I (No fim, tu morres. No fim do livro, tu morres. Assim mesmo, como se morre nos romances: sem aviso, sem razão, a benefício apenas da história que se quis contar. Assim, tu morres e eu conto. E ficamos de contas saldadas.) Esta história que vou contar passou-se há vinte anos. Passou-se comigo há vinte anos e muitas vezes pensei nela, sem nunca a contar a ninguém, guardando-a para mim, para nós, que a vivemos. Talvez tivesse medo de estragar a lembrança desses longínquos dias, medo de mover, para melhor expor as coisas, essa fina camada de pó onde repousa, apenas adormecida, a memória dos dias felizes. A verdade é que, agora que me sento para te escrever, reparo - mas sem nenhum espanto nem estranheza - que não preciso de inventar nada: lembro-me de tudo, exactamente tudo, hora por hora, quase cada olhar nosso, cada gesto, cada sorriso, cada amuo. Sim, às vezes acontece-me esta coisa curiosa, quando olho para trás através dos anos: lembrar-me de todos os detalhes - até daqueles que na altura achei que não teriam nenhuma importância nem significado - e todavia ser incapaz de situar o tempo exacto em que vivi as coisas. Como se as continuasse para sempre a viver, ou como se nunca as tivesse vivido. Mas, desta viagem, eu lembro-me exactamente quando foi e que idade tinha: tinha trinta e seis anos, e lembro-me por isso mesmo, porque foi o ano da minha vida em que me senti mais novo. Nem aos vinte e cinco, nem aos vinte e um, nem aos dezoito. Foi aos trinta e seis anos de idade que eu me senti eternamente jovem, quase imortal ou, mais arrepiante ainda, indiferente à própria ideia de morte. E, se eu era jovem, tu, a meus olhos, eras a própria juventude. Tudo em ti, não apenas os teus absurdos vinte e um anos: a própria maneira um pouco estouvada de caminhares, como se ainda não tivesses aprendido bem a andar, a maneira de parares, virar a cabeça e sorrir por cima do ombro, os teus ares de menina pequenina que precisa de ser embalada e que alternavas com vãs tentativas de parecer mulher adulta e sabida, a tua alegria rodeada de crianças no chão de areia de uma aldeia perdida numa pista do deserto, o teu tom sério rodeada de adultos, à noite junto a uma fogueira, fingindo, como os adultos, procurar naquele lençol de estrelas que quase nos tocavam de tão próximas a resposta que lá devia estar sobre o destino do universo e o nosso. Como tantos outros, procurei sempre encontrar um significado mais grandioso, ou simplesmente mais humano, para aquela linda frase de que morrem jovens os que os deuses amam. Para que não seja apenas uma frase bonita ou para que não queira antes significar a crença terrível de que os deuses só amam os que morrem jovens, assim como bestas desumanas que se alimentam da juventude ceifada. Não sei a resposta: desisti há muito de entender os deuses, de achar um significado humano para a desordem instaurada pelo divino. Sei apenas, no que aos homens diz respeito, que ficam eternamente jovens os que morrem Jovens. Também achei sempre que a beleza não tinha idade. Achei sempre isso, mesmo antes de deixar de ser novo. Um dia (não me lembro ao certo que idade tinha, mas ainda devia ser novo, a avaliar pelo que segue), estava sentado a almoçar sozinho no meu hotel favorito, no meu terraço favorito. Na mesa ao lado, almoçava uma senhora francesa acompanhada por três cavalheiros. Ela estava de frente para mim e eu fiquei perturbado com a sua extraordinária beleza. Fico sempre perturbado com as mulheres demasiado bonitas, nunca sei se são para ser olhadas ou evitadas, contempladas como merecem ou deixadas em paz, porque aquele dom não é culpa que se carregue para devassa alheia. Mas esta mulher parecia uma aparição, uma fada, saída da mata em frente, que era uma mata verdadeiramente encantada. Não estou a brincar, isto foi mesmo assim: eu estava deslumbrado pela beleza dela e ela devia ter uns setenta e muitos anos, talvez mesmo oitenta. Levantei-me no fim do almoço e, quando ia a passar pela mesa dela, não resisti e, em francês porque a tinha ouvido falar francês -, perguntei-lhe delicadamente se lhe podia dizer uma coisa. Ela fez que sim, com os seus olhos de água, e eu disse-lhe exactamente o que pensava: que

ela era, talvez, a mulher mais bonita que eu já tinha visto. Ela sorriu, um sorriso lindo mas triste, como se aquilo lhe causasse mais sofrimento do que alegria, pousou uma mão de dedos esguios sobre a que eu tinha apoiado na mesa, e disse-me: - Oh, non, jeune homme, la beauté c'esr la jeunesse! _ Uma frase cruel, sem apelo nem misericórdia, de cuja infalibilidade me tenho tentado desconvencer desde então. Assim, a ideia de começar finalmente a contar esta história a alguém nasceu-me quando procurava uma fotografia qualquer, numa das gavetas onde guardo (nunca percebi bem para quê) centenas de fotografias e s/ides de memórias tão desencontradas como eu próprio a bordo de um porta-aviões no meio do mar, os meus filhos na maternidade ou um elefante na savana. Não sei porque guardo tudo isto, pois tenho uma má relação com as imagens mortas dos dias mortos. Ao contrário do normal, raramente arrumo as fotografias, não as guardo em álbuns, não as catalogo, não as legenda, quase nunca as dato. Limito-me a atirá-las ao molho ou em envelopes para dentro das gavetas e às vezes acontece-me até olhar para fotografias de um determinado lugar e não perceber em qual das ocasiões em que lá estive é que foram tiradas. De facto, só abro a gaveta quando vou à procura de uma imagem específica que possa ter uma utilidade concreta e actual, evitando cuidadosamente qualquer tipo de vistoria que possa despertar essa serpente venenosa que hiberna no fundo da gaveta e a que chamamos nostalgia. Dizem que as fotografias não mentem, mas essa é a maior mentira que já OUVI. E foi assim, abrindo a gaveta à procura de qualquer ourra coisa, que, sem aviso, me escorregou para as mãos uma fotografia tua tirada durante aqueles quatro dias. Fiquei a olhar-te longamente, longa, longa, longamente. E longamente me fui dando conta de que tudo aquilo acontecera mesmo: eu não o sonhara, durante vinte anos. Nisso, quando guardam para sempre um instante que nunca se repetirá, as fotografias não mentem - esse instante existiu mesmo. Porém, a mentira consiste em pensar que esse instante é eterno, que dois amantes felizes e abraçados numa fotografia ficaram para sempre felizes e abraçados. É por isso que não gosto de olhar para fotografias antigas: se alguma coisa elas reflectem, não é a felicidade, mas sim a traição - quando mais não seja, a traição do tempo, a traição daquele mesmo instante em que ali ficámos aprisionados no tempo. Suspensos e felizes, como se a felicidade se pudesse suspender carregando no botão "pausa" no filme da vida. Ali estavas tu, então, tão nova que parecias irreal, tão feliz que era quase impossível de imaginar. Ali estavas tu, exactamente como te tinha conhecido. E o mais extraordinário é que, olhando-te, dei-me conta de que não tinhas mudado nada, nestes vinte anos: como nunca mais te vi. ficaste assim para sempre, com aquela idade, com aquela felicidade, eterna, desde o instante em que te apontei a minha Nikon e tu ficaste exposta, sem defesa, sem segredos, sem dissimulação alguma. Foi ao terceiro dia da nossa viagem, na estrada entre Oran e Argel, Novembro de 1987. II Quando vi a Cláudia pela primeira vez, ela estava sentada no chão de uma garagem, ali para os lados de Alva1ade' em Lisboa. Juntava latas de conserva, punha etiqueta~ em frascos de comida e caixas de cartão e arrumava tudc nas traseiras do nosso jipe. O nosso jipe: um UMM, motor Peugeot e carroçaria portuguesa, seguramente o mais feio, o mais resistente e. para mim, o mais comovente carro que algum dia guiei Durante um mês e meio, ele serviu-nos sem um desfaleci! menta através do deserto do Sahara, na Argélia, aguentando dunas e pistas de calhaus, caindo em buracos, partindo molas da suspensão, arrostando com tempestades de areia calores assassinos durante o dia e frio polar durante as noites, e sempre seguindo em frente, pegando o motor todas as manhãs, quando a medo eu ligava a ignição. Rangeu sofreu, houve mesmo alturas em que gritou, mas nunca morreu, nunca nos deixou ali, na pista para Tamanrasset.

Muitas vezes me lembro dos nossos diálogos. entre o riso e a alegria. só latas e mais latas de milho? Ela riu-se. noutra casa ou desaparecia uma noite inteira. Então. Quando nos zangámos por causa do milho .Mas o que estiveste tu a fazer durante uma semana inteira. Mas. no tom de voz mais natural que conseguiu encenar. que ela adorava e eu detestava.disse ela. Talvez menos do que seria normal. quando nas traseiras do UMM já nada mais havia para comer do que latas de milho cozido. a Cláudia não discutia nem levantava a voz.Então. atravessando o Estreito num barco que rasgava a escuridão líquida da noite e com o jipe destroçado arrumado no porão do navio. arrancávamos para mais um dia infernal nas pistas e seguíamos os dois calados. . para andar de mota ou conversar com os amigos. Ou então lembro-me dos nossos diálogos ou gestos ao fim do dia. mas a história de como conseguimos chegar ao deserto. Estava verdadeiramente maldisposto com a perspectiva de passar a semana que faltava de viagem a comer milho. que ainda havia atum? . Fechava a cara com um ar triste e desaparecia. junto à porta traseira do UMM. um bocado podem ser duas horas). ela do acampamento e eu da condução. de descoberta. é que percebemos que todas as promessas estavam a chegar ao fim. Cabia lá dentro toda a ilusão do mundo. eu haveria de me lembrar daquela cena e da primeira vez que a vi. na ingrata tarefa de espetar as espias da tenda no chão. nem sequer respondia. a Cláudia estava sentada no chão. Aterrámos à bruta e veio lá de trás um objecto a grande velocidade que me atingiu na nuca. Quando se zangava. Uma das coisas de que eu gostava no nosso UMM é que ele tinha imenso sentido de humor. Era impossível resistir aos humores do UMM. deixando-me a rogar pragas. Mesmo a desordem necessita de uma ordem que lhe dê um sentido para que não seja apenas leviandade. pelo Sahara adentro. durante as longas hora daqueles sofridos e gloriosos dias. Dias de inocência. e arrumava a "mercearia" para a nossa viagem. Tínhamos combinado tantas coisas! Só quando o deserto ficou para trás e Espanha apareceu à vista. quando nenhum de nós quebrava o silêncio da zanga. sorria outra vez e eu estava desarmado. navegando no vazio num horizonte despido de qualquer vaidade e presunção. nada ainda e tinha desgastado. pelas nossas almas adentro. Devo isso à Cláudia.Hoje estás muito calado. fui pensando que um dia teria de contar esta história. pOI pouco não me matando: era uma lata de atum. caí de repente dentro de um buraco e toda a traseira do jipe se empinou. para o que me faltava todo o jeito e vontade. Muitas vezes me tenho lembrado da Cláudia. e então ela zangou-se. Perguntei-lhe. Passado um bocado (no deserto. O que nos trouxera até ali. Subia para o banco ao lado do meu. ela olhava-me de viés e dizia: . com o passar dos anos. entre amuos e tempestades de areia.e foi uma das cinquenta vezes que nos zangámos -. Quando voltava. E então a Cláudia desaparecia invariavelmente. Tínhamos combinado que ela se encarregaria da despensa e eu da cozinha. aos imprevistos do deserte e ao riso da Cláudia: era infantil. interminavelmente ao saltos e solavancos dentro do jipe. Muito mais tarde. fora a necessidade de um mínimo de ordem e disciplina: era preciso chegar lá e voltar. de iniciação. certamente menos do qUi ela merece. a arrumar comida no jipe. quando me lembro. _ Eu não te disse que procurasses bem. Ia andar de mota nas dunas com algum amigo motard. um mês e tal mais tarde.isto é. Não a história de como atravessámos o deserto e voltámos. Não posso continuar a guardá-lo só para mim. quando fina mente parávamos para acampar junto às dunas e não havia tempo a perder para montar a tenda e tirar as coisas necessárias para o jantar e para a noite enquanto havia lua. então: . O jantar estava salvo e a zanga acabada. vem-me a imagem desse riso ou da fugaz tristeza que às vezes lhe corria no olhos e em que só estando atento se reparava. apontando ao céu1 eternamente azul. mas eu insisti. se já não há nada que comer. ia jantar noutro jipe . cristalino. quando navegávamos de volta para casa.

na irresponsabilidade. eu acho que era mesmo muito. que as coisas lhe fossem indiferentes. Gostaria de lhe perguntar se ela se lembra como eu me lembro. E. Detive-me numa em que ela está sentada em cima do jipe e eu estou recostado para trás. como nunca depois voltou a ver-lhe. Foi uns anos antes de aparecerem os telemóveis e os GPS. passo por passo.Passaram já muitos anos. era genuína: tínhamos uma possibilidade real de nos perdermos na travessia. com isso. deambulando por aI recolhendo fugazes declarações de circunstância de "aventureiros" de circunstância. No outro dia. sei que foi feliz então. vi-a dessa primeira vez no chão da garagem a arrumar a despensa do nosso jipe. que enevoava os seus olhos e que hoje tenho desespero de não ter decifrado a tempo. Eu sei que ela se lembra. na Torre de Belém. Havia alguns jornalista: vagamente interessados no assunto. numa manhã de chuva. que ora parecia de alegria ora de tristeza. Isso justificava o epíteto ( "aventura" dado à viagem e todos os nossos jipes ostentavam um autocolante da organização que rezava "Gosto ( Aventura". E. ora a tornavam insuportável. sem cruzar vivalma . satisfazer os patrocinadores da viagem. o seu ar de absoluta paz e tranquilidade. como já disse. A Cláudia sempre gostou de desaparecer. navegando por bússola e antigas cartas militares compradas nos alfarrabistas de Paris. Há um grupo de companheiros de viagem à nossa volta. então. mas ambos parecemos alheados do que se passa. porque sobrava um lugar vazio no meu jipe e ela era amiga de uma amiga minha. III Partimos. de Lisboa. Vê como eu me lembro. que me zanguei com o seu último desaparecimento. e as viagens no Sahara argelino implicavam semanas sem comunicações com a casa. mas sempre também aquela sombra. Parti com ela para o deserto por simples acaso. desde então. e uns olhos azuis pensativos. Não ficou rasto algum. A Cláudia era bonita. como eu fui. doce de alma e de voz. Cláudia. Partimos simbolicamente da Torre de Belém o lugar mítico das antigas viagens dos navegadores portugueses de Quinhentos. Mas era magra. embrulhados em tristeza súbita ou deslumbrados de alegria. embrulhado numas estranhas vestes. muitas vezes. Mas não era infantil. essa sim. o deserto então era verdadeiramente deserto. longe disso: tinha. travessia e descoberta. era Novembro. veículo ou animal. Ou seja. estava a ver umas fotografias antigas. cabelos loiros desgrenhados com graça. com uma cara de menina de Botticelli. nessa manhã de Novembro. mas sei que sim. quando esbarrei com as da nossa viagem. Ah. de ficarmos dias e dias a fio. e falta dizer o mais importante: era generosa. Porque sinto a sua falta. Encontrámo-nos para atravessar o deserto juntos e logo nos separámos. sim. Juntava em si essa fabulosa combinação entre uma mulher sensual e uma criança desprotegida . muito alta. ao contrário dela que parecia ainda não mais do que uma miúda. e só voltei a vê-la na manhã chuvosa em que partimos de Lisboa. A voz era musical e segura.a Marilyn que todos os homens desejam poder um dia proteger. vê se não foram assim. Acreditava na amizade. assim como a vi deixei de a ver. aventureira. misto de hippy e tuaregue de empréstimo. Não é verdade. inconstante. embora ela esteja em segundo plano. Mas deve achar que eu me esqueci. Todavia. de modo algum. trejeitos de criança que. muito bonita. frágil à vista. é a sua imagem que salta logo à vista. Foi uma ideia dos organização da expedição para atrair a imprensa e. Mas é verdade que havia uma coisa que. só duas ou três fotografias onde ela está e onde às vezes eu estou também. como nos aconteceu de facto. Não a conhecia de lado nenhum. na felicidade depois de tudo. ao lado dela.homem. que vivo amuado com ela. nós só sabíamos ainda que iríamos estar fora e sem notícias daqueles a quem mais queríamos durante muito tempo - . que me fechei no meu silêncio. mas isso não significava. Por isso escrevo esta história. aqueles quatro dias que demorámos até chegar juntos ao deserto. É verdade que nunca consegui perceber bem como era o seu corpo. conforme o meu humor. Mas não a teria trocado por nenhum outro companheiro de viagem. ora irresistível.

