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Vera Lucia Marques da Silva

Denise Chrysóstomo de Moura Juncá

Organização

Território, Vulnerabilidades e Saúde

Campos dos Goytacazes, RJ

FBPN/FMC

2012

FUNDAÇÃO BENEDITO PEREIRA NUNES Presidente - Almir Jesus do Nascimento FACULDADE DE MEDICINA DE CAMPOS

FUNDAÇÃO BENEDITO PEREIRA NUNES Presidente - Almir Jesus do Nascimento

PEREIRA NUNES Presidente - Almir Jesus do Nascimento FACULDADE DE MEDICINA DE CAMPOS Diretor Geral -

FACULDADE DE MEDICINA DE CAMPOS Diretor Geral - Dr. Nélio Artiles Freitas Vice-Diretora - Drª Maria das Graças Sepulveda Campos e Campos Diretor Acadêmico - Dr. Paulo Gustavo Araújo Diretor Administrativo - Luiz Fernando da Silva Prado Diretor de Recursos Humanos - Wainer Teixeira de Castro Coordenador de Graduação em Medicina - Drª Maria das Graças Sepúlveda Campos e Campos Coordenador de Graduação em Farmácia - Prof. Carlos Eduardo Faria Ferreira Coordenador da Pós-Graduação e Extensão - Dr. Abdalla Dib Chacur Coordenador de Internato e de Estágios - Dr. Márcio Sidney Pessanha de Souza Coordenadora de Pesquisa - Drª Regina Célia de Campos Souza Fernandes Coordenadora de Extensão - Drª Vera Lúcia Marques da Silva Coordenador de Egressos - Dr. Gilson Gomes da Silva Lino

Coordenação Gráfica e Projeto Gráfico: Wellington Cordeiro Revisão Gramatical: Selma Solange Bibliotecária: Maria Cristina M. Lima Fotografias de Capa: Wellington Cordeiro Impressão: Wall Print Tiragem: 1.000 exemplares Distribuição: Gratuita e Dirigida

FACULDADE DE MEDICINA DE CAMPOS Av. Alberto Torres, 217 - Centro - Campos dos Goytacazes - RJ - CEP: 28035-580 - Tel/Fax: (22) 2101-2929

S67

7a

T327

Território, vulnerabilidades e saúde / Vera Lucia Marques da Silva, Denise Chrysóstomo de Moura Juncá, organização. — Campos dos Goytacazes, RJ: FBPN / FMC, 2012.

104 p. ; il. color

; 26 cm

Inclui Bibliografia.

1. Saúde pública – Custodópolis (Campos dos Goytacazes, RJ). 2. Inquéritos epidemiológicos - Custodópolis (Campos dos Goytacazes, RJ). 3. Saúde da população urbana - Custodópolis (Campos dos Goytacazes, RJ). 4. Indicadores ambientais – Custodópolis (Campos dos Goytacazes, RJ). I. Silva, Vera Lucia Marques. II. Juncá, Denise Chrysóstomo de Moura.

CDD 362.1098153

Ficha catalográfica preparada na Biblioteca da Faculdade de Medicina de Campos

EQUIPE PARTICIPANTE DO PROJETO CIDADE DE PALHA: 2008/2011

COORDENAÇÃO GERAL DO PROJETO Denise Chrysóstomo de Moura Juncá – Docente - GRIPES/UFF

FASE 1: DIAGNÓSTICO PRELIMINAR – 2008/2009

RESPONSÁVEIS PELO LEVANTAMENTO DOCUMENTAL Carla Iolanda Sant ´Ana Ferreira - Acadêmica de Serviço Social - GRIPES/UFF Jaqueline Crespo Torres - Acadêmica de Serviço Social - GRIPES/UFF Paula Emely Cabral Torres – Acadêmica de Serviço Social - GRIPES/UFF

RESPONSÁVEIS PELO TREINAMENTO DA EQUIPE Carlos Antônio de Souza Moraes - Docente - GRIPES/UFF Edilamar Viana da Silva - Assistente Social - GRIPES/UFF Verônica Gonçalves Azeredo - Docente - GRIPES/UFF

PESQUISADORES DE CAMPO Ana Paula Pessanha Cordeiro – Assistente Social - GRIPES/UFF Danielle Felix Gomes da Silva - Assistente Social - GRIPES/UFF Ellen Christel Gomes Moraes – Assistente Social - GRIPES/UFF Josemara Henrique da Silva Pessanha - Assistente Social – GRIPES/UFF Katarine Sá dos Santos – Docente - GRIPES/UFF Rosana Sá Cruz Ribeiro – Acadêmica de Serviço Social/UFF Suélen Azevedo Ramos - Assistente Social

COLABORADORES Celma Cristina Morais de Oliveira Batista – Professora – GRIPES/UFF Ilzimar Amorim Louzada Moraes – Enfermeira – GRIPES/UFF Maria Elisa Pereira Alves – Assistente Social Mariá de Oliveira Otal – Assistente Social Natália Ribeiro dos Santos – Acadêmica de Enfermagem da Universidade Estácio de Sá Sylvio Rogério Ribeiro da Costa – Bacharel em Comunicação Social – GRIPES/UFF Vanessa Pessanha Menezes Gomes – Assistente Social

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da Costa – Bacharel em Comunicação Social – GRIPES/UFF Vanessa Pessanha Menezes Gomes – Assistente Social
da Costa – Bacharel em Comunicação Social – GRIPES/UFF Vanessa Pessanha Menezes Gomes – Assistente Social
da Costa – Bacharel em Comunicação Social – GRIPES/UFF Vanessa Pessanha Menezes Gomes – Assistente Social
da Costa – Bacharel em Comunicação Social – GRIPES/UFF Vanessa Pessanha Menezes Gomes – Assistente Social
da Costa – Bacharel em Comunicação Social – GRIPES/UFF Vanessa Pessanha Menezes Gomes – Assistente Social
da Costa – Bacharel em Comunicação Social – GRIPES/UFF Vanessa Pessanha Menezes Gomes – Assistente Social

EQUIPE PARTICIPANTE DO PROJETO CIDADE DE PALHA: 2008/2011

COORDENAÇÃO GERAL DO PROJETO Denise Chrysóstomo de Moura Juncá – Docente - GRIPES/UFF

FASE 2: INQUÉRITO POPULACIONAL – 2009/2011

COORDENADORES DAS INSTITUIÇÕES PARCEIRAS Christovam Cardoso – Docente – UNIVERSO Denise Chrysóstomo de Moura Juncá – Docente - GRIPES/UFF Érik Schunk Vasconcellos – Docente - FMC Katarine Sá dos Santos – Docente - GRIPES/UFF Regina Coeli Martins Paes de Aquino – Docente - IFF Teresa Claudina de O. Cunha – Assistente Social - IFF Vera Lucia Marques da Silva – Docente - FMC

RESPONSÁVEIS PELO TREINAMENTO DA EQUIPE Ana Paula Pessanha Cordeiro – Assistente Social - GRIPES/UFF Carlos Antônio de S. Moraes - Docente - GRIPES/UFF Denise Chrysóstomo de Moura Juncá – Docente - GRIPES/UFF Ellen Christel Gomes Moraes – Assistente Social - GRIPES/UFF Katarine Sá dos Santos – Docente - GRIPES/UFF Verônica Gonçalves Azeredo - Docente - GRIPES/UFF

COORDENAÇÃO DO TRABALHO DE CAMPO – Setor 1 Ana Paula Pessanha Cordeiro – Assistente Social - GRIPES/UFF Ellen Christel Gomes Moraes – Assistente Social - GRIPES/UFF Verônica Gonçalves Azeredo - Docente - GRIPES/UFF

COORDENAÇÃO DO TRABALHO DE CAMPO – Setor 2 Carlos Antonio de S. Moraes – Docente - GRIPES/UFF Marilene Parente Gonçalves – Assistente Social - GRIPES/UFF Roberta Coutinho – Assistente Social - GRIPES/UFF

EQUIPE DE APOIO OPERACIONAL 1 Gerlaine J. de Souza – Acadêmica de Serviço Social - GRIPES/UFF Igor Leal Pena – Enfermeiro - FMC Josemara Henrique da S. Pessanha - Assistente Social – GRIPES/UFF Leyza Helena de Souza Barreto - Assistente Social - GRIPES/UFF Paula Emely C. Torres – Acadêmica de Serviço Social - GRIPES/UFF

EQUIPE DE APOIO OPERACIONAL 2 Aline da Silva Viana Jorge – Acadêmica de Serviço Social - GRIPES/ UFF Luana Pessanha Martins – Assistente Social – GRIPES/UFF Maria Inês Terra Petrucci – Assistente Social - FMC Silvânia Maria da Silva – Acadêmica - GRIPES/UFF

ACADÊMICOS DE SERVIÇO SOCIAL - UFF Aline da Silva Viana Jorge Carla da Silva Santos Dayana Sales Ribeiro Gerlaine Jesus de Souza Harissa Morgan Marques Ivone dos Santos Magaldi Jeovânia Bolelli Guimarães Tavares

Joelma Cândido Bastos Késia da Silva Tosta Leonela Lima Sanches Leyza Helena de Souza Barreto Luana Fernandes dos Santos Melina Martins Vazquez Natalia Meritello da Luz Paloma Bastos Paola Barros de Faria Fonseca Paula Emely Cabral Torres Silvânia Maria da Silva Simone do S. F. Sales Ribeiro Vivian Abreu de Souza Rangel

ACADÊMICOS DE MEDICINA - FMC Adilea Lopes da Silveira Aline Alves Barbosa Ana Elisa Batista Aguiar Bruna Barreto Falcão Juliana Siqueira Pessanha Laura Ramos Silva Lucas Rangel de Souza Azevedo Maria de Fátima Miranda de Abreu Mayra Rodrigues Chaves Sant’anna Raquel Siqueira de Menezes Rayane Barreto Povoa Raphael Freitas Jaber de Oliveira Sara Fonseca Lucas Sarah Santos Nascimento

ACADÊMICOS DE ENFERMAGEM - UNIVERSO Clarissa de Santana Silva Juliana Gomes Barreto Keila Cristina da Silva LucéliaAlves Paixão Laura Paes Farias Lamônica LorennaAnequim Maithê dos Santos Araujo Márcio Pereira Micheli Joseane Rafaella Castellar dos Santos Corrêa Thatiane Costa Ribeiro Silva Thiago de Paula G. Rebel

ACADÊMICOS DE ARQUITETURA E URBANISMO - IFF Fabrício Pinto Escáfura Isadora Marques de Souza Oliveira Júlia Lima Araújo Juliana Peixoto Rufino Gazem de Carvalho Raphael Mesquita de Aguiar

Sumário

Custodópolis e os primordios da medicina social e Preventiva na Faculdade de Medicina de Campos ------ 06

Editorial --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 08

Prefácio --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 10

Apresentação --------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 12

Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania ------------------------------------------------- 14

Do diagnóstico preliminar ao inquérito populacional: movimentos de investigação-ação em um território vulnerável ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 32

Território de Custodópolis: mapeando memórias e lugares ---------------------------------------------------------- 44

O lugar: entre lembranças do passado e vivências do presente ----------------------------------------------------- 49

Moradia: lugar de apropriações e práticas ------------------------------------------------------------------------------ 54

A questão habitacional e seu entorno em Custodópolis -------------------------------------------------------------- 65

Na saúde e na doença: um retrato do cotidiano das famílias em Custodópolis ----------------------------------- 74

Caminhos do empoderamento: redefinindo sons, coros e instrumentos do (com) viver em comunidade ----- 88

Uma cidadania esperada: e agora, o que fazer? ----------------------------------------------------------------------- 97

Este Livro é dedicado aos moradores do Bairro de Custodópolis.

1

Custodópolis e os primordios da medicina social e preventiva na Faculdade de Medicina de Campos

Prof. José Rodrigues Coura 1

 

Em uma noite no início de outubro de 1967, quando

pode organizar um programa de Medicina Preventiva e indicar

eu

estudava no escritório do meu apartamento, situado na Praia

assistentes especializados que nós nomearemos. A

de

Botafogo 520/702, no Rio de Janeiro, por volta das 10 horas

determinação e necessidade dos professores me convencerem

da noite, sôa a campainha da porta da sala de estar contígua

e

três dias depois eu lhes enviei o meu curriculum-vitae e uma

ao escritório. Estranhei aquela visita a essa hora da noite, e

carta de aceitação do cargo, o que lhes permitiu completar o

na ponta dos pés fui ver quem tocava a campainha. Olhei pelo visor e vi três cavalheiros de estatura média, bem vestidos,

quadro de professores da nova faculdade, que foi inaugurada em 14 de outubro de 1967 com a minha presença, tendo como

usando gravatas, um deles de face avermelhada e cabelos

o

totalmente brancos, o outro um pouco mais alto e semi-calvo, aparentando uns 40-50 anos de idade e o terceiro moreno, de cabelos escuros, aparentando uns 30 e poucos anos. Como eu havia escondido na minha casa alguns alunos fugidos da

repressão do regime militar da época, por questão humanitária, embora não participasse de suas ideologias, pensei que os cavalheiros fossem agentes do SNI ou do DOI-CODI, que viessem me interpelar ou até me prender por ter dado abrigo a comunistas. Para me certificar perguntei sem abrir a porta: “o que desejam?”. Os visitantes me responderam em uníssono:

seu primeiro Diretor o honorável Dr. Oswaldo Luiz Cardoso de Melo, pai do jovem Oswaldo da Costa Cardoso de Melo,

Professor de Oftalmologia e hoje ex-Diretor daquela Faculdade, meu amigo e colega da Academia Nacional de Medicina desde 2005, quando tomou posse como Membro Honorário. O Prof. Oswaldo Luiz Cardoso de Melo foi diretor da FMC de 1967 a 1968, quando faleceu, sendo substituído na Direção da Faculdade pelo Prof. Ewert Paes da Cunha, Diretor de 1968 a 1973, em cuja gestão a FMC formou a sua 1ª turma de medicina em 1972 e foi reconhecida pelo Decreto nº 71814 de 07/02/

1973.

“somos professores da Faculdade de Medicina de Campos e gostaríamos de falar com o senhor”. Abri a porta e os convidei para sentar em um sofá perto da janela que dava vista para o Cristo Redentor iluminado. Os visitantes me pediram desculpas pela hora da visita e me explicaram que estavam vindo de uma entrevista com o então Ministro da Educação Raymundo Moniz

A Organização do Programa da Disciplina De outubro de 1967 a fevereiro de 1968 trabalhamos intensamente para formulação de um programa moderno de Medicina Social e Preventiva na nova Faculdade de Medicina em Campos. Conseguimos com a direção e congregação daquela

de

Aragão, e se apresentaram: Geraldo Venâncio (o de cabelos

faculdade que a disciplina fosse desdobrada na 1ª, 2ª e 3ª séries

brancos), Décio Azevedo(o semi-calvo) e Oswaldo Cardoso de Melo (o mais jovem). O Dr. Geraldo Venâncio, que me parecia o líder do

do curso médico, fato inédito no Brasil, em uma mesma disciplina inserir o seu ensino em três anos seriados. No 1º ano os alunos deveriam apresentar seminários sobre “Antropologia Médico

grupo, foi direto ao assunto: sabemos que o senhor é Professor Titular de Doenças Infecciosas e Chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal Fluminense. Estamos fundando uma Faculdade de Medicina em Campos, tendo a Fundação Benedito Pereira Nunes como mantenedora

Social” e acompanhar, do ponto de vista social, familiares de uma “favela plana” denominada “Cidade de Palha” na margem esquerda do outro lado do Rio Paraíba do Sul, em relação ao centro de Campos, ou seja, o atual bairro, onde hoje se localiza o Centro de Saúde Escola de Custodópolis. No 2º ano os estudantes tinham

e

somente está nos faltando um Professor de Medicina

aulas teóricas de Epidemiologia e faziam relatórios sobre as

Preventiva para inaugurá-la nos próximos dias. Viemos convidá-lo para esse cargo. Respondi: eu não sou Professor de Medicina Preventiva e sim de Doenças Infecciosas. Por acaso, como a minha disciplina está dentro do Departamento

ocorrências de doenças nas famílias por eles acompanhadas, e no 3º anos tinham aula de Saúde Pública e Medicina Ocupacional e faziam relatórios dos cuidados desenvolvidos com a população pelos serviços de saúde do município, que com frequência não

de

Medicina Preventiva sou o seu Chefe por ser o único Titular

tinham as condições para atender os doentes adequadamente.

do Departamento. Diante dessa resposta, os professores Décio Azevedo e Oswaldo Cardoso de Melo argumentaram: o curso será iniciado em março do próximo ano (1968) e até lá o senhor

Encaminhávamos os pacientes para a Santa Casa de Misericórdia, que na maioria das vezes não podia atender todos os pacientes por falta de vaga.

1 Doutor em Medicina (Doenças Infecciosas e Parasitárias) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil (1965), Pesquisador Titular. Chefe de Laboratório da Fundação Oswaldo Cruz , Brasil

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O Corpo Docente e as Atividades Didáticas da Disciplina

O corpo docente da disciplina de Medicina Social e

Preventiva era composto por mim, como Professor Titular da Disciplina, pelo Dr. Ayrton da Rocha Claussen, Professor Adjunto, meu colaborador na Faculdade de Medicina da UFF e em Campos, o médico Maurício Pereira, meu ex-residente na UFF, nomeado

Professor Auxiliar na Faculdade de Medicina de Campos e sua esposa enfermeira que monitoravam os alunos no trabalho de campo, ambos residentes naquela cidade.

As turmas eram compostas de 64 alunos. Nas 6as feiras

durante todo o dia o Prof. Ayrton Claussen preparava com grupos de 8 alunos os 8 seminários de Antropologia Médico-Social a serem apresentados pelos alunos e discutidos por mim e pelo Prof. Ayrton no sábado, de 08:00 às 12:00 na parte da manhã e 14:00 às 18:00 na parte da tarde, todas as semanas durante o 1º ano do curso. Uma vez por semana, de manhã ou à tarde, de 2ª a 5ª feira, uma turma de 8 alunos acompanhados pelo Dr. Mauricio e sua esposa visitavam a população das 6 residências acompanhadas pelos respectivos grupos de alunos, que faziam um breve relatório sobre as ocorrências sociais, epidemiológicas e de saúde/doença, calendário vacinal etc, ocorrido semana a semana. Com isso havia um acompanhamento contínuo da comunidade durante todo o ano durante os três primeiros anos do curso. As aulas teóricas de Epidemiologia, Saúde Pública e Medicina Ocupacional eram dadas as 6ªs feiras pelo Dr. Ayrton Claussen e aos sábados por mim, respectivamente para os alunos do 2º ano (Epidemiologia) e do 3º ano (Saúde Pública e Medicina Ocupacional).

Organização da Infraestrutura para atenção primária na “Cidade de Palha” Inicialmente conseguimos com a Prefeitura de Campos ou com o Departamento de Endemias Rurais (DENERu) não me lembro bem, por meio do Dr. Olimpio da Silva Pinto ex-Diretor do DENERu e meu amigo pessoal, um local para instalar um posto de saúde para atenção primária à população de Custodópolis, acompanhada pelos nossos alunos. Inicialmente o posto de saúde era atendido pelo Dr. Mauricio e a enfermeira, sua esposa. Posteriormente conseguimos que a Escola de Serviço Social colocasse alunos estagiários no posto e depois conseguimos a instalação de consultório odontológico da Escola de Odontologia com alunos e supervisores para atenção dentária e logo depois da Faculdade de Direito para orientação da população em suas questões trabalhistas. Consideramos uma excelente integração social para o tipo de trabalho que desenvolvíamos. Ao mesmo tempo esse local servia de treinamento para além dos estudantes de Medicina, outros de Serviço Social, Odontologia e Direito, condição pouco comum de ser encontrada no Brasil. Por meio do Dr. Olimpio da Silva Pinto ex-Diretor do DENERu, conseguimos um guarda sanitário, que numerou as casas da “Cidade de Palha”, cujas famílias eram atendidas pelos estudantes. Esse guarda era um senhor muito atencioso, conhecia todas as famílias de Custodópolis e embora um pouco surdo era

muito afável e ajudava muito os estudantes em seu trabalho na abordagem das família, os quais (estudantes) o apelidaram de “JIM DA SELVA” pelo uniforme e tipo de chapéu “inglês” que ele usava. Durante anos, depois que deixei à Faculdade de Medicina de Campos em 1971, o JIM DA SELVA me escrevia lamentando a minha ausência, a quem eu respondia com cordialidade.

Observações e conclusões do trabalho realizado Esse trabalho foi um desafio e um aprendizado na minha vida de médico e Professor de Medicina e até mesmo uma aula de cidadania. Colocar estudantes de Medicina, Serviço Social, Odontologia e Direito em contato com uma comunidade carente e despertar neles o sentido de solidariedade humana foi para mim a mais gratificante de todas as atividades e títulos recebidos até agora. Formar profissionais de alto nível, muitos dos quais são ou foram importantes médicos e professores de medicina, prefeitos, vereadores e deputados foi um dos maiores privilégios da minha vida como Professor. Por outro lado ter a honra de ser homenageado por pessoas do nível dos Professores Oswaldo Cardoso de Melo, Nelio Artiles Freitas e Vera Lucia Marques da Silva, muito me engrandece com o meu nome no atual Centro de Saúde Escola de Custodópolis.

Silva, muito me engrandece com o meu nome no atual Centro de Saúde Escola de Custodópolis.

Prof. José Rodrigues Coura

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2

Editorial

Dr. Nelio Artiles Freitas 1

Em 2005 quando iniciamos a gestão da Faculdade de Medicina de Campos tínhamos um grande desafio pela frente que era além de manter a tradição de nossa escola em ser uma Instituição de Ensino Superior - IES que busca um ensino de qualidade, também inserirmos o perfil de humanismo em todas as ações seja na área pedagógica seja de inclusão e de ações sociais, focados na formação de um profissional de saúde diferenciado . E foi assim que a FMC passou a imprimir um perfil diferente do padrão das escolas da área de saúde deste país, instituindo a arte em nosso calendário oficial anual com mostras de cinema, exposições, festivais de músicas, saraus entre outras ações, sem deixar de manter as atividades de cunho científico e pedagógico de qualidade. Transformamos o trote vexatório em uma recepção agradável objetivando sempre a ética nas relações entre os alunos, docentes e colaboradores. Nesta perspectiva miramos o nosso Centro de Saúde Escola em Custodópolis de uma forma também diferente, onde além da assistência na atenção básica, buscássemos uma melhoria da qualidade de vida daquela população tão carente e que manteve sempre uma expectativa positiva de uma escola de ensino superior presente por lá, há tantos anos. Imbuídos nesta filosofia humanista, convidei a Prof Vera Marques para ser a nossa coordenadora técnica, passando a desenvolver um excelente trabalho na organização daquele Centro, tornando um notável cenário para o processo ensino e aprendizagem e produção científica. Mas além da reestruturação organizacional investimos em melhorias da área física, ampliando e humanizando o espaço com pinturas, forrações, climatização entre outras ações. A presença de outras IES de forma pontual em algumas pesquisas, nos fez sonhar em compartilhar com a maioria das IES de nossa cidade, àquele cenário sem nos atentar para que em um início não muito distante, o Prof. José Rodrigues Coura na década de 70 , iniciava ações semelhante na implantação do então Centro de Saúde Universitário com a presença de outras IES. Porém o que foi implantado adormeceu e passamos a participar naquela localidade como um Centro de Saúde Escola, apenas com atendimento de seqüelas da sociedade, recebendo uma diversidade de patologias

oriundas algumas vezes da miséria e da pobreza. Um cenário de demonstração para alunos aprenderem e exercitarem, oferecendo à comunidade um pouco de alívio e soluções paliativas para sofrimentos crônicos. Sem dúvida uma bênção para àquela comunidade, mas muito longe do que realmente deveríamos ou poderíamos fazer. Várias reuniões foram realizadas para construção

de programações conjuntas com a aproximação de diversas

escolas de ensino superior de Campos. Além de compor um cenário ideal para o processo de ensino e aprendizagem, a idéia era promover uma melhoria na qualidade de vida para cerca de 10 mil pessoas daquele bairro. Unir o ensino médico e farmacêutico da Fmc com a fisioterapia, enfermagem, psicologia, educação física, arquitetura,

direito, pedagogia, artes visuais, serviço social entre outros das demais escolas seria um grande desafio. Na visão holística do conceito de saúde, a idéia seria transformar àquele bairro em um local diferente para viver, apesar das carências sociais e econômicas daquelas famílias. Inspirado então no livro “Aprendiz de mim – um Bairro que virou Escola” do escritor Rubem Alves este novo projeto interinstitucional foi denominado Programa Bairro Saudável em uma reunião histórica no anfiteatro da Fmc com direito a emocionantes posicionamentos e lágrimas na maioria dos presentes. Olhos marejados e corações em um mesmo acelerado compasso, para começar uma longa viagem, onde

o caminho seria a atração e o destino, este ainda

desconhecido, porém belo e aparentemente não tão distante. Um sonho compartilhado não teria chance de dar errado. A profª Vera Marques passou então a reger como uma exímia maestrina uma linda peça onde os atores buscavam uma harmonia de ações em prol de todos. Uniflu, Fafic, FOC, IFF, Uenf, UFF, FMC, Estácio, Universo e Ucam com: oficinas de artes plásticas, dinâmica artística para idosos, dança, teatro, circo, pesquisas e trabalhos de prevenção em parasitoses e Aids, orientações sobre fitoterapia e uso de medicamentos, cursos profissionalizantes, atendimento médico e odontológico, projetos de criação de novos espaços, caminhadas, campanha anti-tabagista, entre outras atividades, é um pequeno exemplo da beleza de nosso caminho. Interesses comuns, acima de competição, de mercado, buscando

1 Mestre em Medicina (Doenças Infecciosas e Parasitárias) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Prof Titular de Doenças Infecciosas e Parasitárias e Diretor da Faculdade de Medicina de Campos

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unicamente criação de um novo tempo e espaço, de via dupla, onde quem ensina aprende e quem aprende está ensinando também, tomou corpo e força. Tal foi o destaque que houve um reflexo nacional quando a Fmc foi agraciada com o prêmio nacional de gestão educacional de 2010 na categoria de responsabilidade social. Construir um novo planeta, um novo continente, um novo país, uma nova cidade, um novo bairro e fazer de um destes cenários algo belo, onde a educação faça parte de cada ação poderia ser um sonho. Como diz o Pequeno Príncipe: “O deserto é belo, porque em algum lugar ele esconde uma fonte”, Um local belo, onde todos trabalhem por, para e na educação. Onde se busca a saúde em seu significado mais amplo. Saúde física como conseqüência de uma saúde social, ambiental, emocional, espiritual e da alma. Neste contexto é que está implantado o Programa Bairro Saudável. Este livro é um produto da materialização de um sonho coletivo de tornar um espaço de ensino que tem na atenção primária seu principal foco, em uma área de ação

multiprofissional e interinstitucional com o objetivo de promover saúde global para todos que ali participam, sejam moradores sejam funcionários, alunos e docentes. E neste ápice da produção deste livro, além da presença importante e inconteste do Prof José Rodrigues Coura neste processo, que já havia plantado uma semente especial, fertilizada com amor

e sonhos, fazendo após tantos anos, germinar um lindo projeto de extensão da Fmc, traduzindo a filosofia de toda a comunidade acadêmica de trazer ética e humanismo nas relações pessoais e principalmente de formar e transformar pessoas que farão um futuro melhor. Bairro Saudável é um projeto sem um único dono, que

é movido pelo idealismo e pela visão de um novo tempo.

