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o DESENVOL VIMENTO MENTAL DA CRIANÇA

o d e s e nvol v i me nto psíqui c o , que c om e ça quando na sce mo s e t e rmina na i d a d e adulta, é c omp a r áve l a o c r esc im e nto org â nico: como e s t e, ori e nta- se, esse n c ialm e nt e, pa r a o e quilíbrio . Da m e sma man e ira qu e um co rpo e st á

e m evo lu çã o até ati ng i r um ní ve l re l a t iv am e nt e e s t áve l - ca ra cte r iz ad o p e la

c onc lu sã o do c r esci m e nto e p e la matu ri d a d e dos ó rg ãos - , t a mb ém a v id a m e n t a l pod e s e r con ce bida c omo ev oluindo n a d ire ç ã o d e uma forma d e

e q uilíbri o f inal , rep r ese ntada p e lo e spírito adulto . O d ese n v ol v im e nto , p o r- tan t o, é um a equilibração pr og r ess iva , uma pas s a gem c o n t í nua d e um esta do

d

d

das i déias infa nt is à s i s t e m a t iza ç ão

d e rac io cí n i o do adult o . N o ca m p o da

v ida afc t í v a , n o t o u- se, mu i t as v e zes, qu a nto

e vist a d a inte ligê n c i a, é fác il se o p o r a ins ta bilid a d e e in coe r ê n c i a r e l a ti va s

e menor e qu i l íbri o p a r a um esta d o de e qu i l í bri o sup e r ior . A ss im, do ponto

o e quilíbrio d os s e ntime nto s

a u ment a c om a id a d e . E, f in a lm e nt e, t a m bé m a s r e la ções sociais o b e d ece m

à mes ma l e i de e sta biliza ç ão g r a du a l .

N o en tanto , r es p e it a ndo o dinamismo in e r e n t e à r e alid a d e es piritual,

deve se r r e ssaltada uma dif e r e n ç a esse n c ial e ntre a v ida do c orpo e a do

e s pírito . A forma final d e e qui l íbrio atingida p e lo cr e s c im e nto org â ni c o é

mais e stá tic a q ue aqu e la p a r a a qual t e nd e o d e s e n v olvi me nto da mente,

e

s o br e tudo mais i nstáv e l , d e tal modo qu e , c on c luída a e volu ç ão as c end e nt e,

co m e ça , l ogo e m s e guida , au t omati ca m e nt e uma evoluç ã o regr es siva que

c

o ndu z à v e lhice . C e rt as funç ões p s íqui c as qu e d e p e nd e m , intim a m e nt e , do

e

s t a d o d o s ór gãos, s eg u e m uma c urva an á l o g a . A ac uid a d e v i s u a l , p o r

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ex e mplo , at i n ge um máximo no fim da in f ância , dimin u indo em s e guida;

m u it as c o mpar a ç õ es perce p tivas s ã o tamb é m regidas por esta m esma lei . A o contrári o, as funções superiores da inteligên c ia e da afetividade tendem a um

"e qu ilíb r io móv e l", isto é , qu anto ma i s estáveis, mais haverá mobilidade,

po i s, n as a l mas sa di as, o fi m d o cre s ci m en t o nã o d eterm i na de m o d o a l g um

o com e ço da de c a d ê n c ia, ma s, sim, au toriza u m progresso espiritua l que nada

poss u i de contrad i tório com o equilíb r io i nterior.

É, portanto, em termos de equilíbrio que vamos descrever a evolu- ção d a criança e do adolescente. D este p o nt o de vista, o desenv o lvimento menta l é u m a c on s tru ção cont ínua , c o m p aráve l à edificaçã o d e um grande

prédio qu e, à medida q ue se acresce n ta

montagem d e um me c anismo d e licado, cujas fases gradativas de ajusta- mento c onduziriam a uma flexibilidade e uma mob i lid a de das peças tanto

maiores

a l go, fic a rá mais s ó lido, ou ~

Ma s , é pre c iso

quant o mai s estáve l se tornasse o e qu ilíbrio .

marca as d i fere nças ou opos i ções de u m nív e l da co ndu ta para out r o, d e sde os c omport a m e nto s e l e m e nta r e s do la c t e nt e at é à ado l esc ê ncia .

