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A prática futebolística como meio de mobilidade social no estado de Minas Gerais (1986-2002)

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A prática futebolística como meio de mobilidade social no estado de Minas Gerais (1986-2002)

Gleidson Benedito da Silva Graduado em História pelo Centro Universitário de Belo Horizonte UNI-BH. gleidsonbenedito@gmail.com

RESUMO: O presente artigo tem o intuito de analisar o futebol no estado de Minas Gerais, nos anos de 1986, 1995 e 2002, suas particularidades e a presente realidade do esporte mais popular do mundo. O contexto histórico no qual estão inseridos os jogadores profissionais de futebol, perante o recorte espaço-temporal estabelecido, e as presentes dificuldades de conseguirem a sonhada mobilidade social, as pessoas de origem humilde, entre os quais estão inseridos jogadores brancos, negros e mestiços. O imaginário social sobre o futebol ser um meio de ascensão social seguro e eficaz para pessoas de origem humilde faz do presente artigo um meio de discussão e análise sobre o esporte no Brasil, com principal enfoque no estado de Minas Gerais.

PALAVRAS-CHAVE: Futebol, Mobilidade Social, Imaginário Social.

ABSTRACT: The article has to analyze the particularity and present reality of the football which is the most popular sport of the world. This recent research is since the year of 1986 to 2002 at the Minas Gerais state. The historic context which are implanted the professionals players of football in the presence of the press cutting time-space implanted and the presents difficult of to obtain the social modality cheamed the people of humild orige that between them are white players, negros and mestizos. The fear of the football to be a way of using of secunity social and eficaz for the people of humild orige do the present article a way of discursion and analize about the sport in Brazil with principal objective to study at Minas Gerais state.

KEYWORDS: Football, Social Mobility and Social Imaginary.

Introdução

A popularidade que possui o futebol no Brasil é de grande significância, sendo o país o

único a possuir cinco títulos mundiais, 1958, 1962, 1970, 1994, 2002, mesmo que o futebol tenha

sua origem inglesa 1 ·, e que tal modalidade atlética tenha chegado ao Brasil somente no final do

século XIX, o país aos poucos foi incorporando o futebol como um esporte de grandes

proporções, ligadas a paixão, sonho, frustração e ao mesmo tempo mobilidade social.

O recorte espacial e cronológico do artigo é Minas Gerais, no período de 1986 a 2002.

Nosso recorte espaço-temporal deve-se à grande dimensão do território nacional, e ao fato de

cada região e estado possuir suas particularidades, dessa forma, tal como propõe François Dosse

(1992).

1 Ver CALDAS, Waldenyr. O pontapé inicial memória do futebol brasileiro. São Paulo: Ibasa, 1990.

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Gleidson Benedito da Silva

3 6 2 3 6 2 Gleidson Benedito da Silva Em lugar da continuidade da evolução

Em lugar da continuidade da evolução histórica, os historiadores atuais interessam-se pelas descontinuidades entre séries parciais de fragmentos de história. A universalidade do discurso histórico opõe a multiplicação de objetos em sua singularidade, objetos estes oriundos, da exclusão no qual o poder os mantinha; o louco, a criança, o corpo, o sexo vão a defronta contra o mundo da razão que os havia dissimulado. (DOSSE, 1992, p.187) 2

A pesquisa foi realizada com levantamento de dados no período de estágio na

Federação Mineira de Futebol (2007 a 2009), trabalhei com documentos como: contratos de

jogadores profissionais de futebol dos times mineiros, certidões de nascimento dos atletas, ficha

de inscrição para participarem dos torneios promovidos pela Federação Mineira de Futebol. Em

meio a este período de reestruturação do arquivo, apresento uma pequena parte da pesquisa

realizada.

Os atletas profissionais, foco da pesquisa proposta, que atuam nos times mineiros

vêm de diversas regiões do país e procuram-nos como vitrines 3 para divulgar suas habilidades

futebolísticas. Os clubes de preferência são os da primeira divisão, ou os da capital mineira, Belo

Horizonte, pois os atletas ficam mais expostos aos olhares de clubes internacionais, principal

objetivo do atleta atualmente, a fim de conseguirem transferências para o futebol europeu e

asiático 4 .

