Sujeitos sociais e mundo rural1

Flaviane Canavesi2

O tema suscita a investigação sobre quem são os sujeitos sociais que atuam na condição de agente ativo das transformações rurais. Existe uma longa discussão teórica acerca de quem são esses sujeitos. São trazidas aqui as principais vertentes tratadas na literatura que possibilitam uma reflexão sobre os sujeitos que vivem da agricultura e do meio social rural que ela propicia, elementos importantes para o entendimento do papel do extensionista rural nos processos de desenvolvimento do agro brasileiro.

*** Hoje, no meio rural, temos 4.367.902 unidades de produção enquadradas como “agricultores familiares”, num universo de 5.204.130 estabelecimentos rurais, segundo o censo agropecuário do IBGE de 2006. Numa tentativa despretensiosa de citar algumas denominações que aparecem na literatura e que estariam enquadradas no universo da “agricultura familiar” temos: o camponês - hoje muito reivindicado como conceito por vários sujeitos sociais no campo cuja identidade político-ideológica representa uma posição crítica em relação ao modelo dominante de agricultura moderna; o agricultor familiar - conceito contemporâneo, consagrado e operado nas políticas públicas; os trabalhadores rurais - conceito adotado pelo Estatuto da Terra de 1964; os pequenos agricultores - como reconhece o livro “Small is Beautiful”, que popularizou este termo em 1970. Mais tarde, este conceito será questionado, considerando que não é a quantidade de terra que define o agricultor, mas sim o trabalho centrado na família. O conceito de pequeno produtor somente é retomado com as discussões acerca da agricultura alternativa na década de 1980;

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Texto auxiliar disciplina IH 447 - UFRRJ - II/2013

Professora substituta Extensão Rural (IH 447 T03 e T05) contato: canavesi.flaviane@gmail.com

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caboclos. sem terras. a uma agricultura patronal. já que se trata de uma generalização de modos de apropriação do espaço sem sua devida compreensão de elementos sócio-econômicos e simbólicos através do tempo. quilombolas. fazendeiros ou agronegocistas. proprietários rurais. arrendatários. agricultores urbanos e periurbanos. O meio rural também é composto por sujeitos cujas denominações remetem a outro campo de significação. ou seja. sendo estes últimos existentes em quantidade relevante. posseiros. assalariados. ator fundamental para o desenvolvimento do capitalismo no campo norte americano e demais países de capitalismo avançado. como a agricultura familiar. foreiros. sitiantes. contemplando suas necessidades específicas para o desenvolvimento rural. o que pode incorrer em equívocos de ações que nada favorecem o desenvolvimento. pescadores artesanais. geraiseiros. meeiros. No que tange a grande maioria dos agricultores no campo. as unidades familiares de produção. e dão a noção de segmentos “modernos” integrados ao mercado exportador e com alto grau de adesão tecnológica dos complexos agroindustriais. faxinalenses. ou agricultores integrados e com alto grau de tecnificação. para citar alguns termos. comumente ignorados pelas políticas públicas. caiçaras. pode-se. Algumas se justificam por ações afirmativas de grupos sociais onde as especificidades são tratadas. moradores. ribeirinhos. porém. definir potencialidades legitimando-a como indutora do desenvolvimento rural. É o que 2 . agricultores de baixa renda. assentados da reforma agrária. ao mesmo tempo em que é possibilitado (re)desenhar ações institucionais mais abrangentes de intervenção estatal? Ao se enquadrar uma gama diferenciada de sujeitos sob uma única categoria. usineiros e pecuaristas.os farmers. mas também limitantes. ou seja. que são listados como: médios e grandes agricultores. Essas diferenciações de conceitos entre uma “agricultura familiar” e uma “agricultura patronal” demonstram a disputa por reconhecimento dos projetos de sociedade que cada qual constrói a partir do meio rural (ver quadro 1). assim. agroextrativistas. O enquadramento de uma categoria torna possível à política pública operar parte dos orçamentos definidos pelas Leis de Orçamentos Anuais. colonos. além dos neo-rurais. parceiros. como tratar um segmento tão amplo no campo que corresponde a milhões de trabalhadores.

