Você está na página 1de 22

1

1 Boas vindas: Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br Quando o assunto é Psicologia, é

Boas vindas:

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

Quando o assunto é Psicologia, é comum a confusão entre termos e expressões que erroneamente são utilizados pelo senso comum. Por exemplo:

a) “Fulano não tem personalidade” – algum tipo de personalidade a pessoa tem. Um psicólogo não utiliza esta expressão;

b) “Fulana é histérica” ou “Fulano é neurótico” – histeria e neurose são estruturas clínicas da Psicanálise. Apenas por um comportamento não se pode determinar se uma pessoa é histérica ou neurótica.

Existem outros, mas estes são os mais comuns.

Outros cuidados que precisamos ter:

a)

Não rotular pessoas;

b)

Não permitir ou dar ‘consultas informais’ do tipo: “o filho do primo de um amigo teve este comportamento. O que você acha que é? Tem algum diagnóstico?”;

c)

E se a consulta for pessoal: “está acontecendo isto comigo

”.

Cuidado, às vezes

a pessoa precisa de um tratamento e se ela acha que faz terapia informal com você pode estar na verdade mascarando o problema em vez de buscar ajuda profissional;

d)

Verificar a abordagem teórica e os conceitos de cada abordagem para não confundir os objetos de estudo de cada uma. Por exemplo, o conceito de mística para Lacan é um conceito diferente para a Psicologia, em geral, e também para o senso comum;

e)

Cuide de suas questões pessoais para não misturar com as questões alheias.

AULA I INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA

Senso Comum e Ciência

Existe um domínio da vida que pode ser entendido como vida por excelência: é a vida do cotidiano. É no cotidiano que tudo flui, que as coisas acontecem e nos sentimos vivos. Por exemplo, quando atravessamos uma rua não usamos calculadora ou fita métrica para calcular se conseguiremos atravessá-la. Este tipo de conhecimento acumulamos ao longo do tempo, quando nossos pais e outras pessoas nos ensinaram a atravessar. Isto é senso comum. Este foi apenas um exemplo, mas existem várias outras coisas que herdamos do senso comum, inclusive valores, preconceitos e comportamentos e que nos distanciam de uma vida plena e também da Ciência.

2

2 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br A Ciência compõe-se de um conjunto de conhecimentos

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

A Ciência compõe-se de um conjunto de conhecimentos sobre fatos ou aspectos

da realidade (objeto de estudo), expresso por meio de uma linguagem precisa e rigorosa. Esses conhecimentos devem ser obtidos de maneira programada, sistemática e controlada para que se permita a verificação de sua validade. Assim, podemos apontar o objeto dos diversos ramos da ciência e saber exatamente como determinado conteúdo foi construído, possibilitando a reprodução da experiência. Dessa forma, o saber pode ser transmitido, verificado, utilizado e desenvolvido.

Esta característica da produção científica possibilita sua continuidade: um novo conhecimento é produzido sempre a partir de algo anteriormente desenvolvido. Negam- se, rreafirmam-se, descobrem-se novos aspectos e assim a ciência avança. Neste sentido, a ciência caracteriza-se como um processo.

A ciência teme ainda uma característica fundamental: ela aspira à objetividade.

Suas conclusões devem ser passíveis de verificação e isentas de emoção, para assim,

tornarem-se válidas para todos.

Objeto específico, linguagem rigorosa, métodos e técnicas específicas, processo cumulativo do conhecimento (em alguns casos, isto não se aplica) e objetividade fazem da ciência uma forma de conhecimento que supera em muito o conhecimento espontâneo do senso comum. Esse conjunto de características é o que permite que denominemos científico a um conjunto de conhecimentos.

Objetos de Estudo da Psicologia

A psicologia possui diversos objetos de estudo, visto que o pesquisador ou

cientista pode se confundir com o objeto a ser pesquisado, já que está inserido na mesma categoria a ser estudada: o ser humano. Por exemplo, o objeto de estudo da Astronomia são os astros, da Biologia, os seres vivos, entre outras ciências. Isto permite que seja possível manter uma distância entre os objetos pesquisados e o cientista. No caso da Psicologia, a proximidade é muito maior entre o objeto de estudo e o cientista.

Assim, a diversidade de objetos da Psicologia é explicada pelo fato de este campo do conhecimento ter-se constituído como área do conhecimento científico muito recentemente, em relação a outras ciências (final do século XIX). Por exemplo, a filosofia já existia há muito mais tempo enquanto preocupação com as questões humanas.

A Subjetividade como Objeto de Estudo da Psicologia

3

3 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br A Psicologia colabora com o estudo da subjetividade

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

A Psicologia colabora com o estudo da subjetividade: é essa a sua forma

particular, específica de contribuição para a compreensão da totalidade da vida humana.

Assim, a “matéria prima” da Psicologia é o homem em todas as suas expressões:

o homem-corpo, homem-pensamento, homem-afeto, homem-ação e tudo isso está sintetizado no termo subjetividade.

A subjetividade é a síntese singular e individual que cada um de nós vai

constituindo conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida

social e cultural: é uma síntese que nos identifica, de um lado, por ser única e nos iguala, de outro lado, na medida em que os elementos que a constituem são experienciados no campo comum da objetividade social. Esta síntese a subjetividade

é o mundo de ideias, significados e emoções construido internamente pelo sujeito a

partir de suas relações sociais, de suas vivências e de sua constituição biológica; é também, fonte de suas manifestações afetivas e comportamentais.

O mundo social e cultural, conforme vai sendo experienciado por nós, possibilita-nos a construção de um mundo interior. São diversos fatores que se combinam e nos levam a uma vivência muito particular. Nós atribuímos sentido a essas experiências e vamos nos constituindo a cada dia.

A subjetividade é a maneira de sentir, pensar, fantasiar, sonhar, amar e fazer de

cada um. Por exemplo: gosto de futebol, não gosto de futebol, faço isto ou faço aquilo,

concordo com isto ou não concordo com aquilo, etc.

