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A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL JUNTO AOS ALUNOS ORIUNDOS

DO SISTEMA DE COTAS NA UERJ

Ivana Alves Machado 1

Simone Giglio Paura 2

Resumo: O presente artigo aborda a questão do trabalho do assistente social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em especial sua atuação junto aos alunos ingressantes através do sistema de cotas, que teve início no vestibular estadual de 2003, e contemplou as duas universidades estaduais do Rio de Janeiro UERJ e Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). Assim, com a instauração da Lei 4.151/03 (RIO DE JANEIRO, 2003b) e, em sua conseqüência, o estabelecimento de um critério de carência norteando o ingresso destes alunos, o Serviço Social passou a atuar junto ao programa de acesso do estudante na universidade, o que, por sua vez, trouxe novas configurações ao processo de trabalho do assistente social, abrindo caminhos na sua relação com a educação superior.

Palavras-chaves: educação superior; sistema de cotas; serviço social.

THE PERFORMANCE OF THE SOCIAL WORKER NEAR THE STUDENTS

ORIGINATED FROM THE SYSTEM OF QUOTAS IN UERJ

Abstract: The present article approaches the issue of the social worker´s work in the University of the State of Rio de Janeiro (UERJ), especially its performance with the students originated from the system of quotas, which started in the state college entrance exam of 2003, which contemplated two state universities of Rio de Janeiro − UERJ and UENF. So, with the establishment of the Law 4.151/03 and, in its consequence, the establishment of a lack criterion, guiding the entry of these students, the Social Work started to act near the program of access of the student in the university, which, for its time, brought new configurations to the process of work of the social worker opening ways in his relation with the higher Education.

Key words: Access to the higher Education, System of quotas and Social Work

1 Assistente Social graduada pela Universidade Federal Fluminense (UFF); especialista em Direito Especial da Criança e do Adolescente pela UERJ. Assistente Social da UERJ e da Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro (SES/RJ), com lotação no Instituto Estadual de Hematologia Arthur de Siqueira Cavalcanti (HEMORIO). E-mail: i2002axe@yahoo.com.br

Assistente Social graduada pela UFF; especialista em Políticas Sociais pela UERJ e Mestre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Assistente Social da UERJ e da SES/RJ, com lotação no Hospital Estadual Azevedo Lima. Docente do Curso de Serviço Social do Centro Universitário Plínio Leite (UNIPLI). E-mail:

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MACHADO, I. A. e PAURA, S. G. A atuação do assistente social junto aos alunos oriundos do sistema de cotas na UERJ. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social, Ano 3, nº 6, abril de 2007 - ISSN - 1807-698X. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br

Introdução

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O presente trabalho resulta de reflexões surgidas a partir de nossa experiência profissional, desde agosto de 2003, enquanto assistentes sociais do Programa de Iniciação Acadêmica (ProIniciar) 3 da UERJ.

Pretende-se, neste artigo, abordar o trabalho do assistente social na UERJ, considerando as várias etapas relativas ao ingresso e à permanência dos alunos oriundos do sistema de cotas nesta universidade.

A assistência estudantil, no âmbito universitário, vislumbra aspectos que transitam da isenção da taxa dos exames vestibulares, das diversas modalidades de bolsas, alojamentos, restaurantes universitários ao ingresso através do sistema de cotas destinados, principalmente, aos estudantes comprovadamente carentes.

Segundo Paura (2001), através de programas de assistência, universidades públicas e particulares vêm contribuindo para o acesso e a permanência dos discentes, considerando o perfil e a política implementada por cada uma delas.

Neste cenário, o assistente social é profissional privilegiado, visto que atua nas diversas frentes da assistência social, possibilitando o acesso às políticas públicas e a garantia de direitos sociais. Mais especificamente, atua na concessão destas políticas realizando análise/avaliações a depender dos critérios de elegibilidade existentes nas universidades, podendo utilizar vários instrumentos neste contexto, tais como entrevistas, visitas domiciliares, análise documental, objetivando avaliar a situação socioeconômica dos estudantes.

