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A Sombra Humana

~

O Resgate Do Ser Humano Completo

Emídio Carvalho

A Sombra Humana

Título:

A Sombra Humana – O resgate do ser humano completo

Autor:

Emídio Carvalho

Editor:

IRIEC, LDA.

Rª da Nestlé, 1 – R/c Dto.

3860-071 Avanca

Portugal

Capa:

João Bizarro (www.joaobizarro.com)

Paginação:

IRIEC, LDA.

ISBN:

Depósito Legal:

1ª Edição:

Dezembro, 2009

Todos os direitos reservados. Este livro não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico, electrónico, ou por meio de gravação, nem ser introduzido numa base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado para uso público ou privado – além do uso legal com breve citação em artigos e criticas – sem prévia autorização do autor.

Nota do autor

Querido leitor,

Não faço pretensão de vir a ser psicólogo, nem esta é a minha área de estudos convencionais. Ao longo dos anos interessei-me sempre pelo estudo da mente humana e do comportamento do homem enquanto animal social. Todavia, nunca encontrei um curso académico que considerasse útil ao meu desenvolvimento pessoal nesta esfera.

Saltitando de seminário em seminário, e de workshop em workshop, fui ligando as pontas soltas de um conhecimento que vejo como a resposta a muitos dos dilemas que nos afectam hoje. Tudo começou com um livro da Debbie Ford, seguido de seminários em que participei dedicados à Sombra.

Consegui fazer as pazes com o meu passado. Consegui perdoar todos aqueles que me tinham causado danos. E, mais importante, consegui perdoar-me a mim mesmo, pela responsabilidade de co-criação de cada evento doloroso da minha vida.

Neste processo criei a estrutura necessária para dar vida a um curso de Educação Emocional baseado em princípios espirituais. Este pequeno manual é um resumo daquilo que ensino. Os meus seminários contêm uma componente prática bastante acentuada, onde cada participante é guiado no seu processo de fazer as pazes com o passado e disponibilizar assim toda a energia empregue na camuflagem das suas vergonhas, medos, raivas e culpas.

Espero que a leitura deste manual lhe seja benéfica.

Com amor,

Emídio Carvalho

Índice Remissivo

A Sombra Humana

Como surge a sombra humana

6

Ir

ao encontro da sombra

9

Uma pessoa – muitas pessoas

12

Porque projectamos

17

Conhece a tua sombra, conhece-te a ti mesmo

22

Descobrir alguns aspectos da sombra

27

Eu sou isso

30

A Sombra Inconsciente

34

A natureza humana escondida do ser humano

39

A Sombra Projectada

43

A solidão

 

47

Abraçar a nossa sombra

49

Aquilo a que resiste, persiste

56

A

nossa

história

61

Como criamos o Eu Falso

64

A

Sombra Integrada

69

Controladores

78

A doença como reflexo da Sombra

82

A pandemia da alegria – e o ódio que esconde

85

A Sombra Nos Relacionamentos

90

Reinterpretar o seu Eu

95

Ressentimento ou Paz de Espírito

101

O

Perdão

105

Deixa que a tua luz brilhe

110

Descobrir o dom

118

Ferramentas Adicionais Para Descobrir O Seu Propósito De Vida

122

Agradecimentos

124

Bibliografia

125

Como surge a sombra humana

Durante a leitura deste texto mantenha presente apenas esta imagem: um recém-nascido é capaz de ir da raiva mais agressiva até um estado de alegria eufórica em menos de dois minutos!

Imagine que quando nasce você é um castelo. Um castelo com mais de duas centenas de aposentos! Possui uma cozinha da generosidade e um salão do egoísmo. Uma cave da maldade e um quarto da bondade. Uma sala da amizade e outra da traição. Possui ainda aposentos de inteligência, amor, humildade, paz e respeito. E possui aposentos de estupidez, ódio, arrogância, guerra e desprezo. Muitos aposentos e todos eles úteis no momento certo. Os adultos à sua volta deveriam ensinar-lhe quando é apropriado visitar cada um dos aposentos. Deveriam dizer-lhe que possui aposentos que muito provavelmente nunca sentirá necessidade de visitar, e outros que lhe serão úteis inúmeras vezes, à medida que passeia pelo seu castelo.

O que acontece na realidade é isto: um dia visita o aposento do egoísmo e um adulto diz-lhe que esse aposento é feio. E você fecha a porta e atira com a chave. Algum tempo mais tarde visita a sala da bondade e outro adulto bate palmas e diz-lhe que essa sala é muito bonita. E você decide que irá passar muitos dias aí, mesmo que isso signifique sacrificar uma grande parte de quem é. Noutro dia visita a cave do desprezo. E outro adulto, que vê a sua visita, diz-lhe que essa cave é má! E mais: se você insistir em visitar essa cave novamente será punido! E você fecha a porta e atira com a chave dessa cave!

Por volta dos oito anos encontra-se a viver em cerca de 10 por cento dos aposentos do seu castelo. Aos vinte anos vive num T2, dentro do seu castelo!

Isto

Exceptuando os muito poucos que foram educados por pais

que acontece a todos os seres humanos!

é

o

A Sombra Humana

verdadeiramente iluminados que compreendiam o ser completo que você era, e é!

Durante os primeiros quarenta anos da sua vida, aproximadamente, irá fechar aposento atrás de aposento.

Limitar-se-á mais e mais. Porque, ainda por cima, ensinaram-

no a não correr riscos, a procurar a segurança da rotina, nem

que sacrifique mais um pouco da sua vida e de quem é!

Por volta dos vinte e poucos anos começa a ter problemas com os aposentos que fechou. E ensinam-lhe a decorar afirmações positivas e a recitar mantras! Isto é o mesmo que viver numa casa que está a cair e você, num acto louco, decide pintar a casa de rosa, para criar a ilusão que a casa é nova em folha! É claro que ela irá cair!

As afirmações positivas são boas, deliciosas na verdade. Mas

primeiro verifique o que está escondido na sua mente! A sua

sombra, aquilo que você “não é”, os aposentos que se esqueceu já que existem. A maior parte dos nossos pensamentos são projectados a partir do subconsciente. Chamo-lhe a “vozinha da caixa da sombra”. O que temos nos pensamentos das pessoas que recitam afirmações positivas é um monólogo parecido a isto: “Eu amo-me e aceito-me tal

como sou

Eu sou um com o amor Divino

Odeio esta gente que fuma e não tem

respeito pelos outros! Javardolas!

Eu perdoo todos os que

para onde vai, o estúpido!

(mais um sorriso)

(sorriso) Olha-me para aquele velho que não vê

me magoaram

Meu Deus, esta dor de costas não

A minha mãe

deixa-me com os nervos em franja! Se ela hoje me diz que

O dinheiro vem

Eu não posso focar a atenção no que não

(outro sorriso, mas

quero! Eu amo-me e amo os outros

a mim facilmente

palhaço do meu colega?

Agora, como é que posso estragar o dia ao

me larga! Será que é alguma coisa grave?

preciso de mudar de vida outra vez, mato-a!

menos convincente) Estou outra vez atrasado, raios!

O problema real é que não nos apercebemos sequer do

diálogo que coloco a itálico! É o diálogo que vem da sombra e

que nem nos apercebemos! Excepto se começarmos a prestar verdadeira atenção aos nossos pensamentos. Sei do que falo por experiência própria.

Ainda não encontrei uma pessoa que pratique “pensamento positivo” que esteja verdadeiramente de bem com a vida! Que esteja verdadeiramente entusiasmado e apaixonado pela vida. Há aquelas pessoas que se esforçam tanto por mostrar que isto funciona, mas basta picar as suas sombras e vê-los a espernear! É giro! E assim lá se expressa o meu lado sádico de uma maneira pouco saudável! (Eu sei que essas pessoas, com uma vida fantástica porque recitavam continuamente afirmações positivas, existem! Conheço inclusive alguns dos livros, que podem ser uma ajuda preciosa para acordar – mas para a maioria dos mortais é só isso: servem para acordar).

Há ainda pessoas que fazem muita meditação e paz e amam

E depois alguém trata-os abaixo de cão! Ou

são vítimas de violência física

Lei da Atracção! (Eu também já acreditei nessa teoria – infelizmente está incompleta).

E lá cai por terra a teoria da

tudo e todos

Será que você seria capaz de matar, de atraiçoar, de mentir? Claro que sim! Em dois minutos mostro-lhe uma situação em que o faria sem pensar! Há em nós uma coisa que se chama “instinto de sobrevivência” o qual ultrapassa, fisicamente, a mente consciente, os nossos preceitos morais e todo o lixo mental acumulado, e simplesmente entra em acção.

O problema para muitos pais é como explicar a um filho em que situações o seu medo, estupidez, arrogância, egoísmo, maldade e inveja, para nomear apenas alguns dos comportamentos humanos “negativos”, podem ser úteis.

Dedique algum tempo a estudar isto. Veja em que situações ser mau pode ser bom.

Nós passamos os primeiros 40 anos da nossa vida a acumular sombra. E os restantes a tentar recuperar essa sombra. Os ingleses chamam-lhe “midlife crisis”. Os Sábios

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chamam-lhe a “noite escura da alma” – uma idade em que perdemos a segurança numa área da nossa vida que nos é querida. E isto acontece por um único motivo: “Aquilo que tu não queres ser não te deixará ser”.

Ir ao encontro da sombra

A nossa sombra usa uma série interminável de disfarces:

gananciosa, maldosa, manipulativa, egoísta, controladora, não merecedora, preguiçosa, fraca, hostil, vingativa, destrutiva, etc.

A nossa sombra funciona um pouco como um armazém, onde guardamos todas estas partes de nós que não aceitamos. Todos os aspectos que aparentemente não somos e que gastamos tanta energia a fazer de conta que não existem. São as faces que não queremos mostrar ao mundo. Nem a nós!

Tudo aquilo que odiamos, resistimos ou afirmamos que não somos, toma uma vida própria dentro de nós, no nosso subconsciente, destruindo qualquer sentimento de auto- estima que tenhamos.

Quando enfrentamos a nossa sombra pela primeira vez a nossa atitude é quase sempre de negação. Fugimos daquilo que não aceitamos ou não gostamos em nós. Outras vezes optamos por negociar com a sombra. Fingimos que sim, que reconhecemos o potencial para ser isto ou aquilo, mas viramos as costas na esperança de que nunca aconteça.

Mas são estes aspectos escondidos que mais atenção precisam de nós. Temos que fazer as pazes com eles, aceitá- los na totalidade. São os nossos tesouros escondidos.

Dois exemplos. Você poderá pensar que mentir é feio e os mentirosos são pessoas indignas de ser amadas. É capaz de pensar numa situação em que mentir possa ser útil a uma

pessoa? Imagine uma criança de dez anos a conversar, na internet, com um suposto ‘amigo’ que vem a descobrir tratar-

Se a criança mentisse e dissesse ao

agressor que na verdade era um agente da Policia Judiciária? Não lhe parece que nesta situação, mentir, seja a diferença entre a liberdade e as garras de um predador?

se de um pedófilo

Ou imagine a situação em que um assassino vai matar a pessoa que mais ama. E você tem uma oportunidade para lhe dar com um martelo na cabeça. Seria capaz de o fazer? Claro que sim. É uma questão de sobrevivência.

Começa a ver como a sombra, aqueles aspectos que negamos, podem ser úteis?

Mas tenha cuidado neste processo da sombra! Um dos nossos maiores problemas, nestes dias de informação excessiva, é o sindroma “Eu já sei isso”. Uma coisa é saber, intelectualizar, outra, muito diferente, é sentir. Este processo da sombra não é algo a intelectualizar, mas sim uma viagem que tem início na cabeça mas cujo destino final é o coração.

A nossa sombra é a porta para a verdadeira liberdade. Temos

que tomar a decisão de explorar, reconhecer e aceitar cada faceta da nossa sombra, para sermos verdadeiramente livres.

E quer você goste ou não, enquanto ser humano, possui uma

sombra. Qualidades de luz e escuridão desconhecidas da mente consciente.

Abraçar um aspecto do nosso ser significa amá-lo e aceitá-lo tal como é. Não significa torná-lo mais do que é, nem menos do que é. Simplesmente aceitar que é apenas mais um aspecto de nós.

Vivemos hoje sob a falsa pretensão de que para algo ser divino tem que ser perfeito. Isto é um erro. De facto o oposto é que é verdade. Ser divino significa ser-se completo. E ser-se

completo significa ser tudo, o positivo e o negativo, o bonito e

o feio, o santo e o pecador.

A Sombra Humana

Quantas vezes, enquanto crescíamos, nos foi dito para não nos portarmos mal? Para não sermos preguiçosos? Para não dizer asneiras? Para não falar alto? Para não sermos egoístas? A mensagem era sempre a mesma: Não ser! Ensinaram-nos a “não ser”!

Você nunca soube o que era ser belo, porque passou a maior parte da infância a esconder o feio! Você nunca soube o que era a verdadeira bondade porque passou a maior parte do tempo a esconder a ganância! E assim foi perdendo uma parte importante de si mesmo.

E como

desenvolver uma certa impaciência por aqueles que eram. Os maus da fita. E os maus da fita tinham que existir sempre, para a lhe mostrar as partes de si que aos poucos ía escondendo.

‘não ser’, começou a

aprendeu

tão

bem

a

E foi assim que você caiu na ratoeira do “se apenas”. Se

Se apenas as

Se apenas eu tivesse uma

relação mais amorosa

pessoas fossem mais generosas

apenas as pessoas fossem mais simpáticas

Se apenas eu tivesse mais dinheiro

Querido amigo, vai precisar de algum tempo para sentir amor

por

quem é na totalidade.

reparou que a maior parte das pessoas com problemas

sérios de saúde são pessoas que nunca mostram raiva, nem

se queixam, colocam sempre os outros em primeiro lugar. E

depois têm doenças graves e nem sabe porquê.

Escondido nos seus corpos há toda a raiva, sonhos, desejos e tristezas que nunca foram capazes de mostrar ao mundo. Foram ensinados a colocar os outros em primeiro lugar, porque é isso o que as pessoas boas fazem.

Dentro de nós há todos os aspectos, positivos e negativos, que observamos na espécie humana. Cada emoção, cada impulso, cada necessidade.

Quando observar um comportamento humano, qualquer

comportamento humano, e for capaz de afirmar “eu sou assim” ao nível mais profundo do seu ser, então será capaz

de se aproximar da verdadeira iluminação.

Lembre-se que só saberá verdadeiramente o que é o amor, quando aceitar em si a capacidade para odiar. O ódio só tem poder sobre si enquanto não o reconhecer, enquanto não o aceitar. A partir do momento que aceita a sua capacidade para odiar irá estar livre para amar sem impor condições.

A nossa sombra existe para nos mostrar que somos

incompletos. Existe para nos ensinar o amor, a compaixão e o perdão. Não só em relação aos outros mas, acima de tudo,

em relação a nós mesmos. E quando abraçamos a nossa sombra, tem início a cura da nossa alma. É que a nossa sombra só é sombra porque permanece escondida. Quando trazemos a nossa sombra à presença da luz, quando descobrimos o presente da nossa sombra, ela transforma- nos. Liberta-nos.

Quando abraçar a sua sombra, dará início ao processo da cura. E quando cura a sua sombra torna-se livre para amar na totalidade.

Em cada ser humano há uma divindade à espera de ser descoberta.

Esquecemo-nos que já somos completos.

Uma pessoa – muitas pessoas

Em cada um de nós há uma série de subpersonalidades (em psicologia o termo utilizado é “complexos”). Não podemos cair

A Sombra Humana

na asneira de acreditar que conhecemos quem quer que seja, porque nunca iremos conhecer a totalidade da pessoa com quem partilhamos um momento ou uma vida.

As nossas subpersonalidades formam-se antes de sermos capazes de construir um raciocínio lógico capaz de filtrar a informação vinda do exterior. E muitas das subpersonalidades são-nos tão repugnantes que optamos por fechá-las num recanto escuro da nossa mente. Pensamos que aí, na escuridão, não causarão qualquer problema. Fazemos isto por um único motivo: ser aceites pelos outros.

Imagine uma criança de 4 anos que mente à mãe e é apanhada na mentira. A mãe, tendo como único objectivo ensinar a criança a viver em sociedade, diz à criança que mentir é feio. Dependendo da forma como esta mensagem é transmitida, a criança pode escolher ignorar a admoestação da mãe ou, caso seja severamente castigada, decidir esconder o aspecto de si capaz de mentir. De uma maneira simplista a criança decide que jamais voltará a mentir. Mais tarde essa mesma criança é apanhada pelo pai a roubar o brinquedo de outra criança. Se o pai possuir as características do tirano ou do moralista, irá punir a criança. Explicar à criança que roubar é errado, fazê-la ver a situação sem qualquer interpretação moralista, e ajudar a criança a descobrir de que maneira o acto de roubar pode ser útil (e há situações em que pode ser útil, acredite) seria a atitude mais apropriada. Mas isto ocuparia algum do tempo do progenitor. Por outro lado, se o pai tiver as suas próprias feridas emocionais relacionadas com o furto irá projectar estes aspectos no filho e punirá de acordo com a infracção. E a criança decide que jamais roubará – outro aspecto da sua personalidade que é abafado na mente subconsciente. Pouco tempo depois a criança faz um desenho que é o orgulho da tia. A tia mostra a toda a gente, à frente da criança, a criatividade e brilhantismo da mesma. Elogia-a sem fim! Se a criança tiver uma tendência para a timidez irá sentir-se mal com os elogios e com o facto de ser o centro das atenções. E

mais uma vez, decide que ser criativo é contraproducente e esconderá este aspecto na sua mente subconsciente.

Por volta dos 20 anos, estaremos perante um adulto que não mente, não rouba nem é criativo. Mas estes aspectos estão todos em si! E cada um deles irá criar uma batalha na sua psique porque cada um quer ser experienciado. Daí que eu diga “aquilo que tu não queres ser, não te deixará ser”. O jovem torna-se na verdade incompleto. A partir daqui várias situações irão surgir.

O jovem poderá escolher projectar os aspectos que rejeita em

si. Assim, irá atrair a si pessoas que mentem, roubam e que são genialmente criativas. Estas pessoas existem apenas

para lhe mostrar as partes de si que está a deserdar. Nós somos animais sociais e é através da socialização que aprendemos sobre quem somos. Contudo, em qualquer ambiente social em que nos encontremos há sempre uma

pessoa que não conseguimos ver: nós próprios. Como não nos conseguimos ver iremos projectar aspectos de nós sobre os outros. Uma forma brilhante de descobrirmos quem somos:

o santo e o pecador, a luz e a escuridão. Não conseguimos

estar muito tempo na luz sem ter a experiência da escuridão.

O jovem acima descrito irá ainda fazer exactamente aquilo

que não aceita nele. Irá mentir, roubar e ser criativo. Mas fá-

lo-á de uma maneira velada, em que ele próprio não tem consciência de o estar a fazer. Pode mentir quando afirma que está bem e não está. Pode roubar tempo aos outros, chegando sempre atrasado a qualquer compromisso, e poderá ser bastante criativo nas suas desculpas.

Este jovem irá atrair a si, para vivenciar uma relação a dois, a pessoa que melhor lhe mostre todos os seus aspectos rejeitados. De início irá ver na pessoa que é objecto da sua atenção apenas os aspectos positivos, como a criatividade. Depois de oficializada a união, os aspectos negativos projectados na outra pessoa começarão a mostrar a sua feia cara. É comum a muitas pessoas, quando se encontram

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próximas do divórcio, afirmarem que não conhecem a pessoa com quem se casaram. A verdade é que elas não se conhecem a si mesmas.

Por volta dos quarenta anos de idade, os aspectos negados da sua personalidade terão obtido energia suficiente para causar danos na vida desta pessoa. A Debbie Ford explica este fenómeno de uma maneira fácil de compreender. Imagine que cada aspecto que rejeita em si é uma bola de praia. Há uma bola da estupidez, outra da arrogância, outra do egoísmo, outra ainda da prepotência, outra da mentira, outra da infidelidade. Cada um de nós possui muitas bolas. E como temos pavor que os outros descubram estes aspectos deserdados, iremos gastar uma energia descomunal a manter cada uma das bolas debaixo de água, para que ninguém as consiga ver. E, se possível, para que nós mesmos não as consigamos ver. A energia que utilizamos para manter estas bolas fora do nosso campo de visão é a da raiva. A energia mais poderosa que algum ser humano é capaz de possuir.

Num momento de distracção, em que pensamos que a nossa vida não podia estar melhor, estas bolas saltam! E vão molhar muitas pessoas! Irão magoar-nos a nós e aos que nos são queridos. Vemos isto todos os dias!

O condutor que insulta outro e ameaça, podendo chegar ao extremo de sair do carro para agredir. O padre que é descoberto a “dedicar-se” à pedofilia. A boa mãe que bate no filho num centro comercial. A empregada doméstica que rouba um anel da patroa. O político que usa o seu poder para beneficiar um amigo. O director da empresa que se deixa subornar. A professora que tem um caso com um aluno menor. A boa rapariga que come mais do que precisa e se torna obesa. O juiz que se descobre pertencer a uma rede de prostituição.

Basta-nos ver um telejornal para verificar a sombra em acção. Os nossos aspectos deserdados.

Por detrás destes comportamentos inapropriados há apenas a vergonha, a culpa, o medo e a raiva. Emoções tóxicas que surgiram na infância e adolescência e não foram devidamente reconhecidas nem expressas. E que eventualmente serão a origem dos danos que causamos a nós próprios e aos que nos são queridos. Ninguém é inocente. As pessoas mais perigosas são precisamente as que se encontram em estado de negação ou que são moralistas. São estas as que possuem a sombra mais densa e nefasta. Parece um pesadelo de antagonismos. Mas a pessoa boa que não é capaz de reconhecer os seus impulsos mais animais é a que é capaz das maiores atrocidades.

Temos que nos recordar continuamente que de cada vez que apontamos o dedo a alguém, há três dedos a apontar na nossa direcção.

É aqui que o sentimento da compaixão é importante. Em vez

de nos apressarmos a julgar os outros, seria mais apropriado julgar a acção. Porque a pessoa que mente não é mentirosa.

É mentirosa e honesta. É maldosa e bondosa. É bela e feia. É

traiçoeira e fiel. E cada um de nós pode escolher o que quer ver. Posso escolher ver que uma pessoa mentiu, mas o acto de mentir é apenas um de muitos aspectos da pessoa. Se

reparar à sua volta irá ver que as pessoas que mais danos lhe causaram são as mesmas pessoas capazes do maior gesto

de bondade.

Por este motivo é que afirmo que o divórcio pode ser um catalizador para o nosso crescimento espiritual. Se formos capazes, se tivermos a coragem, de resgatar todos os aspectos que víamos na pessoa que deixámos de amar.

O maior passo que pode dar no seu crescimento pessoal é

precisamente resgatar tudo aquilo que vê nos outros. Nós gastamos uma quantidade considerável de energia a esconder os nossos aspectos de vergonha e culpa. Enquanto não tivermos a coragem de mostrar a nossa vulnerabilidade, a nossa humanidade, as nossas feridas, nunca teremos

A Sombra Humana

disponível a energia suficiente para vivermos na autenticidade de quem somos. E iremos continuamente sabotar os nossos maiores sonhos. Não é por acaso que a grande maioria das pessoas desconhece completamente qual o seu propósito nesta vida.

Porque projectamos

Nós projectamos todos os aspectos que negamos em nós mesmos porque é demasiado doloroso aceitá-los.

Quando ainda muito jovens (por volta dos dois anos de idade) aprendemos que certos comportamentos eram do agrado dos nossos pais, e outros afastavam os seus afectos. E escondemos os aspectos reprovados pelos nossos pais. E mais tarde também pelos nossos professores e líderes religiosos.

Mas nós vivemos numa realidade de paradoxos e não de contradições. A contradição, que nos é ensinada, diz que ou somos bons ou somos maus, não podemos ser as duas coisas. Ou somos bonitos ou somos feios. Ou somos bondosos ou maldosos. Impossível ser as duas coisas.

Já pensou como seria a vida se não houvesse noite? Ou quente? Ou alto? Ou subir? Num mundo assim, que significado teria o dia? E o frio? O baixo? O descer?

A realidade é paradoxal e no entanto ensinam-nos a ser contraditórios. Infelizmente qualquer aspecto necessita do seu oposto para existir. Não é possível ser honesto sem aceitar o desonesto. Ou ser bondoso sem a maldade.

Eu não tenho que manifestar o meu lado desonesto, mas tenho que o abraçar. Tenho que sentir que está presente e poderá ser-me útil no contexto adequado. Por exemplo, suponhamos que vivemos num pais ditatorial em que as

pessoas que professam o hinduísmo são mortas?

Se eu for

hinduísta e for ainda desonesto quando me perguntam qual a minha religião, este acto de desonestidade pode ser a salvação da minha vida e da dos meus familiares. Saber que em mim há o potencial para ser desonesto é saudável. Mais ainda, tenho que expressar essa desonestidade! Como? Através da pintura, por exemplo. Ou da dança. Ou de uma escultura.

Este é um dos motivos porque encontramos na índia, china ou em países árabes, gravuras, estátuas e literatura que no ocidente é considerada pornografia. No entanto esta é uma forma muito saudável de expressar a sexualidade animal presente em cada um de nós.

Se eu sou uma pessoa que se considera extremamente inteligente, em mim há o potencial para ser o maior burro da história. E tenho que abraçar, e expressar esse burro. Só consigo expressar o burro que há em mim através da escrita, por exemplo. Ou de uma “dança do burro”. Ou de uma escultura que represente o burro em mim.

Mas como não estamos conscientes deste processo da Sombra iremos fazer apenas uma de duas coisas:

projectamos o nosso burro interior em outros, ou amordaçamo-lo durante anos e um dia, sem qualquer aviso, o nosso burro interior salta para fora e expomos a nossa parte mais desprezível e abominável! Fazemos uma burrice descomunal!

Isto é apenas um exemplo. Mas pode ter a certeza que o aspecto de si que mais nega, mais despreza, e mais medo tem de ser, irá causar-lhe danos na sua vida mais cedo ou mais tarde. Se anula a sua sexualidade, irá atrair um/a companheiro/a tarado, ou então frígido e incapaz de uma relação sexual saudável. Se anula a sua estupidez irá atrair um colega insuportável e, claro, estúpido. Se anula o ladrão em si, irá ser assaltado. Se anula o tirano em si, provavelmente irá atrair um cônjuge controlador e manipulador.

A Sombra Humana

E todas as pessoas que atrai a si são projecções suas, partes

de si que recusa aceitar. Isto também se aplica aos aspectos

mais nobres de quem é. Se anula a sua criatividade irá atrair

um amigo carregado de ideias geniais. Se anula a sua centelha divina irá atrair um ‘mestre’ iluminado. Se anula a sua beleza e sensualidade, irá atrair verdadeiros grupos de amigos e conhecidos que o são.

O problema é que ninguém aguenta muito tempo a ser a

projecção de outro. E é aqui que começam os nossos problemas nos relacionamentos.