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” Fernando Pessoa

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Prefácio

“O que não está em nenhum lugar, não existe”. Esta celebre frase de Aristóteles denota a extrema relevância do espaço para a

análise da realidade social e, portanto, ele não pode ser considerado um mero reflexo ou palco das ações humanas. O espaço se reproduz na totalidade social, na medida em que essas transformações são determinadas por necessidades sociais, econômicas e políticas.

É possível ressaltar que estas transformações históricas

ocorridas nas últimas três décadas alteraram a face do capitalismo

e de nossas sociedades na América Latina. Neste período, houve

avanço na tentativa de internacionalizar produção e mercados, o que contribuiu para aprofundar o desenvolvimento desigual entre

as nações e, em seus interiores, entre classes e grupos.

A “mundialização do capital” repercute incisivamente nas

políticas públicas (em seus processos de focalização,

desfinanciamento, descentralização

dos trabalhadores nos mercados de trabalho, nas relações e condições de trabalho, bem como, nas condições de vida e nas expressões políticas e culturais dos distintos segmentos de trabalhadores.

Este cenário, avesso aos direitos, radicaliza as desigualdades e associa cidadania a consumo, mundo do dinheiro e posse de mercadorias. Além disso, há investida ideológica do capital

e do Estado para “cooptação dos trabalhadores”, buscando torná- los parceiros.

Mas, ao mesmo tempo, um conjunto de resistências e lutas diárias é construído pela sociedade, através de reivindicações que envolvem o cenário rural, urbano, as relações de gênero, questões

étnico-raciais, relações com o meio ambiente, dentre outros

manifestações têm por base a precarização das condições de vida,

o aumento das vulnerabilidades e a busca da dignidade e respeito

humanos. Sobreviver em espaços marcados por desigualdades, rebeldia e conformismo se torna desafio para múltiplos sujeitos sociais no contexto brasileiro. Sujeitos que são responsabilizados exclusivamente por suas precárias condições de vida, além de viverem os dilemas do desemprego, através da redução dos postos de trabalho ou, terem seus trabalhos intensificados ou ainda,

Estas

nos processos de inserção

),

vivenciarem a clandestinidade e invisibilidade do trabalho informal

e precário. Além disso, estes sujeitos observam a crescente

criminalização de suas lutas sociais, bem como, da “questão social”.

Percebe-se desta forma, a banalização do ser, a partir da indiferença diante de suas necessidades e de seus direitos.

Carlos Antonio de Souza Moraes 1

Indiferença perante o destino de trabalhadores submetidos a uma pobreza histórica e, portanto, tornam-se subjugados e desprezados diante de sua disfuncionalidade para o capital 2 . No contexto destas transformações sociais, sujeitos singulares e coletivos, influenciam e são influenciados pelo espaço

vivido. Nele criam estratégias particulares de condução de sua própria vida, no seu lar, local de trabalho, na rua, comunidade, pontos de

Estas transformações que geram desigualdades, também

determinam socialmente o processo de adoecimento da população.

A esse respeito, estudos desenvolvidos, sobretudo a partir

de 1970, começam a indicar que o caráter histórico da doença é conferido no processo que ocorre na coletividade humana, ou seja,

a natureza social da doença deve ser verificada na forma de

adoecimento e morte dos grupos humanos (NUNES, 2000). Para

esta compreensão, o conceito de formação social apresenta grande relevância.

É possível perceber que estas transformações nas

concepções em torno de saúde - doença são fundamentais para ampliação de espaço de análise e intervenção nesta realidade. Ou seja, é preciso compreender que o processo de adoecimento é fruto de múltiplos fatores históricos e estruturais e devem ser pensados na interseção de aspectos não apenas sociais, mas também biológicos, econômicos, culturais, políticos. Para compreensão destes fatores e seus vínculos com as condições de saúde da população, o conceito de desigualdade social

é fundamental. Para maioria dos autores, ele incorpora uma repartição desigual que se produz no processo social, ou seja, o acesso a bens

e serviços e a um nível de saúde mais elevado da população é

encontro

determinado veementemente pela posição que os sujeitos ocupam na organização social (BARATA, 2006). Assim, as desigualdades sociais em saúde são as diferenças produzidas pela inserção social dos indivíduos e que estão relacionadas com a repartição do poder e da propriedade (IDEM,

2006).

Ao adotar a corrente politizada e/ou sócio - histórica das

desigualdades em saúde, entendemos que saúde é um produto social

e determinadas organizações podem ser mais sadias que outras.

Trabalhar com esta vertente, que tem como base o conceito de reprodução social, significa romper com a concepção linear de causalidade e negar possibilidades de identificar "cadeias de causa- efeito entre características ou indicadores sociais e problemas de

1 Doutorando em Serviço Social pela PUC/SP; Mestre em Políticas Sociais pela UENF; Bacharel em Serviço Social pela UFF; Professor do Departamento de Serviço Social de Campos/ Universidade Federal Fluminense; Membro do Grupo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisa em Cotidiano e Saúde (GRIPES). 2 A abordagem referente as transformações atuais da sociedade capitalista tem por base A discussão de Marilda Villela Iamamoto no Livro “Serviço Social em tempos de

Capital Fetiche

”,

2010.

10

saúde, bem como entre indicadores de desigualdades sociais e saúde" (BARATA, 2006, P. 471). Com base neste referencial, um trabalho de pesquisa

empírico pode ser dividido em dois grupos: os que privilegiam a estrutura de classes, trabalhando com o conceito de classe social

e os que privilegiam condições de vida e trabalham com o conceito

de espaço social. De qualquer modo, a unidade espaço - população

tem a possibilidade de ser uma unidade onde operam os processos determinantes, onde se expressam os problemas de saúde e se desenvolvem as ações ou respostas sociais a estes problemas. Diante do apresentado, é preciso sinalizar que a categoria condições de vida não deve ser entendida em sua relação com a saúde numa perspectiva linear de causa e efeito. Defendemos que

a saúde deva ser concebida numa perspectiva sócio-histórica e,

portanto, coletiva. Mediada por aspectos materiais, sociais, culturais, políticos, econômicos e pela realidade vivida pelos sujeitos através de suas relações cotidianas, ou seja, pelas trajetórias históricas individuais dos sujeitos que se relacionam coletivamente e, portanto, influenciam e são influenciados no/ pelo grupo e espaço em que vivem. Além disso, o texto que o leitor tem em mãos, é resultado de estudos que insistem na compreensão da saúde em uma perspectiva ampliada. A tentativa de conhecer um espaço/território específico foi um grande desafio deste grupo de pesquisadores, que se comprometeu a identificar mediações do processo saúde -

doença. Para tanto, o grupo assumiu outro e, talvez, o maior desafio, que foi o de construir este estudo de forma interdisciplinar

e interinstitucional, articulando as dimensões quantitativas e

qualitativas de pesquisa ao longo de seu processo. E se o trabalho

de pesquisa se constrói "artesanalmente", há aqui uma experiência

de aproximação sucessiva deste espaço/território específico e de seus sujeitos, o que contribuiu para conhecer algumas de suas histórias, as experiências compartilhadas pelos moradores através do estímulo a tantas memórias. Essa aproximação inicial foi fundamental na resposta a um montante de questões de quem tem "curiosidade" e quer saber. Portanto, através desta aproximação inicial construiu-se um resultado provisório que sinalizou mais

indagações que respostas, o que foi expressivo para construção e desenvolvimento do inquérito populacional - fase posterior da pesquisa. Aproximações, encontros, caminhadas pela Comunidade, identificação de informantes-chave, observações e aplicação de

formulários foram fundamentais para ir além do "absolutamente óbvio" no intuito de compreender o "surpreendentemente oculto" nas condições de vida da população. Para tal foi e sempre será necessário, nos tempos atuais, repensar estratégias que valorizem

e fortaleçam seus princípios. E se "(

Não basta que o

pensamento procure realizar-se; a realidade deve igualmente compelir ao pensamento" (MARX, 2005, p. 152), há aqui dados

capazes de se fazer pensar, construídos com a paixão que se alimenta da crítica.

)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARATA, R. B. Desigualdades sociais e saúde. IN: CAMPOS, G. W. de S.; MINAYO, M. C. S. ET ALL. Tratado de saúde coletiva. São Paulo: Hucitec. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2009. Cap 14, p. 457 - 468. IAMAMOTO, M. V. Serviço Social em tempo de capital fetiche:

Capital financeiro, trabalho e questão social. 2 ed. - São Paulo:

Cortez, 2008. MARX, K. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo:Boitempo, 2005. NUNES, E. D. A doença como processo social. In: CANESQUI, A. M. (ORG), Ciências Sociais e Saúde para Ensino Médico. SP:

Hucitec/Fapesp, 2000. Cap11 (p.217-2290).

11

4

Apresentação

Vera Lucia Marques da Silva 1

Apresentar um trabalho coletivo, resultado de um grupo

de pesquisa de Instituições de Ensino Superior integradas ao ‘Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania’ foi uma tarefa prazerosa, mas, ao mesmo tempo, de muita responsabilidade. Embora fizesse parte do grupo de pesquisa e tenha escrito um artigo, impus-me a leitura de todos os outros artigos como se fosse de fora. Isso reafirmou-me a dimensão da importância deste trabalho. À apresentação deste trabalho coletivo, coube-me a do texto escrito pelo Dr. José Rodrigues Coura, somando-se, portanto, maior prazer e responsabilidade. Primeiramente, um breve currículo deste grande pesquisador brasileiro, nascido no sertão da Paraíba, que será mais bem conferido pelo seu brilhante Currículo Lattes e

social’ na segunda metade do século XIX, sendo a expressão cunhada na França em 1848. Ou seja, a medicina como campo de conhecimento sempre relacionou a saúde com as condições de vida das populações. Condições de vida nos seus diversos aspectos, como os anteriormente citados (sociológicos, antropológicos, demográficos, epidemiológicos, ecológicos, políticos e ideológico).

Mas, se houve um tempo de aprofundamento da medicina biologicista, a retomada de idéias sobre a Medicina Social foi objeto de documento da OPS, de 1974, quando esse organismo assume que o objeto da medicina social deve ser entendido como “o campo de práticas e conhecimentos relacionados com a saúde como sua preocupação principal e estudar a sociedade, analisar as formas correntes de interpretação dos problemas de saúde e da prática

de

fácil acesso por todos. Cabe ressaltar os mais de 200 trabalhos e

médica” (OPS, 1976). Nesta questão, temos a certeza de estarmos

4 livros publicados. Além de grande pesquisador da doença de

Chagas, da esquistossomose e de doenças parasitárias na Amazônia Brasileira, sempre se dedicou ao ensino médico e à carreira universitária. É neste contexto que se dá a sua relação com a

os

- e pelo projeto de interdisciplinaridade e interinstitucionalidade ao

concretizando este ideário nas ações realizadas no CSEC, além de estarmos realizando ações de assistência curativa. Recuperando a história, encontramos que em trabalho escrito em 1973, o Prof. Guilherme Rodrigues da Silva afirmou

Faculdade de Medicina de Campos, como ele mesmo relata. Assim,

que “

alguns departamentos de Medicina Preventiva passaram a

não poderíamos deixar de relatar o seu ineditismo caracterizado pela inserção dos alunos da medicina, já no primeiro ano, numa comunidade, - Custodópolis, também chamada de “Cidade de Palha”

envolver a Escola de Serviço Social, a Escola de Odontologia e a Faculdade de Direito. Sem sabermos deste primórdio, o Programa Bairro Saudável tem sido uma tentativa do resgate da interdisciplinaridade e interinstitucionalidade. Para mim, particularmente, por me dedicar ao campo da Saúde Coletiva, cabe destacar o nome da disciplina sob a responsabilidade do Dr. José Rodrigues Coura como professor da Faculdade de Medicina de Campos (FMC), nos idos dos anos 60:

adotar, tendencialmente, uma posição potencialmente mais inovadora, uma posição de crítica construtiva da realidade médico- social e da prática da medicina, fundamentada bem mais no modelo de medicina social do que no modelo original de Medicina Preventiva” (SILVA, 1973). Ao lermos o relato do Prof. Coura, temos a certeza de que a disciplina por ele implantada na FMC tinha uma posição como a afirmada acima pelo Prof. Guilherme Rodrigues da Silva. E, temos, mais uma vez, a certeza de que a homenagem a ser prestada ao Dr. José Rodrigues Coura, dando o seu nome ao CSEC, é por reconhecer que, além de inovar enquanto professor da medicina preventiva da FMC, ele inovou ao inserir os alunos na realidade da ‘Cidade de Palha’. O nosso papel, atual, tem

“Medicina Social e Preventiva”. A partir do entendimento de que a Saúde Coletiva tem suas raízes nos projetos preventivistas e da medicina social, ela é um campo de tríplice dimensão: como corrente de pensamento, como movimento social e como prática teórica. Como corrente de pensamento, em termos cronológicos, nos anos 50 se instaura a medicina preventivista, que se reforça a partir dos anos 70 pela medicina social e que vai se estruturando, a partir dos anos 80 até a atualidade, como campo da saúde coletiva. Se no campo do conhecimento, a saúde coletiva passa a incorporar alguns conceitos sociológicos, antropológicos, demográficos, epidemiológicos e ecológicos, no plano político-ideológico ela passa

sido, junto à Direção da FMC, manter esse ideário no CSEC e no Programa Bairro Saudável. E, neste sentido, gostaríamos de destacar o conceito de Medicina Social adotado por Arouca: “como o estudo da dinámica do processo saúde-doença nas populações, suas relações com a estrutura de atenção médica, bem como das relações de ambas com o sistema social global, visando à transformação destas relações para a obtenção dentro dos conhecimentos atuais, de níveis máximos possíveis de saúde e bem-estar das populações” (AROUCA, 1975). Em relação à identidade do grupo de pesquisadores que redundou nesta publicação, esta foi dada pela proposta de dar

a

consolidar a chamada ‘medicina comunitária’ e seus

continuidade a uma pesquisa anterior, desenvolvida pela UFF,

desdobramentos nos programas extra-muros. Às expensas desta cronologia mais atual, sabe-se que a medicina nasce como ‘medicina

que teve como objeto o bairro de Custodópolis. A pesquisa anterior precisava ser aprofundada em algumas dimensões. O

1 Médica, Professora da Faculdade de Medicina de Campos, Pós Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e Coordenadora do Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania (gestão 2009-2013)

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convite para a execução deste projeto foi feito para todas as oito Instituições parceiras do ‘Programa Bairro Saudável’, com participação de quatro: Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense (IFF), Universidade Salgado Filho (UNIVERSO) e Faculdade de Medicina de Campos (FMC). A coordenação do projeto ficou sob a responsabilidade Departamento de Serviço Social de Campos/Universidade Federal Fluminense, através do GRIPES (Grupo Interdisciplinar de Estudo e Pesquisa em Cotidiano e Saúde).

As diretrizes norteadoras do Programa Bairro Saudável foram consideradas no desenvolvimento do projeto de pesquisa, principalmente as que se referem à metodologia, pesquisa-ação, e à interdisciplinaridade, com o esforço de congruência dos diversos olhares sobre o objeto. Portanto, não é um trabalho do serviço social com a arquitetura, com a enfermagem e com a medicina. É um trabalho que se refere a um conjunto de profissionais dessas áreas que fizeram um esforço ao olhar o objeto considerado e ao analisar os resultados encontrados. Outro ponto relevante que demarca a identidade dos autores é o fato de todos terem uma atuação, em algum momento, no Programa Bairro Saudável. Se, por um lado, essa condição os aproxima do objeto pesquisado, por outro, exigiu de cada um dos integrantes um esforço nas análises dos resultados encontrados. No primeiro artigo, ‘Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania’, Vera Marques desenvolve uma apresentação do Programa Bairro Saudável, suas dimensões (antecedentes, inserções, objetivos, conceitos norteadores, método de pesquisa, resultados alcançados após 03 anos de implantação) e os projetos que foram executados desde o início de sua implantação, em 2008, até dezembro de 2011. Ainda, neste artigo, são apresentadas as lições aprendidas no decorrer da execução do projeto, que servirão de reflexões para outros que tenham proposta semelhante. No segundo artigo, ‘Do diagnóstico preliminar ao inquérito populacional: movimentos de investigação em um território vulnerável’, Denise Juncá nos apresenta a estruturação dos passos que foram dados para que fosse construído um diagnóstico socioambiental de Custodópolis. Faz uma análise do grande desafio posto, pois, como a própria autora cita, uma comunidade configura- se como um “objeto de estudo indisciplinado”. A metodologia é minuciosamente detalhada, configurando-se, portanto, um artigo norteador para outras pesquisas a serem desenvolvidas com a dimensão desta. O desafio da interdisciplinaridade e da interinstitucionalidade é claramente descrito e analisado, com exposição das dificuldades ocorridas no decorrer do processo. No artigo ‘O Território de Custodópolis: mapeando memórias e lugares’, de Verônica Gonçalves, os significados e experiências ganham destaque. São conceitos implicados no processo saúde-doença, ou seja, na construção de um bairro tanto no aspecto de sua vulnerabilidade como no aspecto de torná-lo mais saudável. A memória do território Custodópolis é resgatada numa escrita feita por todos que participaram da pesquisa. Uma lição que fica para todos nós: o resgate da memória de um território nos coloca

a dimensão, para o bem e para o mal, do sujeito que somos da história e

se nós assim a fizemos, nós assim poderemos mudá-la. No quarto artigo,’O lugar: entre lembranças do passado e vivências do pesente’,Verônica Gonçalves Azeredo aborda o conceito de território em suas diversas dimensões. Uma delas diz respeito à importância da reconstrução do passado, no qual os sentidos coletivos do passado se contrapõem às vivências da individualidade. A degradação de valores e a decadência das experiências públicas são outros aspectos analisados., além das experiências com a violência e com as diversas formas de sociação. Em ‘Moradia: lugar de apropriações e práticas’ de Isadora Marques de Souza Oliveira, Júlia Lima Araújo, Juliana Peixoto Rufino Gazem de Carvalho, Raphael Mesquita de Aguiar, Regina Coeli Martins Paes de Aquino e Verônica Gonçalves Azeredo, é nos apresentada a dimensão do que seja uma moradia como objeto sinalizador e mediador de relações culturais, sociais e econômicas. O artigo vai mais além, pois descreve suscintamente as condições de habitação dos moradores de Custodópolis, estuda o caso de uma moradia e propõe soluções possíveis de serem realizadas para torná-la saudável. O artigo ‘A questão habitacional e seu entorno em

Custodópolis’, de Katarine de Sá Santos, Késia Silva Tosta e Paula Emely Torres, aborda a questão de que ‘o que reflete os resultados das ações humanas é o produto das relações sociais concretas que se dão no espaço- tempo de determinado território’. Assim, o território como correlação de forças políticas e relações de poder presente na sociedade civil é nos apresentado, colocando-nos, mais uma vez, como responsáveis pelo que nós construimos e pela forma que nós vivemos, como a segregação espacial que tanto caracteriza o nosso país. Os desafios de moradia nesses nichos de segregação espacial são descritos e analisados, merecendo reflexões de todos nós. ‘Na saúde e na doença: um retrato do cotidiano das famílias em Custodópolis’, Adilea Lopes da Silveria, Christovam Luiz Machado Cardoso, Denise Chrysóstomo de Moura Juncá, Ivone dos Santos Magaldi e Késia da Silva Tosta apresentam um retrato das condições de saúde e de doença das famílias de Custodópolis numa abordagem que relaciona as condições de moradia, de empregabilidade, de grau de estudo com a ocorrência das doenças mais comuns na comunidade.

O artigo ‘Caminhos do empoderamento: redefinindo sons, coros

e instrumentos do (com)viver em comunidade’, de Carlos Antonio de

Souza Moraes aborda o conceito empoderamento e ao mesmo tempo o coloca frente a frente à realidade apreendida no trabalho de campo. A

pobreza, por si só, é um estado de desempoderamento, como o artigo nos aponta. Mas, se por um lado nos coloca frente a quase um obstáculo (a pobreza é), por outro lado nos coloca frente a uma possibilidade (é um estado), como faz o artigo ao apresentar estratégias práticas para o desenvolvimento de empoderamento numa comunidade.

O artigo final ‘Uma cidadania esperada: e agora, o que fazer?’,

de Christovam Cardoso, Denise Chrysóstomo de Moura Juncá e Verônica Gonçalves Azeredo apresenta as possibilidades, diante das vulnerabilidades detectadas, de avançar para a construção de um bairro saudável em Custodópolis. Muito há de ser feito. A afirmação do compromisso entre instituições e atores envolvidos tem sido mantida por uns. Para outros, segundo os próprios autores, esse compromisso precisa ser reafirmado.

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5 Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania

1-Introdução

Este artigo tem como proposta a apresentação do ‘Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania’ (PBS), entendo-o como norteador, a partir das suas diretrizes básicas, para os projetos de ensino-pesquisa-extensão das oito Instituições de Ensino Superior que o compõem. Serão apresentadas as diversas dimensões do PBS (antecedentes, inserções, objetivos, conceitos norteadores, método de pesquisa, resultados alcançados e lições aprendidas após 03 anos de implantação) e os projetos que foram desenvolvidos desde o início de sua implantação, em 2008, até dezembro de 2011. Um dos projetos é o que gerou a presente publicação, tendo sido elaborado e executado por quatro instituições: Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto Federal Fluminense de Educação (IFF), Universidade Salgado Filho (UNIVERSO) e Faculdade de Medicina de Campos (FMC). A partir do entendimento de que alguns projetos envolvem intervenções, com consequências, em graus diferentes na comunidade, o tema ‘vigilância’ é abordado numa breve análise. Considerando que grande parte dos projetos de ensino-pesquisa-extensão se realizou na estrutura física do Centro de Saúde Escola de Custodópolis, justifica-se a apresentação desta unidade nas suas dimensões históricas e de atenção à saúde.

2- Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania

2.1-Antecedentes e inserções: município de Campos dos Goytacazes, bairro de Custodópolis e Centro de Saúde Escola de Custodópolis. O município de Campos dos Goytacazes, localizado no norte do Estado do Rio de Janeiro, tem uma história marcada pela produção sucro-alcooleira e, mais recentemente, pela exploração do petróleo, o que pode ser evidenciado pela vultosa injeção de recursos financeiros na região, provenientes dos royalties (Pessanha; Silva Neto, 2004). Atualmente, a história será provavelmente remarcada com a implantação do distrito industrial do Porto do Açu, no município vizinho de São João da Barra, devido à projeção de um crescimento explosivo, com esperadas

Vera Lucia Marques da Silva 1

repercussões no entorno. Diferentes expressões de pobreza caracterizam a história desse município, embora com melhorias em todos os índices de desenvolvimento humano na última década (Campos dos Goytacazes, Perfil 2005: 77). Mesmo com essas melhorias, pesquisas realizadas, também, na última década, demonstraram nichos de desigualdades (Marques da Silva, 2003), que são diluídos quando se analisam somente dados referentes à área total geográfica do município. Na pesquisa realizada por Marques da Silva (2003), analisando a efetividade do Programa Saúde da Família (PSF) no decorrer de 03 anos de sua implantação (1999-2000) foram evidenciadas desigualdades sociais e desigualdades em saúde, em graus consideráveis, ao comparar as áreas cobertas com as áreas não cobertas pelo PSF. Uma das taxas analisadas na pesquisa foi a Taxa de Mortalidade Infantil (TMI). A TMI na área coberta pelo PSF era igual ou muito próxima àquela observada em alguns países pobres da África, apresentando valores de 59,33 para 1000 nascidos vivos. 2 De acordo com o CIDE dos Municípios (CIDE 3 , 2005), Campos dos Goytacazes é a sétima cidade melhor colocada como a menos carente do estado, verificando-se, portanto, que mudanças têm ocorrido, destacando-se, entre outras, a construção de unidades habitacionais, a ampliação da rede de atendimento à saúde e à educação, além da implantação de novos programas sociais. Entretanto, mesmo diante de tais iniciativas e com uma população estimada em 442.363 habitantes (IBGE, 2010), o município atende a mais de 20 mil famílias através de programas de transferência de renda 3 . Partindo-se do pressuposto que tais famílias são compostas por, em média, 03 a 04 pessoas, tais dados levam a admitir que cerca de um terço da população do município enquadra-se na categoria de pobre ou extremamente pobre. Isto pode significar também que muitos programas e ações não têm produzido mudanças favoráveis no perfil desta população. Sua porta de entrada e de saída apresenta, provavelmente, a mesma cara e, “portanto, mantém a pobreza no mesmo lugar: os sujeitos continuam pobres de direitos” (Juncá, 2007:

72). Alguns exemplos deste quadro são encontrados em recentes publicações como o “Diagnóstico das condições sócio-econômicas da infância e juventude de Campos dos Goytacazes” 5 (2006), ou mesmo, na pesquisa “Perfil sócio-econômico das famílias de baixa renda de Campos dos Goytacazes” 6 (2007-2008).

1 Médica, Professora da Faculdade de Medicina de Campos, Pós Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e Coordenadora do Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania (gestão 2009-2013).

2 As áreas escolhidas para serem cobertas pelo Programa Saúde da Família são as consideradas mais vulneráveis.

3 Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro.

4 Estimativa obtida junto à Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Promoção Social em 2006.

5 Diagnóstico elaborado pelo NETRAD/UFF – Núcleo de Estudos em Trabalho, Cidadania e Desenvolvimento, sob a coordenação do Prof. Dr. José Luis Vianna da Cruz.

6 Projeto concluído, fruto de uma parceria da Universidade Federal Fluminense com a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes, tendo na coordenação da produção de dados os seguintes professores vinculados ao GRIPES (Grupo Interdisciplinar de Estudo e Pesquisa em Cotidiano e Saúde): Profª Drª Denise Chrysóstomo de Moura Juncá e Profº Dr. Ronney Muniz Rosa.

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Nas áreas rurais e nos bairros periféricos este retrato mostrou-se mais agravado. Adicionado à condição de desigualdade social e de saúde, constatou-se uma inércia social de longo tempo, demonstrada por ausência de investimentos em infra-estrutura básica (Marques da Silva, 2003). Estas condições geraram reações em algumas comunidades, como em Custodópolis. É o bairro mais antigo de Guarus. Localiza-se a uma distância de sete kilômetros do centro de Campos e é delimitado pelos parques ‘Nova Campos’, ‘São Domingos’, ‘Bonsucesso’, ‘Novo Mundo’e ‘Presidente Vargas’(vide mapa abaixo).