Na UERJ, esta esfera da assistência estudantil se configura pela isenção da taxa do exame vestibular 4 , pelas vagas reservadas através do sistema de

3 Inicialmente, nosso trabalho estava ligado ao Programa de Assistência ao Estudante (PAE), pertencente ao Departamento de Orientação e Supervisão Pedagógica (DEP). Hoje, o ProIniciar está vinculado ao Departamento de Projetos Especiais e Inovações (DPEI), subordinado à Sub-reitoria de Graduação.

4 Na UERJ, a isenção de taxa do exame vestibular não contempla o trabalho do Serviço Social. A equipe responsável pela execução desta atividade utiliza parâmetros diferenciados dos nossos, apesar de solicitar alguns documentos semelhantes.

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cotas e pela concessão de bolsas acadêmicas aos alunos oriundos destas cotas em seu primeiro ano de graduação.

Histórico da legislação de cotas no estado do Rio de Janeiro

O ingresso dos alunos nas vagas reservadas (mais conhecido como

sistema de cotas) teve início no vestibular estadual de 2003, abarcando as

duas universidades estaduais do Rio de Janeiro UERJ e UENF 5 . Em sua primeira versão, o ingresso se fez através de duas leis 3.524/00 (RIO DE JANEIRO, 2000) e 3.708/01 (RIO DE JANEIRO, 2001) a primeira relativa aos estudantes da rede pública de ensino, e a segunda aos afrodescendentes.

Em ambas, o único condicionante de ingresso era o pertencimento ao próprio segmento relativo a cada uma delas, ou seja, não havia condição de carência, fator existente na legislação atual.

Atipicamente, o vestibular estadual 2003 foi subdividido em dois, um deles com esta denominação, aberto a todos os candidatos, e outro com o nome Sistema de Acompanhamento dos Estudantes do Ensino Médio (SADE), restrito aos candidatos que fossem estudantes da rede pública de ensino.

A Lei nº. 4.061/03 (RIO DE JANEIRO, 2003a), relativa às pessoas

portadoras de deficiência, foi promulgada em janeiro de 2003, após a realização do exame discursivo, não possibilitando, portanto, sua aplicação.

No dia 4 de setembro de 2003, foi aprovada a Lei Estadual nº. 4.151 (RIO DE JANEIRO, 2003b), que disciplina o ingresso de todos os candidatos às vagas reservadas, de certa maneira congregando as leis anteriores.

condição de

carência, como critério que se sobrepõe aos demais, ou seja, seu não

cumprimento exclui o candidato, mesmo que este atenda aos critérios específicos de cada segmento de cotas.

A mudança mais visível se

traduziu

na inserção da

5 A UENF encontra-se situada no município de Campos dos Goytacazes/Rio de Janeiro.

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O percentual de vagas passou a ser previamente definido, totalizando

45% de cada curso, assim distribuídos: 20% destinadas aos autodeclarados negros, 20% destinadas aos oriundos da rede pública de ensino e 5% para as pessoas portadoras de deficiência e pessoas pertencentes a minorias étnicas 6 .

Desde então, o ingresso em vagas reservadas, tanto na UERJ quanto na UENF, tem sido regido por esta lei e, neste cenário, está inserido o trabalho do assistente social.

A trajetória da atuação do Serviço Social junto à assistência estudantil na UERJ

A atuação do Serviço Social tem se distinguido ao longo destes anos,

considerando a mudança na ordem legislativa e as mudanças inerentes à

estrutura da universidade.

Em 2003, a realidade do aluno que ingressou através do sistema de cotas delineou a atenção do Serviço Social no estudo socioeconômico para concessão de bolsas, naquele contexto, entendidas com o viés de bolsa- auxílio.

Considerando a inexistência do crivo de carência socioeconômica para o ingresso através deste sistema e o quantitativo de bolsas inferior ao número de possíveis beneficiários, coube às assistentes sociais a avaliação daqueles que previamente se inscreviam pleiteando a bolsa tendo por critério de elegibilidade aqueles com menor renda per capita, conforme sinalizado no relatório pertinente a este processo de trabalho (UERJ, 2004 a).