Entretanto, a síntese que a subjetividade representa não é inata ao indivíduo. Ele

a constrói aos poucos, apropriando-se do material do mundo social e cultural, e faz isso ao mesmo tempo em que atua sobre este mundo, ou seja, é ativo na sua construção. Criando e transformando o mundo (externo), o homem constrói e transforma a si próprio.

A forma de se abordar a subjetividade e mesmo a forma de concebê-la,

dependerá da concepção de homem adotada pelas diferentes escolas psicológicas (por exemplo, Cognitivo Comportamental, Gestalt, Psicanálise, Psicologia Analítica, entre outras).

AULA II - A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE NA IDADE MÉDIA E NO RENASCIMENTO

4

4 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br O enfrentamento da diversidade cultural e da

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

O enfrentamento da diversidade cultural e da fragmentação do mundo:

procedimentos de construção de si

A nova valorização do ser humano e a imposição de que ele construa sua existência e descubra valores segundo os quais viver, aliada a toda dispersão e fragmentação do mundo, levarão à tentativa de criação de mecanismos para o domínio e formação do eu. É na formação desses procedimentos – “modos de ser” – que poderemos começar a reconhecer os rumos que levarão à Psicologia.

Impõe-se ao homem, a partir de agora, escolher o seu caminho. Essa escolha implica em uma construção da identidade; o homem deve dominar a dispersão que o mundo é. Por exemplo:

- Na Idade Média era relativamente difícil explicar como era possível ser responsabilizado por pecar: se a pessoa não era livre e apenas cumpria os planos de Deus, como responsabilizá-la?

- No Renascimento Deus fez o homem livre para que ele possa ser julgado; ele pode escolher um bom caminho e ser recompensado por isso, mas pode ser desviado dele por tentações e dispersões e o mundo renascentista oferecia estas dispersões em grandes quantidades, e então, ser responsabilizado por isso. Assim, a questão passa a ser: o que eu devo ser? Como devo me formar? Em termos psicológicos, como construir uma identidade?

Assim, um exemplo concreto de procedimento adotado no século XVI para a constituição de uma identidade coesa que não se deixasse levar pela dispersão partiu do pensamento religioso de Santo Inácio de Loyola que criou procedimentos para a afirmação da identidade sobre a dispersão do sujeito, guiando-o de volta a Deus.

Santo Inácio converteu-se já adulto e havia sido militar. Uma das características que impôs a seu sistema foi a disciplina. Ele partiu do mundo renascentista, mas constatando a perdição do homem, a sua proposta foi mostrar-lhe o caminho de reencontro com a ordem. Segundo suas ideias, o homem é livre para ser o que é e parece estar perdido; ele precisa e pode dirigir sua livre vontade ao caminho correto para se encontrar. Ele precisa de um manual de instruções, uma técnica para dirigir sua ação.

Obs.: Consultem exemplos dos “Exercícios Espirituais” de Santo Inácio no excerto que enviei do livro A Construção do Eu na Modernidade pgs. 38 e 39

Resumindo, Santo Inácio contribuiu para propor que a liberdade humana é reconhecida apenas para se lhe atribuir a causa da perdição humana. Curiosamente, a

5

5 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br salvação implica justamente em abrir mão de forma

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

salvação implica justamente em abrir mão de forma absoluta dessa liberdade, transferindo-a à autoridade religiosa com toda a boa vontade e determinação. A submissão do sujeito deve ser absoluta, esse é o preço a pagar pelo repouso de uma certeza sem conflitos. Exige-se disciplina, dedicação e sobretudo, que se abra mão da própria experiência imediata em favor da palavra da Igreja.

Os exercícios de Santo Inácio duravam 28 dias e se ao final, o praticante não chegasse à iluminação, isto não se deveria a uma falha do método, mas à pouca fé e à fraqueza da vontade do praticante.

O que é interessante em toda este histórico é que partiu daqui a inspiração para o surgimento da “Psicologia da autoajuda”. A crença na liberdade humana absoluta, que diz que podemos atingir quaisquer que sejam nossos objetivos, envolve um forte sentimento de culpa: se somos o que fazemos de nós, esta infelicidade na qual nos encontramos foi produzida por nós, nós a merecemos”. A premissa do título de um livro “Só é gordo quem quer”, poderia ser derivada em “só é pobre quem quer”, por exemplo. A única determinação reconhecida para nosso ser é a própria vontade; todas as determinações históricas, sociais, genéticas, são simplesmente negadas.

A cada época, a falta de sentido da existência mostra-se presa fácil das “autoridades de plantão” a nos oferecer um manual de como viver. Mais importante do que esta produção, é a percepção de como a modernidade parece implicar neste sentimento de vazio e cria a demanda por nos formarmos continuamente.

Processos de Construção do Eu

A influência na Música

Por conta da Reforma Protestante, a Igreja Católica, com o objetivo de resgatar seus fiéis investiu no processo de Contra Reforma. Com o Renascimento, o estilo uníssono do canto gregoriano deu lugar às vozes harmonizadas, mas disciplinadas de forma a compor um todo equilibrado. Neste sentido, houve também a influência de Santo Inácio de Loyola a partir do momento em que se buscou a ordem dentro da diversidade.

Mas este processo de harmonização não surgiu de uma hora para outra, houve toda uma evolução de contexto para que a harmonia surgisse. E deste movimento, já para o fim do século XVI surgiu o gênero da “música sacra”.

6

6 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br É importante notar que é comum, após todo

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

É importante notar que é comum, após todo um período de grande repressão,

caminhar para o lado oposto até se encontrar um equilíbrio. Isto ocorre não apenas em termos sociais, históricos e culturais, mas também subjetivos.

