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Capitalismo hoje.

Caracterização, crises e eixos


estratégicos

Índice

A - Caracterização sumária do capitalismo de hoje

1. O domínio do capital financeiro


2. A separação do capital financeiro face à produção de bens ou
serviços
3. Manipulação ideológica
4. Caos
5. Genocidio

B - A crise sistémica actual e a sua génese histórica

1. As diversas crises do capitalismo actual


2. Modas e ideias feitas. É preciso ir ao fundo do fundo

C - Eixos estratégicos de actuação do capitalismo

1 - Aplicação dos formatos neoliberais


2 – Globalização
3 – Financiarização
4 – A fascização das sociedades

“Os movimentos dos mercados financeiros são o


resultado de uma complexa combinação de regras de
mercado, estratégias comerciais, medidas de motivação
política, planos dos bancos centrais, ideologia dos
tecnocratas, psicologia das multidões, manobras de
especulação e turbulÍncia de informação com origens em
vários locais”
(Manuel Castells, “A Sociedade em rede”)

Este texto de Castells sintetiza vários aspectos que caracterizam o


capitalismo de hoje: a imprevisibilidade que gera o caos e o caos que
torna inquietante o nosso futuro.

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A - Caracterização sumária do capitalismo de hoje

1. O domínio do capital financeiro

• O domínio do capital financeiro associado à facilidade e


virtualidade da criação da mercadoria dinheiro torna mais atraente
o investimento nos seus “produtos” do que na economia real, onde
se produzem os bens e os serviços necessários à vida de todos
nós. E as empresas produtivas tornam-se, elas próprias,
mercadorias submetidas a transformações diversas (aquisições,
fusões, reestruturações, desmantelamentos), susceptíveis de gerar
despedimentos em massa, transtornar a produção dos seus bens
ou serviços, tudo isso para gerar um lucro rápido e vultuoso ao
“investidor” financeiro que detenha as suas acções;

• A liberalização, a isenção fiscal e a desregulamentação dos


movimentos de capitais constituem, pois, elementos essenciais
para a mobilidade dos mesmos, na procura frenética de aplicações
financeiras em qualquer coisa susceptível dos tais lucros rápidos e
volumosos, sejam empresas, contratos, mercadorias, títulos,
dinheiro, existentes ou virtuais;

• O volume, a complexidade dos “produtos financeiros” e a


(des)informação que circula em seu torno beneficiam quem detiver
maior capital para aplicar (é pretensioso e falsificador utilizar o
verbo investir), informação para processar ou produzir para o
exterior e exigem graus crescentes de concentração;

• Este carácter ligeiro, a relativa imaterialidade dos “produtos


financeiros”, a facilidade da sua transmissão e movimentação
geográfica, a ausÍncia de tributação que os Estados criam para
favorecer o capital financeiro, ampliaram as formas que este
reveste, para além da clássica formulação de Lenin
(bancos+indústria) e dotaram-no de um poder exorbitante, que se
não cinge à dependÍncia do crédito bancário, por parte das
empresas da economia real.

• Este poder ímpar domesticou totalmente o Estado como agente do


capital financeiro, determinando a acção política, como é
tradicional, mas procedendo a um controlo mais estreito dos
mandarins, determinando a política orçamental e fiscal, relegando
as políticas sociais para a categoria dos custos a evitar para que as
receitas ficais e o deficit fiquem disponíveis para apoios às
empresas e ao investimento público (estes sim, os produtivos e a
maximizar).

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• Ao assumir-se como sistema global, transversal às fronteiras dos
Estados, cujas barreiras ajudou a abater, o capital financeiro,
eximindo-se aos poderes estatais, criou ou colonizou instituições
internacionais (FMI, BCE, OCDE) que se tornaram coniventes com
os seus objectivos, alheadas das dificuldades criadas, impotentes
para actuar concertadamente, única forma de colmatar os
desmandos causados do capital financeiro.

2. A separação do capital financeiro face à produção de bens ou


serviços

• Se se definir a economia como a ciÍncia da afectação dos recursos


à satisfação de necessidades humanas, poderia dizer-se que o seu
objectivo seria a produção de bens e serviços. Para o capitalismo
clássico, porém, a produção é um meio para alcançar o seu
principal objectivo – o lucro; na actual fase de domínio do capital
financeiro, a produção de bens e serviços nem sequer é muito
necessária (ou mesmo conveniente) para alcançar aquele
objectivo. As várias pirâmides de Ponzi, cujo casos mais relevantes
são o de Maddof e o de Allen Stanford (30000 investidores
perderam $ 7000 M), são um exemplo da criação de rendimento (e
lucro) sem a geração de valor e à margem das próprias regras
montadas pelo capital financeiro;

• O lugar, por excelÍncia, destinado à formação do lucro é a empresa,


pois é a empresa que adquire os recursos, contrata os
assalariados, selecciona as tecnologias, procede aos investimentos
e distribui os rendinentos gerados. Perante os cidadãos
atomizados, as empresas é que detÍm o poder, tanto maior quanto
a sua dimensão e influÍncia nos governos. Na actual fase de
domínio financeiro, a acumulação faz-se, em grande parte, em
empresas virtuais, sem trabalhadores, sem bens, que não a
propriedade de capitais depositados algures, ou contratos com
aplicação futura, verdadeiros encadeados de direitos, com
localização tão móvel quanto irrelevante;

• A criação de dinheiro, cada vez mais desligada das necessidades


da troca autonomizam-no como mercadoria e transformam o
volume das transacções financeiras e monetárias na principal
fonte de rendimentos, desligados estes da produção de bens ou
serviços;

• A escolha dos investimentos é feita de acordo com a rapidez do


retorno do capital e da rendabilidade esperada, podendo ou não
isso coincidir com a futura satisfação de necessidades reais das
pessoas ou de outras empresas. Com o predomínio do capital

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financeiro, qualquer elemento de ordem física – maquinaria,
trabalhadores, matérias-primas, clientes, fornecedores – constitui
inconveniente, dado que é entrave à liquidez, à necessidade de
mobilidade do capital;

• A desmaterialização da formação de rendimento transbordou,


naturalmente, para as próprias empresas produtoras de bens ou
serviços. Assim, através de verdadeiras cadeias de subcontratos,
qualquer empresa procura desvincular-se de compromissos
duradouros, nomeadamente trabalhadores, que tendem a
pertencer a uma empresa fornecedora de mão de obra (tipo de
negreiros modernos), distinta daquela que necessita do trabalho;
e, no final desta cadeia está o trabalhador, o único produtor nessa
cadeia de empresas e “empresários”, finalmente contratado por
uma empresa de trabalho temporário. Esses trabalhadores,
executam tarefas anos a fio, no mesmo local, sem qualquer vínculo
com a empresa onde exercem funções e, em regra, precarizados
por parte da empresa adjudicatária do seu trabalho. Esta fórmula
de precarização, atomização, fragilização do trabalhador é muito
comum, nomeadamente em órgãos do Estado e grandes empresas,
sendo particularmemte conhecidos os casos dos “call centers”,
áreas de não direitos, verdadeiras galés para degredados do
antigamente.

3. Manipulação ideológica

• A liberdade dos mercados em geral, é uma mentira. E isso, porque


uma grande parte dos sectores de actividade não estão abertos à
concorrÍncia, funcionando em oligopólio; porque existem relações
estreitas entre algumas empresas e o Estado; porque o Estado
protege as empresas nacionais com exigÍncias diversas, de
carácter técnico, fiscal e alfandegário; porque existem
especificações legais e financeiras para a exploração dos negócios
mais rentáveis; porque a ligação aos media constitui um factor de
propaganda, visibilidade e informação distorcida. Por outro lado,
para a esmagadora maioria das pessoas, aquelas restrições e a
ausÍncia de poupanças suficientes, não lhes permite ir além da
venda da sua capacidade de trabalho aos capitalistas; e para uma
minoria, essas poupanças somente permitem a criação de
pequenas empresas, em sectores marginais do ponto de vista da
rendabilidade, com pouco capital fixo, ampla utilização de trabalho,
fortemente endividadas face à banca ou inseridas em redes de
“franchise”, recente xarope de autonomia empresarial para
assalariados engolirem;

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• Vive-se num sistema mundializado no que diz respeito à aplicação
das suas regras de funcionamento, dominado pelo capital
financeiro no seu conjunto (bancos, fundos de pensões…), em
ligação com as empresas multinacionais e o capital mafioso,
procedente de vários actividades e tráfegos ilegais ou éticamente
condenáveis, da corrupção, do tráfego de influÍncias, etc;

• Essencial para o domínio da oligarquia financeira e dos seus


“compagnons de route”, multinacionais, capital mafioso e
mandarinato é a atomização dos trabalhadores, a desorganização e
o amorfismo da multidão, em geral. Daí a necessidade da
superabundância esmagadora e asfixiante de informação, o seu
domínio, sobretudo no que se refere à produção de conteúdos. A
aposta deliberada na imagem visa confundir, manipular a
multidão, embrutecida pela sua omnipresença, pelo convite à não
reflexão e ao isolamento, a que os media convidam
incessantemente, 24 horas por dia e em qualquer local;

• Existe um frenesi difusor das ideias de sucesso empresarial, de


carreira, de acesso fácil ao topo do bem-estar, o convite à
participação na volúpia do casino financeiro, ao investimento, à
glorificação do empreendorismo, que contrastam profundamente
com a realidade da esmagadora maioria dos seres humanos, com
trabalhos mal pagos e parcos de direitos, desemprego,
endividamento, falta de acesso a cuidados decentes de saúde,
reformas condignas, fome, para não referir a ostentória promessa
de usufruto do luxo, apresentado nos conteúdos acenados pelos
media diante do nariz da multidão. Convém, para as oligarquias,
encher as cabeças da plebe de sonhos quanto à ascensão social,
como forma de aceitação do statu quo político e económico, como
ponte para uma adiada melhoria das condições de vida e
existÍncia. Convém ao capitalismo que a multidão absorva e
pratique na sua vida o apego à velocidade, ao crescimento
económico incessante, ao consumo inveterado, à concorrÍncia, à
arrogância face ao outro, à natureza e ao ambiente, numa postura
ansiosa, neurótica; tudo isso é essencial para a acumulação
capitalista.