Além da análise documental, foram realizadas entrevistas para subsidiar o estudo da situação socioeconômica destes alunos, levando em consideração as especificidades de cada caso, em confronto com os demais. A subdivisão das mil bolsas, a serem distribuídas ao longo do ano, ocorreu considerando a prevalência do quantitativo de vagas figurar no primeiro semestre do ano em

6 A universidade determinou como minorias étnicas, para efeito de aplicação desta lei, os indígenas nascidos no Brasil.

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detrimento ao segundo. Assim, foram concedidas 595 bolsas no primeiro semestre e 405 no segundo semestre, conforme dados contidos nos relatórios elaborados ao final de cada semestre (UERJ, 2004a e 2004c).

Cada etapa do trabalho, que teve início em agosto de 2003, se estendendo ao mês de maio de 2004, foi marcada pela construção, não somente dos parâmetros da concessão das bolsas, mas especialmente pela afirmação do espaço do assistente social o técnico administrativo no contexto acadêmico dos mestres.

A incerteza inicial, quanto à efetiva liberação da verba para concessão das bolsas, impôs limites à atuação dos assistentes sociais, que foram superados no decorrer da atividade até sua efetiva conclusão.

No que tange às demais atividades, o programa oferecia a todos os alunos, com prioridade àqueles oriundos do sistema de cotas, cinco 7 disciplinas instrumentais com vistas à superação das possíveis deficiências do ensino médio e melhora do desempenho acadêmico dos estudantes.

Assim, com a instauração da Lei 4.151/03 (RIO DE JANEIRO, 2003b) e a determinação da condição de carência, as assistentes sociais tiveram sua atuação incorporada ao processo de ingresso dos discentes, na fase da pré- matrícula destes.

Em concomitância ao processo de análise para concessão das bolsas dos alunos inseridos no segundo semestre de 2003, os profissionais se responsabilizaram pela organização, gerência e efetiva seleção da análise socioeconômica dos 2.358 estudantes que ingressaram no vestibular estadual 2004, nas vagas reservadas.

Esta atividade percorreu as etapas da pré-matrícula, incluindo todas as classificações e reclassificações, uma vez que, se não comprovasse a condição de carência definida pela universidade, qual seja, possuir renda per capita líquida igual ou inferior a R$ 300,00, o estudante perdia a vaga, sendo

7 Disciplinas oferecidas: Inglês Instrumental, Matemática, Linguagem Pascal, Informática e Português.

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esta ocupada por outro, gerando nova análise socioeconômica, informação esta corroborada no relatório conclusivo do primeiro processo de análise socioeconômica para ingresso através do sistema de cotas, realizado pela equipe de Serviço Social (UERJ, 2004b).

Para a realização da análise socioeconômica relativa às primeiras classificações, foram contratados alguns assistentes sociais e outros foram cedidos de departamentos/setores afins da UERJ, em caráter temporário, para composição da equipe.

Como ponto negativo desta atividade, destaca-se o fato de que o edital do exame discursivo do vestibular estadual 2004 já estava concluído e em aplicação, por ocasião do período de análise socioeconômica, o que impossibilitou qualquer participação do assistente social no que tange à inclusão de documentos para comprovação da carência socioeconômica.

Outro destaque negativo refere-se à perda de vaga, por parte dos alunos pré-matriculados, que não comprovassem a condição socioeconômica definida, sem possibilidade de reavê-la.

Por outro lado, pode-se apontar como fator positivo a contratação, por um ano, de cinco assistentes sociais, estabelecendo o Serviço Social enquanto equipe, a partir de abril de 2004.

Para além do incremento de profissionais, o ano de 2004 representou um desafio para o Serviço Social, fazendo com que suas atividades perpassassem o vestibular estadual 2003 com a conclusão da análise de concessão de bolsas, o vestibular estadual 2004, com suas várias etapas de análise socioeconômica de março a julho e o vestibular estadual 2005 com a avaliação socioeconômica para o ingresso através do sistema de cotas, em período anterior à realização do exame discursivo.

O trabalho pertinente aos alunos ingressos nas vagas reservadas de 2004 se encerrou, para a equipe, em julho daquele ano, com a avaliação do último grupo de alunos ingressantes neste vestibular. Considerando que, ao concluir a análise de cada estudante, a renda per capita já estava definida, não

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mais existiu o processo de avaliação específico para a concessão das bolsas, bastou ordenar a renda per capita destes alunos, para determinar a ordem de distribuição das bolsas, cujo quantitativo, a partir deste ano, abrangeu todos os ingressantes nas vagas reservadas, reservadas, conforme os dados condensados no relatório correspondente (UERJ, 2004b).