As estruturas v a ri á v e is s e rão , e nt ã o, as formas de organização da

ati v idad e m e ntal , s ob um duplo aspecto : motor ou i n t e l ec tu a l , de uma parte,

e afe t ivo, d e o ut ra, co m s u as duas d i m e n sõ e s in d i v idu a l e soc i a l (inte ri nd i- vid u a l ) . Disting ui remos, para m a i or c l ar e za, s e is e st á gios o u períodos do dese nvol v ime nto , que mar ca m o apar ec im e nto d es sa s e struturas s u cess i v a- mente c onstruíd a s : 1 °. O e st ág io dos r e fl e xo s, ou m ec anismos h e r e dit á rios , assim como tamb é m das prime i ras tend ê ncias ins t i n tivas (nutriçõ e s) das prim e iras emoçõ e s . 2° . O es t ág i o dos p r i m e i ros hábitos moto r es e das primeiras percepções organizadas, como tamb é m dos primeiros sentimentos

e

3°. O estágio da int e l i g ê n c ia s e nso-motora ou - pr á t i c a (ant e rior

das regul a çõ e s af e tiva s e l e m e nt a r es e das primeiras fixa ç ões

ex t e riores da a f e tividad e . Estes tr ês prime iros est á g i os c onstitu e m o período

dife renciados.

à linguag e m),

in

tr o du z i r u ma im porta nt e d ife r ença e n tre d o i s a s p ecto s complemen tares

d

a lactância (até por volta de u m a n o e meio a do i s anos, isto é, a n t e rior ao

d

este processo de equilibração,

D evem - se opor , desde lo g o , as estr u turas

d

ese nv o lvim e nto da I inguagem e d o p e n s am e nto). 4°. O est á gio da int e l igên-

variáv e is - definin do a s f ormas ou esta d os sucessivos

um certo f u nc i onamento constante q u e a ssegura a pa ss ag e m de q u alquer

es t a d o para o níve l seg u inte.

C o mp arando - s e a c r ianç a ao adu lt o , ora s e é su rpreen did o p ela

de e qu ilí b rio - a

c ia intuiti v a , dos s e ntime ntos int e rindivid u ais e spont â neos e das r e la ç õ e s

soc iai s d e s u bmis sã o

ao adulto (de d o is a set e anos, ou s e gunda parte da

. id e n ti-

"

. id e n ti- "

prim e ira infâ n c ia " ).

5 ° . O e s t á gio das operações int e l ec tuais concretas

(

( c omeço da l ógica) e d os se n timento s mora i s

c omeço da l ógica) e d os se n timento s mora i s e sociais de cooperação ( de sete

d

a d e d e r eações - fa la- se entã o de u m a "peq u ena ' perso nalid a de" para

a

onze - doze

a nos) . 6 ° . O est á g i o das opera ç ões i n telect u ais abs t ratas, da

d

es i gnar a criança que sabe bem o qu e q uer e age, c o m o nós, em funçã o de

fo

rmação da p e rso n alid a de e da ins e rção af e tiva e int e lectual na soci e dade

um int e r e sse definido - ora se desco b re u m mund o de d i ferenças - nas bri n c a d e i ras, . por exemp l o, o u no modo de raciocinar, d i z endo - se entã o q ue

"a c ri a n ça n ão é u m p eq u en o ad ult o ". A s d uas impr essõe s sã o ver d adeira s .

D o po nt o d e · v i s t a fun c i o n a l , ist o é, consi de r a ndo as motivaçõe s g er ais d a

co n d u ta e d o p e n same nt o, ex i s t e m fu n çõ e s constantes e comu ns a to das as

tod os os nív e is, a ' ação sup õ e sempre u m i nter e sse q ue a desen-

c a d e i a, pod e nd o -se tr a tar d e uma nec e ssi dad e fisio l ó g i c a, af e tiva ou inte l ec -

apresen t a-se n est e . ú l t im o caso so b a form a d e um a

tu a l (a necessida d e

id a d es. Em

do s adulto s (adole s cê n c ia) .