Houve pessoas que me perguntaram se podiam deixar de projectar ou de ser projecções de outros. Apenas se morrer.

Mesmo que decida isolar-se numa floresta, irá projectar-se na natureza. O dia bonito, a erva suave, o rato nojento. Tudo

projecções!

Há de facto uma maneira de deixar de projectar e ser projecção. É um processo delicado, em que o amor por nós próprios tem que permanecer sempre presente. Este processo não pode nunca ser intelectual. Desengane-se já se pensa que por ler sobre o assunto é capaz: irá falhar

redondamente!

Terá que abraçar todas as qualidades que há em si, as que

sabe que estão lá e as que nem imagina que existem! E fazê-

lo

a partir do coração. Tem que sentir e nunca intelectualizar.

O

processo em si é doloroso (que o digam as pessoas

presentes nos seminários dedicados ao Caminho da Sombra!). Mas ao mesmo tempo libertador. Com tempo dá- nos muita energia, criatividade, poder pessoal.

Se estiver consciente da sua Sombra e da Sombra dos que o rodeiam, ser-lhe-á também fácil projectar aspectos da Sombra dos outros. E neste processo expressa a sua própria Sombra! Por exemplo, se estiver com um amigo que odeia o roubo. Todos temos uma aversão visceral a ser roubados. Então, para não ferir susceptibilidades, a rir-se, irá roubar uma caneta ao seu amigo. Sempre consciente que é o seu “Eu

Ladrão” a expressar-se. Não só consegue manifestar um aspecto da sua Sombra, mas mostra esse mesmo aspecto ao seu amigo de uma maneira divertida e que o seu subconsciente aceite que ser roubado não é o fim do mundo. Porque motivo pensa que as pessoas têm uma reacção emocional forte quando são insultadas? O medo que a sua Sombra seja descoberta, ou pior ainda, que essa sombra se exponha.

Para ter uma ideia, no último seminário pedi aos participantes para me insultarem. Esta é uma forma de eu descobrir aspectos de mim que ainda não abracei. E podem ter a certeza que este processo é violento!

Chamaram-me muitas coisas. Ladrão (sim, já roubei – era criança, mas roubei). Mentiroso (sim, já menti). Assassino (reconheço que tenho todo o potencial para matar a sangue frio outro ser humano). Nojento (já fui, e de que maneira!). Maricas (e de que maneira! Todos os dias!). E o meu querido amigo Rui lá estava para ‘mexer’ comigo: chamou-me ciumento! Todos puderam observar (e não, aqui não há possibilidade de fingir) a minha primeira reacção. “Não! Eu não sou ciumento”!

Toda a minha vida adulta me lembro de trabalhar para não ser ciumento. E este aspecto, claro, permaneceu na minha sombra, a alimentar-se secretamente da minha energia! Não era por acaso que eu atraía pessoas ciumentas! E enquanto eu não aceitasse que era capaz de ser ciumento, a partir do coração, continuaria a projectar este meu aspecto em outros.

Não sei se começa a ver o seu drama pessoal. Se uma determinada característica do comportamento de outro ser humano lhe provoca uma reacção emocional, isto significa que este aspecto permanece na sua sombra. E irá permanecer até ser capaz de o abraçar com o coração. Não funciona fingir que não tem uma reacção emocional aos comportamentos de outros. Poderá enganar os outros, mas jamais será capaz de se enganar a si mesmo. Foi educado

A Sombra Humana

para se julgar e julgar os outros continuamente – de preferência os aspectos negativos, claro.

Como é que sabe que abraçou a sua sombra na totalidade? Quando for capaz de aceitar todos os seres humanos, com todas as suas virtudes e defeitos. Quando permitir que sejam quem são. E não projectar nada de volta. Como sabe que não está a projectar? Os outros irão querer projectar em si um comportamento, por exemplo, através de uma discussão, e você permanece em paz, calmo, a aceitar que é ok. Mas ao mesmo tempo é capaz de soltar a sua bruxa má, no momento apropriado. Isto não significa que é aceitável roubar, ou matar, ou prostituir-se! Significa que a menos que abrace o seu potencial para o ser, terá que projectar noutros.

E ainda aceitar calmamente quando alguém lhe diz “és belo e magnífico” porque sabe, e sente, que é verdade. Não fica corado nem se diminui perante um cumprimento.

Cristo foi um excelente exemplo do parodoxo da Sombra. Ao mesmo tempo que era amor que curava os enfermos, também mostrava o seu lado tirano e sádico, ao chicotear os vendedores no templo. Se ele fosse um dos ‘novos iluminados’ dos nossos dias, em vez do chicote teria dito qualquer coisa como “este templo está agora carregado de energias negativas. Temos que construir um novo templo.” Ou algo parecido, com muito amor e ternura. E hipocrisia. Mas não. Cristo mostrou a sua Sombra, o seu lado cruel, frio, distante, ignorante dos sentimentos dos outros. Perfeição e imperfeição. Dócil e selvagem. Belo e terrível.

Há uma urgência em abraçar a nossa sombra. O quanto antes. Se o não fizermos iremos caminhar para a nossa destruição. Uma vez que projectamos os aspectos que não aceitamos em nós, iremos sempre projectá-los, nos outros! Iremos projectar o louco suicida num árabe. Iremos projectar o ladrão no director financeiro de uma empresa. Iremos projectar o corrupto num politico. E iremos projectar a nossa sombra colectiva numa outra sociedade. Olhem para o

exemplo dos americanos! Depois de anos a projectar a sua sombra sobre os russos (que muitos já esqueceram), como não a abraçaram quando a Rússia abraçou a sua (que projectava nos americanos), agora a América projecta a sua sombra nos árabes. Que por sua vez projectam a sua própria sombra nos americanos!

Este processo tem que se dar primeiro ao nível de cada individual. E não são precisos muitos indivíduos para fazer a diferença em toda a sociedade. Vejo-o diariamente. Tenho trabalhado a sombra de alguns amigos e é fascinante ver como a dinâmica da família de cada um deles vai mudando, para melhor!

Aceite o desafio: comece hoje mesmo a praticar e a expressar

a sua sombra de maneiras criativas.

Conhece a tua sombra, conhece-te a ti mesmo

Dentro de cada um de nós existe um verdadeiro tesouro. Este tesouro é o nosso espírito, puro e magnificente, livre e brilhante! Mas este tesouro foi escondido por uma camada espessa de preconceitos. Estes preconceitos têm a sua origem nos nossos medos. É a nossa máscara social: a cara que mostramos ao mundo. Revelar a nossa sombra é colocar

a descoberto a nossa máscara. Temos que olhar para esta

máscara com amor e compaixão, pois há um enorme tesouro

à nossa espera quando compreendemos porque motivo nos escondemos por detrás dela.

Há uma história curiosa que podemos aplicar a este tema. Em 1957 um grupo de monges na Tailândia estava a ser deslocado para outra parte do país. Um dos monges ficou responsável por tratar da deslocação de uma enorme estátua de barro do Buda que se encontrava à entrada do templo. Como a estátua era de barro todo o cuidado era pouco para não a estragar. Ainda por cima notava-se umas rachadelas num dos pés da estátua. O monge não sabia o que fazer.

A Sombra Humana

Durante a noite não conseguia adormecer, a pensar como melhor deslocar a estátua sem causar danos. A meio da noite levantou-se, pegou numa lanterna e foi ver mais uma vez a estátua. Ao incidir o foco de luz sobre o barro estalado notou que por debaixo do barro reflectia-se um brilho forte. O monge começou a arranhar o barro com as unhas, e o brilho aumentava cada vez mais. Por fim surgiu ouro! Algumas centenas de anos antes, os monges daquele mosteiro foram atacados e saqueados. Para protegerem a única coisa de valor que tinham colocaram barro a cobrir uma enorme estátua de ouro do Buda! E foi essa estátua que o monge tinha tentado manter no seu estado original de barro!

Da mesma maneira que este Buda, o nosso aspecto exterior serve para nos proteger do mundo à nossa volta. O nosso verdadeiro tesouro esconde-se por debaixo! Nós escondemos, inconscientemente, o nosso tesouro. A maneira mais fácil de descobrir este tesouro é arranhando e quebrando a nossa estrutura superficial.

Nos meus seminários encontro muitas pessoas que investem anos e dinheiro em seminários, tratamentos e cursos. Procuram respostas. E quando é que a procura irá terminar? Quando é que obterão as respostas? Estas pessoas não se vêem como um Buda de ouro escondido por detrás de uma camada de preconceitos. Na verdade estas pessoas não suportam a sua camada superficial. Ainda não descobriram que esta camada superficial as protege muito mais do que imaginariam algum dia. Nós precisamos da nossa camada protectora por muitos motivos, e para cada um de nós os motivos são diferentes. Apesar de que o nosso objectivo último é ver-nos livres da camada protectora, primeiro temos que compreender e aceitar estas máscaras.

Acha que o Buda de ouro, depois de lhe terem retirado a camada de barro, disse “porque motivo me tiraram o barro?! Eu gosto deste barro que me esconde!!” Ou será que o Buda sentia uma imensa gratidão pela protecção que o barro lhe tinha dado no passado, e que agora já não precisava?

A sua camada exterior é a face que mostra ao mundo.

Esconde todas as características que compõem a sua sombra. As nossas sombras escondem-se tão bem que muitas vezes mostramos ao mundo uma cara, quando no fundo nos sentimos exactamente o oposto. Há pessoas que usam uma camada de frieza, para esconder a sua sensibilidade, ou usam uma camada de humor para esconder

a tristeza interior. As pessoas que acreditam que ‘já sabem’, escondem sentimentos de estupidez. Enquanto que aquelas que agem de maneira arrogante, ainda têm que revelar as

suas inseguranças. As pessoas ‘cool’ ainda têm que mostrar a sua parte desenxabida. E as pessoas sorridentes, a sua cara

de zangadas.

Nós temos que olhar para além das nossas máscaras sociais para poder descobrir quem somos de verdade. Nós somos mestres dos disfarces, enganando os outros mas, acima de tudo, enganando-nos a nós mesmos. São as mentiras que contamos a nós mesmos que temos que decifrar. Quando não

nos sentimos completamente satisfeitos, felizes, saudáveis ou

a viver os nossos sonhos, sabemos que as nossas mentiras

estão activas. É assim que descobrimos a nossa sombra em acção.

A mudança que tem que ocorrer é perceptual. Você tem que

ver as suas camadas exteriores como estando a servir uma função protectora, e não apenas como algo que o impede de viver os seus sonhos. As suas camadas exteriores foram concebidas de maneira divina para o ajudar no seu processo espiritual. Ao visitar e explorar cada incidente, emoção e experiência que o levou a construir as suas camadas exteriores, será conduzido de volta a casa para que possa abraçar a totalidade do seu ser. As nossas camadas exteriores são o mapa do nosso desenvolvimento pessoal. Contêm tudo o que somos, e tudo o que não queremos ser. Independentemente do quão doloroso tenha sido o seu passado, se olhar para si mesmo com total honestidade e utilizar a informação guardada nas suas camadas exteriores como um guia, irá encontrar o caminho de volta à iluminação.

A Sombra Humana

Quando conhecer o seu Eu Total deixará de ter necessidade das camadas exteriores para protecção. Irá deixar que as suas máscaras caiam naturalmente. Todos os seres humanos que partilham o planeta serão seus iguais. Literalmente.

As nossas camadas exteriores são criadas pelo ego. Ou melhor, são criadas pelo ideal que o ego cria. O ego é o ‘eu’ que se diferencia dos outros. O Espírito une este ‘eu’ com a totalidade de quem é. Quando esta união entre espírito e ego ocorre, tornamo-nos um com nós mesmos e com o mundo.

Muitas pessoas não conseguem ir muito longe neste processo de desvendar a sombra porque não têm a vontade de ser honestas com elas próprias. O ego não gosta muito de perder

o controlo! Mas a partir do momento que é capaz de

reconhecer todos os aspectos de quem é, o bom e o mau, o

ego começa a sentir que perde o seu poder.

Comece por desafiar a pessoa que pensa que é para poder revelar a pessoa que é capaz de se tornar.

Usar as outras pessoas como espelhos ajuda-nos a decifrar

as nossas máscaras.

Vá ter com os seus amigos e familiares mais próximos e peça-lhes para lhe dizerem as três qualidades e os três defeitos que mais admiram/não suportam em si. É importante dizer-lhes primeiro que não ficará ofendido pelas suas respostas! Torne o espaço das perguntas um local seguro para todos. Só assim os outros se sentirão bem em revelar- lhe o que pensam de si. Descubra depois se aquilo que mostra aos outros é o que mostra a si mesmo. Muitas pessoas conseguem ver mais qualidades em nós do que nós mesmos. E, ao mesmo tempo, vêem mais características negativas em nós do que seríamos capazes de admitir.

Muitas pessoas resistem este exercício. Têm medo de ser julgadas. Em vez de pensar que vai ser julgado, pense neste exercício como uma forma de feedback, informação que lhe será útil. Nós não temos que acreditar naquilo que os outros

pensam de nós, mas se temos receio de ouvir o que as pessoas que nos são mais próximas pensam de nós, deveríamos prestar atenção aos motivos.

A maioria das pessoas tem receio de ouvir aquilo que mais as

aterroriza. A isto chama-se ‘negação’. Nós só temos medo se,

a um outro nível, soubermos que temos andado a enganar-

nos a nós mesmos. Se você pensar, do mais fundo do seu ser, que aquilo que outros pensam de si não é verdade, não irá dar qualquer significado ao que é dito.

Pense por instantes na quantidade de energia que necessita para esconder algo de si mesmo e do mundo. Pegue, por exemplo, numa laranja, e ande com ela na mão todo o dia. Mas sempre a tentar não ver a laranja nem deixando que outros a consigam ver. Depois de algumas horas repare na quantidade de energia que gasta para conseguir esconder a laranja! É isto o que os nossos corpos têm que fazer ao longo de cada dia. Com uma excepção: os nossos corpos não têm que esconder apenas uma peça de fruta. Têm que esconder todas as peças de fruta que temos medo de ver e mais medo que outros vejam.

Quando finalmente deixar que a sua verdade venha ao de cima irá descobrir-se livre! Irá ter disponível toda aquela energia que consumia a esconder cada peça de fruta que transportava, e neste processo irá ver-se no caminho dos seus objectivos. Nós só estamos tão doentes quanto os nossos segredos. Estes segredos fazem com que seja impossível sermos nós mesmos.

Outra forma de expor quem é de verdade é fazendo uma lista de três pessoas que admira e três pessoas que odeia. Podem ser amigos, actores, políticos, e até pessoas que já morreram há centenas de anos. As pessoas que mais admira deverão inspirá-lo com qualidades que gostaria de possuir. As pessoas que odeia deverão deixá-lo mal-disposto, zangado ou mesmo com raiva.

A Sombra Humana

Depois, numa folha de papel, faça uma lista de todas as qualidades que admira nas primeiras três pessoas e no outro lado da folha as características que não suporta nas últimas três pessoas.

Estas listas são uma boa maneira de descobrir as partes de nós que não aceitamos. Aconselho-o a começar pelas características negativas. De início poderá ter alguma dificuldade em reconhecer em si as características que odeia. Não deve ser fácil descobrir em nós características de um Hitler. É importante decifrar qualquer palavra mais abrangente, como por exemplo ‘assassino’. A pergunta que tem que se fazer é “que tipo de pessoa cometeria estes actos?”. Seguindo o exemplo do assassino, poderia ser uma pessoa egoísta, enraivecida, que não valoriza a vida humana. Se lhe surgir a expressão “não valoriza a vida humana”, pergunte-se que tipo de pessoa é que não valoriza a vida humana? Poderá surgir-lhe, como resposta, um narcisista, uma pessoa doente, demente. A parte importante deste processo é tornar a linguagem simples até chegar a uma palavra específica ou uma característica que gosta ou desgosta. Descubra as características que possuem, para si, uma carga emocional.

Mantenha presente as palavras de Nietzsche: “nós não temos nada a dizer sobre as coisas que acontecem nas nossas vidas, mas temos sempre algo a dizer sobre a forma como interpretamos essas coisas:”

Descobrir alguns aspectos da sombra

Uma das formas mais fáceis de descobrir aspectos da sua sombra e onde esconde não só aquilo que mais rejeita em si mas também alguns dos seus aspectos mais luminosos, é através de uma série de perguntas directas. Por favor seja 100% honesto. Este é um trabalho seu e só você é que vê, e sabe, as respostas. Esta é a oportunidade de

começar a abraçar uma parte de si que faz de conta que não existe.

1. Qual é o aspecto de si que o deixa mais orgulhoso? Aquele

que gostaria que todos soubessem que possui? E qual o oposto desse aspecto? Esta primeira questão toca na imagem social que você deseja mostrar aos que o rodeiam. A segunda questão mostra o oposto, ou seja, aquilo que teve que reprimir ou rejeitar (colocando na sombra) para que os outros pudessem ver a qualidade positiva. Se a sua primeira resposta foi generoso, inteligente, alegre, ou altruísta, terá que esconder na sua

sombra o avarento, burro, triste, ou egoísta. Preste atenção ao que sente quando afirma em voz alta, em frente a um espelho, o aspecto da sombra. “Eu sou avarento!” ou “Eu sou

Algumas pessoas sentem-se confusas, outras

culpadas ou envergonhadas. E outras ainda afirmam sentir-se

com mais energia.

estúpido!”

2. Quais os tópicos que tem tendência a evitar numa discussão num grupo ? A sexualidade, agressividade, fé, ambição, incompetência? O que quer que seja, pode ter a certeza que aquilo que evita mostra um medo de revelar um aspecto de si do qual tem vergonha. O dia que conseguir falar deste tópico com um amigo que o compreenda e não julgue, em quem confia plenamente, terá sucedido em abraçar mais um aspecto da sua sombra.

3. Em que situações dá por si a ficar nervoso, mais sensível

ou na defensiva? Que tipo de afirmação o levaria a uma reacção imediata? Fica surpreendido pela forma como reage? Se sim, isto mostra que alguém acaba de pisar num aspecto seu que não aceita. O seu nível de desconforto e de reacção são uma evidência de que alguém acaba de mexer num aspecto muito sensível da sua sombra.

A Sombra Humana

4. Em que situações se sente inferior ou com falta de auto-

confiança? Pode ser que se sinta assim em frente a um artista famoso,

ou um colega que tem melhores resultados, ou um familiar que desfruta de sucesso. Isto mostra-lhe um aspecto de si que não está a expressar, mas que existe.

5. Em que situações se sente embaraçado ou envergonhado?

Em que situações entra em pânico ao pensar permitir que outros vejam a sua fraqueza? Por exemplo, se lhe pedissem para discursar em frente a um grupo de 500 pessoas, ou para dançar em frente a um grupo de estranhos. Aqui está frente a mais um aspecto da sua sombra que quer expressar-se mas ainda não encontrou maneira de o fazer.

6. Tem a tendência a ficar ofendido quando alguém o critica?

Que tipo de criticas considera ofensivas ou irritantes? Uma reacção inapropriada é também sinal de que alguém acaba de pisar num aspecto deserdado e, por conseguinte, escondido na sua sombra. Reagimos mais fortemente quando alguém expõe um aspecto da nossa sombra do qual temos um medo aterrador de vir a encontrar. Também pode acontecer ter esta reacção porque é o recipiente da sombra de um grupo, ou seja, a projecção. Neste caso tem que se perguntar porque se permite ser a “ovelha negra” do grupo.

7. É-lhe difícil aceitar um cumprimento?

Se alguém o cumprimenta por algo, como por exemplo, o seu aspecto jovem, a sua criatividade ou a maneira como faz tudo na perfeição, reage imediatamente rejeitando o cumprimento? Diz coisas como “não foi nada, qualquer um faria a mesma ”

ou “deves andar a precisar de óculos, estou cada vez

coisa

com mais rugas!” Neste caso está a tentar camuflar na sua sombra um aspecto que deseja ardentemente seja reconhecido por outros. Deverá perguntar-se: “Qual o aspecto pelo qual eu desejo que os outros me admirem?”

8. Em que aspectos se sente insatisfeito ou zangado consigo? Por exemplo, com a aparência física, ou um hábito desagradável? Neste caso estará a tentar esconder um aspecto seu que considera uma fraqueza. Ou o seu Falso Eu está a tentar impingir-lhe uma ideia irrealista de quem é e/ou do que é capaz. Pode ter a certeza de uma coisa: a partir do momento que começa a aceitar as suas fraquezas e os seus erros estará a dar início ao processo de fazer as pazes com a sua sombra.

9. Qual a qualidade que a sua família mais se esforça por mostrar à sociedade? Cada família torna-se conhecida por uma qualidade distinta. Pode ser a integridade, a honestidade, a alegria, a coragem, ser trabalhadora, hospitalidade Uma família que queira manter a imagem de honestidade, por exemplo, terá que meter na sombra a mentira. Por forma a poder funcionar (embora de uma maneira disfuncional) esta família precisa de uma “ovelha negra” que carregue a sua sombra. Verifique qual a qualidade que define a sua família. Veja depois o oposto dessa qualidade, e não lhe será muito difícil descobrir a “ovelha negra”. Na maioria das famílias a “ovelha negra” vai mudando de um membro para outro. Isto porque ninguém consegue ser a projecção de um grupo por muito tempo sem sofrer sequelas ao nível físico, emocional e espiritual.

Eu sou isso

Uma vez que sejamos capazes de ver as partes de nós que andámos a negar, estamos prontos a avançar para a próxima etapa deste processo. Iremos aceitar cada um destes aspectos negados. Aceitar significa reconhecer que determinada característica lhe pertence. Podemos assim começar a aceitar a responsabilidade pelo todo que somos. Neste momento não tem que gostar de cada parte de si, tem

A Sombra Humana

apenas que estar preparado para reconhecer cada uma delas em si e nos outros. há três questões que lhe poderão ser úteis nesta etapa: alguma vez demonstrei este comportamento no passado? Ando a demonstrar este comportamento agora? Sob circunstâncias diferentes, seria capaz de demonstrar este comportamento? Uma vez que responda “sim” a qualquer destas questões terá dado início ao processo de aceitação de qualquer comportamento.

Alguns comportamentos são mais fáceis de reconhecer e aceitar que outros. Aqueles aspectos de nós que mais negamos, e que continuamente projectamos nos outros, serão os mais difíceis de aceitar. Daí que é tão importante ser implacável consigo mesmo, sendo, simultaneamente, carinhoso.

Esteja preparado para aceitar que “é” aquilo que menos desejaria ser. Esteja preparado para ver com novos olhos, para além dos mecanismos de defesa, tudo aquilo que lhe diz “eu não sou isso”. Olhe, com olhos que digam “eu sou isso. Em que situações sou eu assim?”. E resista à tentação de se julgar.

Não crie decisões repentinas e pense que é uma pessoa má, se descobrir que é invejoso ou egoísta. Todos nós possuímos essas características, bem como os seus pólos opostos. Fazem parte da nossa humanidade. Todas estas características existem para nos guiar e ajudar. Pode ser que neste momento esteja céptico, mas dê a si mesmo a oportunidade de descobrir todas as características que o tornam completo. Prometo-lhe que no final irá descobrir o tesouro que sempre esteve dentro de si.

Aceitar é uma etapa essencial deste processo de cura e de criação de uma vida de amor. Nós não podemos abraçar aquilo que não aceitamos. Se quiser manifestar todo o seu potencial tem que ir buscar as partes de si que tem negado, escondido ou dado a outros ao longo dos anos.

Se há um aspecto de si que não aceita pode ter a certeza que irá continuamente atrair as pessoas que lhe irão mostrar esse mesmo aspecto. O Universo irá mostrar-lhe quem é de verdade através dos outros, continuamente até aceitarmos esses aspectos negados.

Já alguma vez pensou porque motivo atrai o tipo de pessoa que não gosta mesmo nada? Não é por acaso.

Há muitas maneiras de descobrir as partes de si que tem negado. Comece por estudar as características que mais o ofendem. Faça uma lista com as palavras que melhor descrevem as pessoas que detesta, ou gosta menos. Não importa o quanto lhe possa custar, enquanto não aceitar estas características em si não conseguirá avançar. Descubra uma altura da sua vida em que demonstrou essa característica. Experimente cada um dos aspectos que não é capaz de aceitar como quem experimenta um casaco. Veja como se sente, o que terá que fazer para servir. Imagine como reagiria se alguém que o ama lhe chamasse isso. Terá que analisar que tipo de juízos faz sobre cada aspecto, e ainda que juízos faz sobre as pessoas que demonstram esse mesmo aspecto. Veja quantas pessoas ‘eliminou’ da sua vida por possuírem esse aspecto. Não tente comparar-se de maneira positiva em relação a essas pessoas. Não deixe que o seu ego se justifique ou justifique o seu comportamento. Lembre-se que o mundo vê um invejoso apenas como um invejoso.

Desista de investir tanta energia e tempo em ter razão, em se justificar. É preciso compaixão para aceitar uma parte de nós que negámos, escondemos, ou odiámos durante muito tempo.

As pessoas espelham de volta aquilo que já está dentro de nós porque subconscientemente nós atraímos precisamente esses aspectos. É por este motivo que há um determinado tipo de pessoas e situações que parecem repetir-se. Quando nós somos finalmente capazes de aceitar um determinado aspecto de nós, estas pessoas mudam de comportamento, ou então nós simplesmente tornamo-nos livres para as

A Sombra Humana

abandonar. E uma vez que você aceite a totalidade de quem

é irá ser atraído pelo campo gravitacional daqueles que também se aceitam na totalidade.

Leve o seu tempo a verificar os aspectos de si mesmo que não aceita. Lembre-se que sempre que descobrir um aspecto em alguém que considere negativo, isto acontece apenas porque você já possui esse mesmo aspecto.

As palavras mais difíceis de aceitar são sempre aquelas relacionadas com incidentes do passado em que sentimos que fomos magoados. O nosso ego irá resistir a aceitação das características daqueles que nos magoaram e que culpamos pelos nossos infortúnios. Em vez de se agarrar ao ressentimento tente aprender com ele. Olhe para a pessoa que o magoou, verifique que aspectos dessa pessoa mexem consigo. E quando conseguir encontrar esses aspectos em si, deixará de ser afectado por essa pessoa.

Muitas vezes, para aceitar um aspecto de si tem que libertar a raiva acumulada – raiva contra a situação, contra a pessoa que o magoou e contra si por ter permitido a ocorrência do evento. Gritar é uma excelente forma de nos libertarmos dessa raiva. Desde que não estejamos a magoar outros deveríamos sempre libertar a nossa raiva. Quando se encontrar cara a cara com um aspecto de que não gosta não tenha receio de demonstrar a raiva sentida. Demonstre-a com

a intenção de se libertar, de deixar partir os juízos, a

vergonha, a dor, e a sua resistência a aceitar este aspecto de si.

Se nós pudéssemos aceitar a maldade e o ódio dentro de nós não teríamos a necessidade de os projectar nos outros.

