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  • 162 Ética profissional . Lopes de Sá

ofertas indiscriminadas de "pacotes de propostas,,, com rórulos mercadoió-

gicos, invadem com a utilidade.

os mercados de se^riços e de bens, sem nenhum compromÍsso

Apresentam-se ideias antigas, fracassadas em suas épocas, mas com outra

rotulagem, cercadas de vasta propaganda e Ìiteratura (como o caso da ,,reen-

genharia", para citar-se um só

exemplo), preocupadas apenas com a

,venda

de serviços", pâÍâ promoverem receitas profissionais, sem responsabilidades em relação aos efeitos sociais das medidas derivadas. Planos econômicos são elaborados para efeitos políticos, sem atenção aos

danos sociais que causam, sobrepondo interesses monetários àqueìes humanos

e do bem-estar. Vendem-se pareceres profissionais para certificar siruações está-

veis de empresas onde plena instabiÌidade, atos de comrpção e decadência,

Todo esse quadro de atentados das profissões ao ambiente social, praticado

em

todos os níveis e em todas as classes, não por todos, mas por gïupos mino-

dominantes, mostram-nos a distância entre o ideal social e o egoísmo

ritários

acentuado no desempenho de um trabaiho de cunho apenas lucrativo e de

proveito indiüdual.

Essa mesma faÌta de responsabitidade e de visão:para com o social rambem se espelha na elaboração e aprovação de leis, como amplamente e há mais de um sécuio11já reclamava e expunha spencerl2 em seus trabalhos. outra questão delicada, em face do social, diz respeito à filosofia que um

Estado segue, impelido pela decisão totalitiíria de grupos do poder, deixando-se

guiar por'\rerdades relativas", ou "critérios de conveniência política,,. o movimento das cruzadas, na Idade Média, e as Guerras Mundiais, na

Idade contemporânea, são apenas dois entre miríades de exemplos

que pode-

riam ser evocados para evidenciar que o destino dos povos nem sempre segue

um puro interesse moral e que o social

pode estar encasulado "

..

r,rolrrido

po,

essas "bandeiras de verdades aparentes',. como conceber o verdadeiramente moral perante a nação, perante o Esta- do, perante a sociedade, perante a humanidade, é um tema deveras complexo. Não duüdo que o Ético perante o Estado deva ser encontrado dentro de

uma filosofia de virnrdes, de prática do bem, de encontro com

a feiicidade,

como preconizou Aristóteles, ou com o prazer, como admitiu Benúam, mas

1l

L2

Herbert Spencer nasceu em 1g20 e faleceu em 1903. SPENCER, Herben. O indívíduo e o estado. Salvador: progresso, s.d. p. 37.

Éticaèprôíissão 163

custa-me aceitar que aS "bandeiras" ou "filosofias subjetivas de grupos do

  • ló- podet'' possam ser a parametria verdadeira do social, do que se deve aspirar como conduta humana.

;SO

ffa

A contribuição

e, quando

profissional, todavia, é, muitas vezes, compulsoriamente

está,de acordo com a lei (e esta o poder manipula como

  • 3n- exigida

Lda

deseja), ganha aparência de ética, mas, na essência, duvido que Possa ser

les

aceita como taì.

Entre a vontade ética, aquela da concepção de Kant, de Espinosa, e aquela

ìos

que se toma para satisfazer tais "bandeiras", parece-me existir um conflito

10s

.*l

Ld,-

r

ria.

ideológico de Profundidade.

Até que ponto a vontade do ser, para ser ética, deva seguir os princípios de uma ciência ou de uma vontade exigível que se ajusta ou amolda a critérios

rdo

de conveniências de í'bandeiras" políticas, mascarada como sociai, em um

  • no- momento histórico, entendo como valioso distinguir-se, pois custo a aceitar a referida mescla.

mo

de

Em meu modo de entender e conforme a circunstânci4 se o política fere

os princípíos éticos, estabelecid"os pela ciência, o que nuse senddo se produzir

ém

rde

um

)-se

,o^o ,oiduta, pode ser do interesse do Estado, mas não o seró' daquele socíaL,

em sentido absoLuto. Ou seja: pode ser bom para o Estado mas não o ser para

os indMduos.

As linhas ence a conduta perante a nação e aquela perante os princípios científicos da Édca, nesse caso, e também entÍe os próprios interesses sociais

(que em tese devem coincidir com os do Estado, embora isto nem semPre

na

ocorra), Parecem-me ;írduas de traçar.

  • ,de- euesriona-se

gue

tífica ou a uma

até que ponto o profissional deve atender a uma Ética cien-

conduta volüda ao cumprimento das ieis de seu país (que

por

espelham a política do governo das minorias dominantes, segundo Toffler, na

atualidade).

  • sta- É absolutamente justo e criterioso admitir-se a vontade ética voivida a

lxo.

rde

rde,

mas

realizar uma conduta em prol do social, mas o que entender verdadeiramente por social faz-se exigível para uma orientação sadia.