A percepção dos jogadores no futebol brasileiro, em meio a tal contexto, é a

possibilidade de se sobressaírem socialmente, indiferentemente se forem brancos, negros ou

mestiços, o intuito é conseguir enriquecer e ajudar suas famílias e se auto ajudarem. Contudo, a

mobilidade social via futebol está repleta de contradições, pois os sonhos dos atletas profissionais

de futebol em alcançá-la se deparam com uma trajetória onde os números mostram que a

atividade esportiva limita a oportunidade a um pequeno grupo, e exclui a maioria, tema que será

trabalhado no próximo tópico.

2 Ver DOSSE, François. A história em migalhas: dos annales à nova história. São Paulo: Editora da UNICAMP, 1992.

3 Termo usado no meio futebolístico no qual se refere ao momento em que o atleta procura um clube de futebol representativo no país para se tornar mais visado ao mercado externo, a fim de conseguir uma exportação para o futebol europeu ou asiático. Lembrando que o termo vitrine diz respeito a uma realidade que começa a se desenrolar

a

partir dos anos de 1980. Se o atleta estiver em um grande clube fica mais acessível conseguir uma transferência para

o

exterior.

4 Os atletas profissionais de futebol possuem o sonho de atuarem em clubes da região sul e sudeste, dessa forma poderiam ter a possibilidade de serem visados pelos grandes clubes, a fim de possuírem a tão sonhada mobilidade social que o esporte poderia lhes proporcionar.

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Mobilidade Social via futebol Existem autores que trabalham com o conceito de mobilidade social, que podem melhorar a percepção e atenção ao termo. Mário Rodrigues Filho (1994) em seu livro O negro no Futebol Brasileiro 5 possui sua primeira publicação em 1947, e a segunda publicação em 1964 unindo mais dois capítulos. A análise proposta pelo autor está limitada ao Rio de Janeiro, e em algumas situações a São Paulo. Na primeira edição, fez uma análise da trajetória do futebol em três etapas:

de 1900 a 1910, elitização. De 1910 a 1930, a exclusão dos negros. Dos anos de 1930 em diante, ascensão social dos negros, analisando a trajetória de Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Fausto, Petrolino, Oscarino, Gradim, Jarbas. Os dois capítulos apresentados em 1964 são:

Capítulo V “A provação do preto”, Capítulo VI “A vez do preto”. O Capítulo V descreveu a frustração da perda da copa do mundo de 1950, delimitando os grandes culpados: Barbosa, Bigode e Juvenal, os jogadores negros da seleção brasileira foram os grandes responsáveis pela derrota para o Uruguai. No Capítulo VI, a análise está limitada ao campeonato mundial de 1958, quando Pelé e Garrinha serão reconhecidos como heróis do país por conquistar o primeiro campeonato mundial. Pelé, reconhecendo-se como negro, passou a ser denominado como rei do futebol.

Carlos Alberto Máximo Pimenta (2006), 6 analisa o conceito de mobilidade social, e aponta Mário Rodrigues Filho no O Negro no Futebol Brasileiro como o maior autor a resgatar a história dos negros no futebol. Juntamente com a socióloga norte-americana Janet Lever, no livro A Loucura do Futebol (1983) 7 que demonstra a importância política, econômica e sociocultural na sociedade brasileira. Ambos se propuseram a estudar os jogadores bem sucedidos. Neste ponto, pretendemos analisar se há ascensão social ou não por meio da prática futebolística por meio de contratos de futebol na Federação Mineira de Futebol. Carlos Pimenta entende que a mobilidade social via futebol está se restringindo, embora seja veiculada a idéia de ser um meio possível de mobilidade social para os pobres. Existe a mobilidade social via futebol parcialmente na sociedade brasileira. Tal conceito, segundo o autor tem de ser rediscutido, pois a análise não coincide com a real situação do futebol brasileiro. José Jairo Vieira (2003) 8 examina o conceito de ascensão social via futebol, por meio de um trabalho realizado no Rio de Janeiro onde o autor analisa entrevistas e 327 questionários

5 Ver RODRIGUES FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Firmo, 1994.

6 Ver PIMENTA, Carlos Alberto Máximo. Sociologia da Juventude: futebol, paixão sonho, frustração, violência. Taubaté: Cabral, 2006.

