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244 PSICOLOGIA DA FAMÍLIA JOSÉ HENRIQUE BARROS DE OLIVEIRA ISBN: 978-972-674-683-6
244 PSICOLOGIA DA FAMÍLIA JOSÉ HENRIQUE BARROS DE OLIVEIRA ISBN: 978-972-674-683-6
244 PSICOLOGIA DA FAMÍLIA JOSÉ HENRIQUE BARROS DE OLIVEIRA ISBN: 978-972-674-683-6

PSICOLOGIA DA FAMÍLIA

JOSÉ HENRIQUE BARROS DE OLIVEIRA

ISBN: 978-972-674-683-6

José H. Barros de Oliveira

PSICOLOGIA DA FAMÍLIA

Universidade Aberta

2002

© Universidade Aberta

Capa de: João Madruga

Copyright ©

UNIVERSIDADE

Palácio Ceia • Rua da Escola Politécnica, 147

ABERTA – 2002

1269-001 Lisboa

www.uab.pt e-mail: cvendas@uab.pt

TEXTOS DE BASE (cursos fomais) N.º 244

ISBN: 978-972-674-683-6

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José Henrique Barros de oliveria Licenciado em Ciências da Educação pela Universidade Salesiana de Roma,

José Henrique Barros de oliveria

Licenciado em Ciências da Educação pela Universidade Salesiana de Roma, obteve o DEA em Psicanálise e o doutoramento em Psicologia pela Universidade de Paris VII. Fez a agregação em Psicologia pela Universidade de Coimbra.

É professor catedrático da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (grupo de Psicologia) onde rege a cadeira de "Psicologia da Educação" e é investigador do "Centro de Cognição e Afectividade" financiado pela FCT. Colaborou com a Universidade Aberta (Porto) leccionando "Filosofia da Educação" no Mestrado em Relações Interculturais. Tem dado diversos cursos no estrangeiro, particularmente no âmbito do programa Erasmus. Conferencista em muitos Congressos nacionais e internacionais de Psicologia.

Membro de várias Associações Científicas de Psicologia. Co-fundador e membro do Conselho Editorial da revista Psicologia, Educação, Cultura, indexada na APA. Exerce a Psicologia Clínica como serviço à comunidade.

Autor de mais de meia centena de artigos, particularmente na área de Psicologia da Educação publicados em revistas científicas portuguesas e estrangeiras. É ainda autor dos livros seguintes:

Freud e Piaget - Afectividade e Inteligência. Porto: Ed. Jornal de Psicologia (1991);

Professores e Alunos Pigmaliões. Coimbra: Almedina, (1992);

Inteligência e Aprendizagem - Funcionamento e disfunciona-mento. Coimbra: Almedina (1993);

Psicologia da Educação Familiar. Coimbra: Almedina (1994);

Filosofia, Psicanálise e Educação. Coimbra: Almedina (1997);

Viver a Morte - Abordagem antropológica e psicológica. Coimbra: Almedina (1998),

Psicologia da Religião. Coimbra: Almedina (2000);

Psicologia da Educação Escolar. I - Aluno - Aprendizagem (2.ª edição). Coimbra: Almedina (1999) (1.º autor com A. Barros)

Psicologia da Educação Escolar. II - Professor - Ensino (2.ª edição). Coimbra: Almedina (1999) (1.º autor com A. Barros);

Psicologia do Controlo Pessoal: Aplicações educacionais, clínicas e sociais. Braga: Instituto de Educação - Universidade do Minho (1993) (1.º autor com A. Barros e F. Neto).

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Psicologia da Família

Psicologia da Família

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Introdução

1.

Definição, história e avaliação da família

19

Definição de família

22

História da psicologia da família

25

Avaliação psicológica da família

PARTE I: O CASAL

2.

Existência conjugal: perspectiva desenvolvimental

37

Estádios de desenvolvimento do indivíduo

41

Ciclo vital do casal

45

Crises na evolução do casal

46

Condições de felicidade do casal

3.

O Amor, esse (des)conhecido

55

Teorias sobre a atracção interpessoal e escolha amorosa

58

Razões para casar e motivos de (in)felicidade

59

O amor na Bíblia

61

Estádios de desenvolvimento do amor

62

Tipologias do amor

65

Componentes do amor

67

Patologia do amor

4.

Harmonia e desarmonia sexual

75

Bio-psicologia diferencial do género

79

Sexualidade conjugal

80

Harmonia sexual e comunicação

5.