Mais recentemente, em 1999, outras mudanças ocorreram. O Centro Social Universitário se reestruturou como Centro de Saúde Escola de Custodópolis (CSEC), uma unidade de atenção à saúde da Faculdade de Medicina de Campos 8 . Desde então, o Centro de Saúde Escola de Custodópolis tem passado por diversas transformações. Após sua reestruturação, em 1999,

a Faculdade de Medicina de Campos implantou a disciplina “Cuidados

Básicos de Saúde” (CBS), cujo objetivo principal era a inserção precoce

dos alunos na comunidade. A partir de 2002, a disciplina CBS foi incorporada ao eixo “Fundamentos Humanísticos Biopsicossociais Aplicados à Saúde” (FHBS). Esse eixo teve como uma das estratégias de ensino-aprendizagem a prática “Ação Cuidadora da Família”, que mantinha, como um dos principais objetivos, a inserção precoce dos alunos na comunidade, mas com a incorporação dos fundamentos humanísticos a essa prática. A estratégia “Ação Cuidadora da Família” envolveu uma instituição privada de domínio público (Faculdade de Medicina

de Campos com seus docentes), uma instituição pública

de serviço de saúde (Secretaria Municipal de Saúde

com profissionais das 03 Equipes Saúde da Família) e

a comunidade de Custodópolis. Esta estratégia

possibilitou uma experiência na relação ensino-serviço- comunidade que foi fundamental como proto-idéia para a construção do Programa Bairro Saudável, já que alguns profissionais de saúde que fizeram parte desta estratégia continuaram a atuar na unidade CSEC. A partir de 2006, o CSEC ampliou sua reestruturação física e número de profissionais e colaboradores administrativos 9 . A indicação de uma Direção Clínica redundou na reestruturação do projeto pedagógico anterior, ampliando-o, principalmente a partir do reconhecimento de que a população de Custodópolis demandava outras necessidades além das de assistência médica, em que pese a excelência de atendimento que era realizado por médicos docente-assistenciais da Faculdade de Medicina de Campos e por profissionais de saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Campos. Inicialmente, o projeto pedagógico foi composto por duas

diretrizes e quatro conceitos. Essas diretrizes e conceitos são atualmente mantidos, sendo a eles adicionados outros a serem apresentados adiante nesse artigo. A primeira diretriz centrava-se na melhoria da qualidade da assistência à saúde a ser prestada aos moradores do bairro e a segunda enfatizava a vocação desta unidade como um ambiente privilegiado do processo de ensino-aprendizagem para os diferentes profissionais da saúde e áreas correlatas. Em relação às diretrizes, o CSEC passou a se constituir como um espaço de prática para os alunos de graduação dos cursos de Farmácia

e de Medicina da Faculdade de Medicina de Campos estendendo-se,

também, para os cursos de pós-graduação em Saúde da Família e

para os cursos de pós-graduação em Saúde da Família e Mapa 1: Campos dos Goytacazes/RJ, 2005

Mapa 1: Campos dos Goytacazes/RJ, 2005 Fonte: Cidade de palha: diagnóstico preliminar. Campos dos Goytacazes, 2008.

No final da década de 1960, as lideranças de Custodópolis se mobilizaram após vivenciarem por longo tempo problemas referentes à ausência de abastecimento de água e à inadequada localização de fossas rudimentares ao lado de poços caseiros. Algumas faculdades da região se articularam ao movimento comunitário e implantaram o Centro Social Comunitário, posteriormente denominado Centro Social Universitário, em parceria com o MUDES – Movimento Universitário de Desenvolvimento Econômico e Social. Nesta mesma época (1970), foi implantado o “projeto-piloto assistencial integrado, com a participação de universitários de diversas especialidades” 7 , que procurava responder às demandas referentes aos serviços médicos, odontológicos e sociais.

7 Fundação MUDES (http://www.mudes.org.br/home/institucional/default.asp?ID=93&P=27)

8 Faculdade de Medicina de Campos na gestão do Drº Jair Araújo.

9 Faculdade de Medicina de Campos na gestão do Drº Nélio Artiles.

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Gerontologia e Geriatria desta mesma faculdade. À melhoria da qualidade de assistência associaram-se diversas ações de intervenção em uma abordagem de saúde coletiva, destacando

às das áreas de Saúde Integral da Criança, da Mulher, do Adulto,

do Idoso e Saúde Mental. Um dos conceitos norteadores tem sido o ‘CAPITAL

SOCIAL’, entendendo que a parceria ensino-serviço-comunidade

é uma das estratégias que possibilitam o desenvolvimento do

mesmo. De acordo com Putnam (1996), o Capital Social é definido como bem público, envolvendo a confiança e a disponibilidade de normas e sistemas que facilitam as ações cooperativas entre os atores sociais. Como capital, tende a aumentar com o uso e a se esgotar com a não utilização. Os estoques de capital social, como confiança, normas e sistemas de participação, tendem a ser cumulativos e a reforçar-se mutuamente. Segundo o autor, as instituições formais podem possibilitar a mudança da prática política e o desenvolvimento do capital social. Este é entendido como um bem público cada vez mais necessário nas sociedades complexas, onde as vantagens do oportunismo, da trapaça e da transgressão tendem cada vez mais a aumentarem, à medida que prossegue o desenvolvimento econômico. A criação de capital social não é fácil, mas será cada vez mais fundamental para fazer a democracia funcionar. A proposta do CSEC tem sido, desde então, criar uma relação de respeito e confiança, envolvendo os profissionais e colaboradores entre si e entre eles e a comunidade. É uma tarefa difícil que envolve desde ações menores, como o uso racional de papéis e a

não utilização de copos descartáveis, até a discussão de conflitos de relacionamentos humanos e o limite da solicitação indiscriminada de medicamentos e exames pelos pacientes. Outro conceito norteador, associado ao anterior, é o de ‘RESPONSABILIDADE SOCIAL’. Temos, cada vez mais, a convicção de que a participação dos estudantes e professores da universidade no trabalho coletivo a saúde propicia uma formação de profissional mais envolvido com a política de saúde do país e consequentemente uma maior responsabilidade social. Este também é o entendimento de O’Dwyer e Pastrana (2000), segundo os quais o ensino médico não pode estar dissociado do contexto social, pois do contrário estará formando profissional descolado da realidade e distante das necessidades e dos anseios da população. Ou seja, a escola médica deve favorecer o desenvolvimento do compromisso social, procurando atender às necessidades da sociedade em termos de saúde e de tratamento dos problemas. Neste contexto, cabe destacar que uma das diretrizes do Programa de Incentivo a Mudanças Curriculares nos Cursos de Medicina – PROMED foi incentivar a utilização de cenários reais para o processo ensino-aprendizagem e a abertura dos serviços universitários às necessidades do SUS, implicando, portanto, possibilitar maior compromisso social das escolas médicas. Esta tem sido uma tarefa difícil, pois o peso hegemônico do ensino hospitalar, a dimensão do capital simbólico

e financeiro do valor das especialidades, a valorização da

transmissão do conhecimento teórico desarticulado da realidade

da práxis, entre outros, ainda contribuem para a desvalorização do ensino na realidade da prática ambulatorial e comunitária, principalmente quando essa realidade implica uma distância social, cultural e econômica entre profissionais e pacientes. Todas as ações de assistência à saúde e do processo ensino- aprendizagem foram norteados, e continuam sendo, por dois outros conceitos incorporados na estruturação pedagógica do CSEC, quais sejam o da INTERDISCIPLINARIDADE e o de EDUCAÇÃO PERMANENTE. O conceito de Educação Permanente será apresentado

a seguir. A Interdisciplinaridade é norteadora do PBS a partir de que

‘colabora para promover saltos qualitativos que reconfiguram as áreas de conhecimento e propõe muitas outras possibilidades que podem definir novos campos científicos’ (Janine, 2008). Esta afirmação, entre outras, foi um estímulo para a formação das equipes interdisciplinares

que atuam nas ações de intervenção na unidade e para a busca de outros campos de conhecimentos e saberes, busca esta que redundou na idéia de construção do PBS. A interdisciplinaridade é um desafio que, quando, pelo menos, um pouco vencida, redunda em publicações como esta:

uma visão de um pequeno microcosmo social, mas, visto numa complexidade do mundo real, visto por pesquisadores de múltiplos saberes e conhecimentos e com a participação dos sujeitos pesquisados, levando em consideração a utilização da metodologia pesquisa-ação. Atualmente, principalmente após a construção do projeto ‘Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania’ (PBS), a incorporação de suas diretrizes norteadoras e o compromisso de alcançar as metas programadas, o CSEC, como a materialidade estruturante do PBS, consolida-se, cada vez mais, como um espaço de excelência na assistência à saúde e nas atividades de ensino-pesquisa- extensão, o que envolve produção de conhecimentos e reflexão constante de sua práxis. Esse artigo é uma possibilidade de reflexão dessa práxis

e, ao mesmo tempo, do compromisso com a sua publicização.

2.2- A história mais recente Como a própria denominação sugere, o 'Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania' tem como objetivo principal transformar um bairro vulnerável - o bairro de Custodópolis - em um bairro saudável, através de redes inter-institucionais, inter-

disciplinares e de sujeitos cidadãos. A constituição do conceito e do Programa tem uma história a ser descrita. História decorrente do encontro de atores com convergência de idéias num determinado momento. Atores provenientes do CSEC e das Instituições Parceiras. E, principalmente, dos atores que constituíram o PBS em sua fase inicial e da Direção da Faculdade de Medicina pelo apoio constitucional. Considerando essa história, os profissionais de saúde do CSEC, após anos de atuação e de experiência, constataram que somente as ações desenvolvidas de assistência médica nesta unidade não estavam cobrindo satisfatoriamente as necessidades da comunidade de Custodópolis, bairro localizado no distrito de Guarus, no qual a unidade está instalada. Neste sentido, a idéia de Saúde, numa visão ampliada, e

a de Saúde Coletiva foram os primeiros conceitos que marcaram a

trajetória do processo de construção do PBS. Essas idéias continuam atuais, sendo incentivadoras de projetos, como o de alfabetização de adultos (Mova Brasil, em parceria com a Petrobrás e o Instituto Paulo

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Freire e iniciado em março de 2012) e o de Juventude Saudável (iniciado em março de 2012), a ser desenvolvido por três alunos do Projeto Bolsa Trabalho-CSEC. Essas ações sofrem algumas críticas, devido a uma concepção ortodoxa e, ainda arraigada de que uma unidade de saúde deveria apenas se ater ao atendimento de doença, sendo esta apenas de cunho biológico, e não desenvolver ações e atividades de promoção da saúde em âmbitos mais alargados e consoantes com o conceito de determinação social do processo saúde-doença, como se verá mais adiante. Diversos fatores convergiram para a construção do PBS, destacando-se, entre outros: constatação de uma realidade social que demandava outras ações, além das de cunho somente médico- assistencial, como já exposto anteriormente; legitimização do potencial do CSEC que cada vez mais se fortalecia como espaço de ensino-pesquisa-extensão; apoio institucional e efetivo da Direção da FMC; convergência de idéias e contribuições efetivas dos atores representativos das diversas instituições. Justificou-se, assim, o PBS, que objetivou consolidar a ampliação e atuação do CSEC, elaborar um modelo de prática que congregasse os esforços de diferentes instituições de ensino e aperfeiçoar e aprofundar conhecimentos e ações para a melhoria da qualidade de vida da população residente no bairro de Custodópolis e seu entorno. Teve-se como pressuposto o de que tal articulação entre as instituições do ensino superior reforçaria a relevância social e científica da proposta, considerando os impactos que poderia produzir não só no espaço acadêmico, investindo na sintonia entre ensino, pesquisa e extensão, como também na própria experiência a ser vivenciada com a comunidade, através da implementação de esforços para sua passagem de bairro vulnerável para bairro saudável. O PBS constituiu-se, portanto, como um programa interinstitucional e interdisciplinar, integrando diversos projetos de ensino-pesquisa-extensão das 08 Instituições de Ensino Superior:

Faculdade de Medicina de Campos (FMC), Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto Federal Fluminense (IFF), Universidade Cândido Mendes (UCAM), Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), Universidade Estácio de Sá (UNESA), Faculdade de Filosofia de Campos (FAFIC) e Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). O organograma compôs-se de um Coordenador Geral (no momento com um representante da Faculdade de Medicina de Campos), e do Grupo Gestor (formado por um Titular e por um Suplente representando cada instituição parceira). No decorrer de 2007, foram realizadas diversas reuniões com as representações do Grupo Gestor, nas quais se construiu o projeto do PBS e o documento - Termo de Cooperação Técnico- Científico - que instituiu as parcerias institucionais. No documento, assinado em 08 de junho de 2009, com a presença dos Dirigentes das Instituições Parceiras e representantes que formam o Grupo Gestor, destaca-se no parágrafo único:

O Programa Bairro Saudável será desenvolvido mediante projetos de ensino, pesquisa e extensão, que deverão ser norteados pela busca e exercício da cidadania, visando à melhoria da qualidade de vida da população local.

Uma das cláusulas é a respeito de que os projetos deverão ser somente executados após passarem por uma apresentação para todos os componentes do grupo gestor, no sentido de serem analisados quanto à pertinência em relação aos preceitos e conceitos norteadores do Programa, como também de serem publicizados e avaliados em relação às questões éticas das pesquisas. Desde então, alguns projetos apresentados e executados integraram-se no tripé ensino-pesquisa- extensão e outros se situaram em um ou dois dos três componentes, respeitando a vocação de cada Instituição. A exigência que tem sido feita é a de que os projetos sejam balizados pelo compromisso assumido no Termo de Cooperação Técnico-Científico e pelos objetivos, metas, resultados esperados e conceitos norteadores, como descritos a seguir. Estas dimensões serão apresentadas de forma sistematizada, como as são no Projeto. Em relação ao método, sugere-se o de 'pesquisa-ação' sempre que a abordagem do objeto assim o permitir.

3- Objetivos, metas, resultados esperados e conceitos norteadores

3.1- Objetivos

Geral:

Desencadear um processo de transformação de um bairro vulnerável em um bairro saudável na comunidade de Custodópolis, através da criação de um modelo de prática, pautado na interação serviço- comunidade-instituições de ensino superior.

Específicos:

· Fortalecer e expandir as condições de atuação do CSEC.

· Implementar um cenário multidisciplinar de ensino, pesquisa e extensão.

· Realizar um estudo sócio-ambiental da comunidade de Custodópolis.

· Fortalecer a responsabilidade social no processo de formação profissional.

· Estimular o processo de empoderamento e controle social na comunidade de Custodópolis.

3.2- Metas

· Estruturação do pólo interinstitucional e interdisciplinar no CSEC

· Construção de um diagnóstico sócio-ambiental participativo.

· Elaboração e implantação de planos de ações interdisciplinares.

· Consolidação do Pólo na lógica de “Educação Permanente”.

· Instrumentalização das lideranças comunitárias.

3.3- Resultados esperados

· Constituição progressiva de um bairro saudável.

· Consolidação do CSEC como Pólo Interinstitucional, Interdisciplinar e de Educação Permanente.

· Criação de um banco de dados.

· Apropriação pela comunidade do conhecimento produzido e sua habilitação para processar uma atualização permanente do Banco de Dados.

· Produção e publicização de textos científicos.

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· Viabilização da Residência Interdisciplinar em Atenção Básica à Saúde, no CSEC.

· Consolidação das linhas de pesquisa existentes e criação de outras.

· Colaboração técnico-científica com redes brasileiras que atuam na Atenção Básica.

3.4- Conceitos norteadores Os conceitos são considerados balizadores dos projetos a serem desenvolvidos. O que diz respeito ao reconhecimento da importância da educação para a autoformação e para a constituição da cidadania (Morin, 2001) é o de EDUCAÇÃO PERMANENTE. Este é um conceito que tem, cada vez mais, se solidificado, principalmente após os anos 80, quando a OPAS (Organização Pan Americana de Saúde) estabeleceu uma distinção conceitual entre Educação Continuada e Educação Permanente. O Ministério da Saúde incorporou este desafio, instituindo a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde, como estratégia do Sistema Único de Saúde para a formação e o desenvolvimento dos trabalhadores para o setor, através da Portaria nº198/GM/MS de 13 de fevereiro de 2004. Este conceito enfoca a importância da reflexão coletiva da

um direito de cidadania, é entendida como “produção social, processo dinâmico e em permanente transformação” (Meirelles; Erdmann, 2006:

70). Isto significa romper com a setorialização da realidade, tanto no âmbito do conhecimento, quanto da ação, privilegiando olhares e ações interdisciplinares direcionados à qualidade de vida de sujeitos que são protagonistas de seu cotidiano. Portanto, os conceitos de INTERSETORIALIDADE e de VIGILÂNCIA À SAÚDE se impõem nesta visão de saúde e, consequentemente, também, como norteadores para a transformação de um ‘bairro vulnerável’ em um ‘bairro saudável’.

De acordo com Mendes, (1999), a Vigilância à Saúde é uma forma de resposta social organizada aos problemas de saúde, referenciados pelo conceito positivo de saúde e pelo paradigma da produção social da saúde.

O conceito positivo da saúde envolve, por sua vez, uma concepção do

processo saúde-doença mais vinculado à qualidade de vida de uma população, sendo, portanto, um produto social, ou seja, uma aproximação positiva. Por sua vez, o paradigma da produção social da saúde é uma proposta de rompimento com o paradigma flexneriano, este apoiado predominantemente no setor biologicista. Desta forma, o paradigma proposto, além de dar conta de um estado de saúde em permanente transformação (e não uma visão estanque de saúde ou doença), permite

a ruptura com a ideia de um setor exclusivamente biologicista, erigindo-

equipe de trabalho a partir dos problemas reais encontrados na prática

976) afirma: “a Educação Permanente em Saúde constitui estratégia

o

como produto social resultante de fatos econômicos, políticos,

cotidiana. Isso significa assumir a educação na práxis, pela práxis e para a práxis, admitindo-se que os problemas se situam além da

ideológicos e cognitivos. A prática da Vigilância à Saúde parte do reconhecimento de um território, identificando os problemas existentes

racionalidade técnica e estão imersos em redes complexas interpessoais, interinstitucionais e políticas. Como Ceccin (2005:

fundamental às transformações do trabalho no setor para que venha

para, a partir daí, atuar sobre eles com ações organizadas intersetorialmente. Desta forma, a intersetorialidade exige a ação de distintos setores, implicando tomar problemas concretos, de gentes concretas, em territórios concretos. Reconhece-se esta proposta,

à

Saúde, tem sido valorizada neste contexto. É uma dimensão que

a

ser lugar de atuação crítica, reflexiva, propositiva, compromissada

avançando-a no sentido de que a ela seja incorporada excelência no

e

tecnicamente competente”. A Educação Permanente remete, assim,

atendimento à saúde biológica. Ambos os conceitos possuem uma

à

discussão da aprendizagem significativa, à organização e gestão

dimensão além da atuação de um programa como o PBS ou de uma

do trabalho em saúde, propiciando a construção de novas práticas e novos saberes profissionais, elaborando-se estratégias mais efetivas de ação. Está em oposição da prática educacional que Paulo Freire (1987) denominou de ‘Educação Bancária’ em que os alunos são depósitos nos quais os professores jogam informações que devem ser memorizadas e arquivadas. Ou seja, a Educação Permanente constitui-se como uma educação articulada à realidade e as necessidades do grupo social. Outro conceito é o de ATENÇÃO BÁSICA, compreendo-o

unidade de saúde como o CSEC. Sabê-los, no entanto, tem representado um passo importante para cobrar suas execuções em outras instâncias, principalmente às relacionadas ao poder público. A PROMOÇÃO DA SAÚDE, uma das dimensões da Vigilância

comporta uma atuação sobre os determinantes da saúde, considerando, paralelamente, um conjunto de valores que abrangem uma revalorização da vida e uma qualificação dos modos de vida em um determinado contexto, assumindo-se suas dimensões sociais, culturais, econômicas

com “um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo,

e

políticas. Para sua operacionalização, os conceitos discutidos

que abrangem a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação e a manutenção da saúde” (Política Nacional de Atenção Básica, 2006: 10). Seu desenvolvimento deve se processar através de práticas gerenciais e sanitárias democráticas e participativas, valorizando o trabalho em equipe, a delimitação de territórios de ação, a singularidade dos sujeitos, e, orientando-se pelos princípios “da universalidade, da acessibilidade e da coordenação do cuidado, do vínculo e continuidade, da integralidade, da responsabilização, da humanização, da equidade e da participação social” (ibid.). Dentro de tal concepção, a SAÚDE, como expressão de

anteriormente de intersetorialidade e interdisciplinaridade deverão ser incorporados para a melhoria da vulnerabilidade de um bairro. Após um ano de implantação do Programa Bairro Saudável, consideramos que as intervenções a serem realizadas no Bairro de Custodópolis deverão ser norteadas pelo modelo explicativo mais adequado em relação às determinações do processo saúde-doença, e da PROMOÇÃO DA SAÚDE, que é o da proposta de Dahlgren & Whitehead (1991). Este modelo, que incorpora de uma forma sistematizada alguns dos conceitos anteriores e o de PARTICIPAÇÃO, está sendo o norteador do Projeto Família Saudável. O conceito EMPODERAMENTO, a ser discutido mais

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profundamente em outro artigo, está implicado, de uma maneira resumida, no mecanismo através do qual as pessoas, organizações e comunidades tomam controle de seus próprios assuntos e de sua própria vida, desenvolvendo uma consciência da sua habilidade e competência para produzir, criar e gerir. A partir de tais considerações é possível, então, apontarmos para a discussão em torno da expressão CIDADE SAUDÁVEL, aproximando-a da proposta de BAIRRO SAUDÁVEL assumida neste projeto. Mendes (1996) considera que o tema sinaliza “um projeto estruturante do campo da saúde”, onde diferentes atores, ou seja, o governo, as organizações da sociedade civil e organizações não governamentais articulam uma “gestão social” direcionada para transformar a cidade em um espaço de “produção social da saúde”. Em termos operacionais, tal perspectiva implica o compromisso dos cidadãos e organizações locais na direção de um processo contínuo de melhoria das condições de saúde e bem estar dos habitantes – melhoria contínua e não ponto de chegada. O que se assume aqui é a saúde em sua positividade, articulada à geração de processos participativos, sociais e institucionais, na direção de políticas públicas saudáveis, removendo determinações ambientais, socioeconômicas e culturais associadas às enfermidades. Trata-se de uma opção que implica a postura permanente de trabalhar as políticas de forma integrada, admitindo-se as inter-relações existentes entre saúde, educação, habitação, saneamento, transporte, lazer e tantos outros aspectos, que compõem a vida dos sujeitos inseridos em determinados territórios. Mais uma vez, assumimos o desafio de estarmos sendo norteados por esses conceitos, sabendo-os como imagem objetivo para a busca da transformação de um bairro vulnerável em um bairro saudável, numa condição não puramente econômica que, embora importante, não representa a única variável de qualificação de um território na condição desejada.

4- Projetos implantados Considerando os três anos do PBS, vários projetos das Instituições parceiras foram implantados. Nem todos os projetos objetivaram o desenvolvimento de ensino-pesquisa-extensão. Alguns são essencialmente de pesquisa, outros de extensão e outros de

Os projetos de ensino-extensão foram incorporados, na sua maior parte, como estágios de prática para os alunos das diversas instituições parceiras. Estes projetos contribuíram e têm contribuído para fortalecer e expandir as condições de atuação do CSEC e para que esta unidade se consolide como um cenário multidisciplinar de extensão. Os projetos e os respectivos estágios realizados até o momento foram os decorrentes das seguintes instituições envolvendo as categorias profissionais abaixo descritas:

1- Diversos estágios foram realizados até o momento:

enfermagem (UNIVERSO), fisioterapia (UNESA), serviço social (UFF), farmácia (FMC), movimento corporal e artístico (FAFIC), saúde coletiva (FMC), saúde da mulher, da criança, do homem, do

idoso (FMC, saúde da família e saúde mental (FMC).

Os projetos de pesquisa já executados pelas Instituições parceiras foram:

1- Significarte: tecendo significados por meio da arte, ciência e tecnologia. Integrantes: Vânia Machado Seabra Puglia, Tássia Silva Nunes Pereira, Jéssica Luiza da Silva Oliveira, Raquel de Lima e Cirne Vieira, Antônio Carlos da Silva Souza. Objetivo: O Projeto SignificARTE, dentro de uma perspectiva inter e transdisciplinar e no âmbito de um programa extensionista, junto a crianças e adolescentes em situação de risco social, busca por meio das potencialidades da sustentabilidade incorporar às situações reais de ensino e aprendizagem de forma interativa e lúdica. Ancorada num ambiente artístico-cultural de aprendizagem, conceitos da sustentabilidade são aplicados, experimentados estabelecendo-se a relação do sujeito com o objeto de aprendizagem. Metodologia: Utiliza- se como proposta metodológica a pedagogia de projetos, que busca por meio da interação e da construção coletiva e cooperativa, numa perspectiva inter e transdisciplinar, uma estratégia de inter-relação, integração dos atores envolvidos a construção e reconstrução de saberes e conhecimentos. Todo esse processo exige uma nova abordagem teórica, centrada na valorização do conhecimento que signifique “aprender a buscar o saber” - novas formas de aprender fundamentadas muito mais nos sentidos, sentimentos, valores e emoções. Resultados e Discussão: A proposta de utilização da arte-educação como instrumento de ação/intervenção tem contribuído para a quebra de paradigmas, rompendo com a padronização. Tem possibilitado a criação de espaços de comunicação, de expressão das pessoas. Instrumento de representação da realidade, e, principalmente de transformação de “seus mundos”. O projeto teve como resultados positivos o envolvimento de 25 (vinte e cinco) crianças e adolescentes, podendo-se observar a participação dos mesmos nas oficinas temáticas sobre sustentabilidade. Conclusões: Os resultados indicam que é possível implementar um projeto social, embora possam ocorrer uma série de dificuldades, tais como infraestrutura física e tecnológica disponibilizada pela instituição, instabilidade na frequência das crianças e adolescentes nas oficinas (em função do momento político por exemplo algumas crianças e ou adolescentes estão faltando para “trabalhar” na campanha política). Foram encontradas as seguintes possibilidades pedagógicas: rodas de conversas no início e final das oficinas; aproveitamento de situações concretas surgidas nas oficinas para discutir valores; procedimentos que valorizam a participação ativa na resolução de conflitos. Os resultados deste estudo permitem apontar para a expectativa de que haja possibilidades de um programa mais efetivo e eficaz no âmbito de um projeto social.