Desta forma, identifica-se como avanço na efetivação do direito à permanência destes alunos na universidade o aumento do número de bolsas, dispensando uma análise comparativa, de caráter seletivo, com viés mais focalizador, incluindo apenas os mais carentes entre os carentes, excluindo os que não estiverem nesta situação.

Assim, mantiveram-se as mil bolsas financiadas pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e

a complementação, financiada pela própria universidade, a depender do quantitativo de alunos ingressantes oriundos do sistema de cotas.

Atendendo ao pressuposto acadêmico, no qual as bolsas foram submetidas a partir de 2004, os alunos, como contrapartida ao recebimento destas, devem ser inseridos em projetos acompanhados por professor tutor ou inscritos em disciplinas instrumentais, cujo gerenciamento recai sobre o setor pedagógico do Departamento, não sendo objeto de aprofundamento neste artigo.

Com relação ao processo de análise socioeconômica, além da antecipação do período de realização, outras mudanças ocorreram, sendo a mais significativa aquela representada pela constituição da Comissão de

Análise Socioeconômica na estrutura da universidade, a ser composta pelos assistentes sociais do ProIniciar e outros a serem contratados eventualmente,

no estrito período da avaliação.

Considerando a mudança no período pelo qual os candidatos têm sua situação socioeconômica avaliada, aqueles que não atenderem aos critérios da legislação, forem indeferidos, não mais perderão a vaga na universidade, passando a concorrer no vestibular regular, junto com os demais candidatos.

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Não obstante o aspecto positivo representado por tal circunstância para os futuros discentes, para a Comissão de Análise Socioeconômica significou um aumento expressivo do quantitativo de avaliações 8 . Desde então, todos os candidatos que concorrem através do sistema de cotas têm sua situação socioeconômica analisada e não apenas aqueles já alocados em vagas, de acordo com a classificação no exame discursivo, conforme sinalizado anteriormente.

Para fazer face à nova dinâmica, a equipe de Serviço Social construiu coletivamente com o Departamento de Seleção Acadêmica (DSEA) 9 e a Diretoria de Informática (DINFO) o fluxo relativo a esta atividade, bem como os formulários, rotina e todo o instrumental pertinente ao trabalho desenvolvido.

O vestibular estadual 2005 foi o primeiro cujo edital, no que tange especificamente ao ingresso através do sistema de cotas, foi alterado pela equipe de assistentes sociais do ProIniciar, com acréscimos de documentos para melhor subsidiar a análise socioeconômica. Igualmente foi instituída a possibilidade de interposição de recurso, para os candidatos indeferidos, a ser avaliado também pela equipe de Serviço Social denominada, neste momento, de Comissão Especial de Recurso 10 .

Desta forma, o ano de 2004 foi marcado pelo que Iamamoto (2001) classifica de autonomia relativa dos profissionais do Serviço Social, pois se, por um lado, estávamos atrelados às regras postas pela Lei 4.151/03 (RIO DE JANEIRO, 2003b), por escopo possuíamos autonomia para o estabelecimento dos parâmetros da análise para a construção de toda a logística concernente à criação de instrumentais, relatórios e rotinas de trabalho, sem interferências externas, não obstante os limites próprios do âmbito institucional.

8 No vestibular estadual 2004, foram realizadas, em média, 2.800 análises. No vestibular estadual 2005, foram analisados 5.734 candidatos, passando para 7.365 análises no vestibular seguinte.

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Departamento responsável pelo vestibular estadual.

10 Inovações descritas no relatório do processo de análise socioeconômica referente ao ano de 2005 (UERJ, 2005).

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No que se refere aos ditames específicos da comprovação da carência socioeconômica, a equipe de Serviço Social sugeriu a modificação da renda a ser utilizada para o cálculo da renda per capita, deixando de ser pautada no rendimento líquido, passando para o rendimento bruto, o que vem sendo aplicado desde então.