Quando negamos um aspecto de quem somos, tentamos compensar essa “perda” tornando-nos no seu oposto. É então que criamos personagens para tentar provar a nós mesmos e aos outros que não somos isso. Confesse, se olhar para si com bastante atenção, consegue ver a parte de si que é aborrecida? E a parte de si que é estúpida? Consegue ainda

ver a parte de si capaz de mentir ou de atraiçoar? Permita-se gritar quando descobrir estes aspectos em si. Aceite-os e liberte-se do seu peso. Se formos honestos, e não estamos a demonstrar estes aspectos no presente, então teremos que identificar um tempo em que fomos aborrecidos e estúpidos e mentimos e atraiçoámos.

Nós gastamos na totalidade os nossos preciosos recursos quando “tentamos” não ser algo. Nós estamos aqui para aprender algo com cada um destes aspectos e fazer as pazes com cada um. Para sermos pessoas autênticas temos que permitir que os aspectos que amamos e aceitamos co- habitem com todos os aspectos de nós que desprezamos, julgamos e decidimos que estão errados. Quando conseguirmos segurar em todos os nossos aspectos numa mão, sem qualquer juízo, eles irão integrar-se naturalmente no nosso ser. É ai que podemos tirar as nossas máscaras e confiar que o Universo criou cada um de nós com um motivo divino. Poderemos então olhar desde cima, abraçando todo o mundo.

A Sombra Inconsciente

A pergunta à qual nenhum de nós tem resposta é: o que guardamos no nosso subconsciente?

Por definição, jamais poderemos saber o que permanece inconsciente. Ou seja, não conhecemos algo que nos conhece a nós. E, muito pior, aquilo que não conhecemos sobre nós persiste e infiltra-se subtilmente nos nossos valores e escolhas.

Uma das formas de começarmos a reconhecer a nossa Sombra é a forma como muito prontamente racionalizamos ou justificamos as nossas atitudes, comportamentos e escolhas. É-nos tão fácil criticar outros indivíduos, ou grupos de indivíduos. É tão fácil ajudar os sem-abrigo, mais que não seja para que a nossa Sombra absorva mais daquele

A Sombra Humana

sentimento de superioridade. Notei já diversas vezes que as pessoas que se envolvem em projectos de apoio aos sem- abrigo abandonam os mesmos em muito pouco tempo. Sem

se aperceberem, as suas sombras indicaram-lhes que não

têm necessidade de se sentirem superiores. É claro que é importante ajudar quem precisa de ajuda, mas mais importante é verificarmos os nossos verdadeiros motivos. Muitas das pessoas envolvidas em projectos humanitários têm uma necessidade de sentir que prestam, que são boas ou que valem enquanto seres humanos. Este motivo irá alimentar a sombra e criar projecções monstruosas. Mas fazê-lo pelo simples facto de querer ter a experiência, de ser útil sem esperar algo em troca, aí vale a pena.

Se você está envolvido num qualquer projecto de ajuda aos

mais carenciados verifique se comenta o seu envolvimento com outros. Se tem necessidade de fazer saber aos outros que está neste projecto é preferível que o abandone imediatamente pois está apenas a alimentar a sua Sombra. Mas se o trabalho que faz passa despercebido, se não sente necessidade de informar os seus amigos e conhecidos, então continue! Está a prestar um óptimo serviço.

A sombra inconsciente manifesta-se de muitas maneiras. Quando contamos uma anedota sobre os Alentejanos. Ou quando criticamos os produtos das lojas Chinesas. Ou

quando manifestamos a nossa veemente oposição a um político. Ou temos pena da família que sofre a tortura de um patriarca alcoólico. Quando lemos meia dúzia de livros de auto-ajuda e acreditamos ter a resposta para os problemas dos nossos amigos (alguma vez se ouviu a dizer “Se ela

fizesse as coisas como eu lhe tinha dito

Ou, entre as

pessoas ‘espirituais’: “O meu mestre disse que o melhor era ”

”).

A Sombra inconsciente leva-nos a procurar a nossa

espiritualidade em muitos lugares, excepto naquele onde sempre esteve: dentro de nós.

Mantenha sempre presente que a complexidade do universo, assim como a complexidade das nossas vidas, nunca será completamente compreendida nem revelada. Mas nós podemos viver a fantasia de que sabemos muito bem quem somos e o que queremos. E criamos um conjunto de situações problemáticas no processo de tentar compreender tudo à nossa volta. E o nosso problema é apenas um: não aceitar Aquilo Que É.

A nossa Sombra contém tudo aquilo que nos causa

preocupações, aquilo que é estranho ao ideal do ego, tudo o que é contrário aquilo que desejamos que os outros pensem

de nós. Tudo aquilo que ameaça criar instabilidade no ambiente ‘seguro’ que nos esforçamos tanto por criar.

Da mesma maneira que o ego é formado a partir dos pedaços

quebrados de muitas experiências, assim também é ameaçado pelo seu próprio lado mais escuro. Tudo o que

contradiga o ego é uma ameaça. A Sombra é a maior ameaça

ao nosso ego. E o perigo verdadeiro surge quando esta

Sombra começa a ter mais energia do que o próprio ego.

Eventualmente irá tomar posse dele.

Por este motivo, este sentimento de ameaça desconhecida, é que o nosso ego não sabe nada sobre a sua sombra. A sombra é inconsciente. Será que os peixes sabem que nadam

na água? Não creio. São um com o elemento que os rodeia.

Será que o ego sabe que nada num mar de contradições que competem por atenção? Raramente.

Quem, de entre nós, tem a coragem de admitir que por vezes

(ou muitas vezes), faz o que faz por motivos menos íntegros? Quem é capaz de admitir que por vezes dá aos amigos os conselhos que o próprio precisa urgentemente de colocar em prática? Quem é capaz de admitir que por vezes tem inveja

de

um amigo? A nossa sombra tem uma agenda diferente da

do

nosso ego. E tudo fará para conseguir os seus objectivos.

Quem, de entre nós, não se sente por vezes necessitado, vaidoso, narcisista, hostil, dependente ou manipulativo?

A Sombra Humana

Pergunto-me se as esposas dos grandes homens da História seriam felizes partilhando as suas camas com amantes poderosas como eram as causas dos seus maridos.

Será que as pessoas que dedicam toda a sua vida ao serviço dos outros, vivendo sem qualquer conforto ou prazer, não o farão movidas apenas por uma enorme insatisfação, depressão e raiva? Será que o seu sacrifício é uma coisa assim tão boa? Será que é mesmo uma escolha? Será que a pessoa que ganha o prémio Nobel da paz não terá a necessidade de ser necessário? Será que estamos a ser cínicos ao tornarmo-nos conscientes dos valores opostos aqueles que expressamos conscientemente, ou será uma forma muito profunda de honestidade?

Será que uma pessoa foi ‘santa’ porque sacrificou a sua

viagem nesta realidade em serviço aos outros? Será que a sua vida poderia ser tão tenebrosa que a única opção era não

a viver? Será que um dos aspectos dos santos é que de facto

não são capazes de viver a sua própria aventura nesta vida?

E quem, entre nós, poderá fazer este tipo de juízo?

Será possível que uma vida de boas obras pode existir lado a lado com uma vida interior carregada de sentimentos torturados? Não será possível que uma vida interior rejeitada, apesar de no exterior aparentar muita iluminação, possa mascarar uma sombra poderosa?

Para responder à questão anterior basta olharmos para qualquer noticiário. O padre acusado de pedofilia, o líder político acusado de corrupção, o bom samaritano que bate nos filhos. Não podemos cair na tentação de subestimar o poder da sombra do ser humano.

Será que o fundamentalista que tenta desesperadamente converter todos à sua ideologia está convencido que isto é para o melhor bem de todos, ou será que o que o leva a agir assim são sentimentos de culpa, frustração, ansiedade e dúvidas existenciais?

Um autor que muito admiro, Nicholas Mosley, afirma que “pessoas como os católicos ou islamitas, são-no muito mais para poder pertencer a um grupo que ofereça um apoio emocional num mundo conturbado, do que por motivos de escolha feita depois de uma busca da verdade e significado na vida”. E lá se vai por terra a teoria das revelações divinas e da integridade individual! Repare ainda que este tipo de questão levanta de imediato, em muitas pessoas, um sentimento de ofensa. Naturalmente lutamos para defender os nossos valores morais (mesmo que nunca tenham sido nossos). Ao defendermos as nossas escolhas, justificando- nos por cada decisão, estamos a dar poder à sombra. Lembre-se apenas que a verdade nunca precisou de ser defendida.

E mesmo assim, e porque a sombra se mantém inconsciente, longe da nossa vista, em oceanos demasiado profundos para nos atrevermos a mergulhar, não compreendemos como é que ela brinca com as nossas vidas. E onde é que está a nossa rectidão? Será que a humanidade é inerentemente boa? Seremos pessoas boas apenas porque a nossa cultura nos criou assim? Será que é possível existir a bondade sem o seu oposto? Será que uma bondade constante, ao longo de muitos anos, não pode tornar-se numa força demoníaca? Basta-nos olhar para a história da humanidade para ver que muitos dos actos bondosos tiveram o seu peso e preço.

Quantas pessoas não chegam à segunda parte das suas vidas sem uma certa quantidade de arrependimentos, rancores, ressentimentos, culpas e desculpas? E contudo, na altura, pensámos que estávamos a agir para o melhor bem de todos, com a melhor das intenções. Fazer um levantamento da nossa história pessoal é o primeiro passo para reconhecer aquilo que permanece no inconsciente: a presença e actividade da nossa sombra.

Quem, de entre nós, poderá afirmar: “Eu estou consciente da vida do meu inconsciente?”

A Sombra Humana

O que permanece no inconsciente é como um segundo

governo, ou governo-sombra, capaz de a qualquer momento destruir toda uma vida, assim como a vida daqueles que mais

ama.

A natureza humana escondida do ser humano

Observo à minha volta muita gente com aquilo que chamo de Ego Espiritualizado. Espiritualizam os seus egos. Sei-o

porque também já o fiz. Aquelas pessoas que são tão boas, e simpáticas e sempre prontas a ajudar o próximo, e que só querem ser úteis aos demais. E são “oh-tão-dóceis”! Sempre

a pensar nos outros! E afirmam que vivem no presente, e que

as suas vidas são equilibradas e super saudáveis. E só comem os alimentos mais nutritivos. E não fumam, nem bebem álcool, nem praticam actos sexuais ‘perversos’, nem fogem ás suas responsabilidades, nem procuram ter razão,

nem mentem

Estas pessoas são nada mais que um ego

monstruoso incapaz de abraçar o lado negro. E, como resultado, irão precisar que outros lhes mostrem o seu lado escuro que não conseguem aceitar.

Nós somos uns seres muito especiais. A vida acontece dentro

de nós, e depois projectamo-la para o exterior. Sempre. Tudo

o que vê à sua volta é uma projecção do que vai dentro de si. Veja-se o exemplo da Igreja Católica.

Uma instituição que possui uma carga emocional negativíssima sobre a prostituição, o aborto, a homossexualidade, as drogas, o sexo antes do casamento (na verdade tudo o que seja sexual). E o que acontece? Tudo

o que nega e repudia é projectado no exterior! Por isso temos

prostituição, e temos toxicodependentes, e temos mulheres a abortar, e temos a pedofilia e tudo o mais que esta instituição nega. Em realidade a própria Igreja Católica esconde no seu seio muitos pedófilos.

Isto aplica-se a todas as instituições. Sejam religiosas,

politicas, económicas, sociais

Aquilo a que resiste, persiste.

E

o mesmo acontece consigo. O que mais odeia nos outros?

O

que ‘mexe’ consigo? Se é a mentira, pode ter a certeza que

irá atrair pessoas mentirosas. Se é o sexo ‘sujo’, irá atrair verdadeiros tarados sexuais. Se é a dependência de drogas, irá atrair pessoas viciadas em qualquer substância.

Tem que se perguntar o que há de errado com mentir. O que há de errado com o sexo ‘perverso’. O que há de errado com

a dependência de drogas. Estas são as áreas da sua vida a

trabalhar. A única maneira de sair da vida que tem é aceitá-la na totalidade e atravessá-la, sentindo a dor que causa a si

mesmo e aos que o rodeiam.

Porque há-de ter uma reacção emocional quando vê um fumador? Que tipo de pessoa é capaz de fumar? Uma pessoa que não se cuida? E de que forma você não se cuida? Porque há-de ter uma reacção emocional quando vê uma prostituta? Que tipo de pessoa se prostitui? Uma pessoa que não possui amor-próprio? De que forma é que você não demonstra amor- próprio? Porque há-de ter uma reacção emocional quando ouve falar de pornografia? Que tipo de pessoa gosta de pornografia? Talvez uma pessoa incapaz de lidar com a sua sexualidade ou partilhar a sua intimidade?

Estas são as perguntas que deverá fazer-se sempre que tiver uma reacção emocional perante o comportamento de outro ser humano. Pode ter a certeza de uma coisa: tudo aquilo que nega, tudo aquilo que rejeita, irá aparecer na sua vida vezes sem conta.

Alguma vez pensou porque motivo as pessoas ‘boazinhas’ parecem ter tanto azar? Porque não aceitam que podem ser tudo aquilo que vêem nos outros.

O Caminho da Sombra não é para os fracos. É para os que

têm a coragem de expor os seus segredos, as suas raivas, as suas vergonhas. E perdoar-se por tudo o que são e tudo o

A Sombra Humana

que não são. É viver a partir do coração e não da mente. É ser quem é sem medo do que os outros vão pensar ou dizer.

Todos nós, sem excepção, guardamos segredos dos quais nos envergonhamos. Segredos que pensamos que iriam afastar os que nos são mais queridos se apenas eles soubessem. E se você neste momento está a pensar “eu não tenho segredos” está na hora de abraçar o seu lado mentiroso.

Este processo é sempre mais fácil para as pessoas com um passado doloroso. Isto porque aquelas pessoas que, aparentemente, tiveram uma infância e adolescência sem grandes problemas, não conseguirão ver tão facilmente a forma como foram abusadas.

Quando tinha 9 anos, ía tomar banho quando um adulto, familiar muito próximo, me mexeu nos genitais e masturbou- me. Até há uns dias não era capaz sequer de reviver o evento. Foi demasiado doloroso e vergonhoso. E perseguiu- me até há bem pouco tempo. Uma parte de mim acreditou que o sexo era sujo, que eu tinha que ser, no fundo, uma pessoa má. Hoje consigo ver o presente daquela experiência. Protegeu-me em mais do que uma situação. Hoje dou graças pela experiência e pela dor causada. Aprendi a ser compassivo e aceitar os que sofrem. Essa experiência ensinou-me a amar os que sofrem.

E agora que você sabe deste meu ‘segredo’

fazer? Nada que não tivesse feito antes. Se pensava bem de mim, irá sentir uma maior aproximação. Se sentia desprezo por mim, irá sentir-se envergonhado/a quando me vir. Mas eu vou continuar a ser quem sempre fui.

O que vai

Vivi alguns anos com um familiar que me aterrorizava. De cada vez que esse familiar gritava o meu nome eu mijava-me nas calças (não vale a pena utilizar eufemismos). A vergonha e dor desses anos perseguiu-me até há bem pouco tempo. Aprendi a ter medo de ser eu mesmo. Mas aprendi também uma valiosa lição: não temos o direito de magoar quem quer

que seja. E ajudou-me a sentir proximidade e carinho pelos que sofrem abusos.

E agora que sabe isto de mim, o que vai pensar? Que estou a vitimizar-me? Não, estou a dizer-lhe apenas que é ok ser humano.

Quando tinha 15 anos fui sexualmente violado. E durante estes anos todos carreguei comigo a raiva, a vergonha e o desespero. A única pessoa que magoei fui eu mesmo. Todos estes anos a carregar estas emoções altamente tóxicas. E a utilizar estas situações como desculpa para não viver o meu eu mais brilhante e corajoso. Qual é a sua desculpa?

Cada situação do seu passado encerra um presente valioso. Cada situação dolorosa do seu passado encerra a chave para quem você é e o dom que tem para dar ao mundo. Tenha apenas a coragem de enfrentar os seus medos, as suas vergonhas, as suas frustrações. Garanto-lhe que se o fizer será um ser diferente. Irá começar a brilhar. Irá mostrar aos outros que também são um presente divino que têm algo para dar ao mundo.

Posso ainda garantir-lhe que se decidir um dia fazer o Caminho da Sombra irá sentir dores físicas, irá ter dores de estômago, náuseas. Irá passar por emoções que desconhecia. Mas terá que o fazer se quer abraçar o seu lado da Luz.

Cada um de nós tem uma história diferente. Há muitas formas de abusar de uma criança. Muitas formas de dizer “tu não és importante”, “tu mereces ser abandonado”, “tu não prestas”, “tu não podes ter ideias próprias”, “tu deves obedecer sempre”, “Tu não podes sobressair”, “Tu tens que sofrer” Qual é a sua história? Olhe para a sua vida, para o que está mal na sua vida, e ficará a saber as lições que lhe ensinaram na infância.

Eu tenho uma amiga que aparentemente tem uma vida de sonho. Tudo está bem, a sua infância foi fabulosa. Nada a

A Sombra Humana

relatar. Ao ponto de afirmar que vive sempre no presente”. Na verdade não conheço pessoa mais ausente do presente! Ela é falsa (eu também sou), mentirosa (eu também sou), superficial (eu também sou) e fútil (eu também sou). Na verdade ela não tem relações amorosas com o marido há

mais de 10 anos, os 3 filhos têm relações frustrantes com ela, um deles é toxicodependente, não fala com a irmã há mais de

5 anos

Esta é a pessoa que jamais aceitará enfrentar o seu

lado negro. Por outro lado, é uma pessoa cheia de compaixão (eu também sou), que irradia alegria (eu também irradio), e que tenta sempre ver o lado bom das coisas (eu também o faço).

Faça um favor a si mesmo: esteja preparado para abraçar o seu lado negro. A sua sombra. Nem imagina os presentes que ela tem para si! Enquanto não tiver a coragem de abraçar o seu passado, de fazer as pazes com todos os que o magoaram, de fazer as pazes consigo mesmo, não poderá ser livre. Não poderá mostrar ao mundo quem é de verdade.

Tem que abandonar a sua mente, amar o seu ego, e viver a partir do coração. Não adie este processo.

A Sombra Projectada

Pense na pessoa que, quanto a si, é prepotente, preguiçosa,

desonesta e corrupta. É capaz de dizer “fulano é prepotente,

preguiçoso, desonesto e corrupto

Tal como eu!”?

que parte

destas pessoas, que rejeitam de uma forma mais ou menos velada a homossexualidade, é que nunca se sentiu completamente confortável na sua própria sexualidade. Pense

na conveniência de conhecer os seus inimigos a todo o momento – se o inimigo está ‘lá fora’, então não está ‘cá dentro’. Logo, não tenho que carregar esse peso na consciência, nenhuma obrigação de me auto-examinar.

Pense na antipatia à volta dos homossexuais

A consciência do ego, aquele pedaço de bolacha Maria a

flutuar num vasto e profundo oceano, desconhece por completo o que se esconde nas águas profundas sob si. A verdade é que aquilo que está contido no subconsciente são um sem fim de sistemas energéticos, dinâmicos e activos, capazes de invadir e controlar na totalidade a mente consciente.

Será possível que um homem, qualquer homem, mesmo o mais sincero de todos, seja capaz de erradicar toda a sua sexualidade? E se é, qual o preço a pagar? É fácil responder a esta questão: basta olhar para todos os escândalos à volta do clero, desde os filhos bastardos até à pedofilia. E quem são os ‘mais puros’ que exigem este sacrifício do clero? Que Deus é esse que apregoam e que aniquilam em simultâneo ao negar uma parte da natureza humana? Que sombra poderemos encontrar nestes homens?

Limitar-se a negar algo nunca irá funcionar a seu favor. Os nossos componentes inconscientes englobam um quantum energético que possui o poder para abandonar o oceano profundo e entrar no nosso mundo, completamente livre de qualquer interdição da mente consciente. Se isto não fosse verdade os nossos políticos, propagandistas e agências de publicidade ficariam rapidamente sem emprego. Na verdade as técnicas e ferramentas utilizadas durante a Segunda Guerra Mundial para desinformar, manipular e esconder

informação não teriam sido adquiridas pelos acima referidos.

O objectivo é sempre o mesmo: apelar ao subconsciente e

provocar projecções positivas sobre produtos, de um simples caramelo ao detergente da roupa, do carro de luxo ao político que quer chegar a primeiro-ministro.

Ninguém projecta conscientemente. Isso seria pura e simplesmente uma contradição. Ninguém acorda pela manhã com a intenção de sair à rua e projectar os seus aspectos negados, rejeitados e escondidos. E, contudo, a energia psíquica em cada um de nós, principalmente a que se encontra fora do nosso alcance, no subconsciente, manifesta-

A Sombra Humana

se através de uma dinâmica que o próprio ego não consegue

compreender, nem conter. É assim que nos apaixonamos, que tememos um estranho na rua, e recriamos as histórias

dos nossos relacionamentos uma e outra vez.

A mente é como um computador analógico capaz de

funcionar apenas devido à nossa história pessoal. Até certo

ponto, a mente procura situações análogas para poder atribuir significado a algo ou alguém. “Quando é que no passado senti

o que estou a sentir agora?”, “O que sei eu sobre esta

situação’”, “O que posso ir buscar ao passado para melhor processar este evento?”. Apesar de cada momento na nossa

vida ser absolutamente único, o nosso sistema psíquico, funcionando a partir de dados da experiência do passado, como a ansiedade, inunda o campo da nova experiência com

a informação antiga. E assim projectamos a nossa vida

interior, ou aspectos dela, para cima de indivíduos, grupos, nações. É desta mesma maneira que os propagandistas, os publicitários e os políticos procuram invocar em nós respostas positivas ou negativas. Com frequência a capacidade de crítica do ego consciente é suplantada pelos poderes da programação histórica e os novos momentos da nossa vida sofrem em benefício do passado.

Tenho um vizinho que apelida todos os políticos e homens com poder de decisão de “bananas”. Para ele são todos uns “bananas”! Está a ver televisão, surge um politico e a reacção dele, colérica, é sempre a mesma: “Olha para aquele banana!” O curioso deste meu vizinho é que a sua esposa, enquanto foi viva, tratou-o sempre por “banana”. Ele não consegue ver a ironia nem a projecção. Uma vez que a esposa partiu, o “banana” deixou de estar nele e passou a ser projectado em todos os homens com poder de decisão. Este exemplo ilustra o que disse até agora.

Assim, aquilo que não somos capazes, ou não queremos, ver em nós próprios, ou aquilo que perturba a imagem que queremos mostrar ao mundo de nós, é muitas vezes distanciada do ego consciente através de um mecanismo de

projecção que desassocia estes aspectos negados. Uma vez que a energia, a maldade, se encontra agora ‘lá fora’, eu não tenho que lidar com ela ‘cá dentro’.

Mais uma vez, nós não projectamos conscientemente, motivo pelo qual as nossas projecções são tão poderosas, tão capazes de reacções desproporcionais ao que está a acontecer. Quem seria capaz de imaginar que aquilo ‘lá fora’ a que eu reajo tem a sua origem ‘cá dentro’? Quem seria capaz de imaginar que a realidade que eu vejo ‘lá fora’ é mais um aspecto de quem eu sou? Não admira que eu tenha a reacção que tenho, e que sinta uma enorme atracção pela situação ou pessoa!

Nós estamos continuamente a correr em direcção à nossa Sombra, e acreditamos ser algo ‘lá fora’ da qual podemos distanciar-nos. Com cada projecção da Sombra, a nossa alienação potencial daquilo a que se chama realidade aumenta. Quanto mais despejamos os nossos detritos sobre os outros, mais iremos ganhar uma visão distorcida da realidade. Muito raramente conseguimos ver o mundo, e os outros, tal como são de verdade. Guerras foram feitas, romances conquistados, relacionamentos iniciados e terminados sobre as projecções da Sombra. No final perguntamo-nos para quê tanto esforço

Quantas pessoas projectaram na Princesa Diana as suas vidas por viver? Os seus sonhos, os seus sorrisos, a sua bondade? Tudo projecções da Sombra. E depois, na sua morte prematura, choraram as suas próprias vidas por viver. Quanta da vida sofrida desta mulher não foi apenas um carregar aos ombros as Sombras de milhares, senão milhões, de pessoas? De que se alimenta a bisbilhotice e a inveja se não da fuga de nós próprios?

Aquilo que não conhecemos, ou temos receio de conhecer, magoa-nos de verdade. E muitas vezes magoa ainda os que nos rodeiam. Muito frequentemente aquele que recebe a projecção da Sombra dos outros – seja ele um bruxo,

A Sombra Humana

pedófilo, toxicodependente, ladrão, judeu, chinês, homossexual, ou qualquer outro mártir do nosso inconsciente – irá ser acusado, humilhado, marginalizado, morto, ou ignorado. Mas estes são apenas os corajosos que carregam a nossa vida secreta, a nossa Sombra, e por este motivo iremos odiá-los, humilhá-los e destrui-los, porque cometeram o pior dos crimes: mostraram-nos o que se esconde dentro de nós.

Infelizmente, quanto mais fraco for o estado do ego mais

intolerável se torna, e maior o potencial para julgar os demais de maneira categórica. O mesmo é dizer: maior o preconceito

e a intolerância.

Exercício

Arranje um caderno e durante esta semana, todos os dias,

aponte as várias formas em que gasta a sua energia e tempo

a queixar-se dos outros. Todas as vezes que aponta o dedo

aos outros. Todas as vezes que critica o comportamento dos outros. Sem se justificar! Irá assim começar a ver o que esconde a sua Sombra.

A solidão

Vivemos num planeta com mais de sete mil milhões de habitantes e, todavia, sentimo-nos cada vez mais sós.

Os motivos que nos levam a sentirmo-nos cada vez mais sós são vários, mas as causas são sempre as mesmas. Sentimo- nos na solidão, ou pelas coisas que aconteceram nas nossas vidas, e gostaríamos que voltassem a acontecer, ou sentimo- nos envolvidos na solidão pelas coisas que ainda não aconteceram e desejamos ardentemente que aconteçam. Em ambos os casos é tudo um trabalho interior, mental.

Como podemos estar sós quando vivemos num mar de

nos

gente?

Como

podemos

afirmar

que

os

outros

não

compreendem quando nós próprios não sabemos quem somos e muito menos sabemos pedir aquilo que desejamos?

Conheço muitas pessoas que vivem em relacionamentos mortos, onde não há qualquer partilha, excepto aqueles momentos em que a sombra começa a fazer algum barulho. Quando o marido chega tarde a casa. Quando os filhos tiram más notas na escola. Quando a esposa se senta em frente à televisão à espera que sejam horas de ir dormir. E nunca, mas mesmo nunca, conseguimos arranjar uma hora para partilhar a nossa vida com aqueles que são de facto importantes. E nunca, mas mesmo nunca, temos a coragem para dizer que não gostamos do caminho que estamos a percorrer com aqueles que nos deveriam dizer algo ao coração.