seis semanas. para me informar melhor. não me tinha ocorrido perguntar a ninguém e. muito bem. além de uma máquina Nikon e uma Leica de três objectivas. Porém. E assim partimos por ali abaixo. manhã bem cedo. e de volta para casa. loira e bonita.quinze horas de filmagem. Comecei a achar que qualquer coisa não batia certo e aproveitei. alta. Ficámos a ver o grupo todo a embarcar em Algeciras. a sul de Argel. mas também escrevia e filmava e. por Alentejo e Andaluzia fora. o carro em que eu também gostaria de estar. cuja ponta mergulhara várias vezes no copo de aguardente. mulheres e maridos.º 4. com tantas imaginadas horas para gastar pela frente. Ainda almoçámos todos no lado de cá da fronteira. Tinha-me to! nado fotógrafo freelance. Quanto a nós. Por isso. não: nós tínhamos (ir apanhar o barco a Alicante. Nós combinámos seguir até ao dia seguinte com um casal amigo da Cláudia. Todos ele embarcavam ali para Ceuta e de lá seguiriam directos pal a fronteira argelina. reparei que Cláudia falava imenso com os outros seus amigos e que aparentemente.quatro. eles seguiriam pelo deserto adentro sem nós. eu já tinha contratado a venda do trabalho a duas revistas e uma televisão. arrancámos: 20 quilómetros. para o terraço do restaurante. directamente na Argélia. tranquilos. 30 quilómetros. desta vez. dezasseis jipes e quatro motas. na costa. ma não dava para fumar um puro todos os dias. em Algeciras. Mas sucede que eu não fazia ideia de onde ficava Alicante. que viajava num Nissan Patrol. Jantámos e dormimos algures já perto de Algeciras e lembro-me de ter comido uma chuleta de ternera com uma cerveja San Miguel. Era uma boa vida. Em princípio. e nada: nem uma indicação que rezasse "Alicante". nessa noite dava. como se não conseguissem resolver se a altura era para mimá-la ou para soltá-la. estavam lá também pais. se não estivéssemos. Voltámos a encontrar o resto da caravana ao pequeno-almoço. e voltei para dentro quando comecei a sentir-me enregelar. rumo a Oran. entusiasmado e cheio de vontade de regressar ao deserto e. até quase ao Níger. nunca olhava para onde eu estava. filhos. porque só lá é que me passariam a autorização que nos permitir circular no país com o equipamento de filmagem e de fotografia e poder filmar e fotografar à vontade sem sermos suspeitos de pertencer à CIA ou à DST francesa. e dali fazer 600 quilómetros até Argel. mas já não jantámos juntos: os pueblos da Andaluzia dispersaram-nos pelo mapa. a pretexto de que era a terra-berço do Picasso e tinha umas palmeiras lindas. comprámos pão fresco e água e. Se estivéssemos lá até essa hora. atravessá-lo para baixo. talvez devido à semelhança dos nomes (Algeciras-Alicante). E. adeus viagem. como gosto de fazer. 50 quilómetros. Pus uma moeda na jukebox para ouvir o Stand by me. e um senhor com um ar discreto e calmo. acendi um puro e fui fumar lá para fora. nada mais havendo para fazer. sacar a licença no Ministério da Informação e alcançarmos Ghardaia. apanhámos sol. pedi uma aguardente Domecq. cinco. trazia também uma máquina de filma Ikagami e vinte cassetes vídeo . no primeiro ferry da manhã. Sentia-me feliz. De modo que. que era o pai. nessa noite fria da Andaluzia. vendo os faróis dos carros que desciam a carretera dei sur em direcção ao mar. e se houvesse tempo e capacidade de organização para tudo. quando parámos numa estação de serviço para abastecer os depósitos. algures pelo caminho. Através do vidro da porta do terraço. bem e com tempo. mais a sul. namorados e namoradas. Havia alguma indecisão instalada entre eles e a filha. estupidamente. já quase à vista do Estreito e de África. tínhamos bilhetes reservados para o barco que saía de Alicante às seis da tarde. até amanhã às oito!" e fui para o meu quarto. fomos ainda passear a Málaga. Nós. Fizemos as contas ao tempo de que necessitaríamos para chegar a Argel. Estavam os pais da Cláudia: uma senhora estrangeira. Passei pela Cláudia e pelos outros. resolvemos arrancar tranquilamente e ir almoçar. esticámos as pernas. disse-lhes "Boa noite. a última cidade antes do deserto: marcámos encontro no parque de campismo de Ghardaia e foi-nos dada a hora limite até à qual esperariam por nós: sete da manhã de daí a setenta e duas horas. tinha concluído que ficava logo ali a seguir. Pior: não tinha mapa de estradas. por isso. magra. Voltámos ainda a parar num café. . Acabei o Montecristo n.

eu iria aprender inúmeras e distintas lições de condução de um jipe em condições invulgares: aquela foi apenas a primeira. de onde voltou com dois chouriços dentro do pão e uma lata de cerveja que ficou a segurar para irmos bebendo a meias. A Cláudia não disse nada.. Depois. pela janela. a buzina era forte e ouvia-se quase em Ali cante. E. quase ofendido. Mas..Não paramos sequer para almoçar? Olhei-a. só olhou para mim pelo canto do olho. Não sei se já disse. Felizmente. para nos permitir ultrapassar no limite. como usar a ameaça das quase três toneladas de um jipe para fazer os carros da frente abrirem passagem. Rapidamente. e como aguentar tudo isto durante cinco horas. Ao longo das semanas pela frente. Agarrei-me à buzina. com feiras e festas porque era sábado. . assim como quem acorda de repente. como se eu fosse o mais imbecil dos turistas. Pôs a sua voz mais doce e perguntou: . à caixa de velo cidades e ao descontrole e investi como um louco pela N 340. mas julguei que soubesses . na N 340. ao acelerador. fiz um cálculo mental: 400 quilómetros em estrada nacional. aprendi rapidamente. Era matemática. Era possível? Não. constatando. . mudou de disposição sem aviso. almoçando em andamento e verdadeiramente como loucos. Ali. .Temos pão fresco e podes arranjar lá atrás qualquer coisa que a gente possa comer em andamento . dramática. . desta vez. como tinha visto fazer na Fórmula 1. tinha o mau hábito de nunca querer pôr o cinto de segurança senão após insistentes pedidos. irritada ou apenas indiferente ao desfecho daquela súbita crise.. miseravelmente impossível. Que horas eram? Dez e meia da manhã .Claro.O homem da bomba olhou para mim. a começar pelo estatuto de "chefe". Ficou uma meia hora sem dizer nada e sem que eu percebesse se estava preocupada.perguntou-me ela com um sorriso trocista.E só agora é que descobriste? . e o barco que saía às seis e fechava c check-in uma hora antes.Seguro que unos 400 quilómetros! Caiu-me tudo aos pés. como utilizar a buzina como um selvagem e dizer três palavrões por minuto. Ela saltou por cima do banco e foi à "despensa". zangada comigo. vi-a colocar discretamente o cinto e aos poucos ir-se encolhendo pelo banco abaixo. sem entrar em derrapagem. E assim seguimos. que quando os espanhóis viam pelo retrovisor aquele monstro desembestado que avançava direito à traseira deles como se não tivesse travões afastavam-se assustados para a berma.faltavam seis horas e meia.Cómo. não era. muy lejos? . por instinto e por desespero.~ Alicante? . como travar no limite da catástrofe. Sentei-me ao volante e arranquei em fúria. Ela voltou a amuar.Porquê. berrando-me palavrões. Era muito mais estóica do que fingia. e como era característico nela. A Cláudia. mais do que justos.Muy lejos . como fazer desviarem-se os que vêm de frente. Rugi entre dentes: . como conseguir que aquele mastodonte.Não. tu já sabias? . construído contra todas as leis da aerodinâmica.. . perguntando de cinco em cinco minutos quanto tempo faltava e quantos quilómetros restavam para Alicante. quando a via a fazer beicinho e me fazia sentir o lobo mau. um UMM de três toneladas que não passava dm 140 com vento pelas costas e um condutor que nunca tinha visto um jipe na vida. e que ou era impressão minha ou também funcionava ali. como um carro de rally. Mas só se for num três estrelas Michelin e que tenha o telefone do porto de Alicante para pedirmos ao barco que espere por nós. como aproveitar o "efeito de aspiração" do carro da frente para ganhar embalagem e o ultrapassar.Estamos tramados: Alicante fica a 400 quilómetro de distância! . como se não quisesse ver a estrada. cheia de trânsito e com inúmeras terras para atravessar. curvasse em slice.. mas eu não conseguia resistir-lhe nessas alturas. com alívio. se necessário fugindo para a berma. durante todo . mas gostava de se fazer de criança maltratada. aquela expressão de menina mimada sem o hábito de ser contrariada: era um lado falso dela. como eu já havia reparado..

que as confusas explicações que dei à sentinela lhe devem ter parecido sinceras e. apontada a nós. profusamente iluminados. com essa simplicidade burocrática. porque ainda sobram dois lugares para carros no porão. ali estava ele: enorme branco. vendo o que me pareceu a entrada do porto. o Ciudad de Oran. A noite caía já por completo. não havia um único by-pass que contornasse uma povoação: todas tinham de ser atravessadas a passo de camelo. não havia nenhum escada que o ligasse a terra. que nos poderia ter saído fatal: era um quartel e. Entrámos na cidade.Eu. para agravar as coisas. deve ser aquele. por mim. . nunca tremeu. um de quais vestia uma farda com dragonas ou divisas que o tOl nava suspeito. de ser a autoridade portuária local. à proa e à ré.Ali. O problema é que a Alfândega já fechou e o chefe já foi para casa. aos meus olhos de leigo. sentada no jipe e observando a cena pela janela aberta. em terra. foi uma sorte o soldado não ter aberto logo fogo. só d repente me apercebi de que ia direito a dois vultos saíde do escuro e que caminhavam vindos do barco. naquele sábado: devia ser dia de santa ou coisa que o valha. não dava para ver bem a sua cara. como recordação?). Travei a fundo a poucos metros dele: consegui até ver o ar espantado do "almirante". e. que comecei a perceber a importância que ela iria ter naquela viagem e como tudo teria sido diferente. A população inteira das aldeias e vilas que atravessávamos tinha vindo para as ruas passear-se por grupos inteiros. como se procurasse a salvação em algum lado. Por favor. já não esperavam passageiros nem carga.Senhor . Sim. às seis da tarde de um dia de Novembro. levantando uma sobrancelha na minha direcção. até que a Cláudia me apontou em frente: . a miúda aguenta-se!" Foi aí. suponho. o nosso barco. Ao contrário do ambiente. o tipo achou graça à minha encenação dramática. E estava na hora do embarque. a Cláudia esperava. Lá de dentro vinha um som de muitas vozes. Era logo ali. nunca gemeu. mas com um ar de fim de feira.esse tempo. em Alicante. num ritmo exasperante.supliquei em posição de reza -. como se estivéssemos na Feira Popular e aquele fosse verdadeiramente o melhor programa imaginável para um sábado à tarde! "Caramba . Lá estava ele. temos bilhetes e reservas para este barco e precisamos desesperadamente de embarcar nele. Não podia acabar assim. Enfim. algures mais adiante. imponente. Na escuridão. Foi um acaso feliz termos entrado pelo lado do mar: necessariamente que o barco tinha de estar por ali. ajude-nos! Aparentemente. Sem saber para onde me dirigir entrei aos ziguezagues. muitos ruído de um barco pronto a zarpar: era uma tentação juntaI -mo-nos a eles. até os ajudava. Mas o meu tom de voz devia ser tão desesperado. com um gesto da arma em riste. Virámos sem sequer travar e tão depressa que logo a seguir. Tive então momento de maior inspiração de toda a viagem: saltei do volante quase em andamento e fui-me ajoelhar aos seus pés de mãos postas. A olhar fixamente para o Ciudad de Oran. fazendo-me sinal para me levantar: . Manifestamente. muita animação. porque sorriu. a bordo todos os seus três andares pareciam esta em festa. sem a sua presença. pior e mais triste. Estava já o Sol a começar a pôr-se quando finalmente apareceu a primeira placa indicativa de Alicante: 50 quilómetros. àquela velocidade e com a falta de maneiras com que entrámos por ali adentro. esqueci-me do nome (terás tu guardado os bilhetes. onde apenas o detinham ainda dois cabos. mandou-nos dar meia volta e apontou-nos o caminho do porto. mas não era difícil de adivinhar o que estaria a pensar: "Que . a Cláudia nunca se queixou.pensei para comigo -. a placa "Puerto" apareceu-nos à frente. ou coisa que o valha. meti por ali adentro e tive de travar a fundo quando vi uma sentinela sair de uma guarita de arma em punho. Um engano. Parecia que todo o Sul de Espanha estava em festa. que prenunciava catástrofe. Nas minhas costas. inacessível. no portão ao lado. por uma longa estrada que descia em curva junto ao mar e acompanhando a costa. lá. Mas havia um pequeno problema: todas a portas e escotilhas estavam fechadas. O porte estava todo iluminado. vindos do oeste. julgando que fôssemos algum comando da ETA.

Meia hora. Subi a rampa. fez uma pausa castigadora e disse: . Estamos há um mês a preparar a viagem e tudo em vão porque nos atrasámos. perguntando o que se passava. o tinhas acompanhado no desvio por Alicante e Argel. como se dissesse: "Pobre diabo. documentos do carro e listagem do material de filmagem. e eis que a recompensa era esta: adeus. por solidariedade de companheira de viagem. os documentos do carro e a listagem de todo o material de filmagem e de fotografia que levam e vão preenchendo estes formulários. porém. Como o próximo barco a sair daqui é s dentro de uma semana. que está aí na bolsa dos documentos! E esferográficas! Já! O Ciudad de Oran esperava pacientemente. Sahara. entrando numa imensa garagem atulhada de carros. enchê-lo de beijos e empurrá-lo lá para dentro a correr. não podia acabar assim. E a minha televisão. Adeus para sempre. no Sul da Argélia. a larga porta do porão começou a abrir baixando-se em direcção ao solo. outra vez! . pensando que decerto não havia esperança. quando descobri que não era. a viagem dos teus sonhos deitada a perder de forma tão estúpida porque tinhas aceite a boleia de um jornalista acabado de conhecer numa garagem de Alvalade. perdemos o barco. que é pobrezinha. E tudo isto porque eu julguei. resmungando entre dentes qualquer coisa sob "los portugueses". mas nós só temos visto de entrada para a Argélia. O "almirante" desligou o telefone. nós aqui . na altura. eu não tinha autorização para entrar em Marrocos. voltando para trás. vá lá. imaginei o que tu estarias a pensar. olhou para mim com ar muito sério. Ela encolheu os ombros. investiu muito dinheiro neste projecto. Voltei-me outra vez d mãos postas para o espanhol comandante do porto de AI] cante e pus-lhe a minha vida nas suas mãos: . voltei a sentar-me ao volante do UMM. à Cláudia: . vou ver se convenço o chefe da Alfândega a voltar. Imagine-me a voltar para Lisboa e explicar aos tipos da televisão e da revista que reportagem se perdeu e o dinheiro foi deitado à rua porque eu não sabia onde ficava Alicante! É o fim da minha carreira jornalística! E olhe que até estava a ser recompensadora . Alguém me fez sinal para avançar.Está ali o barco ainda. a custo contida. porque o próximo barco a partir dali era só daí a uma semana. Eles já embarcaram por Marrocos. que Alicante era ao lado de Algeciras e. trabalho para a televisão e para uma revista portuguesa. Nem Plano B..Oiça. Lentamente.Bem. nas águas quietas do porto. Nessa altura. muito embora a minha vontade. mas vai ser difícil.Estamos na iminência de um milagre ou de uma tragédia .imbecil! Por incompetência dele. para se transformar e ponte de acesso ao seu interior. Rápido! Quase me engasguei a gritar para fora. . telefonou ao Paco à minha frente e pôs-se a descrever-me.. e se quiséssemos ir por Algeciras.Tragam os passaportes. e saiu para fumar um cigarro.. logo no princípio. os outros já não esperarão por nós está tudo perdido. Vamo-nos encontrar com uma caravana de portugueses daqui a três dias. e. viemos por aí abaixo como doidos e foi o melhor que conseguimos. toda a viagem foi por água abaixo e agora ele está convencido de que é a fazer teatro que nos safamos!" Sim. sôfrego. a mim e à situação.. cheira-me mais a tragédia!".respondi-lhe. ele gosta de jantar cedo. vou fazer uma reportagem sobre o Sahara e trago ali todo o material de fotografia e filmagem. apareceu também a Cláudia. ainda não querendo acreditar. não sei porquê. Pus-me a caminhar dois passos atrás dele até ao edifício da capitania do porto. enquanto eu lhe ia dirigindo estúpidos sorrisos de incitamento. preso por dois cabos.Passaportes. como passaria tudo o que ele me pedisse. é só mandar abrir o porão. Arriscámos a vida para chegar aqui ainda com o barco no porto. O tipo hesitou um segundo e eu aproveitei: . Não. Tem aí os bilhetes? Passe-os para cá! Passei-lhos. O tipo agarrou no telefone. Sobrava só um pequeno espaço junto à porta e aí nos arrumámos: estávamos a bordo! IV . senhor: eu sou jornalista. fosse saltar-lhe ao pescoço. vários carimbos e muchas gracias depois.

os homens . já não podiam ser abertos pois já toda a gente tinha sido instalada nos seus lugares ou camarotes. Melhor. segundo nos explicou o guia. Ah. E. nova. correspondente à primeira classe. Mas.anunciou-me o miúdo (ainda não havia euros e negociar em dinares da Argélia seria matar a negociação à cabeça). Era o próprio bazar. como se fôssemos extra-numerários.Quanto impossível? . . a que os bilhetes davam direito.Dez mil pesetas . Porque é isso que eu me sinto sempre entre os árabes. Os nossos dois camarotes.ou deambulando pelos decks . que não devia ter mais c catorze anos mas que vestia uma espécie de farda com um placa de latão ao peito e parecia ter como função vigiar deck da primeira classe. onde alguns. haxixe? . que era a dos nossos bilhetes. sobretudo a Cláudia que.. pensei para comigo: eis-nos no mundo árabe.perguntou ela. poucos. enfim. acompanhado por UI sénior vestindo uma farda nitidamente mais importante mas que não abriu a boca: ou porque não falava francês ou porque não estava nos seus hábitos tratar daqueles detalhes. da garagem ao último andar. "C'est parti!". Mas aquele era imenso e era árabe: um navio extraordinário. loira. a quem não assentava a qualificação de marujo. jeans e cabelo solto aos quatro ventos.e ocupados na intimidade das suas tarefas ou hábitos. conforme as classes. Já vais ver o que é. no deck superior. chegámos lá acima.Paciência.O quê. não íamos dormir num banco de madeira. . à primeira classe. claro.as mulheres e as crianças .Vou ver. perante os seus olhares silenciosos. Olhei à roda e vi um rapaz. O Ciudad de Oran escalonava-se de cima para baixo. nos olharam de alto. . Caminhávamos em silêncio. Não. mas o mundo árabe não funciona assim! A regra principal é: nada tem uma solução definitiva e não t nada que não tenha algum tipo de solução provisória. por mais que me esforce por convencer-me de que todos nós. depois de seis horas sentados no jipe! . abandonando-nos. . de olhos azuis. dividido por três andares acima do porão e posto a navegar na noite escura do Mediterrâneo.COl formou-se a Cláudia.Bakshish. que começava a revelar um inesperado espírito de adaptação. a escada estava dividida em lanços e cada um deles começava na ponta oposta ao local onde terminara o anterior.Qual é? . A Cláudia nunca havia estado antes num país árabe e aquela longa travessia em ascensão por patamares do Ciudad de Oran foi como que um baptismo de fogo inesperado e surpreendente. Mas era impossível passarmos despercebidos. estrangeiros como nós e igualmente fardados de "aventureiros". . com extrema cautela para não pisar ninguém nem coisa alguma. olhando disfarçadamente para os lados e pedindo delicadamente passagem quando alguém obstruía o caminho.Um navio é apenas um navio e um ferry nem sequer é um navio por aí além. temos um pouco de sangue árabe: um estrangeiro. despertava olhares frontais de concupiscência dos homens e olhares oblíquos de mulheres vestidas de negro e cara semitapada.Não: bakshish. . fingindo-se exausta. pensei logo (tamanha era a vontade de pensar) no Estrangeiro de Camus. E éramos. Guiados por um funcionário. um pouco como dizem da vida os que sabem viver. E. enquanto íamos subindo. cara descoberta. Dirigi-me a ele e felizmente e falava francês. adaptando-se. na Península. Expliquei-lhe a situação e é claro que e disse logo que era impossível. Isso forçou-nos a atravessar literalmente o barco inteiro aos ziguezagues. que eu iria aprender a admirar a sério nos dias seguintes. que nós íamos devassando constrangidos.Talvez haja uma hipótese de dar a volta à situação . sentados em bancos de madeira corridos . E voltou passados dez minutos. com os nossos sacos de mão. em vez de subir a direito. . fomos subindo até ao último andar. dormimos aí num banco qualquer! . isso permitiu-nos surpreender uma pequena multidão de argelinos regressando à Pátria.