4. Caos

Entre as muitas disfunções geradas pelo capitalismo, salientamos


cinco:

• A exploração do trabalho - com a maciça incorporação de capital


fixo e tecnologia, a grande dimensão das empresas e a utilização
de técnicas de organização do trabalho - é maior do que alguma

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outra vez na História. A acumulação capitalista associada é um
factor constante de pressão para a contenção do poder de compra
dos trabalhadores, um gerador de grandes desequilíbrios na
distribuição de rendimentos e de atrofia da produção, em
quantidade e qualidade, de bens e serviços essenciais;

• Para além dessa expropriação clássica do capitalismo existe a


invenção dos rendimentos financeiros em cascata, com uma base
real mínima e precária cujas dificuldades provocaram
recentemente a queda do castelo de areia em que assentava toda
a estrutura financeira mundial; e cujos efeitos na produção, no
nível de emprego, nas trocas, ainda estão em desenvolvimento,
apesar dos números circenses dos mandarins para sossegar a
multidão;

• A ambiente é outro “recurso” que o capitalismo tem utilizado de


modo predatório e descuidado, só recentemente adoptando
medidas tíbias e com horizonte dilatado para não afectar os
interesses das multinacionais e das pulsões expansivas do
capitalismo nos países “emergentes”;

• As transacções de mercadorias a nível mundial, dominadas por


multinacionais, são elas também objecto da especulação dirigida
por “brokers” em ligação ao capital financeiro, que afecta os
stocks, já de si tendencialmente escassos, desestabiliza a
produção, incorre em custos inesperados, com impactos nos
preços, dramáticos para os países pobres, como se assistiu
recentemente, com o petróleo, os cereais e as oleaginosas. O novo
dirigente da CFTC, regulador americano para a negociação de
futuros de matérias primas, revelou que em 2008 quando o
petróleo chegou aos $147.27 por barril, em New York, isso foi
causado pela especulação, contrariamente ao seu sucessor, da
administração Bush, que tinha afastado expressamente essa
hipótese;

• A segmentação exagerada do processo produtivo, a autonomização


excessiva de funções produtivas ou meramente auxiliares da
produção conduzem a partições improdutivas do processo
produtivo, dificultando e fragilizando a unidade e as lutas dos
trabalhadores, promovendo abaixamentos brutais nos rendimentos
do trabalho, gerando cadeias logísticas pesadas, com custos de
transporte e distribuição desmesurados e ambientalmente
suicidários.

5. Genocidio

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• Tendo em conta o predomínio da lógica do curto prazo, do lucro
instantâneo, da liquidez total, a necessidade da criação de valor
através da produção de bens ou serviços tende a centrar-se ou
restringir-se à produção de equipamentos de tratamento da
informação e de comunicação, de prazer e bem-estar à pequena
minoria dos grandes beneficiários dos mercados financeiros
(produtos e imobiliário de luxo, viagens e hotelaria de preços
proibitivos, carros de altíssima gama e aviões privados…) Fica,
portanto, prejudicada a produção de bens e serviços necessários à
satisfação das necessidades da Humanidade e esse dano fica
melhor evidenciado pelo facto de ser possível alimentar
decentemente 12000 M de pessoas com as tecnologias actuais,
praticamente o dobro da população humana de hoje;

• Sendo o trabalho a base de toda a criação de riqueza, os Estados


são pródigos no sentido da criação de legislação e regulamentos
que atomizam o trabalhador, que o tornam precário e dependente
da permanente venda da sua força de trabalho, em condições que
raramente pode decidir a seu favor. Essa política levada a cabo
pela generalidade dos mandarinatos nacionais, impulsionada por
instâncias plurinacionais como a OCDE, a UE, o FMI, o BCE, reduz o
rendimento disponível para a grande massa das populações e
portanto induz à estagnação da economia real e ao sacrifício da
esmagadora maioria dos seres humanos;

• Das condições em que se exerce o trabalho resultam enormes


bolsas de desemprego, pobreza, insegurança que, obrigam os
Estados a afectar fatias importantes dos orçamentos à manutenção
da “paz social” necessária à prossecução dos negócios. Esses
gastos com pobres em geral, despedidos, desempregados,
reformados, geram divisões no mandarinato e nas burguesias
quanto à partilha das receitas públicas; no entanto, dada a pressão
exercida pelo empresariato para a absorção de receita pública
(contratos, subsídios…), o neoliberalismo fomentou um desprezo
dos Estados pelos custos sociais, daí resultando agravamento das
condições de vida e o surgimento de numerosos novos pobres,
marginalizados pelo poder nos países ditos desenvolvidos. Nos
países da periferia, como os Estados nunca cumpriram ou
cumpriram muito tenuemente essas funções sociais, aqueles
problemas só são minorados onde existam fortes redes de apoios
sociais (alguns países muçulmanos), extensas economias de auto-
subsistÍncia (África) ou a inserção numa florescente economia
capitalista informal (Brasil).

• A esses gastos sociais é preciso acrescentar os encargos públicos


com a saúde de uma população, nos países desenvolvidos, com
grande longevidade (a parcela dos que tÍm mais de 65 anos é
superior a 20% no Japão, na Itália e na Alemanha). Na lógica do

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capital, os idosos, fracos consumidores e dependendo de gastos
públicos elevados, estão na primeira linha da população
dispensável pelo capital, tal como muitos trabalhadores com
poucas qualificações, desempregados, funcionários públicos e
trabalhadores das áreas sociais em geral. Quando, em 2007, os 1.8
M de pensionistas portugueses por velhice recebiam em média, €
352 por mÍs é porque o poder não aposta na sua sobrevivÍncia ou
bem estar;

• Esse pendor genocida, que não é novo no capitalismo, torna-se


bastante claro quando facilmente é possivel gerar rendimentos e
lucros rápidos através da inserção no casino financeiro, para o qual
a intervenção de trabalhadores é muito reduzida. Tornando-se a
criação de valor subalternizada e desligada da contabilização de
rendimentos e lucros, a financiarização das economias constitui
mais um factor de dispensa de trabalhadores e do trabalho como
criação de riqueza social.

B - A crise sistémica actual e a sua génese histórica

1. As diversas crises do capitalismo actual

Em síntese, da situação económica e da configuração do capitalismo


global, sobressaem vários grupos de problemas, que se sobrepõem e
encadeiam uns nos outros;

• Uma crise de representação, pois o modelo ocidental da


democracia representativa ou de democracia de mercado, com a
concentração do poder político em pequenas oligarquias, fornece
escassas possibilidades de exercício por parte da multidão, de
responsabilidades na gestão social, ou sequer de audição sobre a
mesma e vem provocando um descrédito crescente face à
legitimidade dessas oligarquias. Na maior parte dos países, a
questão da representação apresenta uma acuidade ainda maior
pois são dominantes os regimes ditatoriais ou musculados. O
modelo ocidental, por outro lado, fragiliza-se a si próprio,
recusando a legitimidade ao Hamas que ganhou o poder em
eleições limpas ou validando eleições fraudulentas que
favoreceram o serviçal Karzai, no Afeganistão;

• Uma crise da teoria económica oficial pois os factos demonstraram


o seu carácter inconsequente e evidenciaram-na como forma
prática de camuflar o enriquecimento de algumas elites,
mormente através do parasitismo financeiro; uma crise em que o
papel do dólar, a perenidade do deficit americano estão em alto

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risco e a credibilidade das principais instâncias de regulação ficou
de rastos;

• Uma crise social enorme, com grandes volumes de pessoas sem


trabalho, na miséria mesmo com trabalho, com ou sem
qualificações, sem acesso aos básicos cuidados de saúde (a
dificuldade de Obama para conseguir um sistema universal de
saúde, na própria metrópole imperial, é um escândalo), à
educação, à habitação, a uma retirada da vida activa em condições
dignas. Sobretudo nos países da periferia, as questões da fome e
da subnutrição chocam com as capacidades reais da Humanidade
em se alimentar;

• Uma crise da hegemonia ocidental sobre o planeta, cada vez mais


contestada pelos outros países, sobretudo de grandes dimensões,
com pretensões próprias. Outrora, essas pretensões eram
contrariadas com golpes de estado ou pela presença da
canhoneira ocidental; hoje, até se assiste a Obama a pedir
desculpa por os EUA terem patrocinado o golpe de estado no Irão,
em 1958.

Por outro lado, os instrumentos da canhoneira ou da sua ameaça,


mesmo quando utilizados, não resolvem literalmente nada, como
se observa no Iraque, no Afeganistão ou, no que respeita às
exigÍncias colocadas ao Irão; antes pelo contrário, acentuam o
descrédito dos países ocidentais. Por seu turno, os resultados da
actual crise sobre os países da periferia, gerada pelo sistema
financeiro dos países ricos e pelas instituições por elas dominados,
apontam no mesmo sentido;

• Uma crise ambiental caracterizada por um modelo de geração de


riqueza baseado numa crença descuidada e estúpida na
possibilidade de um crescimento económico irrestrito que precisa
de fomentar um consumismo irracional e imbecilizante e cujo
impacto coloca em causa, a prazo, as capacidades do planeta para
albergar a diversidade da vida, gerada numa evolução de muitos
milhões de anos. O capitalismo, na sua sede de lucro, não só
arrasa tudo à sua volta como consegue escavar o próprio chão que
pisa.

1. Modas e ideias feitas. É preciso ir ao fundo do fundo

O quadro negro em que a humanidade e o próprio planeta foram


colocados pelo capitalismo, necessitam de algumas precisões e de um
algum bosquejo histórico para que melhor se compreenda a realidade e
entenda o que os manipuladores do sistema debatem e preparam para

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que o essencial se mantenha: a exploração do trabalho, com o mínimo
de custos e restrições.

• Convém não alimentar ilusões sobre o carácter da actual crise. Ela


não corresponde a uma vulgar fase de “cava” do ciclo capitalista;
ela é profunda e duradoura e insere-se na tendÍncia de longo prazo
do sistema para a entropia, para o caos, para o fomento de
dificuldades à humanidade. Obama tem vindo a afirmar que os
EUA estão muito longe do fim da crise e, segundo Stiglitz, a
recessão vai campear nos próximos quatro anos… o que significará
para a província portuguesa do império, 10 anos seguidos de
recessão; contrariamente, a camarilha socratóide mostra-se
estúpida e insensivelmente optimista, despudoradamente
mentirosa e ridiculamente pretensiosa sobre os seus méritos
actuais enquanto a bolorenta Balela se apresenta para eleições
com um saco cheio de propostas de enriquecimento dos ricos. Por
outro lado, todos sabemos que eventuais melhorias nas bolsas não
correspondem a nada de real na vida das pessoas ou das
empresas, que o digam os que engrossam os números do
desemprego.