Sigaud. o que pode incorrer em problemas analíticos. no campo acadêmico estritamente. 2003. com a agricultura familiar se afirmando enquanto contraposição àquilo que a ameaça. a operação de políticas públicas da agricultura dividida em dois Ministérios (um da Agricultura e outro do Desenvolvimento Agrário) ilustra tal polaridade. em contraponto estará uma agricultura patronal. As especificidades de cada sujeito social e sua grande diversidade já foi objeto de estudos da sociologia rural e da antropologia do campesinato (Garcia. responsável por operá-las. não pode ser subsumido por uma única rubrica conceitual. Segundo a pesquisa realizada por Bergamasco. algo que. inclusive. em certos casos. O termo agricultor familiar diz respeito. 1974. Tavares dos Santos. Nesse sentido. ou ainda com relação a questões étnicas como quilombolas e indígenas. Martins. Em segundo lugar. 1978. a uma categoria equivalente a camponês. Não há. sobre os modos de apropriação da terra e de produzir (meeiros. O que fica evidente na extensa literatura são dois elementos que fazem com que a generalização do conceito “agricultura familiar” assuma um consenso.acontece com as políticas relacionadas às questões de gênero. 1980. Velho. montou. o termo agricultura familiar. são 41 tipos diferentes de indexação. Afrânio. parceiros). bem como de apropriação do produto do trabalho (agricultura de subsistência). Primeiro. surge uma identidade político-ideológica que marca a polaridade entre uma agricultura familiar e o agronegócio. onde o último está ligado à noção de passado. até 1984. contudo. um aparato estatal. Isso. 1981). fazendo com que esses segmentos ora estejam contemplados em suas necessidades específicas. recaem sobre a renda (agricultor de baixa renda). e o 3 . referência ao uso do termo agricultura familiar na literatura. na literatura. até 1984. nada mais nada menos. Os princípios de classificação. como a agricultura familiar. demarcando uma distinção a partir do modo de organização do trabalho. não garante que toda a diversidade social no campo seja respeitada. segundo estudos da antropóloga Delam Pessanha Neves. pois as políticas afirmativas se restringem a apenas algumas ações do Estado. envolvendo juventude ou mulheres. No Brasil. tendo que recorrer a linhas de financiamento que nem sempre atendem ou são apropriadas às suas realidades. por exemplo. onde o Estado. citada pela autora. 1979. o fato de o trabalho estar centralizado no núcleo familiar. como Ministérios. sobre as condições de vinculação ao mercado. ora não. de tradição. nenhum utilizando.

excluíam-se os “camponeses” ou “trabalhadores rurais” que estavam fora das relações capital/trabalho que então se estabeleciam (Wanderley.pouco adaptada a novas tecnologias e com agricultores sem terra que “nada compram e nada vendem”-. A experiência de países de capitalismo avançado contribuiu para reafirmar teses da agricultura familiar como portadora do desenvolvimento do capitalismo no campo. 2005). propiciaria o desenvolvimento capitalista ao prover alimentos de baixo custo para os trabalhadores na indústria. o que há são unidades familiares altamente modificadas pela ação do Estado e que foram as principais responsáveis pela reprodução do capitalismo no campo. Oliveira. Esta forma de conceber a negação da agricultura no desenvolvimento do país é então questionada pela ‘tese da funcionalidade’. 2003. defendendo que a pequena produção. para onde olha o autor. que resulta da atuação do Estado. . Segundo Wanderley (2009). onde de um lado se estabelecia uma estrutura empresarial e. ao moderno. e permanece camponês na medida em que a família continua sendo o objetivo principal que define as estratégias de produção e reprodução e a instância imediata de decisão. segundo Wanderley 4 . tese que adentra os anos de 1970. Linha que não defende Abramovay (1992). onde a Lei de Orientação Agrícola de 1960 assumiu como modelo ideal uma unidade de produção baseada na capacidade de trabalho de dois trabalhadores que. fato que é constatado nos EUA e em países europeus como a França. que vinham a ser agricultores inseridos num mercado de trabalho gerado pelo desenvolvimento agroindustrial. mesmo não acumulando capital. não há o surgimento de uma nova classe. o agricultor familiar é um ator social da agricultura moderna. quando os debates sobre desenvolvimento rural estavam voltados para a modernização tecnológica. Ariovaldo. Dessa forma. No Brasil dos anos 1960 as ‘teses feudais’ defendiam que o desenvolvimento do capitalismo no campo não se daria por via da agricultura. nesse processo há uma continuidade e não ruptura. cujos estudos sobre as unidades familiares de produção de países de capitalismo avançado. os proletários. participando na promoção do desenvolvimento capitalista industrial.primeiro vem atender à necessidade de uma idéia de agricultor que remete ao futuro. com isso. de outro. Nesse sentido. barateando os custos de reprodução da força de trabalho. diminuindo os salários e. mostram que não existem mais camponeses nessas realidades.