Cada e stágio é caracterizado p e la aparição de estrut ur as originais, cu j a

c ons t r u ção o distingue d os estág i os ant e r iores. O esse n cial d e ssas constru-

ç õ e s s u c es s ivas per m an ece n o d ec or r er dos es t ágios u l t e r i or e s, como s u bes-

t r uturas , so br e

n o adult o, ca d a um d o s es t ág i o s pas sa do s

m e n os e l e m e n t a r o u e l eva do da hi e rarquia d as co ndut as . M as a cada e st á gio

co r r es p o u dc m t a m b é m características momentâneas e secundárias, que são

c orr es p o nd e a um ní ve l mais ou

a s qua i s se e diflca m as n o vas ca ract er í sti c as. S e gu e -se que,

p

e r g unt a o u d e um pr ob l e ma). E m todos os n í ve i s , a inte ligê ncia p r o c u ra

m

o difi ca das p e l o d ese n v o l vi m e nt o u lt e r i o r, e m f un ç ã o d a n ec ess i dad e de

c

ompreen d e r ; expl i c a r e t c . ; só q u e s e as fu n çõ e s do i n t e r esse, da exp licação

m

e lh o r orga n i zação. C ad a es t ág io co n s ti t ui e ntã o, p e las e s tr u tur a s que o

e

tc . s ã o comuns a t o d o s os est á gios, isto é , "i n variáveis" como f u nções, nã o

d

e f in e m , uma f o rm a p a rtic ul a r d e e qui l íb ri o , e f e tu a nd o - se a ev o lução m e nt a l

é m e nos v e r d a de - q u e " os i n t e r e sse s" ( e m oposição a o " in t e resse " ) va ria m ,

n

o se n t id o d e um a c quil i braç ão se mpr e m a i s c omp l e ta.

c

o n s i d e r ave lm e nt e ' , de um nív e l m e nt a l a ou t r o, e qu e as ex plicações p ar ti- '

Pode m os ago r a co m pr e e nd e r o q u e são os m ec a ni smo s f un c i o n a i s

c

u l a r es (em o p os i ção à f un ção d e exp li ca r ) ass um e m form as mu ito dife r e nt es

co

mu n s a t o d o s os e s t ág i os . P o d e-s e d i ze r d e m a n e ir a ge r a l ( n ão comparan d o

d

e a co rd o c o m o gr a u de de senvo l vim e n to i nt e l e ctu a l . Ao lado d as funções

so

m e nt e ca da es t á g i o a o se guin t e , ma s ca d a co ndut a , n o int e r i o r d e q u a l qu e r

- c o n s t a n t e s , é pr eci s o di s t i n g ui r a s estrut u ra s va r i áv e i s, e é p r e c i same n te a

es

t ág i o , à

co ndut a seg uint e ) qu c t o d a a ç ã o - i s t o é, t o d o m ov im e n t o, p e n s a-

a n á li s e d essas es trutur as p r og r ess i va s ou formas s u c e s s ivas d e eq u ilíbrio qu e

m

e nt o o u se n tim e nt o - co rr cs p o nd e a u ma n ecess id a d e A c r i an ça, co m o o

 

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adulto, só executa alguma ação e x t e rior ou mesmo inte iramente inte rior quando impulsionada por um motivo e e st e s e traduz sempre sob a forma d e

uma n e c e s s idad e (uma n ecess i d a d e e l e ment a r ou um i nt e r e sse, uma p e rgun t a

e t c .) . Ora, c omo já b e m mostrou Claparêde, uma n ece s s idad e é s e mp re a

manif es t açã o d e um d ese qu i lí b rio . Ela ex i ste quando qu a lqu e r c o isa , fora de

Pod e-se dizer que toda necessidad e t e nde: 1 g. a incorporar as coi s as e pessoas