• O capitalismo vai gerando as modas nas teorias económicas tal


como os costureiros no vestuário. Contudo, essas modas não são
fúteis, nem fortuitas mas, estruturas complexas e pensadas para a
adequação, de forma duradoura, da configuração dos paradigmas
de organização económica, à permanente necessidade de
acumulação da riqueza criada pelo trabalho, na posse de uma
esmagadora minoria de parasitas humanos, nas condições
concretas de cada momento histórico.

• Existe uma racionalidade económica associada a cada modo de


produção não existindo, portanto, uma racionalidade económica
neutra, desligada das relações sociais, como se fosse um
coeficiente técnico transversal às sociedades humanas. Contudo o
capitalismo, nas suas modas, tende a considerar a racionalidade
que interessa ao seu desenvolvimento como A Racionalidade,
eterna e definitiva, outorgada por Deus. Esse carácter
filosoficamente imperativo, totalitário, coloca o economicismo mais
estreito e conotado socialmente com uma classe, como
característica universal, no tempo e no espaço, ignorando que na
história da Humanidade, o homem sempre foi o objecto e a medida
de todas as coisas; não o lucro, essa inovação capitalista:

• Para esse economicismo interessa que as pessoas sejam


homogéneas, padronizáveis, para facilitar as economias de escala
que permitem maximizações de lucros; ou, que sejam moldáveis
pela publicidade, para se adaptarem às conveniÍncias da

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combinação de recursos que maximiza esse mesmo lucro. A
conveniente satisfação das necessidades da multidão é uma
questão de segunda ordem;

• Como a espécie humana é incomensuravelmente diversificada,


volúvel na satisfação das suas necessidades, objecto de afectos e
não programável ou robotizável, a produção de bens e serviços
bem como as decisões à mesma respeitantes, só podem ser
equilibradas com as necessidades, se essas decisões couberem
aos trabalhadores-consumidores, dispensando, por conseguinte, o
capitalista, a produção para a obtenção do lucro e o Estado como
ente coercivo que garante a desigualdade e os privilégios de
alguns.

• Para que a multidão se submeta pacificamente à racionalidade


capitalista, é preciso que a aceite com a inevitabilidade e a
bonomia com que aceita a gravidade, mesmo que daí resultem
danos enormes na passagem de cada pessoa pela vida. É preciso
que as pessoas aceitem ser os “tolos racionais” como designados
por Amartya Sen.

Nesse plano, o capitalismo pretende que seja aceite como


realidade, inerente à natureza humana, a constituição e assunção
de cada pessoa como “homo economicus”, inalterável e
inquestionável, quando isso mais não é que um objectivo para o
grupo social politica e economicamente dominante.

• Por exemplo, a concorrÍncia é uma dessas falsas imanÍncias


atribuidas como normalidade no funcionamento das sociedades,
quaisquer que sejam, Na verdade, é nome que se dá à luta entre
os capitalistas, pelo domínio na venda de bens e serviços, dos
recursos materiais, das tecnologias mais avançados, do dinheiro
mais barato, da força de trabalho mais qualificada, com baixos
salários e menores “externalidades” como exigÍncias de segurança
laboral, horários de trabalho, direitos sindicais… Essa luta tende a
gerar um crescimento muito acentuado da capacidade produtiva
mundial, que se confronta com a contenção do poder de compra
dos trabalhadores e da esmagadora maioria da população do
planeta, tornando-se, portanto, excedentária. Esse subconsumo,
criado pela rapina do produto do trabalho pelos capitalistas
necessitados de incrementar o capital acumulado, origina a actual
crise e conduz, naturalmente, a dificuldades a muitas empresas,
falÍncias, deficit público, endividamento, desemprego, pobreza...
numa espiral em que a crise se auto-alimenta diariamente.

• Outro exemplo do carácter classista das modas teóricas do


capitalismo prende-se com o risco. Nos media, o risco é sempre
referido como o risco do investimento, da possibilidade de a

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remuneração do capital investido ser inferior à média do “mercado
de capitais” ou, não existir e os esforçados empresários poderem
perder os seus cabedais, bastas vezes de origem duvidosa à face
das próprias leis do seu Estado. Para anular esse risco e atrair o
“investimento”, os Estados oferecem múltiplas benesses
financeiras, custeiam infraestruturas ou asseguram um nível
elevado de receitas, como nos casos das lusitanas Lusoponte ou
Liscont-Alcântara;

Não cremos que haja muitos empresários vítimas do risco


empresarial entre os pobres que constituem 20% da população
portuguesa, embora o mesmo não se possa dizer quanto a
trabalhadores que tiveram experiÍncias empresariais e que
sucumbiram ao torniquete bancário ou perante a impiedosa carga
fiscal.

Muito mais dramático é o risco dos trabalhadores que, vivendo do


seu salário, sem conseguirem gerar poupanças, nada tÍm que os
defenda dos riscos da má gestão ou conduta fraudulenta dos
patrões. Quando há dificuldades nas empresas, o despedimento é
uma das primeiras armas dos patrões, que assim, transferem para
a parte mais fraca, os principais ónus dos riscos que não querem
assumir. E um temporário acesso aos subsídio de desemprego
nada se pode comparar com o património pessoal do capitalista,
não comprometido com o negócio, a salvo da derrocada.

• O capitalismo e as suas instituições criaram e pretendem aplicar a


qualquer investimento o critério da rendabilidade empresarial, da
recuperação e remuneração do capital investido, com cálculos
estandardizados do VAL ou da TIR. Se se estiver a pensar num bem
de consumo mais ou menos secundário, não nos tira o sono que
um capitalista gaste neurónios para avaliar o risco do negócio e
que procure recuperar o “seu” de forma ampliada.

Sucede, porém, que há muitas actividades onde isso não é possível


ou minimamente conveniente. A protecção de uma zona
ambientalmente delicada, de espécies protegidas, pode envolver
investimentos vultuosos, cuja rendabilidade não se pode medir
com critérios empresariais, como não se mede a área de um
terreno em litros. Em certas circunstâncias, os Estados procuram
rendabilizar um investimento ambiental adulterando-o com a
incrustração de projectos turísticos, por exemplo. Noutras
circunstâncias e sobre a forma de mecenato, o Estado favorece
capitalistas ou empresas (directamente ou sob a forma de
fundações) com benefícios fiscais, como via de tornar rentáveis e
atraentes ao capital privado, certos investimentos.

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Nesta linha de pensamento, sendo a água recurso natural de valor
inestimável, a cobiça de grandes multinacionais e de mandarins a
soldo oferece-se para assegurar a sua boa gestão, elevando
substancialmente os seus preços para a população, que ficará
assim dependente das intenções de um monopólio para remunerar
os seus accionistas.

A construção de uma linha férrea é reveladora das incapacidades


do capital. Não é disparate pensar-se que uma linha vá propiciar,
digamos, cem anos de serviço, sem prejuizo da sua regular
manutenção. Acontece que nenhum capitalista investe em
empreendimentos com tão elevada vida útil e mantém aí dinheiro
empatado; e por isso o neoliberalismo criou a bela figura de
privatizar a utilização da linha e deixar a sua manutenção a uma
empresa paga pelo Estado (tipo Refer). No caso da construção de
uma nova linha, tratam de constituir uma parceria público-privada
para o efeito, na qual os fundos públicos entram com a parte de
leão e a fundo perdido, permitindo que as futuras receitas
comportem a recuperação do capital privado, muito antes do
esgotamento da vida útil da via e com taxas de lucro apetecíveis.
Esta lógica aplica-se também a pontes, estradas ou cais para
gáudio dos bancos financiadores e das motas-engis ligadas aos
partidos adjudicantes. É o ciclo mafioso na sua plenitude.

• A propaganda dos mandarins engloba, geralmente, conceitos


abstratos, sem conteúdo, desligados de qualquer enquadramento
ideológico explícito nos quais se pretende envolver os cidadãos de
modo cumpulsivo, a internalizar sem a intervenção de polícias ou
tribunais. Um desses conceitos é o da acentuação da primazia
absoluta do novo sobre o menos novo, para não dizer velho; assim,
ser jovem ou ser proveniente de um jovem é melhor do que o que
provém de alguém com mais anos, mesmo que seja uma
imbecilidade do jovem Cristiano. Por seu turno, a modernidade,
“tout-court”, despida de qualquer expressão concreta, é apontada
como inelutável e na qual cavalgam os mandarins, como atestado
da sua competÍncia e visão; nesse contexto, as auto-estradas são
símbolo do progresso mas, a precariedade e o desemprego já o não
serão, apesar de paridos pela mesma modernidade actual.

A modernidade e a sua inevitabilidade, como algo forçosamente


bom, é utilizada da mesma forma que a ideia de progresso, força
imanente a algo desgarrado, na qual os cidadãos não tÍm que se
intrometer ou pretender opinar e construir por si próprios. A
modernidade é o termo mais usado por essa espécie de
engenheiro, praticante do moderno “jogging”, um tal José
Sócrates. enquanto o vetusto Cavaco sempre preferiu o
“pugresso”, como lhe sai da sua titubeante expressão oral. Terá

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mesmo sido o dito cujo que permitiu que os seus amigos lhe
tivessem “limpo” as poupancitas de catedrático reformado;

• Finalmente, outra das taras ideológicas do capitalismo relaciona-se


com o crescimento económico. Ao erigir a maximização do lucro
como critério condutor da vida social, o capitalismo gera uma
constante ansiedade pelo aumento da riqueza, que é como quem
diz, pelo crescimento do PIB. Essa tara repercute-se nas pessoas
em geral que, integrando a mesma ansiedade nas suas vidas,
praticam o consumismo mais insano ou ridículo, para
armazenarem bens, para garantirem os novos modelos de
qualquer coisa, pondo de lado, como trastes, um volume enorme
de bens em perfeito estado de utilização, desperdiçados. Como as
necessidades humanas não são infinitas, há uma parcela menor da
população mundial, basicamente nos países ricos, cujo consumo
global poderá estagnar, não induzindo crescimento económico,
sobretudo se forem reduzidas substancialmente as desigualdades
e o desperdício, Por outro lado, nos países pobres, a satisfação das
gritantes necessidades da maioria não tem de passar,
forçosamente, pela repetição dos modelos de desenvolvimento
adoptados no passado, nos países ora ricos, que estruturaram, por
exemplo, a agricultura, com elevadas incorporações energéticas e
desprezo pelo ambiente.

