladora de tendências internas da AlB nem sempre publicamente explicitadas. Rio de Ianeíro. considerando-se 0_ próprio texto suficiente para a sua compreensão" e. bem como os interesses que procura agregar ou representar. se o seu alcance dimensiona-se além dos limites da análise convencional de idéias políticas ('"). o primeiro "definido como o estudo do pensamento político exclusivamente através dos textos. prescindir da análise. isto é. . o tipo de pessoa. 1931. de Olbiano de Mel10. o segundo. em última análise. . O Integralismo e o Mundo Rio de]aneiro Civilização Brasileira. O método contextualista requer. as pessoas a quem se dirigia e tentava convencer. internalizando a reprodução doutrinária gerada por diferentes teóricos. alguns trabalhos para lançar o seu Partido Nacional Sindicalista (58) e. Plínio Salgado.(59) G: Barroso. na análise da ideoloqicr de um partido político.ino caso do integralismo. Terra do 501. Mesmo que esta seja a fonte inicial de inspiração do movimento com a divulgação do Manifesto de outubro de 32. caberia tentar explicitá-las. Rio dejaneíro. 193. Em segundo lugar. in Vicente Barreto. Portanto. Terra do Sol. Em primeiro lugar. A formação de tendências. a ideologia irá incorporar de forma substancial outras contribuições teóricas. 22. antes da AIB. os outros livros de Reale serão posteriores. ao menos analiticamente. 1937Judaismo. Nesta direção parece indispensável aproximar.O E:. a AlB do fato político mais relevante do período que foi a Revolução de 30. A Formação Política Burguesa. Típ. que não se pode deixar de encarar a ideologia como uma realidade dinâmica em relação à dialética com o contexto societal. Zahar. Schmidt.como estratégia para compreender melhor sua natureza e perceber as tendências mais significativas de sua evolução. que foi o Secretário Nacional de Doutrina. porém. existam dados disponíves. buscando. Terra do 501. através das obras de Miguel Reale (57). EditoraABC. Tip. 1937. Rio Branco. Poder-se-ia perfeitamente admitir o caso em que a ideologia produzida pelos teóricos e dirigentes de um movimento político qualquer não se (56) Mesmo na ótica do estudo do pensamento político concordo com Vicente Barreto quando afirma que ele "deveria ser encarado antes de tudo como um pensamento histórico" e que "a análise do pensamento político tem sido realizada' por duas grandes . concretamente. quando o movimento integralista seria extinto. pp. "A posição do integralísrno" in Estudos lruegratistas. sempre que. (58) Olbiano de Mello. Civilização Brasileira.Rio de]aneiro. 1937. A primeira refere-se à integralista abrangência do campo ideológico _ do integralismo. ' . percebe-se. no estudo global de um partido. 24 e 25. de propagação da mesma nos diferentes níveis da organização partidária. relacionar o movimento político com o processo histórico em curso. Nesta ótica. a teoria e a práxis do mesmo . pois. o período histórico no qual viveu. Colônia de Banqueiros. em que "o historiador" concentra sua atenção no contexto do autor. Não seria ocioso insistir. através de uma análise sintética inspirada na abordagem indicada. Esta proposição para ser válida deve também ser contestável a nível empírico através da visão ideológica dos militantes da AlE.stadoMOderno. as tensões ou conflitos internos resultam. . Rio de]aneiro. A questão básica parece ser: onde se situam as fronteiras da ideologia integralista? O que define o integralismo .José Olympio. entre 1935 e 1937. p'{ocurando recuperar no estudo da ideologia integralista algumas dimensões não consideradas na análise de textos doutrinários. de Gustavo Barroso com seus livros anti-semitas (59). Finalmente.Brasil. Neste nível de análise da ideologia integralista.enquanto ideologia não é apenas o discurso doutrinário produzido por seu fundador. o que define a amplitude do seu campo ideológico é a visão que dela têm os próprios membros do -movimento.318 HISTÓRIA GERAL DA CIvIliZAÇÃO BRASILEIRA INTEGRALISMO 319 Não se pode igualmente. o tipo de sociedade. nitidamente. República Sindicalista dos Estados Unidos do Brasil. é importante conhecer as motivações de adesão dos membros do partido porque -elas podem ser elucidativas 'sobre os aspectos da ideologia que foram mais salientes na decisão de aderir ao movimento. Tip. 1977. em função de algumas interpretnçõeasobre a ideologia inteqruliste. Rio de]aneiro. Tip. o movimento da sua estrutura interna. Buscandose. que se aproxima da perspectiva sugerida anteriormente. isto é.. Rio de]aneiro. captar o processo de formação ou de transformação da ideologia em permanente interação com a estrutura sócio-econômica e com a conjuntura política da sociedade. ou seja. Portcmto.1931: Comunismo ou Fascismo?. sem a pretensão de produzir uma análise de conjuntura onde se forma e se estrutura a Am. etc. Civilização Brasileira. a nível de seus militantes. Assim que não é suficiente uma análise que pretenda inferir conclusões sobre a natureza do discurso integralista. parece legítimo aproximar. Ideologia e Roluica nopensameruo dejosé Bonijâcio deAndrade e Silva. Integralismo em Marcha. mas também outras manifestações ideológicas que se incorporaram a partir da reílexõo de diversos teóricos. de tentativas de enfrentar os desafios propostos pela sociedade tornando-se a energia criadora e transformadora da ideologia.3. c:utigos de jornal e documentos programáticos. restringir-se ao estudo da ideologia pliniana. 1934. e seus efeitos sobre a sociedade brasileira até o advento do Estado Novo. Rio de]aneiro. . 1936. (57) Míguel Reale. 17. articulando o estudo da ideologia dos teóricos e dirigentes com outros níveis de expressão da ideologia associados ao universo ideológico dos militantes de base. Rio dejaneíro. Análise da ideologia A~segunda questão relaciona-se com a primeira na medida em que a determinação do nível de abrangência da ideologia depénde do grau. embora este aspecto seja mais importante nos partidos ideológicos.correntes metodológícas: O textualísrno e o contextuallsrno".