à atividade própria do sujeito, isto é, "assinalar" o mundo ext e rior às estru-

turas já construídas, e 2 g a reajustar estas últimas em função das transforma- ções o c orridas, ou se ja , "a c omodá-Ias" aos obj e tos ex t ernos. Nesse ponto de

vista, t oda vida m e ntal e o rgâ nica te nd e a assimilar

progr e ssivament e o meio

s ou e m n ós (no no sso org a ni s mo f í s i c o ou m e n ta l) s e modific ou , trata n -

amb i e n te, r e ali za ndo e sta i nc orporaç ã o g r aças às e struturas ou órgãos psí-

do

-se , e nt ã o , d e um r e aju s t a m e nto da c onduta e m função d e sta mud a n ç a. P o r

q

u ico s , cujo raio de ação s e t oma c ada v ez mais amplo. A percepção e

e x e mpl o , a fome ou a f adig a provo ca r ã o a pro c ura do alim e nto ou do r e pou s o.

O e n c ontro do obj e to e xt e rior d e s e ncad e ará

s u a utili zaçã o p a ra f i ns pr át i c os s usci t a rá uma pergun t a ou um proble ma

d e al g u é m exc it a rá a n ece ssidade d e imitar , d e s imp a -

t eó ri co. Uma p a l av ra

a nec e s s idade d e manipulá-Io ;

mo vime ntos elementares (pr ee nsão e tc.) refere m-se, primeiramente, aos

ob j e tos próximos nos seus est a dos mom e ntâneos,

inte lig ê ncia prá t i c a p er mite m , ao mesmo tempo, r e constituir o est a do ime- diata m e nt e ante rior e ant e cip a r as tran s forma ç õ e s próximas. O pensam e n t o

já qu e a memória e a

ti

za r ou l eva r á a r ese r va e opo s i ç ão quando e ntra em co n f lito com as nos sas

intuitiv o r e força , e m s e guida, e stas duas capacidades. Esta evolução culmina

t

e nd ê n c i a s. In ve r sa m e nt e,

a a çã o s e finda

d e sde qu e h a ja sati sfa ç ão da s

com a i nt e ligên c ia l ó gica, sob a forma de operaçõ e s concretas e finalm e nte

n

ecess idad e s, i s to é, lo g o

que o e quilíb ri o - e ntre o fato no v o, qu e d e s e n ca -

de d e du ç ão abstrata, tomando o sujeito senho r dos acontecimentos mais

d

e ou a n ecess id a de, e a nossa org a ni za ção m e ntal , t a l c omo se aprese ntav a

lon gínquos no espa ç o e no t e mpo. Em cada um desses níveis, o espírito

ant e ri o rm e nt e -é r est a b e l ec ido .

Com e r ou d o r mi r , b r i n ca r ou c ons e guir su as fin a lid a d e s, r es pond e r a

p e r g unt as ou r e sol ver prob l e m as, ser b e m- s u ce did o n a i mitaç ã o , es t a b e l ecer

um l aço a f e ti vo, s u s t e n ta r seu p o n to d e v i s t a, são outr as sa t isfa çõe s qu e , n os

exe mpl os pr ece d e nt es, d a r ão f i m à co ndu ta esp ec í f i ca su sc i tada p e l a n eces -

s i da d e . A cada in s t a nt e, p o d e - se di ze r , a a ç ã o é d ese quilibrada p e l a s tra n s- Iormaçôes qu e ap a r ece m n o mundo , ex t e rior ou int e rior, e c ada nova conduta

va i fun c ion a r n ã o só p a r a r est a b e l ece r o e quilíbrio , como também para t e nd e r

a um e quil í brio m a is est áve l qu e o d o e st ág io a nt er ior a e sta p e rturba ç ão . A açã o hum a na co n s i s t e n est e mo v im e nto c ontínuo e p e rp é tuo d e

r ea jus t am e nto

ini c i a l , s e p o d e c onsid e r a r as e s tru t ur as m e nt a is sucessivas qu e produ ze m o

ou d e e quilibra çã o. É p o r i st o qu e , nas fa s e s d e c onstru ç ão

de s e mp e nha a m e sma função, isto é, incorporar o univ e rso a si próprio; a

estr utura de assimila çã o, no e ntanto , vai variar desd e as formas de in c orpo - raçã o su cessi v as da p e rc e p çã o e do movimento a t é às op e ra ç õ es sup e rio r es.

