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ORIGINAL PAPERS

O DESENVOLVIMENTO INICIAL DA SEXUALIDADE FEMININAi[1]


(THE EARLY DEVELOPMENT OF FEMALE SEXUALITY)

de ERNEST JONES

Por mais de uma vez Freud comentou que nosso conhecimento quanto aos
estágios iniciais do desenvolvimento feminino é muito mais obscuro e imperfeito que
aquele do desenvolvimento masculino, e Karen Horney apontou de forma enérgica,
porém justa, que isto deve estar associado a vieses existentes na questão precedente.
Essa tendência ao preconceito provavelmente é comum aos dois sexos, e seria desejável
que todo aquele que escreve sobre o assunto mantivesse a questão em mente, todo o
tempo, em primeiro plano. Melhor ainda, espera-se que a investigação analítica ilumine
gradualmente a natureza deste preconceito e termine por dissipá-lo. Há uma saudável e
crescente suspeita de que os analistas homens são levados a adotar uma visão
falocêntrica injustificada dos problemas em questão, sendo, em contrapartida,
subestimada a importância dos órgãos femininos. As mulheres por seu lado
contribuíram para a mistificação geral com sua reserva acerca de seus próprios genitais
e por mostrarem uma preferência dificilmente disfarçada quanto ao interesse no órgão
masculino.
O estímulo imediato para a investigação na qual que este artigo principalmente
se baseia é proveniente de uma experiência incomum, há alguns anos, de ter em análise,
ao mesmo tempo, cinco casos de homossexualidade manifesta em mulheres. As análises
foram todas profundas e duraram de três a cinco anos, tendo se completado em três dos
casos e conduzido a um estágio mais avançado nos outros dois. Dentre numerosos
problemas então incitados, dois em particular podem servir como pontos de partida para
considerações que gostaria de fazer aqui. São os seguintes: O que precisamente
corresponde na mulher ao temor de castração masculino? O que diferencia o
desenvolvimento da mulher homossexual do desenvolvimento da mulher heterossexual?
Vamos notar que as duas questões estão estreitamente ligadas, sendo que a palavra
“pênis” indica o ponto de conexão entre elas.
Alguns poucos fatos clínicos sobre os casos podem ser de interesse, embora não
pretenda relatar material casuístico. Três das pacientes estavam nos vinte anos, duas nos
trinta. Apenas duas tinham uma atitude inteiramente negativa a respeito dos homens.
Não foi possível estabelecer alguma regra específica quanto à sua atitude consciente na
relação aos pais: toda variação ocorreu, negativa com o pai e ou negativa ou positiva
com a mãe, e vice-versa. Nos cinco casos, entretanto, comprovou-se que a atitude
inconsciente quanto aos pais era de forte ambivalência. Em todos os casos havia
evidência de uma incomum e forte fixação infantil com relação à mãe, em nítida
conexão com a fase oral. Isso sempre se seguia a uma forte fixação ao pai, fosse de
modo temporário ou permanente na consciência.
A primeira das duas questões mencionadas acima pode ser ainda formulada
como se segue: quando a menina sente que já sofreu a castração, qual evento futuro
imaginado pode evocar um temor proporcional ao temor de castração. Na tentativa de
responder a esta questão, ou seja, para dar conta do fato de que a mulher sofre do temor
de castração, tanto quanto o homem, cheguei à conclusão de que o conceito de castração
embaraça em alguns aspectos nossa consideração acerca dos conflitos fundamentais.
Temos aqui de fato um exemplo do que Horney indicou como preconceito inconsciente
na abordagem de tais estudos, que predominantemente partem do ponto de vista
masculino. Em sua esclarecedora discussão do complexo do pênis na mulher,
Abrahamii[2] observa que não havia razão para não se aplicar o termo castração ali, tal
como para o homem, pois desejos e temores a respeito do pênis de uma ordem paralela
ocorrem em ambos. A concordância com esta afirmação não implica em menosprezar as
diferenças nos dois casos, nem deveria nos deixar cegos quanto ao perigo de colocar em
um caso considerações que já nos são familiares no outro caso. Freud observou
justamente em conexão com os precursores pré-genitais da castração (o desmame e a
defecação, apontados por Stärke e eu mesmo, respectivamente) que o conceito
psicanalítico de castração, enquanto distinto do correspondente biológico, se refere
claramente ao pênis isoladamente- os testículos sendo no máximo incluídos em adição.