2- Conceitos e percepções da terceira idade sobre DST e AIDS Integrantes: João Carlos de Aquino Almeida e colaboradores. Objetivo: Estabelecer uma relação dialógica com os grupos investigados, captar seus conceitos e percepções sobre sexualidade, reprodução e desenvolvimento embrionário e, a partir daí, desenvolver

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materiais e metodologias relacionados ao desenvolvimento desse tema em cenários formais e não-formais de ensino-aprendizagem, de modo a: a) Registrar os conceitos e percepções de indivíduos da terceira idade sobre os temas investigados, com o auxílio de uma equipe multidisciplinar; b) Discutir propostas de ensino a fim

de se detectar a significância dos temas para os sujeitos da pesquisa; c) Produzir material didático significativo e preciso; d) Desenvolver metodologias apropriadas de ensino-aprendizagem; e) Obter um ganho real no processo de ensino-aprendizagem, avaliado pelos indicadores criados no desenvolvimento do Projeto. Método:

trabalho investigativo, mediante a aplicação de questionários, realização de entrevistas, palestra e debates com o grupo de terceira idade. Fases do projeto: a) Realização de reuniões com os próprios sujeitos da pesquisa, a fim de se explicar os objetivos do projeto e de se obter autorização para participação, mediante preenchimento de termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), e termo de autorização para uso da imagem, quando for o caso; b) Aplicação de questionários; c) Realização de entrevistas, debates e mesas- redondas, em diferentes momentos e com diferentes atores envolvidos (membros da terceira idade, líderes comunitários, equipe); d) Criação de material didático; e) Avaliação do material didático pelos participantes; f) Criação de kits didáticos; g) Criação

e aplicação de aulas e outras estratégias visando o processo de ensino-aprendizado; h) Avaliação da fixação de conceitos; i) Avaliação dos participantes sobre o projeto

3-Prevalência da Doença Renal Crônica e fatores de risco associados nos idosos do Programa Idoso Saudável, Campos dos Goytacazes-RJ. Integrantes: João Carlos Borromeu Piraciaba, Vera Lucia Marques da Silva, Tamires Teixeira Piraciaba, Amanda Freire de Almeida, Laila Crespo Lamônica, Monique do Vale da Silveira, Renata de Almeida França, Maria Clara Teixeira Piraciaba, Laisse Marins Defanti, Rachel Siqueira de Menezes. Objetivo: Avaliar prevalência e grau de lesão renal em idosos

participantes do Grupo Idoso Saudável, RJ, associando-os aos fatores de risco. Método: estudo observacional transversal, com amostra não-probabilística de conveniência composta por 57 idosos, de ambos os sexos. O grau de função renal foi quantificado pela fórmula de Cockcroft-Gault e estadiado segundo os critérios do National Kidney Foudation. Resultados: Dos 58 idosos investigados, 31% encontraram-se no estágio I da DRC; 25,8% em estágio II; 34,5% em estágio III; 5,1% em estágio IV; 1,7% em estágio V. No estágio I encontrou-se 66,7% obesos, 72,2% HAS e 38,9% DM. No estágio II: 33,3% são obesos, 73,3% possuem HAS

e 26,7% possuem DM. No estágio III: 15% são obesos, 90%

possuem HAS e 40% possuem DM. No estágio IV: 66,7% possuem HAS, neste estágio não foram observados idosos com DM e/ou obesidade. No estágio V: 100% possuem DM e HAS, porém não foram observados obesos. CONCLUSÃO Detectou-se 25,8% dos

idosos em estágio II e 34,5% em estágio III da DRC, sendo a HAS

o fator de risco associado mais encontrado. Torna-se fundamental, portanto, a detecção precoce e o controle dos fatores de risco

associados à DRC, além da identificação precoce nas alterações na Taxa de Filtração Glomerular em idosos, a fim de instituírem-se medidas preventivas capazes de impedir e/ou reduzir o avanço da DRC, como programas de controle de fatores de risco modificáveis. 4-Impacto de um grupo interdisciplinar de atenção à saúde do idoso sobre os fatores determinantes da capacidade funcional Integrante: Raphael Freitas Jaber de Oliveira, Vera Lucia Marques da

Silva

Objetivo: Avaliar a efetividade das ações do grupo interdisciplinar que

atua sobre os idosos. Método: Entrevistas livres com 60 idosos pertencentes ao GIS e 60 idosos não pertencentes ao GIS do bairro de Custodópolis utilizando as escalas de Katz, Lawton e Tinetti e a

Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. Para análise comparativa utilizamos

o software EpiInfo. Resultado: Em relação ao perfil dos idosos da

comunidade: os idosos do GIS apresentaram idade média mais elevada;

o sexo feminino representou a maioria nas amostras; a análise do perfil

socioeconômico demonstrou, predominantemente, baixa escolaridade, atividade laboral de intensa exigência física e, economicamente, beneficiários de um salário mínimo proveniente da aposentadoria. Em

relação à avaliação funcional: a análise comparativa dos fatores de risco de há um ano e sete meses atrás e da atualidade dos idosos do GIS demonstrou diminuição nos percentuais de obesidade, etilismo e tabagismo, representados por queda de, respectivamente, 25%, 16,7 e 8,4%. O perfil patológico dos idosos do GIS ilustrou uma transição com queda de pelo menos 3,4% em todas as patologias, destacando-se hipertensão arterial, diabetes melito tipo 2 e depressão, com valores de 21,6%, 15% e 11,7%, respectivamente. Nos idosos pertencentes ao GIS,

a avaliação das atividades de vida diária, atividades instrumentais de

vida diária e habilidades de equilíbrio e caminhada demonstrou melhora, respectivamente, de 20,0%, 18,4% e 8,3% em comparação ao outro grupo. Diante destas alterações, 71,6% dos idosos participantes do GIS referem ótimo estado de saúde. Conclusão: Conclui-se que, apesar das vulnerabilidades sociais, ambientais e econômicas, características do bairro de Custodópolis, o GIS pôde intervir nesta realidade, oferecendo

à população idosa a prática regular de atividade física, educação em

saúde, aferição da pressão arterial, medição da glicemia e aconselhamento nutricional, que proporcionaram prognóstico positivo para a saúde dos idosos, que se concretizaram na melhora da capacidade funcional.

5- Perfil e avaliação soroepidemiológica da toxoplasmose em idosos no programa da terceira idade do Centro de Saúde Escola de Custodópolis, em Campos dos Goytacazes, RJ. Integrantes: Meire Cardoso da Mota Bastos, Monique do Vale da Silveira, Nathália Mota de Faria Gomes, Dr. Ricardo Guerra Peixe, Dra. Annelise Wilken de Abreu, Doença infectocontagiosa causada pelo Toxoplasma gondii, em geral, assintomática em 10 a 20% dos imunocompetentes. As manifestações clínicas decorrem de sua reativação em imunocomprometidos. O idoso em decorrência de mudança no sistema imunológico pode desenvolver doenças infectocontagiosas (Netto, 1996). Dados recentes revelam a alta prevalência da toxoplasmose na cidade de Campos dos Goytacazes comprovando que a idade é um importante fator de risco para esta doença,

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e ainda o uso de água não filtrada e/ou de poços, e a presença de gatos no domicílio. Objetivo: Estudar, mediante análise soroepidemiológica, a toxoplasmose nos idosos atendidos pelo Programa da Terceira Idade do Centro de Saúde Escola de Custodópolis (CSEC), no Município de Campos dos Goytacazes-

RJ, visando contribuir para um melhor entendimento da doença nesta população. Método: Estudo observacional transversal, realizado em 2009 com amostra não probabilística. Foram avaliados 52 idosos, ambos os sexos, atendidos no CSEC. A variável principal, ter toxoplasmose, foi avaliada através da presença da imunoglobulina

G (IgG) específica no sangue periférico. Os fatores de risco foram

avaliados por entrevista com uso do protocolo de pesquisa contendo

as seguintes variáveis: sexo, idade, tipo de residência, prática de

jardinagem e exposição a animais, à água e aos alimentos. A análise dos dados foi estatística. Resultados: A amostra era formada por 9,62% de homens e 90,38% de mulheres, idade média de 67,63. Dos 52 idosos analisados, 92,31% eram IgG positivo para Toxoplasmose. Dos fatores de risco associados, 100% dos idosos moravam em casa; 78,85% mexiam em jardins; 78,85% possuíam

animais; 44,23% bebiam água não filtrada; 19,23% consumiam carne

de boi e/ou de galinha mal passadas; 59,62% consumiam legumes e/

ou verduras cruas. Conclusão: A prevalência de toxoplasmose foi bem alta nesta população, em acordo com Bahia de Oliveira et al. (2002) que mostrou que aos 40 anos 80% da população local apresentou toxoplasmose. A mudança no sistema imunológico observada no geronte levanta a possibilidade de reativação da

toxoplasmose nesta faixa etária. Os dados observados permitirão ainda um melhor acompanhamento prospectivo dos idosos e o delineamento de estratégias de saúde pública.

promoção de melhorias na saúde (Meirelles; Erdmann, 2006) de seus moradores, investindo-se no exercício da cidadania deliberativa (Tenório, 2006). Método: A primeira fase do projeto (2008) fundamentou-se no desenvolvimento de uma pesquisa-ação, articulada à história oral e análise documental, culminando com a elaboração de um diagnóstico preliminar da comunidade, disponibilizado tanto a própria comunidade, quanto as instituições parceiras do PBS. Em seguida (2009 e 2010), foi realizado um inquérito populacional, cuja importância como canal de informações é reconhecida, principalmente, no campo da saúde (Viacava, Dachs; Travassos, 2006), uma vez que se constitui como fonte primária de dados e propicia a construção de indicadores capazes de instrumentalizarem estudos epidemiológicos, sinalizando parâmetros para o planejamento de ações. Buscava-se, portanto, um aprofundamento

das discussões sobre o território (Santos, 2007) investigado, focalizando

o cotidiano das famílias e observando-se as indicações de Busso (2002,

p.12), sobre as principais dimensões da vulnerabilidade, ou seja, de habitat, de capital humano, econômica, de proteção social e de capital social. Atingiram-se mais de 50% das famílias residentes no território pesquisado e, ainda em 2010, foi iniciada a tabulação, análise e interpretação dos dados, bem como a elaboração do relatório, concluído em 2011. Resultado: O diagnóstico apontou uma paisagem caracterizada

por um “processo de descidadanização” (Kovarik, 2003), pondo em destaque situações e contextos onde três elementos se combinam: a existência de riscos, a incapacidade de reação, além de dificuldades de adaptação face à materialidade do risco (Moser, 1998). Conclusão parcial: Com um olhar voltado para o passado e com um presente permeado por contradições, Custodópolis vivencia um confronto entre

o cenário real e o desejado, com vulnerabilidades em várias dimensões, desenhando modos de vida que precisam ser redimensionados pela via de empoderamento (Stromquist, 1997).

6-Cidade de Palha: re-conhecendo o território de Custodópolis/ Campos dos Goytacazes/RJ. Integrantes: Denise Chrysóstomo de Moura Juncá, Katarine Sá Santos, Verônica Gonçalves Azeredo, Carlos Antônio de Souza Moraes, Marilene Parente Gonçalves, Ana Paula Pessanha Cordeiro, Ellen Christel Gomes Moraes, Josemara Henrique da Silva Pessanha,

7-Prevalência de Anemia e estadiamentos da Doença Renal Crônica em idosos portadores de Diabetes Mellitus e pertencentes ao Programa Idoso Saudável, Campos-RJ. Integrantes: Meire Cardoso da Mota Bastos, Monique do Vale da Silveira, Nathália Mota de Faria Gomes, Annelise Maria de Oliveira

Celma Cristina Morais de Oliveira Batista, Paula Emely Cabral Torres, Aline da Silva Viana Jorge, Késia da Silva Tosta, Vera Lucia Marques da Silva, Igor Leal Pena, Christovam Cardoso, Regina Coeli Martins Paes de Aquino, além de aproximadamente 50 acadêmicos

Wilken de Abreu. Objetivo: estimar a prevalência de anemia em idosos portadores de DM do Programa Idoso Saudável, correlacionando o comprometimento do DM com o estágio da DRC, estabelecido pelo National Kidney

da

UFF, IFF, FMC e UNIVERSO.

Fondation (NKF). Método: O delineamento foi transversal, com amostra não-probabilística de conveniência, observando 57 idosos = 60 anos,

O

projeto Cidade de Palha, inserido no PBS, consiste em uma

de ambos os sexos, em estudo realizado em 2009. A anemia foi avaliada

experiência interdisciplinar e interinstitucional, envolvendo docentes

através da hemoglobina (Hb), parâmetro mais utilizado como indicativo

discentes do ensino superior das áreas de serviço social, medicina, enfermagem e arquitetura e urbanismo. Trata-se de uma proposta de pesquisa e extensão que busca responder às seguintes questões: Como

e

das consequências fisiopatológicas da anemia (WHO, 2001). Foram considerados portadores de anemia aqueles com índices de Hb = 14,5g/ dL. Resultados: a prevalência de anemia em pacientes com DM situou-

se

desenham as vulnerabilidades socioeconômicas, ambientais e civis

se em 36,8%, com variação dos níveis de Hb entre 11,6 e 14,3g/dL. Dos

existentes em Custodópolis e que influências elas exercem no sentido

idosos com anemia e DM, 30% foram classificados em estágio I da

de

dificultar sua constituição como um bairro saudável? Objetivo:

DRC, 40% em estágio II, 25% em estágio III, 5% em estágio IV e nenhum

Construir um diagnóstico sócio-ambiental do bairro, disponibilizando subsídios para a implementação de estratégias direcionadas à

em estágio V. Dos idosos apenas com anemia, 36,8% foram classificados em estágio I da DRC, 38,6% em estágio II, 21,1% em estágio III, 3,6%

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em estágio IV e nenhum em estágio V. Dos idosos com DRC e anemia, 43,6% possuem história familiar de DM (HFamDM), sendo

que destes 45,8% possuem DM enquanto 54,2% não a apresentam. Dos idosos com HFamDM e DM, 18,2% encontram-se em estágio I, 45,5% em estágio II, 36,6% em estágio III e nenhum em estágio

IV e V. Já os idosos com HFaDM mas sem DM foram classificados:

46,2% em estágio I, 30,8% em estágio II, 15,4% em estágio III, 7,7% em estágio IV e nenhum em estágio V. Portanto, 96,6% dos idosos apresentavam anemia; 36,5% além da anemia apresentavam DM, dos quais 30% foram classificados em estágio I da DRC, 40% em estágio II, 25% em estágio III e 5% em estágio IV; daqueles

com anemia e HFamDM 54,2% não apresentavam DM por isso, devem ser acompanhados preventivamente.

8-Avaliar para educar e prevenir: a participação dos alunos numa pesquisa comunitária e focada na saúde do idoso Integrantes: Nathália Mota de Faria Gomes, Meire Cardoso da Mota Bastos, Leonardo Alvim Silva Machado, Isabela Oliveira Alves de Souza, Amanda Ferreira Barcelos, Milena de Oliveira Junqueira, Renata Magliano Marins, Igor Leal Pena, Nélio Artiles Freitas, Vera Lucia Marques da Silva. Desde a segunda metade do século XX, vem ocorrendo um aumento

da expectativa de vida na população mundial. Estima-se que até

2050 os idosos corresponderão a 19% dos brasileiros. Torna-se

fundamental, portanto, detecção precoce das doenças nessa faixa etária e conhecimento dos profissionais de saúde a respeito das mesmas. Objeto da intervenção: Inserção dos alunos da Faculdade

de Medicina de Campos, sob orientação do professor, na pesquisa

Rastreamento da prevalência da doença renal crônica num grupo

relatada: o contato dos futuros profissionais de saúde com essa faixa etária e a detecção precoce das doenças na mesma.

9-Grupo de recepção: uma estratégia de cuidado em saúde mental

na atenção básica e de ensino para alunos de medicina Integrantes: Roberto Carvalho Alves Filho, Bianca Bruno Bárbara, Dirlei da Silva Rosa, Regina Ribeiro Rangel, Tânia Lúcia Viana da Cruz Terra, Nélio Artiles Freitas, André Borges Gomes, Cláudio Rodrigues Teixeira, Vera Lucia Marques da Silva. Esta experiência, Grupo de Recepção, fruto de um trabalho em andamento no Centro de Saúde Escola de Custodópolis - Unidade Básica de Saúde ligada à Faculdade de Medicina de Campos – tem como focos principais

e concomitantes a assistência à comunidade daquele entorno e formação

acadêmica. Iniciou-se em 2006, dirigida aos portadores de transtornos psíquicos e conduzida por equipe interdisciplinar composta por dois

médicos psiquiatras, assistente social, dois psicólogos, musicoterapeuta

e terapeuta ocupacional. É um espaço de ensino-aprendizagem para alunos

do 5° ano da referida faculdade, como parte das atividades do internato em Saúde Coletiva. Este projeto faz parte do Programa Bairro Saudável. Objeto de intervenção: Questões de saúde mental na atenção básica e na formação dos alunos do curso de medicina. Objetivos: Cuidados iniciais e encaminhamentos dos portadores de transtornos psíquicos e dependentes químicos, possibilitando subjetivação das questões de saúde; ênfase de tais questões como parte essencial na formação geral dos futuros médicos; interlocução entre equipe de saúde mental e demais profissionais da atenção básica, e os dispositivos comunitários. Metodologia:

Atendimentos semanais em grupo, com média de seis pacientes, duração de 1h e 30min, coordenados por profissionais de saúde mental, seguidos por discussões teórico-práticas com os alunos. Análise crítica:

de

idosos do Centro de Saúde Escola de Custodópolis (CSEC),

Comprovaram-se benefícios para os pacientes, principalmente

organicista. Porém, esta experiência tenta desestabilizar e ampliar sua

Constitui-se em espaço de atendimento valioso para a atenção comunitária,

Campos dos Goytacazes-RJ. Pesquisa inserida no Programa Bairro Saudável, desenvolvido por 08 instituições de ensino superior, inclusive por esta faculdade. Objetivos: Oportunizar contato dos alunos com a comunidade, especificamente com os idosos;

realização de ações educativas em relação à DRC; avaliar dano e grau da função renal; estabelecer o perfil e os fatores de risco deste grupo; favorecer a melhoria da situação de saúde deste grupo. Descrição da metodologia: Inicialmente, realizada exposição dos objetivos da pesquisa pelos alunos ao grupo de idosos, solicitando consentimento e esclarecendo os benefícios da mesma. A segunda etapa constou de aplicação do questionário já validado e realização

considerando as dificuldades encontradas na rede municipal. Em relação aos alunos, a experiência mostra que suas resistências traduzem a estranheza de tais questões, sugerindo uma formação inicial de cunho

visão sobre o paciente e sobre a clínica a ser feita com este. Conclusão:

uma vez que é consonante com as atuais diretrizes de atenção em saúde mental, numa visão de saúde coletiva. Recomendações: Esta estratégia é viável para a ampliação do cuidado em saúde mental e para a inclusão de reflexões que ultrapassem a dualidade corpo-mente, tanto na formação dos futuros médicos, como para a clientela atendida.

do

exame físico. A terceira etapa é a de realização de exames

laboratoriais. Conclusão e recomendações: A estratégia de uma

10-Papel da Liga Acadêmica de nefrologia na prevenção da doença

pesquisa inserida numa comunidade e, especificamente, num grupo

renal crônica

de

idosos, traz benefícios tanto para o grupo em questão quanto

Integrantes: Tamires Teixeira Piraciaba, Amanda Freire de Almeida,

para os alunos, seja no sentido de maior humanização da profissão, seja na ampliação do conhecimento e na sua disseminação para todos os envolvidos. Considerando o objetivo de proporcionar a

Laila Crespo Lamônica, Monique do Vale da Silveira, Renata de Almeida França, Maria Clara Teixeira Piraciaba, Laisse Marins Defanti, Rachel Siqueira de Menezes, João Carlos Borromeu Piraciaba, Vera Lucia

melhoria da qualidade de vida dessa população, conforme rezam

Marques da Silva.

as

diretrizes do Plano Internacional de Madrid, atualmente

A

doença renal crônica (DRC) é um grande problema de saúde pública.

incorporado pelo governo brasileiro, urge, pelo menos, a

O

gasto com diálise e transplante no Brasil é de cerca R$1,4 bilhões/

implantação de duas estratégias fundamentais, como a experiência

ano. Detecção precoce reduz o sofrimento dos pacientes e os custos

financeiros. Portadores de hipertensão arterial (HA) e de diabetes mellitus têm maior probabilidade de desenvolverem a doença. Objeto de intervenção: Participação de jovens universitários em pesquisa e extensão na área de nefrologia e saúde pública. Objetivos: Relatar a experiência da Liga Acadêmica de Nefrologia (LANefro) da Faculdade de Medicina de Campos (FMC) em Campos dos Goytacazes/RJ, na prevenção da DRC. As Ligas objetivam prevenção de doenças e promoção da saúde através de campanhas preventivas e mutirões; desenvolvimento de atividades educativas na comunidade e ampliar o aprendizado e oportunizar a práticas destes ensinamentos em prol da comunidade, com projetos

de ensino, pesquisa e extensão. Metodologia: A LANefro é uma

entidade acadêmica,civil e sem fins lucrativos,formada por estudantes da FMC.Objetiva criar oportunidades de trabalhos científicos e sociais sob a tutoria de um docente.Há reuniões semanais teóricas e participação em campanhas preventivas, pois

Ligas não devem ser apenas um grupo de estudo sobre determinado tema. Resultados: A Liga participou da campanha “PREVINA-SE”

no Dia Mundial do Rim de 2009. Aferiu-se a pressão arterial e a

glicemia capilar de cerca de 500 pessoas. Esta Campanha é feita pela Sociedade Brasileira de Nefrologia, que disponibiliza panfletos

didáticos. Participou do Dia Mundial da Hipertensão Arterial com a Liga de Cardiologia. Foram atendidas cerca de 100 pessoas num parque da cidade. As pessoas receberam orientação sobre a HA. A Liga também age na comunidade de Custodópolis realizando campanhas de prevenção e medindo a função renal de idosos. Análise crítica e conclusão: O desenvolvimento de qualquer ação

de intervenção social no controle da DRC é de importante impacto

na saúde pública, devido às consequências epidemiológicas negativas da doença e seu alto custo. A participação das Ligas nas ações

preventivas, norteadas pelo senso de transformação social, permite que jovens desenvolvam o exercício da cidadania. Recomendações:

A ação das Ligas é uma estratégia com enorme potencial para a

melhoria continuada da nefrologia e da saúde da população.

11-Uma experiência multidisciplinar no grupo de idosos. Integrantes: Igor Leal Pena, Luis Fabiano Cabral Rios, Dione Baptista do Amaral Sardinha, Giselle Cereja de Alencar, Ruth Paes, Gabriella Sarruf Abreu, Vera Lucia Marques da Silva Em 2006, foi implantado no Centro de Saúde Escola de Custodópolis

(CSEC) no grupo Idoso Saudável, coordenado por uma equipe multidisciplinar composta de enfermeiro, geriatra, gerontologo, assistente social, fisioterapeuta e arteterapeuta. Este projeto, inserido no Programa Bairro Saudável, de cunho interinstitucional e interdisciplinar, é desenvolvido pela Faculdade de Medicina de Campos em parceria com 08 instituições de ensino superior do município, no qual se desenvolvem ações de ensino, pesquisa e extensão, além das ações de intervenções próprias de uma unidade

de saúde. Esta experiência de 2 anos tem sido fruto de análises pela

equipe no sentido de avaliar os alcances e limites desta estratégia

inserida no campo da saúde coletiva. Objeto de intervenção:

Melhoria da saúde integral dos idosos da comunidade de

Custodópolis e enfrentamento da práxis da interdisciplinaridade. Objetivo: Promover saúde física, mental e social das pessoas idosas lançando mão das possibilidades existentes no CSEC; refletir sobre os desafios da interdisciplinaridade. Metodologia: Desenvolvimento de ações de promoção, prevenção, curativas e de reabilitação semanalmente junto ao grupo de idosos; reuniões mensais da equipe para reflexão, avaliação e planejamento das ações. Análise crítica e conclusões: A avaliação desta estratégia de 2 anos aponta aquisição da compreensão do processo saúde doença numa visão de saúde coletiva, tanto pelos profissionais envolvidos como pelos idosos e, consequentemente para estes, maior adesão aos procedimentos terapêuticos, aquisição de hábitos

alimentares mais saudáveis, entre outros. Tem sido um espaço de reflexão do processo de envelhecimento tanto para os profissionais como para idosos. Recomendações: A práxis da interdisciplinaridade é uma estratégia possível, necessária e fundamental para a reflexão sobre a possível melhoria da qualidade de vida dos envolvidos. No caso especifico, para

os idosos e os diversos profissionais.

12-Fitoterapia popular e patrimônio cultural imaterial sobre plantas medicinais. Integrantes: Zerrenner, D. R.; Lemos, G.C.S.; Sandra Machado Ribeiro Vohryzek; Vera Lucia Marques da Silva. Graduanda/IC; Curso de Farmácia - FMC - Campos dos Goytacazes, RJ, Brasil (glorial.fmc@gmail.com)

O reconhecimento das terapias tradicionais pela OMS na década de 80

contribuiu para o estabelecimento da Política Nacional de Plantas

Medicinais e Fitoterápicos – PNPMF, incentivando a inserção do setor

de plantas medicinais e fitoterápicos no Sistema Único de Saúde - SUS.

No Brasil, é comum a falta de consenso entre nomes populares e certas

espécies medicinais, atribuindo-se à possíveis falhas na transmissão oral do conhecimento para novas gerações ou às novas influências culturais na sociedade moderna. Objetivo: Este trabalho visa avaliar o reconhecimento de diferentes espécies de plantas medicinais por usuários do Centro de Saúde Escola de Custodópolis da Faculdade de Medicina

de

Campos, em Campos dos Goytacazes, RJ, por meio da apresentação

de

fotografias de espécies conhecidas polularmente como quebra-pedra,

pata-de-vaca e arnica. Resultados: Entre os oitenta e sete participantes solicitados que indicassem as referidas espécies em fotografias, prevaleceram Euphorbia prostrata, Bauhinia variegata e Eupatorium maximillane que não constam da literatura como plantas medicinais em relação àquelas que constam majoritariamente (P. niruri, B. forficata e S. microglossa). Este conhecimento é de tradição familiar

de origem local (82%) e agrícola (30%), predominando entre usuários

femininos (93%), viúvas (44%), com mais de 70 anos (44%), e escolaridade primária (47%) e que apesar da maioria ter acesso ao medicamento convencional ou “de farmácia” (76%) mantêm o uso do remédio caseiro por diversas motivações subjetivas, destacando-se a tradição familiar (63%), sendo o chá a única forma de uso citada. Conclusão: Os resultados indicam a importância do registro etnobotânico fidedignino sobre plantas medicinais para o resgate e a preservação do patrimônio cultural imaterial relativo às plantas medicinais. 13- Plano Diretor Urbano Sustentável

23

Integrantes: Claudio Francisco Correa Valadares (Coordenador do Curso de Arquitetura e Urbanismo – UNIFLU –CAMPUS II); Yves Henrique (Supervisor do Escritório Modelo – EMAU- UNIFLU-CAMPUS II); Lidia Maria Tavares Martins (Professora da Disciplina de Projeto urbano II). A concepção urbanística contemporânea deve contemplar

uma visão holística sobre as cidades, colocando-se como parâmetro alternativo e inovador para novas ideias e concepções atendendo aos princípios constitucionais. Agregar valor e iniciativas dinâmicas deve ser o objetivo destas ideias, no que concerne à revitalização urbana, visando atender aos direitos sociais constitucionais que são:

“A educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção a maternidade e a criança e a assistência aos desamparados.” Capítulo 2, dos direitos sociais e Art. 6º, da Constituição Brasileira. A cidade moderna em sua urbanidade deve objetivar alcançar os parâmetros da “Sustentabilidade” que visam: “suprir as necessidades de geração presentes sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprir as suas” estruturando-se em três pilares: racionalização de recursos (econômico), coleta de resíduos (ambiental) e qualidade de vida (social). Relatório de Brundtland (1987). Entendemos que deve-se visar a realização de propostas para uma política voltada a um processo dinâmico de revitalização dos espaços urbanos da cidade, particularmente os “bairros”, planejando ações eficazes direcionadas ao bem estar, a saúde o lazer, a acessibilidade e mobilidade da população residente, bem como, o desenvolvimento humano de forma inteligente e sustentável, não admitindo mais soluções descompromissadas propostas pelo órgão publico que não contemplam a boa espacialidade, mobilidade ou com a qualidade de vida, mas, sim, se ter um olhar mais amplo que venha a abrigar um planejamento estratégico, para atender as demandas e necessidades dos moradores dos bairros. É neste cenário que se instalam as ações do programa “Bairro Saudável”, promovido pela Faculdade de Medicina de Campos, que através do Centro Escola de Custodópolis, CSEC, visa no fortalecimento e à expansão das condições de sua atuação e se estende através de parcerias com organizações e várias instituições de ensino superior, todos compromissados com o processo da “Cidadania”. O Centro Universitário, UNIFLU se incorpora a este “Modelo, através do Curso de Arquitetura e Urbanismo, demandando ações no campo do ensino, pesquisa e extensão, sediados pelo Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo EMAU/UNIFLU, ambiente este que abriga discentes, na condição de Estagio Supervisionado, aderindo

a esta importante proposta, no campo da saúde e inclusão Social.