Ora , as s imila ndo a ss im o s objetos, a ação e o p e nsam e nto são c omp e -

lidos a s e a co moda r e m

va ria ção ex t e rior. Pod e -s e c hamar "ad a pta ç ão " ao equilíbrio d e stas assimi-

laçõ es e acomoda ç õ e s . Esta é a forma geral de equilíbrio psíquico. O

de s e nvolvim e nto m e ntal apar e cerá, então, . e m sua organiza ç ão progr e ssiva

co mo uma ad a pt açã o s e mpr e mais pr ec isa à r e alidade. São as e tapas d e sta ada p t a ç ão que vamo s agora e studar con c retame nt e.

a e st e s , isto é , a s e reajustar e m por ocasi ã o de cada

I . O RECÉM - NASCIDO E O LACTENTE

d

ese nvolvim e nto como form a s d e e quilíbrio, onde cada uma constitui um

O p e ríodo qu e v ai do nascimento até a aquisição da linguagem é

pro

g r ess o sobr e as pr ece d e nt e s . Mas t a mbém é preci s o c ompree nd e r que e ste

marcado por e xtraordinário d e senvolvimento mental . Muitas vezes mal se

m

eca ni s mo fun c i o nal, p o r m a i s ge r a l qu e s e j a, não ex plic a o c ont e údo ou a

sus p e itou da imp o rtâ n c ia desse p e ríodo ; e isto porque ele não é acompanhado

es

trutur a das dif e r e n tes n ecessid a d e s, poi s ca da um a d e ntre e l as é r e lativa à

de p a l av ras qu e p e rmitam se guir, passo a passo , o progresso da intelig ê ncia

o

r ga niz ação do ní ve l co n si d e r a d o. P o r exe mplo, a vi sã o d e um m es mo obj e to

e

dos s e ntim e nto s, c omo mais t a rde. Mas , na verdade , é d ec isi v o para todo

s

u sc i ta r á di fer e nt es p e r g unt as e m um a c ri a n ça aind a in ca p az de clas s ificaç ã o

o

c urso da evoluç ã o psíqui c a: r e pr e senta a conquista, atra v és da per ce pção

e e m uma m a ior, cuj as id é i a s s ã o mais ampl a s e m a is sistemáticas. Os

int e r esse s de uma c ria nç a d e p e nd e m , portanto , a cada mome nto do conjunto

d e su a s no ç õ e s adquiridas e de suas disposiçõ e s af e tivas,já que estas tend e m

a c ompl e tá-Ios e m sentido d e m e lhor equilíbrio. Ant e s d e e xaminarmos o d ese n v olvimento em d e talhes , d e vemos

pr ec i sa r a f o rma g e ral d as n e c essid a d es e interes s es c omun s a todas as idad e s .

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e dos movim e nto s, de todo o uni ve rso prático que c e rca a criança . Ora, esta "as similação senso-motora" do mundo exterior imediato realiza, em dezoito mese s ou dois anos , toda uma revolução copérnica em miniatura. Enquanto

q u e, no ponto de partida d e st e d e s e nvolvimento, o recém-nascido traz tudo

pa ra si ou, mais pr e cisam e nte , para o s e u corpo , no final, isto é, quando

come ç a m a linguag e m e o p e nsqm e nto, ele se coloca, praticamente, como

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um e l e m e nto ou um c orpo entr e os outros, e m um univ e rso qu e construiu

p o u c o a p o u c o , e qu e sent e d e poi s c omo ext e rior a si próprio .