qual seria o papel dos agricultores familiares nesse desenvolvimento? É somente nos anos de 1990 que o “agricultor familiar” surge como sujeito importante do desenvolvimento. como operado nas normas do crédito rural. 3 5 . Trata-se. Assim. que conhecemos no Brasil” (Abramovay. o conceito de agricultura familiar3. na forma definida pelo Poder Executivo e inclui como agricultores familiares os povos indígenas e comunidades remanescentes de quilombos rurais. Isso posto. A gênese do conceito de agricultura familiar vem de um debate sobre a relevância da agricultura. o agricultor familiar passa a ser uma categoria sócio-profissional necessária à objetivação das políticas públicas e que assegura o reconhecimento econômico e político ao setor da agricultura familiar em contraposição ao empresário rural produtivista. ficou assim estabelecido: ter percentual mínimo da renda familiar originada de atividades econômicas do estabelecimento. deter ou BRASIL. Lei n°11. portanto. de um consenso ao processo de enquadramento institucional de camponeses enquanto agricultores familiares e uma consagração classificatória. com uso em larga escala de assalariados. apoiados por representação política como a CONTAG (Confederação dos Trabalhadores na Agricultura) que possibilita. dotados de legitimidade para redefinir significados. de 2011 que exige percentual mínimo da renda familiar originada de atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento. de forma a contemplar as especificidades dos seus diferentes segmentos e. uma vez tendo relevância comprovada. Para que uma objetivação ficasse clara. em 1996. de 2009 onde considera que o Conselho Monetário Nacional . pela Lei nº 12. para o desenvolvimento (capitalista) e.(2009). primordialmente o agrário. a partir do trabalho de agentes de desenvolvimento (mediadores técnico . por um lado. concorrer por redefinição das formas de redistribuição de (parcos) recursos públicos estatais. trata-se de uma clara referência à associação entre família e estabelecimento produtivo. por outro. tecnicista e predador (Neves. operar intervenções institucionais e.058. 2005).326 de 24 de julho de2006 que estabelece as diretrizes para formulação da Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais. que se difunde no Brasil com a criação do PRONAF.512.políticos). 1994). “o desenvolvimento do capitalismo na agricultura dos países capitalistas avançados traz problemas para a natureza supostamente universal do tipo de desenvolvimento capitalista baseado na grande fazenda. de forma geral. alterada pela pela Lei nº 12.CMN pode estabelecer critérios e condições adicionais de enquadramento para fins de acesso às linhas de crédito destinadas aos agricultores familiares.