. sorridente. Consultaram-se entre eles.OK. dez mil pesetas por um camarote é muito caro: dou-te cinco mil. . Ahmed? . Perguntaram-me de que país era. A mim. porque . não! Aqui é proibido. pas de probleme. Suspiraram. não é? Não menti. à escolha.respondia a Cláudia. soube-me divinamente.Vai lá ver se ainda está algum acordado. pensando que espécie de homem seria eu para lhe fazer tal pedido. . porque. porque. Era português. mostrando o quanto deveria sofrer dos dentes. mas têm de ser rápidos. acompanhada por um bocado de pão espanhol e depois.Sete mil e tem de ser já. A Cláudia olhou-me e sorriu: . sem luz eléctrica nem sombras de casa de banho: um luxo. Agora os cozinheiros já se foram todos deitar. .Se conseguires também que nos arranjem jantar. gostávamos de jantar: ainda nem sequer almoçámos! . quanto? . .. . . o quê? . por sorte do destino.O restaurante já fechou há muito: servimos o jantar enquanto esperávamos por vocês. Interrompi-o. com pedaços de cenoura e courgettes. .Não há: vou ter de fazer sair alguém para vos dar este. Jantámos uma massa com carne de borrego e um molho espesso. ou então dormimos no chão. . Pas de probleme. . juro que começo a ficar espantada contigo! E eis que regressava o Ahmed: ..Não: cinco mil.Dez mil pesetas. Voltei triunfante para a Cláudia: quem é chefe competente. antes de chegarmos a um preço final.Ah.E achas que eu ficava sozinha num camarote aqui? "Camarote" era uma designação demasiado sofisticada para descrever uma cabine de aço. o restaurante está trancado e . .Óptimo. de outro modo. . Os cozinheiros já se foram todos deitar. Mediram-me devidamente. . uma maçã ou uma laranja. .Bem. quem é? .Pois.Dez mil pesetas.Seis mil.Sete mil pesetas e podem ficar com as chaves do camarote. isso é impossível! Absolument impossible! .Dois jantares. agora. para quem nem sequer esperava estar a bordo.Mais alguma coisa que eu possa fazer ("encore un service") ? . . aquilo iria demorar horas e ainda meteria um chá de menta. porque também me esqueci do nome dele).. vá lá. óptimo . me atinge normalmente nestes lugares e em ocasiões destas. conformados: há oitocentos anos que negociamos com eles e nem sempre perdemos.Gostam? É bom. para irem dar uma volta se quiserem. .O quê? . .É exactamente o que eu estava a precisar! .. o nosso miúdo (vamos chamar-lhe Ahmed.E olhou para mim com um ar de desdém. . como eu disse. .E Ahmed sorriu largo.Um camarote de duas camas: é tudo o que se arranja e é um favor muito especial..Vinho. é muito complicado... . mas só têm um camarote. como já expliquei .Dois camarotes não se arranja? .Ah. .respondi-lhe. . .Consegui. reparando que estava a ser tomado por uma espécie de euforia que. Somos muçulmanos. apesar de o único talher ser uma colher e a única bebida agua.Seis mil. com dois metros quadrados e dois beliches igualmente de aço. pois não? .E é uma sorte.Dez mil pesetas por um camarote só? .Não.OK.Sim.perguntava.

depois delas . .Ahmed. Mas emocionante mesmo foi a parte do porão: O guarda abordado e convencido pelo Ahmed estava dividido entre o medo e a tentação das mil pesetas caídas do céu ou do deck superior. Vamos! A Cláudia achou que eu tinha perdido a cabeça. se nos topasse.Sabes que nós. há um guarda em cada deck e. . . oui? . vendo-me caminhar. Mas ele precisava ir a um dentista. Ele parlamentava com o guarda.. apenas alumiado por umas ténues luzes de presença no tecto. gostamos de beber álcool às refeições ou.Impossible. a esta hora é proibido os passageiros de um deck passarem para outro.Sim. os infiéis.. setecentas na terceira. Tudo se passou . . Não dava para discutir.OK. posso. atravessámos. Pelo caminho. mil no porão.. eu pagava e a porta abria-se: mil pesetas na primeira classe.Resolvi testá-lo: . . Tem um guarda lá dentro.Tout à fait impossible! O porão é fechado à chave por razões de segurança. preciso de mais um serviço . Suspirei: era o preço da garrafa.Olha. eu vou-me deitar: se não voltares.. . até chegar ao meu UMM e abrir lentamente a mala traseira. quinhentas na segunda. por Sussurros e gestos. Mas a minha euforia ainda não estava saciada. Mais os três mil do Ahmed.Poder. Mas não se perde nada em tentar. . Recuou até. Desta vez pareceu-me que ele ficou mesmo assustado. . devia ser mesmo impossível. tão silenciosamente quanto pudemos e fazendo exercícios de malabarismo para não tocar em nenhuma perna nem em nenhum corpo estendido no chão. .Não.Vamos lá! . rezando para que a porra não rangesse. eu tenho uma garrafa de whisky no meu jipe Arranja-me maneira de ir lá buscá-la. . ..Bom. depois o Ahmed vinha ter comigo e anunciava o preço com os dedos da mão.E escancarou a boca num imenso sorriso que me fez pensar que realmente tínhamos de contribuir para a ida daquele rapaz a um dentista. espero que fiques bem! E vou-me trancar por dentro! Caramba. Olhavam para mim como se eu fosse um caso perdido. . não.. Desta vez é mesmo impossível. eu uns respeitosos cinco passos atrás. . explicando que o seu chefe estava na outra ponta da garagem e que.Ah.Dez mil pesetas. mas vamos ter de pagar a todos e o meu serviço é à parte. quando lhe expliquei que ia tentar ir ao porão buscar uma garra de whisky. toda a noite. Seis mil e duzentas pesetas até chegar à minha garrafa de whisky. Ficaram os dois à esquina.Dez mil pesetas? . não há impossíveis para ti.Está bem. . Se nem dez mil pesetas o abalavam.E fez um ar pesaroso.Não. Aliás.Vá lá.Três mil. ao menos.Impossível! . o Ahmed à frente.Não podes passar sem um whisky? .Quanto é o teu serviço? . Absolument impossible! . tínhamos acabado de nos conhecer! A estratégia foi simples e brilhante: caminhávamos até às esquinas onde estavam os guardas de cada deck. guardada nas profundezas da carga do UMM. olhando para mim incrédulo. . ida e volta. eu sei.Não! Custa tudo dez mil pesetas? Não sabes dizer outro número? . encostado aos carros e na quase escuridão do porão. tu és capaz de falar com eles e convencê-los . os três andares do souk adormecido. como se já me imaginasse a arder no fogo do Inferno. estávamos todos tramados.

. de rabo para fora. Ahmed! Diz-me uma coisa: a que horas chegamos a Oran. só que. Meti a mão ao bolso e saquei quatro mil pesetas. Sentei-me ao lado dela num banco. que pareceu uma labareda de fogo naquele frio polar. que já me puxava pela manga do casaco. olhando a esteira branca da espuma do navio e fumando o seu cigarro.E a que horas servem o pequeno-almoço no restaurante? . a fumar. ele apertou-me a mão: foi a última vez que o vi. disse ele.Impossible! Não há pequenos-almoços no quarto. comecei a fechar devagarinho a porra da bagageira. tanto trabalho e tanta emoção.rapidamente e bem até aí. com a garrafa. que me explicou por gestos que tínhamos de sair dali imediatamente. Mas a dele estava estendida para receber. . Ia a responder dez mil. . Não era possível: seis mil e duzentas pesetas. mas logo tive vergonha da minha hesitação. era a garrafa de Cutty Sark! Emergi de volta à vida do deck superior. .Começa às seis e meia e acaba às sete e meia.Combien? Ele sorriu. chegado ao jipe e tendo desligado logo a luz do tejadilho.e que. vim fumar. e voltava de mãos a abanar porque não conseguira dar com a garrafa! Eu ia matar a Cláudia! Maldita noção feminina de arrumação: então a garrafa de whisky não deveria estar logo ali à mão? Conformado. Mas não havia comité de recepção para me ovacionar: a Cláudia estava do lado de fora. . triunfante e com a minha preciosa garrafa escondida dentro da roupa. Mas era o Ahmed. Estava eu ali enfiado. juntar-me à Cláudia. quando senti uma presença nas minhas costas que me deixou sem pinga de sangue. . às escuras. servi um whisky na própria tampa e estendi-lha. preciso de um dernier service teu .C'est fait.Mas que ideia foi esta de vires para aqui com este frio? Queres chegar ao deserto constipada? . Acabaram os meus serviços! Mas lembrei-me ainda de mais uma necessidade. Mas percebi que estava gelada e feliz. aterrorizado. .Não posso. apalpando tudo à roda. Fui ao camarote buscar o meu blusão de penas e fui lá para fora. pressionado pelos gestos angustiados do Ahrned. encobrindo-lhe a cara. ao frio.Quoi. antes de cair ao chão e acordar o Adamastor daquele porão: porra. mas emendou a tempo: . . Nisto.Às oito e meia. soltou-se lá do alto da carga um objecto que veio rolando por ali abaixo e que agarrei no último segundo.E olhava-me. eu iria rogar-nos infinitas pragas pela estupidez daquela arrumação e jurar a mim mesmo que haveria de repetir a viagem apenas para provar que era capaz de arrumar um jipe de forma verdadeiramente inteligente. Hesitei um segundo. e aquela incursão nocturna foi a primeira de incontáveis vezes em que.. ao longo das mais de cinco semanas que se iriam seguir. tínhamos nós concluído em Lisboa. .Mas porque é que não fumas lá dentro? .Espera aí. Não há pequenos-almoços às oito.C'est fini pour ce soir.Não podes? . abri a garrafa. .E estendi-lhe a mão para me despedir. dar com a garrafa de whisky no meio daquela caverna de Ali Babá atestada até acima de carga .. Era preciso pensar para a frente. todavia. maintenant? . amanhã de manhã? . . que veux-tu. era suposto estar arrumada de forma a tornar rapidamente acessível qualquer coisa de que se precisasse. O Ahmed olhou para mim e. não conseguia.Quatro mil. "Arrumação inteligente". . .Não te disse que não gosto de whisky? O cabelo voava-lhe com o vento.Arranja-te para nos trazerem o pequeno-almoço ao camarote às oito.Não. Então. antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.Ah. Engoli de uma vez a dose de Cutty Sark. .

. enquanto foste na . Um cheiro perfumado do bom kif do Atlas subiu no ar.e esse é assustador. estava num fim do mundo. apanhou o vento e desapareceu em direcção a Gibraltar. No deserto. dormia. pelo contrário. Adormeci com ele a perguntar-me ao ouvido: How many roads must a man walk down/ Before you cal! him a man?/ Yes. Se não fosse para isso. que fez com que o alentejano que estava comigo. também. o deserto não existe: se tudo à sua volta deixa de existir e de ter sentido. com nojo de se deitar nos lençóis do Ciudad de Oran. naqueles dias. junto ao rio Guadiana. Cláudia? Quando um de nós ficava parado a contemplar o deserto. pude ver que as cúpulas de cor dos minaretes brancos de Oran brilhavam à luz da manhã nascente. quando qualquer coisa na maneira como tu estavas em pé a olhar o deserto. por função. E. adormecer tão cedo. Olhei para o relógio: oito e quarenta. mesmo antes de fechar de vez os olhos e cair na inconsciência. Acordei. me fez ficar quieto ao volante. só resta o nada. respondi-lhe: I don't know the answer. não há mar.Não. como se o mundo inteiro não existisse. Ahmed desiludira-me: não mandara o pequeno-almoço já pago. Mas. and how many seas must a white dove sail! Before she sleeps in the sand? E. acordámos todos a bordo. seria tão inútil que só poderia vir de uma alma fútil. Meia hora depois. eu estava sempre com pressa. Alguém tinha de estar sempre com pressa e coubera-me a mim. Será assim a morte. Ia gritar-te. a cabeça ligeiramente inclinada de lado. todo aquele despojamento humano.tua excursão ao whisky.. nem som algum. excepto o do vento de areia quando se vai levantando aos poucos . Não há cidades. Tudo o que se pudesse dizer. Eu não consegui. Aprendi que é preciso dar tempo aos outros para olharem. Pela primeira vez. depois de mais uma paragem para colher imagens. Tudo o que se diz de desnecessário é estúpido. neste ano em que escrevo esta história. enrolada no seu beliche e vestida dos pés à cabeça. como se te tivesses desligado de tudo. Devia haver qualquer coisa na forma como eu olhava aquela paisagem.E soltou uma longa baforada do estranho cigarro em que eu agora reparava. porém. E fiquei assim a observar-te até que tu te virasses e visses que estava à tua espera. é a ausência de tudo. Só não tinha pressa à noite.Olha.. destes não posso. ou. lá em baixo. naquelas alturas.. buzinar-te. cozinhado o jantar. Liguei o meu walkman e fiquei a ouvir um lado inteiro de um disco do Bob Dylan. o cabelo varrido pelo vento. e que antes tinha sido pastor naqueles vaIes. o mesmo olhar perplexo perante a vastidão daquele cenário: há alturas em que a beleza é tão devastadora que magoa. E o nada é o nada: conforme se olha. não há rios. em frente ao nada ou ao absoluto. não há muito a dizer: o olhar chega e impõe o silêncio. my friend . ao regressar ao jipe vi que tinhas ficado ao lado da pista. segui o teu método do bakshish e tratei do haxixe. nem ruído. no Alentejo. A claridade penetrava através da canina da escotilha do camarote. afastando a cortina da janela. é um sinal destes tempos estúpidos em que falamos mais do que emendemos. Estava a recuperar o fôlego de uma longa caminhada e tinha-me sentado numa pedra a olhar o rio que corria no fundo do desfiladeiro. me sentava com os outros à lareira a olhar as estrelas do Sahara. v Na verdade. não há sequer árvores ou animais. com um apito prolongado e lânguido do Ciudad de Oran. revisto e arrumado o jipe e de ter passado para um caderno as notas do trabalho do dia e quando. enfim. Não há mÚsica. ali. qualquer coisa na maneira como tinhas as mãos enfiadas nos bolsos. ou não quis. depois de montado o acampamento. Ela olhou para mim e riu-se: parecia uma criança feliz. . num sítio tão vazio quanto o deserto. Um dia. a olhar em frente. o absoluto. o outro não deveria dizer nada. porque teríamos nós vindo ao deserto? Muitos anos mais tarde. Creio que estaria como tu estavas naquele dia. comentasse: .