V a m o s d escrever p asso a p a s s o a s e t a p as d es ta r ev olu çã o c op érn i ca,

so b dupl o a specto : o d a i nt e li gê n c i a e o da v ida a fe tiv a e m fo rmaçã o . No

pri m e ir o d estes d o i s po nt os d e vis t a po d e m -se, co mo j á v imo s atrás, di s t in -

gu ir t r ês es t ágios e ntr e o n asc im e nto e o f i m d est e p erío d o: o do s r e flexos, o

d a o r ga ni zação d as p e r ce pç ões e h á bit os e o d a int e ligê n c i a se n s o-mo t ora

pr o pri a m e nt e dita. No r ecé m - n asc id o, a vid a m e nt a l se r e duz ao exe r c í c i o d e ap a r e lh os

r e fl exos , i s t o é, às c oo rd e n ações sen sori ais e mo t o r as d e f und o h ere ditário,

qu e co rr es pond e m

n os l im i ta m os a ob s e r va r q u e est es r eflexos, enq u a n t o es t ão l igad os às con dut as qu e d esemp en h arão u m pape l n o d ese n vo l v imento psíqui co ul te-

ri o r , n ão t êm n a d a desta p assivida d e m ecâ ni ca qu e s e Ih es a tribui, m a s

a t e n dê n c i as in sti n tivas, como a nu trição . A esse r espeit o

m

a ni fes t a m d es d e o co m eç o um a ativid a d e v e rd a d e ira qu e ate sta , pr ec i s a-

m

e nt e , a ex i s t ê n c i a

d e um a a ssi m i l ação sen s o-m o t o ra

pr ecoce . D e sd e o

i ní c i o, o s r e f l exos d a s u cção me lh o r a m co m o e x ercíc io : um r ecé m-na scido

m a m a m e l ho r d epo i s de um a ou du a s sema n as qu e n o s prim e iros di a s . Em seg ui da, esses r ef l exos co ndu ze m a d i scr imina çõ e s ou r eco nh ec ime n tos

lugar , sob r e tudo, a u ma

d e g e n e r a li zação d a at i v id a d e : o l acte nt e n ã o se co nt e nt a d e s u ga r

es p éci e

p ráti cos fáce i s d e ser em n o t a d os . E n f im , e l es d ã o

qu a nd o m a m a, s u g and o t a mb é m no v az i o, seu s d e d os (quando o s e n co ntra)

e

qu a lqu e r ob j e t o a pr e sent a d o fo r t uit a m e nt e. Coord e n a o s mo v ime nt os d os

b

r aços co m a s u c ç ão, a t é l e va r , s i s t e m a ti ca m e nt e - às vezes d esde o s eg und o

m ês - , s e u p o l egar à boca . Em s um a, assim il a u ma pa r te d e se u uni ve r so à

su cçã o , a po nto qu e se p o d e ria ex primir s e u c omport a m e n t o in ici a l , di zen:

d o-se qu e , p a ra e l e, o mundo é e sse n c i a lm en t e u ma realid a d e a sug a r . E

ve rd a d e qu e, r a pid a m e nt e, o m esmo uni ve r s o s e tomará t a mb é m uma r e ali -

dad e para se olhar , ou v ir e , logo que os movimento s pr ó prios lhe permi t a m,

p a ra manipul a r. Ma s es t es di ve r sos exe r c í c ios, r e fl e xo s qu e sã o o pr e nún c io da a ss imi-

l açã o m e nt a l , vã o r api d a m e nt e se t o m ar ma i s c ompl exo s po r in teg ra ção n os

h áb it o s e p e r cep ç õ es o rga ni za d os , co n st ituindo o p o nto d e p a rtida d e no va s

c ondutas, adquirid a s c om ajuda da exp e ri ê n c i a . A su c ç ã o sis t e máti ca do pol e gar p e rt e nce já a e st e segundo e stágio , assim como também os gestos de virar a cab e ça na dir e ção d e um ruído, ou d e s e guir um obj e to em movim e nto

e t c . Do ponto de vista p e r ce pti v o , c onstatamos qu e , logo que a cria n ç a

co m e ça a sorrir (quinta semana e m diant e ) , reconh e ce certas p e ssoas e m op o sição a outras e t c. (mas guard e mo-nos d e lhe atribuir , por isto , a n o ç ã o

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d e pesso a o u m es mo d e obj e to: s ão apariçõ e s s e nsí v ei s e an i mada s qu e e la

r e co nh ece, ne ss a f ase , o qu e n ã o prov a n a d a quanto à s ua s ub s tan c i a l id a de ,

n e m qu a nto à di ssoc i açã o do e u e do uni ve rso ex t e rior) . E ntr e tr ê s e s e i s

meses ( c om um e nt e po r vo lt a de qu a tro m e s e s e m ei o), o l ac t e nt e co m eç a a

pe ga r o q u e vê, e esta c ap aci d a d e d e pr ee n s ão , d e pois d e manipul açã o ,

a umen ta se u p o d er de fo rm a r h á b i to s nov os .