povos indígenas e integrantes de comunidades remanescentes de quilombos rurais e demais povos e comunidades tradicionais. nos Andes e no centro do continente asiático. mineradoras e hidrelétricas. caiçaras. atingidos por barragens. por si só. excluídos os garimpeiros e faiscadores. uma vez que a diversidade mostra agricultores que vão desde a reprodução do modelo de países de capitalismo avançado (farmers) até a maioria de agricultores que não adotaram um padrão dito moderno de produzir. pomeranos/as. quilombolas. 4 6 . a imensa maioria dos A I Conferência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural realizada em 2012 apontou uma série de identidades representadas e que reivindicaram sua nomeação no documento final. o que requer a elaboração de tipologias necessárias a tal compreensão. camponeses. torrãozeiros/as. menos de 10% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros estariam integrados a uma maneira moderna de produzir.explorar estabelecimentos com área de até 4 módulos fiscais. sendo elas: agricultura familiar tradicional. pescadores/as artesanais. extrativistas. marisqueiros/as. seringueiros/as. quando a exploração se efetivar em tanques-rede. não possibilita tratar da grande diversidade existente no campo. ter estabelecimento ou empreendimento dirigido pela família. quando se trata de fortalecer no campo político um segmento como o familiar. retireiros/as. assentados da reforma agrária. extrativistas que exerçam essa atividade artesanalmente no meio rural. pantaneiros/as. para citar algumas das categorias de identidade que incluem os sujeitos de direitos da agricultura familiar. açorianos. geraizeiros/as. povos de terreiro e ciganos/as. Apesar do aparente consenso. aquicultores que explorem reservatórios hídricos com superfície total de até 2ha (dois hectares) ou ocupem até 500m! (quinhentos metros cúbicos) de água. aquicultores familiares. em detrimento do patronal. Segundo José Graziano da Silva (1996). É nesse sentido que um desenvolvimento fortemente embasado na agricultura familiar empenhada num modelo tecnológico moderno e reprodutora do capitalismo agrário nos Estados Unidos ou na Europa se distanciam da realidade brasileira. ribeirinhos/as. Em nível mundial. povos indígenas. A Lei considera como agricultores familiares os silvicultores que cultivem florestas nativas ou exóticas e que promovam o manejo sustentável destes ambientes. faxinalenses. acampados. o conceito enquanto “identidade atribuída”. caatingueiros/as. quebradeiras de coco. segundo propõe Hugues Lamarche no seu estudo internacional sobre a agricultura familiar4. fundos de pasto. pescadores artesanais. esta agricultura moderna é praticamente inexistente na África Intertropical. o que requer a consideração sobre os graus de campenização como propõe Toledo (1993). vazanteiros/as.

em graus diferenciados. Assim. Van der Ploeg usa o termo ‘condição camponesa’ para diferenciar de uma agricultura camponesa. 2001). nem a Revolução Verde. como um jogo de cartas. o campesinato não se reduz apenas a uma forma social de organizar a produção nem a um tipo de integração ao mercado. Esse número expressivo de agricultores pode ser entendido no que Mendras (1984) vai denominar de “sociedades camponesas”. permanentemente. este não deve ser entendido somente como um ‘tipo ideal’. sociais. por exemplo. onde nem todas as sociedades adotam os avanços tecnológicos de forma uniforme e ao mesmo tempo. ao citar Mendras. 2001). 2003 e Van der Ploeg. mostra que as tecnologias alteram significativamente o modo de vida das sociedades camponesas. cultivam ou criam variedades ou raças que não foram objeto de nenhuma seleção. não são sociedades isoladas. Para um entendimento do que podemos classificar de camponês. multidimensional. Tese que é defendida também por geógrafos como Milton Santos no seu conceito de ‘rugosidades’. Uma agricultura que conta aproximadamente com 450 milhões de agricultores” (Mazoyer. profissão. “o agricultor não é mais seu próprio mestre e necessita. Ao contrário do que muitos autores julgam. e sim integrantes de uma ordem global. Os camponeses. sendo esta restrita as formas de organização da produção. quando citado por Wanderley (2003) e Van der Ploeg (2008). no livro O fim dos camponeses. o conjunto do tecido social. mas que deve ser entendida de maneira associada. 7 . Wanderley. 1984. 2008). já que é provido de história (Wanderley. citado por Wanderley. “A um terço dos agricultores do mundo não chegou nenhuma revolução agrícola. sem dúvida.agricultores pequenos e médios segue praticando o cultivo manual ou com tração animal (Mazoyer. nem a tração animal: somente dispõem de instrumentos estritamente manuais e sem fertilizantes nem produtos de tratamento. de um mestre para instruí-lo" (Mendras. torna o tempo abstrato (como na indústria) e não mais associado ao calendário agrícola. mas que pode ser aprendida em escolas especializadas e com os especialistas dos serviços de assistência técnica”. mantêm vínculos mercantis. O uso do trator. ou seja. políticas e culturais são de tal forma entrelaçadas que mudanças introduzidas em uma delas afetam. uma não pode ser entendida sem a outra. o que significa que as dimensões econômicas. É a partir dessa lógica que “a modernização o transforma (camponês) num agricultor.

