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Coleção de aves do Laboratório de Zoologia da UNOESC, Santa Catarina, Brasil: observações sobre o início da construção do acervo

9 771981 887003

ISSN 1981-8874

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Mario Arthur Favretto* & Emili Bortolon dos Santos* Coleções zoológicas são importantes fontes de informações para todos os que trabalham com seres vivos. Proporcionam a progressão de conhecimentos que podem ser aplicados a partir de diferenciadas formas na sociedade, tanto para a atuação governamental quanto para a gestão ambiental (Zaher & Young 2003). Com a expansão territorial da sociedade, são nas coleções científicas que permanecem eternizados os registros físicos de muitas espécies já extintas (Zaher & Young 2003). As coleções zoológicas possibilitam inúmeros estudos no âmbito da taxonomia, sistemática, biogeografia e áreas afins; também são importantes fontes de material genético utilizado para estudos filogenéticos e populacionais (Roselaar 2003, Aleixo & Straube 2007). O Laboratório de Zoologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina, campus de Joaçaba, iniciou suas atividades no ano de 2005 e desde esse período, tem recebido coletas zoológicas por parte de seus acadêmicos. No caso dos vertebrados, as contribuições referem-se principalmente de animais que vieram ao óbito devido a atropelamentos e colisões com vidraças. O laboratório também recebe coletas ofertadas pela Polícia Ambiental, de animais que estavam em cativeiro e não sobreviveram aos procedimentos de recuperação. Por se tratar de uma coleção relativamente nova e possuir peles encontradas apenas de forma casual, o laboratório não apresenta um grande número de espécies, sendo que a coleção ao todo é composta por 27 espécies (Tabela 2). As espécies foram identificadas de acordo com as seguintes referências: Sick (1997), Sigrist (2005), Narosky & Yzurieta (2006). A nomenclatura científica e a ordem sistemática na Tabela 2 seguem as Listas das Aves do Brasil (CBRO 2009). As coordenadas geográficas dos locais de coleta das espécies são apresentadas na Tabela 1. Alguns comentários sobre algumas espécies podem ser apresentados. Dentre as espécies que fazem parte da coleção, Penelope obscura é relativamente comum no município de Joaçaba, local em que foi coletada. Marca sua presença na primavera e no verão. Nestas estações é possível observar nas matas e na área urbana o deslocamento de indivíduos solitários, em duplas e em grandes bandos. Spheniscus magellanicus, um indivíduo imaturo foi encontrado morto na praia da Barra da Lagoa, no município de Florianópolis. A data específica de coleta não foi registrada. Piacentini & Campbell-Thopson (2006) mencionam em um estudo em Imbituba/SC que muitos indivíduos desta espécie aparecem no litoral durante o inverno, tratando-se principalmente de imaturos que acabam morrendo nas praias. Theristicus caudatus trata-se de um indivíduo morto por colisão com fiação elétrica, sem procedência definida, sabe-se apenas que foi coletado na região oeste de Santa Catarina. Nesta região, T. caudatus é comum durante a primavera e o verão, podendo ser observada tanto na área rural quanto na área urbana. Nesta
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Figura 1. Strix hylophila em recuperação. Foto: Mario A. Favretto.

última, T. caudatus pode ser observado deslocando-se em telhados e alimentando-se de invertebrados (Annelida e Orthoptera) em jardins de residências, tendo predileção para nidificar em árvores de Araucaria angustifolia isolados no meio urbano. Os representantes da ordem Psittaciformes são aves originadas de cativeiro, apesar de ambas as espécies já terem sido registradas no meio natural na região centro-oeste do Estado (Favretto & Geuster 2008), sendo que, dos registros anteriores, provavelmente apenas Amazona vinacea ocorre de forma natural na região com a presença anual de diversos bandos, enquanto que, Amazona aestiva trata-se de observações de indivíduos solitários, sendo possivelmente oriundos de fugas de cativeiro. Os exemplares da ordem Strigiformes já haviam sido registrados anteriormente nos municípios de Luzerna e Joaçaba (Favretto & Geuster 2008). Os exemplares do laboratório estendem tais registros para outros municípios da região e também para outros estados (Tyto Alba: Capinzal/SC e Barracão/RS; Megascops choliba: Campos Novos/SC; Strix hylophila: Capinzal/SC). No mês de setembro do ano de 2009, mais um exemplar de Strix hylophila foi encontrado, desta vez, perto do perímetro 33

Figura 2. Coleção de aves UNOESC/Joaçaba. Foto: Emili B. dos Santos. Figura 5. Coleção de aves UNOESC/Joaçaba. Foto: Emili B. dos Santos.