A influência no Gênero Literário

Ao oposto de Santo Inácio que acreditava na construção de um mundo harmonioso, mas ao mesmo tempo mantendo uma postura de afirmação do eu, surgiu a obra de Maquiavel 1 : O Príncipe. Esta obra aborda uma série de pontos indicando como governar. Ou melhor: como um príncipe deve ser? Como deverá ser seu “eu”?

A grande preocupação de Maquiavel, na época, era a fragmentação da Itália e

sua invasão por bárbaros. Assim, para ele seria necessário a imposição de um sujeito forte. Basicamente, o princípio de Maquiavel era de que o mundo (neste caso, o povo) é volúvel e volta-se para aquilo que representa seu interesse imediato sem memória, egoísta e mau. Assim, para ele, o governante não teria outra opção a não ser afirmar-se

pela força, criar alianças mais pelo temor do que pelo amor, como única forma de estabelecer uma unidade em meio à dispersão. O valor, em primeiro lugar, deveria estar em um poder centralizado. Para tanto, não há que se ter vergonha por fazer qualquer coisa neste sentido, mesmo matar aqueles que são considerados uma ameaça ao poder. O princípio ético seria a afirmação do poder.

Por conta de sua obra, Maquiavel foi considerado como imoral e desumano (de seu nome surgiu o adjetivo “maquiavélico”, que significa ardiloso, maldoso). Mas ao analisarmos sua obra em um contexto em que a crise da fé em um poder transcendente ameaçava uma dissolução em todos os sentidos, torna-se compreensível sua postura.

Obs.: Consultem exemplos da obra de Maquiavel no excerto que enviei do livro A Construção do Eu na Modernidade pgs. 43, 44 e 45

Resumindo, tanto Maquiavel quanto Santo Inácio, mesmo com afirmações opostas, já que Maquiavel propunha um mundo sem ideal, no qual a imposição do sujeito se fazia necessária através de uma concepção naturalista e egoísta do homem, ambos apresentaram a proposta de que era importante investir na afirmação do sujeito através de procedimentos radicais e estreitos.

Outros movimento surgiram também nesta época na tentativa de criticar, desmistificar ou propor novas formas de constituição do eu, mas também em um âmbito

1 Historiador, poeta, diplomata e músico italiano da época do Renascimento. Conhecido como pai da política moderna. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolau_Maquiavel

7

7 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br social, cultural. Através da arte, com peças

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

social, cultural. Através da arte, com peças apontando para comédias, dramas, entre outros gêneros, percebe-se a urgência do momento.

Foi aí que René Descartes surgiu com seu Dircurso do Método, propondo um único método de investigação capaz de estudar vários objetos relacionados a todas as áreas e em todos os sentidos. A partir do lugar do homem como centro do universo, Descartes deduzirá a existência do corpo e de outros “eus”, mas em primeiro lugar, deduzirá a existência de Deus. Descartes era matemático e filósofo. Segundo Descartes havia uma existência prévia de um eu absoluto que seria a origem de todas as coisas.

A grande importância da obra de Descartes está no fato de que embora sua afirmação sobre a existência de Deus, de um eu abosoluto e perfeito do qual todos os

homens imperfeitos vieram é que ele dizia que esta fonte estava no próprio eu. Ou seja,

o homem o carrega dentro de si, ao contrário da visão da Igreja que depositava todo o conhecimento na Instituição.

Assim, desde Descartes, só será considerado verdadeiro aquilo que passar pelo crivo da razão humana. O lugar da verdade é o eu e não mais os textos ou os representantes do sagrado (como vimos no parágrafo anterior). A Modernidade se ergueu diante da descrença progressiva da possibilidade de acesso imediato a qualquer transcendência.

A Loucura como Desrazão

Foi apenas no século XVII que surgiu a forma atual de relação com a loucura. De certa forma, a caracterização da loucura surgiu neste século. Claro que muito antes existiam pessoas alucinadas e que agiam com violência. Mas antes do século XVII e principalmente em culturas não ocidentais, a forma de se compreender o que se passava com estas pessoas era bem diferente.

Não havia o medo que se tem hoje do louco ou a ideia de que loucura seria uma doença. Em determinadas culturas, o louco poderia ser visto como um visionário, como aquele que transcende a experiência imediata, entra em contato com outra dimensão da verdade e ao retornar, comunica aos demais. Poderia também ser considerado um possesso pelo demônio, ou simplesmente, um bobo. O principal é observar que até o século XVII, a perda da razão por um homem não produzia o efeito de medo que passou

a gerar. Por que ocorreu esta mudança de paradigma?

No mundo medieval, a garantia sobre a ordem do mundo e todas as suas certezas era dada por algo externo ao próprio homem, ou seja, a Deus. Se um homem perdesse a razão, isto era problema dele não afetava aos demais. Quando, no Renascimento, a

8

8 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br referência mudou para um “eu pensante”, qualquer

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

referência mudou para um “eu pensante”, qualquer coisa que pudesse colocar em questão a lucidez e a estabilidade do eu, seria tomada como altamente ameaçadora. A partir daí toda a estabilidade do mundo passou a ficar em jogo na identidade do eu. Assim, foram criados mecanismos para afirmá-lo ou defendê-lo, iniciando as contenções.

Obs.: referência de obra sobre tema é o livro A História da Loucura, de Michel Foucault.

Percebam que ao longo da história e de cada contexto cultural e social, surgiram novas formas de buscar uma identidade, ou seja, de se construir uma estrutura do “eu”. Para vocês refletirem: Quem sou eu?

AULA III - A CRÍTICA ÀS APARÊNCIAS

Os Moralistas do Século XVII

O termo ‘moralista’ tem um sentido próprio em nosso contexto. Na medida em que a referência moral gradativamente vai deixando de ser a Igreja e a própria concepção de autocontrole 2 refere-se cada vez menos a Deus, é na própria sociedade que se produzirão normas e mecanismos de vigia sobre seu cumprimento. Os moralistas são, neste contexto, pessoas dedicadas à observação do comportamento humano e, no que diz respeito ao controle do comportamento, que mantêm alguma relação com os procedimentos de controle a que nos referimos através de Santo Inácio e aos manuais de boas maneiras nascidos no século XVI. Talvez os moralistas sejam os primeiros a merecerem o título de “psicólogos”, não pelo procedimento científico, mas pela observação acurada sobre os costumes e motivos humanos.