da mesma maneira que não são fruto de inércia nem de uma não adequação às exigências do futuro. 6) Características como a subsistência. Desconhecendo esse fato. são atores sociais da História do Brasil. 2006). Podemos citar alguns fatores que levam a essa conclusão: 1) A herança histórica dos sistemas de plantation.que tem primazia nos estudos sociológicos -. 5) Suposição de que os camponeses se recusariam a produzir além da satisfação das suas necessidades básicas (teorias Chayanovianas). onde importa não somente o tipo ideal . 2005). 4) Legitimação da “empresa rural” (definida no Estatuto da Terra) como a única forma capaz de assumir o projeto de agricultura moderna. 2008). 7) A consagração do termo agricultura familiar abandonou ou secundarizou o patrimônio cultural e intelectual em torno de formas de exploração de atividade agrícola reconhecidas até então como camponesas (Neves. 2003). e sim as práticas . que determina o “lugar” do campesinato na sociedade. o lugar negado e a produção de trabalhadores sem terra.2003). Assim. segundo Wanderley (2003). onde o campesinato se reproduzia limitadamente à margem da grande lavoura (Garcia. Para esse modelo interessa somente aqueles agricultores que adotam os pacotes tecnológicos. 2) No Brasil ocorre uma “modernização sob o comando da terra”. os camponeses não correspondem a nenhuma invenção moderna produzida exclusivamente pela ação do Estado. ou seja. Na análise desse sujeito social.das unidades agrícolas familiares. 3) Subordinação a relações extorsivas com o capital comercial e agroindustrial. 2008 e Sabourin. os processos e inter-relações em que estão envolvidos (Van der Ploeg. deve ser entendida a “forma camponesa de fazer as coisas”. os camponeses são colocados em condição de atraso e comumente negligenciados. A importância do processo de recampenização é trazida num debate recente por Van der Ploeg (2008) como reconhecimento da resistência de uma agricultura com 8 . trocas mercantis não monetárias e relações locais de reciprocidade são compreendidas como ausência do mercado (Van der Ploeg.o modus operandi .

as plantas e os animais que são seus. sente-se comprometido com o respeito e a preservação da natureza. o conceito de camponês é ressemantizado: “a tradição camponesa. diante do saber universal. como aquele que conhece de modo especial e detalhado a terra. traz em si o poder de resistência aos modelos produtivos que trouxeram impactos negativos a estas sociedades. 2003:54). O agricultor familiar se apresenta. por esta razão. nesse novo contexto. símbolo da permanência da sociedade camponesa. que por um momento parecia ter uma conotação negativa. uma qualidade positiva. em tal pacto. O agricultor familiar. e que.intensificação baseada no trabalho e com baixa utilização de insumos externos. torna-se. renovado pela aplicação da ciência e de novas tecnologias. possuindo o que Carlos Rodrigues Brandão chamou ‘o afeto da terra’ e o amor pela profissão” (Wanderley. 9 . Assim. onde a base de recursos em co-produção homem e natureza é relevada.