Doenças do casal – conflitos e divórcio

87

Processos de divórcio – decepção e reconciliação

89

Consequências dos conflitos e do divórcio nos pais e nos filhos

95

Agressividade e violência

96

Melhor prevenir do que remediar

PARTE II: PAIS E FILHOS (EDUCAÇÃO)

6.

Ser mãe/ser pai

106

O primogénito

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108 Filho único ou nenhum filho 111 A figura do pai   7. Educação, contínua

108

Filho único ou nenhum filho

111

A figura do pai

 

7.

Educação, contínua geração

122

Perspectiva desenvolvimental

127

Perspectiva diferencial

 

128

Perspectiva ecológica

 

132

Casos particulares de educação

8.

Estilos educativos parentais

141

Situação histórica

 

142

Amor vs. hostilidade

e

autonomia vs. controlo

145

Tipologias dos estilos educativos parentais

149

Implicações dos estilos educativos parentais

150

Autoconceito e inserção social dos filhos

152

Desempenho escolar

 

PARTE III: A FAMÍLIA E A SOCIEDADE

9.

A família e a escola

165

Convergência e complementaridade

170

Tipologias, modelos e mecanismos de defesa

172

Situação em Portugal

 

10.

Meios de comunicação social (televisão) e família

184

Influência da TV na escola e na família

185

Perspectiva dos pais e dos filhos sobre TV

11.

Famílias idosas

193

Aspectos humanos e psicológicos da 3ª idade

196

Luzes e sombras na 3ª idade

197

Reformados e avós

 

201

12.

Famílias disfuncionais

 

209

Bibliografia

 

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© Universidade Aberta Introdução

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Introdução

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A família ocupa, como célula-base da sociedade, um lugar imprescindível para o futuro da humanidade,

A família ocupa, como célula-base da sociedade, um lugar imprescindível

para o futuro da humanidade, pois no seu seio se marca primordialmente e indelevelmente cada criança e por isso o futuro do homem. Deve afirmar-se o lugar central ocupado pela família na construção da identidade individual e como centro do processo de auto-revelação, através de dois reveladores privilegiados: a conjugalidade e a parentalidade (e consequente filiação). A família é o Pigmalião através do qual se realizam as primeiras e mais importantes expectativas ou profecias de realização automática quanto ao futuro do indivíduo e da sociedade (cf. Barros, 1992; Singly, 2000).

Gozando a família de saúde, todo o corpo social se apresenta saudável; adoecendo a família, a sociedade cai também enferma. O mesmo se poderia dizer em sentido contrário. A família e a sociedade não funcionam como causa- efeito ou como variável independente-dependente, mas como variáveis interactivas ou moderadoras. Porém, a família precede a sociedade ou é a “sociedade” mais primitiva e nuclear. É ela que constitui o fundamento do edifício social ou a raiz da sociedade. Se o fundamento não é sólido, ou se a raiz é pouco profunda, toda a construção ou toda a árvore social ameaça ruína.

A família passa hoje por grave crise. Um inquérito realizado pelo Instituto

Francês de Opinião (publicado na Enciclopédia A vida do casal, Ed. Denoel, 1969) revelou que um ano após o casamento, 70% dos homens e 78% das mulheres se declaram decepcionados ou infelizes. Após dois anos, esta percentagem sobe para 80 e 85%, respectivamente, e depois de três anos para 89 e 90%. Nos finais da década de 70 havia cerca de 11% de divórcios na Europa (podendo atingir 20% nas cidades), mas nas nações mais evoluídas o nível médio geral era de 20%; portanto, em cada cinco casais, um divorciava. Hoje a percentagem é maior. Se tivermos em conta que muitos não chegam a

consumar o divórcio devido a razões religiosas ou morais, ao prestígio social,

à preocupação com as crianças ou por razões simplesmente económicas, pode

intuir-se a desagragação da família. Assim, uma das coisas mais importantes, senão a mais importante da vida, como é o matrimónio e a família, acaba, em muitos casos, por se tornar um fracasso. Deste modo, cada vez são maiores as

reticências em casar, acabando o par por se juntar provisoriamente (união livre), por se banalizar o adultério com o consentimento de ambas as partes, por viverem duas ou mais famílias juntas trocando de cônjuge, etc. Apesar disso,

a maior parte das pessoas ainda continua a casar-se e na esperança de nunca divorciar.