Hoje a falácia a que quero dar atenção aqui é isto. A parte propriamente
importante, normalmente representada na sexualidade masculina pelos órgãos genitais,
tende a nos fazer igualar a castração com a abolição conjunta da sexualidade. Esta
falácia freqüentemente se insinua em nossos argumentos, mesmo sabendo que muitos
homens anseiam por ser castrados por razões eróticas entre outras, tal que sua
sexualidade certamente não desaparece com a renúncia ao pênis. Com mulheres para
quem a idéia do pênis em si mesma é sempre parcial e na maioria das vezes de caráter
secundário, isto deveria ser ainda mais evidente. Em outras palavras, a proeminência de
temores de castração entre os homens nos leva com freqüência a esquecer que em
ambos os sexos a castração é apenas uma ameaça parcial, apesar de séria, contra a
capacidade sexual e de prazer como um todo. Para o desastre completo da total extinção
faríamos bem em usar um termo diferenciado, tal como a palavra grega “aphanisis”.
Se procurarmos pelas raízes do medo fundamental subjacente a todas as
neuroses, somos levados, em minha opinião, à conclusão de que isso significa de fato a
afânise, a total, e permanente extinção da capacidade (incluindo-se a oportunidade) para
a fruição sexual. Afinal de contas, esta é a intenção conscientemente admitida da
maioria dos adultos em relação às crianças. Sua atitude é inflexível: não é permitida às
crianças nenhuma gratificação sexual. E sabemos que para a criança a idéia de um
adiamento indefinido é o mesmo que uma recusa permanente. Não podemos esperar, é
claro, que o inconsciente, com sua natureza altamente concreta, vá expressar-se por si
mesmo para nós nesses termos abstratos, que representam uma clara generalização. A
aproximação mais estreita que encontramos da idéia de afânise na clínica é a idéia da
castração e os pensamentos de morte (temor consciente e desejos inconscientes).
Poderia citar o caso de obsessão em um jovem que ilustra o mesmo ponto. Ele havia
substituído como seu summum bonum a idéia de prazer estético por aquela da
gratificação sexual, e seus temores de castração tomaram a forma de apreensão no
receio de perder sua capacidade de obter esses prazeres, entre eles, é claro, a idéia
concreta da perda do pênis.
A partir deste ponto de vista podemos ver que a questão em discussão foi
colocada erroneamente. O medo masculino de ser castrado pode ou não ter uma
contrapartida feminina precisa, mas o que é mais importante é poder entender que este
temor é um caso especial e que ambos os sexos temem afinal a mesma coisa, a afânise.
O mecanismo através do qual se supõe ser causada mostra importantes diferenças entre
os dois sexos. Se negligenciarmos aqui a esfera do auto-erotismo – na inferência
justificável de que os conflitos aqui devem sua maior importância a catexias alo-eróticas
subseqüentes – confinando nossa atenção ao alo-erotismo em si, poderemos dizer que a
reconstrução da trilha de pensamento do homem seria como se segue: “desejo obter
gratificação cometendo um ato em particular, mas não ouso fazê-lo pois temo que a isso
se seguiria a punição da afânise, por castração, o que significaria a extinção permanente
para mim do prazer sexual”. O pensamento correspondente na mulher, com sua natureza
mais passiva, é caracteristicamente algo diferente: eu desejo obter gratificação através
de uma experiência em particular, mas não ouso dar nenhum passo para provocá-la, tal
como pedir por ela, o que implicaria em confessar meu desejo culposo, porque temo que
ao fazê-lo se seguiria a afânise. É bastante evidente que essa diferença não é não apenas
invariável, mas é em qualquer evento uma diferença de grau. Esta não é, entretanto, a
maior diferença no tom, outra de maior importância depende do fato de que, por razões
fisiológicas óbvias, a mulher depende mais de seu parceiro para sua gratificação que o
homem de sua parceira. Vênus teve mais problemas com Adonis por exemplo, que
Plutão com Perséfone.
A última consideração mencionada traz a razão biológica para a mais importante
diferença biológica no comportamento e na atitude entre os sexos. Conduz diretamente
à maior dependência (como distinta do desejo) da mulher em relação à disposição e
aprovação moral do parceiro do que a verificada habitualmente com o homem na
sensibilidade correspondente que ocorre diante de um outro homem que representa uma
autoridade. Conseqüentemente verificam-se entre outras coisas, as reprovações mais
características e a necessidade de aprovação da parte da mulher. Entre importantes
conseqüências sociais as seguintes podem ser mencionadas. É bem sabido que a
moralidade do mundo é essencialmente uma criação masculina e, o que é mais curioso,
que os ideais morais das mulheres são principalmente copiados dos ideais dos homens.