Luta por autonomia num ‘ambiente hostil’. força de de escala e parciais aumentos de trabalho.Padrão camponês de produção (ou Padrão empresarial e capitalista de agricultura camponesa) produção. regiões) o poder de decisão sobre crescentes de núcleos familiares quanto o desenvolvimento. Produção de alimentos em circuitos curtos Impérios alimentares que exercem poder (locais.000 grandes e médios do mundo (No Brasil são 4. A terra (material e mercadorias passam a exigir maior simbólica) como pilar central da base de relevância na mobilização de recursos. Agricultura é então industrializada. tira das localidades necessidade de partilha entre números (estados. é importante relativizar os dois modos de produção com base em tipologias para o padrão camponês de produção a partir dos graus de campenização. Co-produção entre ser humano e natureza viva (alinhada a ecossistemas locais). pela usurpação de recursos por interesses de grandes corporações voltadas para exportação (disputas territoriais/justiça ambiental). São os determinantes do “ambiente hostil”. 10 . Fortemente baseada no capital ecológico Afastamento da natureza. dentre outros(as) autores(as). tendências distribuição e o consumo de alimentos. 12. Base de recursos é limitada tanto pela No plano político. doravante. Fatores artificiais (principalmente natureza viva). Obs. Trabalho assalariado. redes. Concorrência empresarial no mercado globalizado. e relações que governam o mercado global. Trabalho familiar. produtividade onde os circuitos de esterco. substituem os recursos naturais. e c o n ô m i c o s e Geram crescimento econômico para as a m b i e n t a i s s ã o r e v e r t i d o s p a r a a unidades de produção com estagnação em comunidade e região.367. recursos. seriam destinadas à produção em larga escala de cultivos de exportação). Respondem às consequências do ordenamento imperial da produção de alimentos com práticas que materializam a resistência (estas experiências se dão em áreas dantes improdutivas ou então que.: Para que esta diferenciação faça sentido. O s g a n h o s s o c i a i s . Quadro 1: Distinção entre o padrão camponês e o padrão empresarial e capitalista de produção. economia autogerida (conhecimento. regionais e nacionais) representa monopólico crescente sobre as relações que 85% do total mundial ainda que sejam encadeiam a produção. Maioria esmagadora da população agrícola No Brasil são 300. unidades. de acordo com Toledo (1993). Dependência a este modelo tanto de quem produz quanto de quem consome.902 de proprietários de terra. Base de recursos sociais e naturais Dependente do capital financeiro. Adaptado de Van der Ploeg. terra. nível local e regional.3 milhões de camponeses). a alinhados pelos níveis de preços. gado. o processamento. 2009. cultivos). canais de irrigação.

sim. podemos concluir que existem distintos sujeitos sociais no campo que não se igualam apenas pelo consenso de uma categoria classificatória. Porto Alegre. 2009: 33-45. O agricultor familiar no Brasil: um ator social da construção do futuro. 2008: 33-71. D. Jul/dez 2005. VAN DER PLOEG. P. Hucitec. uma vez que o objetivo é orientar uma leitura básica para o estudo do tema. Camponeses e Impérios Alimentares: lutas por autonomia e sustentabilidade na era da globalização. ABRAMOVAY. tradução Rita Pereira – Porto Alegre: Editora da UFRGS. ASPTA. B. Várias outras importantes serviram de subsídio para esta dissertação. In: Stédile. (Org) Agricultura familiar camponesa na construção do futuro. são portadores de histórias de vida e conhecimentos que devem ser valorizados. J. Campesinato e reenquadramento sociais: os agricultores familiares em cena. P. mas não estão indicadas. R. NEVES. Rio de Janeiro. A seguir. referências bibliográficas para orientação de estudo. R. Agricultura familiar e capitalismo no campo. Editora da UFRGS. 1994: 94-104. São Paulo. 11 .Introdução. J. 1992 . WANDERLEY. Paradigmas do capitalismo agrário em questão. Revista NERA Presidente Prudente. P. M. N. D. In: Petersen. ABRAMOVAY. Ano 8 nº 7 pp 68-93. Esses. O que é. J. o campesinato? In: Van der Ploeg. D. A valorização da diversidade sócio-econômica e de identidade presente no campo é o que pode determinar o desenvolvimento rural e as agriculturas (no plural) com que nos deparamos e que devem ser a base de intervenções a partir de metodologias participativas para o seu devido (re)conhecimento.A partir do exposto. então. A questão agrária hoje.

Eli. 12 . ABRA. Revista Reforma Agrária. J. 1995. nº 25 Campinas. p 128-141.VEIGA. Delimitando a agricultura familiar.