Na segunda metade do século XX assistiu-se a transformações mais ou menos rápidas e profundas no seio da família. Ao findar do século podia falar-se mesmo em convulsões ou então em agressões à família. Que acontecerá no século XXI, ora começado? Basta invocar a manipulação genética, a procriação assistida, os bancos de esperma, os úteros alugados ou as mães portadoras,

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enfim, toda a problemática relacionada com a procriação. Pense-se ainda nas novas formas de conjugalidade

enfim, toda a problemática relacionada com a procriação. Pense-se ainda nas novas formas de conjugalidade e de parentalidade, nas numerosas famílias

monoparentais, nas coabitações ou uniões de facto, nas separações e divórcios, nas famílias reconstituídas onde podem habitar filhos de dois ou três cônjuges diferentes, na permissão de ‘famílias’ homossexuais que reivindicam também

o direito de educar, no abuso sexual de menores, nos numerosos abortos, no

número crescente de filhos únicos, nas dificuldades acrescidas na educação, na desorientação dos jovens, na depressão e stress de pais e filhos, nas famílias sem pão e sem tecto. Enfim, estamos perante uma crise de identidade da família.

Passou-se rapidamente do modelo único de família nuclear para uma grande diversidade de padrões familiares. Esta mudança de paradigma significa uma ruptura na organização mais tradicional e mais antiga do mundo, o que não se fará sem consequências graves, como enfraquecimento das relações afectivas, pulverização dos centros decisores ou uma determinada ‘democratização’ onde

é difícil ter lugar a autoridade e a disciplina.

Sabe-se que uma das características do mundo actual é a mudança, mas não é

a mesma coisa mudar de hábitos alimentares ou de partido político que mudar

de figurino em estruturas ancestrais ou em valores que devem ser perenes. As diversas macrotendências (que não ‘modas’) apontadas pelos melhores analistas da sociedade contemporânea, como Toffler ou Naisbitt (cf. Carmo, 2000, pp.37-45), certamente que exigem também da família dramáticas mudanças e adaptações mas que não devem conduzir à sua fracturação ou pulverização sob pena do tecido social poder adoecer de ‘cancro’, como acontece no organismo humano quando as células entram num processo acelerado de desenvolvimento anárquico.

Aqui, como noutras instâncias sociais, a mudança tem de acontecer na

continuidade e não na ruptura, aproveitando o melhor do passado e integrando-

o no presente. No passado, o papel da família consistia fundamentalmente na

transmissão do património material e sobretudo espiritual (moral, axiológico, religioso, etc.) de uma geração à outra, enquanto hoje a família tende a privilegiar a construção da identidade pessoal, tanto nas relações conjugais como parentais e filiais. De certo modo, de uma família “vertical” passou-se a uma família “horizontal” e mais personalizada, ao serviço da promoção da pessoa em todas as suas dimensões e no respeito pelo outro (cf. Singly, 2000). Pode falar-se também da passagem duma família “patriarcal” a uma família “nuclear”, de uma família “parentocêntrica” a uma família “filiocêntrica”, de uma família mais “formal” a uma família mais “informal”, de uma família “estável” a uma família”instável” e em reconstrução contínua

A nível mais amplo, assiste-se a uma crise das instituições mais proximamente

ligadas com a família, como é o caso da escola, sem falar da crise de valores

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na “era do vazio”, do medo do futuro, ou doutros males, como o terrorismo, que

na “era do vazio”, do medo do futuro, ou doutros males, como o terrorismo, que afectam gravemente a sociedade de hoje e, por conseguinte, a família.

Até ao último quartel do século XX, os antropólogos, sociólogos, historiadores, filósofos e outros estudiosos não prestaram a devida atenção à instituição familiar. Porém, nas últimas décadas muito se tem escrito sobre este tema, a começar pelos antropólogos (cf. e.g. Ghasarian, 1996; Levi-Strauss, 1981; Levi-Srauss et al., 1977; em particular quanto ao incesto, cf. e.g. Crivillé et al. 1994; Lannoy e Feyereisen (1993; Lannoy e Feyereisen (Dir), 1996) e pelos sociólogos (cf. e.g. Bawin-Legros, 1988; Kaufmann, 1999; Segalen, 1981; Singly, 2000; Singly (Dir.), 1992). Note-se que muitos livros escritos sobre a família, mais no âmbito da sociologia, muitas vezes usam conceitos e conteúdos próximos da psicologia, como é o caso do sociólogo francês F. de Singly (1992, 2000), especialista na temática familiar.