Isto deve ser ligado com certeza ao fato, apontado por Helen Deutsch iii[3], de que o
superego da mulher é, como no homem, predominantemente derivado das reações ao
pai. Outra conseqüência, que retoma nossa principal discussão, é que o mecanismo da
afânise tende a ser diferente entre os dois sexos. Enquanto que com o homem é
tipicamente concebido sob a forma ativa da castração, na mulher o medo aparece
primariamente sob a forma do medo da separação. Isto pode ser imaginado como algo
que vem através da interferência da mãe rival entre a menina e o pai, ou mesmo com o
afastamento definitivo da menina, ou simplesmente pela recusa de satisfação por parte
do pai. O medo profundo de ser abandonada que a maioria das mulheres tem deriva
deste último.
A respeito desse ponto é possível obter pela análise de mulheres um insight mais
profundo que nas análises dos homens quanto à importante questão da relação entre
privação e culpa, em outras palavras, da gênese do superego. Em seu artigo sobre a
ultrapassagem do complexo de Édipo, Freud sugeriu que isso se dá na mulher como
resultado direto do contínuo desapontamento (privação), e sabemos que o superego é
herdeiro deste complexo tanto na mulher quanto no homem, onde é o produto da culpa
derivada do temor de castração. Segue-se algo que minha experiência analítica confirma
totalmenteiv[4], a privação vem, em ambos os sexos obviamente, com o mesmo
significado que uma destituição por parte do meio ambiente humano. Chegamos
portanto à fórmula: A privação é equivalente à frustração. É mesmo provável, conforme
pode ser inferido nas notas de Freud sobre a passagem da mulher pelo complexo de
Édipo, que a privação pode sozinha ser causa de culpa. Avançar nessa discussão nos
levaria muito longe na estrutura do superego e nos desviaria do tema atual, mas gostaria
de mencionar um ponto ao qual cheguei que é suficientemente ligado ao último. A
culpa, e com isso o superego, é como uma construção artificial, erigida com o propósito
de proteger a criança do stress da privação, isto é, de libido insatisfeita, e portanto é uma
precaução contra o temor da afânise que sempre a acompanha; isto de dá pela extinção
desejos que não estão destinados a serem gratificados. Penso mesmo que a
desaprovação externa, a qual o conjunto deste processo costumava ser atribuído, é em
grande medida um modo de experimentação por parte da criança, ou seja,
primariamente a não gratificação significa um perigo, e a criança projeta isto no mundo
externo, do mesmo modo que com os perigos internos, e faz uso de qualquer
*
desaprovação que venha encontrar aqui (moralisches Entgegenkommen) para sinalizar
o perigo e ajudá-la na construção de uma barreira contra isso.
Retornando ao caso da menina somos confrontados com a tarefa de traçar os
vários estágios do desenvolvimento a partir do estágio oral inicial. O ponto comumente
aceito é que o mamilo, ou equivalente artificial, é substituído depois de passar pelo
polegar, pelo clitóris, como fonte principal de prazer, assim como o pênis no caso dos os
meninos. Freudv[5] sustenta que é a insatisfação comparativa desta solução que
automaticamente leva a criança a procurar por um pênis externo melhor, levando
portanto à situação edípica quando o desejo por um bebê vi[6] substitui gradualmente o
desejo pelo pênis. Minhas próprias análises, bem como as “análises precoces” de
Melanie Klein, indica que em adição a isso há transições mais diretas entre os estágios
oral e edípico. Pareceria que as tendências derivadas do estágio anterior bifurcam-se
precocemente em direção ao clitóris e à felattio, isto é, à manipulação do clitóris e à
fantasia de felattio respectivamente; a proporção entre as duas pode ser diferente nos
diferentes casos, e espera-se que isto tenha conseqüências no destino do
desenvolvimento posterior.
Temos agora de seguir estas linhas de desenvolvimento em maior detalhe, e vou
esboçar primeiro o que concebo como o modo mais normal de desenvolvimento, o que
conduz a heterossexualidade. Aqui o estágio sádico coloca-se tarde, e nem o estágio oral
nem o estágio clitoridiano recebem catexias sádicas fortes. Em conseqüência o clitóris
não vem a ser associado com uma atitude masculina ativa específica, e, por outro lado,
tampouco a fantasia sádico-oral de morder e arrancar o pênis masculino é altamente
desenvolvida. A atitude oral passiva é principalmente de sucção e passa por um bem
conhecido estágio de transição para o estágio anal. Os dois orifícios alimentares
constituem, portanto, o órgão receptivo feminino. O ânus é identificado evidentemente
com a vagina no início, e a diferenciação de ambos é um processo extremamente
obscuro, talvez mais que qualquer outro do desenvolvimento feminino. Imagino,
entretanto, que isto se dá em um estágio mais precoce do que o geralmente suposto.