no Ministério da Informação. Começou por nos mandar descarregar o jipe . finalmente. fugir para a berma de are e olhar pelo retrovisor para ver. E era assim connosco naqueles dias. cada utensílio. E esperámos: esperámos duas horas e 72 carros. Olhou para o nosso jipe atulhado de carga e fez-nos um sinal imperativo e majestoso para que encostássemos ao lado e esperássemos. ao quilómetro zero.era por isso que estávamos a entrar pela Argélia. O homem passou revista a tudo. Tudo inspeccionado. das nossas reservas. que era bem mais perto: para irmos a Argel levantar a licença de filmagem e a licença profissional de fotógrafo. Primeira curva à direita. o . mas a paisagem pertence quem a sabe olhar. . mandou-nos voltar a carregar.tudo. em lugar de entrarmos por Marrocos. que estavam lá à nossa espera. Bem-vindos às auto-estradas da Argélia! Mas a "Auto-Estrada n° 1: Oran-Argel" acabava cedo. como quem sai de Alcatraz.. É feriado nacional: está tudo fechado em Argel. passámos a fronteira e apontámos à estrada. cada lata. Já não havia mais ninguém nem carro algum para desembarcar: éramos só nós e o oficial da Alfândega. non! . Cinquenta metros a seguir à fronteira. Estava tudo em ordem.Não é assim que as coisas se passam. No fim. quatro horas depois de desembarcados em Oran. de frente a fazer a curva em sentido proibido: só tive tempo de dar uma guinada ao volante. uma placa anunciou-nos que tínhamos acabado de entrar na "Auto-Estrada n° 1: Oran-Argel". aqui: vocês querem entrar no país com material profissional de filmagem? Têm de ter licença para filmar. non. mas. suplicámos. abrindo uma lata de conserva e sorrindo para a fotografia: mais uma vez. até que a nossa vez de sermos inspeccionados chegasse. Nada a fazer. nove carimbos foram estampados em todos os documentos e. désolé . . E. Em vão: tivemos de descarregar e espalhar no chão todo o conteúdo do jipe que demorara uma semana inteira a carregar em Lisboa. Lógica imbatível de burocrata árabe. Saiu-nos caro. deixa de haver problema resta só a solução: bakshish..A terra pertence ao dono. Era preciso recorrer à velha regra dos países árabes: não há problema sem solução. uma das duas dúzias de latas de cerveja que levávamos e mais meia dúzia de T-shirts que pediu "por gentileza". se tinha ido estampar contra o separador central.Ah. em Argel.Ligue para este número e fale com este senhor: e vai-lhe explicar que está à minha espera e que eu tenho autorização para entrar. mas o oficial argelino Alfândega não pensou assim. morremos em Oran? Não. Almoçámos. tão depressa quanto a pressa que levávamos. E tínhamos um deserto inteiro para olhar. confiscou quatro das seis garrafas de whisky. cada peça. o que durou mais uma hora.respondeu ele. com toda a lógica: . Procurei nos papéis e estendi-lhe o número do meu contacto no Ministério da Informação.Ah.Já que fomos os últimos a meter o carro a bordo agora vamos ser os primeiros a sair e a despachar-nos Alfândega! Tinha. Protestámos. uma nota de cem francos franceses "esquecida" dentro do passaporte. retirando-se para o seu gabinete.. com um ar pesaroso. de facto. com grande satisfação que aquele imbecil argelino "desviado do recto caminho” como diz o Corão. quando não há solução para o problema. Justamente expliquei-lhe . cada saco. ter atravessado o Estreito e estar em África. num piquenique montado à beira da estrada. claro.. Duas faixas de rodagem e cada sentido. E assim gastámos esse primeiro dia inteiro em África a fazer os 600 quilómetros que nos separavam da capital argelina. ou não podem entrar. Foi antes dessa manhã em que estávamos felizes por ter apanhado o barco que parecia perdido. "estes 600 quilómetros vão ser um luxo! pensei para comigo. não morremos em Alicante. . Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava. E foi ali que passámos à segunda fase: a dos papéis. Mas isso foi antes da manhã em que desembarcámos em Oran. também. toda a lógica. e aparece-me um carro na minha faixa. E de um de nós comentado. era tu nosso.. menos a licença de filmar. . pedimos. Armadilha perfeita. Também tenho uma fotografia tua. nesse piquenique. à sombra de umas árvores.

sim. a água quente já me esperava na banheira e Deus sabe como aquele banho me apetecia! Passei a perna por cima da borda para mergulhar o pé e experimental a temperatura da água. enfiou por becos e ruelas. tu foste tomar banho em primeiro lugar. quando chegámos ao quarto que partilhámos no hotelzinho em Argel (e porque tu tiveste medo de dormir num quarto sozinha e. atravessando-se à nos frente e apitando como se Argel inteiro estivesse debaixo de um bombardeamento. nesta ru Mas é sentido proibido e teríamos de dar uma volta enorme até chegar lá. não mais do que isso logo saiu um polícia ao caminho. não fazendo mais pequena ideia de onde ficaria o hotel. Para me despir e chegar até à banheira. O cansaço. Tentei fechá-Ia. e entrei na banheira. "Pas de probleme!" E assim fomos avançando devagarinho. Mas até chegarmos aí. Ao entrar. já que inofensivamente tínhamos partilhado um camarote na noite anterior a bordo do Ciudad de Oran. Ensaiei o discurso que o taxis me tinha recomendado. ficavam dois palmos de espaço através dos quais eu via o quarto e via-te a ti deitado. achámos igualmente inocente partilhar aquele quarto onde só havia uma cama de casal). olhei para o quarto e vi-te a olhar para mim.e não sei se reparaste nisso -. E porque a porta da casa de banho não encostava bem . parecia ao teu alcance. Foram apenas uns segundos e soube-me bem. Vinte metros. . Tudo. até estarmos no quarto do hotel de Argel onde eu. tudo. tinha recebido ordem de prisão. Durante o piquenique na estrada. Achei que era apenas mais um contratempo. O homem cumpriu o seu contrato: guiou-nos até ao centro da cidade. a repousar das oito horas ao volante mais o resto. mas enganei-me. completamente nua. E a Cláudia lá fora. estirado na cama. tinhas-me dito. vestido. entrou no souk por fim. vi-te a despir. flanqueando a costa.O hotel fica ali. à minha espera! VI Sim. não sei explicar porquê . talvez porque já me sentisse íntima de ti e esse teu olhar não tivesse nada de estranho ou de maldade. fica ao pé de mim. Uma vida toda à tua espera.talvez por vaidade. tinha de atravessai esse espaço aberto através do qual também tu me podias ver. mas depois. a proximidade irminente do hotel roubaram-me a lucidez e a paciência única coisa que não se pode perder num país árabe. se o quisesses. ao entrar na cidade. Nessa noite. Eles começaram a ameaçar-me e eu irritei-me e resolvi falar grosso.que impressiona agora é ver como tu eras nova nova e luminosa. porque tu não deves perceber palavra de francês. dizem que são estrangeiros e que não se entendem com os sinais. assim que entrámos na Argélia: . Vocês avançam devagarinho e se. virei-me. mas foi em vão: a transgressão e "gravíssima" e não havia alternativa senão acompanhar polícia ao posto. Ainda me ocorreu entrar lá para dentro de costas voltadas para a porta. a cem metros de distância. por azar aparecer algum polícia. fizemos o clássico em tais ocasiões: parámos um táxi e contratámo-lo para seguir à nossa frente e indicar o hotel. te espreitava impudicamente através da fresta da porta da casa de banho tivéramos de ultrapassar mais uma demonstração da prepotência e arrogância das autoridades argelinas. E. talvez apenas porque eu queria que tu me visses e queria ver-te a olhar-me.Quando falarem contigo. tal como E tinha recomendado. mas ela não encostava à ombreira. eu havia escolhido no Guide du Routard um hotel recomendado pelo preço e localização. A tua geração não fala francês. o mundo a teus pés. de onde eu estava. parou à entrada de uma rua e veio falar comigo . Com esse teu ar arrogante que às vezes me irrita tanto. Despi-me. o sol batia-te por trás dos cabelos louros e tu eras mesmo a miúda de Botticelli. Ou um deserto. Foi o pior que podia ter escolhido: passado um quarto de hora. eu reparei que a porta da casa de banho estava semiaberta. e come se fosse a coisa mais natural do mundo. de frente. Estava cansado de mais para desviar o olhar. sobre a cama. deitado na cama. a ficares toda nua e a entrares na banheira de água quente e nem por um momento me ocorreu deixar de o fazer. uma Primavera transplantada da luz suave da Toscana para aquela luz dura da Argélia.

pois que. na manhã seguinte a polícia te prendeu quando estavas a filmar). E queria só viajar e distrair-me. porque me davas segurança e simultaneamente sentia que devia também proteger-te.bem pior que o meu francês. Mas quando tu ficavas irritado e irritante. mas aprisioná-lo. muito tempo. à porta: . fotografá-lo. E também queria ficar ao pé de ti.Fica aqui. eu falava mal francês. que já tinhas "despachado" e as que faltavam. todavia. oh meu querido. E depois olhavas para mim com um ar orgulhoso e eu dava-te o meu melhor sorriso (que não queria dizer nada). para fazeres um filme e reportagens fotográficas. vê lá tu. eu já sabia que tu ias dizer. tu tinhas vindo com uma obsessão. com quem vem para uma expedição militar: querias. filmá-lo. não apenas viver o deserto. gritando que eu nos ia matando). ao mesmo tempo. e ainda em Espanha. e contavas os quilómetros. filmadas e fotografadas. Havia um conforto e uma paz ao teu lado que eu não sentia há muito. Magoada contigo e irritada comigo por me deixar sentir assim magoada por ti. eu queria ficar ao pé de ti. eu não estava ali para te desafiar nem para fazer da tua companhia o ponto culminante daquela viagem! Eu tinha vindo para me afastar do outro deserto sem fundo onde ser tia que me estava a precipitar. Quando eras doce e querido. e onde. E. Eu ainda mal te conhecia! Julguei ter percebido que ficaras aliviado por eu falar mal francês. ao entrarmos na esquadra para onde os polícias nos tinham levado. depois de nos apanharem a fazer toda uma rua em sentido proibido. onde ficámos uma noite. embora fingisses estar a dormir há muito! E assim. em paz e segurança. feliz e satisfeito. o cantinho que procurava para me sentir. que diabo. Nã vos basta ver. quando não querias ouvir as opiniões de ninguém e só sabias dar ordens e esperar que eu e todos à volta ficássemos esmagados pelo teu brilho e clarividência. como um obstinado. as horas e os minutos. eu sentei-me no lugar do passageiro (porque só uma vez. encontrei um empregado que tinha sido emigrante na Alemanha comecei a falar alemão com ele. contá-lo. no espaço reduzido daquele lugar da frente do jipe e naquele desconforto total de horas e horas aos saltos. . nada e o vazio. enlatá-lo em cassetes de vídeo e rolos e película e levá-lo para casa e para o ecrã. a tomar conta de mim. aí eu afastava-me. eu só podia atrapalhar. os takes. e assim acabei por encontrar ali. quando te via cansado e assustado. aos poucos. em Argel. a longo desse mês e meio. "uma loira num país árabe ou serve para ser trocada por camelos ou não serve para nada". e via desfilar a areia e as dunas. Adoravas sentir e pensar que eu te tomava pelo meu guardião e protector. se tu soubesses que quando eu verdadeiramente gostava de ti era quando te surpreendia com um ar de menino perdido ou contente. que a minha própria vida estava nas tuas mãos. me passaste o volante e logo depois o quiseste de volta. não: tu vivias os dias agarrado ao volante. é preciso roubar. chefe: porque. quando. os planos.Por acaso. depois de um duche gelado numa espécie de chuveiro colectivo que fazia lembrar o fornos de gás de Auschwitz. quando fingias saber onde estavas e não fazias ideia. e que agora ia sentindo. os travellings e as "parabólicas". Assim. Havia qualquer coisa em ti que me irritava e me atraía. além de não falar francês. como uma coisa antiga e segura. conforme já me tinhas explicado. perdida lá longe. ou quando essa tua loucura latente ou essa tua alegria escondida vinham ao de cima. Ficaste espantado e não resististe a meter-te também a falar alemão . na tua perícia ao volante e nas tuas sábias decisões! E. nessa atitude de predador que os jornalistas gostam tanto de exibir. Mas tu. excepto quando me irritavas. e ias anotando no teu caderno de trabalho as cenas. E eu a rir-me por dentro do teu esforço fingir que percebias tudo! Mas também. que eu trato disto! Sim. também. tu tinhas vindo em trabalho. e tu voltavas para o volante e arrancavas mais uma vez. os zooms e os close-ups. quando à noite na tenda me encostava a ti e só então tu adormecias. só o pouco que me lembrava do liceu. por isso. conhecer o deserto e esta com amigos. Mais tarde (naquela imitação de hotel em Djanet. não perdias ascendente algum sobre mim e nem te importavas de ter de fazer tantas vezes de intérprete. algures noutras guerras.

mas ela sacudiu-o sem cerimónias. escutou-me com toda a amabilidade e curiosidade. Dormias profundamente. para ficar ao abrigo do ma que inevitável assalto nocturno. se virava na rua à sua passagem. meio preguiçosa. Senti-me obrigado a dar-lhe o braço (ou apeteceu-me dar-lhe o braço). do porteiro até aI terceiro andar.Hum. depois de mais um susto e um imbróglio burocrático. com o pessoal da Embaixada. de cima a baixo. Acordei com um raio de sol batendo na cara. VII Ao fim do dia já estávamos prontos para partir outra vez. que tinha aproveitado para ir conhecer Argel. apareceu o secretário d Embaixada.Vá-se entretendo com café. depois de 24 horas em Argel. mãos nos bolsos e ar de íntimo do lugar. acho que. Arrancámos-te dali a rosnar e os argelinos ainda a conterem-se da desfeita de lhes termos tirado o teu bocado da boca. ela embarcou no carro do secretário da Embaixada e eu apanhei um táxi para o Ministério da Informação. E . entretanto já pendia sobre ti e sobre os teus brilhantes argumentos. E. Ela estava muito bem-disposta de manhã. Mas.E fiquei à porta. se alguém ouviu falar neste assunto. improvisaram um jantar com cerveja e vinho e ainda ofereceram o jardim para que lá deixássemos o jipe e não tivéssemos de o descarregar outra vez. com a cara virada para mim e a tua mão direita pousada sobre o meu ombro. . novo e com aspecto de ter andado pelo mundo um pouco além da Argélia. desejando antes estar com a Cláudia. numa noite de domingo em Argel! E o tempo todo de volta para o hotel gastaste-o a contar que já aqui tinhas estado três anos antes e a insistir que conhecias muito bem os nomes das ruas e avenidas centrais. Manhã cedo. A última imagem que retive foi de ti a fumares na janela aberta sobre a rua. Foi um inesperado "acontecimento social". como estava. de onde vinha um ar quente e os ruídos de Argel percorrendo o souk até ao porto. à porta do hotel. umas botas que não mais largaria em toda a viagem e uma T-shirt por cima da qual enrolara uma écharpe castanha: estilo "árabe-chie". já arranjada. apesar de tudo. palestrando sucessivamente com funcionários cada vez mais importantes e todos tranquilamente. gosto desta cidade! E não me lembro de mais nada dessa noite. homens e mulheres. claro. comi antes nos metera a bordo do barco para Oran. E ainda nos levaram de volta ao hotel. Mas não. abreviando: não conseguiste dar a volta aos polícias argelinos e o que nos safou foi teres acabado por aceitar I meu conselho de pedir ajuda à Embaixada de Portuga Uma hora depois. Mal cheguei ao quarto. dentro do jipe. Estavam com uma vontade de te tratar da saúde que nem imaginas! Bem simpáticos. ignorando o que fazer comigo e com as minhas pretensões Até que finalmente me vi a sós com alguém que tinha ar d diplomata. Acordara-me ao sair da casa de banho. sensivelmente. Reparei que tinha adormecido sobre a coberta da cama. meio descontraída. querido: não acertaste uma. que ainda fazia os homens fixaram-se mais nela. Por fim levantou-se e chamou por um contínuo a quem encomendou um café para mim. Fui subindo. Enfim. Esperei uns vinte minutos. Ficava-lhe a matar: toda a gente. estes "tugas" da Embaixada em Argel Levaram-nos para casa deles. Foram eles que nos conseguiram tirar dali e convencer os polícias a revogarem a ordem de prisão que. quando desembarcámos do carro do secretário da Embaixada. enquanto eu vou ver c que se passa. e declaraste: . à espera que a tua superior capacidade de desenrascanço nos tirasse dali. separámo-nos. na companhia da mulher e de outro português. Como se fôssemos íntimos. vestida com umas calças de caqui branco-escuro. onde antes tínhamos estado a largar a bagagem de mão e a tomar banho. tu olhaste à volta. Acho que só aí reparei bem como ela era alta e como tinha uma maneira de andar. enquanto tu te enfiaras debaixo dos lençóis. eu apresentara-me no Ministério da Informação para levantar a tão almejada e perseguida licença de filmagem e pho tographie professionnelle. Falava um francês impecável. entrando através da janela que deixaras aberta. desabei sobre a cama e adormeci assim mesmo.

Será possível que o pedido tenha ido parar a outro lado . mas não temos nenhuma indicação sobre o seu pedido de licença. tu tinhas bacalhau.Nada. ao mesmo tempo. problemas à vista . não estava lá . E. Aí nos esperava o resto do grupo. Vinhas já de máquina fotográfica suspensa do pescoço e máquina de filmar a tiracolo.agora aqui estava. chá. eu informo-o e despacho para o director-geral. à espera. para nos dar tempo de fazermos um desvio de 1300 quilómetros e ir a Argel buscar a licença de trabalho. E. a cidade às portas do deserto. legumes em lata... afinal. o nosso embaixador em Lisboa sabia com certeza que tinha de encaminhar o pedido para aqui.Pedindo com urgência.Nem sobre mim? . cervejas e whisky.E quanto tempo pode demorar tudo isso? .Nenhuma indicação de que eu vinha.perguntei-lhe. querendo significar "Que se há-de fazer... VIII Eu era a menina da "organização". mesmo assim.Nada. feijão. conforme tínhamos combinado. chocolates..Nada. .Não. cebolas. não era mais do que uma imensa mancha amarela no mapa de África pendurado na parede do escritório onde trabalhava todo os dias ou de vez em quando: o deserto do Sahara. tu apareceste com o meu "chefe".. . enchidos. mesmo que fosse parar a outro lado. para mim. e eu vou pedir. que depois o irá levar ao ministro para est decidir. andava uma loira a passear-se e a fazer os homens virarem a cabeça. O meu "diplomata" voltou. sentou-se à minha frente e meneou a cabeça. desde que esse lugar fosse o lugar vazio no teu jipe. A primeira vez que te vi. a quem o "chefe' dera de presente um lugar na viagem. que não se previa nada boa até Ghardaia. para fazer os 700 quilómetros de estrada. . a etiquetar latas de conserva e a arrumá-las dentro daquela carcaça metálica de três tonelada que nos iria levar até essa terra que. simpaticamente: .Agora. Un dias antes. sentada no chão a arrumar o jipe. Homem e mulher. Mais uma vez era o fim anunciado da nossa aventura. azeite.E agora? . ao telefone e tu disseste-me que me ias enviar a tua escolha pessoal de mantimentos para a "despensa" do jeep. nas ruas de Argel. só nos esperariam até à manhã do dia seguinte. Apresentaste-te. tratando do carro propriamente dito. à beira de um ataque d nervos. com um ar pesaroso: .Nada sobre o assunto? . Não pude deixar de sorrir quando chegaram os teus caixotes e comparei as minhas escolhas com as tuas eu tinha leite em pó. carnes frias enlatadas. que me fez vir de propósito a Argel levantar a licença que ele jura te pedido. numa garagem onde os mecânicos iam. dando por mim a pensar que algures. .. . . Que. . como se tivesses pressa de começar a trabalhar. sabe como são os embaixadores . ..Je regrette. mas.talvez ao Ministério dos Estrangeiros? . cuja arrumação ficaria a meu cargo. nenhum pedido de filmagem e fotografia profissional? . biscoitos. frutos secos. rien du tout. tínhamos falado pela primeira vez. juntamente com a da minha própria selecção. uns dias . afinal não terá pedido coisa nenhuma? Ele sorriu e fez um gesto largo com as mãos. já teriam feito o favor de esperar por nós um dia parados em Ghardaia. eles mandavam-no para aqui porque só nós é que lhe podemos passar a autorização. Nós tínhamos de sair de Argel nesse mesmo dia. milho. Estava. pois. quando iriaI entrar em pista e iniciar a travessia do Sahara. temos de começar do zero: você vai fazer j pedido por escrito.Quer dizer que o embaixador em Lisboa. estava eu sentada no chão nas traseiras do jipe.