7 Ver LEVER, Janet. A loucura do futebol. Rio de Janeiro: Record, 1983.

8 Ver VIEIRA, José Jairo. Considerações sobre preconceito e discriminação racial no futebol brasileiro. Teoria e pesquisa, 2003. p. 221-244.

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Gleidson Benedito da Silva

3 6 4 3 6 4 Gleidson Benedito da Silva feitos a jogadores que representam as

feitos a jogadores que representam as três divisões do futebol carioca. Analisa jogadores brancos, pardos e negros, e conclui que possuem características que os diferem. A análise feita nos Estados Unidos da América delimita-se em brancos e não brancos, diferentemente no Brasil, em que a delimitação de pardo e negro são separadas. Veja a tabela abaixo formulada pelo autor:

Tabela 04 - Tabela de Mobilidade Intergeracional segundo cor.

 

Negros

Pardos

Brancos

Total

Ascenderam

% 18=36,7%

19=23,8%

15=22,6%

52=26,5%

Imobilidade

% 05=10,2%

14=17,5%

12=17,5%

31=15,8%

Descenderam

% 26=53,1%

47=58,7%

40=59,9%

113=57,7%

Total

% 49=100,0%

80=100,0%

67=100,0%

196=100,0%

Fonte: VIEIRA, José Jairo. Considerações sobre preconceito e discriminação racial no futebol brasileiro. Teoria e pesquisa, pp. 234. 2003.

A tabela 04 - Mobilidade Intergeracional segundo a cor mostra que 26,5% ascenderam 15,8% tiveram imobilidade e 57,7% tiveram imobilidade descendente. A presente tabela vai de encontro com a teoria de mobilidade social via futebol, entendido como um meio eficaz de mobilidade social para pessoas pobres, em especial negras. Posicionando diante dos conceitos no que se refere à análise de Carlos Alberto Máximo Pimenta mobilidade social tem de ser repensada e rediscutida. Foi o que fez José Jairo Vieira, analisando o Rio de Janeiro, o autor mostrou que o futebol como meio de mobilidade social não é acessível a todos, pois seus dados mostram que o maior número de jogadores encontra-se no patamar de imobilidade. O objetivo do presente artigo é mostrar uma situação semelhante à apresentada por José Jairo Vieira para Minas Gerais. O estado do Rio de Janeiro é o segundo local em que são pagos os melhores salários aos seus atletas que possuem mobilidade social, São Paulo é o primeiro lugar em renda das Federações, em terceiro lugar está Minas Gerais, por isto o estado mineiro tem suas particularidades com relação aos salários dos atletas. As fontes utilizadas por José Jairo Vieira são questionários aplicados aos atletas, no presente artigo a análise será feita nos contratos de trabalho dos atletas profissionais de futebol, consultados na Federação Mineira de Futebol. O método mais adequado para a pesquisa foi o qualitativo, sendo relevante para a construção das tabelas abaixo. As fontes encontram-se no

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A prática futebolística como meio de mobilidade social no estado de Minas Gerais (1986-2002)

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Arquivo Geral de atletas profissionais da Federação Mineira de Futebol. No momento em que o atleta profissional de futebol realiza um contrato de trabalho, este é gerado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) com quatro cópias: a primeira via vai para a CBF, a segunda via vai para o clube contratante do atleta em atividade, a terceira via vai para a federação de futebol onde o time contratante se localiza, e a quarta via vai para o atleta. A Federação Mineira de Futebol (FMF) arquiva todos os registros dos atletas profissionais desde o seu surgimento. O documento mais antigo encontrado até o presente momento é de 1936. E os mais recentes foram gerados em 2009, em ordem alfabética e constando alguns documentos que a FMF entende como necessários para a regularização do atleta perante a Instituição. Foram analisados 2,5 metros, no total de 78,6 metros, que corresponde, cerca de 3,3% de documentos, com a finalidade de verificar a mobilidade social dos jogadores de futebol em Minas Gerais entre 115 contratos de trabalho, nos anos de 1986, 1995 e 2002.

Tabela 1 - Contrato dos atletas profissionais de futebol constando ano, cor e média salarial do ano de 1986

Ano de

Nº de atletas com registro no Arquivo Geral

Nº de

Cor dos

Salário

Média salarial

Contrato

contratos

atletas:

Mínimo

dos atletas.

estabelecidos

%

por ano

     

22,2%Branca

   

1986

45

54

13,3%Mestiça

Cz$

Cz$

24,4% Negra 40,1% SIC 9

804,00

2.168,57

Fonte: Arquivo Geral da Federação Mineira de Futebol (FMF).