Uma quantidade variável de sadismo sempre se desenvolve em conexão com o estágio
anal e é revelado em fantasias familiares de estupro anal que podem ou não passar para
fantasias de espancamento. O relacionamento edípico está então em plena atividade; e
as fantasias anais, como deveremos mostrar posteriormente, são sempre um
compromisso entre tendências libidinais e auto-punitivas. Este estágio boca-ânus-
vagina, portanto, representa uma identificação com a mãe.
Nesse meio tempo qual é a atitude quanto ao pênis? É suficientemente plausível
que no início seja puramente positivavii[7], manifestada pelo desejo de sugá-lo. Mas a
inveja do pênis cedo aparece e aparentemente sempre. As razões primárias, para dizê-lo,
auto-eróticas, para isso, foram bem colocadas por Karen Horneyviii[8] em sua discussão
sobre a parcela colocada pelo órgão em atividades urinárias, exibicionistas,
escoptofílicas e masturbatórias. O desejo de possuir o pênis como o homem de fato
passa normalmente pelo desejo de compartilhá-lo em alguma ação semelhante ao coito
por meio da boca, do ânus ou da vagina. Várias sublimações e reações mostraram que
nenhuma mulher escapa do estágio de inveja do pênis no início, mas concordo
totalmente com Karen Horneyix[9], Helen Deutschx[10], Melanie Kleinxi[11] e outros autores
em sua visão de que o que encontramos clinicamente como inveja do pênis nas neuroses
*
(N.T.) Moralisches Entgegenkommen: contribuição da moralidade.
é em pouca parcela derivado dessa fonte. Temos de distinguir entre o que talvez possa
ser nomeado como inveja do pênis pré-edípica e pós-edípica (de modo mais acurado,
inveja do pênis auto-erótica e alo-erótica) e estou convencido de que, na clínica, a
última é a mais significativa entre as duas. Assim como a masturbação e outras
atividades auto-eróticas possuem sua principal importância para o reinvestimento a
partir de fontes alo-eróticas, temos de reconhecer que muitos fenômenos clínicos
dependem da função defensiva da regressão, na qual Freudxii[12] tem insistido
recentemente. É a privação resultante de um desapontamento contínuo de nunca poder
compartilhar o pênis em um coito com o pai, ou a partir disso obter um bebê, que
reativa o desejo inicial da menina de ter um pênis próprio. De acordo com a teoria
colocada a seguir, é essa privação que é primariamente a situação insuportável, pela
razão de que tem o mesmo peso que o temor da afânise. A culpa e a construção do
superego é, conforme explicado acima, a defesa primeira e invariável contra a
insuportável privação. Mas é uma solução em si muito negativa: a libido deve vir a se
expressar de algum modo também.
Nessa situação há apenas dois caminhos para a fluência da libido, e, é claro,
ambos podem ser tentados. A menina deve escolher, falando de modo geral, entre
sacrificar sua ligação erótica ao pai e sacrificar sua feminilidade, isto é, sua
identificação anal com a mãe. Ou o objeto ou o desejo deve ser trocado por outro, não é
possível preservar os dois. Ou ao pai ou à vagina (incluindo vaginas pré-genitais) se
deve renunciar. No primeiro caso desenvolvem-se desejos femininos no plano adulto –
isto é , encanto difuso e erótico (narcisismo), atitude vaginal positiva no coito,
culminando na gravidez e no nascimento de uma criança – e são transferíveis para
outros objetos mais acessíveis. No segundo caso o vínculo com o pai é mantido, mas a
relação de objeto é convertida em identificação, isto é, desenvolve-se um complexo do
pênis.