Considerando o aumento no quantitativo de candidatos a serem submetidos ao crivo socioeconômico, a equipe optou por contratar assistentes sociais externos para realizar a análise, subdividindo-os em cinco equipes, cada uma delas coordenada por um dos profissionais contratados (da UERJ), sob a coordenação geral das duas assistentes sociais efetivas do Departamento.

Além da construção de todos os instrumentos, rotinas, formulários e parâmetros correlatos a esta nova modalidade de processo, a equipe também foi responsável pela seleção e capacitação dos assistentes sociais a serem contratados, traduzindo-se como uma nova experiência para o grupo.

Os profissionais foram submetidos à análise curricular e entrevistas, nas quais se observa, além da experiência na execução de análise socioeconômica, a organização, a responsabilidade e desenvoltura, tanto para o trabalho individual, quanto para o convívio em grupo durante a realização da atividade.

Para a preparação dos assistentes sociais, aqueles selecionados após a entrevista, foram submetidos a três dias de capacitação, nos quais os sete representantes da equipe se revezaram em palestras com o objetivo de aproximá-los da realidade da análise socioeconômica, bem como sobre o uso dos formulários. Com vistas a exemplificar as diversas situações possíveis dentre a apresentação de documentos e a composição familiar, foram realizados simulados, nos quais se pôde observar o nível de aquisição de conhecimento dos assistentes sociais frente à capacitação.

Como

forma

de

melhor

organizar

o

conteúdo

da

capacitação,

foi

estruturado

um

kit

encadernado,

contendo,

além

dos

instrumentos

de

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realização da análise socioeconômica, exemplos dos diversos documentos pessoais, de renda e moradia, passíveis de envio por parte dos candidatos concorrentes, possibilitando ao profissional maior familiaridade no manuseio dos mesmos.

Durante a execução do período da análise socioeconômica, foram necessários alguns ajustes, tanto no que se refere à interface com os demais Departamentos, especialmente nos aspectos relativos ao setor de informática, entre os quais, equívocos na leitura óptica dos formulários com o resultado de cada avaliação, bem como ajustes nos parâmetros da análise, em vista de situações não previstas antecipadamente, e outras de acordo com as especificidades de cada caso analisado.

ter

proporcionado subsídio para melhor compor, entender e avaliar a situação socioeconômica do candidato e sua família.

Pode-se

avaliar

como

positiva

a

mudança

no

edital

por

No que se refere ao pedido de recurso, a equipe criou uma nova rotina com os procedimentos apropriados, aproveitando na atividade os assistentes sociais que se sobressaíram durante o processo de análise socioeconômica.

Ao término das atividades de análise socioeconômica e análise de recurso, a equipe fez um relatório final, contendo a dinâmica do trabalho, desde sua construção, com as mudanças de edital, criação dos instrumentais, entre outros, até a conclusão da atividade, contemplando os dados quantitativos e percentuais (dos candidatos deferidos, indeferidos e os respectivos motivos de indeferimento), bem como dados relativos à renda per capita. O relatório (UERJ, 2005) entregue às chefias dos Departamentos - DPEI e DSEA e à Sub-reitoria de Graduação tem servido de base para as mudanças a serem implementadas nos processos vindouros.

O processo de análise socioeconômica e a análise dos recursos interpostos vêm se repetindo anualmente desde o vestibular 2004, a cada ano incorporando avanços galgados nos certames pregressos. Considerando o incremento progressivo do quantitativo de candidatos concorrentes ao sistema

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de cotas, a equipe vem aumentando o número de assistentes sociais contratadas exclusivamente para este fim.

Por outro lado, nos anos de 2005 e 2006, o número de assistentes sociais contratados por um ano tem diminuído por critérios decisórios que independem da equipe de Serviço Social. Em 2005, contamos com três profissionais, e no presente ano 2006 apenas uma, motivo pelo qual se faz preciso a contratação eventual de outras assistentes sociais, com experiência comprovada, para a função de subcoordenar as equipes durante a análise socioeconômica, sempre complementando cinco subequipes.

