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MORGENTHAU, Hans. Politics among nations: the struggle for Power and Peace.

Mc
Graw Hill, 1985, Part II, p. 20-112.
* Por Vivian Graça Barcellos Barreira

Hans Joachim Morgenthau nasceu numa pequena cidade da Alemanha, Coreburg,


em 1904, mas também estudou em Frankfurt e Munique. Seu pensamento foi
primeiramente influenciado por Nietzsche, Max Weber, Hans Kelsen, Carl Schmitt, and
Rienhold Niebuhr. De origem judia e com poucos recursos, deixa a Alemanha em 1932,
com vistas a um emprego em Genebra, na Suíça. Vive, depois disso, em algumas cidades
da Europa, sem nunca voltar à Alemanha. Parte para os Estados Unidos, em 1937, fixando-
se lá e tornando-se professor no Brooklyn College, na Universidade do Kansas e na de
Chicago – nessa última, sua obra conheceu maior impacto. Mais tarde, liga-se ao City
College de Nova Iorque e ao New School for Social Research. Publicado originalmente,
em 1948, A política entre as nações foi reeditada seis vezes. Todas as vezes, exceto a
última recebeu modificações do seu autor – a última foi pouco modificada pelo seu pupilo
Keneth Thompson e que segundo ele, acordando com os
escritos do próprio Morgenthau. A edição que foi
utilizada nessa resenha foi exatamente a última, a de
1985.
É o coração do homem cheio do desejo de
dominar o outro homem, e isso acontece nas relações
entre a própria família e entre os estados. Quem não
pensa assim é, então, desde já, um dominado. Uma idéia
tão forte e pessimista sobre a natureza imutável do ser humano fez com que Morgenthau
fosse criticado por ter se esquecido do valor da moral. Entretanto, ele não se esqueceu dela,
só pareceu estar ressentido de que ela não existisse verdadeiramente. O que existia, para
ele, era o engodo, o engano, a ideologia política que esconde a verdadeira natureza das
ações políticas. Não é à toa que na arte e na filosofia, como já diz o nome, o realismo está
impregnado do que é verdadeiro. O que é bom, justo e belo não pode ser para todos e
portanto, já não é tão bom, justo ou belo. Espírito lúcido e felicidade são duas coisas que
poucas vezes andaram juntas em escritos literários. Por isso, o livro de Morgenthau parece-
nos tão revoltante. Magoa o que há de melhor em nós e o estrago teria sido pior se depois
dele e graças em parte a ele, outros escritos realistas sobre a teoria das relações
internacionais não tivessem aparecido e nos acostumado às idéias da anarquia e do
interesse. É mais ou menos parecido com o que nós sentimos sobre a arte moderna
atualmente; se Duschamp não tivesse exposto um mictório ou se Pollock não tivesse só
jogado as tintas na tela, a arte contemporânea não estaria livre para ser qualquer coisa para
então depois não ser só aquilo. Talvez não faça mais sentido crer só no realismo, mas só é
assim, porque ele existiu e se desdobrou.
O argumento principal de A política entre as nações é que a maneira como se
acham as relações entre os estados é passageira, a luta pelo poder se dá diariamente e ainda
quando estados mantém uma relação pacífica, o objetivo principal deles com isso é cuidar
de si próprios. Como conseqüência desse modus vivendi dos estados, ele estabelece duas
assertivas que caracterizam o campo das relações internacionais: a ascensão ao poder e o
conflito generalizado. Mas isso, segundo ele, pode ser evitado através da balança do poder
e de uma política diplomática sábia.
Em resumo, é só o interesse e qualquer coisa além disso é só para encobrir suas
reais propostas ante os olhos de outrem. Não importa se para isso fale-se em defesa da paz,
direitos e “naturalidade das coisas”, ainda é interesse, ainda é uma luta pelo poder, uma
estratégia do convencimento. Em qualquer lado que você esteja, o lado dos bons ou dos
maus, é o “seu” interesse que prevalece, a sua vontade de sair-se melhor que os outros que
ordena seus pensamentos ou ações. Então, se é assim, será que é possível uma divisão entre
os bons e maus estados? Entre as ações morais e imorais dos estados? Entre um sistema
internacional justo e injusto? Não, para Morgenthau e os demais realistas depois dele. Sim,
para muitos mais outros:

“É um aspecto característico de todas as políticas, domésticas bem como


as internacionais, que frequentemente suas manifestações básicas não
aparecem como o que elas são na verdade – manifestações de uma luta
pelo poder. Melhor, o elemento de poder como o objetivo imediato da
política almejada é explicado e justificado em termos éticos, legais e
biológicos. Isso tudo para dizer: a verdadeira natureza da política é
escondida por racionalizações e justificações ideológicas.” (p. 80)

O poder está em tudo. Mesmo que o que se queira não seja exatamente poder,
como fazer para consegui-lo, senão através de suas próprias forças? A única resposta
possível é que alguém possa dá-lo a você de muita boa vontade. Judeu e sem muito
dinheiro – é claro que a condição de marginalizado de Morgenthau pesou sobre os seus
escritos realistas. Mas, seria, então por isso, uma mentira ou uma meio-verdade o que ele
diz? Logo ele, que só quis perseguir a “verdade”. 1 E se o realismo se propõe a mostrar a
verdade, é porque essa simplesmente está lá mas nem todos podem ver. Isso porque as
crenças realistas não estão nos discursos dos homens de estado, dos ideólogos ou dos
homens de fé, mas elas só existem porque existe um mundo real que não é contemplado
por esse mundo dos discursos. Para Morgentau, ninguém fará você livre ou próspero, a não
ser, é claro, que seja do interesse dele. O que vale para os homens vale também na relação
entre os países.