Na próxima secção diremos mais sobre o modo preciso pelo qual opera essa
defesa pela identificação, mas o que eu gostaria de desimpedir no momento é o
paralelismo interessante, já estabelecido por Horneyxiii[13], entre as soluções do conflito
edípico nos dois sexos. O menino também é ameaçado pela afânise, o medo familiar da
castração, pela inevitável privação de seus desejos incestuosos. Ele também precisa
escolher entre mudar o desejo e mudar o objeto, entre renunciar à sua mãe e renunciar à
sua masculinidade, ou seja, seu pênis. Obtemos então uma generalização que se aplica
tanto ao menino quanto à menina: confrontados com a afânise resultante de uma
privação inevitável, devem renunciar ou ao próprio sexo ou ao incesto, o que não pode
ser mantido, exceto ao preço de uma neurose, é o incesto hétero e alo-erótico, isto é,
uma relação de objeto incestuosa. Nos dois casos a situação primordial de dificuldade é
a simples mas fundamental união do pênis e da vagina. Essa união normalmente é
possibilitada pela superação do complexo de Édipo. Quando, por outro lado, a solução
da inversão é adotada, todo esforço é feito para evitar a união, devido à sua ligação ao
horror da afânise. O indivíduo, homem ou mulher, identifica então sua integridade
sexual pela posse do órgão do sexo oposto e torna-se patologicamente dependente dele.
Para o menino isso pode ser feito com o uso da boca ou do ânus como o órgão feminino
necessário (ao se dirigir a um homem ou a uma mulher masculinizada) ou pela adoção
vicariante da genitália de uma mulher com quem se identifica. Neste caso depende da
mulher que carrega o objeto precioso e haverá ansiedade em sua ausência ou se algo em
sua atitude lhe dificultar o acesso ao órgão. A mesma alternativa se apresenta para a
menina e torna-se patologicamente dependente de possuir ela mesma o órgão em sua
imaginação ou de ter livre acesso ao homem com quem está identificada. Se a condição
de dependência (conforme a expressão de Freud “Liebesbedingung”) não for
preenchida, os indivíduos, homens e mulheres, entram em estado de afânise, ou, em
termos mais comuns, “sentem-se castrados”. Alternam, portanto, entre a potência
advinda da gratificação invertida e a afânise. De um modo simples, temos que o sujeito
ou tem o órgão do sexo oposto ou nenhum. Ter um órgão do próprio sexo é fora de
questão.
Devemos agora tratar da segunda de nossas duas questões, a diferença no
desenvolvimento entre a mulher heterossexual e a homossexual. Tal diferença é
indicada em nossa discussão sobre as duas saídas possíveis do conflito edípico, e agora
devemos desenvolvê-la. Podemos no próprio campo da homossexualidade feminina
rastrear a divergência ali mencionada, a qual devemos sublinhar, é da natureza de uma
diferença de grau, entre aquelas que submetem a posição de sua libido objetal (pai) e
aquelas que submetem sua libido subjetiva (sexo). Pode-se distinguir dois grandes
grupos. Um primeiro, em que o interesse por homens é retido, mas o coração é voltado
para a aceitação de si mesma pelos homens como a um semelhante. A este grupo
pertence o tipo familiar de mulher que incessantemente se queixa da injustiça quanto ao
fardo que uma mulher deve carregar e a maltratos recebidos por parte dos homens.
Outro grupo, em que o interesse nos homens inexiste ou é muito pequeno, mas cuja
libido centra-se nas mulheres. A análise mostra que este interesse nas mulheres é uma
compensação do interesse na feminilidade. Emprega-se outras mulheres para que isso
lhes seja exibido.xiv[14]
Não é difícil de perceber que o primeiro grupo corresponde à classe em nossa
divisão prévia onde o sexo do sujeito é cedido, ao passo que o segundo grupo
corresponde ao que entrega o objeto (o pai), trocando-o por si mesma através da
identificação. Vamos ampliar esta colocação inicial, em busca de mais clareza. Os
membros do primeiro grupo trocam seu próprio sexo, mas preservam seu primeiro
objeto de amor. A relação de objeto se torna entretanto substituída pela identificação e o
alvo da libido é obter o reconhecimento desta identificação pelo objeto inicial. Os
membros do segundo grupo também se identificam com o objeto de amor, mas então
perdem o interesse ulterior nele, a relação de objeto externa com a outra mulher é
bastante imperfeita, pois ela representa apenas sua própria feminilidade por
identificação, e seu alvo é compensatório com o intuito de apreciar a gratificação disto
por um homem que não é visível (o pai incorporado nelas mesmas).