C - Eixos estratégicos de actuação do capitalismo

1 - Aplicação dos formatos neoliberais

• Em termos da teoria económica, os clássicos (Adam Smith,


Ricardo, Marx) demarcaram bem as relações sociais que estavam
por detrás do processo produtivo e que tornavam este como um
produto social. Porém, se Ricardo se refugiava na lei natural que
assim dispunha a realidade, Marx colocou as características das
relações sociais inerentes ao processo produtivo como resultantes
do antagonismo entre capitalistas e assalariados, sendo esse
conflito o motor da História.

• Por seu turno, J-B Say e os marginalistas preocuparam-se mais em


desligar a ciÍncia económica das realidades sociais, pretendendo
que a economia é uma área objectiva, socialmente neutra,
redutível a cálculos matemáticos. Nessa linha, a distribuição da
riqueza não resulta da correlação de forças entre capitalistas e
assalariados, com estes a serem subtraídos de parte do valor do
trabalho que produzem mas, segundo Say, de acordo com umas
leis chamadas de mercado, em que os detentores dos factores de

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produção – terra, capital e trabalho – com toda a independÍncia e
autonomia, ajustam os preços dos respectivos contributos para a
produção. Tecnicamente, a estrutura social onde se insere a posse
dos chamados factores de produção, constituia um dado a-
histórico, imutável e definitivo, desligado da evolução das
sociedades;

• A mais distraída observação da realidade revela que o fornecedor


da força de trabalho está longe de ter a autonomia de discutir,
com os capitalistas, ou o dono da terra, o preço do seu “factor de
produção”, porquanto o Estado através da lei ou da repressão física
ou judicial se encarrega de estabelecer as condições para a
formação do preço dos designados factores de produção,
favorecendo os capitalistas e prejudicando os trabalhadores. E,
portanto, essa actuação do Estado revela que na base da produção
de riqueza não está o livre encontro entre detentores de factores
de produção, o livre funcionamento do mercado mas, um elemento
político, não económico - o Estado - remetendo para o caixote das
aldrabices, as elaborações teóricas de Say e dos marginalistas;

• Essa mitologia de um mundo de entidades soberanas, iguais –


capitalistas e trabalhadores – reveste hoje, em termos ideológicos
formas curiosas e ridículas. O termo capitalista pretende-se
esquecido e conotado com uma época passada, enterrado na
História e é substituído pelos termos pretensamente neutros do
ponto de vista social – empresário, empreendedor, empregador,
por acaso (?) sempre utilizados de modo respeitoso, mesmo
quando aplicado aos mais manifestos criminosos. Por outro lado, o
assalariado, apesar de mal pago, precário ou sob a permanente
ameaça de despedimento, passa à categoria, também mais neutra
e amistosa de “colaborador”, o que, contudo, não permite
esconder o seu carácter subalterno e acessório. O assalariado
pode mesmo descer na escala da pública consideração; se
trabalhar no Estado é um madraço dormindo sobre privilégios, se
estiver desempregado é porque não quer trabalhar, se estiver
doente é um fingido que defrauda a Segurança Social e, se for
pobre e receber SRI é um rico dissimulado.

A existÍncia de trabalhadores ou assalariados é prova suficiente da


sua necessidade no processo produtivo, caso contrário, o
capitalismo já os tinha extinto. Inversamente, o patrão, em regra,
está a quilómetros de ter qualquer utilidade para o funcionamento
da empresa e da sociedade, como afirmámos em “Afinal qual a
Função Social do Capitalista”
(http://esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt/14868.html)
e em “Os Empresários e a Inovação”
(http://esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt/784.html)

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(http://www.scribd.com/doc/5570973/Afinal-qual-a-funcao-social-
do-capitalista)
O papel parasitário do capitalista, determinado por um elemento
não económico mas jurídico, que é a propriedade dos meios de
produção, é assegurado pelo Estado, como atrás já foi referido,
nada tendo a ver com as reais necessidades do processo
produtivo, de bens e serviços. Outra forma curiosa da mesma
ladainha é a pretensa igualdade de negociação entre trabalhadores
e capitalistas, presente na passada doutrina corporativa ou nas
actuais democracias de mercado, com a concertação arbitrada
pelo Estado, efectivo representante colectivo dos capitalistas, com
visão e interesses estratégicos nem sempre coincidentes com os
de muitos dos seus representados;

• A questão da propriedade dos meios de produção radica muito


fundo na ideologia burguesa que, simultaneamente, emana
comandos jurídicos e psicológicos para gerar nos trabalhadores um
respeito reverencial face à propriedade capitalista. O que as
burguesias não fizeram quando se locupletaram nas terras dos
aristocratas. Veja-se o seguinte episódio caricatural.

Recentemente, a propósito da morte do anti-fascista Palma Inácio


(que morreu na miséria) foi revelada a resistÍncia no seio do poder
PS/PSD em o homenagearem com uma comenda. Até achavam
graça aos seus actos contra Salazar mas… havia algo difícil de
engolir; o assalto ao banco na Figueira da Foz para financiar as
actividades anti-fascistas (cujo produto veio quase todo a ser
recuperado pelo poder). Aí era a propriedade que estava em jogo e
a burguesia portuguesa, como qualquer outra, tem a propriedade
como coisa mais sagrada que a honra das suas mãezinhas. Por
isso, não há anti-capitalismo que admita a posse de meios de
produção que não pelo conjunto dos trabalhadores.

Expurgar da economia política o segundo termo (política), visa


considerá-la com um carácter técnico, conjunto de coeficientes
técnicos de uma matriz, neutra em face às relações sociais
presentes no âmago da produção de riqueza. Tudo se reduziria a
cálculos contabilísticos, a problemas de gestão e, as dificuldades e
fracassos só podem acontecer por incompetÍncia, trovoadas ou
terramotos; daí que neste blog tenhamos afirmado em “BPN -
exemplo prático do que é o capitalismo”
(http://esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt/24117.html)
que o problema da competÍncia de Vítor Constâncio no caso BPN é
lateral, quando se pretende que essa foi a principal causa das
conhecidas vigarices que envolvem distintos “empresários”;

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• Essa linha de pensamento contudo, não é a que caracteriza o
neoliberalismo cuja falÍncia prática vamos assistindo e, parece que
nas esquerdas isso não é muito levado em conta.

Pelo contrário, o neoliberalismo é um modelo global de gestão


social que compreende a economia mas, que vai muito além dela
ou não fosse o seu principal teórico – Friederich Hayek - não só
economista mas, também filósofo e político, acantonado na
Sociedade de Mont Pélerin desde 1947, enquanto durou o brilho do
formato keynesiano de gestão do capitalismo, mais ou menos
coincidente com o período dos chamados “30 gloriosos anos”.
Hayek defende claramente que a economia não é uma ciÍncia
neutra e tem subjacente opções claras do que é conveniente para
o sucesso do capitalismo e que se não restringem às políticas
económicas (aliás pouco admissíveis quando se pretende um
Estado minimal) mas, também com a recusa da aplicação dos
conceitos de solidariedade, justiça social, igualdade… uma vez que
a “vida não é justa” e que se não pode rectificar o que a natureza
criou.

Evidencia-se assim que, por detrás de qualquer modelo


económico, implícita ou explicitamente está sempre um projecto
político animado por uma qualquer ideologia; e que não há
neutralidade política mesmo para os que se afirmam apolíticos.
Hayek tem o mérito da clareza de propósitos e a sua frontal
expressão, porém, não caracteriza os executores do seu projecto de
sociedade, como os mandarins actuais. Nesses aspectos, Hayek
contrastava com lord Keynes que se cingiu essencialmente à
economia, embora com uma clarividÍncia ímpar sobre as
conveniÍncias do capitalismo e do domínio ocidental sobre o
planeta;

• Como projecto global de domínio, o neoliberalismo de Hayek tem


conotações evidentes com o fascismo, com o seu expresso repúdio
por políticas de redistribuição, a defesa de um darwinismo social,
do elitismo dos ricos, em função dos quais todos os restantes
indivíduos devem existir, se conformados à sua pequenez ou,
desaparecer, na pobreza ou na inanição se não aceitarem o papel
de escravos. Da Escola de Chicago onde Hayek ensinou, saiu
também um tal Milton Friedman, menos ideológico que o seu
mestre mas que, com os seus “Chicago Boys”, as espingardas e
bestialidades da tropa, aplicou as suas ideias no Chile de Pinochet,
culminando com a reestruturação económica do país, a obra
iniciada pela conspiração da CIA contra o governo de Allende;

• Após esta primeira aplicação prática no Chile (1973), o


neoliberalismo deixou claro o seu programa para animar a

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economia mundial e assim promover a retoma da acumulação
capitalista:

 Tornar a economia regulada pelos movimentos de capitais e


pela política monetária, retirando ao Estado veleidades de
intervenção noutras áreas da economia;

 Desmantelamento do Estado social (onde existisse) para que o


riqueza criada não fosse “desperdiçada” em apoios
generalizados à população trabalhadora, como sistemas de
saúde, de segurança social, combate à pobreza, aparelho
burocrático, etc;

 Defesa de um individualismo exacerbado, com a recusa de


conceitos como vontade colectiva, interesses sociais ou
semelhantes, pois só existem indivíduos e interesses
individuais. “A sociedade não existe”, Thatcher dixit,
relembrando os velhos marginalistas;

 Sistema fiscal e normas salariais regressivas uma vez que


sendo os ricos os investidores, convém que neles se concentre
a poupança geral, devidamente maximizada; inversamente,
desonerar de impostos os pobres é fomentar o aumento do
consumo, reduzindo, consequentemente a poupança e
prejudicando, portanto o investimento. Sintomaticamente, de
acordo com Aglietta e Rébérioux em “Derives du Capitalisme
Financier”, a relação entre o salário médio de um operário nos
EUA e o de um gestor passou de 1/40 em 1980 para 1/400 em
2003. O bom caminho… como assistimos; tão bom que agora
todos os mandarins, com o santo Obama à cabeça, se vÍm
obrigados a limitar extravagâncias salariais, prémios, “stock
options”…

 Adopção do sistema político adequado à prossecução do


aumento da acumulação capitalista. Dentro dos seus princípios
ideológicos mecanicistas, anti-éticos e desumanos, o
neoliberalismo tanto pode aceitar as liberdades políticas
primárias, através dos sistemas representativos ou de
democracia de mercado, nos países mais desenvolvidos, como
promover golpes de estado e apoiar ditaduras, onde a
resistÍncia popular seja mais acerba e/ou onde a criação de
riqueza sendo comparativamente menor exija meios mais
musculados de domínio das cliques locais. Para impor o
neoliberalismo que tresanda no tratado de Lisboa, o referendo
poderia ser um instrumento mas, para evitar as
incompreensões da intervenção popular, o tratado é melhor
aprovado entre amigos (nos parlamentos nacionais) ou objecto

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de tantos referendos quantos os necessários, entre promessas e
ameaças aos irlandeses;

 O que nenhum neoliberal alguma vez propôs foi o


desmantelamento ou a redução do Estado no seu papel
repressivo e coercivo. Antes pelo contrário, assistiu-se ao
incremento e sofisticação das forças armadas e das polícias,
com o recurso extensivo a fórmulas privadas de segurança e
manutenção da ordem, videovigilâncias, para defesa da
propriedade e a formação de poupanças no bolso dos ricos.
Quem deve, teme.