A nós interessam particularmente os aspectos psicológicos da família, embora

não se possam olvidar os sociológicos, dado que a barca da família navega no mar mais amplo da sociedade, reflectindo a sua calma ou as suas tempestades que, por sua vez, também se devem aos ventos que sopram no interior das famílias.

Os psicólogos só muito recentemente se debruçaram sobre a família e o seu funcionamento. As grandes correntes clássicas - Psicanálise e Behaviorismo – pouco se interessaram pela família, a primeira porque se centrava quase que exclusivamente no indivíduo, o behaviorismo porque se interessava primordialmente pelos dados observáveis do comportamento. Todavia, Freud

e a psicanálise ortodoxa não desconheceram a problemática familiar. Mas foram

os psicanalistas posteriores que lhe prestram maior atenção, como Lacan (1978) que analisa diversos complexos (do desmame, da intrusão, complexo de Édipo) que podem ser geradores de neuroses e psicoses.

A psicanálise estudou a criança e os seus conflitos com os outros membros

familiares, particularmente com os pais (lembre-se o complexo de Édipo), mas não há propriamente uma teoria psicanalítica da família (cf. Tisseron, in Singly (Dir.), 1992, pp. 392-400). Também a psicologia do desenvolvimento em geral se interessou pela evolução cognitivo-afectiva da criança, contando com a sua interacção com os pais, particularmente com a mãe, nos primeiros tempos. Mas outros ramos da psicologia ignoraram durante muito tempo o estudo da dinâmica familiar, talvez porque inconscientemente não acreditavam nas potencialidades da família para o bem-estar da pessoa, ou ainda porque andavam exclusivamente absorvidos com a problemática escolar. Ao menos era de esperar que a Psicologia Social, atenta às interacções entre as pessoas, estudasse também este grupo particular e natural. Mas nem esta prestou grande interesse à família. Talvez uma das razões resida no facto de se tratar duma

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instituição muito particular e complexa, mas também pode estar presente o desinteresse a que votaram

instituição muito particular e complexa, mas também pode estar presente o desinteresse a que votaram esta célula fundamental da sociedade.

Porém, a partir da segunda metade do século XX, devido sobretudo às teorias sistémicas, a partir da escola do Palo Alto e da sua teoria do double bind, aplicado também à dinâmica familiar, o panorama foi mudando, sobretudo a nível clínico. A psicoterapia familiar de algum modo precedeu a psicologia da família. O novo paradigma sistémico começou por ser usado a nível clínico (não se concebendo o tratamento de um membro da família sem trabalhar também com os outros membros). Este novo modelo obrigou a interpretar de forma diferente o comportamento global da família ou a abordagem psicológica em geral, para além do tratamento clínico. Efectivamente, a abordagem mais frequente e a mais completa tem de ser a sistémica, dado a família ser considerada como um cacho de indivíduos indissoluvelmente inseparáveis, devendo ter-se uma visão compreensiva e global da situação (cf. Castellan, 1993, pp. 107-135; Relvas, 1996).

Apesar de podermos privilegiar a corrente sistémica no estudo da dinâmica familiar, bem como na terapia das disfunções que aparecem a nível familiar, não sognifica que outros ramos da psicologia não aportem o seu contributo, como é o caso da psicologia do desenvolvimento, da psicologia da personalidade, da psicologia social. Os métodos psicológicos em geral usados no estudo da personalidade e do comportamento humano – observação, uso de questionários e de testes, análise de casos, métodos correlacionais, métodos diferenciais, método (quase)experimental, bem como as diversas perspectivas psicológicas (biológica, evolucionista, cognitiva, sócio-cultural) (cf. Bourguigno, in Singly (Dir.), 1992, pp. 401-412; Pinto, 1990, 2001) são também aplicáveis ao estudo da complexa dinâmica familiar em situação normal ou em situações anormais ou particulares, como o divórcio, famílias monoparentais, etc.

Hoje, quer os psicólogos educacionais, quer os psicólogos sociais ou os psicólogos da personalidade, estão mais atentos à família, nas suas diversas vertentes e nas consequências que tem para o desenvolvimento integral das crianças e para a felicidade dos indivíduos, em geral. Nas últimas décadas os psicólogos têm-se remido de algum modo da negligência original e são numerosos os estudos sobre Psicologia da Família desde as mais diversas perspectivas. Talvez tenha contribuído para isso o facto de recentes estatísticas, a nível mundial e particularmente a nível da União Europeia, considerarem a família, juntamente com o trabalho e os amigos (cf. Expresso, 29.09.1995), como as coisas mais importantes para a felicidade das pessoas. Apesar do truísmo de que a família está em crise e de haver muitos que a consideram moribunda e lhe preparam o enterro, a verdade é que esta realidade, tão antiga quanto o homem, resiste, apesar das suas múltiplas expressões, e é hoje valorizada mais do que nunca.