A identificação com o pai é comum a todas as formas de homossexualidade,
embora isso se dê em maior grau no primeiro grupo que no segundo, onde de um modo
compensatório, alguma feminilidade é de alguma maneira mantida. Não há a menor
dúvida de que esta identificação atende à função de manter desejos femininos sob
repressão. Isto se constitui na mais completa recusa imaginável da acusação de abrigar
desejos femininos culpados pela afirmação “não posso provavelmente desejar um pênis
de um homem, uma vez já possuo um próprio, ou, seja como for, o que mais desejo é
possuir um próprio”. Expressando nos termos da teoria já desenvolvida neste artigo, isto
assegura a mais completa defesa contra o perigo afanísico da privação da não
gratificação de desejos incestuosos. A defesa é de fato tão bem esquematizada que é um
pequeno prodígio que indicações disso possam ser detectadas em todas as meninas na
passagem pelo estágio de desenvolvimento do Édipo, embora a extensão do que é
preservado posteriormente seja muito variável. Eu arriscaria mesmo a opinião de que,
quando Freud postula um estágio fálico do desenvolvimento feminino correspondente
ao do menino, isto é, um estágio onde todo interesse parece estar ligado ao órgão
masculino tão somente com a anulação do órgão vaginal e pré-vaginal, fornece mais
uma descrição do que pode ser melhor observado que uma análise final da real posição
libidinal neste estágio; por isso me parece que a fase fálica em meninas normais é
apenas uma forma moderada de identificação ao pênis paterno das mulheres
homossexuais e, de modo parecido, tem uma natureza essencialmente secundária e
defensiva.
Horneyxv[15] pontuou que para a menina manter uma posição feminina e aceitar
em si mesma a ausência do pênis muitas vezes significa não apenas a ousadia de ter
objetos de desejos incestuosos, mas também a fantasia de que seu estado físico é
resultado de estupro castrador pelo pai ocorrido de fato em algum momento. A
identificação com o pênis, portanto, implica em uma recusa de ambas as formas de
culpa, o desejo de que o ato incestuoso possa acontecer no futuro e a fantasia que realiza
o desejo de que tenha ocorrido de fato no passado. Ela indica ainda a maior vantagem
que esta identificação heterossexual proporciona às meninas que aos meninos, devido à
vantagem defensiva comum a ambos ser fortalecida nas meninas pelo reforço do
narcisismo derivado de antigas fontes pré-edípicas de inveja (urinárias, exibicionistas e
masturbatórias) no caso das meninas e enfraquecida pelo golpe no narcisismo com a
aceitação da castração no caso dos meninos.
Como esta identificação é considerada um fenômeno universal entre meninas,
devemos prosseguir na busca dos motivos pelos quais tal identificação se amplifica tão
extraordinariamente e de modo tão característico entre as que posteriormente se tornam
homossexuais. Devo aqui apresentar minhas conclusões sobre este ponto de modo mais
abreviado que nos anteriores. Os fatores fundamentais, e até onde podemos ver inatos,
que são decisivos nesta conexão parecem ser dois, a saber, uma incomum intensidade de
erotismo oral e de sadismo, respectivamente. Estes convergem em uma intensificação
do estágio oral-sádico, que gostaria de tratar, em uma palavra, como a característica
central do desenvolvimento homossexual na mulher.
O sadismo não se mostrou apenas nas familiares manifestações musculares, com
seus derivados correspondentes no caráter, mas também na concessão de uma qualidade
especial ativa (impetuosidade) a impulsos clitoridianos, que naturalmente alçam o valor
algum pênis que possa ser adquirido na fantasia. A manifestação mais característica
entretanto pode ser encontrada no poderoso impulso oral-sádico de arrancar o pênis do
homem pelo ato de morder. Quando, como muitas vezes encontrado, o temperamento
sádico é acompanhado de uma forte reversão do amor para o ódio, com as idéias
familiares de injustiça, ressentimento e vingança, então as fantasias de morder
satisfazem tanto o desejo de obter um pênis pela força quanto o impulso de vingança
sobre o homem castrando-o.
O alto desenvolvimento do erotismo oral é manifestado de inúmeras maneiras
bem conhecidas a partir dos trabalhos de Abrahamxvi[16] e Edward Gloverxvii[17]; podem
ser positivos ou negativos na consciência. Um traço especial, no entanto, a que devemos
prestar atenção, é a importância da língua nestes casos. A identificação da língua com o
pênis, com que Flügelxviii[18] e euxix[19] lidamos, alcança um alto grau de completude em
algumas mulheres homossexuais. Vi casos em que a língua substituía quase
integralmente o pênis em atividades homossexuais. É evidente que a fixação no mamilo
aqui implicava no favorecimento da homossexualidade de duas maneiras. Torna-se mais
difícil para a menina passar da posição da felattio para o coito vaginal e isto também
facilita mais uma vez recorrer a uma mulher como objeto da libido.