O motivo está directamente escondido na nossa Sombra. Temos a sombra de escuridão, em que projectamos tudo aquilo que rejeitamos em nós nos outros. E conseguimos assim um marido infiel, uma esposa prepotente, um filho preguiçoso, um pai déspota, uma mãe mártir, um sogro frio e distante, uma sogra bisbilhoteira, uma amiga viperina e um patrão sádico. E não temos tempo para nos aperceber que todas estas pessoas, que mexem emocionalmente connosco, com a nossa essência, são simples projecções dos nossos aspectos negados, rejeitados e atirados para o saco da inconsciência.

Mas temos também a nossa sombra de luz. E a sombra de luz é ainda mais pesada e difícil de carregar aos ombros. Então atiramos com o que de melhor há em nós para cima dos outros. Para o marido que é um exemplo da honestidade, a esposa que é a pessoa mais carinhosa que conhecemos, o filho que é um génio, o pai que sabe ouvir os nossos problemas, a mãe que nos prepara as refeições mais saborosas do mundo, o sogro que nos ajuda quando estamos preocupados, a sogra que pinta quadros maravilhosos, a amiga que é capaz de uma empatia extraordinária, o patrão que é criativo como mais ninguém.

A Sombra Humana

E mais uma vez estamos a projectar todas as nossas

qualidades. E, eventualmente, temos que resgatar essas qualidades, trazê-las para o nosso consciente e aplicá-las

para uma vida mais.

Mas como podemos nós resgatar a criatividade genial do nosso patrão quando não estamos minimamente preparados para a pôr em prática? Não podemos. É necessário todo um treino mental para que nos seja possível abraçar a nossa luz, o nosso Ouro Interior.

O trabalho do resgate do nosso Ouro Interior tem que

começar sempre por um estudo, uma observação. Em que situações seria de benefício, para mim, possuir a criatividade

do meu patrão? Em que situações me seria útil possuir o afecto da minha esposa?

Para avançar neste processo iremos encontrar o maior obstáculo de todos: o medo. É o medo de sermos autênticos, verdadeiros à nossa essência, que nos impede de brilhar. E temos medo porque fomos ensinados há muitas gerações atrás, a ter medo do desconhecido. E, assim, perpetuamos este medo de nos descobrir, de nos revelarmos a nós mesmos.

Então, o primeiro passo que temos que dar é o de verificar quais as qualidades que vemos naqueles que têm um significado especial para nós. Só o facto de estarmos conscientes destes aspectos irá ajudar-nos a dar o próximo passo.

Atreva-se a sentir o medo de ser quem é.

Abraçar a nossa sombra

A maioria das pessoas tem um desejo inato de sentir paz. Mas só conseguiremos essa paz quando formos capazes de abraçar a totalidade que somos. Descobrir as qualidades dos

nossos aspectos mais negativos é um processo criativo que necessita apenas de um desejo profundo de ouvir e aprender, uma vontade de deixar partir juízos de valor disfuncionais e crenças limitadoras, e a intenção de querer sentirmo-nos melhor. O seu Eu verdadeiro não cria juízos de valor. Apenas o nosso ego, conduzido pelo medo, cria juízos de valor com o intuito de nos proteger – protecção essa que, ironicamente,

nos impede de uma realização pessoal plena.

Para poder ultrapassar o ego e as suas defesas tem que

procurar o silêncio, ser corajoso, e ouvir as vozes dentro da

sua cabeça. Por detrás das nossas máscaras sociais existem

milhares de faces. Cada face possui uma personalidade. Cada personalidade possui características específicas. Ao conseguir dialogar com cada uma destas subpersonalidades

irá transformar os seus preconceitos egoístas em tesouros

valiosos. Quando for capaz de abraçar cada aspecto da sua

sombra irá buscar o poder que deu a outros, irá criar uma ligação verdadeira com o seu Eu autêntico.

Quando permitir que as vozes das suas subpersonalidades se tornem conscientes, elas irão criar equilíbrio e harmonia com os seus ritmos naturais.

Para mim foi uma experiência única o descobrir algumas das minhas subpersonalidades. Descobri partes de mim que, acreditava, nunca tinha sequer rejeitado porque nem sabia

que existiam!

É importante que comece por identificar cada uma das subpersonalidades e depois dar-lhes um nome. O facto de dar um nome a uma subpersonalidade específica irá torná-la consciente.

A maneira mais interessante de descobrir as suas

subpersonalidades é através de um exercício criado por

Roberto Assagioli, fundador da Psicossíntese.

Comece por se sentar confortavelmente e fazer cinco ou seis inspirações calmas e profundas. Com cada inspiração sinta-

A Sombra Humana

se a ir mais dentro de si. Depois imagine que está numa paragem de autocarro. Pode ser numa cidade, no campo, até, porque não, numa auto-estrada (a sua imaginação decide os

seus limites)! Imagine que ao longe se aproxima um autocarro cheio de gente. Haverá nele pessoas novas e velhas, miúdos

e graúdos, gente magra e gorda, bonita e feia, inteligente e estúpida. Todo o tipo de pessoas! Só que você ainda não sabe que pessoas estão dentro do autocarro!

O autocarro pára e você entra. Há apenas um lugar vazio, o

seu. Repare no ambiente dentro do autocarro. Comece a reparar nas pessoas. Sente-se. O autocarro não arranca. Em vez disso uma das pessoas no autocarro avança até si e estende-lhe a mão, para que a acompanhe. Repare na pessoa que o convida. Verifique o que sente na presença desta pessoa. Depois saia com ela para fora. Fora do autocarro, apenas os dois, sentam-se num banco e conversam. Como se chama? O que pretende? Qual o seu presente para si? Como lhe pode ser útil? Quando tiver terminado a conversa agradeça-lhe a sua presença. Abrace-a se sentir que é apropriado, ou dê-lhe um aperto de mão.

Depois regresse ao autocarro e deixe que outra pessoa se aproxime de si. Repita o processo. Faça por conhecer três ou quatro “pessoas” (subpersonalidades) de cada vez que faz este exercício.

Quando esperava pelo autocarro estava no

campo, com árvores frondosas na berma de uma estrada velha, com ervas que cresciam nas bermas. O autocarro era novo e, à medida que se aproximava, tinha a percepção de muito ruído, algazarra, dentro do autocarro. Senti um aperto no peito quando o autocarro parou e as portas se abriram. A primeira pessoa que vi foi o motorista – simpático e sorridente, acenou-me para entrar como se estivesse com pressa. Sentei-me no fim do autocarro – o único lugar vazio. Não me apetecia muito olhar à minha volta. Tinha a nítida sensação de que todas as pessoas se encontravam em

alvoroço, irrequietas, barulhentas. Quando levantei a cabeça

O meu exemplo

estava um idoso ao meu lado que me estendia a mão. A sua expressão facial era de preocupação e ressentimento. Confesso que não me apetecia muito sair e conversar com aquela pessoa, mas fui. Perguntei-lhe como se chamava. Disse-me que era o Queirós Queixinhas. Quando nos sentámos no banco, já fora do autocarro, o Queirós começou logo a falar. Não se calava! Queixava-se dos políticos, dos amigos, do tempo, do trabalho, até do autocarro que o transportava! Perguntei-lhe porque se queixava tanto. Respondeu-me que se não se queixasse eu ficaria sempre para o fim! (E de repente apercebi-me que o único lugar no autocarro era mesmo na traseira!). Ele tinha que se queixar porque era a única maneira de eu prestar atenção ás minhas necessidades. Enquanto se queixava senti uma enorme tristeza no meu coração. Quando ele terminou agradeci-lhe a sua presença e prometi-lhe que iria prestar mais atenção ás minhas necessidades. Abraçámo-nos durante bastante tempo. Quando deixei o Queirós Queixinhas regressar ao autocarro reparei que já não caminhava curvado e com andar arrastado. Por outro lado eu sentia-me pesado.

Abri os olhos, escrevi numa folha um pequeno relato e regressei ao trabalho. A segunda pessoa que veio ter comigo

(desta vez o lugar vazio no autocarro era muito mais à frente!) era um jovem musculado, com uma feição bruta, ameaçadora. Chamava-se Tomás Teimoso. Mais uma vez, senti alguma resistência em sair para fora do autocarro com esta personagem. Uma vez fora do autocarro preparei-me para me sentar no banco e ouvir o que o Tomás Teimoso tinha para me dizer. A primeira coisa que disse foi que iríamos caminhar! Respondi-lhe que a ideia era de nos sentarmos e termos uma conversa. Ele agarrou-me por um braço e disse que iríamos caminhar! A sua voz era bastante persuasiva. Respirei fundo e lá fui. Perguntei-lhe primeiro porque motivo queria ele caminhar. Respondeu-me que era simples: ele tinha sempre razão! Uma nova pergunta surgiu na minha mente. Mas então

ter sempre razão não é algo que sempre combati?

por isso é que o Tomás Teimoso era forte e bruto! Alimentei-o

muito bem ao longo dos anos, negando a sua existência!

Claro,

A Sombra Humana

Disse-me que o querer ter razão é um jogo do ego. O ter razão força-nos a aceitar que somos vítimas de uma maneira perniciosa. Quando quis saber qual a sua prenda, informou- me, a sorrir, que muitas vezes a minha intuição me tentava empurrar numa direcção mas, seguindo a lógica do ego, eu ía no sentido oposto! E como não aceitava que era teimoso, o Tomás aparecia de vez enquando, em conversas internas que alimentavam o corpo de dor! Tinha que aceitar que muitas vezes me tornava teimoso em situações mesquinhas quando deveria fazê-lo nos momentos em que estava em jogo o meu desenvolvimento pessoal. Achei curioso quando o Tomás Teimoso me disse que teríamos que voltar a encontrar-nos, ainda era cedo para me dizer tudo o que tinha a dizer Apertámos as mãos, mais como sinal de respeito mútuo.

Abri os olhos e escrevi um relatório. Depois do Queirós Queixinhas e do Tomás Teimoso, tive a oportunidade de

conhecer o Victor Violento, a Zulmira Zangada, o Afonso Alegre, o Manuel Mentiroso, o Carlos Comilão, a Belita Boa- Vida, o Ivo Invejoso, a Maria Mordaz, a Vera Venenosa, o Sebastião Sabichão, o Pedro Parvalhão, a Otília Otária, o Rafael Rancoroso, a Teresa Trombuda, o Nelson Nega-Tudo,

o

Augusto Arrogante, o Carlos do Contra, o Diogo Deprimido,

o

Teodoro Tudo-Bem, o Luís Luxúria, a Vânia Vai-com-Todos,

o Fernando Faz-de-Conta, o Mário Masoquista, a Sandra Sádica, a Elsa Engraçadinha, o Belmiro Beato, o Angélico Angelical, o Mário Maricas, a Vanda Vaidosa, a Carlota Cobardolas, o Alberto Abandonado, a Inês Insaciável, a Joana Jurista, o Luís Larápio, a Tânia Traiçoeira, a Laura Lapa, o Bartolomeu Bestial

Ao longo deste processo irá ter momentos divertidos e momentos de tristeza. Irá descobrir facetas que desconhecia

e encontrar velhos amigos. No fim irá descobrir que está tudo em si. Depois, é importante que escolha meia dúzia de subpersonalidades que de facto estejam activas ao longo do dia. São aquelas responsáveis pelos nossos hábitos. Por exemplo, se tem o hábito de praguejar a outros condutores, talvez haja em si uma Carla Cabra ou um Pedro Petulante

Da próxima vez que se encontrar na situação habitual fale com essa subpersonalidade! Não só irá ser divertido como a situação se dissolverá muito rapidamente.

Por exemplo, uma das minhas subpersonalidades mais activas era o Sebastião Sabichão. Agora, sempre que alguém comenta algo e eu sinto vontade de elaborar ou oferecer ainda mais informação sobre o assunto, penso qualquer coisa como “Hallo! Sr. Sebastião Sabichão, agradecemos a sua amabilidade mas neste momento os seus serviços não são necessários”. Ou quando alguém me fala de uma situação de injustiça e a Joana Jurista começa aos pulos para dizer de sua sentença, posso pedir-lhe que se acalme porque não se trata de uma situação de vida ou morte.

Mas o benefício maior é para as pessoas que estão em

relacionamentos estáveis. Se ambos souberem da existência das principais subpersonalidades um do outro, é fácil dissolver situações conflituosas. Por exemplo, a Carlota Chorona chega a casa a choramingar porque teve um dia difícil e o marido, o Sandro Sádico, está à sua espera

Podem imaginar a situação?

disser qualquer coisa como “Aha! Hoje temos a Carlota

Explosiva! Mas se o marido

Chorona no palco!” ou a esposa afirmar “Podias pedir ao Sandro Sádico que se acalme?”, a situação mudaria

completamente!

Para melhor poder encontrar as suas subpersonalidades, enquanto casal, deixo-lhe o exemplo de um casal meu amigo.

A Andreia encontrou as seguintes subpersonalidades:

Rita Resistente, Zulmira Zangada, Dora Dominante, Paula Polícia, Rafaela Rainha, Carla Controladora, Ana Amante, Sandra Sempre-Certa.

O Paulo encontrou as seguintes subpersonalidades:

A Sombra Humana

Dionísio Dominador, Sebastião Sabe-Tudo, António À-Minha- Maneira, Manuel Musculado, Alfredo Amante, Carlos Competente, Paulo Professor.

Já imaginaram o que acontecia neste casal quando a Dora Dominante se encontrava com o Sebastião Sabe-Tudo?

A confiança absoluta é algo que tem que existir antes de

darmos início a qualquer diálogo interior. Isto porque haverá

alturas em que poderá estar a falar com uma das suas subpersonalidades e alturas em que estará a ouvir a vozinha interior (ego) que nunca tem nada de bom para dizer. Como distinguir as duas? A vozinha que está sempre a deitar abaixo nunca terá algo de positivo para lhe dizer, nunca haverá uma prenda ou algo a aprender.

É ainda importante receber as suas subpersonalidades de

braços abertos. Isto é mais fácil de dizer do que fazer. Esta é

muito provavelmente a única situação em que estar à espera do pior pode funcionar a seu favor.

À medida que for abraçando as partes de si que nunca

aceitou, é uma óptima ideia tentar descobrir onde é que essa subpersonalidade teve início. O que o levou a acreditar que

determinada característica era má e indesejada.

Se estiver preparado para ouvir, irá descobrir que a grande maioria das suas subpersonalidades são engraçadas, divertidas, cheias de recursos, honestas e capazes de perdoar tudo e todos. Em realidade cada uma das suas subpersonalidades é uma das pessoas mais sábias em todo o Universo (o seu Universo). Isto porque lhe dão respostas que vêm de si, do mais profundo do seu ser. Na verdade você pode ter acesso a qualquer pessoa indo bem dentro de si. Tudo o que tem a fazer é encontrar o silêncio interior e chamar a pessoa à sua presença. Lembre-se, se essa pessoa não tem nada de bom para lhe dizer, é a sua vozinha interna, parte do ego, que mais uma vez tem a oportunidade de vitimizar.

As suas subpersonalidades estão à sua espera. Elas não querem mais nada a não ser a sua atenção e aceitação. São as vozes do seu futuro e nunca do seu passado. Quando conseguir ligar-se ao Todo que sempre foi nunca mais se sentirá só, ser-lhe-á impossível. Temos que procurar o Universo dentro de nós. Honrá-lo, amá-lo e aceitá-lo. Só então seremos capazes de aceitar a magnificência que somos. Temos que parar de julgar a caminhada da nossa alma, confiar no processo da nossa humanidade e abraçar a nossa bondade eterna.

Faça o exercício do autocarro. Lembre-se que se a subpersonalidade que aparecer não tiver nada de bom para lhe dizer é o seu ego a falar. Volte a repetir.

Aquilo a que resiste, persiste

Se tem efectuado todos os exercícios dedicados à descoberta da Sombra, é muito provável que comece a observar alterações significativas nos seus relacionamentos.

Lembre-se

relacionamento:

de

dois

aspectos

importantes

de

qualquer

1. O seu Corpo de Dor irá sempre atraí-lo para relacionamentos íntimos com as pessoas capazes de alimentar a dor. Os relacionamentos irão causar-lhe sofrimento, quer queira ou não, para que você possa despertar;

2. A partir do momento que aceita plenamente em si as características negativas da pessoa com quem se relaciona, essa pessoa muda de comportamento ou afasta-se, literalmente, de si.

O processo da Sombra não é fácil nem para qualquer pessoa. Ao iniciar este processo irá mergulhar no que muitos mestres chamam de “Noite Escura da Alma”. A fase inicial deste processo é dolorosa e todo o sofrimento enterrado ao longo

A Sombra Humana

dos anos irá surgir para que você o possa abraçar e abençoar, vendo nele os presentes que encerra.

Não pode parar este processo. Não pode simplesmente dizer “já chega, já sofri o suficiente, quero é viver a minha vida!”. Se

o fizer, pode ter a certeza que voltará a passar pelo mesmo

sofrimento vezes sem conta. Tem que se permitir continuar.

Veja os presentes que cada trauma, cada drama, encerram em si.

Os acontecimentos da nossa infância, por mais traumáticos que tenham sido, encerram o nosso dom.

Qualquer que tenha sido a experiência que o tenha marcado,

a lição que aprendeu foi qualquer coisa como:

Não sou importante;

Não devo sobressair;

Não faço nada bem feito;

Se for eu próprio serei punido;

Se me respeitar outros irão afastar-se de mim;

Se não fizer o que é esperado de mim ninguém me amará;

Os outros têm sempre razão;

Para ser amado tenho que abdicar daquilo que gosto;

O meu corpo é feio;

Sou mau porque não obedeço ás regras da sociedade;

Se for atrás dos meus sonhos vou ser criticado;

Não sou merecedor de fazer o que me dá prazer;

Devo sacrificar os meus sonhos em favor da segurança;

Não é seguro ser eu mesmo;

Nunca vou ser completo;

Se mostrar o que sinto outros irão rir-se de mim e/ou aproveitar-se das minhas fraquezas;

Se for bem educado todos me respeitarão;

Só as pessoas sérias é que são levadas a sério;

Estas lições foram apreendidas através de situações específicas em que, regra geral, um dos progenitores participou. Eis o que acontece:

A criança de seis anos, enquanto brinca, parte um vaso de

estimação da mãe. A mãe, porque teve um dia ‘pesado’, grita com a criança e diz-lhe qualquer coisa como “Esse era o meu

vaso favorito, que a tua bisavó me tinha oferecido! Vai já para

o teu quarto de castigo!” (ok, provavelmente aconteceu algo

muito pior). Qual a lição que a criança aprende? – pode escolher entre “Nunca faço nada bem feito”, “Sou uma pessoa má”, “Só causo problemas”, “É arriscado divertir-me”

Se os pais não foram capazes de mostrar carinho, afecto, a lição foi ainda mais dura. Apreendeu coisas como “Não sou digno de ser amado”, “Ninguém gosta verdadeiramente de mim”, “Não sou importante”

Se os pais discutiam ou não mostravam uma relação amorosa, a lição que apreendeu foi qualquer coisa como “Quando amamos alguém sofremos”, “Para ser amado tenho que abdicar daquilo que gosto”, “Os outros são incapazes de me amar quando sou eu próprio”

Começa a perceber a história que foi criando enquanto criança? É capaz de ver situações da sua infância e verificar como está agora a viver essas situações de uma outra forma (embora as emoções sentidas sejam as mesmas)?

Todavia, como se isto não bastasse, vamos fazer algo ainda mais absurdo do que o comportamento que os adultos à nossa volta nos mostraram! Vamos mostrar-lhes que não tinham razão, que erraram! E como vamos fazer isso? Repetindo situações em que, inconscientemente, lhes mostramos que o que fizeram estava errado e nós é que temos razão!

Alguns exemplos. Se a lição que o pai ou mãe, através de uma situação específica, mostraram foi algo como “Não sou merecedor de ser amado” então iremos sofrer nos nossos

A Sombra Humana

relacionamentos amorosos. Iremos criar relações com pessoas instáveis, ou frias, calculistas, traiçoeiras, falsas. Ou simplesmente não teremos uma relação amorosa com ninguém. Se a lição que nos ensinaram foi “Nunca fazes nada bem feito” iremos criar situações de emprego precário, seremos despedidos com frequência do trabalho, saltaremos de emprego em emprego, teremos dificuldades na escola. Se

a lição foi “Tu és feio” iremos ter problemas alimentares, um peso muito acima ou abaixo do ideal, problemas de pele ou de saúde, agarrar-nos-emos a vícios que deformem o nosso corpo.

E tudo isto com o único objectivo de podermos apontar o dedo

aos progenitores e afirmar: “Tu erraste!”.

O seu desafio, neste momento, é descobrir o presente que

cada situação da sua infância encerra – o seu Dom.

De que forma é que os seus pais o ajudaram? Vejamos alguns exemplos.

O Pedro, quando criança, presenciou muitas situações em

que os pais discutiam violentamente. Hoje o Pedro é um excelente comunicador e tem ajudado, no seu trabalho,

muitos casais a resolver os seus conflitos.

A Mariana, aos sete anos de idade, foi entregue a uma família

porque os pais, ambos alcoólicos, eram incapazes de cuidar dela. Hoje a Mariana é directora de recursos humanos numa empresa que prima pela atenção e cuidados prestados aos funcionários.

O pai do João disse-lhe, inúmeras vezes, enquanto criança,

que não sabia fazer nada e nunca lhe demonstrou carinho. Hoje o João é um juiz num tribunal de família onde é conhecido pelo afecto com que ajuda vítimas de maus tratos.

A Gabriela foi violada por um tio até aos nove anos de idade.

Andou metida no munda da droga e prostituição. Hoje está à

frente

situações precárias.

de

uma

organização

que

cuida

de

mulheres

em

E de que maneira é que a sua história da infância lhe está a

ser benéfica? Qual a qualidade que mostra ao mundo devido

a uma situação dramática da sua infância? Talvez lhe tenham

dito que nunca faria nada bem feito e hoje é um homem de negócios de sucesso. Ou talvez lhe tenham dito que não era digna de ser amada, e hoje, é-lhe fácil sentir compaixão por outros e ser-lhes útil.

Não sei se começa a ver o desenlace da sua sombra. Por um lado irá manifestar-se numa área da sua vida, como a parte de si que não é capaz de aceitar. Por outro lado, irá manifestar-se como o seu oposto numa outra área da sua

vida!

E quando for capaz de ver e aceitar ambas, ser-lhe-á fácil

descobrir o seu Dom – o motivo divino pelo qual mais ninguém no mundo poderia ocupar o seu lugar.

O exercício que lhe proponho a seguir é simples: pegue numa

situação dramática da sua vida (ocorrida na infância, adolescência ou juventude). Primeiro veja qual foi a lição ‘negativa’ que apreendeu e que ainda hoje repete, só para ter razão e poder apontar um dedo acusador. Depois veja qual o benefício dessa mesma situação. De que maneira essa situação o tornou mais ou maior.

Para terminar, permita-se descobrir o que precisa de fazer para deixar partir a situação dramática. Qual o ritual de limpeza necessário. Respire fundo durante dois ou três minutos. Vá dentro de si e aguarde a resposta. Pode ser que

o que a sua alma necessite é um pedido de desculpa por

parte da pessoa que o/a magoou. Pode ser que seja suficiente ir até à praia e gritar a plenos pulmões. Pode ainda ser que precise de acender meia dúzia de velas e dançar com os braços no ar. Não há um ritual certo ou errado – faça o que sentir ser mais apropriado para si.

A Sombra Humana

Agora é a altura de se libertar da sua história.

A nossa história

Um dos motivos, senão o motivo principal, porque desenvolvemos uma sombra pessoal e projectamos tudo o que é rejeitado, prende-se com a nossa história.

Aquilo que nos aconteceu no passado e identificamos como sendo o que nos define. As aventuras e desventuras a que chamamos a nossa vida. Todos os eventos do passado são por nós aceites como tendo ocorrido de uma maneira específica, segundo, claro, a nossa perspectiva.

Tente recordar-se de pelo menos 5 eventos do seu passado, da sua infância, que o tenham marcado de maneira negativa. Pode ser algo com uma carga emocional forte, como por exemplo o ser fisicamente castigado por ter partido uma jarra. Mas também pode ser algo sem muita importância, como ter perdido um livro e um dos progenitores dizer-lhe que só não perdia a cabeça porque estava agarrada ao corpo.

Depois de escrever os eventos, verifique qual a lição que aprendeu devido a cada um deles. Deixo-lhe o caso de uma cliente minha, para que fique com uma ideia.

Teresa

Aos cinco anos o pai esqueceu-se de a ir buscar ao infantário. Quando a mãe a foi buscar sentia-se abandonada. A lição que aprendeu aqui foi: eu não sou importante.

Por volta dos sete anos a mãe enganou-se no seu dia de aniversário. A lição que aprendeu: não era ninguém, não contava.

A sua melhor amiga mudou de cidade quando ela tinha 12 anos, sem terem tempo de se despedir. A

lição que aprendeu: ninguém dá importância aos meus sentimentos.

Quando tinha 15 anos foi a melhor aluna da turma dela. Quando contou em casa, a resposta do pai foi “podias ter feito melhor”. A lição que aprendeu aqui:

nunca conseguirei agradar ao meu pai.

Aos 18 anos entrou para a faculdade, para o curso que queria. No entanto a mãe ficou amuada com ela por ter escolhido um curso que não tinha muitas

Nunca conseguirei

saídas profissionais. A lição? agradar à minha mãe.

Na verdade o que a Teresa aprendeu foi uma das três lições que constituem a base da vida de cada um de nós: Eu não sou importante.

Ao longo da vida adulta, a Teresa foi provando a ela própria que estava certa. E nesse processo conseguiu ‘vingar-se’ dos adultos à sua volta. Quando pedi à Teresa para imaginar que escrevia um livro sobre a história da vida dela, o título que surgiu foi “Como sofrer na vida sendo um Zé-ninguém”.

Qual seria o título do livro da história da sua vida? Enquanto não souber exactamente qual o tema da sua vida, da sua história, ser-lhe-á muito difícil abandonar os seus actos de auto-sabotagem.

As lições que os eventos da nossa vida nos ensinaram irão estar sempre entre os seguintes:

Ninguém gosta de mim;

Eu não pertenço em lado nenhum;

Eu sou estúpido/a;

Eu sou incompetente;

Eu não sou bem-vindo/a;

Eu não sou especial;

Eu não sou merecedor/a;

Eu sou um/a inadaptado/a;

Eu sou insignificante;

A Sombra Humana

A minha vida não conta para nada;

Eu sou um Zé-ninguém;

Eu não presto;

Eu sou um erro;

Eu sou mau/má;

Eu sou incompleto/a;

Eu não mereço ser amado/a;

Eu sou um/a falhado/a;

Ninguém gosta de mim;

Eu não posso confiar em ninguém.

Estas lições são variadas mas todas elas irão encaixar-se em apenas um de três grandes temas que fazem parte da vida de qualquer pessoa:

Não sou suficientemente bom /boa;

Eu não sou importante;

Há algo de errado comigo.