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A imagem social que hoje se tem da família é de uma instituição em rápidas

A imagem social que hoje se tem da família é de uma instituição em rápidas e

profundas transformações, uma instituição em crise. É essa também a percepção que dela têm os jovens, segundo um estudo de Blagojevic (1989), embora se trate duma pesquisa num contexto muito particular (Belgrado). Os jovens (como

os adultos) vacilam entre percepções e expectativas positivas e negativas, entre

imagens idealistas e realistas, entre interpretações individualistas e colectivistas. De qualquer modo, apesar da crise, a instituição familiar resiste como grande factor de felicidade individual e de estabilidade social.

É abundante a literatura e mesmo os Manuais dedicados à Psicologia da Família,

sob os mais diversos aspectos (cf. e.g. Durning (Dir.), 1988; Fine, 1989; Frude, 1991; Gottman, 1979; Hinde e Stevenson-Hinde, 1990; Kaslow (Ed.), 1990; Kreppner e Lerner (Ed.), 1989; L’Abate (Ed.), 1985). Há livros menos exigentes do ponto de vista científico, sem deixarem de ser rigorosos, procurando compreender e interpretar melhor tudo o que se passa no âmbito familiar, de tentar reequilibrar e salvar as famílias em crise e de as fazer mais felizes. É o caso, por exemplo, do livro do psicólogo clínico Humphreys (2000) que se baseia fundamentalmente na sua experiência com muitas famílias no sentido de as tornar mais felizes. Outros estudos partem de trabalhos de campo, como é o caso de Touzard (1975) que procedeu a um inquérito psicossociológico a adolescentes sobre os papéis conjugais e a estrutura familiar. Depois da análise dos resultados o autor faz alguns considerandos e termina afirmando que “a criação duma família constitui o risco maior da aventura humana” (p. 129).

Na perspectiva educativa – uma das dimensões fundamentais da psicologia da família – os Manuais de Psicologia da Educação ainda se ocupam quase que exclusivamente da Psicologia da Educação Escolar, ou do ensino/ aprendizagem, dedicando eventualmente um capítulo à educação familiar, como

é a caso de Beltrán (Dir.) (1985), de Beltrán e col. (1990) ou de Hetzer (1974). Este último autor reconhece que a psicologia pedagógica se tem dedicado sobretudo aos problemas do ensino e da aprendizagem, enquanto “o comportamento e os processos anímicos em situações educativas familiares quase não têm sido objecto de investigação” (p. 397).

Tal desconsideração parece injusta, dado que a família condiciona todo o desenvolvimento da criança, a começar pelo desenvolvimento cognitivo e afectivo-motivacional, indispensável para o sucesso escolar. A menos que, a nível inconsciente, os psicopedagogos pensem como Freud, que desconfiava, por diversas razões (cf. Barros, 1987), das potencialidades da educação, em

geral, e da educação familiar, em particular. Conta-se que Freud terá respondido

a uma mãe que lhe pedia conselhos educativos: - “Faça como quiser; mas de

qualquer modo que faça, será sempre mal feito” (in Chiland, 1989, p. 83).

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Em Portugal, também os investigadores têm prestado pouca atenção à problemática familiar, embora haja estudos

Em Portugal, também os investigadores têm prestado pouca atenção à

problemática familiar, embora haja estudos meritórios (cf. e.g. Abreu, 1996; Abreu et al., 1990; Alarcão, 2000; Fontaine, 1990; Sampaio, 1994; Vaz Serra

et al., 1987a, 1987b; Veiga, 1988, 1989). Outros autores falam sobre a família

numa perspectiva mais psicoterapêutica (sistémica) (cf. e.g. Costa, 1994; Relvas, 1996,1999; Sampaio e Gameiro, 1992), ou então tratam de casos específicos, como o adolescente e a família (Cordeiro, 1979), novas formas de família (Gameiro, 1999), a violência na família (Costa e Duarte, 2000), ou consequências da ausência do pai (Malpique, 1998), para além de vários estudos no âmbito da psicologia do desenvolvimento. É igualmente de notar o número monográfico da revista Análise Psicológica (1992, nº 1) dedicado à temática familiar, em particular às relações parentais.

