Você está na página 1de 2
ANTONIO MACHADO Varejo cresce 4,5% em 12 meses até outubro em contraste com o magro
ANTONIO MACHADO Varejo cresce 4,5% em 12 meses até outubro em contraste com o magro

ANTONIO MACHADO

Varejo cresce 4,5% em 12 meses até outubro em contraste com o magro desempenho da indústria, 1%

Sem descontar a inflação, vendas do comércio cresceram 12,2% em base anual, ou 7,8%, incluindo veículos e materiais de construção. São taxas expressivas

13/12/2013 - 02:25 - Antonio Machado

O descompasso entre a produção industrial e o consumo, o resultado mais visível do

crescimento lento e indutor de distorções, como dos déficits das contas externas, continua em processo conforme o mapa, monitorado pelo IBGE, das vendas do varejo. Elas cresceram 0,2% em outubro, desacelerando em relação ao aumento de 0,5% em setembro – algo irrelevante por se tratar da oitava leitura positiva seguida.

O movimento do comércio continua expressivo, com alta em 12 meses até outubro de

4,5%, pouco abaixo do resultado de +4,8% até o mês anterior, em contraste com o

desempenho magro da indústria em igual período: modestíssimo 1%, ainda assim recebido com satisfação por ter sido o terceiro aumento mensal consecutivo da produção, depois de uma série de movimentos erráticos desde o início do ano.

Essa é uma das contradições da política econômica: o governo se refestela com os bons resultados do varejo, ao mesmo tempo em que assiste ao Banco Central apertar os juros (que conspiram contra o consumo e a produção), para moderar a inflação e o déficit em conta corrente, que turbina a depreciação cambial – os pesadelos da mesma administração que saúda o vigor do comércio e lamenta a escassez do crédito ao consumo, uma das “duas pernas mancas” da economia, além da crise global, segundo o ministro Guido Mantega. Vá entender.

O mercado não entende e vai criando condições, ao tirar aplicações no país,

valorizando o dólar, e dificultar a rolagem dos papéis do Tesouro, que pressionam os juros e a realização dos tais superávits primários (com os quais o governo estabiliza a dívida como relação do PIB, que, por sua vez, cresce pouco), para as agências de rating questionarem a qualidade da nota de crédito soberano do país.

Essa sequência de eventos também é enigmática ao consumidor, que está alheio e tranquilo. Estaria inquieto se intuísse riscos para o emprego e percebesse a corrosão de seu poder de compra. Nenhuma das duas coisas se apresenta no momento. A inflação permanece alta, mas tem desinflado nos últimos quatro meses, além de compensada com os aumentos reais regulares de salários e de transferências de renda.

O aumento desigual entre consumo e produção tem data de validade até a eleição

presidencial, se o maior evento externo programado a acontecer até lá, o enxugamento

gradativo da liquidez do dólar nos EUA, não desencadear tumultos cambiais. O BC espera que não.

Aumento nominal de 12,2%

Por mais que tais desequilíbrios da economia incomodem o mercado, diluam a confiança do empresariado na política econômica e deixem sequelas mais difíceis de

serem revertidas, não se veem à frente mudanças substantivas que possam comprometer a trajetória que leve à reeleição da presidente Dilma Rousseff. De algum modo, o BC está no limite de suas possibilidades políticas, embora não impedido a endurecer, caso a conjuntura cambial exija medidas mais firmes.

Enquanto der para aguentar, e por ora o tranco previsto do Federal Reserve ainda não assusta o governo, o crescimento nominal de dois dígitos das vendas do varejo vai continuar impressionante. Em base interanual, o varejo restrito, que exclui veículos e materiais de construção, cresceu 12,2% em outubro, enquanto o comércio ampliado avançou 7,8% no mesmo período (e 1,8% no mês e 2,2%% sobre outubro de 2012, em termos reais, ou seja, abatida a inflação). Constata-se que a confiança do consumidor descolou da do empresariado.

Emprego infla a confiança

Na avaliação da assessoria econômica do Bradesco, o resultado das vendas nominais do varejo reflete a sustentação do baixo patamar da taxa de desemprego e, consequentemente, da pressão salarial. Assim, mesmo que o resultado da pesquisa mensal do comércio, por questões metodológicas, não seja computado na fórmula do PIB, a sinalização do consumo de bens e serviços “tem sido mais positiva”, informam os economistas do banco em nota técnica sobre os dados de outubro.

Esse desempenho, associado ao melhor resultado da indústria no mês retrasado, deve ter influenciado a prévia mensal do PIB feita pelo BC, embora ainda sem muita precisão quanto ao dado efetivo do IBGE. De qualquer forma, no cenário do Bradesco, o PIB do 4º trimestre deve mostrar expansão na margem de 0,4%, superando a queda de 0,5% observada no período de julho a setembro.

Comércio não é problema

Na realidade, o varejo, espelho do consumo, que reflete a política de rendas, ao contrário das análises de economistas do mercado, não deveria ser visto como problema, mas como solução.

Os desajustes da economia estão na gestão fiscal e, sobretudo, na disfuncionalidade da estrutura federativa, que triplica o custeio do setor público em geral, além da falta de instrumentos que afiram com transparência o custo-oportunidade das ações governamentais.

Conectado à prioridade baixa efetivamente atribuída à produção, estranho é que tal sistema mal ou bem ainda funcione. Mas está perto de se esgotar.