Depois ligaste o rádio do jipe e gravaste na câmara o som de um noticiário. Muitas e muitas vezes. Quando penso nesse diálogo.Olá . que não tinha sido assim tão leviano o teu gesto: tanto a cena de eu sentada no chão a pôr etiquetas nas latas.(e fiz questão de te estender a mão. na garagem. percebias que estavas a falar sozinho e começavas a perder o ímpeto: . . a rir-me por dentro e feliz . como dizias com um ar convencido.Olá. entravam logo no início da reportagem. ligaste a câmara e começaste a filmar e depois a fazer fotografias. aqui fechado no jipe o dia inteiro? E eu fazia-te uma festa na mão e tu pedias: . voltar a guardar tudo meticulosamente e regressar à pista. "panorâmica" esquerda/direita. num caderninho que trazias sempre contigo. da duração exacta de cada take. não dizes nada? . Durante toda a viagem vi-te tirar algumas centenas de fotografias com as duas máquinas (uma das quais tinhas sempre pendurada ao pescoço) e gravar algumas cem cenas diferentes ou várias vezes a mesma cena . etc. a filmagem tornava-se penosa e cansativa. Quase nunca filmavas sem o tripé. ou tudo se transformaria num inferno.Então. admirada. . e eu ter logo partido do princípio de que devia começar a pôr-te no lugar. .Acendes-me um cigarro? Nesse dia.respondias tu... A partir daí. agora.. eu só queria ser boa companhia para ti. e da descrição de cada plano: zoam... sou o .. até reocupar o nosso lugar. quando os jipes da frente não nos viam no meio do pó e não era possível passá-los em hors piste. Ao fim de vinte e quatro horas. Percebi que ia precisar de ti e percebi também que tu ias precisar de mim. aqui na estrada para Ghardaia. que era o segundo na fila . travelling. agarravas numa das câmaras e fotografavas também a mesma cena ou até fazias ambas as coisas ao mesmo tempo. porque dizias que depois ele ia sair tremido.Pois .Ah. para me impressionar: . anunciando em tom solene. como o noticiário gravado. À força de fotografar constantemente tinhas adquirido um jeito estranho de deixar a mão direita como que suspensa . . tomavas nota. ao ver pronto o filme daquele mês e meio.Vá.Não.. para uma simples hora de montagem final. isso logo se vê .. Muitas vezes filmavas a mesma cena de várias maneiras diferentes porque. chamando-me menina mimada ou inconsciente. mesmo quando tu te zangavas e desatavas a ralhar comigo. Que ingénua. . vamos passar fome? . No final. pensei para comigo). por seres photo-reporter stringer.("és engraçadinho". era ao lado um do outro. vou falar com quem. vendo apenas o teu perfil na escuridão. com uma rapidez que impressionava. percebi. Ou conseguíamos atravessar isto juntos e felizes por estarmos juntos.(devo-te isso: feliz) .Começou a reportagem.Se tiver a despensa bem arrumada . . foi tudo fácil. isso facilitava a montagem e. era preciso ultrapassar toda a coluna de dezasseis jipes.. o de cada um de nós. Mais tarde. desde o início. pois que de cada vez era preciso parar o jipe à beira da pista. Talvez por teres mais quinze anos do que eu.. de cada vez que desligavas a câmara.. desarmado. "plano fixo" aberto ou fechado. como tu dizias. . sem me levantar do chão). explicavas. tirar e montar o tripé. tinhas feito um total de catorze horas de gravação.. enquanto conduzes concentrado e em silêncio. não te zangues .uma operação que podia chegar a durar uma hora inteira.Se me zango contigo. Cláudia. Tu eras meticuloso e obsessivo nisto. tirar a câmara da caixa de esferovite onde viajava ao abrigo da poeira. que infantil que fui! Bastaram vinte e quatro horas de viagem para perceber que o nosso lugar. e eu ficava calada.(como se eu não soubesse . filmar. por mais curto que fosse o plano. pergunto-me porque terei escolhido receber-te antipaticamente nesse primeiro encontro. para que tu fosses também para mim. Então. Ao fim de um tempo. ao segundo. Mas essa parte das ultrapassagens era a que mais te divertia e a que mais me assustava. No fim da filmagem.. ). tu achaste graça à cena. e ouvi dizer que é grande cozinheiro .Então.porque adorava ouvir-te ralhar.vários takes. .

esbarravas com os meus pés no saco-cama e rosnavas palavrões. vou rodar assim. e eu saía também levando a Nikon « uma teleobjectiva e ficava a teu lado. mesmo quando estavas sem máquina. tão insuportável. para a direita e paro naquela duna lá ao fundo. e assentava! no caderno o que tinhas filmado nesse dia e o que te faltava ainda.Tudo o que não fizer agora. Tinha também um medo horrível de víboras e escorpiões e maldisse a tua má disposição e o meu orgulho. mas essa era uma tarefa de dois. dizendo: . em contrapartida um mar de estrelas que me olhavam logo acima da minha cabeça e eu senti-me tão confortável com a sua presença tão próxima de uma paz que há tanto e tanto tempo procurava. Ou então. pedia ajuda a um dos meus amigos motards para montar a tenda e tu ficavas com ciúmes. invariavelmente. E já devia estar quase a dormir. e escrevias um story board para depois. te lembrares exactamente de tudo. sentavas-te no tel lugar de condutor. quando a tua voz. desculpa se te tratei mal: estava muito cansado. que conseguiste magoar-me. Sim. muito sério: . Aparentemente. E eu. não é o máximo? O meu Fellini! E à noite.Claudiazinha. Aparecias na tenda quando eu fingia já estar a dormir e. a aspirar as máquinas e as objectivas e arrumar tudo nas caixas de esferovite. O meu Pulitzer! Mas. tropeçavas nas espias à entrada e batias com a cabeça numa vareta. olha. porque não tinham paciência para montar a tenda.Cláudia. sempre com a Leica suspensa do pescoço. porque a seguir eu ia andar de mota com eles e algumas vezes (muito poucas!) nem aparecia para jantar "em casa"! Nessas noites. tinhas confiado em mim para essa tarefa diária. subitamente tão suave me disse ao ouvido: . com o volante a fazer de mesa de trabalho e a lâmpada extensível ligada ao isqueiro. em matéria de campismo. que fechei os olhos para dormir. tu ficavas com cara de caso e já não me falavas mais.à altura do peito. E tu respondias. quando todos nos reuníamos à conversa em volta do fogo. juro que ficavas com ciúmes. achava que tu fazias muito daquilo para me impressionares e gozava contigo. Que achas. tu ficavas ainda a arrumar e catalogar toda~ as cassetes e rolos de filme. Estava um frio terrível ali fora e confesso que senti saudades da nossa tenda e do calor do teu corpo. E eu adormecia a rir-me para dentro. Mas. a ver se me acordavas. vem para a tenda! O meu querido companheiro do deserto! . até. trata tu da tenda! Não querias mais nada! Eu desaparecia e ia andar de mota para as dunas e tu ficavas cheio de inveja. leva esta e traz-me outra. Mas o que mais gostava era quando tu te entusiasmavas com o plano que ias filmar e me chamavas para espreitar na objectiva e perguntavas: . nunca fazias as operações pela ordem correcta. Outras vezes acabava-se a cassete vídeo e tu pedias: . instaladas entre os dois bancos do jipe. porque não sabias andar de mota na areia e não te atrevias a experimentar com uma emprestada. junto ao fogo. os dedos caídos em posição de quem vai carregar no obturador a qualquer instante. sem te dar satisfação de "acordar". vou pagá-lo na mesa de montagem. e nem sequer reparavas se estavas a montar a tenda direita ou do avesso. Houve uma noite em que estavas tão maldisposto. Mas havia. Não te disse nada. não conseguias esticar uma vareta e encaixá-la noutra.Passa-ma aí. explicavas. eras um desastre! Não conseguias prender uma espia ao chão. por favor. não de um sozinho. quando tivesses de escrever o texto para o filme. E tentavas baldar-te. à espera que estendesses a mão sem olhar (às vezes. fui pedir uma cama de campanha emprestada e juntei-me aos que dormiam ao relento. vê lá. devagarinho. Com o tempo fui-me tornando tua "assistente": tu paravas o jipe.Não é lindo? Agora. sacavas a máquina de filmar e o tripé.Vou fazer o jantar. estavas a olhar na objectiva da máquina de filmar) e dissesses: . Depois.

.Era só o que faltava que não conseguisses! Então. não é verdade?" Logo. depois de tanto trabalho.garanti-lhe. a tão disputada licença de trabalho não nos iria servir rigorosamente de nada: atravessámos a Argélia inteira.. tivemos de ir à procura do filho da Thatcher. nunca me tinha imaginado na pele do próprio Estado português! ~ Nós não nos perdemos! . Pode demorar meia hora ou três horas. durante um Paris-Dakar. porque respondeu: . até à fronteira com o Níger. Demorou três horas. como se nada fosse. embora como independente.. não significa que o interlocutor tenha ideia de voltar daí a pouco.Attendez ici. para baixo e de volta para cima. helicópteros. esperando um elogio. vá lá.Mas. tantas súplicas e bakshish. um grito de triunfo. tantos quilómetros a mais. exibindo. "E uma televisão pública representa o Estado. num país árabe. se por acaso nos perdêssemos. não estás a ver o que sofri. com aviões. Uma ordem destas. à procura dela e do pessoal da Embaixada. "Uma trabalheira. camelos. como sucedeu há uns anos atrás. senão eu mato-a!" Et pourtant . exército. se não emergíssemos. um sorriso.. voltei para junto de vocês. até que enfim! Estava a ver que nunca mais! . uma despesa enorme.) . agarrem-me. para uma televisão pública. tanoeiros. e respondeu. mas o sol ainda estava forre e a multidão começava a aumentar." Fiquei sem saber o que responder para contestar aquele esmagador argumento. Passei por lojas de roupas. nunca. Era perto das quatro da tarde.Ah. mas talvez tenha achado alguma graça. saídos da areia. E ela virou-me as costas. fui preso duas vezes por andar a filmar e nunca. caravaneiros. alguém se preocupou sequer em olhá-lo . o Estado argelino sentia-se diplomaticamente obrigado a ir à procura do Estado português. a mágica licença de filmagem.. um abraço de alegria. chegávamos até aqui e voltávamos para trás? Só não consigo perceber é como é que não trataste de tudo como devia ser antes de partir . quando abanei a licença à frente da tua cara. Cláudia. pisteiros. aí por alturas de Djanet ou Tamanrasset.Não? E porquê? . ferragens e talhos com cabeças de borregos decepados penduradas na entrada escorrendo sangue para o passeio. A ironia superveniente de tudo aquilo é que.IX Estava tão orgulhoso quando. com uma pose tranquila e confiante. jipes. pela qual tínhamos já gasto dois dias e 600 quilómetros a mais do que os outros do resto da caravana! (E tu olhaste-me. Um sapateiro . O tipo sorriu da minha imbecil arrogância. . por mais que eu insistisse em mostrar o meu querido pernis de filmage et photographie professionnell. como se estivesse a ensaiar para um filme. Mas voltou. se desaparecêssemos no vazio do mapa do Sahara. Et pourtant. com esse jogo de ombros de miúda inconsciente que me virava o juízo.Porque somos portugueses: há quinhentos anos que andamos por toda a parte e conseguimos sempre voltar a casa.. à medida que o dia se aproximava do fim: esta é sempre a hora mais concorrida numa medina árabe. O que preocupava o todavia simpático e diligente director do Ministério da Informação era o facto de eu estar a trabalhar.. E trazia o papelinho mágico na mão. vídeos. Atravessei o centro de Argel a pé. ao final do dia. por cima do ombro: .. não imaginas o que foi preciso para os convencer . como um troféu conquistado a duras penas. que eu quase beijei. porque o pateta (le pauvre) se tinha perdido e o embaixador inglês não parava de telefonar ao nosso ministro. "Ui. quando. tinha sido mesmo difícil e eu tinha chegado a ver a coisa negra.

Fazem um bom couscous e.um estranho nome para um estranhíssimo jipe.E há algum sítio onde jantarmos pelo caminho? .. indiferente às atenções que despertava à passagem. Não era assim tão alto. na avenida principal do centro. olhando para as montras das lojas. A partir daí. de montanha. trocista. E encontrá-los até ao nascer do dia. elas com inveja. não tem que enganar. a estrada não parecia má e. eles nunca fecham! Sobretudo. Antes disso. Com as quatro rodas do jipe finalmente a pisar a pista de areia que começava em Ghardaia.Vamos embora. começou a ficar escuro e cada vez mais frio. não os teria encontrado facilmente.Ah.suspirou ela. . confesso.A estrada é relativamente boa até Laghouat.apenas algumas camionetas de carga com passageiros na caixa. Começámos a subir a montanha. não havia tempo. à medida que íamos subindo.. com mais tempo e visibilidade. à saída de uma curva. Olhei o altímetro: estávamos a 1050 metros. Ao lusco-fusco. procurando alguém ou alguma coisa com que embirrar (ou seria a minha embirração instintiva para com os polícias árabes?) e tive o cuidado de passar por eles sem os encarar. o nosso grande apoio nas últimas 24 horas. com sorte. 180 graus. não fosse o cabelo loiro da Cláudia que se destacava no negro dos véus das mulheres e dos cabelos dos homens. ! . mas ainda havia neve por ali.Em Laghouat há um restaurante razoável. Mas agora. As despedidas foram efusivas. agora já não era o Van Ruysdael que me ocorria. é certo. confundindo a paisagem com a pintura flamenga. estando cada vez mais baixo. Numa outra viagem. eu teria parado só para sentir a neve nas mãos. na praça principal. Neve! Flocos de neve dispersos.as curvas sucediam-se umas às outras e fomos sempre a subir até Blicia. no flanco do Atlas. Com uma hora de caminho. de facto. Faltava só chegar lá e encontrar os outros no acampamento: 700 quilómetros de alcatrão ainda. indo à frente no seu carro a indicar o caminho e poupando-nos um tempo precioso no trânsito já caótico do final da tarde. olhando-nos admirados e tentando ver para além do encandeamento dos faróis . começámos a descer e carreguei mais no acelerador. até que enfim . Daí para baixo e até Ghardaia. porque a noite já era fechada e via-se melhor e.Ah. se o convidasse e insistisse. abrandei vendo umas manchas brancas no alcatrão.Mas vamos chegar lá tarde: estarão abertos ainda? . o cabelo apanhado ao alto sem grande alinho. direcção plein sud. mas rápidas e fiquei com a sensação de que. a uns 500 quilómetros daqui. absurdamente. "Route Nationale 2". concluí eu. em Amesterdão. ele teria vindo connosco. . Na estrada onde raramente nos cruzávamos com alguém . Eles com volúpia.um figurativo flamengo que descobri e logo amei no Rijksmuseum. saltavam ao caminho macacos pequenos. Tinham-me dito na Embaixada que encontraria "les portugais" às compras aqui. até um méchoui. muitos anos atrás. acho que não há nada. tanto em homens como em mulheres. se os clientes são estrangeiros: por ali é uma raridade. mas deve ser má porque já é a entrada no deserto informou-me o secretário da Embaixada. Já nos sentíamos com um pé no deserto. O homem teve ainda a suprema gentileza de nos levar até à saída de Argel. porque foi sempre uma sensação que me fazia ficar feliz como uma criança. os quadros de Jacob van Ruysdael . às vezes até me fazia lembrar. Lá retomámos a nossa viagem e. não conheço. mas deambulei ainda uma meia hora sem ver rasto deles e.trabalhava em plena rua e um tipo vendia aos gritos o que me pareceu ser lotaria. Lá estava ela. . Dois polícias circulavam com ar indolente. Deixou-nos à entrada da route nationale em direcção a Ghardaia e ao Sahara. Olhei no mapa o desenho da estrada até Ghardaia: eram 700 quilómetros. volta e meia. que fugiam ouvindo o guinchar dos pneus nas curvas. tentando adivinhar O que seria aquilo. caminhando com o seu andar inconfundível. conforme combinado e antes que partissem. mas o Hendrick Avercampcom muito menos neve. neve antes do deserto! Se quisesse continuar a divagar. já tenho a licença! . A vegetação era densa. . já não havia perigo de encontrar . já tinha saudades de me sentar ao volante do nosso querido e horrendo UMM Alter Il .