Não é fácil arrumar nem ordenar em alguns capítulos a complexidade temática da psicologia da família. Mas em geral, como acontece na revista Journal of Family Psychology, frequentemente encontra-se uma secção mais orientada à problemática do casal em si ou das relações conjugais, e outra mais dirigida à sua relação educativa com os filhos, para além de outros temas que têm a ver com a relação da família com outras instituições, como a escola ou os mass media, e ainda temas como a velhice e a família ou ainda diversas anomalias da família, como a violência (há mesmo uma revista especializada neste problema – Family violence), alcoolismo e drogas, depressão e suicídio, pares

homossexuais, etc. Assim, fundamentalmente, dividiremos o livro em três partes:

o casal – pais e filhos (educação) – a família e a sociedade. Um capítulo

introdutório, tenta definir o que se entende por família, traçar uma breve história da psicologia familiar e ainda referir alguns instrumentos de avaliação psicológica da família.

Dedico este trabalho introdutório, em primeiro lugar, a todos os casais, pois da qualidade da interacção conjugal depende em grande parte o ambiente familiar e a educação dos filhos (Bray e Berger, 1993; Kerig, Cowan e Cowan, 1993). Pensei outrossim nos profissionais da educação, designadamente nos professores, que têm de contar com a educação praticada na família e que interage com o comportamento e a aprendizagem dos alunos-filhos; os professores tornam-se (ou podem tornar-se), de qualquer forma, através dos alunos, educadores dos pais. O livro pode também ser útil a formadores de pais (escola de pais) e ainda a psicólogos da educação que na escola sentem os problemas da família e tentam a aproximação destes dois pólos educativos fundamentais - família-escola ou escola-família. O livro interessa ainda a todos os psicólogos, sociólogos, assistentes sociais e outros profissionais que lidam com a família, a sua promoção e os seus problemas. Mais directamente dirige- se aos estudantes que procuram introduzir-se na problemática do comportamento familiar.

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1. Definição, História e Avaliação da Família © Universidade Aberta

1. Definição, História e Avaliação da Família

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Objectivos de aprendizagem Este capítulo introdutório pretende levar os interessados no seu estudo a: •

Objectivos de aprendizagem

Este capítulo introdutório pretende levar os interessados no seu estudo a:

• Saber o que se entende por família e os elementos essenciais que a constituem, para além das diversas polémicas.

• Traçar os momentos principais por que passou o estudo e a investigação psicológica da família e os conteúdos da Psicologia da Família.

• Ser capaz de referir algumas técnicas ou instrumentos de avaliação psicológica da família e eventualmente de os aplicar.

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Antes de nos adentrarmos no estudo da psicologia da família, importa definir o que se

Antes de nos adentrarmos no estudo da psicologia da família, importa definir

o que se entende por cada um dos dois vocábulos que constituem este duo –

psicologia e família. Definir psicologia não é fácil, pois cada corrente ou autor

insiste nalgum aspecto, conforme a teoria ou escola onde se filia: um psicanalista insistirá nos processos inconscientes, um behaviorista no comportamento (manipulado) observável, um cognitivista nos processos mentais que subjazem ao comportamento, um fenomenologista e/ou humanista nas motivações e na dinâmica afectiva da pessoa. Mas, em geral, podemos definir psicologia, conforme a etimologia, como ciência da “psiquê” (alma, espírito), ou então como ciência do comportamento ou ciência da personalidade. Assim, psicologia da família seria o estudo científico do comportamento (e do que lhe está subjacente: expectativas, afectos, etc.) de cada um dos membros que constituem

o casal e a família, em contínua interacção: relação dos pais com os filhos e

vice-versa, ou com outros membros que incluem o núcleo familiar, e ainda a relação da família com o meio envolvente ou a sociedade onde se insere, numa perspectiva psicológica que tende a ser cada vez mais sistémica.

1.1 Definição de família

Mais difícil é definir o que se entende por família, dada a sua complexidade e actual mobilidade. A Marriage and Family Review dedicou um número do vol. 28 (1999) a tentar compreender os diversos conceitos e definições da família, perspectivando-a no século XXI, pois o seu conceito e estatuto foi mudando ao longo dos séculos e continua em mudança. Trata-se de um construto pluridimensional e multicultural, sendo diversificadas as vivências familiares conforme as diversas culturas, para além dos tempos. Enquanto, por exemplo, Holstein e Gubrium (1999) procuram definir a família a partir duma abordagem “construcionista social”, Bernardes (1999) afirma que não se deve definir a família, dado haver muitas classes de família.