Na tabela 1, referente ao ano de 1986, foram analisados 54 contratos de trabalho, com 45 atletas, percebemos que alguns atletas assinaram mais de um contrato por ano, sobressaindo o número de contratos em relação ao número de atletas profissionais. Os 40,1% relativos aos Sem Identificação de Cor foi delimitado porque na pasta do atleta profissional de futebol não possuía fotografia do mesmo, ou não possuía fotocópia da certidão de nascimento, em que em determinados momentos informava a cútis do atleta. As médias salariais foram feitas

9 SIC diz respeito a atletas Sem Identificação de Cor.

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Gleidson Benedito da Silva

3 6 6 3 6 6 Gleidson Benedito da Silva com referência aos 54 contratos de

com referência aos 54 contratos de trabalho, no qual a média salarial refere-se a Cz$ 2.168,57 correspondendo a 2,7 salários mínimos, no qual 1 salário mínimo equivale a Cz$ 804,00.

Tabela 2 - Mobilidade social via futebol constando média salarial dos atletas que obtiveram ascensão social no ano de 1986

Ano

Nº de atletas que obtiveram ascensão social. Acima de quatro salários

Porcentagem que representa os atletas que obtiveram ascensão social

Cor: %

Média salarial dos atletas que obtiveram ascensão social

     

100% Branca

CZ$

1986

3

6,6%

0% Mestiça

11.262,00

0% Negra

0% SIC

Fonte: Arquivo Geral da Federação Mineira de Futebol (FMF).

Na tabela 2, analisados os 54 contratos de trabalho, com 45 atletas, percebemos que 3 obtiveram mobilidade social, ganhando acima de quatro salários mínimos, correspondendo a 6,6%, a média salarial dos atletas que obtiveram mobilidade social é de CZ$ 11.262,00, que corresponde a 14 salários mínimos sendo pago pelos clubes: América Futebol Clube há dois jogadores e Cruzeiro Esporte Clube há um jogador. Naquele ano o salário mínimo era de CZ$

804,00.

As tabelas 1 e 2 são interligadas com os mesmos referenciais sobre os atletas e com informações apresentadas diferentemente. Os clubes de futebol que pagam os melhores salários aos atletas encontram-se na capital mineira: América Futebol Clube e Cruzeiro Esporte Clube.

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Tabela 3 - Contrato dos atletas profissionais de futebol constando ano, cor e média salarial do ano de 1995

Ano de

Nº de atletas com registro no Arquivo Geral

Nº de

Cor dos

Salário

Média

Contrato

contratos

atletas:

Mínimo

salarial dos

estabelecidos

%

atletas.

por ano

     

16% Branca

   

1995

25

36

8% Mestiça

R$

R$

12% Negra

100,00

225,41

64% SIC

Fonte: Arquivo Geral da Federação Mineira de Futebol (FMF).

Na tabela 3, referente ao ano de 1995, foram analisados 36 contratos de trabalho, possuindo 25 atletas, demonstrando que alguns atletas assinaram mais de um contrato por ano, sendo que os números de contratos sobressaem em relação ao número de atletas profissionais. Os 64% referentes aos Sem Identificação de Cor foi delimitado porque na pasta do atleta profissional de futebol por não possuía fotografia ou não possuía fotocópia da certidão de nascimento, na qual em determinados momentos informava a cútis do atleta. As médias salariais foram feitas com referência aos 36 contratos de trabalho, no qual a média salarial corresponde a R$ 225,41 referindo-se a 2,2 salários mínimos, no qual 1 salário mínimo equivale a R$ 100,00.

Tabela 4 - Mobilidade social via futebol constando média salarial dos atletas que obtiveram ascensão social no ano de 1995

Ano

Nº de atletas que obtiveram ascensão social. Acima de quatro salários

Porcentagem que representa os atletas que obtiveram ascensão social

Cor:

Média salarial

%

dos atletas que obtiveram ascensão social

     

0%Branca

R$

1995

4

16%

0% Mestiça

1.150,00

0% Negra

100% SIC

Fonte: Arquivo Geral da Federação Mineira de Futebol (FMF).