Clássíca Brasileira. O fundamento dessa interpretação do fato revolucionário está na noção de equilíbrio social. A partir da leitura dê. neste sentido. apesar das tensões internas latentes. como "fatos naturais" ou como "necessidades históricas". . p. no interior da AIB. ' rÓ. "A Quarta Humanidade" Obras Completas. Salgado. Paris. L . é que a decorrência de sua difusão através da estrutura cutoritéricr do movímento e dos meios internos de transmissão do seu conteúdo. ambas. Nossa fórmula é a seguinte: tudo no Estado. Salgado. (61) Ibid.. 129-130. estrutura. in Oeuvres Completes. nascidas da conquista da terra e da luta contra a exploração econõrníca. enquanto que a de Reale repousa na versão italiana do fascismo. diferentemente do fascismo italiano onde "o fato precedeu a doutrina". p. ao mesmo tempo. "Manifesto de Outubro" de Plínio Salgado). unindo todos os brasileiros num só espírito para construir uma Nação "organizada. p. seria percebido através de alguns dos seus comp~mentes ou idéias-forças. humanismo inspirado num retomo ao ideal medieval de uma sociedade harmoniosa ("Os homens e as classes podem e devem viver em harmonia") (••). pp. una. especialmente. 81. a ideologia. fazendo ROrte. em 1925: "A idéia central de nosso movimento é o Estado. sob a égide do Departamento Nacional de Doutrina e. Salgado. revela um arcabouço doutrinário que. fonte geradora de um novo equilíbrio social. in Barroso (Gustavo) Integralismo em Marcha. (67) P. bondade extrema que caracteriza os povos infantes. ". "Manifesto de Outubro de 1932". localiza-se um dos aspectos centrais de inspiração fascista do integralismo. como a Terceira" in P. Este ato de fé nos destinos do Brcsfl traduz-se num projeto ambicioso na medida em a) A ideologia dos doutrinadores A análise global dos fundamentos da ideologia integralista. O que singulariza o núcleo ideológico básico do inteqrcrlismo. anatematiza os seus adversários. da ideologia (65). na proposição de Reale o Estado é o princípio e o fim do universo ideológico integralista). vol. organização social e política do integralismo. em conseqüência. indivisível. profunda espiritualidade e tenacidade na luta. que são o liberalismo. Além da concepção espiri tua lista da história. Ele parte da premisse que "o progresso do Espírito Humano realiza-se ao ritmo das revoluções" (66). mas não através de todas as suas manifestações mais significativas. 13. Além disto. (62) Ibid. seja na concepção migueliana do Estado SindicalCorporativo (64). que procura "afirmar o valor do Brasil". baseada na crença do proqresso-morcl do ser humano ("0 homem deve praticar sobre a terra as virtudes que o aperfeiçoam") (6') e' num .- (63) Onde "se realize o Homem Integral penetrado do sentido profundo do Cosmos. nada contra o Estado".se. p. sob a mediação dos conceitos de "revolução integral" e de nacionalismo. Todos os teóricos integralistas estão de acordo com a idéia de que a evolução da sociedade se faz através dê rupturas e pelo ulterior restabelecimento do equilíbrio. (65) Aliás. unidade política local) na busca mitológica da "quarta humanidade" (63) e a concepção do Estado Integral que é a forma de (60) P. v. 1953. iluminado pelo Verbo Divino. interpreta-os sem nenhum juízo de valor. inspirada num doutrinária humcmísmo espiritualista e numa visõo harmônica da organização da vida em sociedade (cujos lineamentos básicos encontram-se no . cit. apoiado numa concepção do universo do homem. Plínio profetiza que a "Quarta Humanidade terá sua base física na América Latina" e que a "raça cósmica" que fecundará esta nova civilização terá como traços fundamentais: agudeza dos instintos graças a sua origem indígena.320 HISTÓRIA GERAJ. (66) P. o Estado é a organização política e jurídica das sociedades nacionais e se manifesta por uma série de instituições de natureza diferente. Manifesto. Se a concepção doutrinária do integralismo repousa numa Concepção concepção do homem e da sociedade. como a Primeira Humanidade.o judaísmo. Salgado. 33. (64) Barroso prefere a expressão "Estado social-totalitário integral". sindicato e.) "Discurse du Theâtre de Ia Scala à Milan". o socialismo e.DA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA SOCIEDADE E POLÍTICA 321 transmitisse. Neste caso. fundiu-se. Psicologia da Revolução. p. seja na variante pliniana do Estado familial-corporativo. A concepção de Salgado busca inspiração no tradícíonalísrno tomista. nada fora do Estado. ed. senhor dos elementos. seria um instrumento para destruir o equilíbrio da sociedade em crise e. em todas as suas dimensões. 1955. o nacionalismo éa dimensão mais abrangente da ideologia integralista. como a Segunda. como complementações uma de outra.. aos seus aderentes. Considerando esses acontecimentos como um dado da evolução histórica. segundo a concepção difundida pelo próprio Mussolini em discurso pronunciado no Scala de Milão. ligação entre a filosofia da história e a concepção do homem e da sociedade se estabelece através da idéia de "Revolução". . elas circulam amplamente. forte. poderosa. até definir uma concepção de organização social e política da sociedade através do Estado integral-corporativo. A revolução. novas dimensões da ideologia integram as contribuições de outros ideólogos. como toda a ideologia que pretende opor-se à ordem vigente de forma combativa. O Manifesto Integralista· de 32 atribui uma posição central à idéia nacionalista. Salgado expõe no livro Psicologia da Revolução a posição integralista face ao fato revolucionário na história. . Flammarion. do qual resulta a organização hierárquica da sociedade através dos grupos naturais (família. num único corpo ideoiógico e percebido como tal pelos militantes de base. provavelmente buscada em Pareto. op. o integralismo. no entanto. Liv. das Américas. a concepçõo de Estado-Sindical-Corporativo inspirado em Miguel Reale. em 28 de outubro de 1925. o campo da ideologia concreta embora mais diversificada no plano das contribuições teóricas. rica e feliz" (67). neste nível teórico de exaltaçâo do Estado.T. in Mussolini (B. A.. Embora as duas concepções de Estado Integral ofereçam diferenciações na forma básica de sua estruturação política e social (enquanto a idéia de Estado no Manifesto é a de uma superestrutura autoritária. definindo sua concepção de "revolução integral". Rio de Janeiro. inserida numa perspectiva espiritual nacionalista. . textos doutrinários constata-se uma articulação entre esta concepção provídencícddcr história ("Deus dirige os destinos dos povos") (60). o capitalismo internacional.