Trata-se também de uma série de autores que procuraram codificar as regras de conduta do ser humano. O termo ainda se aplica a autores que denunciam as hipocrisias e farsas na ação de muitos homens. Dois desses moralistas, tomando-se dois caminhos de certa forma opostos, foram La Fontaine (das fábulas, por exemplo: a cigarra e a formiga) e La Rochefoucauld.

La Fontaine tem uma obra conhecidíssima como fabulista, mas erroneamente, hoje sua obra é associada exclusivamente à literatura infantil. É certo que ele pretendia atingir adultos também, com o seu humor eventual e a referência a determinadas figuras sociais o atestam. Suas fábulas costumam conter uma ‘moral da história’, de conteúdo edificante. Ele procura mostrar como comportamentos considerados bons moralmente

2 É assim mesmo que escreve: autocontrole

9

9 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br (hoje diríamos, politicamente corretos) são

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

(hoje diríamos, politicamente corretos) são recompensados, enquanto que os maus são punidos. Há assim, por trás de sua obra uma determinada concepção de certo e errado que ele procura impor. É nesse sentido de formação moral que ele passou a ser lido para crianças.

A utilização frequente de animais como personagens serve para disfarçar um pouco a crítica a determinados grupos ou pessoas que, por vezes, expõe ao ridículo. No conjunto, parece que o que ele realmente pretendia era uma reforma ou formação da moral do eu. Exemplo de outra fábula:

O Leão e o Rato

Certo dia, estava um Leão a dormir a sesta quando um ratinho começou a correr por cima dele. O Leão acordou, pôs-lhe a pata em cima, abriu a bocarra e preparou-se para o engolir. - Perdoa-me! - gritou o ratinho - Perdoa-me desta vez e eu nunca o esquecerei. Quem sabe se um dia não precisarás de mim?

O Leão ficou tão divertido com esta ideia que levantou a pata e o deixou partir.

Dias depois o Leão caiu numa armadilha. Como os caçadores o queriam oferecer vivo ao Rei, amarraram-no a uma árvore e partiram à procura de um meio para o transportarem.

Nisto, apareceu o ratinho. Vendo a triste situação em que o Leão se encontrava, roeu as cordas que o prendiam.

E foi assim que um ratinho pequenino salvou o Rei dos Animais.

Moral da história: Não devemos subestimar os outros.

La Fontaine, apesar do tom irônico de suas fábulas, não atacava ninguém diretamente, o oposto de La Rouchefoucauld, que levava sua crítica a um ponto crucial.

Sua forma de expressão foi a ‘máxima’, um texto pequeno, em geral de um único parágrafo que funciona como um provérbio. La Rouchefoucauld escreveu uma centena delas, mas suas ideias apontavam para o seguinte foco: o principal motor da vida humana é sua vaidade, ou seja, o amor a seu próprio eu. Exemplos dos provérbios de La Rouchefoucauld:

“Nossas virtudes são, o mais frequentemente, apenas vícios disfarçados.”

10

10 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br “Por mais descobertas que se façam no país

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

“Por mais descobertas que se façam no país do amor próprio, restam ainda terras desconhecidas.”

“A moderação foi tornada uma virtude para limitar a ambição dos grandes homens e para consolar as pessoas medíocres de sua pouca fortuna e de seu pouco mérito.”

“Se há homens cujo ridículo jamais apareceu, é porque não se procurou bem.”

“O que torna a vaidade dos outros insuportável é que ela fere a nossa.”

“A maior parte das mulheres honestas são tesouros escondidos, que estão em segurança apenas porque não são procuradas.”

A ideia é basicamente a mesma: o amor próprio como principal motor de nossa ação. Neste sentido, o ‘eu’ não seria neutro, como pretendia Descartes, mas sempre interessado e desejante. Esta concepção colocou em risco o projeto científico.

O Público e o Privado

A partir da disposição do “eu” como centro do mundo no século XVII, considerado o século de inauguração da Modernidade, derivaram-se diversos caminhos da formação de nossa experiência atual. Acompanhar todos estes caminhos ao longo dos séculos seguintes é quase impossível, de forma que só poderemos apontar algumas das tendências que conduziram à Psicologia.

Um dos temas mais clássicos na história do século XVIII foi o da relação entre as esferas pública e privada. Como o “eu” passou a ser tomado com centro do mundo: a própria essência do homem foi identificada à sua racionalidade e consciência. O “eu” pode acreditar-se como sendo a totalidade da experiência humana; tudo o que não se identificasse a ele seria tomado como loucura. Não era admissível a referência a algo que habitasse um espaço fora do eu.

No século XVII o “eu” deixará de ser tomado como totalidade e cada vez mais tomará o aspecto de uma apresentação social, uma autoimagem cultivada e civilizada que encobre algo mais que habita e constitui as pessoas e que elas procuram manter em segredo.

Este será o espaço da privacidade que só foi tornado possível desde que a crença em um Deus onipresente e onisciente deixou de dominar a experiência do homem ocidental. A privacidade abarcará todo um universo de desejos e pensamentos

11

11 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br antissociais que devem ser ocultos pela etiqueta e

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

antissociais que devem ser ocultos pela etiqueta e pelas boas maneiras. O filósofo inglês Thomas Hobbes afirmava que o que interessava ao Estado era manter o controle sobre as ações dos homens, mas seu pensamento poderia permanecer em total liberdade.