Esta agenda neoliberal cuja aplicação pioneira foi paga duramente


pelos trabalhadores chilenos, foi seguida de outras, nos chamados
paises do Sul, sob a designação de “ajustamento estrutural” com a
obrigatória orientação do FMI enquanto nos países desenvolvidos
assumiu o nome de thatcherismo ou reaganismo. Criou-se mesmo o
termo “reaganomics” para o modelo económico vigente, baseado em
Say, “a oferta cria a sua própria procura”, sem esquecer o recurso à
repressão não foi negligenciado, quer por Thatcher sobre os mineiros,
quer por Reagan sobre os controladores aéreos. O Estado para estas
coisas dá sempre muito jeito mesmo aos mais empedernidos
neoliberais…

2 – Globalização

A queda das taxas de lucro e a fixação de crescimentos anémicos nos


países desenvolvidos anunciaram, nos anos 70 o fim dos tais “gloriosos
30 anos” de felicidade capitalista; as desvalorizações da libra e do
dólar, o fim da convertibilidade deste em ouro, enterraram os acordos
de Bretton Woods de 1944, feitos para garantir a supremacia
americana no mundo; as subidas do preço da energia em 1973 e 1979
revelaram novos protagonistas com poder, a OPEP e os países
petrolíferos do Golfo Pérsico; as multinacionais haviam adquirido um
carácter global e as fronteiras existentes, com controlos alfandegários,
freavam o seu crescimento; a inflação galopava por campos e vales; e
os EUA saiam da Indochina derrotados politica e militarmente enquanto
a descolonização se aproximava do final.

O mundo mudara, Keynes ficou fora de moda e a queda do crescimento


económico iria colocar em causa o chamado pacto social-democrata
que garantia, com a mediação das burocracias sindicais, a troca de
ganhos de produtividade para os trabalhadores, pela aceitação, por
estes, do sistema capitalista. Alguém se lembrou do profeta Hayek que
vinha pregando no deserto nas últimas trÍs décadas e o neoliberalismo

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foi adoptado, em paralelo com a desregulamentação e a liberalização a
nível global que preparou a extensão da base territorial da acumulação
capitalista integrando na sua órbita praticamente todos os países
capitalistas e pré-capitalistas, em vários estádios de desenvolvimento –
É a chamada globalização.

Esta, consiste em vários vectores e movimentos, que interagem e se


complementam:

• A transferÍncia da produção para áreas geográficas de “dumping”


salarial, laboral ou ambiental, com a inerente redução de custos,
alarga as margens de lucro das multinacionais e aumenta o
mercado global através da integração desses novos países. Porém,
essa transferÍncia tem como contrapartida a desindustrialização
dos países desenvolvidos, com o crescimento de um desemprego
estrutural, a perda de poder de compra e da qualidade de vida dos
trabalhadores, cujo poder reivindicativo fica condicionado. Esta
situação, aliada à feroz concorrÍncia entre as multinacionais, mitiga
os efeitos da globalização nas expectativas de crescimento
mundial que, simplesmente, tem vivido, nos últimos anos, das
elevadas taxas conseguidas pela China;

• A integração e acelerada expansão da exploração de novas fontes


de matérias primas, mormente energéticas e agrícolas, tendo em
conta a acerada concorrÍncia, gera novos conflitos pelo seu
controlo, armados uns (Iraque e Afeganistão), geoestratégicos
outros (luta pelo controlo da Ásia Central e dos oleodutos que lá se
iniciam) e desastres ambientais (desmatação no Brasil e pressão
para a exploração petrolífera das zonas árticas);

• O alargamento do campo de acção das empresas num contexto de


contenção do poder de compa global gera novas necessidades de
investimento e de meios financeiros para esse efeito, acentuando
o papel do capital financeiro na sua ligação às multinacionais. A
pressão para o aumento da acumulação capitalista tolera, de facto,
o branqueamento e a integração de capitais mafiosos e, torna mais
ou menos tolerados os vários tráfegos, como o das drogas, das
armas, dos imigrantes, das mulheres, dos órgãos humanos, a
corrupção etc;

• O ex-GATT passou a ser uma OMC, revigorada para promover a


liberdade de comércio (mais precisamente, a abertura dos
mercados dos países do Sul, tal como inventado pela Inglaterra no
século XVIII), desregulamentando e isentando os movimentos de
mercadorias e capitais e, liberalizando o investimento estrangeiro.
Essa liberdade de comércio visa isentar as multinacionais e as
grandes instituições financeiras de portagens e entraves para

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entrarem nos estados nacionais e alargarem assim o seu raio de
acção.

Por outro lado, a pressão que se exerce sobre os países pequenos e


médios, com menores níveis de desenvolvimento, conduz à
transferÍncia para o capital internacional de parte crescente da
riqueza criada, em detrimento das burguesias nacionais; nesse
contexto, acentua-se a exploração dos trabalhadores desses países
neo-colonizados, submetidos aos ditames do capital global e,
simultaneamente, obrigando os patrões nacionais a cedÍncias na
partilha da riqueza criada, no âmbito de uma colossal
concentração de capitais. Esse desiderato assemelha-se, a uma
escala mais alargada, à vocação dos Estados centralizados e
absolutos comandados pelas burguesias comerciais dos séculos XV
ao XIX: desmantelamento dos senhorios regionais e colocação de
todo o espaço, então designado como nacional, como coutada
própria, incluindo nesta, recursos naturais e trabalhadores;

• Na Europa, o processo de globalização tem sido mais profundo e


inovador. Assistiu-se à passagem da antiga CEE para a UE, no
sentido da criação de um espaço económico e político único; ao
alargamento territorial da UE a quase todo o continente; ao
aprofundamento da mercantilização a que o Tratado de Lisboa
pretende dar um carácter constitucional e definitivo; à criação do
euro como moeda comum (até agora, para somente 16 países); e
a uma desvalorização da própria democracia de mercado com
evidentes manifestações fascizantes dos poderes e emanações
xenófobas da direita política, estribadas em alguns estratos
populacionais.

A globalização tem trazido consigo alterações geoestratégicas na


estrutura do poder mundial, tais como;

• O Pacífico passou a ser a principal área de comércio, ultrapassando


o Atlântico, consolidando-se assim, a subalternidade europeia (por
muito que custe aos eurocÍntristas), como área de menor
dinamismo económico, a despeito de ser a maior área de
consumo, agravando-se essa situação, do ponto de vista político
com a aceitação da suserania americana em questões essenciais
como a actuação agressiva da Nato ou o apoio à barbárie israelita;

• Reduziu-se a relevância da indústria na Europa e nos EUA com a


sua transferÍncia para o Oriente, com destaque para a China, com
custos laborais e globais muito mais baixos, integrando um
movimento de nivelamento por baixo, que favorece as
multinacionais e, temporariamente, os trabalhadores desses
países, em detrimento dos europeus e norte-americanos;

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• Está estabelecida uma grande interdependÍncia entre os EUA e a
China, tornando-se esta um grande fornecedor de mercadorias aos
EUA, principal comprador da produção chinesa e,
simultaneamente, um investidor de grande relevância nos títulos
que o Tesouro americano emite para financiar o deficit, agora
acrescido com o apoio estatal aos bancos em bancarrota. Paira
sobre esta situação a vulnerabilidade da cotação do dólar e da sua
utilização como moeda de reserva, tendo a China avançado
recentemente, com a ideia da sua substituição por DSE (direitos
de saque especiais) inventados nos anos 70 como apoio à
impossível convertibilidade do dólar em ouro. Também
recentemente Stiglitz defendeu a criação de uma nova moeda de
reserva global, como peça central para um novo sistema financeiro
internacional;

• Verifica-se uma tendÍncia para um maior equilíbrio entre as


nações, devido, nomeadamente, ao crescente peso dos
designados BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) e às dificuldades
dos EUA em impedirem a passagem de um mundo centrado em si,
para outra estrutura de poder, multipolar. A passagem do G8 para
um G14 corresponde à assunção da fraqueza dos paises ricos em
manter o sistema mundial de pagamentos, o papel do dólar e o
sistema desigual de trocas sem a cooptação e ajuda de vários
outras burguesias nacionais, com a particular relevância do
governo chinÍs, curiosamente, dominado por um partido dito
comunista.

Note-se que estas mudanças em curso, podem constituir uma


vantagem táctica para a Humanidade mas, estratégicamente, não
colocam em causa o capitalismo e todo o cortejo de maleitas que
lhe são inerentes; apenas dificulta a utilização da força militar nas
áreas em disputa, nas quais a superioridade militar deixou de
constituir uma vantagem quase absoluta, mesmo em conflitos com
pequenos ou médios países.