Figura 6. Coleção de aves UNOESC/Joaçaba. Foto: Emili B. dos Santos. Figura 3. Coleção de aves UNOESC/Joaçaba. Foto: Emili B. dos Santos.

Figura 4. Coleção de aves UNOESC/Joaçaba. Foto: Emili B. dos Santos.

Figura 7. Coleção de aves UNOESC/Joaçaba. Foto: Emili B. dos Santos.

urbano do município de Joaçaba. O espécime foi atropelado, porém sobreviveu e ficou sob os cuidados de M.A. Favretto, por um período aproximado de sete dias, tempo que levou para a ave se recuperar e após sua recuperação o mesmo foi libertado (Foto 1). Quando sob cuidados, nos primeiros dias a ave não se mostrava agitada e não realizava nenhum movimento rápido, permanecia a maior parte do tempo parada movendo apenas a cabeça. Nos momentos em que ocorria a aproximação do autor, ela emitia vocalizações produzidas pela batida de seu bico, por vezes uma batida e em outras ocasiões três batidas sequenciais. Estas vocalizações ao serem imitadas eram prontamente respondidas pela coruja. S. hylophila também apresentava em suas penas a presença de dípteros Hippoboscidae. Durante os sete dias de sua recuperação, em nenhum momento a ave se apresentou agressiva, não tentava realizar agressões físicas, apenas tentava realizar voos curtos. Com o avanço de sua recuperação a ave passou a realizar displays direcionados ao autor quando este se aproximava dela, que consistiam em a ave abrir suas asas direcionando sua parte superior para frente de seu corpo e abaixando sua ca34

beça, ao mesmo tempo em que emitia as vocalizações produzidas pelas batidas de seu bico, sempre numa sequência de três batidas seguidas. No mesmo local em que este espécime foi atropelado, outro já havia sido encontrado alguns meses antes, porém em estado avançado de decomposição. Tal local é formado por pastos entremeados por banhados, áreas tomadas por pteridófitas Pteridium sp e pequenos fragmentos florestais, havendo também a presença de Eucalyptus sp. O local é ocupado por poucos moradores, no entanto, a estrada que existe nesse ambiente possui um grande fluxo de carros no período noturno, pois é o caminho para um dos campi da universidade, o que facilita a ocorrência destes atropelamentos. Procurou-se aqui apresentar os registros de espécies que se encontram expostas na coleção do laboratório de zoologia da UNOESC, campus de Joaçaba, e da descrição dos comportamentos de um Strigiforme durante o período de recuperação após atropelamento, como forma de contribuir para o melhor conhecimento da distribuição de aves na região oeste de Santa Catarina.
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Assim como, apresentar algumas observações adicionais sobre os hábitos de determinadas espécies que ocorrem na região. Agradecimentos Os autores são gratos a Glauco Kohler pela ajuda fornecida. Referências Bibliográficas
Aleixo, A. & F.C. Straube (2007) Coleções de aves brasileiras: breve histórico, diagnóstico atual e perspectivas para o futuro. Revista Brasileira de Ornitologia 15(2): 315-324. CBRO – Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (2009) Listas das Aves do Brasil. 8ª edição. Favretto, M.A. & C.J. Geuster (2008) Observações ornitológicas no oeste de Santa Catarina, Brasil – parte I. Atualidades Ornitológicas 143: 49-54.

Narosky, T. & D. Yzurieta (2006) Guía para la identificación de las aves de Argentina y Uruguay. Buenos Aires: Vazquezz Mazzini. Piacentini, V.Q. & E.R. Campbell-Thompson (2006) Lista comentada da avifauna da microbacia hidrográfica da Lagoa do Ibiraquera, Imbituba, SC. Biotemas 19(2): 55-65. Roselaar, C.S. (2003) An inventory of major European bird collections. Bulletin of British Ornithologists' Club 123A: 253-337. Sigrist, T. (2005) Aves do Brasil: uma visão artística. São Paulo: Avis Brasilis. Sick, H. (1997) Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Zaher, H. & P.S. Young (2003) As coleções zoológicas brasileiras: panorama e desafios. Ciência e Cultura 55(3): 24-26.

* Ciências Biológicas – ênfase em Biotecnologia, UNOESC, Joaçaba. E-mail: marioarthur.favretto@hotmail.com

Tabela 1 Locais de coletas das espécies.

Tabela 2 Lista de espécies de aves do Laboratório de Zoologia da UNOESC, Joaçaba.

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