A Modernidade assiste a uma dessacralização do mundo e à imposição de valores cada vez mais pragmáticos e fundados no homem. Daí derivam várias imagens caricaturais sobre este século. Ao mesmo tempo em que é considerado o século das luzes, com os desdobramentos do racionalismo cartesiano (de Descartes), é também o século do artifício. Por exemplo, as roupas da corte são altamente rebuscadas, cheias de adereços e armações, de forma que dificilmente se pode saber o aspecto real do corpo que o veste. Floresce também neste período cada vez mais a etiqueta e a multiplicação das regras de conduta que, em geral, servem para que se estabeleça uma hierarquia e uma precedência entre as pessoas.

Por exemplo, o romance Ligações Perigosas (que virou filme em 1987), talvez represente ao máximo o distanciamento entre a construção e a manutenção de uma imagem social e o universo perverso oculto sob as máscaras. Seu formato é de uma troca de cartas (um artifício comum na época) dando ao leitor a impressão prazerosa de estar invadindo um território privado e assim, proibido. O autor afirma que havia uma finalidade didática em mostrar como acabam as pessoas más, No entanto, tudo isso soa como um disfarce do autor para amenizar a ironia com que descreve os jogos de poder e vaidade únicos valores presentes na corte.

O Marquês de Sade

A referência ao romance citado acima leva a outro autor cuja obra revela o fim da possibilidade de buscar uma fundamentação para a moral apoiando-se na fé ou na crença em um Deus transcendente. Desmascarando, assim, alguns aspectos da natureza humana.

O século XVIII é conhecido como o século das Luzes (do Iluminismo), o século em que a razão, livre de qualquer coerção moral ou religiosa, estendeu-se sobre todo e qualquer objeto, inclusive sobre si mesma, interrogando-se sobre seus limites enquanto pertencente, como outro fenômeno qualquer, à grande referência do século: a natureza. Sade “esticou as cordas” dos princípios iluministas com relação à moral que seus questionamentos parecem ter rompido com todos os quadros de referência da época.

A sua obra A Filosofia na Alcova, trata de uma “obra pedagógica” que tem por objetivo educar uma jovem bem disposta a percorrer os melhores caminhos para a obtenção de prazer. Nas primeiras lições, os instrutores deparam-se com uma certa

12

12 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br resistência da aluna que se contrapõe à educação

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

resistência da aluna que se contrapõe à educação recebida de seus pais. Cada princípio moral apresentado pelo seu pai é contraposto pelo seu mestre. Assim, no decorrer do texto, as ideias de que assassinato, incesto, estupro, assalto ou qualquer forma de satisfação sexual devem ser evitados em nome da moral acabam por se desmanchar diante de uma argumentação implacável que caminha sempre no mesmo sentido.

Por exemplo, em certo ponto de suas aulas, a jovem (Eugénie) pergunta a seu mestre (Dolmancé) se não haveria diferença entre o bem e o mal. A resposta do mestre é definitiva:

Estas palavras de vício e virtude nos dão apenas ideias

puramente locais. Não há nenhuma ação, por mais singular que você possa supô-la que seja verdadeiramente criminosa, nenhuma que se possa realmente chamar virtuosa. Tudo está em razão de nossos costumes e do clima que habitamos, o que é crime aqui frequentemente é virtude a umas cem léguas de distância e as virtudes de um outro hemisfério poderiam ser crimes para nós. (p.79)

] [

Para Sade, todo princípio moral universal é uma ilusão. Não existe um juiz transcendente que sustente uma conduta necessária. Se a virtude se apoia na religião, ela não se apoia em nada, pois Sade sustentou a ideia de que Deus não existe. Para ele, a felicidade não pode ser buscada em uma referência externa, mas nos caprichos da imaginação, contra os quais nenhum limite possui legitimidade para impor-se. Sade ultrapassou a todos os limites da moral permitindo assim, um “elogio ao crime”.

Segundo ele, se saíssemos por aí mostrando nossos desejos pelo mundo, seríamos presos ou mortos, o que seria estúpido. Ele pregava uma hipocrisia social:

quando em público, devemos jogar o jogo social, pagar impostos, cumprir com nossas obrigações civis e mantermos um comportamento adequado a nossa cultura; porém, quando retirados à vida privada, não haveria qualquer motivo para que abríssemos mão de qualquer um de nossos desejos. A alcova é o lugar preservado para o crime. O pensamento de Sade é amoral por desqualificar toda tentativa de fundamentar um critério absoluto de moral; depois dele a moral passou a ser fundamentada em valores propriamente ligados à convivência humana.

Segundo o pesquisador Luis Roberto Monzani, “o homem da Modernidade é dominado por seu desejo”. O homem sempre buscou o bem para si: na Idade Média, o bem era identificado com os ideais religiosos, únicos para todos. Com a perda destes

13

13 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br valores a busca do bem perde seu objeto

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

valores a busca do bem perde seu objeto absoluto e passar a ser a procura de um bem para si e ela toma a forma de busca pelo prazer.

Outro pesquisador, Starobinski tomou este movimento de busca pelo prazer da época (século XVIII) como uma celebração da liberdade humana. Monzani, no entanto, afirma que o homem não é dono deste desejo, sendo, pelo contrário, atravessado por peste. Daria-se, então, na Modernidade, o embate entre estas ordens de dissolução e as constantes tentativas de apropriação pelo “eu”, que mais desejaria não desejar.

Influência na Música Mozart

Esta oposição entre mundo público e privado pode ser ilustrada pela obra de Mozart. Ele trabalhou para a corte e devia fazer uma música que a agradasse. Boa parte de sua obra é composta por peças leves e relativamente fáceis de serem memorizadas e reproduzidas. Até hoje, é um dos músicos clássicos com temas mais conhecidos. Por outro lado, sua obra possui também momentos de inspiração profunda e densa, quase romântica que já exigem uma concentração maior do público.

Para Pesquisar:

o

subjetividade?