Merda. pas fermé! Manger.E vamos jantar onde? Espera . bonsoir! . não vês? Está tudo fechado! .. dormez bien. as janelas estavam fechadas. e eu comecei a desculpar-me simpaticamente em francês: . estão fechados já . que já havia percebido também a emboscada em que havíamos caído. e logo voltámos ao caminho. Excusez-nous. O negócio não devia andar próspero. mas deixe lá.Vamos rápido! .Tens a certeza de que está fechado? . as mesas tinham sido afastadas para os cantos e as cadeiras colocadas sobre elas de pernas para o ar.inesperadamente neve no meio da estrada. deixe estar. . à espera de quem? . Nada. merci bien. de repente.a 130 quilómetros de distância. Bonsoir. à luz da fraca lâmpada do tecto que se iluminou a custo. Não dava. E era a única luz acesa que se via em roda a praça.Mas ele disse que eles atendem os clientes mesmo assim. a pesada porta de madeira abriu-se e do escuro emergiu um rosto estremunhado e barbudo. manger. Fiquei em pânico! Imaginei a família a acordar e acender o fogão na cozinha. Na parede em frente duas gordas osgas.. e as cabeças daquela santa gente começaram a erguer-se aos poucos. não sabendo bem se queria ou não queria que me ouvissem bater. sem aviso algum. após três horas e meia ao volante. Lá estava o restaurante. não sairíamos dali antes de umas três horas. uma pequena multidão de umas vinte pessoas . estão a dormir. como tartarugas a sair das cascas. não dava mesmo. parámos para encher o depósito e esticar um bocado as pernas. esperei um bocado e nada..Vamo-nos pirar daqui antes que os tipos nos degolem! Sabes que esta é a pior zona dos fundamentalistas islâmicos? Até se degolam uns aos outros por causa das diferenças de interpretação de um qualquer versículo do Corão! . com voz maldisposta. arengou-lhes qualquer coisa. Mas o tipo já estava a acordar e um pensamento posItivo deve ter-lhe atravessado a cabeça: . desculpando-me à medida que recuava: . Bati outra vez. Mas. e. pudemos ver um espectáculo único: no vasto salão do restaurante. pensei para comigo. A porta estava fechada. . O tipo bateu as palmas. Ela veio atrás de mim. segundo percebi da placa escrita em árabe à saída de Médéa. Disseram-nos que estariam abertos para jantar e viemos ver. não.Deixe estar. .. Bati à porta delicadamente. e concluí que. que não era difícil de encontrar na pequena villaya.Não.murmurei à Cláudia. onde nós parámos. Íamos subir outra vez aos mil metros até Laghouat .Cláudia. Chegámos pelas dez e meia e orientámo-nos logo em direcção à praça central. . Perguntou qualquer coisa em árabe. que nem sequer havia ainda fechado.uma ou duas famílias . no espaço vazio do centro do salão. Chegámos a Médéa por volta das nove da noite. com sorte. Aí. enrolados em cobertores e espalhados numa ordem aparentemente sem nexo. Fui recuando. não havia nenhum carro estacionado à entrada. restaurant. está fechado! Bem que achei estranho que os tipos estivessem abertos toda a noite . um punho fechado ao alto e uma expressão nada hospitaleira. E bateu ela à porta. a pôr a mesa e inventar qualquer coisa para cozinhar e tudo o resto. não se ouvia nem um ruído vindo lá de dentro. oui! Acendeu um interruptor na parede atrás dele e. não queremos incomodar... non! Vous mangez ici! Restaurant! O tipo avançava agora em direcção ao jipe.Fermé? Non. com um imenso letreiro de néon em letras vermelhas: "Restaurant".Vamos embora. merci. oui! Restaurant ici! Oui. sobretudo estrangeiros! Não era melhor ir lá ver? Suspirei fundo e saí do jipe. . despertadas da sua caçada nocturna. estavam suspensas dos acontecimentos.dormia em pleno chão.Non. Arranquei antes que ele chegasse à porta do meu lado.. .

a segunda. Esta era apenas a quarta noite que passávamos juntos: a primeira fora num hotelzinho em Espanha. Estava na hora de regressar à nossa vida de campistas. sua voz clara. Pela primeira vez. Ocorreu-me que aquele era o nosso primeiro jantar completamente a sós. E. fingindo que a estendia para a lata de atum. ali.que hesitara. Instalei a minha lanterna extensível. como se aquilo tivesse mesmo graça. e reparei Outra vez como era alta. e c tom de menina habituada a ser bem tratada com que pedi2 "dás-me lume?". Eu sei que isto parece uma frase feita. de noite e de carro. de encosto para os rins. ou me levavam ao engano ou à felicidade . Nenhum de nós mostrou igualmente disposição pare. em Dezembro. quando passou por mim para ir pousar a sua lata de espargos na improvisada mesa. a quarta. juntos duas latas de atum. Depois. pousei ao de leve a minha mão sobre a dela. Não parei senão meia hora adiante. de comprar um verdadeiro blusão de penas para enfrentar o frio das noites saharianas. depois de horas e horas ao volante nas pistas. mas sentíamo-lo em silêncio: era como se o segrede que guardávamos fosse a própria partilha dessa sensação. qualquer palavra. sempre inocentemente. com uma écharpe branca enrolada ao pescoço: parecia um anúncio a uma linha de roupa desert casual. mesmo na pouca luz que a lanterna dava. na berma da estrada entre Laghouat e Ghardaia . Comemos em pé. Mais vinho branco e pão fresco do dia que ela se tinha lembrado de comprar em Argel. de que todavia bem necessitados estávamos. tinha vestido o seu blusão preto. e eu havia seguido. O alcatrão fora substituído por uma . e de roupão. se é que ainda iríamos encontrar mais alguma coisa que fosse até lá abaixo. acender o camping gaz e fazer um café. mas tinha a sensação nítida de que haviam passado muito mais do que as três noites e os quatro dias que nos haviam trazido até ali. Já a Cláudia. voltámos à estrada para os últimos cem quilómetros . dividindo. e agora. nas muitas noites e madrugadas matinais que se iriam seguir. que tantas irritações nos iria causar no mês que se seguiria.que se iriam revelar os piores.se revelaria (depois da Cláudia e do UMM. que tive necessidade de o sentir também fisicamente Rocei-lhe o meu ombro no seu. eu uma lata de pickles e. naquela estrada agora absolutamente deserta.. quando fui ao jipe buscar mais vinho branco ao garrafão. é claro!) o meu melhor amigo no meio de tanto e tanto desconforto. Mas sorriu sempre e e. agradeci o conselho que me haviam dado. porque estávamos com pressa e nenhum de nós teve coragem de retirar as cadeiras de lona que estavam atrás dos jerricans de gasolina e da tenda dobrada. cada um em seu quarto. em comprar. no meio de coisa nenhuma. E que qualquer frase. A Cláudia escolheu uma lata de espargos. de norte a sul.E a Cláudia desatou-se a rir.ainda totalmente virgens . E não apenas me protegeria do frio polar nas noites e manhãs do deserto. um pouco infantil.do filme que tinha vindo fazer. no cabelo. e fiz-lhe uma festa. todavia. a terceira. arrastando as sílabas.Olha que simpático restaurante que nos recomendaram! . ligada ao isqueiro do carro. numa espécie de estrada onde parecia não passar ninguém há anos. Sentia-me tão íntimo e tão próximo dela.essas duas abstracções assinaladas a esferográfica azul no Cuide Michelin que me guiava. Essa foi a primeira noite em que o meu querido blusão azul. como ainda fazia de almofada para dormir. se arriscaria a quebrar esse sortilégio. na estrada para Ghardaia. dividindo um camarote no barco. porque era caro e me parecia ir ocupar um espaço precioso durante o dia . sobre o tejadilho.que as duas coisas andam frequentemente confundidas. e depois de ter vindo a certificar-me cuidadosamente pelo retrovisor de que nenhuns faróis nos seguiam. E aí fizemos uma breve conferência: era quase meia-noite e manifestamente não encontraríamos mais nenhuma espelunca onde comer. cada um de nós tirou o que queria da "despensa". assim. e montámos uma mesa improvisada feita de duas grandes caixa~ de alumínio contendo as cassetes vídeo . atravessando c Estreito. aparentemente distraída. Ela nunca se deu pai achada: não fugiu nem retribuiu. enquanto comíamos em pé. cruzando a Argélia. na berma da estrada. Estava linda. uma cama de casal numa pensão manhosa em Argel. para alumiar a cena. depois do "duche" ao fim do dia. Parecia-me que já tínhamos vivido um bocado de vida imensa e tão forte que era só nosso e nós mesmos não falávamos disso.

do lado direito da estrada. Receberam-nos como se não nos víssemos há meses e fôssemos todos da mesma família. se cruzou connosco em nenhum dos sentidos . àquela hora da noite. marco quilométrico. a areia era tanta que a estrada desaparecia e era preciso olhar bem e redescobri-la mais à frente. iria descobrir que estava a descer a serra da Arrábida e que o seu mal azul. um letreiro anunciava: "Camping-Gardhaia". Uma. translúcido. era noite às portas do Sahara. Chegámos! . . 50. de repente. olhando para o nosso aspecto de derreados. casa. à nossa frente. quase me pareceu uma suíte. E lá estavam eles. muros onde não havia construções. Tão lúcido. atento ao caminho. à solidão de nós dois. duas. vindo do nevaoeiro e da noite. os quinze jipes que nos esperavam e ainda meia dúzia dos seus ocupantes acordados àquela hora da madrugada. ofereceram-se para nos montar a tenda. como se caminhássemos dentro de um sonho. o retrato dos meus filhos e as coisas mais importantes na minha "mesa-de-cabeceira". atento à noite. Não atravessámos nem vimos coisa alguma: aldeia.que passou a ser sempre o direito. Era azul e. rua abaixo. de modo a que o seu beijo aflorasse o canto da minha boca. enquanto nós esticávamos o corpo depois daquelas terríveis dez horas de viagem. subitamente. Cada vez mais devagar.. uma montanha de areia. três horas: se Ghardaia tinha luzes. era noite na Argélia do Sul. e como se já nos tivessem dado como perdidos para sempre. Deliberadamente. não foi! Mas está na hora de te agradecer. Às vezes. Nunca mais me esqueci da nossa chegada. uma casa. Mas sabia que tínhamos de chegar lá antes do nascer do dia. mas as luzes amarelas de Ghardaia que me apareceram. mas já só . Eles partiriam ao nascer do dia e nós tínhamos de estar lá antes disso.. virei-me de mais. ao dobrar de uma curva. com a cidade de Ghardaia a meus pés.espécie de massa betuminosa. Era noite cerrada ali. E assim fomos progredindo. E. como uma nave espacial no meio de nada. que ainda não sabíamos se acabava bem ou mal. no meio do nevoeiro e da escuridão. Escolhi o meu lado . tão em paz tão cheio de vida. como nunca antes me havia acontecido E foi assim que me senti ao entrar no deserto. porque dois deles tinham sido envenenados com dois frangos que haviam comprado e cozinhado e tinham tido de ser assistidos no hospital local. Ela inclinou-se para mim e puxou-me a cara para me dar um beijo. e tudo isso era agravado pelo nevoeiro que caíra e que tornava a progressão fantasmagórica.Cláudia: Ghardaia. e. era noite no escuro do nosso jipe. invadida pela areia e constantemente entremeada por buracos em que era preciso travar a fundo. Deslizámos. me iria aparecer. placa com o nome de Ghardaia escrito em qualquer língua que fosse. que não o iríamos descobrir tão cedo. pela primeira vez. antes de descortinar a sua profundidade. 40.a cidade que tanto inspirara o Corbusier . como uma revelação E assim foi. mas nem sequer foi preciso procurar: logo à entrada da cidade. sombras assustadoras onde havia apenas zonas mortas dos faróis. onde eu via o perfil do teu rosto. quase. porque era a hora limite do último dia em que estava combinado que esperariam por nós. realizando que não tínhamos mais do que duas horas para dormir antes que todos partíssemos para o primeiro dia de pista. mais cansados. E assim entrámos. com mais dificuldade em ver por onde Íamos: 60. No meio do meu cansaço. Não foi o mar azul da Arrábida. parecia ser uma grande duna. começámos a descer.Já vi. companhia: não sei se teria chegado sem ti . a Cláudia e eu. Eu via árvores onde elas não existiam. Bravo: não foi fácil chegar aqui! . entre os Ministérios de Argel e as brumas do Atlas. ninguém. na nossa tenda. Tínhamos vindo a subir desde Laghouat aquilo que. até ao fim da viagem . eu não conseguia enxergá-Ias adiante.Não. povoado. Nada. estendi o saco-cama. tive uma espécie de alucinação e imaginei que. Ghardaia . ao virar de uma curva e ver o horizonte despido do seu manto de nevoeiro.aquela até podia não ser a estrada certa.pus a lanterna. Beijou-m e eu estendi os braços e as pernas para me descontrair e para me sentir desperto e atento afinal. mesmo. dispersa no seu planalto onde parecia repousar há milénios. 30 à hora.estava ali.

veio e deitou-se abraçada a mim. Mas.Vira-te de costas. meu querido: não sei explicar-te como essa primeira noite na nossa tenda. e eu tinha de te acordar. começámos am poucos a distinguir uma mancha negra que descia do céu para a terra e que avançava na nossa direcção. E dizias. e eu deitei-me ao teu lado e abracei-te. estupidamente talvez.e cumpriste até ao fim. como agora estavas. dei comigo a sentir uma espécie de segurança. em cada paragem. tu adormecias como uma pedra. tu cozinhavas e eu punha a mesa. Mas. le vent de sable! Nós olhámos e ao princípio não víamos nada. da minha mão. e. de conforto desconhecido.consegui deitar-me por cima e não dentro dele. como se tu fosses uma parede e eu o seu contraforte. que me vou despir. observando com mais atenção. tu caías a dormir com a cabeça pousada sobre o volante. depois. fixando o olhar para onde ele apontara. senti que não havia nenhuma razão para não o fazer. x Sim. Encostei-me a ti e abracei-te sem sequer pensar no que estava a fazer: apeteceu-me. Eras tão diferente de mim. logo em Espanha. vou só dormir assim. antes de voltares a ligar o motor e concentrares-te na pista adiante: . o nosso guia contratado para atravessar o Tenerée. durante cinco semanas!). é verdade: eu encostei-me a ti e abracei-te.Passas-me um cigarro aceso? E lembras-te de quando a tempestade chegou? Lembras-te daquela manhã em que o Ali. destroçado e exposto sem defesas. E vi-te exausto. quando nos deitámos para dormir as duas horas que faltavam antes de partirmos para o deserto. foi irresistível.Le vai lá qui arrive. ainda ouvi a voz da Cláudia dizer-me: . O teu cansaço comoveu-me e a tua delicadeza. sim. E. Mas foi então que percebi que não eras apenas tu que me protegias. olhavas para mim l para a pista como se viesses de outro planeta. naquele entendimento que impuseste e para que não vinha preparada: tu guiavas e eu animava-te. Ou assim me pareceu. se vier a propósito. apenas o eterno céu azul e o sol inclemente desenhando miragem nos cristais da areia. tão diferente daquilo a que estava habituada! E. depois daquelas dez horas ao volante (culpa tua. apontou de repente para o horizonte distante e disse: . escurecendo o dia à medida . dos nossos risos e gargalhadas ou dos nossos amuos e discussões.Temos de ir: já estão a andar outra vez. nessa primeira noite na nossa tenda. também precisavas que eu te encorajasse e te desse ânimo quando . que eu não sabia guiar e que nunca mais me passarias o volante . falamos disso. levantava: os óculos de neve contra a areia. me marcou. e. daqueles dois terríveis dias a progredir na escuridão negra da tempestade. estranhamente. Não.tantas vezes depois! . e de sentir esta vontade incrível de me encostar a ti. parando constantemente porque a coluna se tinha dispersado e era preciso reagrupá-la e. roçando-te suavemente no ombro: . quando estendias a tua só para sentir que não estavas sozinho.te vi igualmente exausto e quebrado. ao deixares tanto espaço livre para mim ao lado do teu saco-cama. Querido. E tu acordavas do primeiro sono. caído sem defesa nem disfarce. abraçada a ti . no camping de Ghardaia. das minhas conversas ou do meu silêncio. tu decidias e eu apoiava. que tinhas decretado. voltando a pôr mais gota: de Optrex nos teus olhos já injectados. antes mesmo de morrer. ajustavas o lenço do cowboy por cima do nariz e da boca e que nem assim evitava as bolas de areia que se formavam dentro do nariz ( que estavas constantemente a assoar. não era disto que eu estava à espera: não estava à espera de te ver assim.e amanhã. agora. mas que também eu tinha que te proteger: também tu precisavas de mim ao teu lado. absolutamente derreado e sem mais forças. Lembras-te da tempestade de areia? Lembras-te de passarmos duas noites seguidas sem conseguir montar a tenda nem acender o fogão para cozinhar. Mas agora não vou pensar nisso. na nossa provisória "casa".