322 HISTÓRIA GERAL DA ClV/UZAÇÃO BRASILEIRA lNTEGRAUSMO 323 que o integralismo se propõe a criar "uma cultura. Gustavo Barroso. O Espírito do Século xx. ele procura inferir o modelo familiar-corporativo compatível com sua visão nacionalista: "Desse elemento biológico e psicológico. " _ (70) Mussolini proclamou em discurso pronunciado em junho de 1925 que A concepçao do Império é a base da nossa doutrina" in Mussolini. .. com normas seguras de direito. que é considerada como um dos traços essenciais da ideologia (70). p. realiza empréstimos" (73). contida no Manifesto: "A Nação tem necessidade de se reorganizar em classes profissionais. 98. saídos também do Partido Único que é a concretização de todas as classes proftssíoncns'{"). também em 1935. A concepção estatal de Salgado busca suas raízes na realidade nacional adaptada às necessidades do homem brasileiro: "Pretendemos tomar como base o homem de nossa terra.. o judaísmo apátrida "é um conquistudor e um colonizador dos povos C . os livros posteriores estão impregnados de anti-semitismo. numa ótica diferente de Barroso. (75) P. O Quarto Império. No mundo ocidental ela ainda existe. . todos os teóricos do integralismo concordam que o objetivo principal do movimento é a implantação do EstadoInteqral. a otitude de Reale com reloçôo ao imperialismo econômico. .hora . à leitura dos documentos e obras integralistas revela uma defasagem entre o grau de elaboração da teoria do Estado e o papel que a ele é atribuído na sociedade integralista.)osé Olympio. 1934. 1935. Entretanto. Rea1e. é explícita: "O Imperialismo não é a última fase do capitalismo. Salgado. 246. Rio de )aneiro. VII. Estas classes devem eleger. . (73) G. indiscutivelmen~e. Mesmo no seu nacionalismo cntícosmopolítc. geográfica e econômica". um modo de vida genuinamente brasileiro" (68).175. as mais graves dificuldades internas" (69). Barroso. 1935. mais ambiciosamente. deduziremos as relações sociais. ) Não dá batalhas. vindo seus nomes indicados pelos Conselhos Municipais. 124. p. uma civilização. Rio de Janeiro. ' O próprio nacionalism~. na sua realidade histórica. Civilização Brasileira. o nacionalismo ~ujo conteúdo é mais cultural do que econômico.. do chefe integralista incorporará mcds tarde outras dimensões reveladoras de sua evolução ideológica. terá chegc. A partir desse fundamento. A idéia-força central do Manifesto é. Iivre de todo e qualquer princípio de divisão: partidos políticos. cit. Se estes-aspectos não predominam nos escritos de Salgado.ido a . inspirado no título de um dos livros de Salgado. (69) P. 94.Ed. 119. das Américas.D~emos a Nação. mas há outra força. op. p.. Esta palavra de ordem integralista estabelecerá a transição' entre o nacionalismo lírico de Salgado e outras formas mais agressivas de nacionalismo que irão desenvolver-se. sob o título O Integralismo em Marcha. .josé Olympio. como pensou Lenine. afirmará. o nacionalismo de Plínio permanece essencialmente literário e romântico. Cada brasileiro se inscreverá na sua classe.)osé Olympío. p. p. p. 6. aparecem explicitamente nos livros de Miguel Reale e Gustavo Barroso. de fundamentos jurídicos" (75). nos Congressos Provinciais e nos Congressos Gerais C . toma-se interessante analisar como Salgado justifica sua concepção imperialista. . outro teórico integralista. Barroso. estadualismo em luta pela O tema aparece claramente na idéia de expansão doutrinária do integralismo sobre o continente latino-americano: "Não me contento co~ a implantação do Estado Integral no Brasil. que pode ser simbolizada pelo slogan "Despertemos a Nação!". A idéia central é de que a "revolução integralista" realiza-se pela transformação do Estado. Segundo Barroso. cada um por si. Salgado..'. Explicitando o imperialismo ideológico de' Salgado. seus representantes nas Câmaras Municipais. de política econômica. "Manifesto de Outubro". Como no contexto brasileiro o teIn:a do ex~~~o imperialista não tinha razão de ser em função dos espaços vaZIOSdo terntono brasileiro.que o "Integralismo brasileiro constituirá um grande Império.O Estado Moderno. Com exceção do conjunto de conferências públicas em 1933. 1934. Nesse contexto o papel principal do Estado é o de promover a unidade nacional: "Pretendemos realizar o Estado Integralista. Provinciais e Nacionais. ) Quando todos os países da 'América do Sul entrarem neste mesmo ritmo. Por sua vez. (68) Ibid. Daí decorre a sua vaga concepção sobre a estrutura do Estado Integral. Esta Revolução Inteqrcrlisto é a Revolução do Continente" (71). Salgado. Contudo. pois. dt. op. ) Esses representantes todos devem ser de absoluta confiança de cada classe. Seu conteúdo básico é um apelo à tomada de consciência nacional. p. preponderantemente cultural. por sua vez. criou. apesar da presença de uma dimensão econômica. uma grande República Impérinl. um grande Império Cristão e sua doutrina integral influenciará os destinos da humanidade" (72). Entretanto. Este último qualificativo produzirá na imaginação ideológica de Salgado uma nova dimensão: o sonho do Império inspirado no mito da civilização desaparecida da Atlântida. Com Barroso o nacionalismo econômico adquire um conteúdo anti-semita. (76)lbid. percebe-se uma preocupação econômica subjacente ao criticar a influência negativa do capitalismo internacional:· "O controle de nossa vida financeira. de pedagogia. (74) M. (71) P.. in Obras Completas. sempre exercido pelos bancos estrangeiros. Rio de)aneiro. Rio de janeíro.da grande atitude. Resta acrescentar que o nacionalismo integralista possui também um conteúdo econômico e antiimperialista. "Palavra Nova dos Tempos Novos". (72) G. Quero que esta idéia se irradie por toda a América do Sul (. 1935. a qual não pertence à Nação alguma e está acima das Nações: o supercs>italismo financeiro" (74). bem mais poderosa.