Em 2006, o Serviço Social percebeu o quantitativo de candidatos que, por dificuldades de entendimento e/ou por equívocos na leitura do edital, deixavam de apresentar documentos singulares para a apreciação e análise de

sua condição socioeconômica, sendo, portanto, indeferidos, e assim, passando

a disputar o vestibular com os demais candidatos, sem reserva de vagas. A

partir de tal percepção, optou por atuar junto aos candidatos, em período

anterior a sua inscrição.

Considerando o elevado quantitativo de possíveis candidatos, a equipe de Serviço Social, em conjunto com outros departamentos 11 da universidade, organizou um encontro com os representantes dos pré-vestibulares comunitários e escolas da rede pública de ensino do estado do Rio de Janeiro. Tal encontro objetivou prepará-los para orientar seus alunos potenciais candidatos da universidade na organização e envio dos documentos relativos

à comprovação do critério de carência e demais documentos condizentes com cada uma das opções de cota.

O Encontro contemplou a participação de 33 representantes da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, 9 representantes da Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro (FAETEC) e mais 2 pedagogos do Colégio de Aplicação da UERJ. Já dentre os pré-

11 Departamento de Administração Acadêmica (DAA), Departamento de Orientação e Supervisão Pedagógica (DEP), Departamento de Projetos Especiais e Inovações (DPEI) e Departamento de Seleção Acadêmica (DSEA). Vale ressaltar que estes departamentos são subordinados à Sub-reitoria de Graduação.

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vestibulares comunitários, participaram 43 unidades com 58 representantes, conforme dados retirados do relatório elaborado ao final deste evento (UERJ,

2007).

O I Encontro da UERJ e os Representantes de Pré-vestibulares

Comunitários e Representantes de Escolas do Ensino Médio realizou-se em quatro dias 12 , com palestras englobando tanto questões pertinentes ao envio da documentação para análise socioeconômica, quanto aos critérios relativos às diversas cotas, especialmente a cota da rede pública geradora de dúvidas entre os candidatos aspectos relativos à pré-matrícula, concessão de bolsas para os alunos ingressantes pelo sistema de cotas e orientações gerais sobre o vestibular estadual.

Além das informações repassadas durante o encontro, foi organizado material impresso, entregue aos participantes, descrevendo, em forma de perguntas e respostas, um “passo a passo” sobre o ingresso nas vagas reservadas, com o fim de elucidar possíveis dúvidas de seus alunos, pretensos candidatos ao sistema de cotas.

Vale registrar que, dado o grande contingente de pré-vestibulares comunitários existentes no estado do Rio de Janeiro, optou-se por convidar aqueles cadastrados na UERJ, dentre os quais registramos a presença de uma unidade correlata à UENF, o que poderá proporcionar a aproximação com os candidatos residentes nas regiões norte e noroeste do estado.

O evento representou uma ampliação do trabalho do Serviço Social, tanto na interação com os demais Departamentos da Sub-reitoria de Graduação, quanto no universo dos candidatos, através da aproximação com os pré-vestibulares comunitários e unidades da rede pública de ensino, sempre na busca da ampliação do acesso universitário.

O ano de 2006, além da implementação desta atividade, que se

pretende repetir nos próximos anos, teve uma novidade na etapa do exame discursivo do vestibular estadual, cuja inscrição ocorreu exclusivamente via

12 Foi destinado um dia somente para os representantes de escolas da rede pública de ensino.

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internet. A mudança foi apresentada à equipe de Serviço Social como fato definitivo, sem possibilidade de retorno ao modelo anterior de inscrição (pagamento através de agência bancária e envio de inscrição via correios) ou mesmo concomitância dos dois modelos.

Apesar da avaliação junto ao setor responsável pela implementação do vestibular estadual Departamento de Seleção Acadêmica (DSEA) - no que tange às dificuldades de acesso dos candidatos ao sistema de cotas a computador, e este interligado à internet e impressora, além da dificuldade de aquisição do Edital do Vestibular Estadual 2007 não mais impresso na forma de Manual, ao contrário, apenas disponível também pela internet, coube à equipe do Serviço Social construir a adaptação do questionário a ser respondido por estes candidatos, até então encartado no Manual do Candidato, para a linguagem interativa da internet.