Uma correlação adicional interessante pode ser feita neste ponto. Os dois fatores
acima mencionados do erotismo oral e do sadismo parecem corresponder muito bem às
duas categorias de homossexuais. Onde o erotismo oral é mais proeminente entre os
dois o indivíduo vai provavelmente pertencer ao segundo grupo (interesse em mulheres)
e onde o sadismo é o mais proeminente, ao segundo grupo (interesse em homens).
Uma palavra deve ser dita sobre fatores importantes que influenciam o
desenvolvimento posterior da homossexualidade feminina. Dissemos que para proteger-
se contra a afânise, a menina erige várias barreiras, principalmente identificação ao
pênis, contra sua feminilidade. Entre elas é proeminente um forte sentimento de culpa e
condenação referente a desejos femininos; a maioria deles é em grande parte
inconsciente. Como acréscimo a esta barreira de culpa a idéia de ‘homem’ (isto é, o pai)
se desenvolve como fortemente oposta a desejos femininos. Para ajudar em sua própria
condenação desses desejos ela é forçada a acreditar que todo homem desaprova em seu
coração a feminilidade. Ao encontro disso vem a desafortunada circunstância de que
muito homens de fato revelam desdém para com a sexualidade feminina e medo do
órgão feminino. Há várias razões para isso, que não temos de introduzir aqui: tudo está
centrado em torno do complexo de castração masculino. A mulher homossexual,
entretanto, agarra qualquer manifestação desta atitude e pode através disso converter sua
crença em um sistema delirante completo. Mesmo de um modo suave, é muito comum
termos tanto homens quanto mulheres atribuindo uma suposta inferioridade
femininaxx[20] a influências sociais que tendências profundas exploram do modo que
estamos indicando.
Concluirei com algumas demarcações na questão do medo e da punição entre as
mulheres de um modo geral. As idéias relacionadas a isso podem ser ligadas
principalmente com a mãe ou principalmente com o pai. Em minha experiência, a
primeira é mais característica da heterossexualidade e a segunda da homossexualidade.
A primeira parece ser uma simples retaliação por desejos de morte contra a mãe, que
punirá a menina colocando-se entre ela e o pai, afastando-a para sempre, ou qualquer
outro meio que mantenha a não satisfação de desejos incestuosos. A resposta da menina
é em parte preservar sua feminilidade às custas de renunciar ao pai e em parte obter
satisfação compensatória de seus desejos incestuosos em sua imaginação através da
identificação com a mãe.
Quando o medo está ligado ao pai a punição toma a forma óbvia de sua recusa
na satisfação de seus desejos, o que passa rapidamente para a idéia de serem
desaprovados por ele. A repulsa e a rejeição são expressões conscientes comuns desta
punição. Se esta privação toma lugar no plano da oralidade, a resposta é o ressentimento
e fantasias de castração (por mordedura). Se toma lugar no plano tardio da analidade, o
efeito é bem mais favorável a menina então maneja para combinar seus desejos eróticos
com a idéia de ser punida em um simples ato nomeado como estupro anal-vaginal; as
fantasias familiares de ser espancada são, é claro, um derivado disto. Como colocado
anteriormente, este é um dos modos pelo qual o incesto equivale à castração, de modo
que a fantasia do pênis protege contra ambos.
Podemos recapitular as principais conclusões a que chegamos até aqui. Por
diferentes razões tanto os meninos como as meninas tendem a ver a sexualidade apenas
em termos de pênis, e é necessário ao analista ser cético nessa direção. O conceito de
‘castração’ deveria ser reservado, como Freud indicou, apenas para o pênis, e não
deveria ser confundido com a ‘extinção da sexualidade’, para a qual o termo ‘afânise’ é
proposto. A privação a respeito dos desejos sexuais evoca na criança o medo da afânise,
isto é, o equivalente ao temor da frustração. A culpa aparece mais de dentro como uma
defesa contra esta situação que como uma oposição de fora, embora a criança aproveite
qualquer moralisches Entgegenkommen do mundo externo.
O estágio erótico oral na menina passa diretamente para o estágio da fellatio e
clitoridiano, e o primeiro para o estágio anal-erótico; a boca, o ânus e a vagina formam
portanto uma série de equivalência para o órgão feminino. A repressão dos desejos
incestuosos resulta na regressão para a inveja do pênis pré-edipiano, ou auto-erótica,
como defesa contra eles. A apresentação clínica da inveja do pênis é principalmente
derivada desta reação no plano alo-erótico, a identificação com o pai representando
essencialmente uma negação da feminilidade. A ‘fase fálica’ de Freud na menina é
provavelmente mais uma construção secundária que uma fase verdadeira do
desenvolvimento.