Se para Salgado o Estado confunde-se com a Nnçõo. São Paulo. no "Manifesto" e no Abecedário deram origem a estudos mais elaborados. diz sindicalismo corporativo-nacionalista" (81). mais imediato mas. Ibid. Leão Sobrinho lntegralismo Brasileiro. . mas a unidade das classes produtivas organizadas: "só quem produz tem direito de votar e de ser votcdo".iguel Reale no Abecedário Integralista. o Abecedário nõo se limita apenas a apresentar o sindicato como uma das células do organismo nacionaL mas afirma que "o Estado é. Reole considera o Estado como a Noçõo organizada. textos ideológicos é paradoxalmente pequena comparada àquela do liberalismo. Dentro do modelo sindiccl-ínteqmlistc de Heole. Salgado. Star. . socialismo e liberalismo sôo consideradas expressões diferentes da concepçõo filosófica materialista. pp. o socialismo encontra-se atrelado às doutrinas "fragmentárias do século passado e que foram superadas pela experiência fascista integral". Estado liberal diante do desenvolvimento da sociedade. em suas linhas gerais. 1933. os dois modelos de Estado desenvolvidos. tempo que a organizaçôo proposta pela ideologia nõo põe em questõo os princípios básicos do sistema. sendo superior a todas elas "pelas forças de que deve dispor e pelos fins que deve realizar" (18i. ) E um órqõo de direito público. pois. mas o resultado natural de sua solução. políticas. econômicas e cultUrais (. Reale proclama que o Estado nõo é a soma de indivíduos isolados. Salgado. O que é o lntegralismo. dirige-se mais contra o liberalismo do que contra o socialismo. 29. neste particular: mant~'ve sempre uma linguagem mais vaga e imprecisa. "o sindicato é um órqôo de finalidades éticas. o socialismo. transformar o capitalismo liberal clássico' num capitalismo nacional e social controlado pelo Estado Integral. Salgado. Noutra perspectiva. a unidade básiCa dos adversários do integralismo provém do fato de que estõo vinculados à domínnçõo judaica. A importância atribuída ao anti-socialismo no conjunto dos. o capitalismo internacional e as . Outros ensaios. (79) Ibid. 9. em última análise. São Paulo. 53. Reale. mais a expressão de uma atitude reflexa e preventiva diante da importância dos movimentos socialistas europeus contra os quais se onfrontaram os fascismos. O que é o Integralismo. 1937. O "Manifesto" e o Abecedário referem-se vagamente ao socialismo e ao comunismo. define de maneira mais precisa. Salgado.0) Ibid. São Paulo. Star. Salgado. mesmo quando aprofundam a análise sobre a natureza e o conteúdo do Estado IntegraL nõo superam a clivagem fundamental dos dois primeiros textos integralistas. finalmente.324 HISTÓRIA GERAL DA CIVIliZAÇÃO BRASILEIRA da SOCIEDADE E POLÍTICA 325 heqemonic: luta de classes (. ed. O objetivo do integralismo é. permanece intangível na medida em que o inteqrcdismo não põe em questõo a iniciativa privada ("o integralismo é contra o controle dos capitais da indústria") (83). Os textos dos principais teóricos utilizam uma I hnguagem muitns vezes fortemente crítica ao sistema capitalista. A lógica desta concepçõo impõe que as forças políticas organizadas da Ncçõo nõo sejam mais os partidos vinculados à democracia liberaL mas os "trabalhadores intelectuais e manuais. p. torna-se Miguel Reale. ao mesmo tempo.. O anti-socialismo manifesta-se de três maneiras na ideologia integra lista: primeiramente.. M. in P. Reale e Olbiano lruegralistas (1' série). Só a representnçõo dos trabalhadores é representaçôo popular" ('9). pretende. criou condições favoráveis à cçôo do capitalismo internacional e ao desenvolvimento do segundo socialismo. J. P. que preferia a assertiva: "quem diz Integralismo. colocando-o "acima das classes ". Estudos . Em síntese. como toda ideologia em oçõo. publicado em 1933: "Guerra de morte à liberal' democracia !"(82) A hostilidade principal. p. ao mesmo .irtude de sua íormcçõo jurídicç e posição de Secretário Nacional de Doutrina.C Mendes de Almeida e J. (81) Olbiano de Mello. sob a imediata fiscalizaçôo e proteçõo do Estado" (00). 1 e 2 (78) P. cit. Nesta perspectiva. 'os princípios de sua organizaçôo. Salgado que declara "guerra de morte ao liberalismo". 1933.j. ed. p.' . A Cartilba do (82) (83) (84) (85) P. que a "técnica capitalista assuma uma funçõo eminentemente social" (84). p. Tip. a propriedade privada e o princípio do lucro. O integralismo. Reale. A única dimensõo do capitalismo condenado por todos é o capitalismo financeiro internacional. lendo sua posiçõo reforçada em ... porque ambos se apóiam na mesma concepção materialista da sociedade.. Rio Branco. M. em seguida. Cartilha do Integralismo Brasileiro. 6. "Manifesto de Outubro". a cara~terizaçôo do Estado Integral feita por ro. p. porém. Este paradoxo se explica nôo somente porque o liberalismo é o adver. 1933. A posiçõo antiliberal do integralismo transparece no título de um dos capítulos do livro O que é o Integralismo. De outro lado. de fato.. op. uma íedercçõo de sindicatos". ) Pretendemos criar a Suprema autoridade N~ô~r~. definiu seus inimigos. A neutralidade do . sociedades secretas vinculadas ao judaísmo e à maçonaria. 29. Além disso. A partir da contribuíçôo de Barroso. P 8.sário . Salgado. I A concepção anticapitalista da ideologia integralista apresenta uma' ~mbigüidade ~undamental. p. no início dó Integralismo. porém. M. São Paulo. O essencial do sistema capitalista. porque sua concepçõo é a causa primeira do advento do socialismo. em linguagem jurídica. na medida em que se propôs a com bater o integralismo liberalismo. porém. do ponto de vista econômico. de Mello. uma atitude de "alerta ao socialismo" (85). O principal teórico do Estado. os integralistas consideram que o socialismo nõo seria a antítese do capitalismo. 11. ao passo que a posiçõo de Redle-o:proximava-se mais da dé Olbiano de Mello. contentase em anunciar no mesmo livro. Salgado. O integralismo. o combate ao ~~~ o (77) P. "Novos Rumos". o anti-socialismo 'que se desenvolveu antes da expcnsôo da Aliança Nacional Libertadora e da rebeliôo I comunista de 35 era. P. em concreto. porém. (8.