Como forma de minimizar estas dificuldades dos candidatos, a equipe de Serviço Social solicitou ao DSEA que tornasse disponível o uso de terminais de computador interligados à internet e impressora na própria universidade, para a efetivação da inscrição, preenchimento e impressão do formulário apropriado, que foi prontamente atendido.

Em relação ao processo de análise socioeconômica do vestibular estadual 2007, percebe-se como repercussão da interface dos candidatos às vagas reservadas e a inscrição via internet a diminuição do número de inscritos em relação aos anos anteriores, apesar do aumento no corte de renda per capita na definição do critério de carência 13 , por parte da universidade, pressupondo uma perspectiva de inclusão social, social, conforme apontado no relatório elaborado pela equipe (UERJ, 2006).

Os dados referentes ao processo de análise socioeconômica de 2007 revelam uma diminuição no quantitativo de casos analisados, na ordem de 56,82% em relação ao processo de 2006, passando de 7.365 análises para

13 Para o vestibular estadual 2007, foi estabelecida a renda per capita bruta de até R$ 630,00 (seiscentos e trinta reais) como patamar de carência (nos vestibulares 2005 e 2006, o critério baseava-se na renda per capita bruta de até R$ 520,00).

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3.180. Tal situação sugere a existência de dificuldades no acesso e/ou utilização da nova modalidade de inscrição on line, por parte dos candidatos ao sistema de cotas.

Diante desta constatação, torna-se premente que o Serviço Social, em conjunto com demais profissionais envolvidos neste processo, construa estratégias que possam minimizar tal situação uma vez que se observa a existência de critérios cada vez mais restritivos de acesso às políticas sociais, dentre elas, a de educação superior.

Considerações finais

A experiência vivenciada nestes três anos de inserção do Serviço Social na realidade do sistema de cotas na UERJ representa uma etapa do processo de institucionalização da assistência no espaço universitário, posto que o universo de demandas destes alunos é superior ao ingresso na universidade.

A realidade da assistência estudantil não se diferencia das demais políticas de assistência, limitando a atuação do assistente social, não somente pelo número mais restrito de programas sociais, mas pela obrigatória definição de critérios cada vez mais restritivos, seletivos e focalizadores. Ainda que na Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) esteja determinado o percentual mínimo da arrecadação de impostos do Estado a serem investidos na área de Educação, percebe-se o sucateamento de verbas orçamentárias incidindo na área da assistência, refletindo-se diretamente nos programas assistenciais. Segundo Paura (2002), este fato pode ser um dos motivos que levam os estudantes à evasão escolar ou a inserção precoce no mercado de trabalho, não concluindo o curso nos prazos regulares, pois necessita trabalhar para sua manutenção e a de seus familiares.

Na verdade, a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) (BRASIL, 1993) busca consolidar a assistência social como uma política pública, direito do cidadão e dever do Estado e, no caso dos alunos oriundos da classe trabalhadora que ingressam na universidade, vislumbra-se que estes possuam

MACHADO, I. A. e PAURA, S. G. A atuação do assistente social junto aos alunos oriundos do sistema de cotas na UERJ. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social, Ano 3, nº 6, abril de 2007 - ISSN - 1807-698X. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br

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o direito de conseguir permanecer na mesma, devendo, ainda, ser-lhes

assegurada a qualidade de sua formação profissional como forma de prepará-

los para a inserção no mercado de trabalho.

A implementação de políticas de ações afirmativas, nas universidades

do estado do Rio de Janeiro, como forma de garantir a reserva de vagas a uma

parcela de estudantes oriundos da classe trabalhadora é uma etapa que não se

esgota em si mesma, na medida em que existem outras despesas relacionadas

à permanência na universidade, principalmente referente a passagens,

alimentação e materiais didáticos, que podem ser minimizadas a partir da realização de ações que possibilitem a manutenção, tais como a concessão de bolsas de estudo. Com isso, aqueles estudantes que não possuem condições financeiras para arcar com esses custos tendem, por um lado, a abandonar o curso.

Sendo assim, considera-se relevante pensar nas questões centrais voltadas não apenas para o acesso, mas também à permanência destes alunos nas universidades, e, principalmente, como será esta manutenção e o tipo de formação profissional, visando à qualificação e inserção ao mercado de trabalho.