E é claro que cada um destes temas irá cair no Grande Tema de cada ser humano: Coitadinho de Mim!

Há coitadinhos mais coitadinhos que outros, claro! Há pessoas cuja vida parece não sofrer grandes desafios e pessoas cujo dia-a-dia é uma batalha. Mas que há um coitadinho em cada um de nós há espera de nos provar que tem razão, lá isso há.

Em que área da sua vida se sente vítima? Onde é que tem mais desafios, ou problemas? Que tipo de emoção sente quando pensa nesse problema? Recorda-se da primeira vez na sua vida em que sentiu a mesma emoção? O que tinha acontecido na altura? Hoje tem o problema que tem para provar a si mesmo que, na altura tinha razão, que os outros não tinham o direito de o magoar, e irá criar continuamente situações que provoquem a mesma resposta emocional para poder punir os culpados. (Claro que se estivesse consciente deste processo seria capaz de o interromper).

Para saber se está a viver a sua história verifique o seu estado emocional. Quando estamos dentro da nossa história podemos sentir:

Resignação;

A sensação que falta algo;

Privação;

Ressentimento;

Vitimização;

Solidão;

Culpa;

Raiva;

Vergonha;

Desespero;

Falta de esperança;

Tristeza;

Medo;

Inveja;

Arrependimento;

Pena de si mesmo;

Ódio de si mesmo.

Comece por identificar qual é o tema da sua história. Só assim conseguirá sair dela e mostrar ao mundo toda a sua luz, o seu brilho magnificente.

Como criamos o Eu Falso

Os pais utilizam, muitas vezes inconscientemente, variadas técnicas e tentativas nos seus objectivos de reprimir determinados pensamentos, sentimentos e comportamentos nos seus filhos. Por vezes avançam com pedidos muito directos: “os homens não choram!”, ou “mexer aí (‘aí’ referindo-se aos genitais) é feio!”, ou ainda “não voltes a dizer essas coisas!”

Podem ainda fazê-lo de maneira mais agressiva, como podemos observar numa loja quando a mãe ralha com a

A Sombra Humana

criança, ou dá umas palmadas ou bofetadas porque a criança mexe onde não deve.

Mas a maior parte das vezes os pais moldam a criança de maneiras subtis, num processo a que se chama invalidação – limitam-se simplesmente a não testemunhar um comportamento ou a mostrar agrado por algo que a criança diz. Por exemplo, se os pais não dão qualquer valor ao desenvolvimento intelectual, oferecem aos seus filhos brinquedos ou inscrevem-nos em actividades lúdicas, mas não lhes oferecem livros nem estimulam a leitura. Se acreditam que as mulheres devem ser sossegadas e femininas e os homens fortes e assertivos, só mostram apreço por comportamentos relacionados com o sexo da

criança. Se o menino de 4 anos entra na sala com um enorme camião nos braços, podem afirmar algo como “que homem forte!”, mas se for uma menina a carregar o mesmo camião podem dizer “cuidado! Olha que podes magoar-te e sujar o

teu lindo vestido!”

Contudo, a forma como os pais mais influenciam os seu filhos

é através do exemplo. As crianças, instintivamente, observam

as escolhas que os pais fazem, as liberdades e os prazeres

que se permitem, os talentos que desenvolvem, as capacidades que ignoram, e as regras e valores que seguem. Tudo isto tem um efeito profundo nas crianças. O que as crianças vêem é: “É assim que nós vivemos. É assim que conseguimos sobreviver.” Esta socialização inicial é importante, independentemente de as crianças aceitarem os modelos dos pais ou de se revoltarem contra os mesmos.

A reacção de uma criança aos convencionalismos da

sociedade segue um padrão bastante previsível. Inicialmente,

a primeira resposta é esconder os comportamentos proibidos

pelos pais. A criança tem pensamentos de raiva mas não os expressa. Prefere explorar o seu corpo na privacidade do seu quarto. Pode implicar com os irmãos mais novos quando os pais não estão presentes (ou abusar deles de muitas

maneiras). Com o decorrer do tempo, a criança chega à

conclusão que alguns dos pensamentos e sentimentos são tão inaceitáveis que deveriam ser simplesmente eliminados. Assim, constrói um pai imaginário que policie os seus pensamentos e acções, criando aquilo que muitos psicólogos referem como o superego. A partir daqui, sempre que a criança tem um pensamento proibido ou tem um comportamento inaceitável, irá experienciar uma dor causada pela ansiedade do superego. Esta experiência pode ser tão desagradável que a criança decide meter dentro de um saco alguns dos seus aspectos proibidos. Ou seja, reprime certos pensamentos e acções. O preço que paga por fazê-lo é a perda do ser total ou completo que é.

Para preencher o vazio criado, a criança cria um “Eu Falso”, uma estrutura psicológica que serve dois objectivos: irá camuflar as partes de si reprimidas e também protegê-la de mais danos.

Uma criança criada por uma mãe que reprime a sua sexualidade e é distante, por exemplo, poderá tornar-se no “homem duro”. A criança dirá a si mesmo: “Não quero saber se a minha mãe é distante e não me mostra afecto. Eu não preciso dessas lamechices. Eu desenrasco-me bem sem ajuda. E mais uma coisa: sexo é uma coisa suja!” Com o passar do tempo o menino irá aplicar esta resposta padrão a todas as situações. Independentemente de quem se queira aproximar dele, irá sempre criar a mesma barreira. Mais tarde, quando por fim consegue ultrapassar a sua relutância em relação aos relacionamentos humanos amorosos é muito provável que critique a sua companheira devido ao desejo desta de querer intimidade e um contacto sexual. “Porque raio queres tu tantos carinhos e mimos? E porque és tão obcecada com o sexo?! Isto não é normal!”

No entanto outra criança pode reagir à mesma mãe, distante e sexualmente reprimida, de maneira oposta. Exagerando os seus problemas na esperança de alguém a ajudar. “Coitado de mim! Estou ferido, os outros magoam-me continuamente! Preciso que alguém cuide de mim!”

A Sombra Humana

Uma outra criança pode tornar-se gananciosa, tentando agarrar-se a cada pedaço de amor, comida e objecto que veja, na certeza que nunca haverá o suficiente.

Independentemente da natureza do Eu Falso, o seu propósito

é sempre o mesmo: minimizar a dor de perder uma parte da criança original. O seu ser completo e divino.

Contudo, a determinada altura do desenvolvimento da criança, esta forma engenhosa de auto protecção torna-se na causa de mais danos, à medida que a criança é criticada por

possuir estas características negativas. Os outros irão criticar

o seu distanciamento e frieza, ou a sua atitude de ‘coitadinho’, ou o ser gordo ou ganancioso. Os que atacam esta criança não conseguem ver as feridas que ela tenta proteger, e não ficam muito entusiasmados pela maneira astuta com que o faz: tudo o que vêem é a sua natureza neurótica. É considerada inferior, menos que completa.

É aqui que a criança se sente numa encruzilhada. Por um lado tem que se agarrar aos aspectos de adaptação do seu carácter, porque servem um propósito útil, mas por outro lado não quer ser rejeitada. O que pode esta criança fazer? A solução é negar ou atacar a atitude dos que a criticam. “Eu não sou frio e distante!”, poderá dizer em auto-defesa, “na verdade sou forte e independente!”. Ou “eu não sou um coitadinho frágil, sou simplesmente muito sensível.”. Ou ainda “eu não sou ganancioso e egoísta, sou poupado e prudente!”. Por outras palavras, “Não é de mim que estão a falar. Vocês apenas estão a ver-me sob uma perspectiva negativa.”

Até certo ponto a criança tem razão. Os seus aspectos negativos não fazem parte da sua natureza original. São criados a partir da dor e tornam-se parte de uma identidade assumida, um “outro eu” que a ajuda a viver num mundo complexo e muitas vezes hostil. Isto não quer dizer, contudo, que ela não possui estes aspectos negativos. Haverá sempre um número de pessoas que afirmarão a sua existência. Mas para poder manter uma imagem positiva de si mesma, e

aumentar as probabilidades de sobrevivência, ela terá que negar a sua existência.

Estes aspectos negados irão tornar-se aquilo a que se chama

de “Eu Deserdado”, ou “Sombra”: aqueles aspectos do Eu

Falso que são demasiado dolorosas para serem reconhecidos.

Vamos parar aqui por alguns instantes e ver em pormenor

esta proliferação de “Eus”. Até agora conseguimos criar com sucesso várias fracturas no Eu Verdadeiro e Original, a natureza de amor e ser completo com a qual todos nascemos,

em três partes distintas:

1. O “Eu Perdido”, aquelas partes do nosso ser que reprimimos devido ás exigências da sociedade;

2. O “Eu Falso”, a fachada que construímos para poder preencher o vazio criado por esta repressão e por uma falta de afecto;

3. O “Eu Deserdado”, os aspectos negativos do Eu Falso que encontram reprovação no meio que nos envolve e que, assim sendo, são negados.

A única parte desta colagem complexa que mantemos

consciente é aquela que faz parte da criança original e completa e que ainda se mantém intacta, assim como certos

aspectos do Eu Falso. Estes aspectos juntos formam aquilo a que chamamos ‘personalidade’ – a forma como nos descrevemos aos outros. o Eu Deserdado, Perdido, encontra-

se quase totalmente ausente da nossa consciência: cortamos

quase na totalidade todas as ligações com estas partes reprimidas do nosso Eu. O Eu Deserdado, as partes negativas do Eu Falso, fica alojado muito próximo da consciência e ameaça constantemente vir à superfície. Para o manter escondido, temos que o negar activamente ou então projectá- lo em outros.

“Eu não sou egoísta! Tu é que só pensas em ti!” diremos veementemente. Ou “Eu, preguiçoso?! Tu é que não tens nunca tempo para desfrutar da vida!”

A Sombra Humana

E dizemos isto com tanta energia quanta conseguimos utilizar.

E assim, a pouco e pouco, a criança original, completa e divina, começa o processo de separação e sofrimento. Eventualmente, por volta dos quarenta anos, começa a questionar os seus relacionamentos, o seu trabalho, a sua família. Sem que se aperceba que tudo à sua volta são projecções de si mesmo.

A única forma de, então, libertar-se de todo o sofrimento que

sente e que também causa a outros, é através de um abraço. Um abraço com amor por quem é e por quem tem negado em si. Um abraço sentido a partir do coração. Só aqui começa o verdadeiro retorno a quem sempre foi.

Agora que começamos a estar mais conscientes das razões porque a nossa vida é como é, podemos fugir e continuar a fingir que a vida é complicada e difícil, ou podemos dar início

a um processo de cura interior.

A Sombra Integrada

Como nos sentiríamos se o inimigo que está a olhar directamente para nós tivesse a nossa face? Quem não fugiria de um encontro marcado com o inimigo ao descobrir que esse inimigo somos nós?

Depois de uma vida a culpar os outros, é extremamente difícil para nós conseguir por fim reconhecer que a única pessoa que esteve sempre presente em todos os eventos, bons e maus, da nossa vida fomos nós. E, fruto da necessidade, carregar aos ombros a responsabilidade pelos dramas que ocorreram. Quem é que não ficará envergonhado, humilde, e até mesmo humilhado por este reconhecimento?

É este o motivo porque adiamos o reconhecimento da nossa

sombra por tanto tempo quanto nos for possível.

Quem é que quer reconhecer que o seu cônjuge ou filho ou amigo talvez conheça melhor certos aspectos de nós do que nós mesmos? Quem é que quer carregar a responsabilidade de atirar para cima dos outros todos os seus aspectos negados?

Todavia, como os grandes mestres nos ensinaram ao longo do tempo, e como a própria história o demonstra, aquilo que ignoramos e rejeitamos irá sempre surgir na nossa vida e nas vidas daqueles que nos rodeiam.

Protestamos que temos boas intenções, e afirmamos que procuramos o conhecimento e a espiritualidade. Mas quem é capaz de observar o espectro total da humanidade em si mesmo? Aqueles que mais luz possuem são também aqueles que mais escuridão projectam. E aqueles que mais luz vendem são os que mais escuridão impingem nos outros. Aqueles que mais respostas aparentam possuir, e estão prontos a elucidar os outros sobre os caminhos da luz, mais insignificantes e escuros são. Quanto mais moralmente correctos, maior o peso da sombra que é descarregada para cima dos outros. Especialmente aqueles que se manifestam corajosamente contra o aborto, e contra as drogas, e contra a

guerra, e contra os políticos corruptos, e contra a prostituição, e contra a homossexualidade, e contra a preguiça, e contra a

(preencha com os seus

ganância, e contra

contras), são os que mais escuridão distribuem pelo mundo. Esquecemos que Aceitar Aquilo Que É não é sinónimo de apontar o dedo a terceiros. Sempre que apontamos o dedo a outro é de nós que falamos, das partes de nós que negamos e rejeitamos, das partes de nós que somos incapazes de aceitar e amar.

Aquilo a que resistimos persiste. Sempre. Ser contra algo irá simplesmente roubar-nos poder e ao mesmo tempo reforçar a nossa sombra. E assim nos encontramos num mundo onde a riqueza é mal distribuída, onde há abuso e desrespeito pela natureza, onde eu estou certo e tu estás errado.

A Sombra Humana

É capaz de aceitar que na natureza humana não há

verdadeiros segredos? É capaz de aceitar que somos todos

iguais? Todos escondemos as mesmas vergonhas, medos, culpas, raivas, rancores.

É capaz de aceitar que é estúpido? Se alguém lhe chamar

estúpido, porque haveria de ficar ofendido? É capaz de se

recordar de uma situação em que foi estúpido? Eu não. Eu sou capaz de me recordar de centenas de situações em que fui estúpido. Porque haveria de ficar ofendido com esta palavra dirigida a mim?

É capaz de aceitar que já se prostituiu? Se alguém o

comparar a uma prostituta é capaz de ficar ofendido? Eu não. Já me prostitui de tantas maneiras ao longo do tempo! De cada vez que vai a uma festa para agradar, apesar de no fundo não lhe apetecer ir, está a prostituir-se. De cada vez que aceita um emprego que não seja a sua vocação, o seu dom, está a prostituir-se.

Como podemos então chamar estúpido a alguém? Como podemos então ser contra a prostituição? É de nós que falamos sempre.

A nossa sombra, o mar vasto que está para além da nossa

mente consciente, nunca será totalmente abraçado. Mas algumas partes, certos aposentos, certas correntes, podem ser abertas ao nosso consciente. Aquilo que eu nego em mim irá, mais cedo ou mais tarde, aparecer no meu mundo exterior. Quantos mais aspectos do meu mundo interior eu for capaz de identificar, menores as probabilidades de aparecerem na minha vida como parte de uma partida do destino, ou do karma. Quem seria capaz de imaginar que o destino e o karma estão intimamente ligados a aspectos do nosso subconsciente?

Alguma vez deu por si a relacionar-se com o seu cônjuge exactamente da mesma forma que se relacionava, quando criança, com o seu pai ou mãe? Quão reconfortante que é tomar consciência da nossa auto-sabotagem em prol das

relações que construímos quando ainda crianças! Utilizando as mais diversas máscaras para que os outros, e nós próprios, não consigamos ver que não somos pessoas boas, ou que não somos importantes nem especiais, que não prestamos. Esquecendo-nos que aquilo a que resistimos persiste. E vamos então criar as situações para provar a nós mesmos precisamente aquilo que mais medo temos de descobrir sobre quem pensamos ser! Ou, ainda pior, atirando para cima dos filhos, do cônjuge ou dos amigos todos estes aspectos que negamos em nós.

Se pensar, e tomar consciência, de que sempre que fala de

Então estará

preparado para despertar do longo sono da inconsciência.

alguém é apenas de si que está a falar

Tornar a nossa sombra consciente é sempre um gesto de enorme humildade. Mas é também um gesto de enorme crescimento. Pois é assim que começamos a resgatar a totalidade que somos e a tomar consciência do nosso dom e da razão para estar aqui agora.

Este crescimento da nossa humanidade irá pedir de nós muito mais do que aquilo que se encontra dentro dos limites da nossa zona de conforto. Mas irá garantir a nossa realização plena como seres humanos, seres espirituais e seres completos.

Foi Jung quem afirmou que todos nós caminhamos com sapatos pequenos demais para o tamanho dos nossos pés. Mudar de sapatos, e calçar números maiores, é sempre um desafio para qualquer ser humano. Exige um crescimento mais acelerado. É um desafio contínuo.

Isto pode parecer simples e algo que todos desejamos – mas na verdade é pedir muito de nós. Como o próprio Jung afirmou, o nosso objectivo não é sermos pessoas boas ou atingir a bondade plena. Porque o bem que fazemos pode na verdade surgir de um complexo da sombra ou ter consequências que não prevíamos. O nosso objectivo é sermos completos. E ser completo nunca poderá ser possível

A Sombra Humana

enquanto não abraçarmos todos os opostos presentes. É impossível saber a bondade sem a maldade, o altruísmo sem

o egoísmo, o belo sem o feio. Daí que o crescimento do Eu

começa sempre pelo conflito. Como podemos aceitar sem rejeitar? Este é o problema de muitas pessoas ditas espirituais. Aceitam tudo e todos. As suas vidas são preenchidas por um sofrimento silencioso. E continuam a aceitar. Mas é impossível existir a aceitação sem a rejeição. Então rejeitamos parte da nossa vida, do nosso potencial, para podermos ser pessoas boas que aceitam tudo e amam tudo e todos. E no processo criamos sofrimento para nós.

Todos carregamos esta enorme polaridade dentro de nós. Algumas pessoas fogem da tensão, outras abraçam-na. Como o poeta americano Walt Whitman afirmou num dos

melhores poemas dedicados à sombra: “Eu contradigo-me?

Então, eu contradigo-me, e?

mim multidões. Não há duas pessoas iguais. Contradigo-me.”

E sou infinito, contenho em

E nós contradizemo-nos. Mas tememos que alguém descubra

as nossas contradições. Esquecemo-nos que é este aspecto que nos torna humanos, interessantes. À medida que vamos resgatando estas pontas perdidas de nós, estas partes enterradas, rejeitadas, negadas, projectadas, e as abraçamos como uma parte da totalidade que somos, enriquecemos a nossa experiência humana. E enriquecemos a experiência humana dos que nos rodeiam.

Apesar de poder parecer uma tarefa problemática, este abraçar da nossa sombra, é a única forma de conseguirmos a cura das nossas vidas, assim como a cura dos nossos relacionamentos e do nosso trabalho. Este trabalho não nos aproxima de um ego mais satisfeito consigo, mas a um ego mais próximo da totalidade que é o ser humano. O trabalho da sombra a que queremos fugir é o caminho da cura da nossa vida. A cura do mundo começa com a nossa cura, começa com aquilo que não queremos conhecer sobre quem somos.

Com o correr do tempo as ondas que este escrutínio consciente provoca irão tocar naqueles que nos rodeiam. Abraçar a nossa sombra é o caminho dos corajosos para criar um mundo melhor. Não é por acaso que os participantes do Caminho da Sombra constatam que depois do seminário as pessoas com quem tinham um relacionamento difícil mudam.

As projecções são resgatadas e os outros ficam

automaticamente livres para serem quem são de verdade.

Completos.

Mas para isto acontecer temos que ter a coragem de ser

autênticos. Enfrentar as nossas histórias. Aceitar que somos

honestos. E mentirosos. Sermos amigos e inimigos. Criativos e destrutivos.

Onde escondeu a sua vergonha?

Todos nós estamos a passar pelas experiências que sucedem devido, em grande parte, ao nosso ego ferido.

O ego ferido surge quando somos magoados,

envergonhados, intimidados, vitimizados e abusados. E quando o nosso ego mistura as emoções da dor, do sofrimento, da raiva, da inveja, à vergonha, os resultados são explosivos e serão expostos cruamente para que todos possam ver.

A nossa primeira experiência com a vergonha surgiu nos primeiros meses de vida. Se nasceu num lar onde foi bem- vindo e onde havia amor, a sua primeira vergonha deu-se quando começou a ter a noção de separação. Quando começou a explorar o seu corpo porque era o seu corpo. Tocava na sua barriguinha, nas suas orelhas, metia o dedo

grande do pé na boca. Sorria deliciado com as descobertas e

com as sensações que ía experienciando. E tocava também

nos seus genitais. E os genitais nada mais eram que mais um

pedaço de quem era na totalidade.

A Sombra Humana

Só que para os gigantes à sua volta os genitais tinham uma conotação diferente. E os gigantes à sua volta eram importantes. Eram eles que lhe davam alimento, abrigo, apoio, segurança e, ainda mais importante, amor. E você não tinha um sistema de filtragem construído que lhe indicasse o que estava certo ou errado. Assim, tudo o que os gigantes à sua volta diziam era verdade inquestionável.

E aquelas palavras que ficaram para sempre gravadas no seu

subconsciente afirmavam coisas como “aí não se mexe”, ou “mexer aí é feio” ou qualquer variação. Incluindo palmadinhas “oh tão amorosas” de cada vez que tocava numa parte do seu divino e completo corpo considerada menos apropriada.

E

assim nasceu o seu corpo da vergonha.

E

o ego, que tem por função protegê-lo, criou uma capa

protectora. A vergonha. E fez, faz, tudo o que for possível e

impossível para esconder essa vergonha. Nem que para tal tenha que matar, roubar, mentir, fugir, abusar, esconder e deprimir-se.

E buscou ainda formas de acalmar essa vergonha. Porque

motivo vê os noticiários? Acredita sinceramente que é para

estar informado? Não se minta. Vê os noticiários para acalmar

a sua vergonha.

Saber que um homem num pais distante violou a filha durante anos é-lhe útil? O que pode fazer sobre esse assunto? Saber que um líder de um pais distante mandou matar milhares dos seus cidadão é-lhe útil? O que pode fazer sobre o assunto? Saber que um politico corrupto recebeu dinheiro para aprovar leis é-lhe útil? O que pode fazer sobre o assunto?

Na verdade, saber que um sujeito violou a filha durante anos é-lhe útil. Em comparação com os actos desse homem, o seu gosto pela pornografia é irrelevante. Saber que um banqueiro roubou milhões de euros das contas dos clientes é hediondo em comparação com os clipes e blocos de notas que retira da sua empresa. Os seus abusos verbais direccionados aos seus

filhos em comparação com a mãe que mata o recém-nascido não têm qualquer significado.

Nós gostamos de saber da desgraça alheia para aplacar a nossa vergonha. E se a sua vergonha é pesada, neste momento o seu ego já se justificou e declarou que estas palavras são escritas por alguém desequilibrado ou coisa parecida.

E se já se justificou dizendo que vê noticiários porque trabalha

na bolsa e tem de estar actualizado, sabe que está a mentir.

Pode ficar a saber o estado da economia indo a websites específicos na internet, sem ter que passar por toda a desgraça humana.

O problema com a nossa vergonha é que irá explodir no

momento em que estivermos distraídos. E irá causar danos não só nas nossas vidas pessoais mas também nas vidas

daqueles que amamos.

A vergonha que podemos sentir pelo nosso corpo irá levar-

nos, por exemplo, a um relacionamento extra-conjugal, ou ao

consumo de substâncias nocivas que distorçam a nossa realidade, ou a criar distúrbios alimentares.

A nossa vergonha é uma força oculta poderosa. Faremos tudo

para a esconder.

Só quando despertarmos, quando conseguirmos ver que somos todos iguais, que todos possuímos a vergonha, e

quando expusermos a nossa, é que estaremos livres. Quando

os outros souberem da nossa vergonha ela perderá todo o

poder sobre nós.

Para a maioria das pessoas a vergonha é das piores coisas a abraçar. Temos medo dela. Temos medo dos seus efeitos

nocivos. Temos medo do que vão pensar de nós, dizer de nós. Mas uma coisa é certa, se não tratar da sua vergonha ela

irá tratar de si.

A Sombra Humana

No curso de educação emocional iremos expor cada uma das nossas vergonhas. Ficarão todas nuas à frente de todos, para que todos possam ver que, afinal, a minha vergonha é irmã gémea da tua. E quando expomos a nossa vergonha à luz, iremos brilhar. Iremos recuperar o nosso poder.

Depois só teremos que trabalhar a nossa raiva, a nossa inveja, a nossa mentira, a nossa história.

No final tornar-nos-emos as pessoas de que todos têm medo. Aquelas pessoas que não têm nada a esconder, porque tudo está exposto à luz. E as pessoas que não têm nada a esconder são poderosas. Mostram-nos a nossa vergonha, o nosso medo, a nossa raiva, a nossa inveja. E todos os defeitos que achamos imperdoáveis (não o são, nunca). Quando chegar o dia em que for capaz de abraçar a totalidade de quem é. Quando sentir que é completo. Com um lado de luz e um lado de escuridão, a coexisterem lado a lado e ambos a serem respeitados.

Não é por acaso que as pessoas ditas ‘boazinhas’ são as que muitas vezes cometem os actos mais aterradores contra os seus semelhantes. Porque sempre negaram o seu potencial para serem más. Tentaram durante anos esconder esse lado, muitas vezes inconscientemente. E no momento preciso de distracção, essa maldade vem toda de uma vez cá para fora!

Exercício

Faça uma lista de todas as coisas, eventos, pessoas, pelos quais sente vergonha. Faça uma lista com pelo menos cinquenta tópicos. Como se fosse uma lista de best-sellers. E depois escolha alguém em quem pode confiar e conte-lhe as suas vergonhas. Comece pelas mais inofensivas. Se não conhece ninguém em quem pode confiar, ofereço-lhe a oportunidade de confessar-me a mim as suas vergonhas. Prometo-lhe que não o julgarei, não criarei qualquer juízo de valor. Respeitá-lo-ei e sentir-me-ei grato pela sua humildade. Os benefícios serão todos seus.

Para o ajudar vou contar-lhe três das minhas vergonhas:

1. Quando tinha 14 anos encontrei uma revista pornográfica no quarto do meu irmão mais velho. Fui para o meu quarto e masturbei-me a olhar para as imagens. A minha mãe entrou no meu quarto nessa altura. A vergonha desse momento controlou a minha vida amorosa durante 20 anos;

2. Quando tinha 10 anos roubei dinheiro a um tio meu. Durante mais de 20 anos acreditei que era um criminoso que não merecia a confiança de ninguém;

3. Até aos 18 anos tive sempre vergonha da minha mãe. Tinha vergonha de ter a mãe que tinha.

Estas são apenas três das minhas vergonhas. E quais os benefícios que recolhi? O facto de me sentir um criminoso levou-me a dar de mim muito, mas muito mais do que era esperado em todos os trabalhos e projectos em que estive envolvido. Dei, e dou, dinheiro a muitas instituições. Consigo ver os benefícios que a minha vergonha de ser criminoso me trouxe. A experiência inicial com a minha sexualidade ‘vergonhosa’ levou-me a descobrir o sagrado no acto sexual. A vergonha que senti durante anos pela minha mãe ajudou- me tremendamente no processo de descobrir o lado divino de cada ser humano com quem contactei.