Qual

impacto

entre

as

ideias

do

mundo

público

e

privado

na

formação

da

AULA IV TEORIAS DA PERSONALIDADE 3

Ao longo da história, surgiram várias tentativas para explicar a criação do

mundo, de onde viemos, o motivo de estarmos aqui, entre outras questões. Inicialmente,

as tentativas criadas foram muito voltadas para crenças sobrenaturais, fornecendo

explicações não apenas para comportamentos e fenômenos relacionados aos seres

humanos, mas também à natureza.

Com o passar do tempo, a ciência também foi se organizando, e com o

surgimento da psicologia, criaram-se várias teorias com o objetivo de explicar as fases

de desenvolvimento do ser humano, no contexto individual, social e cultural.

3 queridos alunos, achei mais produtivo falar de um modo geral sobre interesses nas fases da vida, substituindo o tema que está na ementa sobre as Abordagens Psicológicas.

14

14 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br Assim, as diferentes teorias da personalidade se

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

Assim, as diferentes teorias da personalidade se diferenciam quanto à maneira com que explicam crescimento e desenvolvimento e ao valor que dão aos diferentes fatores que desempenham um papel nesse processo. Por exemplo:

Fatores genéticos e biológicos

Fatores psicológicos - a história pessoal do indivíduo, experiências de vida

Fatores ambientais - cultura, classe social, família, entre outros.

Fases do Desenvolvimento Humano e Interesses

Apesar da diversidade de teorias, existem alguns pontos comuns a vários teóricos. Para explicitar alguns conceitos e períodos, será utilizado o trabalho do psicólogo norte- americano Erik Erikson. Segundo ele, o desenvolvimento humano pode ser divididos em oito fases:

O primeiro ano de vida === Confiança X Desconfiança Durante o primeiro ano de vida a criança é substancialmente dependente das

pessoas que cuidam dela requerendo cuidado quanto à alimentação, higiene, locomoção, aprendizado de palavras e seus significados, bem como estimulação para perceber que existe um mundo em movimento ao seu redor. O amadurecimento ocorrerá de forma equilibrada se a criança sentir que tem segurança e afeto, adquirindo confiança nas pessoas e no mundo.

Dos 2 aos 3 anos === Autonomia X Vergonha e Dúvida

Neste período a criança passa a ter controle de suas necessidades fisiológicas e responder por sua higiene pessoal, o que dá a ela grande autonomia, confiança e liberdade para tentar novas coisas sem medo de errar. Se, no entanto, for criticada ou ridicularizada, desenvolverá vergonha e dúvida quanto a sua capacidade de ser autônoma, provocando uma volta ao estágio anterior, ou seja, a dependência.

Dos 4 aos 5 anos === Iniciativa X Culpa

15

15 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br Durante este período a criança passa a perceber

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

Durante este período a criança passa a perceber as diferenças sexuais, os papéis desempenhados por mulheres e homens na sua cultura, entendendo de forma diferente o mundo que a cerca. Se a sua curiosidade “sexual ” e intelectual natural for reprimida e castigada poderá desenvolver sentimento de culpa e diminuir sua iniciativa de explorar novas situações ou de buscar novos conhecimentos.

Dos 6 aos 11 anos === Construtivismo X Inferioridade Neste período, a criança está sendo alfabetizada e frequentando a escola, o que propicia o convívio com pessoas que não são seus familiares. Isto exigirá maior socialização, trabalho em conjunto, cooperação e outras habilidades necessárias em nossa cultura. Caso tenha dificuldades, o próprio grupo irá criticá-la, passando a viver a inferioridade em vez da construtividade.

** Dos 12 anos 18 anos === Identidade X Confusão de Papéis O adolescente experimenta uma série de desafios que envolvem suas atitudes com ele mesmo, com seus amigos, com pessoas do sexo oposto, amores e a busca por uma carreira e profissionalização. À medida que as pessoas à sua volta ajudam na resolução dessas questões, desenvolverá o sentimento de identidade pessoal.

Caso não encontre respostas para suas questões pode se desorganizar, perdendo a referência.

Jovem Adulto === Intimidade X Isolamento Nesse momento o interesse, além de profissional, gravita em torno da construção de relações profundas e duradouras, podendo vivenciar momentos de grande intimidade e entrega afetiva. Caso ocorra uma decepção, a tendência será o isolamento temporário ou duradouro.

Meia Idade === Produtividade X Estagnação

Pode aparecer uma dedicação à sociedade a sua volta e realização de valiosas contribuições, ou grande preocupação com o conforto físico e material.

Terceira Idade === Integridade X Desesperança

16

16 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br Se o envelhecimento ocorre com sentimento de

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

Se o envelhecimento ocorre com sentimento de produtividade e valorização do que foi vivido, sem arrependimentos e lamentações sobre oportunidades perdidas ou erros cometidos haverá integridade e ganhos, do contrário, um sentimento de tempo perdido e a impossibilidade de começar de novo trará tristeza e desesperança.

** Com relação à adolescência, atualmente se considera o período e o contexto social em que os adolescentes nasceram e estiveram inseridos. Desta forma, foram criadas algumas divisões para classificar os interesses e valores nesta fase. Assim, fica fácil entender que um adolescente do século XIX, com certeza terá características diferentes de um adolescente do início do Século XXI, ou dos anos 50, 60 ou 90. Daí ter surgido uma nova classificação utilizando-se letras:

Geração X filhos do pós 2ª Guerra. Com data de nascimento entre 1960 e 1980;

Geração Y entre 1980 e 2000;

Geração Z a partir de 2000. Preocupados com tecnologia e também com questões ligadas ao meio ambiente, alimentação, qualidade de vida. São mais conscientes de seu papel social.