O s co njuntos m o t ores (h á bito s ) no v os e os c onjun t os p e rc e pti v os , no

i nício , f orma m a p e n as um s i s t e ma; a e s se r e sp e ito , pod e-s e f a l a r d e " e sque-

M as co mo s e c on s tro e m es t e s c onjunto s? Um c i c lo

re fle xo é se m p r e, n o po nt o d e p a rtid a, m a i s um c i c l o c ujo exe r c í c io, em lu ga r

d e se rep e t ir, inco r po r a n ovos e l e m e nt os, co n s t it uindo co m e l es t otal id a d es

o r g aniza d as m a i s a m p l as, p o r d ife r e n ciações pr ogress i vas. A seg uir , b as t a que os m ov ime nt os d o l acte n te, qu a i s qu e r qu e s e j a m, atinjam um r e sult a do

i nter e ssant e - inte r ess ant e po rq ue o s movime ntos são a s similáv e is

e s qu e ma ante rior - para qu e o s uj e ito r e produza logo e ss e s novos mo v im e n -

a um

mas se n so -mot o r es ".

tos. E s t a "r eaçã o ci r c ul a r" , co mo a chamaram , d ese mpenha pap e l e ss e n c ial

no dese n vo l v ime nt o se n s o - motor e r e pr ese nta forma mais ev oluída d e a s si-

m ilação .

Mas , vamo s a o t e r ce i ro es t á gio , qu e é m a i s i mporta nt e ainda para o

c urso d o d ese n vo lvime nto:

inte ligê n c i a ap a r ec e , co m e f e ito , b e m a nte s da linguagem, isto é, b e m antes

do p e n sa m e nto inte rior qu e s up õ e o e mprego d e si g nos ve rbai s (da lingua ge m

i nterio riza d a ). M as é uma int e li gê n c i a tot a lm e nt e práti c a, qu e s e r efe r e à

manipulaçã o

A

o d a int e lig ê n c ia pr á ti c a ou s e n s o-mo t ora .

dos obj e tos e qu e s ó utili z a , e m lug a r d e pal a vr a s e c on ce it o s ,

percepções e m ov im e n to s , o r ga ni za d os e m "esqu e mas d e a çã o " . Peg a r uma

v are t a , p a ra pu xa r um obj e to dist a nt e, é a s sim um ato d e int e lig ê n c ia (e mes mo b as t a nte tardi o : por volta de d ez oito meses), N e ste ato , um m e io ; que

um v e rdadeiro in s trume nto, é coordenado a um obj e tivo previsto; no

xe mplo da var e ta, é pr e ciso compreender, antecipadamente , a relação entre

la e o obj e tiv o , para descobri-Ia como meio. Um ato de int e ligên c ia mais

e

e

é

prec o c e consistirá e m aproximar o obj e ti v o , pu x ando a cobertura ou o suporte

s obr e o qu a l e s tá co l oca do (p o r v olta do fim do primeiro ano). V á rios outros

e xe mplos pod e ria m se r ci ta dos.

In ves tiguem o s como se c onstro e m e stes atos de int e ligência . Pode-se

fa lar de dois tipos de fator e s. Primeiramente, as condutas preced e nt e s se

m ultipli c am e se dife renciam cada vez mais, até al c a nçar um a mal e abilid a de

s u f ici e nt e para r eg i s tr a r o s r es ult a d o s da e xp e ri ê n c ia .

"reações c i rc ul a r es " o b e b ê n ão se co nt e nt a mais ap e n a s e m r e produ z ir os

É ass im que nas

mov ime nt os e ge stos q ue co ndu z ir a m a um ef e ito int e re ssa nt e, mas os varia

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