ao mesmo tempo. ao posso que os outros doutrinádores. incorporou-se à ideologia integralista em razão da grande receptívidade das idéias antijudaicas dos militantes de base. da Aliança Nacional Libertadora. em 1931. urna das preocupações principais do integralismo era a de combater o retomo ao sistema (86) G.poís. porque o nacionalismo é mais um estado de espírito e urna atitude afetiva do que uma dimensão ideológica. ao menos. op. mostravam-se. não existe contradição com a importôncio prioritária atribuída aos dois motivos anteriores. O tema do nacionalismo está sempre presente na ideologia tanto no plano afetivo como no intelectual. o tema. _uma gradação nas formas do anti-semitismo integralista.mesmos com rekrçõo às principais dimensões teóricas da ideologia. Rio de)aneiro. tendo um papel central na radicalização nacionalista dos anos 30.326 HISTÓRIA GERAL . bem como no grau de assimilação dos militantes com relação ao universo ideológico proposto pela doutrina. desenvolvimento do país e simpatia pelos movimen_tos fascistas europeus. na realidade. considerou-se a freqüência relativa de cada motivo tomado isoladamente no complexo de motivos mencionados. . a entrevístcr'e a pesquisa por questionário junto aos aderentes do movimento incorporam novas informações capazes' de' eluddar questões que podem dar origem' a interpretações não circunscritas ao compo -doutrínério dos intelectúais 'do movimento. Colônia de Banqueiros. o quarto tipo de "motívcçõo" é a oposição ao sistema político. O conjunto de respostas foi agrupado em nove categorias em função do tipo de motivos indicados:' nacionalismo.qA CIVIliZAÇÃO BRASILEIRA INTEGRAllSMO 327 comunismo reveste-se de uma linguagem primária. sem negar aspectos nocivos de ação judaica. 158 e 168. foi mencionado apenas pela metade da amostra. medo nos militares e simpatizantes do integralismo. estes dois extremos abrangem toda a sociedade. porque nem sempre o primeiro motivo referido revelava necessariamente a razão principal de sua adesão ao movimento (87). . anti-semitismo. A proporção de respostas concentradas neste motivo (56%)é superior a qualquer previsão a priori. O termo "motivação" está provavelmente sendo utilizado abusivamente. . além da análise da lógica interna da ideologia dos teóricos e' dirigentes da cúpula do partido. especialmente no campo das finanças internacionais. cit. O nacionalismo. Civilização Brasileira. Considerando-se que a força do PCB era muito secundária até o surgimento. reforçando a hipótese do parentesco ideológico entre o integralismo e o fascismo. através das "Notas Políticas" publicadas em A Razão. oposição ao sistema político vigente. determinou-se a relação entre o motivo considerado pelo entrevistado como principal e os outros indicados na resposta. grande parte da importância atribuída a este motivo provém provavelmente da inspiração anticomunista dos movimentos fascistas europeus. Quando não havia uma atração pelos regimes fascistas. Anti-semitismo procurando provocar o O último inimigo 'do integralismo é o judaísmo. O estudo desenvolveu-se 'em dois níveis: no primeiro. de um anticomunismo reflexo. toda a civilização do século XX" (86). parecem mais reticentes em aceitar a tese de que se pode reduzir o conjunto dos adversários ao judaísmo. valores autoritários. Barroso. mas de explorar sistematicamente uma série de informações transmitidas diretamente pelos integralistas e que permitem reconstituii as principais razões que condicionaram os militantes a inscreverem-se' na AIB. analiticamente. Enfim. p. Nestes casos. Nesta perspectiva. valores espirituais. de influenciar o Governo Provisório de Vargas. Após a tentativa de Salgado. de uma corrente anti-semita radical. vide em Helgio Trindade. Os resultados mostraram que a "motivação" principal que ocasionou a adesão de cerca de dois terços dos integralistas foi o anticomunismo. Gustavo Barroso é praticamente o único representante. a fim de que a ideologia efetivamente praticada não se reduza a uma mera retórica dos seus principais dirigentes e teóricos. b) A ideologia dos militantes Na análise da. O primeiro aspecto relevante a considerar é a análise das "motivações da adesão" ao movimento no contexto dos anos 30.. Brasil. 9. Colônia de Banqueiros: "Trotski e Rothschild marcam a amplitude das oscilações do espírito judaico. anticomunismo. a análise foi conduzida com o objetivo de determinar a freqüência relativa de cada motivo indicado. Toma-se necessário. Embora seja possível estabelecer. assim como a percepção' dos . no segundo. estrutura ideológica de um movimento político toma-se indispensável penetrar no universo ideológico dos militantes. O segundo motivo era a simpatia pelo fascismo europeu: a mcíoríe absoluta das respostas confirma a influência sobre os aderentes integralistas da ascensão dos movimentos fascistas. Barroso proclama em seus livros panfletários que o integralismo deve afirmar-se ànti-semita e a abrangência de seu preconceito é bastante ampla como se pode deduzir da epígrafe que ele escolheu para seu ensaio histórico Brasil. O nacionalismo literário provocado pelo modernismo da década de 20 politiza-se rapidamente e o integralismO torna-se a sua encarnação na extrema-direita após a década de 30. pp. de vez que não se trata de proceder a um estudo de motivações no sentido psicológico do termo. em 1935. que supostamente poderia ser considerado como o motivo provavelmente o mais freqüente. Realizada uma' pesquisa junto a um grupO selecionado de ex-militantes. corporativismo. sensíveis à luta desencadeada pelos movimentos fascistas contra o liberalismo e o comunismo. sem considerar a ordem em que as respostas foram dadas. penetrar nos aspectos mobilizadores dos apelos ideológicos dirigidos aos militantes captados através das motivações de adesão. Neste sentido. e.enriquecem a compreensão da natureza do partido político em questão conhecimentos sobre as razões de adesão ao movimento. (87) Maiores detalhes sobre a metodologia do trabalho. embora o anti-semitismo não seja um tema ideológico que estabeleça consenso entre os ideólogos integralistas. 1934.

O discurso ideolóqico tenderia a se propagar deuma maneira homogênea entre os diferentes níveis de militância. das virtudes militares). anticapitalismo internacional. . antimaçonaria. antiliberalismo. As principais obros sobre o fascismo europeu se limitam ao estudo da história. agrupadas segundo as diferentes dimensões referidas. mas procurava apenas verificar a existência ou não de um parentesco entre os dois universos ideológicos independentemente de qualquer relacionamento institucional. a determinar.. As. a simpatia pelo fascismo e o nacionalismo). No entanto. tradicionais. in . o nível de adesão dos integralistas às dimensões fundamentais da ideologia fascista. anti-socialismo. amizade. portanto. SOCIEDADE E POLÍTICA 329 liberal. _ . simbolizado pela convocação da Constituinte. entretanto. a AlB incorporou uma nova dimensão capaz de transformar a organização na pré-figuração do Estado integral. socialismo-nacional. disciplina. A determinação do índice de uniformidade ideológica demonstrou que o grau de homogeneidade ideológica dos integralistas era bastante elevado. sem descaracterizar a linguagem fascista. (89) Informações sobre o cálculo do