Linguagem Verbal e Não Verbal Apesar de existir um consenso entre as fases de desenvolvimento e interesses relacionados a cada uma, existem alguns pontos que precisam ser destacados, pois podem existir casos de pessoas que estejam emocional e/ou psicologicamente presas a uma determinada fase e com isto, apresentam dificuldades em avançar em sua vida, de um modo geral, seja no âmbito pessoal, profissional, afetivo, social, cultural e também espiritual. Desta forma, nem sempre, em um momento de descontentamento, frustração ou decepção, a pessoa externa claramente o que se passa em seu interior. Mas através de determinados comportamentos e condutas é possível perceber que algo não está bem.

17

17 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br Diante deste fato, cada líder precisa estar atento

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

Diante deste fato, cada líder precisa estar atento a este tipo de linguagem (não verbal), pois dependendo da questão, a pessoa não consegue expressar ou dizer de forma clara o que está se passando e externando seus conflitos de outras maneiras. Por exemplo, um comportamento que, em um primeiro momento, é considerado como indício de rebeldia e falta de compromisso, pode ser um indicador não de irresponsabilidade, mas de um estado depressivo ou insatisfação; não necessariamente estar insatisfeito com os outros, mas algo relacionado a si mesmo. Para pessoas que trabalham com aconselhamento, desenvolver esta percepção de identificar que algo não vai bem com determinada pessoa, é muito importante.

A Percepção de Quem Fala e de Quem Ouve Segundo o Mini Dicionário Aurélio (2002, p.526), percepção significa ato, efeito ou faculdade de perceber, ou seja, adquirir conhecimento de, pelos sentidos, compreender, ouvir, ver bem, ver ao longe Líderes verdadeiramente comprometidos com a Palavra e a obra de Deus precisam estar atentos para o desenvolvimento da percepção, orando por discernimento para identificar aquilo que pode estar acontecendo com alguém sob sua liderança, sem se deixar interferir por suas próprias questões pessoais. Nós, seres humanos, somos o tempo todo confrontados com nossas ideias pessoais, maneiras de pensar e fazer, moldados por valores que recebemos e construímos ao longo do tempo. Deste modo, por vezes, podemos ser enganados por nossa própria percepção, esquecendo-nos que precisamos nos colocar diante de Deus para que Ele nos ajude a discernir o que verdadeiramente está acontecendo em determinadas situações. Buscar sabedoria e mansidão fazem parte do processo de desenvolvimento da percepção. Como cada um de nós tem uma formação familiar, cultural e social, é bastante comum surgirem conflitos em momentos de aconselhamento, pois mesmo que o líder procure usar de toda sabedoria e mansidão ao perceber que algo não está bem, a forma como uma palavra é recebida pelo outro, pode ser mal compreendida, gerando conflitos

18

18 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br ainda maiores. Daí a necessidade de se desenvolver

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

ainda maiores. Daí a necessidade de se desenvolver o cuidado, acolhimento, paciência e

compreensão durante momentos de crise ou dificuldade.

Da mesma forma, assim como o líder também está sujeito a modos diversos de

percepção, estar sob o discipulado de alguém que considere de sua confiança é muito

importante para o seu próprio crescimento. Este trabalho pessoal, consequentemente é

extensivo ao(s) grupo(s) pelo(s) qual(is) é responsável, gerando benefícios e

crescimento para todos.

Para Refletir: o que você considera um desafio na atualidade?

AULA V - RELIGIOSIDADE X ESPIRITUALIDADE: FENÔMENOS PSÍQUICOS OU ESPIRITUAIS? 4

A Distinção entre Religiosidade e Espiritualidade

Segundo pesquisa do IBGE, em 1980 o grupo conhecido como pessoas “sem religião” representava 1,6% da população brasileira. No ano 2000, passou a representar 7,3%. Estes dados estatísticos dizem respeito à população brasileira, no entanto, tal fenômeno é mundial. A característica marcante deste novo cenário se resume ao fato de que apesar de não estarem vinculadas a nenhum grupo religioso, as pessoas adotam formas pessoais de religiosidade, ou a uma busca pela espiritualidade (Dalgalarrondo,

2008).

a RELIGIOSIDADE além das crenças pessoais em um Deus ou poder superior inclui práticas institucionais, com a frequência a cultos envolvendo compromissos doutrinários de uma religião organizada.

a ESPIRITUALIDADE diz respeito a uma busca espiritual individualizada independente de qualquer outra forma de culto. Dá-se preferência a experiência espiritual direta em contraposição às práticas de culto das religiões institucionalizadas.

Para Philip Sheldrake, professor de teologia aplicada da Universidade de Durham,

Inglaterra, uma pessoa ‘espiritual’ era alguém que possuía o “Espírito de Deus”,

4 Este assunto foi tema da dissertação de Mestrado. Quem se interessar em aprofundar o assunto, o link para o acesso está no item Referências Bibliográficas.

19

19 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br geralmente referindo-se a membros do clero. No

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

geralmente referindo-se a membros do clero. No Segundo Conselho do Vaticano, este

termo foi redefinido tendo ligação com a teologia ascética e mística. Pessoas

espiritualizadas, então, passaram a ficar à parte de pessoas religiosas cujos estilos de

vida refletiam os ensinamentos de sua fé tradicional (SHELDRAKE, 2007, p.3). Alguns

exemplos de pessoas consideradas espiritualizadas e não religiosas: Teresa de Ávila,

São João da Cruz, Siddhārtha Gautama, Madre Teresa e Mahatma Ghandi (KOENIG,

2008, p.4-5).

Assim, atualmente, a ciência vem investigando alguns fenômenos que há algum tempo eram considerados como sintomas de transtornos psicopatológicos.

Por outro lado, alguns fenômenos, ainda considerados espirituais, estão relacionados ao psiquismo. Por exemplo, alguns tipos de sonhos e visões.

Freud, o criador da Psicanálise, investigou alguns casos que inicialmente foram considerados como fenômenos ocultos ou sobrenaturais, descobrindo que tais efeitos só foram produzidos pela existência de uma ligação afetiva muito forte entre os envolvidos.