Para evitar a neurose o menino e a menina têm de ultrapassar o conflito edípico
da mesma maneira: eles podem desistir tanto do objeto de amor quanto de seu próprio
sexo. No segundo, a solução homossexual, tornam-se dependentes da posse imaginária
do órgão do sexo oposto, de modo direto ou por identificação com outra pessoa daquele
sexo. É o que produz as duas formas principais de homossexualidade.
Os fatores essenciais, que decidem se uma garota desenvolverá a identificação
ao pai em grau suficiente para desenvolver uma inversão clínica, são erotismo oral e
sadismo em graus intensos, que se combinam tipicamente em um intenso estágio oral-
sádico. Se o primeiro dos dois fatores é o mais proeminente a inversão toma a forma de
dependência de uma outra mulher, com falta de interesse nos homens; o sujeito é
masculino, mas aprecia a feminilidade também através da identificação com uma
mulher feminina a quem gratifica com um substituto do pênis, tipicamente a língua. A
proeminência do segundo fator conduz à ocupação com os homens, o desejo de obter
deles o reconhecimento de atributos masculinos subjetivos; é neste tipo que
encontramos freqüentemente o ressentimento contra os homens, com fantasias a
respeito deles de castração por mordedura.
A mulher heterossexual teme a mãe mais que a mulher homossexual, cujo temor
está mais centrado em torno do pai. A punição temida no último caso é a retirada
(deserção) no nível oral, e espancamento no nível anal (violação retal).

The International Journal of Psycho Analysis - Vol VIII Out 1927

http://gymno.sites.uol.com.br/jones.htm
i

Notas
[1]
Trabalho lido no 10o. Congresso de Psicanálise, Innsbruck, 1o. set de 1927
ii [2]
Abraham, Selected Papers, 1927, pg 330
iii [3]
Helene Deutsch, Zur Psichologie der weiblichen Sexualfunktionen, 1925, S.9.
iv [4]
Isto foi alcançado parcialmente em conjunto com Mrs Riviere, cuja opinião está exposta em outro contexto,
JOURNAL, Vol VIII, pp 374-5.
v [5]
Freud, INTERNATIONAL JOURNAL OF PSYCHO-ANALYSIS, Vol VIII, pg 140
vi [6]
pouco é dito neste artigo sobre o desejo por um bebê,devido à preocupação principal quanto aos estágios iniciais do
desenvolvimento. Este desejo se coloca como um derivado posterior ao estágio anal e fálico.
vii [7]
Helene Deutsch (op.cit.,S19) faz uma interessante observação do caso de uma menina que aos dezoito meses viu
um pênis com aparente indiferença na ocasião, e que apenas depois desenvolveu reações afetivas.
viii [8]
Karen Horney, INTERNATIONAL JOURNAL OF PSYCHO-ANALYSIS, Vol V, pp 52-54
ix [9]
Ibid, p64
x [10]
Helene Deutsch, op cit., S 16-18
xi [11]
Melanie Klein, Comunicações à Sociedade Britânica de Psicanálise
xii [12]
Freud, Hemmung, Symptom und Angst, 1926, S.48, etc
xiii [13]
Karen Horney, op.cit., pg 64
xiv [14]
Para simplificar, omitimos um terceiro grupo, que é também interessante. Algumas mulheres obtém gratificação do
desejo feminino se duas condições estiverem presentes: que o pênis seja reposto por algum sucedâneo, tal como a
língua ou o dedo e o parceiro usando este órgão seja uma mulher e não um homem. Embora clinicamente possam
aparecer à guisa de completa inversão, tais casos estão evidentemente mais próximos ao normal que qualquer dos
dois citados no texto.
xv [15]
Idem, loc.cit.
xvi [16]
Abraham, op.cit.,ch xii
xvii[17]
Edward Glover, ‘Notes on Oral Character Formation’, INTERNATIONAL JOURNAL OF PSYCHO-ANALYSIS,
Vol VI, pg 209
xviii[18]
J.C.Flügel, ‘A Note on the Phallic Significance of the Tongue’, INTERNATIONAL JOURNAL OF PSYCHO-
ANALYSIS, Vol VI, pg 209
xix [19]
Ernest Jones, Essays in Applied Psycho-Analysis, 1923, ch viii
xx [20]
na verdade, de sua inferioridade como mulheres

Trabalho traduzido para fins de estudo por Carlos Martinez,


revisto por Marta Togni Ferreira,

Janeiro de 2003

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