Esta abordagem se direciona ao “Bairro” como foco principal, haja vista alguns experimentos já realizados em cidades metropolitanas

e de porte médio com sucesso, a exemplo dos programas “Favela

Bairro, Rio Cidade, e no nosso município, a implementação do Bairro Legal”, todos apoiados em conceitos do moderno urbanismo

apropriando as potencialidades, os conflitos da população residente

e

atendendo às prioridades detectadas, visando viabilizar os anseios

e

necessidades. O que se pretende neste contexto é promover

previamente uma análise ampla do “Bairro”, diagnosticando suas potencialidades, conflitos e prioridades, fornecendo sugestões técnicas

e elementos que resultem em uma ação estratégica pontual, através de

uma experiência “piloto” para um novo “Modelo de Concepção Urbana Sustentável, revitalizando o ambiente, atendendo às necessidades apontadas e somadas a outras diversas ações e obter-se então de fato um “Bairro Saudável”, podendo ser esta experiência, um marco para outras demandas da cidade. Plano de Ação para o desenvolvimento do

Plano Diretor Sustentável: 1)Reconhecimento da área em estudo visando

o Diagnóstico Urbano: Potencialidades, Conflitos e Prioridades;

2)Apropriação do limite, para as propostas de intervenções gerais e pontuais; 3)Apresentação da Proposta preliminar de Intervenção Urbana, ambientalmente, saudável, acessível e sustentável; 4)Análise das demandas apontadas visando à elaboração do Plano Diretor Sustentável; (Edificações, Contexto urbano, Paisagismo, Acessibilidade, Mobilidade Urbana e outros); 5)Cronograma 2011 para elaboração das diversas atividades; 6) Concepção e Desenvolvimento das atividades correlatas; 7) Avaliação e Apresentação Final.

5- Resultados alcançados Após dois anos de implantação do PBS, alguns resultados já foram alcançados, tanto em relação ao projeto global do PBS como aos dos diversos projetos das Instituições parceiras. Enfoque maior será dado, a partir deste parágrafo, em relação aos resultados do projeto global do PBS. Os resultados dos outros projetos que foram propostos pelas Instituições parceiras foram descritos anteriormente. Em relação

aos resultados do projeto que originou esta publicação, eles serão apresentados nos artigos seguintes. Os resultados apresentados neste artigo serão enfocados numa dimensão de avaliação construtiva, a partir do entendimento de que esta possibilita um olhar mais apurado dos alcances e limites atingidos até o momento presente, o que, possibilitará, por sua vez, novo planejamento

a

partir de julho de 2013, com a posse de uma nova coordenação geral

e

grupo gestor. A análise dos resultados alcançados levou em

consideração os objetivos, metas e resultados esperados do projeto global do PBS, como descrito no item 03 do presente artigo. Em relação ao objetivo geral - transformação de um bairro vulnerável em um bairro saudável na comunidade de Custodópolis, através da criação de um modelo de prática, pautado na interação serviço- comunidade-instituições de ensino superior - reconhece-se que este envolve um processo lento, contínuo, tecido no dia a dia e, portanto, desafiante. Isto significa que, sem perder a possibilidade de seu alcance, dever-se-á avaliar os objetivos específicos, um a cada um, para que os ganhos obtidos destes últimos direcionem e impulsionem para o alcance

do objetivo geral. Considera-se que este – o objetivo geral - é uma utopia, no sentido de Santos (2001), ou seja, aquela que é entendida como a ‘exploração, através da imaginação, de novas possibilidades humanas e novas formas de vontade, e a oposição da imaginação à necessidade do que existe, só porque existe, em nome de algo radicalmente melhor por

que vale a pena lutar e a que a humanidade tem direito

a utopia requer,

portanto, um conhecimento da realidade profundo e abrangente como meio de evitar que o radicalismo da imaginação colida com o seu

24

realismo’ (Santos, 2001: 332). Os objetivos específicos de fortalecer e expandir as condições de atuação do CSEC, implementar um cenário multidisciplinar de ensino, pesquisa e extensão, realizar um estudo sócio-ambiental da comunidade de Custodópolis e fortalecer a responsabilidade social no processo de formação profissional foram alcançados num grau considerável no decorrer dos três anos de implantação do PBS. Destaca-se, entre outros, o investimento feito pela Faculdade de Medicina de Campos na reforma da estrutura física, aquisição de insumos básicos e aumento do número de docente-assistenciais e profissionais colaboradores no CSEC. Alguns dados comprovam o alcance dos objetivos específicos. Na tabela 1, verifica-se o aumento do número de consultas de 1.844 em 2006 para 8.402 em 2011. Cabe considerar que as consultas envolvem uma assistência docente-assistencial, implicando, portanto, menor número para cada profissional e uma lógica de atendimento de excelência por ser feita com o objetivo de ensino- aprendizagem. Embora não haja a preocupação com o número de consultas e sim, com a resolutividade das mesmas, este aumento reflete um aumento de acessibilidade para a demanda que era reprimida e para diferentes referências de especialidades. A tabela 2 apresenta algumas consultas que devem ser destacadas, pois eram necessidades mais demandadas da população do bairro de Custodópolis, como psiquiatria, pré-natal, preventivo, teste rápido de HIV e o programa de saúde mental. Este último programa prioriza transtornos mentais e dependência química, tendo havido um aumento crescente da demanda.

TABELA 1: Consultas totais realizadas

2006

1.844

2007

3.245

2008

4.740

2009

6.337

2010

6.537

2011

8.402

TABELA 2: Consultas parciais destacadas em 2009 Programa da Mulher Consultas ginecológicas: 1658 Consultas de pré-natal: 576 Preventivo: 399 coletas Teste rápido de HIV: 14 testes (de 21 a 30 de dezembro) Programa de Saúde Mental:

Grupo de recepção: 558 atendimentos + Psiquiatria (atendimentos individuais) =

TABELA 3: Consultas parciais destacadas em 2010 Programa da Mulher Consultas ginecológicas: 975 Consultas de pré-natal: 169 Preventivo: 320 coletas Teste rápido de HIV: 191 testes Programa de Saúde Mental:

Grupo de recepção + Psiquiatria (atendimentos individuais) = 732

TABELA 4: Consultas parciais destacadas em 2011 Programa da Mulher Consultas ginecológicas: 1149 Consultas de pré-natal: 563 Preventivo: 366 coletas Teste rápido de HIV: 62 testes Colocação de DIU: 10 no CSEC e 12 encaminhadas Programa de Saúde Mental:

Grupo de recepção + Psiquiatria (atendimentos individuais) = 671

Em relação ao cenário multidisciplinar, priorizou-se diversificar as categorias profissionais na atuação diária no CSEC, com destaque para Enfermeiros, Assistentes Sociais, Psicólogos, Terapeuta Ocupacional, Farmacêuticos, Professor de ensino fundamental, Arquitetos. Associados a estes, os técnicos administrativos têm atuado oferecendo soluções para muitos dos problemas encontrados, além das suas atuações específicas, por se sentirem, cada vez mais, fazendo parte da equipe de atenção à saúde. Esta convivência diária, com troca de saberes, tem sido estimulada e reconhecida como um processo de educação permanente pelos que integram a equipe de profissionais de saúde e colaboradores do CSEC. O aumento do número de docente-assistenciais, no decorrer de 2010/11, possibilitou expandir os programas assistenciais. Atualmente, a assistência concentra-se nos Programas de Atenção Integral à Mulher, Atenção Integral à Criança, Atenção integral ao Idoso, Atenção Integral ao Adulto, Atenção à Saúde do Homem e Atenção Integral aos portadores de Transtornos Mentais. Todos os programas são realizados por uma equipe com pelo menos um médico e um enfermeiro responsável e com ações dinâmicas de educação em saúde voltadas para grupos específicos. Os médicos do 2º ano de residência médica têm fortalecido a integralidade na assistência, atuando no primeiro atendimento de todos os pacientes com demanda de atenção em medicina geral. Essa mesma dinâmica tem sido a realizada pelos médicos que atuam no Projeto Família Saudável, a partir do entendimento deste como uma porta de entrada de excelência, embora com manutenção de um atendimento longitudinal, para as 300 famílias cadastradas até o momento.

Há limites em relação ao objetivo de ‘estimular o processo de empoderamento e controle social na comunidade de Custodópolis’ com as ações realizadas até o momento. Acredita-se, pela experiência realizada no decorrer de pouco tempo, que este objetivo poderia ser alcançado através de um projeto já construído e não implantado até o momento, o do Conselho Local de Saúde. Algumas ações educativas estão sendo realizadas neste sentido na sala de espera, todas as segundas feiras, com Educação em Saúde enfatizando temas como Direitos da Gestante, da Mulher Trabalhadora, do Idoso, entre outros. Embora insuficientes para enfrentar problemas mais complexos, estas ações educativas têm contribuído para conscientização sobre diversas questões que, até então, eram desconhecidas para os usuários do Centro de Saúde Escola de Custodópolis. Em relação à produção e publicização de textos científicos, destacam-se alguns trabalhos de pesquisa realizados, no decorrer de

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2009, por professores, alunos e pesquisadores das instituições parceiras que compõem o PBS, sendo que todos foram publicados nos anais do Congresso de Saúde Coletiva realizado em Recife no ano de 2009 e apresentados em posters no 1º Fórum Interdisciplinar em Saúde Coletiva realizado em 2009.

Anais

- Impacto de um grupo interdisciplinar de atenção à saúde do idoso

sobre os fatores determinantes da capacidade funcional. In: VII Congresso de Clínica Médica do Estado do Rio de Janeiro e do IV Congresso de Medicina de Urgência – 2010, Rio de Janeiro. Revista do Congresso 2010.

- Avaliar para educar e prevenir: a participação dos alunos numa

pesquisa comunitária e focada na saúde do idoso In: IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva – 2009, Recife. CD de anais do Saúde

Coletiva 2009.

- Cidade de Palha: vulnerabilidade e saúde no território de Custodópolis/Campos dos Goytacazes/RJ In: IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, 2009, Recife. CD de anais do Saúde Coletiva 2009.

- Grupo de recepção: uma estratégia de cuidado em saúde mental na

atenção básica e de ensino para alunos de medicina In: IX Congresso em Saúde Coletiva, 2009, Recife. Cd de anais do Saúde Coletiva

2009.

- Papel da Liga Acadêmica de nefrologia na prevenção da doença

renal crônica. In: IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva – 2009, 2009, Recife. CD de anais do Saúde Coletiva 2009.

- Uma experiência multidisciplinar no grupo de idosos In: IX

Congresso de Saúde Coletiva, 2009, Recife. Cd de anais do Saúde Coletiva 2009.

Posters

- Impacto de um grupo interdisciplinar de atenção à saúde do idoso sobre os fatores determinantes da capacidade funcional. In: VII Congresso de Clínica Médica do Estado do Rio de Janeiro e IV Congresso de Medicina de Urgência

- A visão dos conselheiros municipais de saúde sobre sua função

dentro do conselho. IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva.

- Centro de Saúde Escola de Custodópolis: organograma. Iº Fórum

Interinstitucional em Saúde Coletiva e IIº Encontro Interinstitucional de Educadores do Ensino Superior.

- Cidade de Palha: estudo sobre vulnerabilidade e saúde no território de Custodópolis/Campos dos Goytacazes. IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva.

- Conselho Local de Saúde de Custodópolis: limites e possibilidades na

efetivação da participação social. Iº Fórum Interinstitucional em Saúde

Coletiva e IIº Encontro Interinstitucional de Educadores do Ensino Superior.

- Grupo de recepção: uma estratégia de cuidado em saúde mental na

atenção básica e de ensino para alunos de medicina. Iº Fórum Interinstitucional em Saúde Coletiva e IIº Encontro Interinstitucional

de Educadores do Ensino.

- Papel da Liga de Nefrologia na prevenção da Doença Renal Crônica. Iº Fórum Interinstitucional em Saúde Coletiva e IIº Encontro Interinstitucional de Educadores do Ensino Superior.

- Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania. Iº Fórum Interinstitucional em Saúde Coletiva e IIº Encontro Interinstitucional de Educadores do Ensino Superior.

Mais recentemente, foi publicado um artigo referente ao Projeto Família Saudável: ‘Os determinantes sociais da saúde e o projeto Família Saudável: possibilidades e limites’ (Marques da Silva, V. L.), pela revista Vértice, volume 13, série 2 (p.61-72). Esta valorização da produção acadêmica, pelos alunos, professores e pesquisadores envolvidos no PBS, demonstra que este pode ser um caminho para que um projeto pautado na interação serviço- comunidade-instituições seja reconhecido como espaço possível de produção científica, além de suas funções mais reconhecidas como atendimento à comunidade. Uma das ações efetivas do PBS, realizada em conjunto com as instituições parceiras, foi o 1º Fórum Interinstitucional em Saúde Coletiva – 1º FISC em novembro de 2009. Este evento contou com a participação de alunos, professores, funcionários e membros da comunidade de Custodópolis atendidos pelos diversos serviços prestados pelo CSEC. Foram 68 participantes no primeiro dia, 80 no segundo dia e 107 no terceiro dia. Alguns resultados esperados estão ainda a serem alcançados por dependerem de diversos fatores e decisões institucionais. Deverão estar aqui registrados como propostas para um futuro próximo. São eles:

criação de um banco de dados; apropriação pela comunidade do conhecimento produzido e sua habilitação para processar uma atualização permanente do Banco de Dados; viabilização da Residência Interdisciplinar em Atenção Básica à Saúde, no CSEC; consolidação das linhas de pesquisa existentes e criação de outras; colaboração técnico- científica com redes brasileiras que atuam na Atenção Básica.

6- Projetos a serem implantados 6.1- Conselho Local de Saúde de Custodópolis - CLSC O projeto “CONSELHO LOCAL DE SAÚDE DE CUSTODÓPOLIS: análise das possibilidades da participação e melhoria de qualidade de vida da população” é uma proposta de implantação, acompanhamento e avaliação do CLSC, enquanto mecanismo de “participação” social, que se propõe a contribuir para a

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descentralização da política local de saúde e a ampliação do conceito de saúde através da organização comunitária. O interesse em realizar esse projeto nasceu da vivência proporcionada pelas reuniões comunitárias coordenadas pelo grupo de pesquisadores da UFF, no decorrer do ano de 2008, como parte de sua proposta de ação junto ao “Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania”. Através deste trabalho embrionário da UFF, foi possível constatar nas falas dos atores comunitários a necessidade e o desejo de criação de um instrumento de participação organizada, capaz de fortalecer os interesses comuns no processo de enfrentamento das vulnerabilidades vivenciadas em busca de uma vida saudável. A finalidade do projeto é avaliar a contribuição do Conselho Local de Saúde de Custodópolis para ampliação do conceito de “saúde”, com vistas à melhoria de qualidade de vida da comunidade; efetivação do controle social da política de saúde; construção do processo de “empoderamento” e avanço e garantia do processo de “democratização” em curso. Esta proposta, ainda a ser implantada, é norteada por Paulo Freire (1987) quando argumenta que nenhuma educação é neutra e que, conscientes ou não disso, os pesquisadores e educadores, ao desenvolverem suas atividades, contribuem, em maior ou menor grau, para a libertação dos indivíduos ou para sua domesticação. Daí a necessidade de uma pesquisa-ação, onde a definição e execução participativa de projetos envolvam a comunidade e esta possa beneficiar-se dos resultados dos estudos. Neste sentido, o Projeto “Conselho Local de Saúde” (CLS) visa contribuir para a promoção da PARTICIPAÇÃO SOCIAL, outro conceito norteador

do PBS, a partir do entendimento da necessária base de apoio político às ações sobre os determinantes sociais de saúde e para o EMPODERAMENTO da população do bairro de Custodópolis. Espera-

se que, através do CLS, a população poderá participar das decisões relativas à sua saúde e bem estar e, por meio dos seus representantes, poderá fortalecer os mecanismos de gestão participativa, principalmente

o Conselho Municipal de Saúde.

7- Projeto Família Saudável - PFS Esse projeto foi elaborado objetivando consolidar o PBS em um território mais definido. Para isso, buscou-se o redimensionamento do PBS num projeto piloto, o que proporciona uma avaliação mais rigorosa. O PFS já está na fase de execução, tendo finalizado a primeira fase, à de implantação, iniciada em junho de 2010, no qual foram cadastradas 350 famílias. Dessa forma, é uma estratégia interdisciplinar que visa trabalhar com o princípio de Vigilância à Saúde (Mendes, 1996) em território definido no bairro de Custodópolis e com prioridade às famílias adscritas, objetivando enfrentar e resolver os problemas

identificados. O planejamento do território abrange as ruas Júlio Armond, Patrício Menezes, Poeta Marinho, Júlio Armond e Travessa Nossa Senhora da Conceição, cobrindo, neste quadrilátero, em torno de 600 famílias. Este território é divido em 02 micro-áreas, cada uma com em torno de 300 famílias e na responsabilidade de um enfermeiro, um Agente Cuidador da Saúde (ACS), um médico e outros profissionais, conforme

o surgimento da necessidade e da parceria das diversas instituições

parceiras. A micro-área 01 é composta pelas ruas Carlos Bruno e Poeta

Marinho e a micro-área 02 pelas ruas Júlio Armond e Patrício Menezes.

Foto 1: Bairro de Custodópolis, Campos dos Goytacazes/RJ

Fonte: Google Maps/2010

Júlio Armond e Patrício Menezes. Foto 1: Bairro de Custodópolis, Campos dos Goytacazes/RJ Fonte: Google Maps/2010

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A primeira fase de implantação do PFS cadastrou as famílias

e identificou os riscos biológicos, sociais e culturais. Nesse primeiro

momento, fez-se necessário conhecer a comunidade e buscar estreitar relações de confiança e de solidariedade. Somente após este primeiro momento, têm-se buscado estratégias que visem envolver a comunidade em ações coletivas para a melhoria de suas condições de saúde e bem-estar. É um desafio, pois os profissionais envolvidos atuam predominantemente nos riscos biológicos pela própria formação profissional. Na primeira fase, os riscos biológicos representaram uma maior demanda e uma urgência nas intervenções. Neste sentido, os riscos biológicos foram priorizados, sem desconsiderar os outros riscos citados. Assim, estar-se-ão realizando ações que estariam no primeiro nível de intervenção sobre os determinantes do processo saúde-doença. Além do cadastramento das famílias, as visitas domiciliares realizadas semanalmente, e norteadas pelas noções de cuidado, vínculo, responsabilidade e seguimento a longo tempo, têm sido uma estratégia importante para a consolidação do PFS, além dos seus objetivos principais. Estas visitas domiciliares têm sido feitas pelos Agentes Cuidadores da Saúde, com supervisão dos Enfermeiros de cada micro-área, acompanhando os casos mais graves, detectando os casos de não adesão ao tratamento, entre outras questões que têm surgido. Considerando de maio de 2010 a dezembro de 2011:

Em relação à micro-área 01:

- Total de famílias cadastradas: 131 famílias (475 pessoas), sendo 47% do sexo masculino e 53% do sexo feminino. Do total, 51% estão na faixa de 19 a 60 anos e 12% acima de 61 anos.

- Patologias, considerando o total de número de pessoas: 6%

portadores de diabetes, 18% portadores de hipertensão, 2% casos de alcoolismo, 2% de gestantes menores de 18 anos e 1% maiores de 18 anos, 01 acamado.

Em relação à micro-área 02:

- Total de famílias cadastradas: 162 famílias (561 pessoas), sendo

46% do sexo masculino e 54% do sexo feminino. Do total, 55% estão na faixa de 19 a 60 anos e 10% acima de 61 anos.

- Patologias de adultos, considerando o total de número de pessoas:

6% portadores de diabetes, 18% portadores de hipertensão, 0% de gestantes menores de 18 anos e 0,5% maiores de 18 anos, 04 portadores de hanseníase, 01 portador de tuberculose e 07 portadores de doenças mentais.

O Projeto Família Saudável (PFS) foi construído com os

mesmos pilares do Programa Saúde da Família, um programa federal, que atualmente é denominado Estratégia Saúde da Família. No PFS, entretanto, o marcador teórico é o baseado na proposta de Dahlgren & Whitehead (1991), considerando-a a mais adequada para a explicação das determinações do processo saúde-doença e com as propostas mais sistematizadas em relação às intervenções a serem realizadas.

em relação às intervenções a serem realizadas. Figura 1: Quadro de Dahlgren & Whitehead (1991) Fonte:

Figura 1: Quadro de Dahlgren & Whitehead (1991) Fonte: Carvalho; BUss, 2008

Esta proposta tem sido a norteadora da Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde do Brasil, criada em março de 2006, entendendo-a que as intervenções sobre os Determinantes Sociais da Saúde deveriam objetivar a promoção da equidade em saúde e contemplarem os diversos níveis assinalados no modelo. Neste sentido, as intervenções devem incidir sobre os determinantes ‘proximais’ vinculados aos comportamentos individuais, não prescindindo dos ‘intermediários’, relacionados às condições de vida e trabalho e dos

determinantes ‘distais’, referentes à macroestrutura econômica e cultural (Carvalho, A. I., Buss, P. M., 2008). Em relação aos determinantes distais, estes são dependentes de políticas diversas, como as descritas abaixo:

- Políticas macroeconômicas e de mercado de trabalho, de

proteção ambiental e de promoção de uma cultura de paz e solidariedade que visem promover um desenvolvimento sustentável, reduzindo desigualdades sociais e econômicas, violências, degradação ambiental e seus efeitos sobre a sociedade;

- Políticas que assegurem a melhoria das condições de vida da

população, garantindo a todos o acesso à água limpa, ao esgoto, habitação adequada, aos ambientes de trabalho saudáveis, serviço de saúde e à de

educação de qualidade, superando abordagens setoriais fragmentadas e promovendo uma ação planejada e integrada dos diversos níveis da administração pública;

- Políticas que favoreçam ações de promoção da saúde,

buscando estreitar relações de solidariedade e confiança, construir redes

de apoio e fortalecer a organização e a participação das pessoas e das comunidades em ações coletivas para melhoria de suas condições de saúde e bem-estar, especialmente dos grupos mais vulneráveis;

- Políticas que favoreçam mudanças de comportamento para a

redução de riscos e para o aumento da qualidade de vida mediante programas educativos, comunicação social, acesso facilitado a alimentos saudáveis, criação de espaços públicos para a prática de esportes e exercícios físicos, bem como proibição à propaganda do tabaco e do

28

álcool em todas as suas formas. Considerando as políticas propostas, sabemos que elas funcionarão como uma imagem-objetivo e mesmo como uma utopia, no sentido descrito acima (Santos, 2001), mas, principalmente como uma imagem que nos tira da zona de conforto e de certa ingenuidade para as ações presentes e futuras. É preciso, portanto, registrá-las, embora, saber-se-á que o Projeto Família Saudável, em análise, poderá contribuir apenas nos processos mais locais. Assim, embora não seja o objetivo do PFS elaborar e executar as políticas descritas acima, e por sabê-las como decorrentes de decisões governamentais federais, a apresentação destas políticas neste trabalho objetiva, também, publicizá-las, entendendo que elas são às que intervêm sobre os determinantes distais e que algumas somente são possíveis de serem incorporadas pelo processo de empoderamento da comunidade a ser trabalhado no programa. A sistematização do modelo proposto (Dahlgren & Whitehead, 1991) considera que o enfrentamento das causas, das determinações econômicas e das sociais mais gerais dos processos saúde-enfermidade, envolveria ações não apenas no sistema de atenção à saúde, com mudanças nos modelos assistenciais e ampliação da autonomia dos sujeitos, mas também intervenções nas condições socioeconômicas, ambientais e culturais por meio de políticas públicas intersetoriais. E, sobretudo, em políticas de desenvolvimento, voltadas para a distribuição mais equânime dos recursos socialmente produzidos, subordinando a economia ao bem- estar-social (Carvalho, A. I., Buss, P. M., 2008). Além disso, para que as intervenções nos diversos níveis sejam viáveis, efetivas e sustentáveis, elas deveriam estar fundamentadas em três pilares básicos: a intersetorialidade, a participação social e as evidências científicas. O PFS tem buscado estes três pilares a partir do envolvimento da comunidade, com reuniões para construir projetos em comum. Já está em execução o ‘Projeto Juventude Saudável’, desenvolvido por 03 alunos do Projeto Bolsa Trabalho-CSEC com 15 adolescentes do bairro, na faixa etária de 15 a 18 anos. É um projeto que busca capacitar os adolescentes em ações relacionadas ao meio ambiente, ética, cidadania, como arborização, coleta do lixo seletivo, acessibilidade, identificação das ruas, incentivo às hortas domésticas. Outro projeto em curso é o ‘Mova Brasil’, um projeto de alfabetização de adultos. Ambos os projetos são executados na estrutura física do CSES, o que, espera- se, poderá consolidar a unidade como um lócus de saúde e não apenas de doença. Acredita-se, também, que estes dois últimos projetos possam desenvolver o empoderamento na população do bairro, tornando-o menos vulnerável.