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Gleidson Benedito da Silva

3 6 8 3 6 8 Gleidson Benedito da Silva Na tabela 4, analisados os 36

Na tabela 4, analisados os 36 contratos de trabalho, com 25 atletas, percebemos que 4 obtiveram mobilidade social, ganhando acima de quatro salários mínimos, correspondendo a 16%, a média salarial dos atletas que obtiveram mobilidade social corresponde a R$ 1.150,00, sendo 11,5 salários mínimos pagos por Cruzeiro Esporte Clube há três atletas e Clube Atlético Mineiro há um atleta. Naquele ano o salário mínimo era de R$ 100,00. As tabelas 3 e 4, são interligadas com referenciais em comum sobre os atletas e com informações apresentadas diversamente.

Tabela 5 - Contrato dos atletas profissionais de futebol constando ano, cor e média salarial do ano de 2002

Ano de

Nº de atletas com registro no Arquivo Geral

Nº de

Cor dos atletas:

Salário

Média

Contrato

contratos

%

Mínimo

salarial dos

estabelecidos

atletas.

por ano

     

0% Branca

   

2002

21

25

4,8% Mestiça

R$

R$

9,5% Negra

200,00

290,4

85,7% SIC

Fonte: Arquivo Geral da Federação Mineira de Futebol (FMF).

Na tabela 5, referente ao ano de 2002, foram analisados 25 contratos de trabalho, com 21 atletas, mostrando que alguns atletas assinaram mais de um contrato por ano, sobressaindo os números de contratos em relação ao número de atletas profissionais. Os 85,7% relativos aos Sem Identificação de Cor foi delimitado porque na pasta do atleta profissional de futebol não possuía fotografia, ou não possuía fotocópia da certidão de nascimento em que em determinados momentos informava a cútis do atleta. As médias salariais foram feitas com referência aos 25 contratos de trabalho, em que a média salarial equivale a R$ 290,4 correspondendo a 1,4 salários mínimos, em que 1 salário mínimo refere-se a R$ 200,00.

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Tabela 6 - Mobilidade social via futebol constando média salarial dos atletas que obtiveram ascensão social no ano de 2002

Ano

Nº de atletas que obtiveram ascensão social. Acima de quatro salários

Porcentagem que representa os atletas que obtiveram ascensão social

Cor:

Média salarial dos atletas que

%

obtiveram ascensão social

     

0%Branca

 

2002

1

4,8%

0% Mestiça

1.500,00

0% Negra

100% SIC

Fonte: Arquivo Geral da Federação Mineira de Futebol (FMF).

Na tabela 6, analisados os 25 contratos de trabalho, com 21 atletas, percebemos que 1 obteve mobilidade social, ganhando acima de quatro salários mínimos, correspondendo a 4,8%, a média salarial do atleta que obteve mobilidade social corresponde a R$ 1.500,00, equivalendo a 7,5 salários mínimos e sendo pago pelo América Futebol Clube. Naquele ano o salário mínimo era de R$ 200,00. As tabelas 5 e 6 são interligadas com referenciais em comum sobre os atletas e com informações apresentadas diversamente. Feita as apresentações numéricas e estatísticas nas tabelas, analisaremos o estudo do conceito de mobilidade social via futebol no estado de Minas Gerais com os resultados visíveis. No momento em que se refere a mobilidade social, percebemos a ascensão acontecidas no Cruzeiro Esporte Clube com 4 atletas, no América Futebol Clube com 3 atletas e no Clube Atlético Mineiro com 1 atletas. Neste ponto, os dados analisados pelos contratos de trabalho dos jogadores de futebol profissional no estado de Minas Gerais relatam a dificuldade de haver mobilidade social via futebol, pois dentre 91 atletas, 8 conseguiram ascensão social, correspondendo a 8,8.

Imaginário social e Ascensão social: relações complementares. O termo imaginário social corresponde à problemática que se refere ao futebol ser um meio de mobilidade social para negros e mestiços no estado de Minas Gerais. Para compreensão do termo, são levantadas diversas interpretações, como Carlo Ginzburg (2001) 10 para quem a concepção de mito remete-se à Grécia Antiga, em uma concepção formulada por

10 Ver GINZBURG, Carlo. Mito: Distância e Mentira. In:

Companhia das letras. São Paulo. 2001. p. 42-84.