Pela sua dimensão, os BRIC tenderão a afirmar o seu peso


económico e populacional, nas suas respectivas áreas de influÍncia,
perante a maioria dos outros países, mais pequenos, como forma
de engrandecer as suas burguesias, a despeito das disputas com
os poderes dos países ocidentais e com os seus próprios
trabalhadores. Os seus objectivos nacionais, nesse campo são
idÍnticos aos de todas as burguesias, com a diferença que as suas
dimensões lhes permitem alargar mais as suas influÍncias, manter
moeda e sistemas financeiros próprios, bem como políticas
económicas relativamente autónomas, sem contudo se
desconectarem da economia global, nem deixarem de se
procurarem constituir, os BRIC, em participantes na exploração das
riquezas dos países mais pequenos. Como exemplo, veja-se a

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hegemonia da Rússia no Cáucaso e na Ásia Central e as disputas
com a UE, na Ucrânia ou, com os EUA na Geórgia e nas repúblicas
ricas em recursos energéticos; ou a influÍncia da China no Sudão ou
em Angola, neste último caso gerando alguma preocupação dos
EUA; a procura de liderança brasileira na integração económica
latino-americana; e, não sendo tão marcadas as tentativas de
influÍncia da Índia, dado o antagonismo com o Paquistão e o
isolamento de Myanmar, elas não deixaram de se observar no
conflito cingalÍs;

• Observam-se grandes migrações internacionais, com um


alargamento crescente das distâncias entre as origens e os
destinos dos migrantes que se deslocam para os EUA, para a
Europa e para os países petrolíferos do Golfo. São utilizadas pelo
capitalismo com forma de pressionar, para baixo os salários, as
condições laborais e a precarização das vidas com o arrastamento
de situações de “ilegalidade” que, tanto permite uma conveniente
tolerância com a sua presença, como a sua liminar expulsão ou
reclusão. A presença de trabalhadores migrantes serve ainda para
criar manifestações xenófobas lideradas pela direita política,
formas de encontrar bodes expiatórios para segmentos relevantes
das populações acossadas pelas dificuldades económicas e pela
insegurança;

• Tanto são favorecidas as dinâmicas desagregadoras de estados


(URSS, Jugoslávia, Geórgia) como são preparadas novas
agregações (na UE e América Latina), mesmo quando essas
alterações políticas se processam com toda a tolerância
relativamente a ditaduras mais ou menos explícitas e regimes
absolutamente corruptos, num contexto de acrescidas dificuldades
à vida das populações, exacerbação de diferenças étnicas e
religiosas, criação de zonas francas para tráfegos mafiosos
(Kosovo, Afeganistão, Guiné-Bissau).

O programa neoliberal generalizadamente adoptado na Europa, na


América do Norte (e forçadamente na do Sul), ou em África, num
quadro nacional, foi muito menos seguido nos chamados “tigres
asiáticos” e na China que continuaram com crescimentos elevados,
baseados no proteccionismo exterior e na intervenção fortíssima do
Estado como entidade financiadora, investidora e reguladora dos
custos salariais, através de regimes políticos muito musculados.

Essa aplicação da agenda neoliberal, contudo, não inverteu a tendÍncia


global, decrescente das taxas de crescimento. De 3.5% na década de
sessenta e 2.4% na de setenta do século passado, essas taxas
encolheram e cifraram-se em 1.4% na década de oitenta e de 1.1% na
de noventa, apesar da descabelada aplicação das receitas neoliberais,
do alargamento da sua base territorial de aplicação, com o

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desmantelamento da URSS e o fim da concorrÍncia política e ideológica
do capitalismo de Estado, onde a exacerbação de modelo keynesiano
era protagonizada por uma burguesia burocrática e corrupta, enfeitada
com penas de esquerda.

Para o agravamento da estagnação económica e insuficiÍncia da


acumulação, contribuiram, decididamente as medidas neoliberais de
restrição dos rendimentos monetários ou dos serviços prestados pelos
Estados à população, com impactos óbvios na procura de bens e
serviços; ou a não condução para o investimento dos rendimentos dos
ricos, para além do seu bem estar pessoal e produção de bens de luxo,
manifestamente insuficientes como motores do crescimento mundial.
Por muito que isso custe à Balela Ferreira Leite quando estupidamente
defende e se oferece para proteger o parasitismo dos ricos. E as coisas,
globalmente, não foram piores porque na Ásia o modelo não foi aplicado
cabalmente, observando-se a integração de milhões de trabalhadores
que apesar de sobre-explorados, vÍm melhorando o seu nível de vida,
antes miserável.

A especulação, facilitada pela mobilidade do capital gerou diversas


crises monetárias e financeiras em diversos locais (Portugal (1983/85 e
1993/95), México 1994/95, Tailândia em 1997, Rússia em 1998 e
Argentina já neste século (2001) - sempre com a prestimosa
assistÍncia do FMI, alicerçada num roteiro onde constam:
desvalorização da moeda, redução do deficit, contenção salarial,
privatizações, liberalização dos mercados - e ainda os casos da bolsa de
New York em 1987 e da libra em 1992.

A crise actual revela, claramente que a globalização não evitou a


manutenção das baixas taxas de crescimento, nem resolveu os
problemas da acumulação capitalista; revela, que este eixo estratégico
de actuação do capitalismo não constituiu uma sua etapa superior e,
mesmo que o tivesse sido, não durou muito.

3 – Financiarização

O capital não poderia conceber cingir-se à rendabilidade normal dos


negócios, nem sequer à rendabilidade dos negócios chorudos. E como
a economia real acompanha de perto o crescimento das necessidades
humanas (embora contidas pelo próprio sistema) inventaram a
financiarização, a extração de lucros rápidos, a sucessão infinita de
ganhos, a partir de quase nada, sem recurso a trabalhadores,
instalações ou cobradores de impostos.

• O capital financeiro deixou de ser o produto da fusão da indústria


com a banca dentro do mesmo conglomerado, como definido por

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Hilferding e Lenin ou, trave mestra do infraestrutura económica do
chamado capitalismo renano, também vigente no Japão, pré-
neoliberal. O capital financeiro ganhou uma total autonomia de
actuação, cria a sua própria base de criação de capital, desligada
da economia real tornando-se esta um mero instrumento de
aplicação e rendabilização de liquidez, com a ausÍncia de qualquer
preocupação de longo prazo. Dito de outro modo, o capital
financeiro é como o monstro Golem da mitologia judaica, que
acaba por devorar quem o criou e esperava poder controlá-lo
eternamente;

• Apesar das loas sobre a igualdade de oportunidades, do fomento


do empreendorismo e da empresarialização, sabe-se que o
oligopólio, o domínio não concorrencial dos mercados, é a regra. No
domínio da concorrÍncia perfeita, para além dos livros de teoria
económica, só se encontram pequenos negócios, em que os seus
detentores são mais trabalhadores que empresários capitalistas,
como os cafés de bairro, os cabeleireiros e actividades
semelhantes. Quanto maiores as rendabilidades esperadas,
maiores são as exigÍncias legais, os empenhos políticos e o pendor
para a cartelização. António de Sousa, novo dirigente da AP de
Bancos referiu, recentemente, como teve de aceitar a constituição
do BPP, com um tal João Rendeiro à cabeça, apesar das conhecidas
dúvidas quanto à sua idoneidade; e, o BPN teria sido criado pelo
Zeca Diabo, se nele não estivesse envolvida a escória do
cavaquismo, no poder?

A financiarização, envolvendo uma panóplia de formas de acesso a


moldes de elevada rendabilização de capital, não está acessível a
qualquer empresa mas, apenas ao sector financeiro, aos fundos
soberanos e aos grandes oligopólios mundiais – há quem lhe
chame a quarta renda diferencial, a somar à renda da terra, do
capital e ao rendimento do trabalho, definidos por Marx. Calcula-se
em apenas 5000 o número de entidades que, a nível global, tÍm
acesso a este truque. O mercado dos produtos financeiros, não é
um mercado livre como é ensinado nas “madrassas” universitárias
e regurgitado pelos jornais económicos;

• Uma vez que a economia real não podia oferecer taxas de lucro
elevadas pois a procura, limitada pela contenção do poder de
compra da multidão e apesar da globalização, circulavam por aí
enormes quantidades de dinheiro com uma necessidade vital de
valorização, que só poderia concretizar-se no âmbito do sector
financeiro; a financiarização tornou-se assom, a principal forma de
elevar a rendabilidade das aplicações do capital. A nível mundial,
os activos financeiros representavam 201% do PIB em 1990 e
350% em 2007 (1000% nos EUA), evidenciando, através do tempo,

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um crescendo de desconexão entre a economia real e o mundo
financeiro;

• A financiarização pode gerar lucros mas, não cria valor pois, não
envolve trabalho ou a produção de bens ou serviços. Por isso, os
valores financeiros são voláteis, com variações brutais e até
aleatórias, quando escapam às previsões das chamadas “grandes
casas de investimento” e a despeito da inconsistÍncia das
classificações das empresas de “rating”. Essa volatilidade obriga à
venda de um produto financeiro logo a seguir à compra, numa
tentativa de minimizar a probabilidade de o ter nas mãos quando
houver quebra do seu valor, a chamada “correcção”, de
aproximação aos valores contabilísticos, emagrecidos da gordura
especulativa; ou obriga à sua manutenção, em conjuntura altista,
durante a fase da formação da bolha especulativa. A questão, nada
fácil de adivinhar, é o momento para vender antes em que a bolha
rebente ou esperar que a “correcção” aconteça para proceder à
compra, na perspectiva de uma alta futura. Este ciclo entre a bolha
e a “correcção”, ou vice-versa, repete-se frequentemente,
afectando os níveis das taxas de juro, os valores das
“commodities” portanto, a economia real, em regra já muito
endividada e originando crises – mais de 100 desde a
desregulamentação e liberalização dos mercados de capitais nos
anos 80;

• Os bancos, com baixa rendabilidade na sua actividade típica –


recolher depósitos e proceder a empréstimos, diversificaram muito
o seu leque de actividades. Para o efeito, dispõem-se a criar
formas arriscadas de aplicação de capitais, propiciadoras de
melhores remunerações para eles, bancos e para os seus clientes,
esperando todos que tudo corra bem e que os índices de
valorização dos títulos subam, subam, acima das núvens. A
concorrÍncia pela captação de capitais obriga os bancos a ignorar
as origens mafiosas de muito do dinheiro que anda por aí (a
economia do crime corresponde a 10% do PIB mundial),
facilitando-se assim, a integração desses capitais mafiosos na
economia real (investimentos imobiliários e na hotelaria,
basicamente) intensificando-se, por conseguinte, a aliança entre o
sistema financeiro e o crime organizado ou a corrupção dos
mandarins;