8- Lições aprendidas Um Projeto – Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania – com um objetivo da dimensão do mesmo - transformar um bairro vulnerável em um bairro saudável – exige, ao mesmo tempo, certa dose de paixão misturada com certa dose de pragmatismo. Uma paixão que, no caso, tem sido impulsionada pela imagem-objetivo de uma utopia (Santos, 2001). Um pragmatismo

marcado pela necessidade de revisão constante das etapas planejadas, principalmente considerando que o aparecimento de alguns resultados mais concretos exigiria um tempo de longa duração, o que pode levar à desmotivação do grupo envolvido que, no caso, são o grupo gestor do PBS e a Direção Clínica do CSEC. Neste sentido, uma lição aprendida

é à que a contribuição voluntária e pessoal tem limites. Isso significa

que o comprometimento das Instituições parceiras com seus representantes e profissionais, inclusive com garantia do tempo de dedicação ao programa, é um dos fatores importantes para o sucesso do programa. Outra lição é à que sem o envolvimento da comunidade o programa não consegue avançar. Assim, se por um lado a comunidade obstaculiza algumas ações – questionando-as e, às vezes, desvalorizando algumas por ter demandas mais urgentes em relação às outras - por outro lado essa mesma comunidade impulsiona outras ações. Devido ao fato do CSEC estar realizando ações de atenção à saúde na comunidade há 30 anos, com ações mais intensas há 10 anos, a implantação dos projetos foi normalmente facilitada e aceita pela comunidade, com poucas resistências. Alguns desafios diários têm emergido: encontrar os parceiros certos, pois a colaboração é um trabalho árduo, difícil; aprender a

gerenciar a manutenção do PBS, devido mudanças frequentes, desistências, não comprometimento e às inúmeras linhas de pesquisa, ensino extensão; manter energia necessária no dia a dia, pois os resultados esperados levam mais tempo do que o planejado; pensar fora dos padrões

e com criatividade, o que tem sido um desafio diário; desafiar as normas e, ao mesmo tempo buscar prudência nas propostas. Um desafio fica à espreita ao implantar um Programa com a dimensão de objetivar o

envolvimento da comunidade, mantendo a condição de tê-la como sujeito de seus direitos. Este desafio diz respeito ao não entendimento, muitas vezes, dos setores políticos partidários que demarcam o território numa dimensão diametralmente oposta à pretendida pelo PBS, o que já gerou

- e tem gerado - conflitos na relação ética-técnica-política, com todos

os constrangimentos e, muitas vezes, efeitos não esperados, decorrentes da mesma. Ou seja, os conflitos decorrentes das lógicas de racionalidades diferentes entre o campo técnico e o político são desafios que precisam ser enfrentados pelas instituições correspondentes para o êxito de um projeto da dimensão do Programa Bairro Saudável. É uma questão que ultrapassa a dimensão de análise deste artigo e diz respeito à cultura política do país.

Devido ao fato do PBS incorporar ações de intervenção sobre os diversos aspectos da saúde e projetos de ensino – pesquisa- extensão, outras questões devem ser consideradas. Uma primeira diz respeito à tríade ensino/pesquisa/extensão. Esforços deverão ser feitos para que os projetos a se incorporem cada vez em seu conjunto, pois muitos dos projetos que foram elaborados para o PBS são, na maioria das vezes, dedicados a um só elemento da tríade. A meta a ser alcançada, visando o êxito do PBS, é à de que ao ser realizada uma pesquisa, que esta seja fruto de uma extensão e que seus resultados possam realimentar o ensino para que este não se petrifique; da mesma forma, ao ser realizada uma extensão, que esta possa gerar pesquisa que retroalimente o ensino; por outro lado, o ensino deverá ter sempre uma dimensão de extensão além dos muros da faculdade e, ao mesmo tempo, ser articulado às pesquisas como momentos de reflexão

29

crítica e de produção de novos saberes. Outra questão a ser considerada, diz respeito à vigilância constante quando se desenvolve projetos que, como o Projeto

Família Saudável (PFS), tem ações de intervenção sobre os sujeitos.

A vigilância constante, além das questões éticas, parte do

reconhecimento de que nas ações de intervenção estão, também, ações de controle social sobre uma comunidade, sobre os sujeitos, submetendo-os numa relação de poder, como analisado por Michel Foucault (1987). Reconhecer o controle social possível e implicado

nas ações de intervenção já é o primeiro passo, mas não é o suficiente. Razão pela qual, recorremos a Campos (2010), quando este aponta

a possibilidade do desenvolvimento de produção de valores úteis

nas ações de intervenção, ao lado da produção do controle social.

Para este autor, a prática clínica e de saúde coletiva produz, além

de controle social, algum tipo de valor de uso. Como valor de uso,

a prática clínica e a de saúde coletiva tenderiam a atender a algum tipo de necessidade social das pessoas. Cabe considerar que a interdisciplinaridade – um dos conceitos norteadores do Programa Bairro Saudável - tem sido um marcador importante e necessário para a manutenção da vigilância em questão. Em nosso entendimento, a interdisciplinaridade, principalmente em relação

ao núcleo das ciências biológicas com o das ciências humanas, é

uma possibilidade de proporcionar a abertura dos diversos profissionais para os universos existenciais, sociais, culturais e simbólicos dos usuários, permitindo o enriquecimento mútuo nas ações interprofissionais. Além do mais, acreditamos, também, que

a interdisciplinaridade possa proporcionar reflexões e, portanto,

limites ao processo de medicalização social que as ações de intervenção realizadas numa atenção básica possam engendrar. Nesse sentido, a nova proximidade e interação pelo acompanhamento longitudinal (ao longo do tempo), permitida pelo

Projeto Família Saudável junto às famílias assistidas no território adscrito, comporta duas dimensões que devem ser consideradas:

pode ser uma possibilidade para a reorientação da medicalização e

a reconstrução da autonomia dos sujeitos a serem atendidos no

projeto, mas, também, e facilmente, pode constituir-se em uma nova

força medicalizadora poderosa, com todos os efeitos perversos. Entendemos medicalização como ‘um processo de expansão progressiva do campo de intervenção da biomedicina através da redefinição de experiências e comportamentos humanos como se fossem problemas médicos’ (Tesser, 2010). Nesta perspectiva, o

Projeto Família Saudável pode se constituir em um local privilegiado

de vivência dos próprios profissionais, onde eles podem reforçar

sua formação prévia com tendência a medicalização excessiva ou aprender a se questionar e construir um profissionalismo menos medicalizado no cotidiano do seu trabalho. A construção de uma prática em saúde norteada pela dimensão menos medicalizante no dia a dia dos serviços é um desafio a ser considerado, necessitando, portanto, de uma vigilância constante, como nas palavras de Campos:

“Um paradoxo, todo conhecimento e toda prática social sempre misturará a produção de valores úteis com controle social. O desafio estaria em reconhecer essa dualidade e lidar com ela no cotidiano,

mediante diferentes formas e maneiras para combinar as polaridades desse paradoxo” (Campos, 2010: 116).

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31

6

Do diagnóstico preliminar ao inquérito populacional:

movimentos de investigação-ação em um território vulnerável

1. COMO TUDO COMEÇOU

Programas de Promoção da Saúde com base na intervenção territorial, também denominados de Programas de Desenvolvimento Local Integrado Sustentável e Promoção da Saúde (Bodstein & Zancan, 2002) 2 ou Comunidades Saudáveis, representam a resposta

do campo da Saúde Pública a uma

tendência universal de buscar a integração dos diversos setores do conhecimento e da intervenção social, e aplicá-los a territórios

específicos, no nível local, onde se

dá o potencial máximo de interação

entre governo, cidadãos e sociedade civil (Becker, 2003) 3 . Exemplos característicos são

programas como a Agenda 21 e o

Habitat (Buss & Ferreira, 1998) 4 ,

e o movimento internacional

Cidades Saudáveis (Tsouros,

1995 5 ; Ouellet et al.,

1994

6 ;Westphal, 2000 7 ).

(BECKER et.al., 2004, p. 656)

Denise Chrysóstomo de Moura Juncá 1

Integrado a tal tendência o PROGRAMA BAIRRO SAUDÁVEL: TECENDO REDES, CONSTRUINDO CIDADANIA 8 elegeu a localidade de Custodópolis/Campos dos Goytacazes/RJ como cenário de sua intervenção, desencadeando, a partir de dezembro de 2007, sob a coordenação da Faculdade de Medicina de Campos - FMC, um processo de discussão sobre a possível dinâmica a ser implementada. Logo algumas propostas foram iniciadas pelos representantes das instituições que o compunham, verificando-se, ao mesmo tempo, um consenso sobre a necessidade de se construir uma maior aproximação com a vida da comunidade, seus problemas, necessidades e expectativas. Considerava-se, neste momento, a importância da realização de um diagnóstico, visando conhecer o território escolhido em maior profundidade, problematizando as principais dimensões de sua realidade social. (BECKER et.al., 2004). Coube, então, ao Departamento de Serviço Social de Campos/Universidade Federal Fluminense, através do GRIPES – Grupo Interdisciplinar de Estudo e Pesquisa em Cotidiano e Saúde – a coordenação de tal etapa, a partir de março de 2008, ocasião em que se passou a debater e definir a estruturação dos passos a serem dados para a construção de um diagnóstico

socioambiental de Custodópolis. De início, já sabíamos que estávamos diante de um grande desafio. Afinal, uma comunidade configura-se como um “objeto de estudo indisciplinado” 9 (SEVALHO; CASTIEL, 1998, p.48), uma vez que:

1 Assistente social, Professora Associada do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional – Universidade Federal Fluminense, Doutora em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca e Coordenadora do Grupo Interdisciplinar de Estudo e Pesquisa em Cotidiano e Saúde – GRIPES/UFF.

2 Bodstein R & Zancan L 2002. Avaliação das ações de promoção da saúde em contextos de pobreza e vulnerabilidade social, pp. 39-59. In L Zancan, R Bodstein & WB Marcondes (orgs.). Promoção da Saúde como caminho para o Desenvolvimento Local. Abrasco, Rio de Janeiro.

3 Becker D 2003. Organizações da sociedade civil e políticas públicas em saúde, pp.117-134. In J Garcia, L Landim & H Dahmer. Sociedade e políticas – novos debates entre ONGs e universidades. Editora Revan, Rio de Janeiro.

4 Buss PM & Ferreira JR 1998. Promoção da Saúde e Saúde Pública. Contribuição para o debate entre as Escolas de Saúde Pública da América Latina. ENSP, Rio de Janeiro.

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5 Tsouros AD 1995. The WHO Healthy Cities Project: State of the art and future plans. Health Promotion International 10:133–141.

6 Ouellet F, Durand D & Forget G 1994. Preliminary results of an evaluation of three healthy cities initiatives in the Montreal area. Health Promotion International 9:153-

159.

7 Westphal MF 2000. O movimento Cidades / Comunidades Saudáveis: um compromisso com a qualidade de vida. Ciência e Saúde Coletiva 5(1):39-51.

8 O Programa Bairro Saudável é coordenado pela Faculdade de Medicina de Campos. Seu objetivo é promover melhorias no bairro de Custodópolis, através de ações interdisciplinares e interinstitucionais, tendo como ponto de referência o CSEC – Centro de Saúde Escola de Custodópolis. Tal proposta inclui a configuração desta unidade como um importante cenário de ensino-aprendizagem para as diferentes áreas de formação no campo da saúde, tanto no âmbito da graduação, quanto da pós-graduação. São parceiras as seguintes instituições: FMC - Faculdade de Medicina de Campos, UFF - Universidade Federal Fluminense, UENF - Universidade Estadual do Norte-Fluminense, FAFIC - Faculdade de Filosofia de Campos, UNESA - Universidade Estácio de Sá, IFF - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense, UCAM – Universidade Cândido Mendes, UNIVERSO – Universidade Salgado de Oliveira.

9 Esta expressão foi utilizada, originalmente, pelos autores em relação ao adoecer humano.

32

Mesmo sobre um substrato feito de moradias, ruazinhas, valas, esgotos, lixões, escolas municipais, postos de saúde, templos de culto religioso, bandidos e policiais, médicos e professores de escola, grupos de música afro ou funk, a comunidade diferencia-se do seu substrato, porque é feita nas relações sociais, nas relações de interdependência que vão se estabelecendo e modificando entre todas suas dimensões. Uma comunidade emerge da dinâmica cultural. Não é sempre que ela ‘está ai’. (WONG UM, 2002, p. 91)

Entendíamos que “comunidade, assim como cultura, amor, nação, sujeito, espírito e outras palavras de forte presença no cotidiano e no imaginário das pessoas, possuem múltiplos significados.” (WONG UM, 2002, p.41) e que “a vida no lugar não se desenrola segundo encontros formalmente agendados” (WHITE, 2005, p. 295). Era preciso ultrapassar a compreensão idealizada de comum-unidade, ao mesmo tempo, em que cabia não apenas construir um conhecimento “sobre”, mas sim um conhecimento “com”, investindo na integração entre os diferentes atores envolvidos no processo. Considerávamos, portanto, que não seria suficiente delimitarmos uma área geográfica, a partir de referências formais pré-estabelecidas, e aplicarmos alguns instrumentos de coleta de dados, para elaborarmos um diagnóstico. Precisávamos fazer escolhas criteriosas que nos possibilitassem construir um retrato vivo daquela comunidade, resgatando sua história em movimento, através de um olhar atento e uma escuta apurada que nos introduzisse em seu cotidiano, circulando no universo do dito e do não dito, entendendo que a lógica de re-conhecer Custodópolis exigia a adoção da postura de “ver a sociedade como objeto e experimentá- la como sujeito” (GEERTZ, 2001, p. 45). Para tanto, a alternativa escolhida envolveu, a princípio, o entrosamento com o Centro de Saúde Escola de Custodópolis - CSEC – instituição gerenciada pela FMC e referência de atendimento à saúde na comunidade. Paralelamente, ocorreram visitas semanais ao bairro, com realização de entrevistas livres e observação participante. Foi uma fase exploratória inicial, que nos forneceu os primeiros elementos para começarmos a desenhar nosso projeto de investigação. Nossa intenção, neste momento, era sistematizar alguns passos, preservando, contudo, sua flexibilidade, admitindo que poderíamos introduzir alterações em nosso planejamento, de acordo com as necessidades identificadas no decorrer do processo. Nascia, assim, o projeto CIDADE DE PALHA (antiga

denominação do bairro de Custodópolis) direcionando-se para a realização de uma investigação-ação, objetivando traçar um diagnóstico sócio-ambiental da comunidade, levando em conta o lugar e sua história, as características sócio-econômicas e culturais do “território usado” (SANTOS apud SEABRA; CARVALHO; LEITE, 2000); a movimentação de seus atores, os vínculos existentes e potenciais; além das condições para desencadear e fortalecer uma dinâmica de empoderamento (WALLERSTEIN, 1992). Sua importância encontrava-se na construção do alicerce de

informações em torno do qual se fundamentaria o Programa Bairro Saudável

e sua relevância estava relacionada à perspectiva de valorizar a versão dos sujeitos sobre seu contexto de vida, ultrapassando percepções que tratam de modo homogêneo as comunidades conhecidas como periféricas e pobres

e, consequentemente, trabalham com propostas padronizadas.

Vale esclarecer que o termo “diagnóstico” foi adotado visando facilitar a comunicação entre as diferentes áreas profissionais envolvidas no Programa Bairro Saudável. Seu entendimento, contudo, ultrapassava qualquer visão fechada que poderia isolar ou paralisar uma dada realidade no tempo e espaço. Ao contrário, o que se pretendia era explorar os movimentos e contradições de um cenário, procurando problematizá- los e relacioná-los à realidade mais ampla onde se inseriam. O desenvolvimento de tal proposta se apoiava, sobretudo, na

metodologia da pesquisa-ação, reconhecendo que o eixo pesquisar-

educar caracterizava um exercício dinâmico e contínuo para todos os que nele se encontravam envolvidos. Delineava-se uma possibilidade de o olhar teórico dialogar com a prática, exercitando a indissociabilidade entre ideia e experiência, palavra e vivência (FREIRE, 1996), permitindo também o aprofundamento da consciência crítica. Vale ainda destacar que, assumindo a perspectiva quanti- qualitativa, suas estratégias recorreram às recomendações da técnica da Triangulação de Métodos, reforçando a importância de se produzir “a unidade sintética do múltiplo e do uno” (MINAYO, 2007, p. 365), lembrando, ainda, que intencionávamos que o produto a ser alcançado não se limitasse a um somatório de resultados disciplinares. Como destaca Minayo (Id. p. 372): “nesta proposta, independentemente da área específica de cada um, todos recebem o influxo da interfertilização de saberes que, em certa medida, durante o processo de produção do conhecimento, rompem barreiras epistemológicas, teóricas e práticas”. Desta forma, à pesquisa-ação, escolhida como metodologia fundamental que desencaderia o conhecimento e estratégias pretendidos, associamos, também, outros importantes passos, articulando observação participante, pesquisa documental e entrevistas abertas, valorizando a história oral e

salientando o papel desta última de “[

]” [

(PORTELLI, 2001, p.15). Nesse sentido seria possível

conectar a vida aos tempos

]

problematizar o lugar do sujeito na construção da história individual e coletiva, consagrada na experiência social, a partir de seu modo de vida.

Com base em tais escolhas, no CSEC a equipe 10 entrevistou alguns profissionais, conheceu as instalações e levantou informações sobre a rotina de atendimento e o sistema de documentação utilizado. A

10 Nesta fase, a equipe era composta, apenas, por membros do GRIPES/UFF: 4 docentes, 8 assistentes sociais, 1 enfermeira, 1 bacharel em comunicação social e 4 acadêmicos de serviço social, além de 1 assistente social e uma acadêmica de enfermagem, moradoras do bairro. Para o desenvolvimento do projeto houve o treinamento da equipe, ao mesmo tempo em que se realizaram grupos de estudos temáticos para fundamentar as discussões e ações em andamento.

33

proposta era resgatar sua história, alcançando a dinâmica atual da assistência prestada. Já em relação à comunidade, foram realizados os seguintes movimentos:

§ Reconhecimento da área geográfica, percorrendo-se as ruas do bairro e registrando-se através de fotos e abordagens, algumas características deste cenário;

§ Consultas a documentos e profissionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE e a membros da Federação das Associações de Moradores e Amigos de Campos - FAMAC, à procura de informações que propiciassem uma delimitação e dados mais precisos sobre

a área em estudo;

§ Levantamento de documentos diversos sobre a história da comunidade, identificando-se a existência de atas de reuniões, discursos, fotografias, panfletos, textos mimeografados, relatórios, reportagens publicadas nos meios de comunicação da região, além de inúmeros Trabalhos de Conclusão de Curso de Serviço Social,

apresentados à UFF, no período compreendido entre 1966

e 1979.

§ Visitas técnicas priorizando locais como: escolas, creches,

estabelecimentos comerciais, igrejas, associação de moradores, Grêmio Esportivo, Grupo Recreativo Escola de Samba União da Esperança, além das áreas ocupadas por alguns programas sociais como: Saúde da Família, Espaço do Trabalho, Meninos do Amanhã e Centro de Referência de Assistência Social – CRAS;

§ Entrevistas livres com lideranças, moradores mais antigos

e técnicos e/ou representantes das instituições e programas

visitados;

§ Entrevistas semi-estruturadas com os responsáveis por

alguns estabelecimentos comerciais.

Nesta fase preliminar do Projeto Cidade de Palha, levantamos informações sobre o bairro e, acima de tudo, procuramos andar por suas ruas, para nos familiarizarmos com o desenho daquele cenário, identificar pontos mais relevantes a serem investigados, ao mesmo tempo em que, conversávamos com alguns moradores, nos apresentando e respondendo às dúvidas que nossa presença suscitava, além de distribuirmos um folder sobre a proposta que estávamos construindo, convidando-os a participarem da mesma. Considerávamos que era importante “passar algum tempo de contaminação” com o local (BRANDÃO, 2007, p.13), construindo uma entrada gradual no campo, fugindo das características de

um trabalho invasor em que as pessoas se sentem de repente visitadas por um sujeito que mal chegou ao lugar, saltou do carro e começou a aplicar um

questionário [

Isso é muito ruim.

]

Toca-se apenas o verniz e toca-se num verniz em que as pessoas se defendem até quando podem da invasão de que se sentem vítimas (id. p.14).

Esclarecendo que não éramos “o pessoal do combate à dengue”

e que não estávamos distribuindo “santinhos” de algum político, como alguns pensavam ao nos ver andando pelas ruas, logo, fomos

apresentados à praça que tanto valorizavam e agora constituía um lugar indefinido em função de uma reforma que nunca acabava. Identificamos

a presença de várias igrejas, o que nos remetia, provavelmente, ao

convívio de diferentes crenças religiosas. Pudemos ver a “água suja”, objeto de tantas reclamações, que formava um extenso corredor e, livremente, corria pelas ruas, fruto da inexistência de um sistema de saneamento ambiental adequado. Estivemos atentos nos momentos de travessia pelas vias públicas, face ao intenso tráfego de veículos e barulhentas motocicletas. Vimos crianças e adolescentes voltando das escolas, soltando pipa ou jogando bola em terrenos baldios. Conhecemos o campo de futebol e a sede da União da Esperança, escola de samba nascida há mais de 50 anos na comunidade. Conhecemos, também, vários dos antigos moradores, bem como ouvimos referências aos já falecidos, sendo possível identificar que alguns de seus filhos ainda residiam em Custodópolis e eram comerciantes “de tradição”.

Ingressamos, assim, em um circuito onde uns nos levavam à outras tantas pessoas e lugares, investindo na construção de um processo de interação com a comunidade, processo este que, sem dúvida, exigia um tempo de maturação, e que nos levava a adotar a lógica ensinada por WHITE (2005, p. 303): “Vá devagar, Bill, com essa coisa de ‘quem’, ‘o quê’, ‘por quê’, ‘quando’, ‘onde’. Você pergunta essas coisas e as pessoas se fecharão em copas. Se te aceitam, basta que você fique por perto, e saberá as respostas a longo prazo, sem nem mesmo ter que fazer as perguntas.” Muitos foram os dados coletados nesta fase e entre os mais significativos estavam os que nos remeteram à história do bairro e os que nos permitiram entender o desenho de Custodópolis. Vale lembrar que, para o IBGE (Censo Demográfico, 2000) o bairro pertence à área denominada como Zona Norte e só é visto em conjunto com outros vizinhos, ou seja: Parque Novo Mundo (setores 34, 35, 36, 37, 38 e 39), Parque Bandeirantes (setores 69, 70, 71 e 72)

e Parque São Domingos (setores 73, 74 e 75).

Tal classificação se fundamenta na Lei 6.305, de 27 de dezembro de 1996, que institui a divisão geográfica da cidade de Campos dos Goytacazes, delimitando e denominando os bairros, de acordo com

a Lei Orgânica Municipal. Entretanto, consultando alguns mapas dos

bairros do município foi possível verificar que, o material produzido neste início de século (Almanaque de Campos, 2007 e 2008 e Perfil, 2005) já passou a incluir o Parque Custodópolis. Outras fontes de informação consultadas foram o Código de Endereçamento Postal – CEP - e a Federação das Associações de Moradores de Campos - FAMAC. De acordo com o primeiro, Custodópolis é formado por 20 ruas, a saber:

34

1. Avenida Santa Rosa

2. Estrada Nogueira

3. Praça José Dias Nogueira

4. Rua Romualdo Peixoto

5. Rua Poeta Marinho

6. Rua Pedro Cardoso

7. Rua Patrício Menezes

8. Rua Mário Bárbara Sobrinho

9. Rua Júlio Armond

10. Rua Hipólito Sardinha

11. Rua Alcides Vieira Maciel

12. Rua Altino Campos

13. Rua Ary Ribeiro Vaz

14. Rua Carlos Bruno

15. Rua Doutor Custódio Siqueira

16. Rua Godofredo de Carvalho

17. Rua Adolfo Porto

18. Travessa Projetada A

19. Travessa Projetada B

20. Travessa Projetada C

Já a FAMAC dispõe de um registro que identifica as ruas que compõem um bairro, em função da organização das associações de moradores existentes no município. Para ela, Custodópolis é constituído pelas seguintes ruas:

1. Avenida Santa Rosa

2. Praça José Dias Nogueira (ou Praça 8 de dezembro)

3. Rua Romualdo Peixoto

4. Rua Poeta Marinho

5. Rua Pedro Cardoso

6. Rua Patrício Menezes

7. Rua Júlio Armond

8. Rua Hipólito Sardinha

9. Rua Carlos Bruno

10. Rua Adolfo Porto

11. Rua Jácio de Alvarenga

12. Rua Irmã Djanira de Moraes (Rua do Beco ou Proletário)

13. Rua Operário Valdir Manhães (Travessa N. S. da Conceição)

14. Rua Alfredo Rodrigues

15. Rua Valdarino (continuação da Travessa N.S. da Conceição)

Com tais referências verificamos que várias eram as possibilidades de identificação do bairro. Entretanto, parecia haver um consenso entre os moradores mais antigos, expresso, tanto através de seus depoimentos, quanto do mapa elaborado, por iniciativa de um deles.

Só tem 3 ruas aqui: Júlio Armond, Poeta Marinho e Patrício Menezes. A Carlos Bruno já é (Parque) Novo Mundo. Custodópolis é esse pedaço aqui. É só

esse miolo (ruas Júlia Armond, Patrício Menezes, Hipólito Sardinha e Carlos Bruno). Pra lá é Santa Rosa, Morro de Fátima Custodópolis é pequeno mesmo. Vai até ali a baixada.

Custodópolis é pequeno mesmo. Vai até ali a baixada. Mapa 1: Mapa do bairro desenhado por

Mapa 1: Mapa do bairro desenhado por um morador Fonte: Arquivo GRIPES

Diante de tantas possibilidades para se entender o espaço ocupado por Custodópolis, a equipe do projeto Cidade de Palha optou por considerar a classificação do IBGE e do Almanaque 2008, para acesso a indicadores estatísticos oficiais que pudessem auxiliar a configuração de um retrato, mais geral, do cenário onde Custodópolis estava inserido. Entretanto, para a realização da pesquisa de campo, com a seleção das famílias a serem investigadas, foi priorizada a versão dos moradores, por considerarmos que, o que importava não era o “território em si mesmo”, mas o “território usado”, aquele que era “o chão mais a identidade”, como destaca Milton Santos (2007). Em entrevista à Seabra, Carvalho e Leite (2000, p.22) o autor, ainda, destaca:

“O território em si, para mim, não é um conceito. Ele só se torna um conceito utilizável para a análise social quando o consideramos a partir de seu uso, a partir do momento em que o pensamos juntamente com aqueles atores que dele se utilizam”. Chegamos, assim, à configuração de Custodópolis através de três ruas paralelas: Júlio Armond (e seu prolongamento na Av. Santa Rosa), Patrício Menezes e Poeta Marinho, todas compreendidas nos trechos situados entre as Ruas Hipólito Sardinha e Romualdo Peixoto. Tais ruas englobam ainda, as seguintes transversais: Adolfo Porto, José Dias Nogueira, Travessa N.S. da Conceição (e sua continuação

35

Valdarino), Pedro Cardoso e Rua C. Reconhecendo o território a ser investigado, identificando

e travando os primeiros contatos com nossos possíveis

interlocutores, desenhamos o fio condutor da pesquisa e sua matriz

de análise, recorrendo, sobretudo, aos eixos gerais definidos pelo

Programa Bairro Saudável 11 . Simultaneamente, planejamos os passos seguintes do Projeto Cidade de Palha, selecionando as estratégias consideradas como mais adequadas para a construção do diagnóstico socioambiental pretendido.

2.

ENTREVISTAS E OBSERVAÇÕES, O MAPA FALANTE E O

NOVAS

AVANÇANDO

UM

POUCO

MAIS:

INQUÉRITO POPULACIONAL

Os movimentos, até então, empreendidos no território de Custodópolis nos permitiram avançar na sistematização do diagnóstico sócio-ambiental iniciado, considerando 2 fases. A primeira, denominada por nós de Fase operacional 1 e realizada no período de agosto a dezembro de 2008, implicava a elaboração de um Diagnóstico Rápido Participativo, com levantamento de dados, através de um envolvimento da comunidade. Com tal fase poderíamos dispor de uma leitura preliminar da realidade, que

sinalizaria algumas ações prioritárias a serem desenvolvidas pelos demais parceiros do Programa Bairro Saudável.