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Olhos de madeira: Nove reflexões sobre a distância.

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Gleidson Benedito da Silva

3 7 0 3 7 0 Gleidson Benedito da Silva Platão, tratando-se de mentiras unidas à

Platão, tratando-se de mentiras unidas à verdade repassadas de forma oral ou escrita, que fazem parte de um imaginário social para um determinado grupo. No caso dos deuses gregos, mitos que se propagaram para o mundo ocidental. Sandra Jatahy Pesavento (1995) 11 interpreta o imaginário mediante um campo de representação, expressão do pensamento, imagens e discursos que definem a realidade. A autora afirma ser preciso resgatar nos comportamentos humanos, constituídos de símbolos, o seu significado socialmente reconhecido, relatando o imaginário como sistema de idéias e imagens de representação coletiva. Pesavento relata que as sociedades constroem as próprias representações diante de uma realidade múltipla, dinâmica e relativa. Cezar Augusto Lago Marques (2006) 12 analisa uma concepção de imaginário social ligado ao caso Ayrton Senna da Silva e a sua relação com a sociedade brasileira construída pelos meios de comunicação de massa, que foi intensificada no início dos anos de 1990, relacionado o mito do herói à mídia. Para Bronislaw Baczko (1985) 13 , o imaginário social mediante o seu instrumento simbólico introduz valores, modela comportamentos individuais e coletivos, e indica as possibilidades de êxito dos seus empreendimentos. Para o autor, os meios de comunicação são capazes de interpretar a imaginação social mediante os dispositivos simbólicos. A análise do imaginário social e operacionalizada na temática do futebol, propõe-se a demonstrar como os meios de comunicação de massa circunscrevem as suas análises aos clubes da capital mineira, e não apontam ou não se preocupam em demonstrar os problemas enfrentados pelos clubes do interior, os baixos salários dos atletas profissionais de futebol que ganham um salário mínimo na sua maioria, como demonstrado nas tabelas acima. O sonho de muitas crianças, adolescentes e jovens sobre o futebol, está direcionado pela mídia que passa à sociedade o imaginário do esporte como um meio seguro de mobilidade social para as pessoas pobres, relacionando sucesso e mobilidade social, quando pelos dados analisados no presente artigo, um reduzido número de atletas conquistam a sonhada mobilidade social. Neste ponto, a mídia contribui para a consolidação do imaginário social propagando a relação sucesso e mobilidade social para a sociedade. No momento que interligam as tabelas 1,2,3,4,5 e 6 remetem a presente tabela.

11 Ver PESAVENTO, Sandra Jatahy. Em busca de outra história: Imaginando o imaginário. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 15, nº 29, p. 9-27, 1995.

12 Ver MARQUES, Cezar Augusto Lago. Herdeiros do tetra: Os projetos sociais desenvolvidos por jogadores de futebol tetracampeões mundiais. Dissertação (Mestrado em História) Fundação Getúlio Vargas, Rio Janeiro, 2006.

13 BACZKO, Bronislaw. A imaginação social. In: Enciclopédia Einaudi. Imprensa Oficial: Casa da Moeda, 1985. p.

290-337.

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Tabela 7 - Mobilidade social via futebol constando média salarial dos atletas que obtiveram ascensão social dos anos de 1986, 1995 e 2002

Mobilidade social

Nº de atletas

% representada

Média salarial

Atletas que possuíram mobilidade social

8

8,8%

11 salários mínimos

Atletas que não possuíram mobilidade social

83

91,2%

1,5 salários mínimos

Total

91

100,0%

12,5 salários mínimos

Fonte: Arquivo Geral da Federação Mineira de Futebol (FMF).