Freud relatou que durante alguns anos efetuou algumas observações sobre o

“ocultismo” e abordou três casos no artigo Psicanálise e Telepatia, dois dos quais

possuíam natureza semelhante: os analisandos visitaram adivinhos profissionais cujas

profecias não se realizaram. No entanto, tais profecias causaram uma extraordinária

impressão naqueles para os quais foram anunciadas, inclusive em Freud.

Um dos casos tratados por Freud referia-se a uma paciente que possuía forte

identificação com a mãe. A moça não podia ter filhos em decorrência da esterilidade do

marido, e no início de um quadro depressivo o casal fez uma viagem a Paris. Nesta

viagem, o marido trataria de negócios enquanto ela procuraria se distrair. No saguão do

hotel em que estavam hospedados tomaram conhecimento da presença de um adivinho.

A paciente relatou a Freud que decidiu consultá-lo, mas antes de entrar em sua sala tirou

a aliança de casamento. O adivinho não formulava perguntas, mas pedia que os clientes

imprimissem a mão em um prato cheio de areia, e pela impressão deixada predizia o

futuro. Após estudar longamente a impressão da mão da paciente de Freud, o adivinho

20

20 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br disse que tudo ficaria bem para ela, que

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

disse que tudo ficaria bem para ela, que se casaria e por volta de 32 anos teria 2 filhos. Ao relatar o caso, mesmo com o comentário de Freud sobre a data da profecia referir-se há 8 anos atrás, a paciente mostrou-se impressionada com as ‘previsões’.

Ao analisar o caso, Freud constatou que o adivinho tivera acesso à história da mãe da paciente, que casara-se aos 30 anos e tivera 2 filhos aos 32. A profecia prometia à paciente a realização da identificação com a mãe, que constituíra o segredo de sua infância, e fora enunciado pela boca de um adivinho desconhecedor de todos os seus problemas pessoais, ocupando-se com examinar uma impressão deixada na areia.

Ao final do capítulo, Freud concluiu que apesar das profecias não terem se cumprido, os dados observados forneciam o melhor material a respeito da transmissão de pensamento e incentivou os leitores a analisarem casos semelhantes. Segundo Freud:

um desejo extraordinariamente poderoso, abrigado por determinada pessoa e colocado numa relação especial com sua consciência, conseguiu, com o auxílio de uma segunda pessoa, encontrar expressão consciente sob forma ligeiramente disfarçada (FREUD, 2000 [1921], Edição Eletrônica).

Em outro artigo, Sonhos e Telepatia, um dos sonhos analisados por Freud relacionava-se ao caso de um pai, cuja filha morava em uma cidade distante da sua e teria seu primeiro filho no mês de dezembro. Este pai e sua segunda esposa pretendiam visitá-la por ocasião do parto. Durante a noite de 16 e 17 de novembro, o pai sonhou que sua esposa havia tido gêmeos. No dia 18 de novembro recebeu um telegrama do genro com a notícia de que a filha tivera gêmeos e o nascimento acontecera exatamente no período em que ele estava sonhando.

Este senhor escreveu uma segunda carta a Freud, lembrando que não foi a primeira vez que teve percepções deste tipo. Contou, então, o caso do irmão mais moço que havia falecido há cerca de 25 anos e antes de abrir a carta que daria a notícia da morte, ele teve o seguinte pensamento: “é para dizer que meu irmão morreu”. Este

21

21 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br irmão era o mais jovem e o único

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

irmão era o mais jovem e o único que havia ficado em casa, pois ele e os três irmãos já

haviam saído de casa. Por ocasião da visita dos irmãos, a conversa girou em torno desta

experiência e os outros irmãos declararam ter-lhes acontecido a mesma coisa. Ele não

soube dizer se o processo se deu da mesma maneira para os demais irmãos, mas todos

declararam ter tido a certeza da morte do irmão mais novo antes de terem recebido o

comunicado oficial. O autor declarou que ele e os irmãos nunca foram inclinados ao

espiritismo ou ao ocultismo, muito pelo contrário.

Ao analisar o caso, Freud descartou qualquer possibilidade do sonho estar ligado

ao ocultismo, mas à telepatia. Pontuou o sentimento entre pai e filha, com relação ao

sonho dos netos gêmeos e a ligação afetiva entre irmãos que fez com que recebessem a

notícia da morte do irmão mais novo de modo não convencional.

Entre estes e outros diversos casos, Freud concluiu que a interpretação dos

Sonhos e a Psicanálise, de certa forma, conseguiram elucidar certos fenômenos que até

então eram considerados “ocultos”.

devemos ter com relação a

determinadas manifestações, supostas profecias que podem, na realidade, ser a

manifestação de um desejo inconsciente da pessoa e não necessariamente estar

relacionado a uma mensagem de Deus.

O que

quero ressaltar aqui é o cuidado que

Obrigada e que Deus abençoe a todos!!

Referências Bibliográficas

ASSIS, Denise. Transmissão Psíquica: Uma Conexão entre a Psicanálise e a Física. Disponível em:

<http://www.uva.br/mestrado/dissertacoes_psicanalise/transmissao-psiquica-uma-

22

22 Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I deniseassis@oi.com.br BOCK, Ana Mercês Bahia et al. Psicologia s

Seminário Básico de Teologia PSICOLOGIA I

deniseassis@oi.com.br

BOCK, Ana Mercês Bahia et al. Psicologia s (Uma Introdução ao Estudo a Psicologia). Ed.Saraiva, São Paulo, SP, 2001.

SANTI, Pedro Luis Ribeiro. A Construção do Eu na Modernidade. Ed.Holos, Ribeirão Preto, SP, 1998

SCHULTZ, Duane P. & SCHULTZ, Sydney Ellen. História da Psicologia Moderna. Ed.Cultrix, São Paulo, SP, 2007.

Mini Aurélio. Século XXI. Editora Nova Fronteira: 2002.