Índice de Uniformidade podem ser encontradas Helgio Trindade. através de distribuições das respostas a cada uma das 71 questões. comparou-se a importância relativa de cada "motivação" com relação às três dominantes. Estrutura daNB O tipo de estrutura organizativa do integralismo é outra característica importante para definir a natureza do movimento. a organização daAIB é não somente um meio eficaz. através de análises estatísticas.328 HISr6RIA. O pre~s~posto r~!?"ionalera uma o:~anização a~toritári~ dis?o~do de m~os de sociclizor pohhcamente seus militcmtes. antiplutocratismo. A análise propunha-se. A organização integralista. cit. pp. mas um instrumento de elaboração e experimentação. na realidade tratava-se de uma hostilidade generalizada com relação a todos os regimes políticos republicanos.' determinar o teor do fcscismo. Geralmente as organizações políticas autoritárias se estruturam hierarquicamente com o objetivo de enquadrar eficazmente seus militantes. visão pessimista da história. já que 75% das respostas foram consistentes com o padrão esperado e somente em 15%dos casos ocorreu uma discrepância entre a ideologia da cúpula com relação à base da AIB (89). ordem. Os dados revelaram que as motivações mais fortemente associadas eram o anticomunismo e a simpatia para com os fascismos: dois terços dos que fizeram referências ao anticomunismo mostraram-se também favoráveis ao fascismo e a recíproca também era verdadeira para os três quartos de pró-fascistas. as relações entre o Chefe e os diversos órgãos estabelecem as bases de uma estrutura estatal. em escala reduzida. apesar da importância relativa da oposição ao governo atribuída pelos respondentes explicar-se pela conjuntura política. A análise do grau de identificação entre os ideólogos integralista e fascista não implicava em julgamento de valor sobre as relações porventura existentes entre a AIB e os movimentos fascistas europeus. Tratava-se. op. O instrumento de medida das atitudes foi estabelecido ci partir do núcleo de proposições ideológicas que tentava reduzir a ideologici fascista às dimensões básicas presentes no modelo fascista italiano. Neste sentido. como algumas dimensões do nacionalsocialismo alemão. . do Estado Integralista. supera esta função meramente instrumental: além da estrutura vertical e rígida. sob o controle de organismos de enquadramento e socialização ideolóqico. visão hierárquica da sociedade. formulando proposições capazes de exprimir os temas e valores fascistas e de os introduzir em uma linguagem que levasse em consideração o vocabulário ideológico atual. Este enfoque tradicional pode ser suficiente para o estudo dos movimentos cuja natureza ideológica era indiscutível. antiliberalismo) ou a valores espirituais. voltado para a ação política. corporativismo. de construir questões referentes a cada dimensão ideológica. Os resultados da pesquisa revelaram um alto grau de identificação dos militantes da AIBcom relação às diferentes dimensões do fascismo ideolóqico (em quase 2/3 dos casos o grau de concordênÍcia com cada questão era superior a 75%). valorização dos grupos naturais. "motivações" individualmente consideradas para estudar sua articulação com o conjunto de motivos indicados em cada resposta. O que se observou nas constelações de "motívoções" foi que elas se organizavam em torno de três núcleos principais constituídos pelos motivos mais freqüentes considerados isolcidamente (o anticomunismo. a mística da transformação social e a solidariedade face aos fascismos europeus. O tipo de organização. sacrifícios). o que está a demonstrar o quanto o integralismo deixou-se penetrar por um alto teor de conteúdo fascista em sua ideologia a ponto de ser assimilada por seus próprios aderentes em todos os níveis (88). A partir desta primeira observação. valores e preconceitos (antisemitismo. espirituais. ética fascista (fidelidade. Portanto.GERAL DA CIVIliZAÇÃO BRASILEIRA t. pp. parece indispensável integrar uma nova dimensão: a análise das atitudes ideológicas dos militantes. 264-280.nc ídeoloqío integralista 'vivenciada individualmente pelos militantes. O segundo aspecto da análise pretendeu ultrapassar a mera descríçõo dos. Os outros motivos indicados são representativos do universo ideólógico integralista. (88) Maiores detalhes vide in Helgio Trindade. quando o objetivo é determinar a natureza de um movimento de aparência fascista. do discurso ideológico ou da organização fascistas. pois. op. Neste contexto um outro aspecto cr-scrlientor e que reforça as observações anteriores refere-se à determinação do grau de homogeneidade ideolóqicodos militantes comparando-se as atitudes dos que têm responsabilidades nas direções nacional e regional com a dos militantes das bases locais. Com este objetivo elaborou-se um conjunto de proposições visand~ an~lisor as atitudes dos militantes através de oomportamentos verbais. Desta forma tornou-se imperiosa a ampliação do campo de abrangência do trabalho: possibilitando. mas influenciam pouco significativamente nas adesões: apenas um quarto dos integralistas aderiram por 'identificação a valores autoritários (disciplina.. exaltação dos valores autoritários. implantado num país periférico. dimensões ideológicas selecionadas foram as seguintes: nacionalismo. cit. 281-282.

funções. Segundo o autor. por exemplo. centralização personalizada no chefe e os elos burocráticos da estrutura vertical são elementos indissociáveis na organização do integralismo. Linz afirma que "sem a presença política organizada de seus tradicionais immiqos. ria sua opinião qualificada. Surpreendentemente na Argentina. base nas massas. sobre o fascismo 'numa perspectiva compcrctívu. que "movimentos fascistas capazes de alcançar uma. "houve certamente muitos outros movimentos (antiliberais.' houve relativamente poucos. comportamentos previstos minuciosamente pelos estatutos. INTEGRALISMO. foram capazes de alcançar alguns dos' setores da sociedade que. podemos apenas indagar mas não responder "por 'j (90) juan Linz. incorpora a Ação Integralista Brasileira em' sua análise. intelectuais e mesmo burguesias nacionais ri Portanto. O Partido Nazista do Chile aparentemente não teve o sucesso comparável ao do Integralismo. possivelmente ter-se-iam identificado com a ideologia. as atitudes ideológicas dos militantes. Neste sentido. como exemplifica o destino de Codreanu sob a real ditadura do rei Carol da Romênia. por sua vez. como estudantes. realizar uma experiência pré-estcrtnl ao nível da organização. com exceção do Integralismo de Plínio (embora sem alcançar o poder político). somente em uma democracia poderiam crescer e tornar-se ameaçadoras algumas das forças políticas. papéis. resoluções do Chefe e rituais: o caráter totalitário. 1976. a retórica e os símbolos do fascismo. a presença de colônias de italianos e. Bibliograpby). pp. IV. . INTEGRAllSMO 331 que na América Latina movimentos fascistas. 