Saiba que cada vergonha que transporta em si vem acompanhada de um tesouro. Mas enquanto não mostrar a sua vergonha à luz será incapaz de ver o tesouro.

Desejo-lhe que recupere o seu poder tão rapidamente quanto lhe for possível.

Controladores

Pelo que me é possível observar, a causa de muito mal-estar na humanidade prende-se com a necessidade de

A Sombra Humana

controlarmo-nos uns aos outros e se possível tendo a “verdade” do nosso lado.

Já reparou que qualquer discussão é inútil se antes de expor

o seu ponto de vista souber já que tem razão? É este o motivo porque recorremos tanto ás explicações dos “factos” e justificamos aquilo que dizemos: porque não temos razão, nem a verdade está do nosso lado.

Muitas pessoas auto-intitulam-se de “evoluídas” e vomitam uma demagogia interminável de contradições à espera que outros acreditem nas suas palavras. Já fui privilegiado com partilhar espaço e tempo com pessoas que considero evoluídas e nenhuma delas se explicou ou tentou impingir-me qualquer filosofia. Na verdade a maior parte dos diálogos eram silenciosos, observando-nos mutuamente, sem necessidade de recorrer a qualquer discurso verbal. Aceitando-nos por cada um ser quem era.

Mas nas nossas relações fazemos algo incrivelmente estúpido: queremos que os outros sejam como nós queremos que sejam. A premissa subjacente a um relacionamento intimo é algo parecido com “enquanto tiveres o comportamento que eu espero de ti tudo estará bem entre nós”. Esquecemo-nos que qualquer relação íntima com outro é sempre uma relação com a nossa sombra, com os aspectos, bons e maus, deserdados na nossa psique consciente.

A pergunta que as pessoas muitas vezes esquecem de fazer-

se é esta: como pode alguém ter uma relação íntima comigo se eu próprio não sou capaz de uma relação íntima comigo?

Quando começamos uma relação criamos uma imagem da outra pessoa à qual a pessoa vítima da nossa adoração tem que conformar. Só que essa imagem é baseada nas nossas projecções. Por este motivo é que duas pessoas podem partilhar uma vida sem nunca se conhecerem de verdade.

Para uma relação funcionar tem que obrigatoriamente seguir certos preceitos. Respeitar a outra pessoa por ser quem é e não por ser quem você quer que ela seja. Tem que abrir mão da outra pessoa na totalidade. Significa isto que se a outra pessoa decidir que não quer mais fazer parte da relação você ficará feliz sabendo que está a respeitar as decisões da outra pessoa. Permitir que a outra pessoa seja ela própria, sem ter que se esconder detrás de uma máscara ou fingir para lhe agradar.

Se você está numa relação e desconfia da pessoa que ama, seja por que motivo for, para quê estar nessa relação? Para sofrer, claro. E poder reclamar o seu troféu de vítima (que se por acaso ainda não reparou, tem um sabor muito amargo). Quando desconfiamos da outra pessoa isto significa apenas que não confiamos em nós próprios. Uma simples projecção. Quanto mais quiser prender a outra pessoa, quanto mais quiser controlar os seus hábitos, comportamentos, sentimentos e pensamentos, mais depressa essa pessoa lhe irá escapar.

Mas quando abre mão da outra pessoa. Quando através de gestos lhe diz que tem autorização total para ser ela própria, garanto-lhe que irá criar o ambiente para uma relação duradoura. Eventualmente poderão seguir caminhos diferentes mas nunca deixarão de ser amigos, porque é no respeito pelo outro ser quem é que reside o amor.

Fomos ensinados coisas muito erradas. Ensinaram-nos, por exemplo, a procurar continuamente a segurança. Por isso nos sentimos continuamente inseguros. Porque na vida nada é constante excepto a mudança. Ensinaram-nos a fazer tudo para agradar aos outros, quando em realidade só temos que agradar a nós próprios. Este agradar a nós próprios não é um acto de egoísmo. É fazer aquilo que nos deixa de bem com os que nos rodeiam e connosco. Ensinaram-nos a controlar a realidade à nossa volta. Mas a realidade que percepcionamos raramente é a realidade partilhada pelos outros. Quando deixamos partir a necessidade de controlar a realidade, e

A Sombra Humana

controlar as pessoas que amamos, estaremos verdadeiramente livres para sermos autênticos e permitir que os outros o sejam também.

Ensinaram-nos ainda a tratar as pessoas à nossa volta como objectos a ser possuídos. Por este motivo dizemos “a minha namorada”, “o meu marido”, “a minha filha”. Posse. Mas em realidade nós nem sequer possuímos a roupa que vestimos. Na hora menos esperada a vida encarrega-se de nos mostrar que não possuímos nada. E não há nada de errado em dizer “a namorada”, “o marido” ou “a filha”. Decida-se a abandonar qualquer palavra que indique posse, porque será sempre temporária e ilusória. A única “coisa” que pode controlar é a pessoa que está neste momento a ler estas linhas. Opte por abandonar pensamentos que mostrem controlo. Este é o problema que assola a humanidade há séculos.

E antes de acusar alguém do que quer que seja lembre-se: só vemos nos outros o que se encontra já em nós.

Você não tem que ter uma relação com alguém que mente compulsivamente. Mas de que maneira anda a mentir a si mesmo? Não tem que manter uma relação com alguém que é injusto. Mas onde é que você comete injustiças? Não tem mesmo que partilhar a sua vida com alguém que nunca tem tempo para si. Mas quando é que você vai ter tempo para si?

Eu acho engraçado ouvir pessoas falar da guerra no mundo, e das desigualdades entre ricos e pobres, e da poluição. E quando o fazem com um tom de voz alterado, apontando o dedo “aos outros”, não conseguem ver que é deles mesmo que estão a falar. Qual é a guerra que está a travar neste momento dentro de si? De que maneira está a criar desigualdade na sua vida? Qual é a ferida do seu passado que está a poluir o seu corpo?

Há de facto uma guerra a ser travada neste preciso momento dentro de cada ser humano. Ressentimentos, vergonhas, culpas, medos, raivas. Energias poderosíssimas que assolam cada ser humano. Mas é mais fácil projectar esta guerra para

fora de nós. Ver a guerra no mundo exterior ajuda-nos a encontrar uma paz relativa. Inconscientemente pensamos que não estamos assim tão mal, comparando com o mundo lá fora.

Esta semana apenas faça um favor a si mesmo. Permita-se não querer controlar as pessoas com quem partilha a sua vida. Dê a si mesmo autorização para permitir que cada pessoa com significado na sua vida seja autêntica. Se quiser ir ainda mais longe na busca do seu bem-estar, trate cada pessoa com quem tem que partilhar um momento por “querido” ou “querida”. Mas faça-o a partir do coração, sem fingimentos.

Só quando desistimos de controlar as pessoas que nos são queridas é que começamos a ver quem elas são de verdade.

A doença como reflexo da Sombra

Havia na Índia, há centenas de anos atrás, um príncipe muito rico. Tinha os melhores ministros a governar o seu reino e, por isso, nunca tinha que se preocupar com os súbditos. Os ministros encarregavam-se de governar enquanto ele se dedicava aos seus prazeres. Passeava, caçava, fazia enormes festas e tinha várias amantes. Vivia feliz sabendo que o seu povo estava bem entregue nas mãos dos seus ministros.

Um dia acordou pela manhã e reparou que tinha na sua coxa direita duas pequenas manchas vermelhas que o incomodavam. Acreditando que tinha sido picado por pulgas, mandou queimar toda a roupa da sua cama e não pensou mais no assunto. Foi caçar com alguns dos seus guardas e ao fim do dia deliciou-se com um enorme banquete. Quando se foi deitar reparou que as duas manchas vermelhas eram agora dois enormes olhos que pareciam cheios de raiva. O príncipe ficou preocupado e mandou chamar os seus médicos.

A Sombra Humana

Os médicos aplicaram-lhe óleos e fizeram massagens. As duas manchas pareceram diminuir de tamanho e o príncipe adormeceu sem mais pensar no assunto. Quando acordou no dia seguinte já as duas manchas pareciam novamente dois olhos enraivecidos. Mas a sua coxa estava pior! Agora aparecia também uma protuberância que se assemelhava a um nariz e uma boca retorcida. Cheio de dores, o príncipe mandou chamar novamente os seus médicos. Estava aterrorizado com o aspecto daquela ferida na coxa. Tinha tons avermelhados e arroxeados e expelia pus. Os médicos decidiram cortar aquela ferida horrorosa.

O príncipe passou alguns dias na cama, a recuperar da

operação que lhe tinha salvado a perna. Ficou aliviado quando voltou novamente a viver a vida prazenteira que sempre tinha vivido. Voltou a caçar, a passear, a divertir-se com enormes banquetes e festas intermináveis.

Passaram-se alguns meses. Um dia o príncipe acordou cheio

de dores na coxa direita. A ferida tinha voltado, e desta vez

com muita mais ferocidade. Dois olhos enormes esbugalhados e enraivecidos olhavam o príncipe com desdém. Do nariz ensanguentado até aos lábios roxos saía um liquido viscoso e fedorento. Desesperado e cheio de dores, o príncipe gritou pelos seus médicos que o acudissem. Mas os médicos não sabiam o que fazer.

Foi então que um dos seus servos mais chegado lhe falou na fonte de Kwan-Yin. Uma fonte milagrosa abençoada pela própria deusa da compaixão. Dizia-se que todos os que se banhassem nas suas águas eram curados. Sem mais demoras o príncipe pegou nos seus guardas e dirigiu-se até à fonte. A cara monstruosa que crescia na sua perna tornava-se mais e mais irritada e agressiva.

Depois de algumas horas a cavalgar chegaram próximo da fonte. Uma velha sentada à beira do caminho avisou o príncipe de que apenas a pessoa que procurava a cura de Kwan-Yin poderia avançar a partir daquele ponto. O príncipe

deixou os guardas e o seu cavalo e, a muito custo, dirigiu-se até à fonte.

Sentou-se à beira da fonte e começou a deitar água sobre a enorme ferida que odiava, para que esta desaparecesse para sempre. Foi então que a ferida lhe falou: “porque tentas destruir-me todo este tempo e nunca olhaste para mim, nem quiseste ouvir uma única palavra que eu te dizia? Será que não és capaz de me reconhecer?”

O príncipe olhou para a ferida com mais atenção e foi então

que viu uma cópia distorcida da sua própria face. As suas lágrimas de dor começaram a cair sobre a ferida. À medida que as lágrimas caiam sobre os olhos na sua coxa direita, estes começaram a transformar-se nos olhos da própria Kwan-Yin, a qual lhe diz: “Nunca tiveste um coração

compassivo. Nunca tiveste um acto de benevolência. De que outra maneira poderia eu chamar-te para a tua verdadeira

natureza?”

O príncipe e a deusa passaram horas a conversar sobre o

segredo do seu sofrimento, o qual tinha surgido muitos anos antes da ferida na coxa. Quando por fim nasceu o novo dia, a

ferida do príncipe estava completamente curada.

Talvez o nosso próprio sofrimento interior seja a causa das nossas doenças. As nossas vergonhas e arrependimentos secretos se manifestem no corpo fisicamente, nos nossos músculos e ossos, nas artérias e nervos. Talvez até dentro das nossas pequenas células, acorrentados no interior por memórias de eventos que ocorreram e não deveriam ter ocorrido. E aí permanecem, repousando num silêncio mortal, escorraçados para a escuridão. Para surgir anos mais tarde como um tumor pernicioso, uma artéria obstruída, uma onda de ansiedade envolvente, ou uma dor misteriosa e sem diagnóstico a que chamamos dor crónica. É no sofrimento dos nossos sintomas que muitas vezes a sombra se materializa.

A nossa sombra emocional – o pessimismo, a depressão, o

cinismo, a agressividade – possui um equivalente físico.

A Sombra Humana

Embora um não cause necessariamente o surgimento do outro de uma forma simples e linear, parece óbvio que partilham uma evolução em que as fronteiras de um se

cruzam com o outro. Por este motivo é possível fazer trabalho

da sombra através do corpo ou da mente. Idealmente um bom

trabalho da sombra envolve-nos a nível mental, emocional e físico.

A pergunta

vergonha? Qual é o segredo que tem medo que outros descubram sobre si? E o que pode fazer para expor o seu segredo ainda hoje?

sua

que

lhe

deixo

para

reflectir:

qual

é

a

A pandemia da alegria – e o ódio que esconde

Vivemos uma época onde o crescimento espiritual é cada vez mais acessível a um maior grupo de pessoas. Todavia a maioria das pessoas está a involuir em vez de crescer.

Vamos por partes. O ser humano quando nasce é completo. Possui todos os atributos da humanidade. Se repararmos numa criança recém-nascida iremos ver uma alegria exuberante, mas também uma tristeza profunda. Um sorriso gigantesco pode anteceder um ataque de fúria. Uma criança é egoísta porque é esse egoísmo que permite comunicar à mãe que tem fome ou que quer um carinho. É um egoísmo que diz “Eu sou importante”. A raiva, comunicada através de um choro estridente, comunica mal-estar.

Todas as emoções humanas existem em nós e permitem-nos conhecermo-nos e aprender a comunicar. O problema real surge quando os adultos, a partir dos 2 ou 3 anos de idade começam a “ensinar” que certas emoções e atitudes são “más”. E porque nos dizem que são más, e retiram o seu amor se as manifestarmos, implícita ou explicitamente, nós decidimos esconder essas emoções. Rejeitamo-las, deserdamo-las e fingimos que não existem.

Mas essas emoções existem. Mesmo se escondidas num recanto do nosso subconsciente. Muitas pessoas têm dificuldade com a “sombra” porque afirmam a pés juntos que NÃO SÃO isso (“isso” sendo qualquer comportamento que observam noutros). A nossa sombra é precisamente TUDO AQUILO QUE NÃO SOMOS! E aquilo que não somos não nos deixará ser.

Quanto mais afirmamos que só somos isto ou aquilo mais energia damos ao aspecto oposto, que se esconde no nosso subconsciente e ganha poder. Eventualmente esse aspecto irá possuir-nos (literalmente). É por isso que vemos notícias do bom pai de família que afinal tinha uma amante. Ou da boa mãe que espanca um filho. Não eram eles, era a sua sombra que os possuí na totalidade. Os crimes mais hediondos são perpetrados pela sombra que foi rejeitada, deserdada e punida anos a fio.

Depois, acho piada aos “novos espirituais” que cedem um

pouco e dizem que “um pouco de egoísmo é saudável”. Isto é

o mesmo que afirmar que uma pequena desonestidade ou

uma pequena traição é saudável! Quando alguém diz que “um pouco de egoísmo é saudável” o que está a afirmar é precisamente que o egoísmo NÃO É uma atitude saudável! Estão a ser complacentes e hipócritas. Sei do que falo porque felizmente já fiz as pazes com estes dois aspectos de mim e sei quando me poderão ser úteis.

Mas eu só serei tão altruísta quanto for capaz de ser egoísta. Alguém classificaria o egoísmo de um recém-nascido, que grita por alimento, como uma atitude negativa? Claro que não!

O egoísmo é uma emoção tão saudável como o altruísmo. A

raiva é uma emoção tão saudável como a paz de espírito.

Mas quando reprimimos emoções perfeitamente saudáveis

elas irão procurar maneira de se manifestar, de se expressar.

A raiva que eu não me permito expressar virá a mim através

do ódio de um colega ou de um acidente de viação, ou de

uma ameaça à minha integridade física.

A Sombra Humana

Depois há aquelas pessoas que por influência de filmes como “O Segredo” (que têm o seu mérito) decidem que irão apenas olhar para as coisas boas da vida e agarram-se com unhas e dentes à alegria. Isto é um comportamento patológico. E só irá trazer dissabores num futuro não muito distante.

Mas eu posso permitir-me expressar todos os aspectos de mim de uma maneira saudável. A tristeza é extremamente saudável quando perdemos alguém que nos é querido. Mas se não nos permitimos expressar a tristeza no dia-a-dia, quando ela bater à porta será devastadora. Se eu não me permito expressar o falhado que há em mim, este será avassalador quando por fim conseguir ver a luz do dia.

Há ainda a questão do perdão, tão apregoado pelos “novos espirituais”. Este perdão é tão ridículo que sinto apenas compaixão por estas pessoas. É um perdão fabricado na cabeça, intelectualizado. Mas se observarmos a vida destas pessoas descobrimos tão rapidamente onde ainda guardam rancor e ressentimento, onde ainda não se perdoaram. Nas amizades, nos jogos de computador, no álcool, na bisbilhotice, nos ataques de que são vítimas, nos acidentes, nas discussões, nas amizades que se perdem, nas relações fingidas, na necessidade de olhar com complacência para o mal alheio.

É fácil amar a pessoa que é “bem comportada”. E amar a pessoa que atravessa a sua noite escura da alma? Como amar o marido, ou a esposa, depois de descobrir que fez um desfalque na empresa? Como amar a amiga que descobrimos que fala mal de nós? Como amar o homem que está numa cadeia porque matou os filhos e a esposa? – Não quero dizer que estes comportamentos não devem ser punidos. Mas se compreendermos a sombra saberemos que quem comete estes actos é o aspecto reprimido, indesejado e amordaçado da pessoa.

Você, por exemplo, pode tornar-se meu amigo. E acredita que o Emídio é uma pessoa boa e generosa que gosta de partilhar

os seus conhecimentos. E vê-me assim durante anos. E de

repente descobre que o Emídio é egoísta! E que o Emídio é avarento! E que o Emídio mente! E que o Emídio é desonesto!

E vai dizer que afinal não me conhecia de verdade! Mas a

realidade é muito mais profunda. Em cada um de nós há complexos, subpersonalidades, que exigem ser experienciadas. Há o Emídio santo e o Emídio pecador. O que fala a verdade e o que mente. Na verdade não são o Emídio,

são o Manuel Mentiroso, o Ricardo Raivoso, o Ivan Invejoso,

Todos nós temos dentro de nós

muitas subpersonalidades, as quais existem precisamente

porque deserdamos aspectos de nós.

O Fernando Fala-Barato

Eu sinto compaixão pelas pessoas “boas” porque, mais cedo

ou mais tarde, irão tornar-se no preciso oposto daquilo que se

esforçaram anos por ser.

O papel dos pais é ensinar aos filhos quando é saudável,

apropriado, expressar uma emoção ou um comportamento rotulado pelo mundo como “mau”. Quando o filho chega a casa com um desejo de matar o professor porque fez pouco dele (estou a falar de exemplos, espero que os professores não levem a peito – nutro uma grande estima por eles e as pessoas da minha infância que melhores memórias me proporcionam foram os meus professores). O que um pai pode fazer para ajudar o filho a expressar a raiva, a fúria, pelo professor? Regra geral o progenitor ensina o filho a reprimir esse sentimento. Mas se o sentimento surgiu é porque é válido! É esse sentimento que pode salvar a vida de um ser humano se for atacado! É esse o sentimento que pode resolver uma situação de injustiça extrema! Mas o pai pode ensinar ao filho que é ok ele sentir o que sente pelo professor. Pode dar-lhe uma almofada e dizer-lhe que dê uns valentes murros e gritos, imaginando que é o professor que causou o dano. Assim a emoção é expressa e não vai criar resíduos tóxicos no corpo. Depois disto o pai deve explicar ao filho que todos fazemos o que o professor lhe fez, incluindo a própria criança. Com exemplos específicos.

A Sombra Humana

As crianças aprendem facilmente através de exemplos. Diga- lhe quando foi a última vez que fez troça de alguém, mesmo que tivesse sido apenas mentalmente. Mostre-lhe que todos o fazemos.

Agora que ninguém está a vê-lo, responda a estas perguntas com um “sim” ou “não”:

Alguma vez mentiu?

Alguma vez traiu outra pessoa ou a si mesmo?

Alguma vez gozou outra pessoa ou a si mesmo?

Alguma vez se odiou ou odiou outro?

Alguma vez se sentiu mesquinho?

Alguma vez tomou consciência de ter errado?

Alguma vez lhe apeteceu bater noutra pessoa ou em si mesmo?

Alguma vez desejou a sua morte ou a morte de outro?

Alguma vez praguejou?

A verdade última é que eu sou tudo o que vejo nos outros. Sou a verdade e a mentira. A bondade e a maldade. O egoísmo e o altruísmo. A alegria e a tristeza. Negar a existência de qualquer um destes aspectos apenas servirá para me magoar mais cedo ou mais tarde.

Nós podemos intelectualizar a nossa forma de estar no

mundo. Podemos fingir que somos apenas alegria e bondade. Quanto mais rejeitarmos um aspecto de nós, mais esse

Regra geral a

nossa sombra ganha poder até por volta dos quarenta anos. Daí que para as pessoas com menos de quarenta seja muito difícil aceitar o que digo. A partir dos quarenta a nossa sombra tem poder suficiente para começar a manifestar-se. E fá-lo de maneira intransigente. Através de um divórcio, de um desemprego, de uma doença súbita, de um acidente, de um conflito irreparável.

aspecto ganhará poder sobre nós. Até um dia

Mas podemos continuar a fingir que somos “apenas” pessoas boas. A pergunta que tenho que me colocar é simples: prefiro ser uma pessoa boa ou uma pessoa completa?

A Sombra Nos Relacionamentos

1. A Relação mãe (ou pai) e filho/a.

Na relação entre um pai e um filho há uma projecção contínua dos aspectos deserdados de cada um, mas sobretudo dos aspectos deserdados do progenitor. Os aspectos deserdados são todos aqueles que não queremos ser ou não queremos que outros descubram em nós. Os aspectos que nos ensinaram, quando ainda crianças, que eram maus, feios e negativos. O adulto já sabe que certos aspectos da sua natureza não são bem aceites na sociedade. Então reprime- os. Nega a sua existência. Julga-os. Só que esses aspectos são como uma pessoa presa numa cave inocentemente: irão fazer tudo o que possam para ver a luz do dia, para se expressarem livremente. A forma mais rápida de mostrarem que existem dentro do adulto é através da projecção.

Escreva numa folha os defeitos que vê no seu filho. Faça-o agora. Escreva pelo menos cinco defeitos (e se não encontra

defeitos nos seus filhos, ou você já abraçou na totalidade a sua sombra ou vive numa negação total. Em ambos os casos,

E se se riu desta última afirmação: esse riso

veio directamente da sua sombra.

estará a mentir)

Agora pegue nesses defeitos e, imaginando o seu filho à sua frente (obviamente não faça isto em frente do seu filho!), comece a apontar o dedo e a afirmar cada um dos defeitos! Por exemplo: Tu és preguiçoso! Tu és indisciplinado! Tu és estúpido! Tu és burro!

Agora mantenha a mão no ar, a apontar para a imagem imaginária do seu filho. Verifique quantos dedos estão a apontar para o seu filho e quantos estão a apontar para si.

A Sombra Humana

E agora?

indisciplinado, estúpido e burro que há em si?

E

agora,

como

vai

abraçar

o

preguiçoso,

Eu posso garantir-lhe uma coisa: aquilo de que acusa o seu

filho é precisamente aquilo de que se acusa a si mesmo, nos seus pensamentos, dia após dia. Comece a prestar atenção aos seus pensamentos e irá ver esses adjectivos repetirem-se continuamente.

Escreva agora duas situações ou eventos precisos em que você demonstrou esses aspectos. Seja preciso! Enquanto o não fizer não será capaz de libertar o seu filho da projecção que lhe atira para cima.

Se começar a sentir náuseas ou mal-estar, saiba que é normal e que mexeu num dos aspectos mais poderosos da sua sombra. Se não sentiu nada, continua preso a um estado de negação.

Para o ajudar, vou deixar-lhe o meu exemplo. Eu via num dos meus sobrinhos egoísmo puro. E eu não sou nada egoísta. Antes pelo contrário! Sou uma pessoa bastante generosa! Dou dinheiro todos os meses a instituições de caridade, ofereço seminários a algumas pessoas, chego a pagar viagens e estadias no estrangeiro a outros! Olhem como eu

sou tão generoso! Mas isto é a realidade que eu quero que os outros vejam, a minha máscara. Na verdade, ao verificar os motivos da minha generosidade, só consigo ver egoísmo do mais refinado. Primeiro, certifico-me sempre que pelo menos uma dúzia de pessoas à minha volta saibam de cada gesto de generosidade que pratico. Depois cobro! Dou por mim a pensar coisas como “ajudei-o tanto e a mim ninguém ajuda ”, “fui tão bom para ela e paga-me com esta crítica que não ”

merecia de todo!

E o maior de todos: quando vou comer a

um restaurante com amigos certifico-me, sempre que me é

Para depois, nos

possível, que sou eu a pagar a conta

cantos mais escuros da minha mente, poder apontar o dedo aos egoístas à minha volta, que não fazem como eu!

Isto era verdade até há pouco tempo!

aspecto

negativo que vê no seu filho poderia ser-lhe útil se se

permitisse expressá-lo de uma maneira saudável.

O passo

seguinte: pergunte-se

de

que

forma

o

Continuando com o meu exemplo: se eu expressasse o meu egoísmo de uma forma saudável iria pedir sempre aquilo que preciso. As pessoas que me são queridas saberiam exactamente o que gosto e o que não gosto. E se você está a pensar que diz sempre as coisas como são, não acha que é

altura de parar de se enganar? Quando foi a última vez que teve a coragem de pedir ao seu cônjuge o amor que precisava? Quando foi a última vez que rejeitou um convite e informou que simplesmente não queria ir, sem necessidade

de se justificar? Quando foi a última vez que perguntou à

pessoa que lhe é mais querida (e muitas pessoas nunca pararam para pensar quem é o ser mais querido na sua vida, e vomitam imediatamente “o marido” ou “a filha” ou “a mãe”, sabendo no fundo dos seus corações que não estão a ser verdadeiros e a responder de acordo com o que é esperado pela sociedade): que tipo de amor esperas de mim hoje?

2. A relação com o cônjuge.

Esta é sempre a relação que mais pode contribuir para abraçar a sua sombra. Você irá apaixonar-se e, eventualmente, casar-se, com a sua sombra.

Aquilo que vê inicialmente na outra pessoa são as qualidades

de luz escondidas na sua sombra. Essas qualidades, que é

incapaz de ver em si mesmo, são projectadas na pessoa amada. Mas na verdade está a apaixonar-se pelos aspectos deserdados de si mesmo. Depois de algum tempo (semanas, meses ou anos) a viver com a outra pessoa, irá, aos poucos, resgatar inconscientemente essas qualidades. E começará a projectar a sua sombra de escuridão. Na grande maioria dos relacionamentos estamos sempre a relacionarmo-nos com os aspectos negados de quem somos.

A Sombra Humana

Com um pouco de sorte, deixamos de projectar na “cara- metade” e passamos a projectar os nossos aspectos negados

nos filhos, sobrinhos, amigos, colegas de trabalho

Tudo aquilo que de que acusa os outros nada mais são que os seus aspectos negados, rejeitados e deserdados.