• Essa desregulamentação, ligada à volatilidade do valor dos


“produtos” financeiros e à sua opacidade, resultante da cadeia de
titularizações em que estão inseridos, explica o fracasso dos
reguladores em geral e dos bancos centrais, na actual crise que,
de facto, não passam de mantos diáfanos que ondulam, ligeiros,
sobre o sistema financeiro mas, bem mais compenetrados na
aldrabice estatística para favorecerem o mandarinato. E por isso,

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ninguém deve estranhar os aproveitamentos criminosos do
sistema, durante décadas, como no caso Maddof, pela sua
dimensão; ou, os episódios BPN, BPP e BCP, só invulgares pelo
cenário de impunidade existente em Portugal, típico de um
capitalismo subalterno, neocolonial;

• Na incerteza em que se vive, os bancos cuidam, criteriosamente,


da sua liquidez; procedem a fusões; procuram crédito o mais
barato possível, utilizando para isso os avales dos Estados ou o
financiamento directo propiciado pelos bancos centrais; ou
aumentam ligeiramente os capitais próprios por obrigação legal.
Ninguém, contudo, sabe como retirar dos activos do sistema
financeiro os tais tóxicos que sobrevalorizam os haveres
contabilizados e constituem prejuízos ocultos, dando assim um
exemplo preverso de balanços falsificados que não são permitidos
noutros sectores de actividade. Stiglitz para reforçar a
transparÍncia do mercado financeiro propõe, nada menos que o
desmantelamento dos grandes bancos, o que em nossa opinião,
para além de ser uma tirada lírica, não garantiria a propensão de
todos os bancos e operadores financeiros para os ganhos fáceis na
especulação. Os desejos de todos, são os de aumentar a liquidez
disponível para empréstimos que vitalizem a economia real
utilizando baixas taxas de juro para combater a recessão e
procurar incentivar o investimento. A questão é saber se há
confiança suficiente para investir, aproveitando tais taxas,
esperando uma breve retoma capaz de fazer as empresas
aguentar a inevitável subida das taxas de juro;

• Passar os olhos pela imprensa económica tradicional e observar as


informações prestadas sobre as cotações das bolsas faz pensar
que se trata de periódicos marcianos. Todas aquelas variações
que, naturalmente, produzem resultados vantajosos para os
“investidores” e prenunciam a retoma, constituem um mundo que
em nada se coaduna com as dificuldades das empresas em vender
os seus produtos, em obter financiamentos, em pagar os seus
compromissos ou com as dificuldades permanentes de quem
trabalha, sem esquecer os muitos milhões que nem trabalho tÍm.

4 – A fascização das sociedades

(Abordámos especificamente este tema no nosso blog em trÍs artigos


com o nome de “O novo fascismo que está em marcha”)
http://esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt/12692.html
http://www.scribd.com/doc/5571733/O-novo-fascismo-que-esta-em-
marcha

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Já acima referimos que o modelo de concertação social criado em
meados do século passado, quando as taxas de crescimento eram
elevadas e havia a ameaça ideológica do capitalismo de Estado,
acabou há muito tempo, com a implantação do neoliberalismo
desregulador, descabelado e fascizante. E as dificuldades de
desenvolvimento da economia real, de satisfazer a população do
planeta, crescente em número e exigÍncias materiais e democráticas,
também deixam a nu os limites da democracia de mercado como
modelo político exemplar. E, para se defender, o capitalismo vem
procedendo, passo a passo à implantação de medidas de controlo,
vigilância e divisão da multidão, incentivando o isolamento, o
subjectivismo individualista, a entrega ao voyeurismo mediático, como
peças determinantes para o conformismo. E grave, é a insuficiente
crítica da esquerda ao modelo político, económico e social do
capitalismo de Estado, que permite confusões entre a multidão e o
aproveitamento pela propaganda da direita que procura identificar todo
o pensamento de esquerda com os modelos do chamado “socialismo
real”; promover essa separação de águas é um dos nossos objectivos.

• É feita uma segmentação clara entre a população, cujas camadas


mais ricas são objecto de apoios financeiros, facilidades fiscais,
protecção legislativa, dignificação das suas funções, enquanto a
esmagadora maioria é confrontada por um lado, com os rigores da
lei, do risco inerente à precariedade, no trabalho e nas condições
de vida, à escravatura do crédito que cativa os rendimentos e os
pertences durante toda a existÍncia e, por outro lado, com a
tendÍncia para um retorno à lógica assistencialista e caritativa que
diminui, fragiliza e acentua a precariedade da vida dos que caem
na pobreza.

Esses dois segmentos populacionais, muitas vezes nem sequer se


encontram fisicamente. Os ricos, vivem em condomínios fechados,
zonas residenciais escolhidas, saem directos para as suas funções,
sem contacto com transportes públicos, relacionam-se com os
seus pares, nos negócios e na vida privada; do mundo da maioria,
conhecem o jardineiro, os domésticos, o motorista e pouco mais;

• No caso portuguÍs, os funcionários públicos foram submetidos a


uma segmentação fulcral sob este ponto de vista, promovida pelo
gang socratóide. Garantem-se maiores regalias, nomeadamente o
vínculo definitivo aos agentes da estrutura repressiva – militares,
polícias e juizes – tornando-se todos os outros (grande maioria e
onde avultam os docentes e os quadros da saúde) objectos
passíveis de despedimento, menores regalias e forte controlo
biopolítico.

Por outro lado, à velha tendÍncia totalitária de colocar nos cargos


de chefia da administração pública gente afecta ao gang do poder

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(ou, pelo menos, permeáveis aos seus humores) vieram agora
juntar-se os sistemas de avaliação, o SIADAP e o dos professores,
para dividir, fragilizar e colocar os trabalhadores ao arbítrio do
regime fascizante em construção, naquilo que se designa por
controlo biopolítico;

• No mesmo sentido, cautelarmente, Sócrates lançou recentemente


a ideia de criar uma rede de bufos, com nomes falsos, na
administração pública, para combater o crime financeiro e a
criminalidade organizada. Estamos mesmo em crer que os visados
devem ser os ministros, para assim se evitarem novos casos
Freeport... E quanto ao crime financeiro perguntamos se também
vão infiltrar as adminitrações dos bancos para evitar casos como o
BPN…

Como é óbvio, pretende-se intimidar a arraia miúda, gerar a


desconfiança e a delação, eventualmente com uns trocos extra ao
fim do mÍs (isentos de IRS) e apresentar na abertura dos
telejornais uma mão cheia de pequenos corruptos apanhados ou
um punhado de polícias subornados para não passarem multas. É
isso que irá resultar da presença dos bufos, para além de um ou
outro caso proveniente das lutas intestinas no seio do PSPSD;

• O empresário-modelo Belmiro cujos negócios não andam prósperos


(casos da indústria, Tróia, centros comerciais e telecomunicações),
ao depender particularmente da distribuição, bem merece o
epíteto de grão-merceeiro. Pois bem, tempos atrás apresentou uma
solução para a crise: como a capacidade produtiva não utilizada
será da ordem dos 25%, há que adequar o volume de emprego e
portanto fazer chegar o desemprego também a 25%! A linear
lógica cartesiana do engenheiro encontrará aplauso nas centúrias
neoliberais, nomeadamente num tenebroso António Borges, vice
da bolorenta Balela e seu eventual ministro das finanças;

• A constante exacerbação da insegurança e a exortação ao sacrifício


de todos tÍm como pano de fundo diversos objectivos. Um, é o de
assustar a multidão, face à criminalidade, aos imigrantes, ao
indefinido “outro” e fomentar o seu acolhimento, temeroso e
submisso ao protector governo, ao imenso conhecimento do
mandarinato. O outro, é o de suscitar o sacrifício de todos, pobres
ou ricos, trabalhadores ou capitalistas, num espírito de unidade e
coesão, enganador e capcioso, na exploração dum patriotismo,
cuja base material se tem diluido com a globalização da produção,
a abertura de fronteiras e a integração económica dos países;

• O controlo da internet é algo que os poderes há muito


ambicionam. Por um lado, as multinacionais vÍem os seus lucros

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reduzidos por efeito da partilha de música, filmes e livros entre a
multidão, um tráfego que lhes escapa completamente, dada a
criatividade da comunidade dos cibernautas. Por outro, a frequente
entrada de “hackers” nos ficheiros de grandes instituições, tão
simpáticas como os bancos ou o Pentágono, é um perigo constante
para os poderosos, cuja segurança não está jamais garantida,
apesar dos custos enormes com a segurança informática.
Finalmente, os Estados e os poderes não gostam que a internet
seja uma democracia entre os seus utilizadores, pela facilidade de
comunicação, escrita ou oral, pela enorme e quase instantânea
troca de conteúdos que pode abranger rapidamente o mundo
inteiro, apesar de muitas manchas de pessoas sem acesso à
internet, nomeadamente nos países mais pobres ou dos controlos
estatais já existentes, por exemplo na China e no Irão. Recorde-se,
como a troca de opiniões mobilizou os espanhóis, quase à boca
das urnas, para rejeitarem o fascista Aznar que foi penalizado por
manipulação grosseira das explosões na Atocha, em 2004; sem
que o governo espanhol o suspeitasse ou pudesse intervir, se o
tivesse sabido;

• Em Maio de 2009, o Parlamento Europeu teve a meritória e rara


coragem de rejeitar um projecto da Comissão Europeia. Pretendia
esta, que o acesso à internet não fosse irrestrito, como agora mas,
condicionado por pacotes de acessos fornecidos pelos operadores
de telecomunicações e que cada pessoa escolheria em função da
oferta existente e do preço a pagar, como acontece com a
televisão por cabo. A mesma Comissão que tanto pugna pela
liberdade de circulação de bens e capitais pretendia restringir a da
informação; numa palavra, os operadores, licenciados que são
pelos Estados exerceriam o altruista papel de nos defender do
terrorismo, da pedofilia e, porventura, também da chuva, da azia…
As distribuidoras de música e filmes que “naturalmente” não foram
consultadas neste processo, por acaso sairiam altamente
beneficiadas… E os governos veriam assim diminuida a circulação
da informação crítica ou daquela que os media convencionais
ocultam, das denúncias das injustiças, da corrupção e das
violÍncias, de debate democrático, de contestação, de organização
das resistÍncias.