“Política internacional, como todas as políticas, é uma luta pelo poder.


Qualquer que sejam os propósitos finais da política internacional, poder é
sempre o propósito imediato. Homens de estado e povos podem procurar
essencialmente liberdade, segurança, prosperidade ou poder por si só.
Eles podem definir seus objetivos em termos de um ideal social,
econômico, filosófico ou religioso. Eles podem esperar que esse ideal se
materializará através da sua própria força interna, através da intervenção
divina, ou através do desenvolvimento natural das relações humanas. Eles
podem também tentar ir mais além na realização de meios não políticos,
tais como cooperação técnica com outras nações ou organizações
internacionais. Mas quando eles lutam para realizar seus objetivos por
meios de política internacional, eles o fazem lutando pelo poder.” (p. 20)

Mas se o mundo é cercado pela luta de poder; se todos, realmente todos, querem o
poder, por que então o mundo não vive mais em guerra do que o de costume? Justamente,
porque todos querem o poder. O que leva a paz é o equilíbrio da balança de poder. Quando
o país hegemônico tem seu poder contrabalanceado pelo de um outro ou mais países, então
a defesa garantida impede mesmo o ataque:

“Realists do not believe that we live in a bandwagoning world. On the


contrary, realists tend to believe that we live in a balancing world, in
which, when one state puts its fist in another state’s face, the target
usually does not throw its hands in the air and surrender. Instead, it looks
for ways to defend itself; it balances against the threatening state
(Realistas não acreditam que nós vivemos em um mundo que transporta
uma banda de música. Pelo contrário, realistas tendem a acreditar que nós
vivemos em um mundo que se contrabalança, quando um estado coloca
seu dedo na cara de outro estado, o alvo geralmente não estende suas
mãos no ar e se rende. Ao invés disso, ele procura por meios para
defender a si mesmo, isso contrabalança contra o estado ameaçador).”2

1
Cf. Keneth Thompson sobre a busca da verdade de Morgenthau no prefácio à 6ª edição.
2
John Mearsheimer (2005).
Morgenthau cita aqueles que acreditam que, ao contrário dele, a luta pelo poder
pode ser eliminada. Esse pensamento teria surgido no século XIX, com a chamada doutrina
da harmonia de interesses. Esse utopianismo científico encontrou refúgio nos Estados
Unidos e sobreviveu até bem depois da I Guerra Mundial nos assuntos que tangiam as
relações internacionais. Os marxistas, por sua vez, crêem que no socialismo não haverá
guerras. Esses utópicos, pensa Morgenthau, vivem à procura de uma fórmula mágica, e de
um dia e uma oportunidade para usá-la. Recobertos pelos princípios de cientificidade,
perfeição moral e política apareceram ligados, para esses:

“O uso do método científico em política, no qual a mente moderna foi


liderada pela percepção da experiência liberal, foi e é uma falácia em
política interna. Há, entretanto, o mecanismo refinado da pressão política
e auto-interesse serve como uma restrição automática sobre o excesso
doutrinário”. (p. 72)

Sobre a ordem internacional, Morgenthau ressalta, ainda, que é muito menos


instável do que a ordem política doméstica. No jogo da primeira, pode-se vislumbrar três
estratégias diferentes: a para manter o poder (status quo), para aumentar o poder
(imperialismo) e para demonstrar o poder (prestígio).
Morgenthau errou sobre a durabilidade da hegemonia norte-americana. Ele não
acreditava que fosse durar tanto. Mas, ele acertou quando previu que a Guerra do Vietnã
seria um fracasso na vida política dos Estados Unidos. Mais importante que os erros e
acertos de A política entre as Nações é relevância desse livro que nasceu clássico, abriu as
portas da percepção já que depois dele passou-se a ver o que antes não se via e permanece
leitura fundamental no domínio das relações internacionais.

Bibliografia:

LOCATELLI, Andrea. Reading’s suggestions: Hans J Mongenthau’s Politics among


nations. Disponível em www.webasa.org/Pubblicazioni/locatelli_2003_1.pdf Acessado
em 20/05/2009.
MEARSHEIMER, John. Hans Morgenthau and the Iraq war: realism versus neo-
conservatism. Disponível em www.opendemocracy.net/democracy-
americanpower/morgenthau_2522.jsp Acessado em 20/05/2009.