Já a segunda, Fase operacional 2, prevista e executada no

Neste momento foi fundamental a participação de uma assistente social e uma acadêmica de enfermagem, moradoras do bairro. Entrosando-se à equipe do GRIPES, elas circulavam conosco na comunidade, nos indicavam informantes chaves relacionados à história de Custodópolis, mantinham contatos preliminares como os mesmos e agendavam entrevistas, que nos possibilitaram colher depoimentos como:

Até onde eu conheci era tudo palha. As casas tinha o teto de palha e as parece de entulho, botava o bambu e jogava barro. Era perigoso pra pegar fogo. A água era de cacimba, puxava com corda. Ainda tem casa com poço. Era tudo mato, só tinha uns trilhos (caminhos) onde a gente passava.

Tinha 7 anos quando vim pra Custodópolis. Era mais ou menos 1950 e estavam loteando. Aqui era canavial mesmo, com carro de boi passando, com boiada passando. Minha avó já morava aqui antes e não tinha rua, tinha que romper os caminhos, corta aqui, corta ali, no meio do canavial. Era assim: um caminho, uma casa

ano de 2009, abrangia a construção de um perfil sócio-econômico-

 

Começamos a estreitar os laços com a comunidade, passando

cultural das famílias moradoras no território de Custodópolis,

a

conhecer, mais profundamente, seu cotidiano. Movimentos do ontem

recorrendo-se à realização de um inquérito populacional. Seria o momento de se investir em dados mais quantitativos, articulando, possivelmente, indicadores de interesse de outras áreas profissionais atuantes no programa.

do hoje se misturavam, identificando diferentes cenários e situações,

não só através de suas falas, mas também, de fotos, objetos e documentos que guardavam como lembranças ou coletavam junto a vizinhos e amigos. Eram verdadeiras relíquias, exibidas com orgulho para nós. Foi assim com um quadro antigo que retratava a ocasião em que um morador

e

A

fase operacional 1 comportou os seguintes passos:

(agora com mais de 80 anos), era jovem e até “recebeu convite até pra

a. Realização de entrevistas com moradores mais antigos e lideranças;

fazer um filme. Mas depois não deu em nada”, ou mesmo, com muitas fotos da União da Esperança, ilustrando os desfiles carnavalescos dos quais vinha participando, há mais de 50 anos, bem como alguns prêmios

b. Construção de um mapeamento do território, identificando tanto a ocupação domiciliar, quanto a existência de iniciativas, ações e equipamentos sociais;

recebidos. Tomamos conhecimento, também, de momentos em que uma enchente alagou todo o campo de futebol, além de registros de

c. Realização da observação participante de acordo com o mapeamento elaborado;

mobilizações da comunidade, realizando doações, face às necessidades daqueles considerados como mais carentes. Não menos importante foi

d. Realização de encontros para detalhamento da operacionalização do projeto, envolvendo representantes da comunidade;

e. Realização de Oficinas Comunitárias, recorrendo a técnicas como o Mapa Falante (identificação e discussão de necessidades, expectativas, representações prévias e possíveis enfrentamentos);

f. Formulação de uma agenda com as demandas identificadas e prioridades pactuadas;

g. Produção de relatórios parciais.

a construção da igreja católica, documentada através de fotos das diversas fases de sua obra, expressando uma grande conquista dos moradores. Nesta etapa, chamou nossa atenção a estrutura e o movimento do comércio do bairro, motivando a circulação de moradores de áreas vizinhas e identificamos, ainda, um importante canal de comunicação existente: o serviço de alto-falante que funcionava em um açougue. Junto aos avisos de nascimentos, mortes e eventos locais de destaque, tal serviço, também, passou a divulgar quem éramos e o que pretendíamos com o projeto Cidade de Palha, além de convidar os demais moradores que se interessassem em participar.

11 Referimo-nos aos conceitos de educação permanente, saúde, promoção da saúde, cidade saudável e empoderamento, já trabalhados no artigo anterior.

Cada fala e cada canto da comunidade nos revelava a vitalidade daquele cenário, o amor pelo bairro, o apego a uma

história

Estávamos diante de uma paisagem caracterizada, sobretudo, por situações de desemprego e/ou ocupações informais; baixo nível de escolaridade; precárias condições de saneamento ambiental; falta de segurança pública; ausência de oportunidades de lazer; limitações na saúde, identificando-se queixas referentes a problemas cardíacos, dermatológicos, verminose, escabiose, hipertensão, diabetes, depressão e crianças com baixo peso; vulnerabilidades familiares associadas a fatores como gravidez na adolescência, dependência química, violência e abuso sexual; interferências político partidárias no cotidiano da população, com prática de ações de cunho assistencialista, promovendo atendimentos em âmbito pessoal e

Mas, também, havia sérios problemas a serem enfrentados.

contribuindo para o enfraquecimento de mobilização de interesses coletivos. A exploração preliminar realizada indicava, portanto, que com um olhar voltado para o passado e com um presente permeado por contradições, a comunidade de Custodópolis, vivenciava um confronto entre o cenário real e o desejado. Para sistematizar os dados obtidos até então, a equipe do GRIPES elaborou um documento denominado Cidade de Palha:

Diagnóstico Preliminar e um material audio-visual, em julho de 2008, considerando os seguintes aspectos:

em julho de 2008, considerando os seguintes aspectos: Foto 1: O bairro que temos Fonte: Arquivo

Foto 1: O bairro que temos Fonte: Arquivo GRIPES

a. Localização: um bairro e muitas classificações

b. Explorando o território: o lugar e suas tramas

c. População, ocupação e renda

d. Educação, cultura e religião

e. Esporte, lazer e segurança

f. Saúde e saneamento ambiental

g. Programas sociais e organização comunitária

Tanto o documento escrito, quanto o material audio-visual foram disponibilizados e debatidos junto aos parceiros do Programa Bairro Saudável e junto à comunidade, envolvendo, sobretudo, o grupo de idosos vinculado ao CSEC e uma escola local. Tais momentos propiciaram o aprofundamento das discussões sobre o cotidiano da comunidade em reuniões e oficinas que passaram a acontecer com a participação de alguns moradores. Articulando conhecimento e ação, estes encontros logo se desdobraram na construção de um mapa falante contrapondo “o bairro que temos” (composto por fotos da localidade) ao “bairro que queremos” (ilustrado com imagens retiradas de revistas), gerando, também, a elaboração de um abaixo assinado, dirigido ao poder público municipal, com as principais reivindicações da comunidade. 12

com as principais reivindicações da comunidade. 1 2 Foto 2: O bairro que queremos Fonte: Arquivo

Foto 2: O bairro que queremos Fonte: Arquivo GRIPES

12 Estas reuniões deram origem ao processo de organização de um Conselho Local de Saúde, em andamento na comunidade.

Dando continuidade ao aprofundamento do diagnóstico socioambiental a equipe do GRIPES, paralelamente, começou a

organizar a fase seguinte de sua proposta inicial, ou seja, a realização de um inquérito populacional. Neste momento (final de 2008 e início de 2009), considerando outras iniciativas que já vinham ocorrendo através das instituições parceiras, em Custodópolis, e a possibilidade de construirmos, em conjunto, um único instrumento para coleta de dados quantitativos complementares ao diagnóstico, foi discutida

a possibilidade de organizarmos uma equipe ampliada, com a

participação sistemática de outras áreas profissionais. Como consequência de tal discussão houve o entrosamento de representantes dos cursos de serviço social (UFF), medicina (FMC), enfermagem (UNIVERSO) e arquitetura e urbanismo (IFF), que iniciaram o planejamento do inquérito populacional, analisando sua possível dinâmica e os instrumentos de coleta de dados a serem utilizados. Reconhecíamos como Viacava, Dachs e Travassos (2006),

a importância de recorrermos à realização de um inquérito

populacional, tendo em vista o conjunto de informações que poderia propiciar, notadamente, por estarmos inseridos no campo da saúde, campo este, entendido em seu sentido ampliado. Ao se constituir como fonte primária de dados que não podem ser obtidos de outras maneiras, tal inquérito, provavelmente, fomentaria a construção de indicadores capazes de instrumentalizarem estudos epidemiológicos, sinalizando parâmetros para o planejamento de ações em saúde 13 . Uma pergunta passou a guiar nossa investigação: Como

se desenhavam as vulnerabilidades socioeconômicas, ambientais e

civis existentes no território de Custodópolis e que influências elas

exerciam no sentido de impedir e/ou dificultar sua constituição como um bairro saudável? O que estava, portanto, em análise era o eixo vulnerabilidade-bairro saudável, apontando para as seguintes

hipóteses:

1-

O território de Custodópolis era marcado por diferentes expressões de vulnerabilidade, que extrapolavam o âmbito individual e alcançavam o espaço coletivo, comportando variáveis sociais, econômicas, ambientais e civis.

2-

Como consequência do processo de vulnerabilidade em curso, instalava-se um contexto que bloqueava o exercício da cidadania deliberativa (TENÓRIO, 2006) e comprometia o investimento na qualidade de vida da população.

Desta forma, aos eixos analíticos adotados no Programa

Bairro Saudável, associávamos os conceitos de vulnerabilidade e território. Recorrendo à Milton Santos, (2007, p. 12) entendíamos

o território não apenas como:

o conjunto de sistemas de coisas

superpostas: o território tem que ser entendido como o território usado, não o território em si. O território usado é o chão mais a identidade. A identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é o fundamento do trabalho; o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida.

Tratava-se, sobretudo, de destacar que:

O território é o lugar em que desembocam todas as ações, todas as paixões, todos os poderes, todas as forças, todas as fraquezas, isto é, onde a história do homem plenamente se realiza a partir das manifestações da sua existência (p.14)

Aproximando tais referências à realidade de Custodópolis interessava-nos problematizar as contradições que transitavam neste cenário, retomando sua história, modo de vida e os possíveis processos de vulnerabilidade em curso, além da postura dos sujeitos face aos mesmos. Se era correto dizer que estávamos diante de um território marcado por vulnerabilidades, como estas se expressavam? Era possível afirmar que elas estavam associadas, sobretudo, ao cotidiano de pobreza dos indivíduos, ao contexto de precariedades decorrentes da baixa escolaridade e da falta de trabalho e renda das famílias? Ou precisávamos ampliar nossa análise alcançando o espaço coletivo, abarcando dimensões socioeconômicas, ambientais e civis? Quando falávamos em vulnerabilidade estávamos nos referindo ao “processo de descidadanização” abordado por (KOVARIK, 2003) e a situações e contextos onde 3 elementos se combinavam: a existência de riscos, a incapacidade de reação, além de dificuldades de adaptação face à materialidade do risco (MOSER, 1998). A questão não se limitava a rendas monetárias ou linhas de pobreza, admitindo, também, uma visão mais ampla sobre condições de vida, onde dialogavam elementos de ordem social, econômica, cultural, ambiental, civil, dentre outros, considerando recursos e estratégias das famílias e comunidades. Isto significava dizer que iríamos observar as indicações de Busso (2002, p.12), ao focalizar as 5 dimensões da vulnerabilidade tidas como mais relevantes:

a) de habitat: condições habitacionais e ambientais, tipo de moradia, saneamento, infraestrutura urbana, equipamentos, riscos de origem ambiental;

b) de capital humano: anos de escolaridade, alfabetização, assistência escolar, saúde, desnutrição, ausência de capacidade, experiência de trabalho;

c) econômica: inserção de trabalho e renda;

d) de proteção social: cotização a sistema de aposentadoria, cobertura de seguros sociais e outros;

13 Sobre o significado e a importância da realização de inquéritos domiciliares consultar Viacava (2002), Barros (2008), Viacava; Travasso; Dachs (2006), Carvalho (2006).

e)

de capital social: participação política, associativismo, inserção em redes de apoio.

No âmbito da discussão da vulnerabilidade cabia, assim, considerar o investimento na superação dos fatores limitantes que impediam a construção de melhores condições de vida, ou seja, era importante lembrar do “manejo social do risco” (SOJO, 2001), tendo em vista suas implicações para a política social. Estas foram as principais referências analíticas consideradas pela equipe, para o aprofundamento do diagnóstico, compondo momentos de estudo e debate que envolveram alunos, docentes e técnicos atuantes no projeto, durante todo o tempo de execução do mesmo. Além disso, com uma equipe, agora ampliada 14 e, face às características específicas desta fase, era preciso investir em novos treinamentos, para se garantir a qualidade do trabalho a ser desenvolvido. Desta forma, cada participante recebeu um manual com orientações referentes ao trabalho de campo e foram promovidos alguns encontros para se discutir o próprio projeto, suas concepções e objetivos; a postura no campo de pesquisa, além das indicações a serem consideradas, com base no pré-teste realizado sobre o instrumento de coleta de dados; a dinâmica de pesquisa a ser adotada, com duplas de acadêmicos de áreas diferentes; o cuidado com o preenchimento dos formulários, a importância do registro de observações no diário de campo

do registro de observações no diário de campo Foto 3: Parte do treinamento da equipe Fonte:

Foto 3: Parte do treinamento da equipe Fonte: Arquivo GRIPES

Foto 3: Parte do treinamento da equipe Fonte: Arquivo GRIPES Foto 4: Parte do treinamento da

Foto 4: Parte do treinamento da equipe Fonte: Arquivo GRIPES

O formulário elaborado era composto por 87 questões, distribuídas em 6 sessões, ou seja: identificação do entrevistado (9 questões); habitat: moradia e entorno (33 questões); capital humano (24 questões); perfil econômico (8 questões); proteção social (7 questões) e capital social (6 questões). Embora longo, era de fácil e rápida aplicação, uma vez que envolvia, sobretudo, questões objetivas. Observações complementares, quando necessárias, eram registradas no diário de campo, instrumento que se revelou um importante aliado dos pesquisadores, permitindo preservar falas que traduziam opiniões, valores, sentimentos e experiências de vida dos moradores de Custodópolis. Uniformizada e devidamente identificada, através do uso de crachás, durante os meses de agosto a dezembro de 2009, a equipe percorreu o território definido como Custodópolis, atuando em duplas compostas por acadêmicos das diferentes áreas participantes do projeto. A expectativa era abordar em torno de 500 famílias, o que se estimava corresponder à totalidade do grupo residente na área. Tal número, contudo, foi ampliado para 658, uma vez que se identificou, durante as visitas às moradias que algumas delas não faziam face às ruas e, por isso, ficavam encobertas, não sendo, até então, percebidas. Posteriormente, em abril de 2010, retornamos ao campo, na tentativa de complementar as entrevistas, face à dificuldade de acesso anterior a algumas famílias.

face à dificuldade de acesso anterior a algumas famílias. Foto 5: Alguns membros da equipe Fonte:

Foto 5: Alguns membros da equipe Fonte: Arquivo GRIPES

14 Nesta fase a equipe era composta por 6 coordenadores gerais, representando as instituições envolvidas; 4 coordenadores de campo, divididos por 2 setores na comunidade; 2 equipes de apoio operacional como 9 componentes; e 2 técnicos colaboradores, além de 43 acadêmicos pesquisadores de campo: 13 de serviço social (UFF), 13 de medicina (FMC), 13 de enfermagem (UNIVERSO) e 4 de arquitetura e urbanismo (IFF).

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Foto 6: Acadêmicos de arquitetura e serviço social na pesquisa de campo Fonte: Arquivo GRIPES

Foto 6: Acadêmicos de arquitetura e serviço social na pesquisa de campo Fonte: Arquivo GRIPES

Com a intenção de atingirmos a um maior número possível de famílias, alternamos a realização do trabalho de campo nos turnos da manhã e tarde, bem como nos dias úteis e finais de semana. Além disso, adotamos o critério de realizar duas visitas a cada casa, além de recorrermos ao uso de um folder, deixado nos locais, informando que tínhamos estado naquela residência e que o formulário poderia ser respondido no próprio CSEC, em alguns plantões, previamente, agendados, caso fosse de interesse do morador. Com isso, a equipe conseguiu atingir 333 moradias, o que correspondeu a 50,6% do total identificado. O grupo não pesquisado englobou 9,1% que se recusaram a participar do inquérito, e 40,3% referentes à outras situações como: casas, aparentemente, abandonadas e aquelas onde não encontramos moradores, apesar das duas tentativas realizadas. Ao longo deste processo, a equipe investiu, também, na produção científica, construindo textos e participando de eventos, como por exemplo:

1. Palestra proferida por docentes da UFF, em Campos, sobre

o tema Interinstitucionalidade e Interdisciplinaridade:

desafios à sua operacionalização, em maio de 2009.

2. Minicurso, ministrado por docente da UFF, em junho de 2009, no ESR/UFF, enfocando o tema Pesquisa interdisciplinar: a experiência de Custodópolis, dentro da programação do Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica.

3. Palestras proferidas por docentes da UFF, na UENF, em

julho de 2009, enfocando o tema Pesquisa interdisciplinar:

a experiência de Custodópolis, dentro da programação do

Curso Conhecer para prevenir: atualização em saúde 2009.

4. Palestra proferida por docentes da UFF, em agosto de 2009, no município de Pádua, abordando o tema Cidade de Palha:

projeto de pesquisa e extensão, dentro da programação: II Seminário Norte-Noroeste de Extensão.

5. Palestra “Cidade de Palha: re-conhecendo o território de Custodópolis”, realizada por docente da UFF, em debate promovido em setembro de 2009, nos seminários do Programa de Pós-graduação em Políticas Sociais do Centro de Ciências do Homem, da UENF.

6. Palestra proferida por docente da UFF, no Museu Olavo Cardoso (Programação Direitos Humanos na Primavera dos Museus), em setembro de 2009, sobre o tema: Vulnerabilidade e cidadania

em bairros periféricos, apresentando a experiência do projeto.

7. Participação da bolsista Paula Emely Cabral Torres (serviço

social – UFF) e dos alunos Aline da Silva Viana Jorge (serviço

social – UFF), Juliana Gomes Barreto (enfermagem - UNIVERSO), Lucas Rangel de Souza (medicina – FMC) e

Juliana Peixoto Rufino Gazem de Carvalho (arquitetura e urbanismo – IFF), na XIV Semana de Extensão da UFF (Niterói), em outubro de 2009, apresentando o trabalho “Cidade de Palha:

trajetórias de um saber fazer no território de Custodópolis”.

8. Participação da bolsista Paula Emely Cabral Torres (serviço

social – UFF) e dos alunos Aline da Silva Viana Jorge (serviço

social – UFF), Juliana Gomes Barreto (enfermagem - UNIVERSO), Lucas Rangel de Souza (medicina – FMC) e Juliana Peixoto Rufino Gazem de Carvalho (arquitetura e urbanismo – IFF), na I Mostra de Extensão IFF – UENF - UFF, em outubro de 2009, apresentando o trabalho “Cidade de Palha:

trajetórias de um saber fazer no território de Custodópolis”. O trabalho apresentado foi premiado como melhor poster da UFF no evento.

9. Participação da bolsista (PIBIC) Gerlaine Jesus de Souza, no

XIX Seminário de Iniciação Científica e Prêmio UFF

Vasconcellos Torres de Ciência e Tecnologia, da UFF, em outubro de 2009, apresentando o trabalho “Cidade de Palha:

inquérito populacional em bairro vulnerável”.

10. Apresentação do trabalho (categoria banner) “Cidade de Palha:

vulnerabilidade e saúde no território de Custodópolis/Campos dos Goytacazes”, por docente da UFF, no IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em novembro de 2009, Olinda/ Pernambuco.

11. Realização do I FISC - I Fórum Interdisciplinar em Saúde Coletiva, em novembro de 2009, em parceria com a Faculdade de Medicina de Campos e apoio das demais instituições que participam do Programa Bairro Saudável: tecendo redes, construindo cidadania.

12. Participação dos alunos Márcio Pereira, Thiago Rebel, Laura Lamônica, Lorena Guimarães e Keila Pessanha (enfermagem – UNIVERSO); Silvânia Silva, Ivone Magaldi e Joelma Bastos (serviço social - UFF); Adilea Silveira e Rafael de Oliveira (medicina – FMC): Rafael Mesquita e Júlia Lima (arquitetura e urbanismo – IFF), no I FISC – I Fórum Interdisciplinar em

Saúde Coletiva, em novembro de 2009, apresentando o trabalho

“Cidade de Palha: inquérito populacional em bairro vulnerável”.

40

13. Elaboração do Trabalho Final de Curso – TFC – “Por

aonde vou: um estudo sobre itinerários

terapêuticos”, de autoria de Aline da Silva Viana Jorge, apresentado ao Departamento de Serviço Social de Campos/UFF, em 2010.

14. Participação dos alunos Adiléa Lopes da Silveira (FMC), Júlia Lima de Araújo (IFF), Késia Silva Tosta (UFF) e Paula Emely Cabral Torres (UFF), na II Mostra de Extensão IFF – UENF - UFF, em outubro de 2010, apresentando o trabalho “Cidade de Palha: trajetórias de um saber fazer no território de Custodópolis”. O trabalho foi premiado como melhor poster da UFF no evento.

15. Elaboração do Trabalho Final de Curso – TFC – Entre

o ontem e o hoje: uma análise da urbanização na

trajetória da Cidade de Palha a Custodópolis, de autoria de Paula Emely Cabral Torres, apresentado ao

Departamento de Serviço Social de Campos/UFF, em julho de 2011.

16. Participação da bolsista de extensão Késia Silva Tosta na XV Semana de Extensão da UFF, em outubro de 2011, apresentando o trabalho “Inquérito populacional em território vulnerável”, sob forma de comunicação oral, em Niterói, em novembro de 2010. Foram autores

do trabalho: Adiléa Lopes da Silveira (FMC), Júlia Lima

de Araújo (IFF), Késia Silva Tosta (UFF), Paula Emely

Cabral Torres (UFF), Denise Chrysóstomo de Moura Juncá (UFF), Verônica Gonçalves Azeredo (UFF), Carlos Antonio de Souza Moraes (UFF), Katarine de Sá Santos (UFF) e Aline da Silva Viana Jorge (UFF).

17. Participação da bolsista de iniciação científica Paula Emely Cabral Torres no XX Seminário de Iniciação Científica, apresentando o trabalho “Inquérito populacional em território vulnerável”, sob forma de comunicação oral, em Niterói, em novembro de 2010.

18. Participação da bolsista de extensão Késia Silva Tosta (UFF), da bolsista de iniciação científica Paula Emely Cabral Torres (UFF) e da docente Katarine de Sá Santos (UFF) na V Semana Acadêmica do Curso de Serviço Social, apresentando o projeto “Cidade de Palha: re- conhecendo o território de Custodópolis”, em Campos dos Goytacazes, em novembro de 2010.

19. Participação de docentes e bolsistas da UFF no 4º Seminário de Pesquisa do ESR/UFF, apresentando o trabalho Da Cidade de Palha à Custodópolis: trajetórias de vulnerabilidade e cidadania, em março de 2011.

20. Elaboração do Trabalho Final de Curso – TFC – “Entre o ontem e o hoje: uma análise da urbanização na trajetória da ‘Cidade de Palha’ a Custodópolis”, da autoria de Paula Emely Cabral Torres, apresentado ao Departamento de Serviço Social de Campos, em julho de 2011.

onde ando

15 Tal análise encontra-se registrada nos demais artigos desta publicação.

21. Qualificação do projeto “Famílias nas Terras de Custódio:

itinerários de proteção social“, da autoria de Verônica Gonçalves Azeredo para o Doutorado em Política Social na UFF a partir da linha de pesquisa: sujeitos sociais e proteção social, em agosto de 2011.

22. Participação de docente da UFF no Seminário do LEUS – Laboratório de Estudos Urbanos e Socioambientais – vinculado à PUC/RJ, proferindo conferência sobre Cidade de Palha: movimentos de investigação-ação em território vulnerável, em agosto de 2011.

23. Participação da bolsista Késia Silva Tosta (UFF) na III Mostra de Extensão IFF – UENF – UFF, apresentando o trabalho Cidade de Palha: estudo socioambiental no território de Custodópolis, em outubro de 2011. O projeto foi premiado como melhor apresentação de banner da UFF.

Tais momentos propiciaram a realização de avaliações e sistematizações parciais do projeto, além de reforçarem a dinâmica adotada, valorizando o entrosamento ensino-pesquisa-extensão, que estávamos conseguindo exercitar. Entretanto, foi, somente, após a tabulação final e análise dos dados coletados 15 , associando as questões do formulário aplicado, aos registros processados no diário de campo, que se passou a dispor de um amplo conjunto de informações a serem discutidos em maior profundidade, tanto com as instituições parceiras do Programa Bairro Saudável, quanto com a própria comunidade.

3.

interdisciplinar

Os

Desafios

de

uma

experiência

interinstitucional

e

“Interdisciplinaridade não se ensina nem se aprende, apenas vive-se e exerce-se.” (VILELA; MENDES, 2003, p. 527) – esta foi

a lógica que orientou a experiência que vivenciamos, configurando

um desafio de ultrapassar o discurso e alcançar a prática, considerando uma dupla perspectiva: a institucional e a disciplinar. Incorporando os eixos norteadores do Programa Bairro Saudável, de um lado, queríamos exercitar a interdisciplinaridade na produção do conhecimento, considerando que a mesma “funda- se no caráter dialético da realidade social que é, ao mesmo tempo, una e diversa” (FRIGOTTO, 1995, p.27), além de reconhecermos

a natureza intersubjetiva de sua apreensão. De outro, entendíamos

que, com tal perspectiva, o conhecimento produzido poderia gerar ações mais sintonizadas com o perfil do território estudado, preservando-se, simultaneamente, as especificidades de cada campo do saber e a abertura na direção de um fazer coletivo (GOMES; DESLANDES, 1994, p. 111). Estávamos, portanto, diante da possibilidade de uma prática exigente, que impunha sensibilidade, determinação, abertura ao novo e flexibilidade. Serviço social, medicina, enfermagem, arquitetura e urbanismo buscavam dialogar, construindo uma

41

relação marcada pela necessidade de transcender o conhecimento e a prática fragmentada, postulando uma nova síntese do saber-fazer. Nossa preocupação era fugir do discurso que acaba por banalizar a interdisciplinaridade, reconhecendo, ainda, que mais importante que defini-la era

refletir sobre as atitudes que se constituem como interdisciplinares:

atitude de humildade diante dos limites

];

a atitude de espera diante do já

estabelecido para que a dúvida apareça

e o novo germine; a atitude de

deslumbramento ante a possibilidade

de superar outros desafios; a atitude de

respeito ao olhar o velho como novo, ao olhar o outro e reconhecê-lo, reconhecendo-se; a atitude de cooperação que conduz às parcerias, às trocas, aos encontros, mais das pessoas que das disciplinas, que propiciam as transformações, razão de ser da interdisciplinaridade.” (TRINDADE, 2008, p.73)

do saber próprio e do próprio saber [

Tratava-se, de uma tarefa que ficava ainda mais complexa

por associar instituições de ensino superior com trajetórias, projetos acadêmicos e rotinas técnico-administrativas diferenciadas. Tais diferenças, contudo, não impediram que as mesmas aderissem a um programa, inédito na região, que intencionava investir, tanto na qualidade do espaço de formação profissional, quanto no empreendimento de estudos e ações capazes de desencadearem um processo de transformação no território de Custodópolis: de bairro vulnerável, para bairro saudável.