água. cada família) ter tratado do seu jantar e da manutenção do jipe. porque à nossa volta tudo tinha ficado tão escuro que não sabíamos se já era noite ou ainda era dia. a apanhar com a areia toda? . eram passadas a sós . desordem. dentro do saco-cama. tornando o céu cinzento e o ar coberto de areia progressivamente irrespirável. o cabelo branco. Não havia a pastelaria para os encontros da manhã. daquilo a que eu estava habituada! Aqui. Mas tu não te vinhas deitar. e. Era tudo tão diferente do mundo de onde vínhamos. Aterrorizada. a lanterna de mão. Toda essa noite a tempestade de areia submergiu-nos e manteve-nos acossados nas tendas. andando o mais depressa que podíamos. . Puxaste-me a cabeça para o teu ombro e eu encostei-me a ti. Mas o resto dos dias. Passaste-me o braço pelas costas e não sei quanto tempo fiquei assim até adormecer de exaustão. nos reuníamos à volta da fogueira para conversar e olhar as estrelas . com calor. não acordava na minha cama. a farmácia portátil. Mas também é lindo: anda ver! E eu fui e encostei-me a ti. subitamente. animal saciado. eu e tu como duas estátuas petrificadas.que alastrava para nós como um monstro deslizante.aqueles que não tinham cedido ao cansaço e ido directamente dormir. essas. o que iríamos arranjar para o almoço e o jantar. E todo o dia seguinte. incapaz de escutar mais aquele som de uma fúria irracional.Estou a ver este espectáculo. o céu voltou a ser azul e nós emergimos para a luz. durante essas infindáveis dez horas de cada dia. para além de nós os dois. para servir de barreira. as aulas na Faculdade.Mas é assustador! . Levantei o blusão e vi que estavas sentado à porra da tenda.O que fazes. Os outros. fui-me enfiar no fundo da tenda. queimando a paragem para o almoço e tentando inutilmente que aquele monstro se desviasse noutra direcção. tudo o que poderíamos precisar para a noite. com poeira por todos os lados. tirámos apressadamente as latas para o jantar. Tudo o que horas antes era paz. aquelas dez horas dentro do jipe. o torvelinho de areia que circulava no ar fustigava-nos dentro da tenda e eu sentia a areia como chicotadas na cara. era cinzento-pesado. uma espécie de pesadelo que vinha para me engolir. O mundo inteiro estava em revolta. Mal a distingui. os amigos.tu e eu. . perdíamos por completo o sentido de orientação e só conseguíamos voltar para a tenda gritando para sermos guiados. quando nos afastávamos não mais do que três metros. a tempestade tinha desabado sobre nós e foi assustador. para sempre unidas por um terror. E toda a noite seguinte. os ombros curvados enfrentando a força do vento.a paisagem. encontrávamo-los sobretudo à noite. os bares e discotecas à noite. nas mãos. senti uma sensação de medo. a tempestade. as reservas da nossa "despensa". aí sentado. O ruído e a violência do vento eram de um outro mundo que nenhum de nós tinha visto jamais. sofrendo cada buraco e cada pedra no corpo. afastou-se assim como tinha vindo. Colocámos pedras sobre as dobras da tenda. no acampamento. de que vinha aí qualquer coisa para além da nossa capacidade de entendimento.Pois é. na minha casa. E o que fazíamos. montando rapidamente a tenda contra o jipe e este contra o vento. o ar ficou leve de novo. quando. tu e eu. parecia uma besta cega à nossa procura para nos trucidar. estranhamente. Em breve estaríamos submersos e então decidimos parar e acampar. o . De repente. à porta da tenda. não te deitavas ao meu lado para que eu me sentisse menos assustada. o ruído do vento era apocalíptico. apontei-a a ti e estavas coberto de areia. tu sorrias. os companheiros de viagem. a seguir a cada um (cada carro. Então. nem sequer telefones: uma bússola e um mapa militar dos anos cinquenta e todo o vazio de areia à nossa volta. e. do lado de dentro. Não havia nada. com frio. do nascer ao pôr do Sol? Conversávamos sobre a viagem . agora era caos. só com a rede mosquiteira a separar-te do turbilhão de areia que flutuava no ar. de impotência. no meu quarto. Acendi a lanterna. E toda a manhã do outro dia. violência absurda. soterrados em areia. O ar não era escuro. em todo o corpo. Mas estava cada vez mais próxima e os primeiros sopros do furacão começaram a atingir-nos. Eu ouvia distintamente as estaladas que a areia dava na tua cara e. impartilhável. E durante várias horas nós fugimos diante da tempestade. a cabeça tapada pelo blusão. o estado do carro.

A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar ern duas pessoas é o silêncio. com os guerrilheiros da Frente Polisário. como costumavas. acabei por me afastar e ficar a ver toda a cena à distância. porque não sabia. Para mim. como se te preparasses para a desilusão: . de vez em quando. falavas do teu trabalho e dos teus filhos. E. Há dias que vinhas murmurando em voz baixa. que te fizesse um sinal da cru. andavas numa roda-viva. toda uma manhã. pelo teu relato de florestas distantes e estranho~ nomes de peixes e bichos que ali pareciam tão irreais como irreal me parecia toda esta felicidade que não te sei dizer E que só percebi quando a perdi. segundo juravas. eu sentia-me inquieta. Tu. o que nós partilhávamos era o silêncio. Eles estavam a dar de beber aos camelos e a atestar de água aqueles alforges de pele de cabra que traziam presos às selas e que dizem que mantém a água fresca o dia todo. à distância. E nós . Contei-te . seres ateu. paravas de falar e perguntavas: . é que tinha descoberto que ali debaixo podia haver água. sem fim à vista. E tu falavas-me da Amazónia e do filme que lá tinhas feito. e depois um zoom à cara deste gajo! Cansada. de desentendimento. A maior parte do tempo. da tua anterior viagem ao Sahara Ocidental. havia qualquer coisa de desconfortável. Tu falava~ para ires acordando e eu aproveitava o embalo da tua VQ:i para me sentir ainda no quente do saco-cama.andamento do teu filme.O que eu gostava de encontrar uma azalai! Agora. não: continua a falar. na ganância com que vocês os filmavam. como. Quando tudo aquilo acabou. Não respondi nada. quando retomámos a pista. Um dia tu disseste-me: . entre Djanet e Tamanrasset. então. depois de enchermos os nossos jerricans de água até acima. Pensei para comigo que coisa estranha era essa de um poço de água no meio de um mar de areia e calhaus. o silêncio era sinal de distância. mas lembrei-me disso quando. porque eu não tinha vida para te contrapor. E. que ali nos aparecia como um verdadeiro milagre inexplicável? Mas os mapas assinalavam o poço e para lá nos dirigimos. que tenho de fazer ali uma panorâmica a começar no poço. embalada pela tua voz. Ao chegarmos. para fazer um plano assim e outro assado: . depois. ficaste num estado quase de hipnose. descobrimos que o poço estava ocupado por uma caravana de camelos. Mas vou-te confessar: às primeiras horas da manhã eu escondia-me atrás dos óculos escuros e ia dormindo enquanto ouvia a tua voz.Cláudia. Foi uma excitação em toda a nossa caravana! Toda a gente queria filmar e fotografar uma verdadeira caravana de sal de verdadeiros tuaregues. quando te foste despedir dela e lhe pediste. de mal-estar. falavas tu. o sol ainda não afastara por completo o frio irracional das madrugadas e eu sentia-me tão bem assim.Segura aí. quando ficávamos calados muito tempo. interrompida por estes dias fora de tudo. não precisas de falar só porque vamos calados. E. e começava a falar só para afastar esse anjo mau que estava a passar entre nós. das tardias sardinhas assadas que tinhas comido na véspera de partires de Lisboa e do amuleto para afugentar os maus espíritos que a tua mãe te tinha dado. quase vampírico. Ou melhor. seis meses antes.Estou a ser chato? . gritando para que te fosse ajudar. perante a indiferença deles. Quem.teríamos de esperar até que eles estivessem saciados e abastecidos para avançarmos para o poço. Ao princípio. tu estavas meio defraudado porque só encontraras um tuaregue que falava francês e esse tinha respondido por monossílabos às tuas perguntas.Não. que te estou a ouvir. protegida pelo som da tua voz. conduzida por uma dúzia de tuaregues. falavas da Índia e de África. falávamos sobre a vida que tínhamos deixado para trás. navegámos em direcção a um poço assinalado nos mapas e onde havia água. de câmara ao ombro. porém. e quem é que tinha escavado o poço e construído a sua chaminé subterrânea feita de pedras até alcançar essa prodigiosa mina de água.era esta a lei do deserto . desconfortável. na testa . E isso eu aprendi contigo. da esquerda para a direita.apesar de.

quando o estranho diálogo acabou. sobre os sahraoui: "Como não têm nada.Escrever não é falar. como se assim pudesse ver-te outra vez lá longe. Queria que me ouvisses e que falasses comigo. Anos mais tarde. o que te dizia nessas carta que quase acreditei que tu não podias deixar de me ouvi] Não é verdade. . ou o deserto tornar-se-ia um inferno. de vez em quando falávamo-nos ao telefone. Poupam a água.E porque é que ficam calados depois? . já não escreves. invertiam os papéis . então. seguir a sua vida. Essas cinco semanas passadas no Sahara iam-se esfumando no meu espírito tão rapidamente como rapidamente nos tínhamos aproximado e depois afastado. Fiquei a pensar na tua resposta: "Ficam calados porque já não têm mais nada de importante para dizer. Ma não te queria ver.Como tens passado? Como está a tua mulher? E os teus pais? E os teus filhos? E os teus irmãos? E o teu rebanho? E as tuas pastagens? E por aí fora . tu já o tinhas adivinhado antes. . pelo menos. porque não te resta nada para dizer. havia um preço a pagar pelo regresso a casa. E. Sim. já estava doente. mesmo que nunca tenha chegado a pôr a carta no correio. onde quer que fosse." E fiquei a pensar no que me tinhas dito antes. o Ali. Porque era tão sentido e tão magoado. a telefonista anunciava o teu nome e passava-me a chamada. E. Fora um longo e excessivo corte com a vida a que estávamos habituados. voltei a lembrar-me dessa nossa conversa. E tanto que eu sonhara com esse dia! Porém. depois. Tu telefonavas-me para o trabalho. de mãos dadas e numa estranha lengalenga: um fazia uma série de perguntas breves a que o outro dava respostas igualmente breves.. assim que pusera pé em casa. poupam tudo. XI A mim. já era tarde. ficaram os dois em silêncio.mais uma. os seus hábitos. e eu fechava os olhos por um instante antes de atender. onde juram que as grandes dunas brancas que nos rodeavam se movem todos os Verões e onde as estrelas à noite eram tão próximas que parecia que se estendêssemos a mão conseguiríamos tocar~lhes e eu dizia-te. poupam as energias viajando de noite para evitar o calor. pois não? Devia ter falado contigo. parecia-me que tinha sido há muito tempo que havíamos regressado do deserto. Assim me parecia mais certo ou. . mas depois custou-te mais a aceitá-lo. poupei as coisas que gostaria de te ter dito e que gostaria que tivesses ouvido. se calhar.O que é que eles perguntam um ao outro? ..o que tinha estado a responder passava a perguntar e o outro passava a responder. entretanto! A meada era já demasiado grande e longa para poder retomar o fio. Cheguei quase a convencer-me de que bastava escrever-te para tu me ouvires.que nunca te cheguei a mandar e que destruí depois. Assim. mas ela retomara os seus direitos. regressar ao seu mundo. Já tantas coisas tinham passado pela minha vida.. os seus hábitos." .. sempre de mãos dadas e a olhar em frente.Mas tu não poupas as palavras: tu escreves. todos os dias.É exactamente o oposto. conhecia um dos tuaregues da caravana e que se haviam sentado os dois no chão. não queria que me visses. Porque assim o tinha procurado. assim o tinha querido. Esfumavam-se no meu espírito: não na minha memória. e. escrevendo. Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais. tão distante. nós que vivêramos tão próximos durante essa quarentena no deserto. .então que tinha reparado que o nosso guia. Todas as noites gastas uma hora a escrever um diário nesse teu caderno . mas. Tinha acabado de te escrever uma carta . absolutamente nada.Não? Qual é a diferença? . à porta da tenda: . inevitável. sem mais. onde só houvera duas escolhas possíveis: ou nos tornávamos íntimos. O preço era cada um seguir para seu lado. Até poupam nas palavras. talvez a terceira . a comida. Separarmo-nos assim.Porque já não têm mais nada de importante para dizer. cúmplices e um apoio recíproco. Eu descobri-o logo.

destas manhãs geladas na areia." "Devo levar roupa prática ou elegante?" "Tens de levar as duas coisas: prática e elegante." Sabes. a tenda ficava arejada do cheiro do teu shampoo e tu perguntavas. antes de me falares ao ouvido. Primeiro. a roupa que devia levar! "Vai fazer calor ou frio?" "Vai fazer calor e frio. Acordo de boca seca.. homens. Ao segundo dia. parecias não reparar em nada! Passei a fazer como tu fazias. às vezes (eu. ru és loira. trezentos e sessenta anos em trinta e seis. Não me deixes à beira do poço: ouve. as calças estratificadas em pó e sujidade.. e tu gabavas-te de ter já completamente dominada a técnica de tomar banho integral. é justo que assim seja: já vivi de mais. a bordo de um avião. escuridão. nunca reparam! Se tu soubesses as hocas que eu perdi antes de partir para o deserto. a sair com a roupa com que tinha dormido. não me fales alto. com a minha amiga Joana. não me tragas de volta d deserto. ainda por cima. e às vezes sinto como se tivesse duzentos e dez. . Mas as calças . onde me vou perder e onde me quero perdei assim. dou comigo. já estavas a reclamar com a demora e daí em diante fui eu própria que percebi que não tinha paciência para andar a fazer toilettes à luz da lanterna. vê-se logo que não tens jeito para doenças e hospitais. o cabelo penteado. . Tenho 36 anos agora e. a minha vida tem sido um excesso permanente. tu trazes-me flores? Não. fica-te melhor. lavando a cabeça e tudo. três vidas numa só.. Estou com os dois joelhos dobrados e fora da cama: um com ligaduras. Olha para ti: pareces um pateta. avião: juro que não me vou queixar de ti.. o outro nu. vício que não me seduza. ao fina) do dia. a pensar friamente: "Se esta merda cair agora. Não me acordes agora.Nada de grave. um livro achas que eu preciso de ler!.Então. porque os teus dedos estão enregela dos e não consegues acender o lume do fogão para o primeiro chá do dia. o que trazes aí Flores . sinto o mundo andar à roda que alguém me puxa para o fundo de um poço onde só h. Não tem havido pecado que não me manche. mas não penses que foi ao acaso: eu sabia que tu vinhas visitar-me e pensei no que deveria vestir para te receber numa cama de hospital. um livro. para me vestir à vontade. o que tens? Digo-te que tive um acidente. como é lógico que aconteça. dos teus resmungos de sono e má disposição. eu tenho uma vontade imensa de desatar a rir mas contenho-me e espero que tu fales primeiro: . Tenho 21 anos agora. escolhendo. Não durmo de noite.Xiu. que tenho terror de aviões). Querido. de fato e gravata.Não cheiro bem? . sem sentido algum. tu não reparas nessas coisas. que e só conhecia de cabelos em riste como arame farpado. onde as mulheres iam em excursão num dos jipes tomar uma espécie de banho bíblico. comecei por exigir um quarto de hora a sós na tenda. ouve o ruído das estrelas! Sabes. o lencinho de Indiana Jones preso ao pescoço como um amuleto! Olha para ti. uma espécie de avalanche a escorregar montanha abaixo. os olhos injectados de poeira apesar dos litros de Optrex que passavas o dia a deitar lá para dentro.. claro. todas as manhãs. Vocês tinham mais sorte: lavavam-se em cuecas ao lado do jipe. avanças para a minha cama como se estivesses em algum ritual estranho.. vocês. Tu." "Achas que me fica melhor o blusão preto ou o branco?" "Leva o preto. não me faças nunca acordar destes dias. num simples litro de preciosa água. Ah. sim. apenas escolhendo uma camisa ou uma T-shirt que estivesse menos suja de pó e esperar por um dia em que acampássemos junto a um oásis ou um qualquer fio de água. caí e parti a rótula de um joelho." No fim. Podes cair. nada disso teve grande importância. Nessas noites. a minha vida tem sido um vazio sem bússola nem azimute. Gostei tanto de te ter encontrado. meu querido: olha para ti.. olhando à volta com medo de estares a fazer tudo errado. curvada dentro da tenda e com um frio mortal para trocar de roupa ~ e se. não me deixes agora . Ah. Deixas cair-me o livro em cima. . ufano: . a T-shirt coberta de manchas de óleo e nódoas de toda a espécie. adormeço de dia. Visto uns shorts de pijama e uma T-shirt. quando aquela improvável invenção de meta' começa a abanar como se tivesse acabado de descobrir a lei da gravidade..A parte de cima.

para a tua gravata. nove. exausto ainda o dia não tinha começado. agarrei-te a mão: . como as conversas sobre tudo o que nos ocorria. Algumas vezes convidavam-me para viajar um dia ou parte dele noutro jipe. sentada ao teu lado no jipe. que me dava essa incrível sensação de conforto. 12 metros quadrados contra a futilidade do mundo. tu tinhas tudo planeado e pensado e. ou nas imensas planícies de "chapa ondulada". com outra companhia. Tentei despir-te dessas roupas. todos os dias. o teu ar desajeitado. E nós sempre ali.E agora ali estávamos. ias partir para a Índia.nem estradas. que alguém me tinha pegado na mão e me conduzia por onde não havia nada . mais do que tudo. por assim dizer. como não se deve abandonar ninguém que nos ame. meu querido. tão longe do sonho. trinta anos atrás. Não consegui ainda habituar-me a isto. o Pere Foucauld construiu a sua incrível casa de duas divisões de pedras sobrepostas. de segurança. dez horas por dia. Só os rios e as montanhas. Era isso. um ao lado do outro. Sem que eu tivesse de pensar em nada quando acordava. até te vestias de fato e gravata. outra vez. organizados. entre a lucidez e o sonho. Sabes. Olhei para ti.os meus dias estavam. cobertos de pó branco no fech-fech. nem cidades. como hastes. todas as horas do dia. Às vezes apetecia-me dizer que sim. de enganar o vazio de tudo. nem luzes ou sombras. os jeans descoloridos de camadas de pó acumuladas. nas montanhas do Hoggar. Era como se te traísse. olhando-nos como se nos estranhássemos. sobe devagarinho. nem árvores ou jardins ou praias ou qualquer coisa que eu tivesse visto antes . uma e outra e dezenas ou centenas de vezes) e depois acabar com uma subida a pé durante uma hora. pela primeira vez em muito tempo . aos saltos nas pistas de pedra. era como se o mundo inteiro estivesse à tua espera e quem era eu para te fazer esperar? Olhei para ti. um a seguir ao outro. A vida é assim mesmo. como diziam os Índios da América. que levantava de cada lado do carro duas imensas colunas de pó que pareciam paredes a esmagar-nos. e tive medo de que a tua breve visita já estivesse a chegar ao fim. esses foram os dias inesquecíveis em que eu soube que alguém cuidava de mim. a arrumar as coisas no jipe antes de mais uma jornada de pista.Sabes. que tinhas pressa de regressar à tua vida real . sem ter de planear os dias. encosta à pedra. doente numa cama de hospital. por mais insuportável que às vezes me parecesse essa tua obsessiva organização e teimosia. para variar. o lenço verde preso ao nariz para que a poeira não entrasse e não desatasses a espirrar grãos de areia sem parar. voltar a ver-te com os cabelos em pé. começa a descer com o travão e volta a fazer o mesmo com as rodas de trás. uma distracção. para ti era fácil dizer isso: tinhas uma outra vida aqui. outras conversas.tão longe do deserto. e imaginava-te sozinho no jipe até ao pôr do Sol e não era capaz de te abandonar. por mais que tantas vezes te contrariasse só para te ver irritado ou para simular uma revolta que de todo não sentia nem queria que sentisses. olhavas disfarçada mente para o relógio.e a minha única tarefa era deixar-me conduzir por ti. de encher os dias. muito tempo . Sempre ao teu lado e tu sempre ao meu lado. naquele espaço limpo e desinfectado de um quarto de hospital.Tens de te habituar. tanto o silêncio partilhado. trôpego de sono. que faziam lembrar a Lua e me deixavam enjoada e tonta como se estivéssemos no mar alto a subir e descer vagas gigantescas.e as duas coisas eram boas. Oito. mas depois olhava para ti. nem casas. Ou na impossível pista para o Assekrem. E. nesses quatro dias frenéticos a caminho do deserto e nesses trinta e três dias que demorámos a atravessá-lo até Tamanrasset e voltar para casa. por isso. lá. a camisa sebenta. até ao alto da mais alta das montanhas. onde. Pois. E agora eras tu que me abandonavas. Às vezes calados durante horas. pois não? . Sempre.muito. nada dura para sempre. apetecia-me estar lá. tão longe da nossa solidão a dois! Abandonavas-me assim. no deserto. . Eras tu: tu estavas ali. outras vezes à conversa durante horas . tinhas pressa. tinhas vindo do Iraque ou da Jordânia há poucos dias. cinco horas seguidas a subir e descer pedras do tamanho de uma roda do jipe (mete ala.