1976. governos autoritários já no poder ou a perspectiva de intervenção militar na política para assegurar algumas das metas perseguidas em outros lugares pelos fascistas. desde o Chefe até os militantes de base. a partir dos dados sobre as motivações de adesão. A organização integralista desempenha. O novo nacionalismo associado a certos setores da sociedade. em obra coletiva publicada em 1976. FASCISMO E A SOCIEDADE BRASILEIRA DOS " ANos 30 Juan Linz.cdemões (em parte identificados com os movimentos dominantes em seus países de origem) contribuíram para um conhecimento considerável do fascismo. mas. forma uma organização burocrática e totnlitórío. esvaziaram as oportunidades para tais movimentos. . no Peru. pois. Revista IFOI. Integral. Não deve ser esquecido que. devido à falta de pesquisas monográficas sobre o tema. In: W. California Press. inspirada no modelo teórico do 'Estado. inclusive regimes com essas características". tomou-se o primeiro partido de massa no Brasil.. com organização e.330 HISTÓRIA GERAL DA CNIllZAÇÃO BRASILEIRA " A estrutura da AIB. a explicação deve ser buscada em função de uma série de fatores que ele procura detectar no processo histórico latino-americano da época.. trabalhadores em empresas sob o controle estrangeiro. réforçando a linha"d~ interpretação. antidemocráticos. e partidos como o APRA. o fascismo não tinha razão de ser. a despeito e talvez por causa da força das ideologias da ala direita e grupelhos. podese concluir que a natureza da ideologia integra lista. O autor acrescenta que. a certas idéias fascistas. apesar das limitações de dados disponíveis sobre os movimentos de tipo fascista do continente sul-americano. "Some Notes Toward a Comparative Study of Fascism" in Sociological Histortcal Perspeaioe. inserese no universo ideológico' do fascismo europeu. nenhum grande partido fascista vingou na década de 30". a ligação da direita católica com o universo de idéias da Ação Francesa e a receptividade de muitos homens do governo às ideologias antidemocráticas européiastornasself mais difícil o surgimento de um verdadeiro movimento fascista em muitos países ibero-americanos. como a mexicana. o fascismo desenvolveu-se melhor sob condições de liberdade política e encontrou sempre sérias dificuldades em alguns regimes autoritários da Europa Oriental. constituir-se num instrumento de socialização político-ideológica dos aderentes. deve receber alguma atenção neste contexto. um movimento trabalhista proletário. "O Integralismo e o Fascismo Internacional". como o partido comunista. mas por sua presença explícita na visão ideológica dos militantes de base. em outras circunstâncias. uma tríplice função: fornecer oocheíe meios poderosos para dirigir o movimento. Indubitavelmente. Unív. Interpretations." Poder-se-ia também argumentar que algumas das revoluções nacionais populistas. reacionários ou populistas) (. Em muitos países. sob liderança burguesa.. "Certamente. Laqueur. com exceção do Intregralismo. não se tornaram uma grsrnde força polítíccr?"]") Entretanto. Porto Alegre. não apenas pelos seus componentes teóricos constatáveis na literatura doutrinária. a Falange Socialista Boliviana. os escandinavos ou os cidadãos do Reino Unido. Linz procura determinar os fatores explicativos do pouco sucesso desses movimentos que. apesar' de seus componentes extraídos da tradição autoritária brasileira dos anos 30. 138-139 V. Num texto posterior discútirú algumas questões mais amplas referentes ao fascismo na América Latina onde.o estilo característicos de seus correspondentes europeus. Não pode haver muita dúvida de que as idéias fascistas não enfrentaram democracias bem estabelecidas e sucedidas ou de que os latino-americanos não se sentiam tão comprometidos com os valores liberais-democráticos como. Um deles. Fascism a Reader's Cuide (Analyses. contra o qual os fascistas tentaram mobilizar certos setores da sociedade. . o grau de homogeneidade da difusão da ideologia entre cúpula e base do movimento e a estrutura rígida da organização. A burocracia da organização mcnííestcse através de Um complexo dê órgãos." Prosseguindo sua análise. o contacto constante de intelectuais da América Latina com a Europa. incluindo alguns partidos populistas. sobre o caráter fascista do Integralismo ("!). através das relações rígidas entre os órgãos de enquadramento disciplinado dos milítontes (desde as organizações dajuventude até a milícia) e da submissão autoritária e fidelidade aos superiores hierárquicos. (91) Juan Linz. ) e. Talvez a suscetibilidade de outros grupos políticos. transmitida através dos mecanismos de socialização política.

Eslováquia e Croácia. intelectual e atraiu forças sociais. enquanto a esquerda era aparentemente antifascista. Tampouco no contexto de um regime semi-autoritário. a AIB teve o mesmo destino de muitos outros movimentos fascistas. Certamente nunca tomou os temas neopagãos que encontraríamos na Alemanha e nos fascismos do Norte da Europa . mas não encontraram o tipo de camadas sociais em crise e desesperados violentos que a guerra tinha criado na Europa. afirmando que a Ação Integralista "semelhante a outros fascismos da Europa ocidental. dos movimentos fascistas do Báltico e. instítucionalízada num movimento populista nacional. dificultasse a união do nacionalismo cultural e econômico. Línz procura explicar as' razões do sucesso relativo do Integralismo e lança explicitamente a questão "Por que o fcrscismo no Brasil?" A busca de uma resposta' a esta questão. (95) Juan Linz.muitos aspectos essencialmente antifascista.nente fascista" e em . op. em 1931. a ala esquerda do foscismo espanhol. sucesso eleitoral e alianças com a situação para alcançar o poder esteve fechado a eles.o líder da JONS. . SOCIEDADE E POLfrlCA 333 emergentes poderiam encontrar outros canais.I") Análise de [uan Linz Estabelecidas as limitações de sua análise. A análise de Linz coincide. Ele atrai mais. artesãos ou agricultores. embora marginal ao sistema. o movimento surge em meio modernista e intelectual e. de maneira mais trágica e sangrenta. 139-140. particularmente o da Espanha.. Neste caso. mesmo ao fascismo italiano quando de seu surgimento. de alguma forma. enquanto a hegemonia econômica era exercida pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido. neste contexto caiba apenas "esboçar algumas poucas idéias que podem ser discutíveis. A combinação da violência política. em que o foco da explicação procura mostrar que na AlB se interpenetram a influêricia do modelo de referência externo do fascismo europeu com as condições favoráveis presentes no 'processo histórico brasileiro dos anos 30: "A ideologia integralista se elaborou num período de transição da evolução (92) juan Linz. tivesse observado que "no Espanha. As tensões na sociedade brasileira levaram aquela geração para diferentes canais políticos. antes de tornar-se fascista. Deslocando-se da análise comparativa para o contexto brasileiro dos anos 30. Estes tensões poderiam mobilizar muitos brasileiros. Juan Linz salienta o papel da crise político-cultural dos anos 30. Tratava-se mais de úma resposta cultural e política do que de uma expressão de interesses sócioeconômicos específicos. um núcleo inicial de intelectuais. Eles não eram capazes da mórbida e romântica violência da Guarda de Ferro. sob o Marechal Antonescu" (95). (93) juan Linz. . chama-se México". como na Legião Cearense do Trabalho.. a ausência de um partido católico. requeririam pesquisas mais sérias antes de poderem ser admitidos mesmo como hipóteses (92). op. com o advento do Estado Novo: "O Integralismo foi uma resposta generacional à crise da Velha República e às revoluções do início dos anos 30. considera. é bem diferente da atmosfera em que emergiu o Nacional-Socialismo Afemão. Neste contexto é interessante que Ramiro Ledesma Ramos. na ótica do autor. um novo programa de integração nacional e de reforma. A partir destas reflexões sobre a fraqueza de movimentos de. é um movimento que responde mais a uma crise política e cultural do que a uma crise econômica. pp. a direita era aparentex. o Integralismo nasceu em meio católico. Sem dúvida. como na Romênia. seu destino' estava selado. sobre como Inserir o Integralismo no amplo panorama dos movimentos fascistas. É preciso ressaltar que alguns dos temas que acabamos de apontar. mais tarde. a Falange Espanhola. ele escreve: "O fascismo que a pequena burguesia esquerdista pode desenvolver quando está cercada pelo marxismo. op. o que poderia' contribuir para explicar seu aparecimento e relativo sucesso't. explica o fascinio de cunho religioso do movimento" (94). Em contraste com outros fascismos. sob uma bandeira antidemocrática... 