No caso da UERJ, a política de assistência é focalizada, direcionada aos alunos cujo acesso ocorreu através do sistema de cotas, desconsiderando o fato de existirem alunos que conseguiram vencer a barreira do vestibular e que também necessitam permanecer na universidade, mesmo não tendo ingressado nas vagas reservadas. Tal focalização acaba por reforçar a exclusão e a desigualdade social presentes na sociedade brasileira.

Assim, o assistente social, se deparando com estes limites institucionais para a implementação de políticas sociais, trabalha num campo de tensão entre a universalização destes serviços e a focalização das ações, selecionando os mais pobres, aqueles, alvo das políticas sociais.

Frente a esta realidade, vislumbra-se a assistência universitária como um mecanismo que objetive atender às necessidades dos discentes,

MACHADO, I. A. e PAURA, S. G. A atuação do assistente social junto aos alunos oriundos do sistema de cotas na UERJ. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social, Ano 3, nº 6, abril de 2007 - ISSN - 1807-698X. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br

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contribuindo para sua formação profissional e, com a implantação de

programas assistenciais, os estudantes oriundos da classe trabalhadora

passem a possuir condições de permanecer na universidade.

Desta forma, aponta-se, ainda, a possibilidade de estender a atuação

profissional da equipe de Serviço Social do ProIniciar com a criação (e

implementação) de propostas voltadas para a permanência deste estudante na

UERJ, o que reforça, cada vez mais, a relevância do trabalho do assistente

social na educação superior, numa perspectiva de ampliação da cidadania.

Referências

BRASIL. Constituição Federal de 1988. Brasília: Congresso Nacional, 1988.

BRASIL. Lei Orgânica da Assistência Social. Brasília: Congresso Nacional,

1993.

IAMAMOTO, M. V. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. São Paulo: Cortez, 2001.

PAURA, S. G. Aspectos da reforma educacional brasileira: educação superior como política pública? In Em Pauta Revista da Faculdade de Serviço Social da UERJ, nº 18. Rio de Janeiro, FSS/UERJ, jul-dez 2002.

Os programas de assistência aos universitários da PUC-Rio: um estudo da Bolsa Ação Social. Rio de Janeiro, DSS/PUC-Rio, Dissertação de Mestrado, 2001.

RIO DE JANEIRO (Estado). Lei 4.061 de 2 de janeiro de 2003. Dispõe sobre a reserva 10% das vagas em todos os cursos das universidades públicas estaduais a alunos portadores de deficiência. Rio de Janeiro: 2003a.

Lei 4.151 de 4 de setembro de 2003. Institui nova disciplina sobre o sistema de cotas para ingresso nas universidades públicas estaduais. Rio de Janeiro: 2003b.

Lei 3.708 de 9 de novembro de 2001. Institui cota de até 40% para as populações negra e parda no acesso à Universidade do Estado do Rio de Janeiro e à Universidade Estadual do Norte Fluminense. Rio de Janeiro:

2001.

Lei 3.524 de 28 de dezembro de 2000. Dispõe sobre os critérios de seleção e admissão de estudantes da rede pública estadual de ensino em universidades públicas estaduais. Rio de Janeiro: 2000.

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UERJ). Equipe de Serviço Social/Proiniciar. Relatório do processo seletivo bolsa auxílio. Rio de Janeiro: UERJ, 2004a.

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Relatório do processo de trabalho da Comissão de Análise Socioeconômica vestibular estadual 2004. Rio de Janeiro: UERJ,

2004b.

Relatório do processo seletivo dos alunos 2003.2 e Bolsa Jovens Talentos II. Rio de Janeiro: UERJ, 2004c.

Relatório do processo de análise socioeconômica dos candidatos concorrentes às vagas pelo sistema de cotas vestibular estadual 2005. Rio de Janeiro: UERJ, 2005.

Relatório do período de análise socioeconômica dos candidatos ao sistema de cotas vestibular estadual 2006. Rio de Janeiro:

UERJ, 2006.

Sub-reitoria de Graduação. I Encontro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e os representantes de pré-vestibulares comunitários e representantes de escolas de ensino médio: orientações básicas. Rio de Janeiro: UERJ, 2007.