Não se trata de fazer apologia de uma desobediência ciü1, mas de reconhe-

cer que o poder, nas mãos de minorias dominantes, muito tempo, em quase

todo o mundo, deixou de praticar uma política verdadeiramente em favor da

sociedade, e isto se Comprova pelas estatísticas que indicam o progresso da

miséria no mundo, paralelamente a um progresso da má distribuição da renda.

  • 164 Ética proíissional Lopes de Sá

As

profissões que derivam da aplicação de conhecimenros classificados

homem,13 diante das rearidades contemporâneas, encontram

como sociais, do

sérias dificuldades. Tais barreiras

evidenciam-se inclusive diante de sentenças e de acórdãos,

reberam contra u, propiuì reis aprovadas peÌo

são autênticos gritos de evocações morais,

legislativo e do executivo que consideram

de juízes e de ribunais que se

governo, produzindo decisões que

diante de uma ambiência polírica do volüda contra o interesse do povo.la

outras vezes, tais rebeldias têm-se

consubstanciado na desobediência cirnÌ

ética profissionar (como a que exigia

diante de medidas do governo que ferem a

dos Contadores a delação de seus clientes ao fisco;.rs

Tais atitudes exemprificadas são bastante evidentes

para comprovar a tese

éticos, não devemos

o Estado

com a

de que na conduta humana, na aplicação dos preceitos

negar nossa parcela de cooperação ao social, nem confundir

sociedade, nem um Soverno com o próprio sentimento individual e nacional,

Não podemos negar que o

Estado nasceu de uma vontade das sociedades

menor verdade que a autoridade e o poder

nem sempre se têm comportado dentro

de se organizarem, mas não é

exercidos em nome de tal instiruição

dos interesses das próprias sociedades.

o objetivo do

Estado é o bem público, mas nem sempre os

dirigentes,

cumbidos de cumprir tais

in_

propósitos, se comportaram dentro de uma filosofia

sadia e modvadora da ética.

o direito

pode legitimar um poder e esre regirimar ouÍas

sìruações de

os princí-

direito, mas nada

pios éticos' Não se

disso legitima a conduta que ,ã pro."rr" contra

confundem, pois, as formás leguis com as essências édcas,

uma cohsão entre as ações do poder e aquelas da real

e nisso pode residir

prática das ürftrdes.16

r3 Entre as

ra Traça-se'

como jusriça.

quais se inserem a contabüidade, a Administação, o Direito, a Economia etc.

no caso' um divisor de águas enüe o que faz o Estado e o que interessa à sociedade

rs Ta-l medida, rompedora da

Ética,

motivou, também- de minha parte, pronunciamentos

éricos, eüdenciando

modvaram a classe a observar seus deveres

que

desconsiderava os direitos indiüduais que a Coistitoição garante,

.exorúirância do Estado, que

:J:gr*:;:ïi;Hã::ijado

irreaÌidades consagradas em leis,,ou seja, com forma regal,

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ËticaeproÍissáo 165

A obrigação

i posta peio poder.

ética não se confunde, entendo, com a obrigação ]egal, im-

'

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i

'

A ideia de um Estado infalível,

ideaimente perfeito, tem-se comprovado

seja

osJq q

a de

uç uma organização

ulrld

urË,curtzdçao gflcaz, pOlS

eficaz,

pois

socia_i qìr.

porr"

coordenar e

uma

utopia, r embora a meta a alcançar

o desejável está em possuir-se uma macrocélula

ensejar a überdade, o crescimento e o bem-estar de todas as demais.

'

o social em si, o Estado como decorrência do social, as classes, os gï1rpos e

as relações próximas entre os seres criam deveres éticos específicos e definidos

em relação à conduta relativa a cada um.

Uma sociedade absolutamente eficaz e um Estado

iguaÌmente eficaz são

abstrações que a teoria ileve buscar nas configurações tËóricas, nos modelos

a serem construídos para as condutas.

A realidade, entretanto, mostra-nos, também, que não existem sociedades

constituídas total e exclusivamente por virtuosos, nem só por células sociais

eficazes.

Tarefa da ciência ética e das ciências sociais é conribuir

para que tais

estágios desejáveis sejam aicançados, pelo menos, quase totalmente.

Isto implica a produ$o de modeÌos científicos que podem ser construídos

para que sejam paradigmas de uma nova sociedade,

conquistada

pelos esforços

do aperfeiçoarnenro das condutas e da consecução da fericidade.

Nõo se trata de duejos vãos, como

equivocadamente admitíuRusseil, mas

para uma convívêncía

competentes para a

vícioi, como

de xforços da razão no sentido d.a produç:ão d.e axiomas

humana fundada em crttérios de condutas e procedimentos

consagração do respeito humano e davítóia do amor sobre tod.oi os

Espinosa sonhou em sua modéstia de vídq mas em sua grand.eza d.e arma.

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  • I I ci"tl

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