Na fase inicial do detalhamento do inquérito já foi possível

experimentar a importância de associar distintas formas de olhar e pensar uma realidade, uma vez que cada movimento foi construído, em conjunto, pelo grupo de coordenadores composto por um representante de cada instituição parceira. Várias discussões ocorreram, levando-nos a reconhecer a importância do caráter complementar de cada fala, contribuindo para o aperfeiçoamento da proposta, a elaboração dos instrumentos para coleta de dados, o mapeamento de sua operacionalização

O treinamento dos acadêmicos que iriam atuar como

pesquisadores de campo, também, foi bastante produtivo. Sua dinâmica envolveu dramatizações, leituras orientadas e debates, procurando propiciar um entrosamento do grupo e o necessário nivelamento para a garantia da qualidade de um trabalho deste porte. Entretanto, já nesta fase, foram sinalizadas as primeiras dificuldades englobando questões de diferentes naturezas, como por exemplo, a necessidade, tanto do grupo de docentes coordenadores, quanto dos alunos, em conciliar horários para as reuniões de estudo e trabalho

de campo, em conjunto, além das atividades de acompanhamento sistemático e avaliação do desenvolvimento deste último. A pouca ou nenhuma experiência anterior, de alguns, com projetos desta natureza acentuava, ainda mais, tal problema exigindo uma atenção permanente da coordenação geral, tanto no que se refere à rotina adotada na pesquisa, quanto aos primeiros resultados que começaram a ser produzidos. Além disso, havia o fato de que, embora a maioria dos discentes demonstrasse identificação com a proposta e interesse em participar, ativamente, da mesma, o que de fato ocorreu, alguns sinalizavam estar cumprindo uma exigência acadêmica, mantendo-se no campo durante

um período mínimo e de forma não contínua, o que exigia sua

substituição e novos treinamentos. No âmbito da coordenação geral, as limitações também

aconteceram, fragilizando, em alguns momentos, a execução do processo de acompanhamento e avaliação previstos. Na verdade, vivenciávamos

dificuldades que podem ser comuns na operacionalização de qualquer pesquisa, mas que pareciam mais acentuadas, talvez, em decorrência de se tratar de uma proposta interdisciplinar e interinstitucional. Cada passo precisou, assim, ser acompanhado de forma atenta e cuidadosa, pela coordenação geral e pelos assistentes sociais coordenadores de campo, considerando, sobretudo, os critérios para definição das duplas de alunos para a realização da pesquisa; as orientações contínuas sobre a coleta dos dados quantitativos, processando-se as devidas revisões nos formulários, quando necessário; e a análise preliminar dos registros qualitativos no diário de campo, sinalizando-se as principais categorias de interesse do projeto. Não há como negar as inúmeras dificuldades vividas pela equipe, quer no âmbito de sua organização e dinâmica interna, quer no próprio campo, enfrentando-se problemas operacionais de diversas ordens. Foram barreiras nem sempre fáceis de romper e outras que, ainda, precisarão ser superadas, na continuidade do projeto. Os primeiros resultados de nossa experiência nos deixam, porém, uma certeza: uma proposta de trabalho interdisciplinar e interinstitucional tem incontestável valor. Entretanto, é preciso assumi- la como uma prática dinâmica e processual, algo a ser exercitado cotidianamente, analisando-se suas complexidades e possibilidades, ultrapassando-se limites institucionais e pessoais, com persistência, responsabilidade e compromisso efetivo de todos, não se perdendo de vista que seu foco central encontra-se no território pesquisado, na comunidade composta por sujeitos que lhe dão vida. Destacamos como Saupe et, al. (2005, p.532 ) que “não existem fundamentos prescritivos para a prática interdisciplinar; é na vivência, nos acertos e erros e na identificação das dificuldades que se constrói um cotidiano de equipe.” Para os autores, “a condição primeira da prática interdisciplinar se encontra nas atitudes dos membros da equipe”, uma vez que ela “encerra a competência-mãe, nutridora, que oferece as condições dos desdobramentos das habilidades e conhecimentos.” (Id.) Eles ainda esclarecem que o bloco de categorias relacionadas com atitudes incluem: “respeito à disciplina do outro, respeito ao outro, tolerância, aceitação de sugestões, respeito às limitações, respeito às competências, comprometimento com o sistema, ouvir, reflexão, humildade, mudança, respeito às diferenças, ética, autoridade, empatia.” (Id.)

42

Concordando com tais indicações defendemos, assim, que não basta nos identificarmos com os princípios de uma prática

interdisciplinar ou, apenas, defendermos sua lógica, seus objetivos

e vantagens. É preciso vivê-la a cada dia, como algo em construção, com avanços e recuos. Neste sentido, temos a certeza, que o exercício pretendido, através de nosso projeto, apenas começou.

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et.al. Territórios,

43

7

Território de Custodópolis: mapeando memórias e lugares

1-

O Lugar da Memória

“Todo lugar tem sua historicidade, seu significado e sua memória”. (DE PAULA; MARANDOLA JR, 2009,p.5)

O lugar como espaço da memória não se restringe a um

local. Seu significado é apreendido pelas experiências dos que o habitam material e simbolicamente. Através destas experiências

são construídas as formas de sociabilidade, mediadas por conflitos de valores em disputa. Portanto, a memória e a historicidade são categorias chaves para identificar os itinerários de sociabilidade e apreender os padrões de comportamento dos sujeitos sociais, que se conhecem e mantêm relações de troca. Do contato com o bairro e com as narrativas de seus moradores (através da observação participante e de entrevista com antigos moradores) 2 , foi possível traçar o percurso que configurou o lugar. Trata-se de deslocamentos que deu origem à Cidade de Palha e que posteriormente, sob as terras loteadas de Custódio, ao bairro-Custodópolis, situado no município de Campos dos Goytacazes/ RJ. Supostamente entre as décadas de 20 a 30 do século passado, o espaço foi pouco a pouco sendo apropriado 3 . Um lugar, inicialmente identificado como ponto de encontro de cortadores de cana, que se reuniam à espera de caminhões que os levassem para as lavouras das usinas canavieiras da região de campos dos Goytacazes. Logo seu Policarpo e seu José trataram de montar uma vendinha para atender aquela demanda. Mais tarde seu Zezé colocou um açougue.

E assim, alguns trabalhadores, que moravam em áreas

afastadas ou aqueles, que não tendo onde morar, acomodaram- se no entorno daquele lugar. “Pegavam um pedacinho e ficavam” e construíram suas casas em meio ao improviso. Utilizavam barro, bambu, folhas de palmeira ou sapé. “As casa tinham palha no lugar de telha”. Vista do alto parecia uma “Cidade de Palha”. “Puxando pela memória” foram desenhando o lugar que existia “naqueles tempos”: “Cheguei a ver muito brejo, lagoa e foi acabando com o canavial. O resto era tudo mato. Lá na baixada era tudo água. Na Cidade de Palha era mais alto”.

Verônica Gonçalves Azeredo 1

Na narrativa de uma moradora de 83 anos, lembranças e histórias: “Minha mãe me teve num barraco ali perto de onde hoje é a delegacia. Tinha as casinhas de palha e uma vendinha”. Sendo a memória parte do lugar e responsável pelo armazenamento coletivo de determinados saberes, é ela que fornece identidade ao local. (PAULA; MARANDOLA,2009,p.6). Nesse sentido, as narrativas recuperam o tempo em que a Cidade de Palha era “cercada por canaviais onde boa parte os moradores tiravam seu sustento” (G.R.E.S. União da Esperança,2008). Ao resgatarem a memória coletiva do lugar, os mais velhos se deixaram levar por percursos individuais, familiares e comunitários. Através de seus “mapas mentais afetivos” (ECKERT,2002,p.8) destacaram os circuitos de pertencimento e as mudanças na territorialidade do lugar:

“Quando vim era tudo mato. Esse negócio de calçamento das ruas é coisa nova, num tinha nem luz. Depois veio a

luz, a primeira casa que teve rádio foi a de meu pai. Os vizinhos vinham todos para ouvir as novelas, que naquele tempo era pelo rádio”. “As cercas (das casas) eram de

Não

gaiolinhas (tipo de planta) [

existia móveis, as camas eram de pau”.

“Para ir à cidade, ia de pé, não tinha

ônibus. De noite só via grilo e a luz era de lamparina”.

“[

A maioria era fogão à lenha e a

gente tinha um à querosene. A gente era muito conhecido, porque meu pai era seu Vadinho do querosene –ele vendia querosene. A luz só veio lá para 1960.”

]

]

Pessoa de referência do lugar, Custódio Siqueira, era um médico de posses e prestígio. “Era dono de tudo”, proprietário de terras na comunidade que resolveu transformá-las em lotes vendidos “baratinho”, “com pagamento facilitado”.

“Era um homem muito bom. Ele andava

1 Doutoranda em Política Social/UFF, Mestre em Serviço Social/UFRJ, Assistente Social/UFF, Prof. Adjunta do Curso de Serviço Social- ESR/UFF e pesquisadora do GRIPES.

2 Todas as observações e depoimentos de moradores que constam no corpo deste artigo, são produtos do trabalho da equipe de pesquisadores do GRIPES.

3 Parte deste artigo, referente a história do lugar, foi publicada originalmente na Revista CAMINHOS DE GEOGRAFIA, v.12,n.37, março de 2011.

44

sempre com Seu Alcebíades que era pessoa de sua confiança. Ele era quem media os terrenos e vendia. Dava assim 5 mil reis, 10 mil réis de entrada e ficava pagando. Dr. Custódio era uma pessoa muito simples. Ia na casa das pessoas, tomava cafezinho. Se alguém falava pra ele: esse mês não tive dinheiro pra dar ao senhor, ele falava assim: fica quieto, depois você me dá”. (GRIPES, 2008,

p.10)

Logo, as áreas loteadas ficaram conhecidas como “Terras de Custódio”. Ligado à política, Dr. Custódio morreu na Praça de São Salvador em cima de um coreto, discursando para ser prefeito. ”No seu enterro tinha muito pretinho, eram todos afilhados dele” (GRIPES,208,p.10). 4 Pouco a pouco a comunidade foi se alargando e as terras que eram de Custódio, passaram a ser também de Hipólito Sardinha, José Dias Nogueira, Sr. Nicodemos, Vicente, Zé Laurindo e tantos outros, que ao se apropriarem do lugar, construíram um estilo de vida que se tornou motivo de orgulho para antigos moradores.

Hipólito Sardinha era dono de uma padaria e do Cine Teatro Primor, o primeiro de Guarus 5 . Na lembrança dos mais velhos, “ele

queria alegrar o povo [

com o teatro amador”. Já, José Dias Nogueira, conhecido como Zezé Simão, foi homenageado tornando-se nome de rua. Lembrado por suas características públicas e espírito de liderança, foi responsável por “plantar as primeiras árvores da praça, organizar a comunidade na luta pela água encanada, mobilizou ajuda às famílias atingidas pela enchente de 1966”. E, 1962 foi candidato a vereador, mas não conseguiu se eleger. E houve quem questionasse: “Afinal, como pode um homem de tamanco ser eleito?”. Dinâmico por natureza, foi também o fundador e técnico do primeiro time de futebol local, batizado como Esporte Club Come Gato, cuja origem do nome se justifica pelas comemorações, ao final das partidas, onde bebiam e comiam “churrasco de gato” por ele oferecido. Tinha também o Senhor Nicodemos, graças a ele a alegria da criançada estava garantida nos domingos, pois “muitos se desdobravam pra ganhar umas moedinhas pra alugar suas bicicletas”. Quando o assunto é diversão, logo veio à lembrança a figura de Vicente, responsável pela Quadrilha Caipira e Zé Laurindo, pela Folia de Reis. Não faltava também fado, jongo e capoeira. Tinha circo, tourada e gente de longe para assistir. “nas touradas as pessoas colocavam cadeiras em volta, às vezes o touro escapulia e era aquela confusão”. As pessoas procuravam sempre um jeito de se divertir, seja “nos bailes nas casas, nos matinês da pracinha e do cinema ou no concurso de rainha do Grêmio”. Além é claro, da festa da padroeira Nossa Senhora da Conceição. Festa mais esperada do ano,

artistas,show de música e colaborava

],trazia

cujos festejos anunciados com fogos, duravam uma semana. Uma

programação que incluía jongo, corrida rústica, cavalhada e muitas barraquinhas.

A rua da raia, atualmente batizada como Poeta Marinho, era o

cenário das famosas corridas de cavalo. Entretenimento era o que não faltava, tudo se transformava em motivo para diversão, era comum a

vizinhança se reunir nas noites de lua e as crianças brincarem na rua. “Não tinha luz e nem medo, porque não tinha perigo”. “Cada um puxava

sua luz da pracinha (

Na memória dos antigos moradores, a pobreza não impedia de fazer desse local, um lugar alegre e movimentado. Da Cidade de Palha, as Terras de Custódio deram origem ao bairro mais antigo de Guarus: Custodópolis. O nome não poderia ser outro, uma homenagem ao Dr. Custódio Siqueira, dono das terras loteadas.

A Praça José Dias é referencia local. No seu entorno, numa

mistura de comércios e serviços, Custodópolis se desenha. Com um “comércio forte”, os moradores garantem que “a pessoa sai a qualquer hora e encontra o que quiser”. Tem “supermercado, farmácias, açougues, bares, sorveterias, Lan Hause, hortifruti, depósito de bebidas, lojas de fotos, roupas, brinquedos, artigos para o lar, material elétrico e ferragens,

locadora de DVDs, posto de combustível, consultório odontológico, ”

brechó de roupas usadas, sapateiro

No entanto, o cartão postal da praça é a igreja de Nossa Senhora

da Conceição, que juntamente com a Igreja Batista, localizada em rua paralela, são as referências religiosas mais antigas. Mas a vida religiosa do bairro é intensa, há também o Grupo Espírita, a Igreja da Renovação,

a Comunidade do Amor de Deus, Assembléia de Deus. Destas expressões

religiosas, a Igreja Batista se destaca por sua “prática de distribuição de alimentos, remédios, passagens e pequenas reformas nas casas dos mais carentes” (ibidem,2008,p.44). Na memória dos católicos, a nostalgia dos festejos de São Jorge

e da padroeira Nossa Senhora da Conceição. Uma festa que durava uma semana e movimentava a comunidade com “muitas barraquinhas, jongo, corridas rústicas, cavalhada, parque”. Havia uma combinação entre entretenimento e celebração com as novenas e procissão. “Hoje só tem procissão. Passa pelas ruas aquela filhinha curta, fraca”, porque o padre diz que “não pode fazer festa profana”. Valores e tradição se defrontam com um tempo em que festa na rua deve ser evitada por causa da violência. “É muita bebedeira e muita droga”. (ibidem,2008,p.5)

A saudade de antigos moradores identificados como “pessoas

boas que traziam alegria para o povo daquele lugar”, alimenta o imaginário e se expressa na narrativa dos que contam sobre um tempo que se tornou enredo: “Os amigos ilustres da verde e rosa e a Cidade de Palha no Jubileu de Ouro”, no carnaval de 2008 do G.R.E.S. União da Esperança (fundada em 1958). Através da “escola de samba”, uma das principais referências do bairro, Custodópolis é contada e cantada:

)

depois vieram os postes de madeira”.

(GRIPES,2008,p.37)

“Com o progresso, os canaviais foram dando lugar ao bairro e com ele a Cidade de Palha

4 Sobre a morte de Custódio Siqueira ver referência contida no livro Campos depois do Centenário, de autoria de Waldir P. de Carvalho .

5 GUARUS é o 1 distrito da Cidade de Campos dos Goytacazes/RJ e anteriormente era conhecido como Guarulhos (origem indígena).

45

passou a se chamar Custodópolis. Terra do futebol, carnaval, Cine Teatro Primor,

o primeiro cinema de Guarus [

quadrilha caipira do Vicente, a folia de reis do Zé Laurindo, o time Come Gato que tinha como líder e técnico José Dias

Nogueira. O fado, o jongo, a capoeira”.

A

]

Sempre fazendo referência ao jongo, os antigos moradores, não destacaram a figura da mais famosa jongueira: Maria Anita, cujo terreiro se localizava em Custodópolis. “Primeira mulher, carroceira,

a andar com roupas masculinas em seu trabalho de frete. Marcou

enquanto viveu, em caráter festivo, a tradição trazida pelos escravos

de Angola e Moçambique. Nos anos 70 do século passado, foi campeã

no festival de folclore promovido pelo SESC/Campos, tornando-se notícia nos meios de comunicação local como preciosa referência às manifestações da cultura de raiz (SOARES, 2004,p.101).

“O jongo verdadeiro, baseia-se no tambor de Maria Anita até altas madrugadas. Era todo recheado de

desafios e revanches [

são melodias simples, despojadas, curtas e repetidas, passadas por tradição oral, contendo versos característicos de antigas estórias”. (FOLHA DA MANHÃ apud Soares,

2004,p.100/101)

As cantigas

].

Citada por Osório Peixoto Silva em seu artigo “Terreiro que Canta galo não pode cantar galinha”, no jornal A Notícia, de 27 de junho de 1976 -Tia Maria Anita como assim era chamada, era,“ uma mulata pesadona, cheia de simpatia e jongueira desde o batismo”. Em seu texto, descreve a fala dessa mulher ”batedora de jongo”, numa referencia ao seu terreiro:

“Todos que vadiam aqui são trabalhadores. Não temos nenhum encostado e malandro. É tudo cortador de cana, homens e mulheres. O jongo é nossa única vadiação. Quando chega sábado, lá pra `as 10 horas da noite, a gente

bate os tambores, chamando a turma. Eles chegam de mansinho, e em pouco a brincadeira está formada.

Dentro do maior respeito[

Meus

brancos que quiserem brincar podem chegar. È só respeitar nossa brincadeira, não tocar nas nossas filhas e não puxar briga. O resto é jongo puro. E duvido que alguém

]

fique por mais de meia hora sem cair na brincadeira, porque jongo é pegador”.

Com seu falecimento, “sua filha Maria Creuza, apelidada Mariinha, cortadora de cana e mãe de 12 filhos sustentou por algum tempo a tradição da mãe”. Ao falecer, os registros históricos, recortes

de jornais, fotografias, troféus e instrumentos tiveram destino ignorado. Somente os que viveram e ouviram as estórias podem contar o tempo em que se valorizava a raça e a intenção de preservar a memória dos antepassados, naquilo que o jongo evocava. (SOARES, 2004, p.102)

O bairro tem sua trajetória marcada por uma vitalidade cultural

que vem do terreiro de jongo, das procissões e quadrilhas, dos shows e comícios e de estórias como a do “homem de capa preta”, figura estranha que era vista circulando no local. Entre os mitos que alimentavam o imaginário local, a “mula sem

cabeça” foi lembrada: “Era uma espécie de mula que no lugar da cabeça tinha uma labareda, gerando medo entre os moradores e impedindo que saíssem de suas casas depois das 18 horas. Ela aparecia nas noites de lua cheia e um sino anunciava a sua chegada” (GRIPES, 2008, p.14). Curiosa foi a lembrança de um morador sobre o “ônibus de luz vermelha”. Ele garantiu que um parente próximo tinha sido uma de suas vítimas. “O ônibus vinha do bairro de Santa Rosa e o motorista era falecido, por isso, todos os passageiros que conduzia eram levados para

o cemitério” (ibidem,p,14). Entre mito e realidade, o cotidiano de Custodópolis foi desenhado a trajetória de um bairro conhecido e reconhecido como “um

lugar de tradição”. Suas histórias sempre foram matéria-prima para os

enredos do G.R.E.S

União da Esperança que há 52 anos é presença na

comunidade. Muito freqüentado por antigos moradores, seus ensaios animavam os meses que antecediam o carnaval. Um dos motivos de orgulho do bairro, também cantado pela União da Esperança, é o futebol. De time Come Gato, tornou-se Grêmio em 1974. Legalizado, participa da liga Campista de Desportos e desde

então, promove regularmente jogos e tem uma escolinha de futebol que atende a crianças do local. No campo da atuação comunitária, a Associação de moradores, tem registro garantido na memória do bairro. As décadas de 1960 e 1970 foi um período fértil de envolvimento comunitário, em busca de melhorias para o local.

O bairro era atingido, periodicamente, por enchentes. Isso

agravava a situação sanitária, dada a proximidade entre as fossas rudimentares e os poços de onde retiravam a água para o consumo. (Carneiro et.al.1968, p.8). Essa realidade associada à ausência de abastecimento de água levou lideranças do bairro a se articularem a

representantes de entidades assistenciais, algumas faculdades da cidade

e políticos do município. Alguns moradores de Custodópolis tinham acesso aos dirigentes de entidades assistenciais e políticos da região. Dentre os moradores, havia os que se ocupavam da condição de “cabos eleitorais”. Ligados por interesses diversos, mas voltados para a melhoria da comunidade, os moradores passaram a se reunir em encontros semanais, no Cine Teatro Primor. Em uma dessas reuniões regadas a palestras, abaixo-assinado e

46

lanche, sempre oferecido pelo Sr. Hipólito Sardinha que cedia a local

e era dono de padaria, foi travada a luta por uma caixa d’ água.

Conseguiram inicialmente a construção de alguns poços artesianos, mas “logo depois, chegou a CEDAE”. (GRIPES, 2008, p.15)

Reconhecidamente carente e com demandas variadas, a comunidade em 1965 passa a contar com o apoio da Associação Monsenhor Severino, que por sua vez convida Nilza Simão (responsável pela Escola de Serviço Social) para coordenar o trabalho na comunidade. Dessa parceria, formou-se um “núcleo básico” (estratégia de fortalecimento de organização comunitária), que contou com o engajamento de acadêmicos de Serviço Social. Dentre

as ações, em 1966 iniciou-se a construção de uma sede para o Centro

Social, nesse período, novas parcerias foram formadas com a adesão da Faculdade de Medicina de Campos, Faculdade de Odontologia e de Direito (Peçanha,1976)

A pobreza, em suas múltiplas faces, desenhava um quadro

de problemas e necessidades que tinha urgência para ser enfrentado. Mas, para eleger as ações prioritárias, identificou-se a importância de realização de um Estudo Sócio-Econômico da Comunidade 6 que permitisse uma maior aproximação com a realidade local. Realizado por acadêmicos de serviço social e com a colaboração de lideranças do bairro, o estudo apontou para a existência de uma população estimada em torno de 4.000 pessoas, sendo a maioria da raça negra 7 (Carneiro et. al,1968). Os homens, em sua maioria eram cortadores de cana ou trabalhadores nas lavouras das usinas da região. Mas havia também os que se ocupavam das funções de pedreiro, carroceiro, padeiros,

barbeiros, sapateiros, pintores, eletricistas, pescadores e mecânicos. Atuando como empregadas domésticas, cozinheiras e lavadeiras nas residências da cidade, as mulheres dividiam seu tempo entre os cuidados de sua família e de sua casa. Numa época em que se começava a trabalhar desde a infância, as crianças praticavam o comércio ambulante (GRIPES, 2008, p.18).

A realidade do desemprego, a ausência de qualificação

profissional, rendimentos instáveis relacionados a trabalhos

temporários, compunham o perfil sócio-econômico da comunidade.

A falta de escolas era uma queixa e uma ameaça ao futuro das crianças

que ali viviam. As condições de saúde refletiam a precariedade das condições de vida, tendo destaque os problemas de verminose

e desnutrição. As moradias eram o retrato da precariedade do modo de vida e trabalho de seus moradores, sendo comum o aluguel de quartos em casas que eram divididas em cômodos. O Diagnóstico apontou que 40% das habitações eram de “tipo barracões”, 52% de adobe ou taipa e 97% não possuíam instalações sanitárias (Carneiro et.al.1968,

p.8).

O entorno residencial era composto por um cenário insalubre de esgoto a céu aberto agravado pela constância das

enchentes, lixos nas ruas e pela falta de cuidados de higiene. Os recursos que Custodópolis já dispunha neste período, eram:

padaria, armazém de secos e molhados, barbearia, farmácia, açougue, fábrica de goiabada e sandália (id.). A praça ganhou calçamento e um abrigo para passageiros. E os serviços de um Posto Telefônico e da Agência de Correios e Telégrafos, eram as mais recentes aquisições

(Barros,1966,p.31).

Uma das preocupações dos moradores e motivo de queixas era

a falta de policiamento. (Carneiro op.cit.p.24) Com base nos dados desse Diagnóstico e das demandas apresentadas nas reuniões comunitárias, foram estruturadas algumas frentes de trabalho nas áreas da saúde, educação, orientação jurídica,

trabalho e renda. Cada profissional responsável por uma dessas áreas era acompanhado por um “morador líder”, que realizava um trabalho voluntário. Do contato com a comunidade foi possível identificar um número significativo de costureiras no bairro. Isso motivou a implantação de um grupo de corte costura e gerou cursos de bordado, tapeçaria, tricô, crochê e pintura. O artesanato se desenvolveu expandindo-se para atividades em cerâmica, confecção de flores, tapetes, colchas, almofadas. Em 1965, o grupo organizou um bazar, cuja renda foi investida na aquisição de novos materiais. Essa iniciativa também deu origem ao Club de Mães, que se reunia em torno de comemorações de datas festivas

e de temas como: “vida familiar, hábitos de higiene, verminose, aborto

apresentados em forma de palestras” (GRIPES, 2008,p.18). Outras iniciativas, como alfabetização de adultos e orientação jurídica, sobretudo quanto a encaminhamentos de documentos pessoais, somavam-se ao atendimento ambulatorial. Este se defrontava com a impossibilidade das famílias de adquirir a medicação, devido à baixa

ou inexistência de rendimento mensal. Essa situação levou a comunidade

a organizar “shows às segundas-feiras no Cine Teatro Primor, cuja renda

era revertida no aviamento de receitas médicas” (Carneiro, óp.cit.p.24) No início da década de 1970 o Centro Comunitário se transformou em Centro Social Universitário –CSU,passando a contar com assessoria da Fundação MUDES 8 e de instituições como a LBA e Fundação Leão XIII.

O trabalho de organização comunitária em Custodópolis teve

dois momentos: antes e depois do MUDES. Essa foi à opinião de uma

Assistente Social que participou do trabalho desde o início: “Tudo passou

Foi a desgraça do trabalho. Entrou dinheiro, a

comunidade se afastou” (GRIPES,2008,p.21).

O trabalho voluntário cede lugar ao remunerado e o

a ser remunerado [

].

atendimento, antes gratuito passou a custar (dois cruzeiros). Este era o

valor fixado da mensalidade para terem acesso aos serviços prestados.

A partir de então o envolvimento da população com o CSU limitava-se

ao atendimento do problema apresentado. Essa trajetória, expressa no depoimento de alguns entrevistados, apontou para o fato de que aos poucos as parcerias que mantinham o funcionamento do CSU foram rompidas, ficando limitado a ações no

6 A organização desse estudo contou com a participação de lideranças comunitárias e seu conteúdo foi abordado em vários Trabalhos de Conclusão de Curso da época. Ver, por exemplo Barros(1996), Carneiro, Peixoto, Reis e Cordeiro (1968), Cordeiro (1969), Santos (1971) e Viana (1976).

7 Sobre esse assunto, Soares refere-se a “Custodópolis com o lugar de maior concentração de negros do municí