Eu sei que algures. É verdade que nunca quis ou nunca vivi para querer isso para mim. me apetecia poder ir para casa e ter à minha espera alguém que me amasse. e eu fiquei sozinha. Queria só dar um sentido à nossa viagem. mas sem pensar muito. voltei onze vezes ao Sahara. foi só isso o nosso encontro? Não ficou mais nada lá atrás. eu sei. de repente. Através da janela do quarto. casas. como coisa preciosa. agora que te foste embora para a tua vida. ir a discotecas. viagens. Com os anos. ao mesmo tempo que tentava preservar. mas aqui fazia toda. tão perdidamente. se terias um trabalho. sem fazer demasiadas perguntas nem exigir nada mais do que esse amor tranquilo de todos os dias. no último dos irrepetíveis dias daquela viagem. vê tu! Queria viver no limite todos os dias. estou a falar de alguém. discotecas ou concertos rock: nunca foi vida que me seduzisse e menos ainda agora. incrivelmente bom. divertir-me todos os dias. diz-me. mais adiante na minha vida. agora que sei que também tu voltaste para uma casa onde tens alguém à tua espera. mais de meia geração a separar-nos. percebi que a tarde estava a acabar e que as luzes da cidade se iam já acendendo. não te sentir tão distante. iguais a ti?). de cada vez que concluía uma coisa. se terias emigrado. estávamos nós a amarrar em Gibraltar. Nessas alturas. de cada vez que voltei. Cada um de nós seguira a sua vida e elas eram em tudo diferentes: os amigos. alguém que te ama. Lá de fora vinha o ruído do trânsito ao fim do dia. voltar contigo. fotografias. gente que queria voltar para casa. a solidão e o espaço. Não. com tudo previamente estabelecido e com prazo de validade previsto à partida? Foi só isso. está escrito. Coisas que durassem. como se tentasse ultrapassar o próprio tempo. foram-se embora as outras vIsItas desse dia. porque o deserto tornou-se quase um vício e a minha íntima religião. comecei a ficaI obcecado em construir coisas. Cláudia.só as montanhas e os rios. tão longe. Pensava o que seria feito de ti. Sim. reportagens. Nunca como contigo. Pensava. Tirando o silêncio. Mas agora. os nossos quarenta dias de deserto. E. agora que a noite chegou e que fiquei sozinha. como pai de fim-de-semana. como nas outras. isso não fez assim tanta diferença.Foste-te embora. sair. se te terias casado (e terias filhos. os lugares por onde andávamos. o trabalho." Lembras-te quando. também a mim. que trabalhava tanto e via crescer os meus filhos. queria que as coisas estivessem sempre a correr. Mas o que fomos nós um para o outro: apenas companheiros ocasionais de viagem? Com o tempo contado. eu repetia a mim mesmo: "Não há regresso. loiros e lindos. Consumia-me uma febre insana de caminhar sempre em frente. meu sábio. passava a outra e assim sucessivamente. Mas era agora que eu queria não sentir este vazio. já sei que nada dura para sempre . Conhecer novas pessoas todo o tempo. Já sei. E. Lá longe. Eu não andava na noite nem nos bares. a memória de todos os dias felizes que tinham ficado para trás . tirando o tempo gasto nisso. a pensar em ti e na tua visita. Há viagens sem regresso nem repetição. alguém que te dá paz. sentir que podia seduzir todos à minha volta e brincar com isso. debruçados na amurada do barco que nos tinha trazido . não deixámos nada de nós os dois no deserto que atravessámos? XII Às vezes eu pensava em ti. se terias acabado o curso. pensei em ti e pensei como seria bom. o único divino a que prestava contas e onde me reencontrava. um ruído de gente e automóveis apressados. é sempre assim.e onde estavam. Alguém sem nome. Não estou a dizer isso. histórias que eu pudesse contar e partilhaI com os outros. onde estavam os que amavam ou os que se tinham habituado a amar. Queria mais. que ficassem depois de mim: filhos. como as folhas secas de uma rosa deixadas entre as páginas de um livro já lido. todo o resto do tempo que não fosse passado a construir coisas novas parecia-me um desperdício de vida. livros. Depois disso. Mas voltei. não estou a dizer que queria que fosses tu. uma enfermeira veio dar-me um remédio e mudar o frasco de soro. tão longe do deserto. nunca tão fundo. hei-de encontrar quem esteja em casa à minha espera quando eu chegar.

guerreiros tuaregues. frascos de compotas e cubos de marmelada. Cláudia! Não saias . Distribuímos T-shirts. Os anos passaram por mim.Estava a pensar que há viagens sem regresso. a mais calma. que duas . ainda que as fotografias consigam suspender a felicidade como se ela fosse eterna. sei do que falo! Ninguém. alta e altiva.até mulheres loiras de jeans . outras coisas que nem sabíamos para que serviam. ninguém mais caminharia assim como tu pelos passeios de pedra ocre das ruas de Tamanrasset. a tua cara de sono. A mais atenta. sem dúvida alguma. paga em francos franceses. Quando acordei. Quando tudo era bonito de mais ou duro de mais. O nosso médico gastou a manhã a ver mulheres e crianças doentes (os homens não davam parte de fracos) e deixou-lhes dois frascos de gotas para os olhos. como te tinha visto fazer em todos aqueles dias. fotografando-te de vez em quando. Falámos sobre isso uma vez. E os homens azuis e tuaregues que tinham vindo ao mercado mensal de Tamanrasset olhavam para mim. hoje ainda. Um dia em que tive um grande desgosto. espantado. nada podia apaziguar aquele indefinível mal-estar que sentíamos na presença deles. caramba. enquanto por ali ainda andavas. limpa e deslumbrante sobre as águas quietas do Estreito. deitei-me para dormir sem saber como seria a minha vida para diante. tu ficavas calada a olhar silenciosamente. ainda estremunhados. Alguém comentou que o aço levemente enferrujado de Toledo certamente tinha entranhado sangue de homens mortos. Tu falavas pouco e essa era uma das coisas de que eu gostava em ti. latas de conserva e fotografias do Madjer a marcar o seu imortal golo de calcanhar em Viena. e. a banalidade das palavras ditas sem necessidade alguma. ainda não raptada sob os meus olhos. além das cabras e dos camelos . não por ela. não acreditando no que viam.feliz. Tu não respondeste nada. de menina pequena. A seus olhos. a mais feliz tranquilamente. Foi então que eu te tirei a tal fotografia. Outros compraram punhais. e a pensar se isso a faria mais preciosa ou mais roubada. E tantos anos passaram desde então! A minha espada do mercado de Tamanrasset continua enferrujada. E é. olhei-me ao espelho e vi. De nós os dois. tínhamos vindo de outro planeta.tu. hesitavam se deviam raptar-te sem mais e fugir contigo para o seu acampamento onde serias a única presença. C. não.e tu passavas. não te rias. sem perceber se eu era teu amo ou teu servo. a mais disponível para o vazio e o silêncio. e eu disse-te que a vida me tinha ensinado que fácil era o ruído. sem precisares de dizer o que quer que fosse! Apenas a olhar em frente. e eu fiquei a olhar a minha espada tuaregue. a imagem mais forte. E que nunca mais vou voltar desta viagem. Mas nada. mais verdadeira. Homens azuis paravam à tua passagem. de jeans e T-shirt. jarros de barro pintados à mão.de Marrocos durante a noite. de olhar feroz. de encontro ao deserto onde estava a nossa “aventura” e a sua desventura. Comprei uma espada antiga em seu alforge. Não saias nunca desta fotografia. mas não mais do que já estava antes. como bem sabemos. lenço negro a tapar a cara e espada pendente à cintura. Ah. suspensa e eterna .tal qual como nesse instante. respondiam por ti . aí tu ficaste para sempre . uma criança entre crianças. o teu cabelo espalhado ao vento em todas as direcções. como tu ficavas bonita assim.Em que pensas? . carregados de coisas novas e estranhas que eles nunca tinham visto . cabelos loiros soltos e descobertos. rodeada de miúdos e sentada no chão. Nunca mais vou regressar do deserto. com a camisola do F. as conversas sem sentido. que tenho de ti. no mercado de Tamanrasset. eu observei-te bem. olhando a manhã de Dezembro. imperial.e.mas logo partiríamos. Os teus olhos azuis. como se estivesses despreocupadamente a descer o Chiado às cinco da tarde. injectados da areia que o vento trazia e com a qual viviam há milénios. baixando-te de repente para brincares com uns miúdos que jogavam ao pião no passeio. ainda que tantas fotografias felizes mintam. E eu caminhava três passos atrás de ti. e tu me perguntaste: . Porto. lanternas. no banco ao lado do meu no jipe. depois de te terem devassado como a um vento de areia. tu eras.

sei que tu me guardas e vigias. queria acabar a viagem contigo. muito embora julguem poder ter o mundo aos pés.Porquê? . todos os anos perdidos que ficaram para trás. ..Já jantaste? . Às vezes. vieram a abrir! . Os fundamentalistas islâmicos. ao passear pela paisagem. expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos. . A razão principal é que já não há muita gente que tenha tempo a perder com o deserto. . das férias na neve e das festas de amigos em casa. E habituei-me às rugas. tanto medo. em vez de tantas ofuscantes ilusões. E às vezes.Consegui: estou aqui. fico à noite a olhar as estrelas como as do deserto e oiço o tempo a passar.. E por isso é que vivem esta estranha vida: porque. mensagens escritas. às vezes também. não aguentam nem um dia de solidão. todo o tempo. de seguir a tua estrela. a tua luz. Não estavam lá antes de eu me ter deitado na véspera. como os de Laghouat. a menos que eu as injectasse de botox e alguém inventasse uma cirurgia contra os desgostos. mas não me angustia mais: eu sei que é justo e que tudo o resto é falso. Viajam antes em massa para onde toda a gente vai e todos se encontram. a biografia das suas vidas. . E todos são bonitos.Viemos.Ah.Porque a começámos juntos. mas agora estavam. nesse terraço onde vejo e oiço as estrelas. Que pudéssemos ambos apagar todo o mal. tornaram-se sanguinários e incontroláveis e os próprios tuaregues revoltaram-se contra o poder de Argel. todos os danos e todos os enganos. eles riscam mentalmente essa viagem dos seus projectos. Eles só queriam ter a certeza de que não tínhamos estado a filmar com a Frente Polisário. E. estava desesperado para não perder o barco. . sensíveis e interessantes. "leves". com amores antigos e actuais. Cláudia. Não sabem para que serve e. em vez de se descobrirem. A menos que tu descesses das estrelas e quisesses vir comigo outra vez. Em vez do silêncio. em vez de se encontrarem. lá onde eu moro. tão cruéis e irreparáveis ausências. nítidas e verdadeiras. conformei-me com o tempo que passa. Mas a razão principal nem é essa. contactam-se.Pois . Cláudia! Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas. divertidos. jovens. disponíveis. Mas eu sei que não há regresso: eu mesmo to disse. com os galhos e ramos secos que fui colhendo durante o dia.Três horas de atraso: caramba. para não perder tempo. E tu? . E fizemo-la juntos. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. falo com a tua estrela.Porquê? . quando então percebo que tudo está em paz e faz sentido. conseguiste apanhar o barco! . . As coisas mudaram muito. Cláudia. mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net. retidos na fronteira: achei que os marroquinos da polícia só vos libertariam amanhã ou depois. desde essa manhã límpida nas águas de Gibraltar.Conseguimos safar-nos ao fim de três horas.grandes rugas me tinham nascido nessa noite. onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão. onde escuto e aceito a ampulheta da minha vida. quando me perguntam o que há lá e eu respondo "nada". falam sem cessar. . .Porque queria estar contigo.Já. Eu próprio não creio que lá volte mais.Cláudia! . Hoje já ninguém vai ao nosso deserto.Mas vocês ficaram lá atrás. que perdoas todos estes anos de silêncio. acendo um lume à maneira do Ali. junto aos olhos.

mas devem ter dito que eu estava fora. É incrível. uma noite inteira no mar para dormir à vontade! -Boa! . continuas morta . ninguém me disse coisa alguma. sem salvação. .Acabou. sim. a ver televisão. . Nada está morto. "Vês.Eu ainda tenho comida. Há luzes nas casas e gente dentro das casas.. Se pensas que faço de propósito. E um dia. Queres que vá buscar? . . sobre o convés de um navio que deslizava em silêncio no Tejo. há luzes do lado de lá do rio.em paz.e eu não sei de nada! Nem sequer sabia que podias morrer assim. Mas.Porquê? . dourada. é possível que tenhas razão. Voltaram do trabalho. E queria gritar. Aliás. Imagina: cama. com a Ana. Era um fim de tarde de Março. até Tamanrasset. quando o meu pai morreu... "Não sabias?" Levantei-me da mesa onde estava sentado e fui até à janela. Anos mais tarde. tu morres. A luz essa luz incrível dos finais de tarde da Primavera.. queria gritar até onde me ouvissem. Cláudia: não é verdade. finalmente. vê a coincidência. alguém estava a falar comigo. . "A Cláudia morreu". estão a fazer o jantar. Abri a janela porque precisava de ar. tinha medo de estar a sufocar. sem aviso. Mas não gritei: enrolei o meu grito e falei-te baixinho.O quê!? Pareceu-me que. com toda a naturalidade: . porque é isso e só isso a morte. Mas do lado de lá.A Cláudia morreu . não há nada no deserto: tu sabes.Não: já fecharam o restaurante do barco. qual é a diferença? Acabou! CHEGADA Quando tu morreste. em Almada. Tu sabes bem que acabou.Não. estão a brincar com os filhos. pode ser que a vida tenha razões que a razão não entende. outra vez. há um velho que faz palavras cruzadas sentado num sofá e a mulher que ouve o terço na Rádio Renascença. E não há telefones no deserto.Não.Hoje ou amanhã ou depois. até à estrela onde tu agora estavas . Em paz. Também já aluguei um camarote.Acabou? . Como é que podes esta morta? Como é que .Vens? . até ao lado de lá do Tejo. mas de muito longe.Porque a nossa viagem acabou aqui. como se fosse noite na nossa tenda e pudessem ouvir-nos lá fora. lençóis lavados. como quando estamos mergulhados dentro de água e ouvimos uma voz que nos chama. em Lisboa. alguém me disse. vou andando . .. Ninguém me telefonou a dizer que tinhas morrido: talvez tenham telefonado.. Quando voltei. as luzes da noite já se tinham acendido e o seu brilho também chegava ao rio. já sabes. em Lisboa atravessava ainda o rio e pousava. devem ter pensado que alguém me teria já dito e que eu sabia. Vou dormir lá. Estava no deserto.. Vou-me deitar sem comer. não sabias? "A Cláudia morreu". mas é milho. . no meio de uma conversa.Não queres ficar no meu? -Não. meses . sim. . também estava no deserto. Parece-me que consigo sempre estar fora quando morrem aqueles cuja morre me pode magoar. semanas. só acaba depois de amanhã.Não. subitamente. ainda consegui alugar um camarote: é o 42.dias. . eu estava fora. em contrapartida. em Lisboa. foi um milagre ainda nos terem deixado embarcar.Deve ter-te feito impressão a morte da Cláudia .

e há um tempo para isso. Desde então. Vinte anos. Não te vi a subir a uma estrela. Guardei-as dentro de um envelope grande no qual escrevi "Sahara. Só ontem é que percebi que tinhas morrido. num armário. como que posso fazer para que não estejas morta?" À hora a que me disseram que tinhas morrido. mais uma vez. mudei algumas vezes de casa. eu estava atrasado. Não fui a tempo . ainda não havia estrelas. não te vi a rir lá de cima porque. Ainda não havia noite para te chorar! e é à noite que eu choro. se esse assassínio é verdade. 1987" e meti-a dentro de uma gaveta. Só ontem é que voltei a vê-las. Cheguei a casa e fui procurar as tuas fotografias. a fotografias da nossa viagem. mudei até de vida outras vezes. s essa absurda notícia. n gaveta. Não m apoiei nos outros em frente ao teu caixão para te chora] Não te chorei. .posso acreditar que estás morta? E. Não fui ao teu enterro. e a fotografias continuaram sempre dentro desse envelope. no mesmo armário.

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