141. do que uma pequena burguesia de negociantes. de certa forma. começando a ser mobilizado pelo catolicismo. No contexto desta paradoxal análise. profissionais e militares. p. (94) Ibid. o autor sugere uma interpretação capaz de explicar a significativa ascensão da AIB e seu posterior fracasso. nisso. cit. ) talvez o fato de que o poder da hegemonia intelectual na América Latina dos anos 30 estivesse ainda sob a influência da França. e quando não tem um forte pensamento nacionalista. e.332 HISTÓRIA GERAL DA CIVIliZAÇÃO BRASILEIRA t. mas possuía certas possibilidades de fazer carreira política dentro do sistema. como é o caso aqui. a' qual tentara implantar. a revolução mexitana. não era um estranho ao processo político. num contexto um tanto estranho. p. da Guarda de Ferro.inspiração fascista na América Latina..nacionalismo e a religião podiam fundir-se devido às singulares circunstâncias históricas. e a alguns da França e. poderiam transformar-se em um partido eleitoral de massa. sob o Rei Carol e. cujo sucesso foi interrompido por regimes autoritários: o destino do sindicalismo nacional português. Como o Fascismo Italiano e. esse fascismo tem um nome que não é invejável. Uma vez que o autoritário regime de Vargas foi institucionalizado no Estado Novo. essencialmente fascista. com a vinda da Rep6blica. Este texto escrito em 1935. com a visco do movimento integralista inscrita na conclusão de meu trabalho de tese. somentevpode ser feita em uma perspectiva sistemática compcrcrtívc". em suas linhas 'gerais. referindo-se à peguena burguesia republicana. onde o . excluídos os do sudeste da Europa. e talvez o fato de que na República os católicos ocuparam relativamente uma posição marginal. 14~ . ainda que ele considere que.. cit. cit. Seu líder. em consequência disso. (. como é o caso da Espanha. em muitos aspectos e aspirações. como uma alternativa funcional ao fascismo.

sociais e políticos com a crise ideológica das elites intelectuais. marcada 'pela revolução soviética e a contra-revolução fascista.: o anti-semitismo de inspiração nccíoncl-socíohstc. apesar das chvagens ldeolo!. o Integralismo .modernista pôs em questõo os valores estéticos tradicionais e a renovação católica atingiu amplas camadas intelectuais. Não foi obra de um só homem. A fascinação pela experiência fascista na Europa e o surgimento dos movimentos de extrema-direita no Brasil conduzirão Salgado a fundar a Ação Integralista com o objetivo de influir 'sobre os rumos ideológicos da Revolução de 1930.um. (95) Helgio Trindade.que acreditava responder às as~ir~~ões de . ctt. . op. estilo do Chefe e rituais não se podem explicar sem levar em consideração a influência do modelo de referência externo. nesta época. incorpora numa nova síntese. Desta forma. . que se acentuou no após gúerra.. A formação de. associados à luta contra u~ i~imi. transformará esse movimento na primeira orqcmízoçõo de ~~~sa no BrasiL É verdade que seu conteúdo ideológico se apoiou amplamente no Icscísmo europeu. sob o impacto de uma nova situação internacional. a análise da Ação Inteqrclístcr nos leva a concluir que sua natureza. A consciência nacionalista. anos 30" (95). encontrava-se no centro dessas tensões sócio-políticas e dessas inquietudes ideológicas. a influência dos fascismos europeus é essencial para explicar a natureza da. o estatismo romano e o corporativismo do fascismo italiano. esses dois elementos doutnnanos de convergência do Integralismo. foi outra. 288·289. como também entre certos segmentos da classe trabalhadora. colocou sua energia ao serviço da revolução literária que o incitará ao engajamento político. Os conflitos sociais do após Primeira Guerra e o ciclo de insurreições 'tenêntístcs' constituíram a infra-estrutura. . como um pesadelo dos. tais condições surgem durante a evolução histórica entre duas guerras mundiais pela conjugação dos conflitos econômicos. faz do Integralismo uma ideologia eclética. sob diversas formas. que o Integralismo tenha sido exclusivamente um mimetismo)deológico. entretanto. A adesão ao fascismo de setores importantes da população e a aceitação de sua organização paramilitar. Desiludido da República liberal. p. porém. . de salvaguardar a unidade do Integralismo. Contudo. à insatisfação das classes médias civis e militares em ascensão provocaram crises sucessivas no sístemo político da Primeira República. O papel conciliador do chefe integralist~ teve o. Não se pode dizer. A mutação da sociedade brasileira. organização hierárquica. mesmo que fosse um visionário. Sem excluir a existência de outras formas possíveis do' fascismo latu sensu na América Latina. fundado sobre o messianismo místico " do destino histórico da nova raça mestiça.:!lcas existentes desde seu nascimento até sua dissolução.u~ jovem país e aberto às influências . desenvolveu-se. engendrou novas contradições entre as Classes sociais em ascensão. mas nasceu de uma sociedade' em transição. A realidade.334 HISTÓRIA GERAL qA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA INTEGRALlSMO 335 político-econômica e cultural da sociedade brasileira. Enraizado num nacionalismo telúrico. O nacionalismo e o espiritucrlismo. A rápida ascensão do integralismo e sua penetração ideológica no seio das classes médias. A diversidade de movimentos autoritários na Europa influenciando o Brasil.go c~m. Ação Integrafista: O fenômeno fascista. a revolução . mer~to. a ideologia·integra. nõo. católico e republicano desde sua juventude. O chefe integralista emergia do confronto dessas contradições. permitiram a coexistência num único movimento de tendêncios ld~l~glcas justapostas. entre as duas guerras. que conduziu à crise ídeolóqícc dos 'elites intelectuais.foi rejeitado pela história brcsíleírc. o tradicionalismo social e religioso do Integralismo lusitano e do salazarismo. Nacionalista. pois. pode ser considerado na ccepçõo ampla do termo (como todo movimento de reação contrarevolucionária tendendo a impor uma estrutura de dominação totalitária).. com um discurso ideológico e uma organização nacionais.se explicam sem condições internas ícvoróveísr-Nc realidade. um proletariado industrial. teria podido se desenvolver no Brasil.

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