Na tabela 7, analisada as relações das tabelas 1,2,3,4,5 e 6, refere-se à mobilidade social via futebol no estado de Minas Gerais, com a coleta de 91 dados de atletas profissionais no Arquivo Geral da Federação Mineira de Futebol e a análise dos contratos de trabalho, dos quais apenas 8 obtiveram mobilidade social, porcentagem que representa 8,8% dos atletas profissionais, a média salarial destes atletas é de 11 salários mínimos. Entretanto, 83 atletas não possuíram mobilidade social, porcentagem que representa 91,2% dos atletas profissionais, a média salarial destes atletas é de 1,5 salários mínimos. Neste ponto, a análise de Cezar Augusto Lago Marques sobre a construção de imaginário social do herói, no caso do piloto Ayrton Senna da Silva e a proposta de Bronislaw Baczko sobre imaginário social, nos levou a percepção da construção do mito do herói futebolístico pela mídia e pelos meios de comunicação de massa. Tal mito complementa o imaginário social presente na sociedade brasileira diante da prática esportiva futebolística, divulgando informações sobre jogadores de futebol em momentos de ascensão social, sem ter fontes concretas para informar a sociedade. Dialogando com Le Goff (1996) a oralidade e o discurso propagado, principalmente à cultura popular, 14 propõe o repasse para a sociedade, unindo verdade e imaginário social, fazendo do discurso um meio de afirmar que o futebol é um meio seguro de mobilidade social, o sonho de tantos brasileiros querem ou quiseram ser um atleta profissional de futebol. Na prática, são poucos aqueles que conseguem alcançar essa meta, e reduzidas as possibilidades de ganhar salários milionários.

14 Ver BURKE, Peter. O que é História Cultural?. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. GINZBURG, Carlo. Prefácio a

O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição. São Paulo:

Companhia das Letras, 1987. p. 15-34. LE GOFF, Jacques. História. In: História e Memória. 4. ed. Campinas:

UNICAMP, 1996.

Temporalidades Revista Discente do Programa do Programa de Pós-graduação em História da UFMG, vol. 3 n. 1. Janeiro/Julho de 2011 ISSN: 1984-6150 www.fafich.ufmg.br/temporalidades

edição italiana. In:

372372

Gleidson Benedito da Silva

3 7 2 3 7 2 Gleidson Benedito da Silva Ascensão e imaginário social inserido no

Ascensão e imaginário social inserido no meio futebolístico dos brasileiros envolvem milhares de pessoas, incluindo clubes de futebol, empresários e dirigentes em um universo atrativo e repleto de paixões, sonhos e frustrações 15 , entrelaçando mobilidade social com imaginário social da sociedade brasileira.

Considerações Finais O futebol, incluído dentro do imaginário social, envolve sentimentos como a paixão, 16 em que a sociedade brasileira estabelece na prática futebolística um grande significado, por ser visto nos bairros e em lugares onde vivem elites e trabalhadores, encontram-se quadras de futebol; ou nas ruas, com pedras simulando os gols, ou varas simulando traves; a televisão, nas quais existem os jogos de domingo ou nas quartas-feiras, e os comentários das segundas-feiras acerca da temática futebolística. O sonho de milhares de pessoas que pensam ou pensaram em ser um jogador de futebol famoso, ganhar salários milionários e ser motivo de comentários das partidas de futebol mostra como a prática esportiva futebolística está no imaginário social da vida do brasileiro. A união entre a paixão e o sonho, e estímulo há milhares de pessoas a procurar ascensão social pelo futebol é mostrado como uma saída para mudar de condição social e econômica, usando o futebol como um meio mais rápido e sem saber os contrastes gerados pelo esporte como foi demonstrado no presente artigo. Diante das apresentações dos dados estatísticos e dos debates historiográficos sobre a problemática do futebol, especialmente no estado de Minas Gerais, os números nos informam que mobilidade social via futebol está, de fato, no imaginário social. Afinal, trata-se de números reduzidos diante da dimensão de atletas que permanecem sem mobilidade social, ganhando em média 1,5 salários mínimos, incitando a sociedade e os acadêmicos a refletirem sobre a proposta e problemática da situação encontrada no futebol brasileiro. No momento em que são apresentados dados e números, o presente artigo diz respeito ao caso Minas Gerais. Serão necessários estudos em outros estados brasileiros com o intuito de equiparar com as situações no que se refere ao futebol no Brasil.

15 Ver PIMENTA, Carlos Alberto Máximo. Sociologia da Juventude: futebol, paixão, sonho, frustração, violência. Taubaté: Cabral, 2006. 16 Ver CARVALHAES, José Ricardo Faleiro. Futebol: As paixões e os interesses. Dissertação (Mestrado em História) Universidade federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1995.

Temporalidades Revista Discente do Programa do Programa de Pós-graduação em História da UFMG, vol. 3 n. 1. Janeiro/Julho de 2011 ISSN: 1984-6150 www.fafich.ufmg.br/temporalidades