Efectivamente, muito tem mudado o conceito de família nos últimos tempos. Basta pensar em tantas famílias constituídas por pai e madrasta (ou mãe e padrasto) onde convivem filhos naturais, meios irmãos, enteados; ou então famílias monoparentais, com a mãe ou o pai a viver só com o(s) filho(s); ou pensar no reduzido número de filhos, sendo muitos os casais que não têm nenhum ou apenas um; ou então no número crescente de separações e divórcios ou de uniões de facto que podem ultrapassar os casados religiosa ou civilmente; ou então admitir, mesmo politicamente, as ‘famílias’homossexuais em igualdade de circunstâncias com as famílias tradicionais.

Castellan (1993) afirma que o par fundador duma família é “um conjunto de duas pessoas que se unem com intenção de os cônjuges não sintam a

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necessidade de institucionalizar a sua união, distinguindo-se assim das díades de coabitação, apesar destas também

necessidade de institucionalizar a sua união, distinguindo-se assim das díades de coabitação, apesar destas também poderem ser duradouras. Fundar uma família compromete o futuro sobre dois planos: a auto-realização do casal e a sua realização através dos potenciais filhos, excluindo-se assim do conceito de verdadeiras famílias as uniões, mesmo que eventualmente duradouras, de duas pessoas de igual sexo, sem possibilidades de ter filhos naturais, apesar da lei lhes poder dar o direito de adopção.

Noutra obra, Castellan (1994), define a família como “uma reunião de indivíduos unidos pelos laços do sangue, vivendo sob o mesmo tecto ou num mesmo conjunto de habitações, e numa comunidade de serviços” (p. 5). A autora insiste novamente na duração desta relação. Mais adiante pergunta se a família é substituível ou insubstituível, respondendo que “a família natural não é nem substituível nem insubstituível, em princípio, o que permite vislumbrar uma fórmula familiar que vai alastrando: a família recomposta” (p. 115). Mas as mulheres têm mais dificuldade em constituir novas famílias e muitas destas falham novamente. Por isso é que a autora se pergunta ainda sobre a possível morte da família, havendo quem a advogue em benefício de outras formas de convivência, como comunidades diversificadas. Outros movimentos promovem o celibato e o não compromisso com outro cônjuge e com os filhos. Mas pondo-se a família tradicional em crise, pode estar em crise a própria humanidade, pois a diminuição de natalidade já atingiu, na Europa e no mundo ocidental (podendo ocorrer o mesmo, dentro em breve, no terceiro mundo), valores alarmantes. Por isso Castellan conclui que “a transmissão da vida é o problema colocado ao fim do milénio” (p. 119) e, acrescentamos nós, ao novo século e milénio.

Lévi-Strauss (in Levi-Strauss, Gough e Spiro, 1977) inicia um estudo sobre a família deste modo: “a palavra família é de uso tão comum, e refere-se a um tipo de realidade tão ligado à experiência quotidiana, que poderia pensar-se que este trabalho depara com uma situação simples” (p. 5). De facto assim não acontece e o estudo comparativo da família entre os diversos povos suscitou grande polémica entre antropólogos. Assim, na segunda metado do séc. XIX e no início do século XX, sob influência do evolucionismo, pensou-se que também a instituição familiar teria evoluído desde formas muito primitivas até às actuais onde prevalece a monogamia. Todavia, o estudo de povos primitivos veio provar que desde o início existiam instituições familiares semelhantes às actuais. Assim, facilmente alguns concluíram que “a família, constituída por uma união, mais ou menos duradoura e socialmente aprovada, de um homem, uma mulher e os filhos de ambos, é um fenómeno universal que se encontra presente em todos e em cada um dos tipos de sociedade” (p. 7). Mas trata-se de “posições extremas”, ambas pecando “por simplismo” (p. 7).

Facto é que houve muitos tipos de famílias, assistindo-se, por exemplo, a diversas formas de poligamia e poliandria, embora a monogamia já estivesse

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presente desde o início e se trate duma forma muito frequente. De qualquer modo, “o

presente desde o início e se trate duma forma muito frequente. De qualquer modo, “o problema da família não deve ser tratado de forma dogmática” (p. 13). Mas é pertinente – acrescenta Lévi-Strauss – construir um modelo ideal daquilo que pensamos quando utilizamos a palavra família e que serve para designar “um grupo social que possui, pelo menos, as três características seguintes: 1) tem a sua origem no casamento; 2) é formado pelo marido, pela esposa e pelos filhos nascidos do casamento, ainda que seja concebível que outros parentes encontrem o seu lugar junto do grupo nuclear; 3) os membros da família estão unidos por laços legais; direitos e obrigações económicas, religiosas e de outro tipo; uma rede precisa de direitos e proibições sexuais, além duma quantidade variável e diversificada de sentimentos psicológicos, tais como amor, afecto, respeito, temor, etc.” (p. 14).