É fácil saber se está a ter uma relação com a sua sombra ou se é com a pessoa verdadeira. Se o comportamento, hábitos

e atitudes do seu companheiro não o afectam

emocionalmente, nesse caso não há qualquer projecção,

apenas informação. Mas se tem uma reacção emocional, pode ter a certeza que está a projectar.

As

únicas pessoas que não possuem sombra são aquelas

que

vivem na mais profunda escuridão. Quanto mais moralista

alguém for, maior será a sua sombra. Quanto mais julgar os outros, criticar e rejeitar, maior será a sua sombra.

Tem que fazer a si próprio a pergunta do ponto de partida

para o resgate do poder da sua sombra: quais os aspectos desta pessoa que me irritam? (antes de resgatar a sombra de

luz, certifique-se que resgata a sombra de escuridão: de outra

forma não aguentará o peso das suas qualidades divinas). De

seguida veja de que forma é exactamente aquilo que julga e critica nos outros. Seja sempre específico. Peça ajuda a um amigo se precisar. E depois, para que possa dar início ao processo de cura do seu ego ferido, veja de que maneira pode expressar esses aspectos negativos de uma maneira saudável.

Deixo-lhe alguns exemplos, meus e de clientes meus, para

que lhe seja mais fácil o processo de resgate.

1. A P. não suportava pessoas burras! Claro que estava sempre a lidar com pessoas burras. Até dar por si a chamar-se “burra” a si mesma! Claro que isto não chega, agora começa o processo de ver situações no passado em foi burra.

2.

O

J. relacionava-se muito mal com a irmã, porque ela

era mandona e com a mania que tinha sempre razão! Até que lhe mostrei situações específicas em que ele

queria mandar e ter razão, mesmo não a tendo.

3.

A

M. não conseguia lidar com a falta de disciplina do

filho. Até ver que ela própria não tinha qualquer disciplina com a dieta que deveria fazer.

4.

O

A. queixava-se continuamente do egoísmo do filho.

O

rapaz queria tudo para ele! Sempre mais e mais

E

foi tão fácil ver que era de si que ele estava a falar!

É

que o A. tem um problema de obesidade mórbida.

5.

A

R. acusa a filha de ser vaidosa e fútil. Aliás, as

colegas de trabalho da R. também são fúteis e vaidosas! Não demorou muito tempo a mostrar a sua vaidade pelas toalhas de crochet que fazia de maneira tão delicada!

6.

O B. tem um problema com as pessoas que são mentirosas. Odeia a mentira! E por azar, o seu filho é bastante mentiroso, assim com o seu melhor amigo e sócio de negócios! E depois começámos a ver as suas mentiras: mentia nas declarações de impostos, mentia à esposa (dizia que estava tudo bem, quando na verdade estava tudo muito mal), mentia sobre a sua saúde (dizendo que aquela dor à noite era ‘nada’). Muitas, muitas mentiras mesmo!

Claro que cada uma destas pessoas teve que ser confrontada com a sua sombra para poder aceitar estes aspectos rejeitados! E este processo não deve nunca ser feito de uma maneira ligeira.

Mas agora, neste momento, não há ninguém a vê-lo. Permita- se ser honesto consigo e escrever os defeitos que vê nos outros. É de si que estamos a falar.

Lembre-se: de cada vez que apontar o dedo, de cada vez que criticar, julgar ou ficar irritado, é de si que está a falar.

A Sombra Humana

Qualquer relação humana será sempre uma relação com um aspecto de nosso. Se a relação que mantém com outra pessoa é pacífica isto significa apenas que a sua sombra está algures, numa outra pessoa. Estude as qualidades e defeitos daqueles mais próximos de si. Descubra essas qualidades e defeitos em si. E permita-se abraçar cada aspecto deserdado.

A sua vida irá transformar-se. A sua vida será a vida que

sempre desejou para si.

Reinterpretar o seu Eu

Se deixarmos o passado sem o curar, ele irá destruir as nossas vidas. O passado esconde o nosso dom, a nossa criatividade e os nossos talentos.

Fomos ensinados que é difícil ir atrás dos nossos sonhos. E não nos disseram que é ainda mais difícil viver cada dia sabendo que não estamos a viver os nossos sonhos.

Se não tivermos a coragem de fazer as pazes com o nosso passado, iremos sempre transportar ás costas a raiva, o ressentimento, a culpa, a impotência, a vergonha e o medo.

O poder para fazer as pazes com o passado está já dentro de

si, mas só irá surgir quando você estiver preparado e desejoso de fazer as mudanças na sua vida. Quando o desejo de mudar for mais forte que o desejo de querer manter tudo como está. Claro que é sempre mais fácil culpar os outros pela situação que estamos a viver agora, neste momento.

Tem que estar preparado para abraçar o passado se quiser fazer verdadeiras mudanças no seu presente. O nosso passado é o que dá forma ao que vemos, ao que dizemos e à maneira como vivemos.

Saiba que os preconceitos são passados de geração em geração, de maneiras muitas vezes subtis. A dor também é passada de geração em geração. O medo, a vergonha, a

culpa, a impotência, também são passados de geração em geração. Não sei se já tinha mencionado: o medo é passado de geração em geração. Os seus problemas actuais são seus, ou herdou-os?

Muitas pessoas decidiram já que não seriam como os seus pais! Mas temos que ter sempre presente que passamos os anos mais importantes da nossa aprendizagem a absorver os conhecimentos e comportamentos dos nossos pais. Todas as suas qualidades e defeitos.

Saiba que todos os eventos negativos da sua vida são na verdade bênçãos disfarçadas de problemas. A dor tem um propósito. Ensina-nos e guia-nos a níveis mais elevados de consciência.

Há um ditado chinês que diz “O mundo é um mestre para o homem Sábio, e um inimigo para o louco”. Nenhum evento é doloroso em si. É tudo uma questão de perspectiva. É importante saber que tudo o que acontece no mundo acontece porque tem que acontecer, e é perfeito na forma como acontece. Não há erros. Não há acidentes. O mundo é um paraíso e um inferno. Qual a sua perspectiva?

Não há ninguém neste mundo que diga o que eu digo da maneira que o digo. Ninguém neste mundo faz as coisas que eu faço na forma exacta em que as faço. Eu sou eu e tu és tu. Cada um de nós é único e cada um de nós tem um caminho especial a percorrer.

Por forma a ganhar sabedoria e liberdade do seu passado, tem que aceitar total responsabilidade por todos os eventos que ocorreram na sua vida. Aceitar a responsabilidade significa afirmar: “Fui eu quem fez aquilo.” Há uma grande diferença entre o mundo fazer-lhe coisas a si e você fazer coisas a si mesmo. Quando aceita a responsabilidade pelos eventos na sua vida, e pela sua interpretação desses eventos, sai do mundo da criança e entra no mundo do adulto. Ao aceitar a responsabilidade pelas suas acções e inacções, você desiste da sua história pessoal (que é sempre qualquer

A Sombra Humana

coisa à volta de “Porquê eu?”) e transforma-a em “Isto aconteceu-me porque eu precisava de aprender uma lição. Isto faz parte da minha caminhada”.

De acordo com Nietzsche, desejar que o nosso passado não tivesse acontecido é desejar que nós não tivéssemos acontecido. É praticamente impossível mudar de direcção na nossa vida sem antes fazer as pazes com o passado. Cada evento significativo da nossa vida muda a forma como interpretamos a própria vida, e a perspectiva que temos dela.

A ideia de revisitar o passado pode parecer aterradora, mas é

uma parte essencial do processo. O nosso passado é uma bênção que nos pode guiar e ensinar, e transporta consigo

tantas mensagens negativas como positivas.

A nossa dor pode ser o nosso melhor mestre. Irá levar-nos a

lugares que nunca teríamos a coragem de ir de outra maneira.

Quantas pessoas estariam dispostas a sofrer durante 20 ou 40 anos só para descobrir a vontade da sua alma?

Aceitar a responsabilidade total pelo nosso passado é uma tarefa avassaladora. A maioria de nós está preparado para aceitar responsabilidade pelas coisas boas que nos aconteceram, mas resistimos aceitar a responsabilidade pelas coisas más que foram sucedendo. Mas quando aceitamos a responsabilidade total por todos os eventos, tornamo-nos mais fortes com cada evento ocorrido. Mesmo que nos sintamos envergonhados ou magoados por qualquer evento, podemos encontrar paz no saber que de alguma forma o evento está a ajudar-nos a descobrir o nosso dom. Tornamo- nos responsáveis por tudo o que acontece. Dizemos ao

Universo: “Eu sou a fonte da minha própria realidade!” Este é

o lugar de poder a partir do qual pode alterar a sua vida.

Enquanto não for capaz de olhar o seu passado olhos nos olhos, ele estará sempre por perto, trazendo-lhe mais experiências em tudo iguais ás do passado. Mas tudo o que precisa é de uma mudança na sua perspectiva.

Para alterar a nossa percepção precisamos de analisar cada momento do nosso passado até encontrar uma interpretação poderosa que nos permita aceitar a responsabilidade. Não faz ideia da energia que gasta para provar a si mesmo que tem razão e que não foi ‘culpa’ sua! É claro que é sempre mais fácil culpabilizar os outros pelas coisas que não gostamos no nosso mundo. Mas esse caminho leva-nos sempre a um único local: nenhures.

Há sempre dor quando somos vítimas das circunstâncias: a dor do desespero e do desalento. Mas você vive num universo onde tudo acontece por um motivo. Procure a bênção em todos os eventos da sua vida e irá dar por si no caminho da gratidão. Irá ter a experiência do que é ser-se abençoado.

Cada palavra, incidente e pessoa em relação à qual ainda sente existir uma carga emocional tem que ser estudada, olhada na cara, reconstruída, re-perspectivada e abraçada. Temos que caminhar até à origem da nossa dor. Só tomamos as rédeas da nossa vida ao escolhermos as nossas interpretações.

Ao criarmos uma nova interpretação estamos a utilizar a forma mais simples de transformar uma experiência negativa em outra, positiva. Tudo o que acontece no nosso mundo é objectivo. Mas cada um de nós vê o mundo com um olhar diferente, sendo que cada um irá atribuir um significado diferente a dado evento. É a nossa percepção e interpretação que afecta as nossas emoções, e não o incidente em si. É a nossa percepção e interpretação quem nega a nossa responsabilidade e atribui as culpas.

Cada um de nós tem que tomar uma decisão consciente de alterar o nosso mundo, alterando as nossas percepções. Mude a percepção, a interpretação, de uma palavra ‘má’ apenas, e irá descobrir que não só a palavra perde a sua carga emocional, como esta carga lhe é devolvida com poder.

A Sombra Humana

Vou deixar-lhe um exercício simples para integrar este conceito. Irei pegar numa palavra que, para mim, ainda tem alguma carga emocional. Uma palavra que ainda hoje eu não suporto que me chamem: coitadinho. Eu recuo no tempo para descobrir um incidente na minha vida que me causou dor e ajudou a interpretar ‘coitadinho’ como algo mau. Chego a um ponto, quando tinha uns dez anos, em que a minha mãe falava com amigas sobre mim e depois de enunciar todas as ‘asneiras’ que eu tinha cometido terminou com um “coitadinho, se eu e o pai morremos não sei o que será dele!”. Isto causou em mim sentimentos de impotência, raiva e vergonha. A minha interpretação foi a de que a minha mãe não gostava verdadeiramente de mim, e os coitadinhos só fazem asneiras e vivem ás custas dos outros. Então eu tenho que me permitir experienciar novamente as emoções negativas do evento. E só depois começo a criar uma nova interpretação da palavra “coitadinho”

A interpretação negativa:

1. A minha mãe odiava-me e estava sempre a deitar-me abaixo;

2. A minha mãe pensava que eu era inútil e parasita.

A nova interpretação:

1. Eu sou poderoso, o que deixava a minha mãe nervosa. A única forma que ela tinha de lidar com este nervosismo era chamar-me nomes que considerava apropriados;

2. A minha mãe pensava que chamar-me “coitadinho” era uma forma de mostrar-me afecto;

3. A minha mãe gostava tanto de mim que me queria preparar para o mundo duro e cruel que ela imaginava, tentando assim impedir que eu caísse na preguiça.

A questão que se deve colocar é: esta nova interpretação dá-

me poder ou retira-me poder? Esta nova interpretação deixa-

me mais forte ou mais fraco? Se a vozinha dentro da sua

cabeça segue um diálogo que lhe rouba poder, não irá mudar nada enquanto a vozinha não se transformar numa que lhe dá poder, segurança interior e um pensamento optimista.

É por este motivo que é tão importante escrever tudo e olhar

para os eventos sob tantos ângulos quantos lhe for possível. Só o simples acto de escrever as coisas obriga a que as palavras e os incidentes comecem a perder uma parte do domínio que detêm sobre si.

É sempre uma responsabilidade sua escolher interpretações

poderosas. Quanto mais consciente estiver dos presentes da vida, mais depressa irá escolher uma perspectiva positiva sobre os eventos da sua vida. Quando nega um aspecto que seja de si, está a negar uma parte que o impedirá de ser completo. E todos nós, sem o esforço necessário, iremos sentir a falta da coragem para admitir que estamos errados e que somos inteiramente responsáveis por cada evento doloroso da nossa vida.

Por outro lado, temos receio que o nosso brilho, o nosso poder, nos isole da sociedade. Porque a sociedade que vemos à nossa volta é medíocre a todos os níveis.

A compaixão por nós mesmos é essencial neste processo. Se

a compaixão estiver ausente iremos sentir medo e ódio. E

uma vez que é infinitamente doloroso sentirmos medo e ódio por nós mesmos, iremos projectar esse medo e ódio no mundo à nossa volta. É-nos mais fácil ser vítimas do mundo do que vítimas de nós mesmos. E ao culpar o mundo evitamos a dor de nos vermos tal como somos.

Quando abraçamos um aspecto negativo do nosso ser, regra geral, o seu oposto surge espontaneamente. Ao abraçar o aspecto ‘medricas’ trazemos à superfície o ‘corajoso’. Temos que abraçar o nosso lado negro na totalidade para podermos abraçar a luz.

A Sombra Humana

Quando nos abrimos à possibilidade de abraçar, a partir do coração, tudo o que existe, e começarmos a olhar para aquilo que está bem, em vez daquilo que está mal, iremos ver Deus.

E se tu conseguires ver o teu dom no final da caminhada, isso

significa que eu conseguirei ver o meu. Porque tu és eu e eu sou tu neste mundo que é espírito momentaneamente a passar por uma experiência como matéria.

Ressentimento ou Paz de Espírito

O rancor, ou ressentimento, é uma das emoções mais tóxicas

que o ser humano pode experienciar. Rouba-nos quase toda

a energia e intoxica o nosso dia-a-dia impedindo-nos de avançar em direcção aos nossos sonhos.

O rancor surge quando sentimos que alguém errou para connosco, alguém nos magoou ou cometeu um acto violento contra a nossa pessoa (físico ou verbal). Ao agarrarmo-nos ao rancor ficamos cegos ao ponto de não conseguirmos ver a nossa parte na equação, a nossa co-criação do evento que nos causa mágoa. Por outro lado, o rancor faz nascer sentimentos de raiva e ódio dentro de nós. Mais emoções altamente tóxicas.

Em realidade, quando sentimos ressentimento é como se estivéssemos presos à pessoa que nos magoou com uma corda de aço. Damos toda a nossa atenção a essa pessoa e, desta forma, toda a nossa energia. Ficamos esgotados. E não somos capazes de ver a lição que o evento tem para nos oferecer. Regra geral, em cada evento que nos causou dor há uma lição de coragem, de auto-estima ou de sacrifício para nós. A palavra sacrifício tem a sua origem no latim que significa “fazer sagrado”. Num sacrifício nós abrimo-nos perante o sagrado e aceitamo-lo nas nossas vidas.

O mais curioso é que, se ainda não se apercebeu, a pessoa

que odeia ou por quem sente raiva, muitas vezes nem sequer

está consciente do que fez, nem gasta um grama de energia a pensar em si. É muito provável que nem sequer pensa em si! Ou seja, quando sentimos ressentimento é a nós que estamos

a magoar. E se a pessoa que nos magoou já morreu isto é

ainda pior. Porque enterramos a nossa energia junto com a

pessoa que já partiu.

Cada evento doloroso da nossa vida é criado por nós com um único objectivo (que pode ou não estar consciente): apontar o dedo à primeira pessoa que nos causou danos na nossa vida. Regra geral esta pessoa é o pai ou a mãe. Verifique qual é o género das pessoas que mais danos lhe causou ao longo da sua vida. Se forem mais homens é muito provável que ainda esteja a apontar o dedo ao seu pai, porque ele o magoou. Se forem mais mulheres, é à sua mãe que está a apontar o dedo

e a dizer, em silêncio, “Comigo erraste!”

E passamos uma vida inteira a criar situações que nos causam dor e nunca ultrapassamos estas situações, porque no fundo acreditamos que a pessoa que primeiro errou connosco deve pagar pelo acto indefinidamente. E só nós é que sofremos. Só nós é que saímos lesados. Não há excepções.

Há alguns anos atrás, vivia em Londres, fui convidado para fazer uma pós-graduação em Nova Iorque durante seis meses. Na altura fiquei cheio de entusiasmo e fui sem pensar duas vezes. Deixei uma amiga, que considerava de absoluta confiança, responsável por cuidar do meu apartamento (regar

plantas, pagar a renda, etc.). Deixei-lhe dinheiro na conta bancária suficiente para pagar a renda durante oito meses (na altura vivia num apartamento que estava legalmente alugado

a outra pessoa). Quando regressei de Nova Iorque fiquei a

saber que o meu apartamento estava vazio (ela tinha vendido literalmente tudo o que tinha) e a renda não tinha nunca sido paga. Vivi 3 dias na rua, enquanto tentava normalizar a minha vida. Durante anos senti um ódio tremendo por esta pessoa. Culpava-me por ter sido estúpido ao ponto de confiar nela.

Amaldiçoava o dia em que a tinha conhecido. Desejava-lhe

A Sombra Humana

nada menos que a morte. E durante mais de dez anos carreguei ás costas esta mulher que tantos danos me tinha causado. Até conhecer a Debbie Ford.

A primeira coisa que descobri foi que todos os problemas que

me causavam mágoa e ressentimento eram sempre, sem excepção, causados por mulheres. Dizer que foi duro para mim descobrir que após estes anos todos ainda culpava a minha mãe pelo que me tinha feito na infância é colocar o sentimento de uma maneira muito suave. Foi brutal. Saber que andei mais de trinta anos a criar situações em que era lesado apenas para poder dizer à minha mãe, vezes sem conta, “tu comigo erraste!”

Depois fiz o processo de descobrir o presente no evento. Aprendi que nunca temos nada, nunca somos donos de nada. Na hora menos esperada a vida encarrega-se de no-lo provar. Aprendi que tudo o que preciso para viver está em mim e não fora de mim. Aprendi que apenas eu sou responsável pela minha vida e que ficar à espera de um salvador, que alguém me venha salvar, é uma ilusão.

E depois o perdão. Porque enquanto não formos capazes de

perdoar à pessoa que causou a dor nunca estaremos livres da toxicidade nos nossos corpos. O ressentimento, a raiva e o ódio são as toxinas que criam os cancros. São as toxinas que nos gritam “aprende a lição ou morre”. Sinto muito por colocar as coisas desta forma se a pessoa que estiver a ler isto tem um cancro. Mas é o que eu vejo constantemente. Isto não se aplica ás crianças, por vários motivos que não vou discutir aqui.

Como podemos perdoar as pessoas que nos magoaram? Só

o conseguimos fazer depois de ver os presentes, as lições,

que cada evento doloroso tem para nos oferecer. É impossível perdoar em piloto automático. Temos que fazer o

trabalho todo, passar pelas emoções presentes no evento. É

a única forma que conheço de o fazer. E depois estaremos

livres do evento e da pessoa. Perdoar significa confrontar a

pessoa, se ainda for viva, e fazer-lhe saber que está perdoada. E pedir perdão a essa pessoa, mais que não seja porque a mantivemos presa a nós durante muito tempo. Uma coisa que poucas pessoas reparam é que em cada evento doloroso da nossa vida há pelo menos duas pessoas presentes. Uma delas somos nós. E somos nós que estamos sempre presentes em cada evento doloroso da nossa vida. O que queremos aprender com cada um destes eventos? Porque atraímos cada um deles?

Exercício Prático

Procure um momento em que não seja interrompido e feche os olhos. Comece por respirar calma e profundamente, sentindo-se a ir mais dentro de si com cada inspiração. E quando estiver preparado faça a si mesmo estas perguntas:

Qual é a situação no presente que me causa dor?

que sinto quando penso nesta situação?

primeira vez que eu senti estas mesmas emoções?

Quem é que eu continuo a culpar pela

minha vida? A quem é que eu dou o meu poder e responsabilizo pela minha vida?

estava presente?

Quando foi a

O que é

Quem

Quando obtiver as respostas regresse novamente ao presente e tome nota das suas descobertas.

Depois escreva pelo menos seis eventos dolorosos do seu passado. Verifique se a pessoa a quem aponta o dedo em cada uma dessas situações é do sexo masculino ou feminino. Descubra depois as lições que se tem recusado a aprender com cada evento. De que maneira é uma pessoa diferente devido a cada um desses eventos?

A guerra que vemos no mundo exterior é sempre e apenas um reflexo da guerra que travamos dentro de nós.

Desejo-lhe um bom trabalho.

O Perdão

A Sombra Humana

Fomos educados para “perdoar” de uma maneira que não só não é saudável como ainda por cima nos deixa impotentes.

Antes de poder sequer pensar em perdoar é imperativo livrar- nos das falsas noções que envolvem o perdão. Há muitos “mestres” espirituais que ajudam a perpetuar estas falsas noções, desde os representantes de igrejas até líderes no campo do desenvolvimento pessoal. Muitas pessoas, por exemplo, que praticam reiki e outras terapias energéticas, carregam com elas, consciente ou inconscientemente, um peso de vergonha e culpa porque no fundo julgam continuamente outros, depois julgam-se a si mesmos pelo acto e passam ao seu perdão pessoal. Intelectualizando todo o processo e aumentando a sombra da vergonha. Se não acredita no que digo, pare alguns minutos e tome nota do número de vezes que as mesmas situações se repetem na sua vida.

Em primeiro lugar, Perdoar não significa Esquecer. Virar a página não significa esquecer. Em realidade, pedir a alguém para esquecer é o mesmo que pedir um sacrifício de auto- amputação. Esquecer um evento do passado é exigir esquecer uma parte de quem somos. Sem esse evento do passado não seríamos quem somos hoje. O caminho do perdão exige mesmo uma boa memória e uma visão clara da ofensa. Sem estes dois aspectos é impossível uma mudança plena ao nível do coração em relação à pessoa que se pretende perdoar. O perdão ajuda a memória a curar-se.

Em segundo lugar, Perdoar não é Negar o que aconteceu. Quando alguém nos magoa mesmo a sério, a nossa primeira linha de defesa é negar o que nos está a acontecer. Já reparou que quando alguém lhe conta sobre um evento dramático a sua primeira reacção tende a ser “não acredito!”. A negação é como uma parede que construímos para evitarmos a dor e todas as emoções que nos deprimem. Ao negarmos a situação de mágoa estamos a evitar o stress

emocional, ao mesmo tempo que perdemos noção da realidade nua e crua. Nesta situação é impossível perdoar porque não existe conscientemente a necessidade de curar a ferida emocional. É óbvio que o poder do perdão não pode ser experienciado enquanto a vítima recusar ver a ofensa e o sofrimento resultante. Mesmo que o perdão seja motivado por um amor incondicional, se este exigir a amputação ou repressão de uma parte do EU (a parte magoada) isto poderá trazer consequências desastrosas. As pessoas que directa ou indirectamente ensinam a perdoar exigindo que se faça de conta que nada aconteceu, ignorando o turbilhão de emoções derivadas do evento, são perigosas. Simplesmente não podemos ignorar a culpa, a vergonha, o medo e a raiva resultantes de uma situação que nos magoa. Estas emoções, quando não são expressas, criam tumores emocionais altamente tóxicos no nosso organismo.

Em terceiro lugar, Perdoar é muito mais que um acto de Vontade. Mas é assim que ensinamos as crianças a perdoar! “Pede desculpa ao teu irmão!”, “Tens que desculpar a tua professora, foi sem querer.”, “Dá um beijinho à mãe, ela castigou-te mas foi para o teu bem.” Tudo isto exige um perdoar forçado, carregado de força de vontade. A maioria dos educadores, incluindo os pais, tratam o acto de perdão como uma fórmula mágica capaz de corrigir qualquer erro cometido contra a nossa integridade. Esta é uma forma de perdoar superficial e bastante artificial. É exigido a ausência de emoções que são demasiado humanas. Perdoamos com palavras saídas da nossa boca mas nunca do nosso coração. Ao perdoarmos desta forma somos perseguidos por um sentimento de culpa incapaz de ser expresso. O erro está em transformar um acto poderoso como o perdão num simples gesto da vontade consciente, em vez de ser a culminação de uma experiência de aprendizagem. Em realidade o processo do perdão leva o seu tempo. O tempo que leva depende da profundidade da mágoa, das reacções da pessoa que nos magoa e das capacidades psíquicas da pessoa magoada. O perdão mobiliza todas as nossas faculdades: sensibilidade, coração, inteligência, juízo, imaginação e por aí adiante.

A Sombra Humana

Em quarto lugar, o Perdão não pode ser dado como uma Ordem. O perdão é uma atitude de liberdade plena, ou então não existe. Apesar disto, há uma tentação muito grande,

especialmente entre líderes espirituais, a forçar as pessoas a perdoar. O perdão não pode nunca ser forçado. Ou o sentimos ou não. Na tradição cristã, por exemplo, há uma obrigação para perdoar. O Pai-nosso (uma oração que pessoalmente considero bonita) é interpretada de uma maneira literal na afirmação “Perdoai-nos assim como nós perdoamos os nossos inimigos”. Uma aberração. Aqui há um “tens que perdoar” implícito. “Temos” que perdoar quem nos ofende. É capaz de imaginar a tempestade interior causada no confronto entre o desejo de perdoar e a hesitação provocada por sentimentos e emoções que gritam por ser ouvidos? Sentimentos como a revolta, a culpa, a vergonha, o medo. É um erro reduzir o perdão, ou qualquer outra prática espiritual, a uma obrigação moral. Muitas pessoas parecem não compreender que o perdão de Deus não é condicionado.

A visão que muitos têm de Deus, neste aspecto, é muito triste:

um mercenário calculista que segue o preceito “olho por olho

e dente por dente”.