Como não temos muitas ilusões sobre as apetÍncias do Parlamento


Europeu para a defesa dos direitos e bem estar dos europeus,
suspeitamos que para tão inusitada e positiva decisão pesaram,
mais do que a mobilização dos cibernautas, o facto de as eleições
europeias se realizarem um mÍs depois (Junho) e os interesses de
muitos negócios para os quais interessa a internet nos moldes
actuais, aberta e irrestrita. E por isso esperamos pelos próximos
episódios, saltando-nos à memória as palavras censura e “1984”;

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• Há uns dez anos foi denunciado um sistema de vigilância e
espionagem de comunicações (o Echelon) que vigorava desde
1948, com os EUA capitaneando alguns países anglófonos e que,
para além de estarem atentos ao que era transmitido para lá da
“Cortina de Ferro”, cuja utilidade se desconhece, tinha uma missão
mais rentável que era a da espionagem industrial sobre países
europeus.

O 11 de Setembro veio justificar todas as medidas de controlo da


informação, com uma exaustão demencial, como a de conhecer os
livros consultados pelos frequentadores das bibliotecas
americanas. Porém, em Londres, apesar de pejada de câmaras de
video-vigilância, os atentados no metro aconteceram. Esquecem-
se que a informação, massificada em volumes inauditos perde
utilidade prática e que, passadas poucas horas de observação,
qualquer vigilante se aborrece, se distrai e de facto, passa à
categoria de peneira tentando filtrar o sol.

Na província portuguesa, o nacional socialista Sócrates, que gosta


de andar na moda, decidiu obrigar as operadoras de
telecomunicações a arquivar durante um ano, os emails e as
chamadas telefónicas, identificando emissor, destinatário,
momento da transmissão e duração da comunicação que ficarão
disponíveis para os juizes utilizarem e para as bófias espiolharem.
Por enquanto, sublinhamos, por enquanto, não irão guardar os
conteúdos mas, num PIDACC próximo, poderá ser contemplada a
compra de mais suportes para que isso seja possível. Porque será,
que de novo nos lembramos de Orwell?

• Os sistemas políticos de democracia de mercado procuram


arduamente fechar-se sobre si próprios, insinuando a sua
representatividade relativamente às populações. Na realidade, os
ditos representantes (muitos nem sequer se submetem a qualquer
votação) apenas representam os interesses do capital financeiro,
das multinacionais e da economia mafiosa. E muitos, pelas suas
qualidades democráticas, políticas ou técnicas, suscitam mais
troça do que respeito.

É curioso observar como os jornais revelam todos os dias opiniões


e entrevistas com oligarcas e patrões a favor das maiorias
absolutas como única forma de assegurar a governabilidade, quer
apostando na maioria clara de um dos partidos do sistema, quer
favorecendo a coligação entre ambas as facções que definem o
bipartidarismo; e isso, num quadro empobrecedor de
encerramento do quadro das escolhas, aos partidos do sistema
que, qualquer análise distraída evidencia não apresentarem nada
de alternativo às dificuldades existentes, nem sequer dirigentes ou

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quadros com outro préstimo, que não a solícita atenção aos
interesses dos capitalistas em geral.

Sabendo-se como a acção dos governos suplanta, de longe, a


actividade legislativa dos parlamentos, para mais, em regra
governamentalizados, em clara inversão do que estipulam os
textos constitucionais e a teoria política, tiram-se duas conclusões.
Uma, que a fulcral importância dos governos como gestores do
orçamento e emissores de leis e regulamentos passa em grande
parte à margem de qualquer controlo democrático; e, por outro
lado, a manutenção da formalidade litúrgica dos parlamentos é
uma forma de mostrar à plebe uma caricatura da sua
representação.

Dentro dessa linha, também nas instàncias da UE se mostra bem o


enorme poder dos conselhos de ministros europeus e dos
comissários, que ninguém elegeu, relativamente a um quase
castrado Parlamento Europeu. E é este o modelo que os governos
da UE e dos EUA gostam de apresentar e impor aos outros povos,
como exemplo de democracia.

Essa caricatura assumiu, recentemente, a propósito da constituição


europeia/tratado de Lisboa, formas claras de imposição autoritária,
fascizante, por parte do poder político, dito democrático. Assim, os
franceses, que haviam rejeitado a panaceia em referendo, foram
considerados incompetentes e substituidos na decisão por uma
votação entre amigos e compadres, a tralha do Sarko(na)zy e os
nacionais socialistas lá do sítio. Na Irlanda, o povo votou contra os
interesses dos poderes económicos e estes, logo se aprestaram a
encomendar aos mandarins a criação de um cabaz de promessas
para convencer os irlandeses a votar convenientemente;
promessas, aliás que poderão, facilmente, ser torneadas ou
esquecidas logo a seguir.

Em Portugal o biltre Sócrates prometeu um referendo sobre o


tratado mas, na senda de Salazar, entendeu que os portugueses
não estavam preparados para compreender as elevadas razões da
escolha. E a “challenger” Ferreira Leite, nem isso pensa; porque
isso envolve custos públicos ou, porque nem sequer pensa.

Em todas estas situações, a multidão foi ignorada, afastada,


desconsiderada, infantilizada, como é apanágio dos regimes
ditatoriais. Hitler, lá das cinzas que dele sobraram, deve exultar
com tantos seguidores.

• O aparelho da justiça é pesado, desconexo e controlado pelo poder


político nas mais altas instâncias, contribuindo para que a
aplicação da teoria dos trÍs poderes não passe de uma farsa. É

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lesto em penalizar os pobres e muito bem montado para desonerar
os ricos e poderosos, os criminosos de colarinho branco ou simples
pedófilos, se pertencentes à mesma cáfila. As suas insuficiÍncias e
os costumeiros arrastamentos e prescrições servem
essencialmente, como temas mediáticos para contentar o
voyeurismo social em torno dos criminosos e de investigadores,
magistrados, procuradores, cuja actividade redunda,
precisamente, trabalhar para criar prescrições, ausÍncias de
provas, a aplicação de leis feitas para ter um efeito desonerador
ou, penas suspensas;

• As forças militares, sobretudo com o fim do serviço militar


obrigatório acentuaram a sua postura corporativa, quer pelas
reivindicações públicas da baixa oficialidade que pretende elevar a
sua relevância como milícia do regime cleptocrático quer, pelo
respeito que o mandarinato lhes atribui. O seu poder efectivo de
guarda pretoriana é relativamente pacífico e dissimulado mas,
transparece, por exemplo, quando Obama teve de aceitar, imposto
pelo Pentágono, como secretário da defesa um tal Robert Gates,
transitado do governo de Bush.

A sua ligação a funções policiais, a interpenetração entre quadros


das forças armadas e das polícias, a sua proximidade no que
respeita à vigilância da multidão foram reforçadas no âmbito da
histeria anti-terrorista aumentando, no seu seio as tradições anti-
sociais, elitistas, fascizantes, xenófobas e de malformação cívica.
Esse amor à autoridade, à “disciplina”, à obediÍncia cega e sem
contestação, à ordem, emanaram recentemente do discurso de um
general reformado que, perante uma conveniente plateia de gente
do CDS, defendeu a possível prisão de crianças com 12 anos.

Outra das formas de integração das forças armadas com a


“sociedade civil” é a assunção por esta última de funções no
âmbito da segurança em geral e da actividade militar em
particular.

O caso mais emblemático e que servirá de exemplo para outros


países é o da utilização de pessoal pertencente a empresas
privadas, mesmo em cenário de guerra. Em Junho último e de
acordo com notícia de “Democracy Now” baseada em dados
oficiais, os EUA tinham no Afeganistão e no Iraque,
respectivamente, 58000 e 132000 soldados e 74000 e 120000
contratados. Por seu turno, a revista “Nation” revelava que o
polvo Blackwater (ligada a um fascista chamado Dick Cheney, ex-
vice do consagrado G W Bush) foi contratado por Obama para
fornecer serviços de segurança, naqueles dois países ocupados, no
valor de 174 M de dólares e de várias dezenas de milhões para
“serviços de aviação” (bombardeamento de casamentos e outros

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ajuntamentos de pessoas, tomados invariavelmente como
talibans). Acrescenta-se que a Blackwater (designação apropriada)
pertence a um tal Erik Prince que se considera um cruzado “cuja
missão é eliminar muçulmanos e a fé islâmica da face do planeta”.
Almas piedosas!

Prosseguindo na exploração da lógica da privatização defendida


pelos neoliberais, melhor seria extinguir as forças armadas e
deixar que as multinacionais e os bancos contratem actividades
guerreiras e de segurança musculada a empresas privadas
especializadas; só não o fazem porque a utilização do dinheiro dos
impostos para pagar essas actividades lhes sai mais barato;

• Na ausÍncia de ideias mobilizadoras, o capitalismo vem utilizando


uma técnica muito antiga, na base de todos os autoritarismos,
todos eles antónimos de democracia – o culto do chefe. O
autoritarismo é mau quando polarizado em figuras mediocres,
voláteis, qual marca de sabonete e, quando assente em figuras de
alto quilate político, não deixa de ser mau; é pois, um mal absoluto.

O chefe pretende ser apresentado como um símbolo de visão


estratégica, de conhecimento da realidade, de capacidade
transformadora, de modernidade, de competÍncia, de elo
unificador de classes, multidões e povos. Perón mobilizava os
pobres descamisados; de Gaulle pelo seu nacionalismo de militar;
Salazar pela capacidade de castração e de gerar obediÍncia, que
tudo previa e acautelava, menos o estado da última cadeira em
que se sentou; Hitler pelos ataques histéricos contra tudo o que
não fosse ariano; e Stalin que, regando a sua passagem pelo
mundo com sangue e terror, tropeçou na morte quando já o faziam
pai imortal dos povos.

Hoje, os lideres são fugazes, produtos de moda, construidos por


fazedores de imagem que definem poses, vestes, palavras e
trejeitos. São produtos cosméticos treinados para enganar, como
os cães-polícias para morder; não tÍm outro préstimo. E a
instabilidade natural da crise sistémica que é o capitalismo, mais
aquela que é gerada pelo frenesi precarizante introduzido nas
nossas vidas, obriga a uma rotação de produtos (chefes) com uma
velocidade enorme. Assim, surgem, na cena portuguesa do regime
cleptocrático, produtos frágeis, voláteis, chumbados em qualquer
teste de qualidade, não fora a ajuda prestimosa dos media, que os
promovem ou mandam para a galeria dos monos; Cavaco, Ferro,
Sócrates, Durão para além das pilecas Santana, Menezes, M
Mendes ou Ferreira Leite.

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