Em quinto lugar, o Perdão não nos leva de volta ao tempo

anterior à ocorrência da Ofensa. Para muitas pessoas o perdão significa a reconciliação com quem nos magoa. Muitos líderes espirituais ensinam que o perdão só é autêntico quando somos capazes de voltar a um tipo de relacionamento, com a pessoa que nos causa a dor, igual em tudo ao que era antes da ofensa. Como se o acto de perdoar consistisse em reatar relacionamentos. Como se o voltar ao relacionamento pré-ofensa fosse o resultado do perdão. Em realidade o perdoar não tem nada a ver com a reconciliação. Pode haver perdão sem nunca suceder a reconciliação. Nós podemos perdoar outro mesmo na sua ausência, mesmo que

a pessoa tenha já morrido. E é óbvio que nestas situações a

reconciliação é impossível. Em situações de abuso sexual e violência é normal ajudar a vítima a cortar qualquer tipo de relacionamento com o ofensor. Isto não quer dizer que o perdão não possa acontecer. É errado pensar que uma vez

que consigamos perdoar alguém, a nossa relação com o ofensor tem que voltar ao que era antes. Depois de fazer uma omelete, é capaz de voltar a colocar os ovos dentro das respectivas cascas? E depois de fazer um pão, é capaz de voltar a colocar a farinha dentro do saco? É impossível voltar atrás depois de sermos magoados. Ou bem que tentamos convencer-nos que nada aconteceu, e restabelecemos a relação novamente mas baseando-nos numa mentira, ou tiramos partido do conflito para restabelecer o relacionamento com uma atitude mais sólida, com alicerces mais profundos.

Em sexto lugar, o Perdão não significa ignorar os nossos Direitos. Muitas pessoas acreditam que perdoar um criminoso, um pedófilo, um marido infiel, é encorajar a pessoa a repetir a ofensa. Isto é misturar justiça com perdão. É querer julgar a pessoa e a acção cometida como sendo a mesma coisa. Nunca o é. Mas discutir este tópico iria levar-me para muito longe do perdão. Direi apenas que enquanto a justiça, em si, tem como objectivo restabelecer os direitos de quem é prejudicado de uma maneira bastante objectiva, o perdão depende sobretudo na vontade de deixar partir a mágoa e querer viver livre. Há pouco tempo estive com uma cliente desesperada por perdoar o ex-marido que a tinha trocado por outra mulher e ainda por cima lhe tinha deixado milhares de euros em dívidas. Estava a matar-se silenciosamente porque queria muito perdoar o ex-marido e esquecer as mágoas do passado. Comecei por lhe dizer que deveria arranjar um bom advogado. Tinha que exercer os seus direitos. E só depois poderia decidir se queria perdoar o ex-marido. É que o perdão não é uma luta contra a injustiça. Ficarmos calados perante a injustiça é encorajar o ofensor a repetir a ofensa. Veja o que acontece com os pedófilos que a igreja católica esconde no seu seio.

Em sétimo lugar, o Perdão não significa Desculpar aquele que ofende. Já ouviu expressões como “a culpa não é dele, não

Perdoar alguém não é o mesmo que

desculpar. Desculpar significa absolver a pessoa de toda a responsabilidade moral. Se isto fosse assim, ninguém jamais

sabia

mais

”?

A Sombra Humana

seria responsável pelo que quer que fosse. Ninguém seria responsável pelas suas acções. As desculpas falsas têm muitas vezes como objectivo tornar a nossa dor menos agonizante. Convencer-nos que aquele que nos ofende não é responsável torna-se mais fácil do que aceitar que o ofensor magoou-nos conscientemente e de sua livre vontade. Desculpar quem nos ofende pode ser uma navalha de duas pontas: por um lado alivia o nosso sofrimento , por outro mostramos desdém para com o ofensor. Em realidade estamos a dizer “tu és tão burro que não podes ser responsabilizado pelas tuas acções”. Desta maneira estamos perante uma situação de humilhação em vez de libertação.

Em oitavo lugar, o Perdão não é sinónimo de Superioridade Moral. Alguns actos de perdão servem mais para humilhar do que para libertar. Criamos uma situação de arrogância moral em que aparentemente somos superiores aquele que nos ofende. Mascaramos a nossa necessidade de controlar os outros, de exercer poder sobre outros, num falso perdão. Escondemos assim a nossa profunda humilhação. Possuídos pela vergonha e rejeição, tentamos proteger-nos. Tentamos assim cobrir a nossa humilhação fazendo de conta que somos o “deus” generoso capaz de misericórdia. Uma forma pouco digna de se ser superior ao ofensor e ao mesmo tempo mostrar que este é inferior. Este falso perdão perpetua a relação dominador-dominado. O perdão que serve apenas para mostrar superioridade moral é praticado por três tipos de profissionais: primeiro os “perdoadores” compulsivos que à mínima percepção de ofensa estão já a perdoar tudo e todos. Depois há os que perseguem a culpa. Tornam a situação causadora de dor ainda mais complicada para poder impressionar os outros com os seus grandes gestos de perdão. Por último temos as vítimas perpétuas, em que as esposas de homens alcoólicos são um exemplo perfeito. Esperam simpatia dos amigos e conhecidos porque sacrificam as suas vidas em prol destes homens e perdoam-nos de cada vez que se embebedam. Longe de ser uma manifestação de poder, o perdão verdadeiro é sobretudo um acto de força e coragem interiores. Nós precisamos de força interior para

reconhecer e aceitar a nossa vulnerabilidade, em vez de a camuflar com a aparência da benevolência.

Por fim, Perdoar não significa deixar as coisas nas mãos de Deus. Os espirituais adoram proferir a famosa expressão “só Deus pode perdoar”. Isto é proferido pelas pessoas incapazes de perdoar seja quem for. Deus não faz por nós aquilo que nós temos que fazer por nós. Uma vez ouvi um participante num seminário da sombra afirmar que lhe era muito fácil perdoar:”se alguém me faz mal eu peço a Deus para o perdoar. Não tenho que me envolver com toda a porcaria de sentimentos negativos, Deus é perdão e perdoa os que me magoam.” Isto pode parecer uma atitude de fé mas levanta questões sérias sobre a saúde mental do indivíduo que concede assim perdão. Em vez de se responsabilizar pela sua vida, a pessoa entrega toda a responsabilidade a Deus. Não quero que me interprete mal: acredito que o elemento espiritual do perdão é essencial ao acto de perdoar, também acredito que temos que nos preparar para receber a Graça de Deus no plano humano. O perdão depende tanto da acção divina como da humana. A Natureza e a Graça não são antagonistas, antes complementos.

A questão básica deste capítulo é simples: porque temos que

perdoar quem nos faz mal?

Porque enquanto não o fizermos iremos carregar em nós o peso do ofensor. Só estaremos livres a partir do momento em que o perdão é sentido a partir do coração.

Deixa que a tua luz brilhe

O nosso maior medo não é que sejamos insuficientes, ou que

não sejamos merecedores. O nosso maior medo é descobrir que temos um poder ilimitado. Estas são palavras de Marianne Williamson, no seu livro “A Return To Love”. É a nossa luz o que nos assusta mais, e não a nossa escuridão. Não há nada de iluminado em encolher-nos ao ponto de que

A Sombra Humana

outros não se sintam desconfortáveis à nossa volta. Tu nasceste para manifestar a glória do Universo que está dentro

de ti. Não está só dentro de alguns, está dentro de todos. E à

medida que deixamos que a nossa luz brilhe permitimos, inconscientemente, que os outros, à nossa volta, brilhem também. Ao mesmo tempo que nos libertamos dos nossos medos, damos autorização aos outros para que façam o mesmo.

Nós vivemos numa época excitante. Está a ocorrer uma oportunidade única de cura. Cura individual, cura da humanidade e cura do planeta. Mas para esta cura ocorrer é imperativo rendermo-nos. Rendermo-nos aos nossos egos e aos velhos padrões comportamentais.

A única coisa que nos impede de sermos completos e

autênticos é o medo. O nosso medo diz-nos que não podemos manifestar os nossos sonhos. O nosso medo diz- nos para não corrermos riscos. Impede-nos de desfrutar os nossos maiores tesouros. Na verdade o nosso medo obriga- nos a viver vidas medianas, medíocres, em vez de vivermos todo o espectro de possibilidades disponíveis.

Com medo, criamos situações nas nossas vidas para provarmos a nós mesmos que as nossas limitações, auto- impostas, são apropriadas. Para ultrapassar o nosso medo temos que o enfrentar e substitui-lo com amor.

Nós temos medo da nossa magnificência porque ela desafia todas as nossas crenças. Contradiz tudo aquilo que nos foi ensinado.

Um dos passos mais importantes que deve começar já hoje é reconhecer todo o bem que já faz. Todos os dias, todas as coisas boas que faz.

Compre um boneco chorão e sempre que der por si a criticar- se, a deitar-se abaixo, pegue no chorão e bata-lhe com toda a força! Atire-o contra a parede! E saiba que é isso que está a fazer à criança dentro de si de cada vez que se criticar.

Não só é correcto dizermos coisas boas sobre nós, é imperativo. Temos uma obrigação de reconhecer os nossos dons e os nossos talentos. Aprender a reconhecer os nossos talentos permite-nos apreciar e amar os dons e os talentos dos outros.

Pare agora e acalme a sua mente. Respire fundo meia dúzia

de vezes. Depois leia a lista que lhe apresento abaixo. Depois ”

de ler cada palavra diga a si mesmo: “Eu sou

uma. Por exemplo: “Eu sou brilhante”, “Eu sou saudável”, “Eu sou talentoso.” Inclua ainda palavras que representem pessoas que admira mas que não consegue imitar.

para cada

Satisfeito, seguro, amado, inspirador, sensual, radiante, delicioso, apaixonado, alegre, feliz, sexy, capaz de perdoar, cheio de vida, realizado, energético, confiante, flexível, capaz de aceitar, completo, saudável, talentoso, capaz, sábio, honrado, sagrado, poderoso, capaz de abraçar tudo, divino, poderoso, livre, engraçado, afluente, iluminado, equilibrado, brilhante, um sucesso, merecedor, aberto, compassivo, forte, criativo, pacífico, justo, famoso, disciplinado, responsável, bonito, desejável, entusiasta, corajoso, precioso, afortunado, maduro, artístico, vulnerável, consciente, capaz de ter fé em mim, magnificente, atractivo, centrado, romântico, um coração amoroso, sortudo, agradecido, gentil, sossegado, querido, extravagante, decidido, terno, irresistível, generoso, belo, calmo, despreocupado, paciente, leal, espiritual, ligado aos outros, espontâneo, organizado, bem humorado, contente, adorado, brincalhão, limpo, pontual, divertido, compreensível, dedicado, activo, glamoroso, destemido, vivaço, caloroso, focado, inovador, super-estrela, magnifico, um líder, sólido, campeão, rico, simples, genuíno, sensível.

Você possui todas estas qualidades. Tudo o que tem a fazer para trazer estas qualidades para a luz é abraçar cada uma, senti-la como sua pertença. Se conseguir ver onde, na sua vida, já expressou determinada qualidade, ou em que situações poderia expressar essa qualidade, pode abraçá-la agora. Tem que estar disponível para afirmar “Eu sou isso!”.

A Sombra Humana

O passo seguinte é ver o presente nessa qualidade. Ao

contrário da sombra escura, é fácil e óbvio ver de que maneira

esta qualidade lhe pode ser útil.

Mas muitos de nós precisamos de enfrentar o nosso medo e a nossa resistência. Muitos de nós desenvolvemos mecanismos de defesa bastante sofisticados para reforçar as nossas crenças que nos dizem que não somos tão talentosos ou tão criativos como qualquer outra pessoa que escolhemos como comparação.

Se não for capaz de abraçar determinada qualidade é muito pouco provável que consiga manifestar algo nessa área. Se tem um problema de peso e não for capaz de abraçar o “eu magrinho” dentro de si, é muito pouco provável que consiga obter o peso ideal.

Não importa como se sente, quando estiver a afirmar as

qualidades, não fuja. Ao dedicar-se ao processo de resgatar

as

partes de si que escondeu estes anos todos, está a dizer

ao

Universo que está preparado para ser completo.

Nós somos ensinados que é errado reconhecer a nossa grandeza. A maioria de nós acredita que possui algumas das qualidades positivas, mas nunca todas. Mas nós somos tudo. Todas as coisas que nos fazem sorrir, e todas as coisas que nos fazem chorar. Nós somos tudo o que é belo e tudo o que é feio num só ser.

Quando conseguir abraçar toda a lista de qualidades, deparará consigo diante dos olhos de Deus. Quando aceitamos em nós todas as nossas projecções positivas iremos experienciar a paz interior – aquela paz que nos diz que somos perfeitos tal como somos. A paz chega a nós quando paramos de fazer de conta que somos quem não somos. Muitos de nós nem nos apercebemos que estamos a fazer de conta que somos menos do que somos de verdade. Convencemo-nos que quem somos é suficiente.

Permita que o mundo dentro de si se manifeste, e irá ver o caminho para a liberdade plena – a liberdade de ser sexy, de ser desejável, de ser talentoso, de ser saudável, de ser um sucesso!

Quando é incapaz de reconhecer todo o seu potencial não permite que o Universo lhe entregue todos os seus presentes.

A

sua alma anseia a manifestação plena do seu potencial. E

você pode permitir que isto aconteça. Pode escolher abrir o

seu coração e abraçar a totalidade de quem é, ou pode escolher viver a sua vida na ilusão de ser quem pensa que é hoje. O perdão é o passo mais importante neste percurso de amor próprio.

Temos que nos permitir ver-nos com a inocência de uma criança, e aceitar as nossas falhas com amor e compaixão. Temos que por de parte os nossos juízos e castigos e aceitar os erros que cometemos. Temos que sentir que somos merecedores de perdão.

Este presente divino, de nos perdoarmos, ensina-nos que uma parte de ser humano é cometer erros. E o perdão vem do coração e nunca do ego. O perdão é uma escolha. Em qualquer altura podemos deixar partir os nossos ressentimentos e as nossas criticas e optar por perdoarmo- nos e perdoar os outros.

O amor que não inclui a totalidade de quem você é, é um

amor incompleto. Muitos de nós somos treinados para procurar o amor que precisamos fora de nós. Mas quando deixamos partir a nossa necessidade de amor no mundo exterior, a única forma de encontrar algum conforto é indo

dentro de nós, procurar aquilo que ansiamos tanto que venha

de fora. Temos que permitir que o Universo dentro de nós, o

nosso pai e a nossa mãe divinos, nos amem e nutram.

Procure dentro de si a raiva que ainda esconde. A raiva só é uma emoção negativa quando é suprimida ou trabalhada de uma maneira pouco saudável. Quando sente compaixão por

si mesmo permite-se que todos os aspectos de si, o seu amor

A Sombra Humana

e a sua raiva, coexistam dentro de si. Sempre que eu me julgar ou julgar outros, eu sei que estou a agarrar-me a interpretações negativas de um evento qualquer.

Pode custar-lhe a aceitar isto, mas a sua raiva é a chave que abre o seu coração. Quando accionada liberta toda a energia vital que irá fluir por todo o seu ser.

Tem que saber ainda que a cura que procura para os seus relacionamentos não virá nunca dos outros. Tem que vir de si primeiro. Tem que vir da comunhão com todas as qualidades e todos os defeitos que vivem dentro de si.

Está na altura de libertar a paixão por quem é e encontrar o amor por quem é na totalidade. É este o seu objectivo último nesta realidade física e limitada.

Como dar amor a si mesmo

sorri? Os bebés são excelentes demonstrações do que é viver cada emoção. Podem chorar com um desespero ensurdecedor e um minuto depois rir como se fossem reis do mundo! Quando olhamos para os olhos de um bebé que sorri sentimos o nosso coração pleno, e sorrimos de volta. Porque na verdade esse bebé sorri para nós sem juízos de valor, sem

Já reparou como um bebé

criticas nem comparações. Isto é o amor incondicional. Também temos a experiência do amor incondicional com animais. Mas raramente temos essa experiência com outros adultos.

Os bebés projectam-nos a nossa inocência e o nosso amor incondicional. E o que é que nós projectamos de volta? Pensamos na sua beleza, inocência, perfeição, doçura? Ou pensamos que são egoístas, mimados, descontrolados,

Quaisquer que sejam os nossos

monstrinhos?

pensamentos, iremos projectá-los nos bebés. Lembre-se que são sempre aspectos de quem você é que projecta sobre os outros.

Imagine-se agora a si como um bebé inocente que se sente merecedor de todo o amor que a vida tem para dar. Sinta

esse bebé dentro de si. Permita que esse bebé receba todo o amor. Imagine-se todos os dias a dar amor a esse bebé. Feche os olhos e permita que uma imagem de si, quando era bebé, venha até à sua mente. Pergunte-se: “O que posso fazer por este bebé hoje? Como é que posso fazer com que se sinta amado e acarinhado?” Ouça a sua voz interior.

Nós andamos tão ocupados a andar ocupados que nos esquecemos frequentemente de como dar-nos carinho. O início do dia é um momento sagrado para nos ligarmos ao nosso divino, ao nosso bebé interior. À medida que despertamos vamos tomando consciência dos pensamentos e dos sentimentos que irão ditar como será o nosso dia. Em vez de correr e fazer tudo de maneira automática, pare. Dê-se a si mesmo uma massagem antes do duche. Sorria ao bebé dentro de si. Diga-lhe que está tudo bem. Agradeça ao seu corpo por estar presente, por guardar a sua alma, por ser o alicerce de quem você é nesta realidade.

O importante é honrar-se. Dar a si mesmo a mensagem que é

importante. Honre e respeite o génio brilhante que há em si.

Quando o fizer será capaz de o fazer também aos outros. irá assim atrair pessoas idênticas a si. Situações idênticas a quem se sente por dentro.

Faça a si mesmo aquilo que gostaria que outros lhe fizessem. Se gosta de flores, compre para si um ramo de flores. Se gosta de música, comece o dia com música. Cante! Trate-se como se fosse realeza!

O mundo dá-lhe de volta aquilo que está já dentro de si. Se se

amar, nutrir e apreciar interiormente, o mundo exterior irá mostrar-lhe exactamente o mesmo.

Se quer mais amor, ame-se mais. Se quer mais aceitação, aceite-se mais. Se se amar e respeitar a partir do mais profundo do seu ser, irá atrair a si o mesmo nível de amor e respeito.

Exercício

A Sombra Humana

O objectivo deste exercício é identificar e libertar a energia

emocional tóxica. O foco da sua atenção é o perdão. O seu objectivo é libertar qualquer emoção que esteja bloqueada –

raiva, ressentimento, arrependimento, ou culpa. Os sentimentos que o impedem de se perdoar e perdoar outros.

Escrever um diário é uma maneira muito saudável de processar as suas emoções. Encoraja o que vai na sua mente a fluir para o papel. Permite que a toxicidade emocional do corpo e da mente se expressem livremente. Uma vez que permitamos que esta toxicidade exista sem qualquer juízo de valor ela é libertada.

Escolha um momento do dia em que não seja interrompido. Desligue os telemóveis. Pode optar por ter uma música de fundo suave, umas velas acesas, um incenso a arder. Crie o ambiente ideal para si.

Com os olhos fechados, imagine-se dentro de um elevador e carregue no botão que o levará até ao quinto andar. Quando a porta se abre dá por si num maravilhoso jardim. Enquanto olha para as flores, as árvores frondosas, e tudo o que um jardim maravilhoso possa conter, dá-se conta de uma cadeira

num lugar perfeito para você descansar e relaxar. Vá até essa cadeira, sente-se, respire fundo. Depois pergunte-se a si mesmo as questões a seguir e permita que as respostas fluam até si. Depois de cada resposta, abra os olhos, escreva

no seu diário e regresse ao mesmo lugar.

1. Que história criei eu sobre quem sou de verdade e que explica as circunstâncias da minha vida actual?

2. Que ressentimentos, velhas feridas, raivas, ou arrependimentos transporto ainda no meu coração?

3. Quem é a pessoa na minha vida que eu ainda não quis perdoar?

4. O que tem que acontecer para que eu me perdoe e perdoe os outros?

Faça depois uma lista das pessoas que tem que perdoar e escreva-lhes uma pequena carta. Se a sua lista for muito grande, escreva cartas a todas as pessoas nessa lista. Aquilo que não terminar agora, nunca poderá dar por completo mais

tarde!

O que precisa de dizer a si mesmo para estar em sintonia

com a sua vida neste momento? Diga-o mil vezes ao dia! (E escreva-o no seu diário!)

Escreva uma carta de perdão a si mesmo. Faça uma lista das três pessoas que mais admira. Escreva depois três

qualidades que admira nelas. Faça depois uma lista geral com

as nove qualidades. Verifique novamente a lista de qualidades

que encontrou no início deste capitulo e anote aquelas que não consegue identificar em si. Adicione estas qualidades ás nove iniciais.

Pegue agora nesta lista e sente-se em frente a um espelho. ”

Repita a afirmação até

deixar de sentir qualquer resistência interior. Escolha abraçar uma ou duas qualidades por dia. Se ficar preso a uma qualidade, e incapaz de a aceitar, passe à qualidade seguinte

e regresse a essa mais tarde.

Olhe-se nos olhos e afirme “Eu sou

Descobrir o dom

Antes de lhe mostrar uma forma de descobrir o seu dom é

importante distinguir entre dom e propósito de vida. O seu dom é uma qualidade: a compaixão, o amor incondicional ou

a alegria. O seu propósito é a maneira como escolhe expressar o seu dom e partilhá-lo com o mundo.

Vamos falar mais um pouco da sombra humana. Faço-o para que desperte mais rapidamente para o seu dom. A nossa sombra é feita de tudo aquilo que rejeitamos nos outros. Isso penso que já sabe. Mas a MINHA sombra é aquilo a que eu reajo de maneira inapropriada no comportamento dos outros.

A Sombra Humana

Preste atenção à sua volta. Ás pessoas com quem convive diariamente. Quando alguém fala da classe politica de uma maneira inapropriada, por exemplo (as faces ficam coradas, gesticula muito, a voz sobe de tom, etc.). Recorde-se apenas de uma situação em que duas pessoas discutem. Normalmente a que levanta mais a voz e aponta mais o dedo não só é a que não tem razão mas, há uma forte probabilidade de estar a fazer aquilo de que acusa o outro. Deixo-lhe um exemplo que me aconteceu há alguns dias apenas.

Um senhor enviou-me um email a criticar-me, a chamar-me de “pessoa sem escrúpulos” e que andava a roubar os outros ao não oferecer gratuitamente o “meu dom”. Porque, dizia ele, eu devia partilhar em vez de andar a “sacar” dinheiro aos outros. As suas palavras incriminadoras mostraram-me automaticamente onde estava a sua sombra. Pelas palavras utilizadas soube que ele andava a “vigarizar” e a roubar outros. Este é o problema da nossa sombra: não vemos que já estamos a fazer aquilo de que acusamos outros. O meu amigo João Bizarro, que estava ao meu lado quando recebi o email, foi pesquisar o autor do email na net e ambos nos rimos com o que ele descobriu: este senhor apanha calhaus que encontra à volta do Santuário de Fátima e vende-os na net como possuindo a energia de Cristo. O preço de cada pedra? 150 mil euros! Não estou a brincar! É mesmo para dizer “a nossa sombra é fo**d*!” (entretanto, para os mais curiosos, o João contactou este senhor através do seu site e, imediatamente tudo desapareceu!).

Por outro lado é mais que óbvio que este senhor não me conhece minimamente.

As palavras proferidas não me afectaram. Enquanto lia o email limitava-me a sorrir. Não me disse nada que não soubesse. O que as pessoas não parecem compreender é que só conseguimos ver nos outros aquilo que está já em nós. Como é que pode saber o que é o egoísmo se ele não estiver já em si?

Tenha cuidado da próxima vez que levantar a voz e apontar o dedo: é de si que está a falar.

Muitas pessoas dizem-me ter medo do Caminho da Sombra.

E há motivos para ter medo. É um processo que mete medo

pelo simples facto de que iremos estar frente a frente com os nossos medos, culpas, vergonhas, raivas e demais emoções tóxicas. Mas há muitos benefícios a recolher. Por detrás de cada evento doloroso, por detrás de cada segredo que guardamos, há um tesouro à nossa espera.

Se está a ler estas linhas e tem filhos com menos de dez anos, pedia-lhe que prestasse um pouco de atenção a cada um deles. Atenção verdadeira. Irá descobrir que o seu filho já sabe o que você gosta, o que o faz sentir-se bem e aquilo que você recompensa e castiga. Preste atenção e irá ver que o

seu filho faz e diz algumas coisas apenas para lhe agradar. Já está a construir a sua sombra. Crie um ambiente de apoio emocional e questione os motivos do seu filho. Diga-lhe qualquer coisa como “eu não fico magoado contigo, tu és meu filho e eu amo-te. Para mim não importa o que fazes ou deixas de fazer, porque gosto de ti como és.” Esta é uma forma de criar um ambiente de apoio com o seu filho. Seja sincero, as crianças sabem quando os adultos estão a fingir.

E depois pergunte-lhe porque fez algo que lhe agradou a si.

As crianças são muito mais inteligentes do que nós pensamos. Irá ver no seu filho uma preocupação para lhe agradar.

É aqui que a educação emocional é importante. Saber em que

situações mentir é saudável. Saber em que situações ser idiota é saudável. Saber que é normal sentir raiva e a mesma

deve ser expressa de uma maneira saudável. Por favor se é uma pessoa moralista (estas pessoas possuem as sombras mais densas e pesadas) aviso-o de que há situações em que mentir é saudável. Pense um pouco. Não viva em piloto automático.

A Sombra Humana

O nosso dom pode disfarçar-se através de uma atitude que

detestamos nos outros. Se, por exemplo, não suporta as pessoas que estão sempre bem-humoradas, é muito provável que o seu dom seja precisamente a alegria. E o seu propósito pode muito bem ser ensinar, se não gosta de professores.

Para descobrir o seu dom faça o seguinte exercício:

Arranje um tempo para si, em que não será perturbado. Coloque uma música calma se gostar, e queime um incenso. Faça isto apenas se gosta de criar um ambiente para meditar, porque não tem que fazer nada!

Comece por respirar fundo, com calma. Com cada inspiração sinta-se a ir mais dentro de si. E com cada expiração sinta os músculos a relaxar.

Imagine que está dentro de um elevador e sobe 20 andares. À medida que vai subindo sente-se mais leve e descontraído. Imagine um aroma a flores dentro do elevador à medida que

se aproxima do vigésimo andar.

Quando chega ao vigésimo andar e as portas do elevador se abrem dá por si numa nuvem. Esta bela e suave nuvem é um

lugar sagrado. O lugar onde é possível você encontrar-se com o seu Eu Superior, a sua Alma. Caminhe calmamente sobre a

Quando a encontrar

observe o seu aspecto

nuvem até encontrar a sua Alma

Que sentimentos lhe transmite?

Pergunte-lhe o que tem para lhe dizer

sua alma, ouvir as suas palavras de sabedoria

Permita-se ouvir a

Pergunte-lhe por que motivo todas as suas experiências nesta vida, até este momento, têm sido perfeitas e o têm ajudado no processo de realizar o seu propósito divino na Terra

Pergunte-lhe ainda qual a sua qualidade mais divina

Será o

amor?

A compaixão?

A aceitação?

O perdão?

A

sensibilidade?

Qual

a

qualidade

que

lhe

é

mais

fácil

expressar?

Aquela que brota de si sem qualquer esforço?