No mesmo livro, o estudo de Gough (in Levi-Strauss, Gough e Spiro, 1977) que se debruça particularmente sobre a origem da família, diz que esta pode ser definida como “um par casado ou outro grupo de parentes adultos que cooperam na vida económica e na criação dos filhos, a maior parte dos quais, ou todos, residem em comum” (p. 46).

Silva e Smart (1999), no primeiro capítulo do livro editado por eles, afirmam que se assiste actualmente a um grande debate “epistemológico e moral sobre

o que a família é e sobre o que a família deve ser” (p. 1). Para alguns é fácil

definir o que a família deve ser: união de dois cônjuges heterossexuais residindo em comum em ordem à procriação e educação da prole. Neste sentido, tantos divórcios, famílias monoparentais ou sem filhos fazem pensar na decadência da instituição familiar com graves consequênas sociais. Mas outros consideram menos importante o casamento, a heterossexualidade, a residência comum, a educação dos filhos, não se preocupando demasiado com as mudanças radicais na família, admitindo antes novas formas de família. Os autores colocam-se -

a exemplo de outros autores, como Giddens (1992) e Beck e Beck-Gernsheim

(1995) - nesta perspectiva aberta a novas formas de constituição familiar, segundo o próprio título interrogante do livro: “a nova família?” A mudança dá-se entre a continuidade e a diversidade ou mesmo a rotura. Exemplo disso são as uniões de facto, mesmo entre homossexuais a quem é permitido também, em algumas nações, adoptar filhos. É evidente que tais novos modelos familiares não se fazem sem riscos mais ou menos graves que só o futuro porá em realce, quer para o casal, quer para os filhos, quer para a sociedade em geral, se admitirmos que a família, de uma forma ou de outra, continua a ser a célula- base do tecido social.

Há quem afirme que a família tradicional nuclear tende a desaparecer frente a famílias monoparentais, famílias adoptivas, famílias homossexuais, famílias comunitárias. Na realidade a família tradicional resiste, apesar de tantas agressões desde o exterior e do interior, e muitas das ‘novas’formas de ‘família’,

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mormente as famílias reconstituídas, constroem-se sobre o modelo tradicional. Em todo o caso é a

mormente as famílias reconstituídas, constroem-se sobre o modelo tradicional. Em todo o caso é a própria Organização Munidal de Saúde (1994) que amplia

o conceito de família ao afirmar que “o conceito de família não pode ser limitado

a laços de sangue, casamento, parceria sexual ou adopção. Qualquer grupo cujas ligações sejam baseadas na confiança, suporte mútuo e um destino comum, deve ser encarado como família”. Todavia, ampliando um pouco mais estes critérios quase poderíamos denominar família qualquer grupo humano.

Por isso, a nosso entender, deve continuar a considerar-se a família, como tradicionalmente se tem entendido, e a grande maioria das pessoas a entende, como casal estável, fundado no amor e na vida em comum, capaz de procriar e educar a prole. O próprio vocábulo “casal” aponta nesse sentido. Etimologicamente, “casal” provém do latim casa, que significa “cabana” ou “pequena quinta”, supondo-se que o casal vive sob o mesmo tecto. Em francês, couple tem na base etimológica o sentido de “reunir”, “juntar”, sendo o casal constituído pela união de duas pessoas. A habitação conjunta pressupõe uma relação privilegiada e duradoura que se expressa sexualmente, sendo potencialmente procriadora, supondo-se por isso que o casal é constituído por um homem e uma mulher.

1.2 História da Psicologia da Família

A revista Journal of Family Psychology dedicou, no vol. V (1992), um número

especial duplo (nº 3/4) à diversidade da psicologia contemporânea da família, procurando compreender, desde diversas perspectivas e autores, o que a psicologia da família é, para onde caminha e o que deve ser, conforme se lê na introdução de Liddle (1992a) que cita outro artigo seu sobre a “tarefa duma disciplina emergente e emergida” (Liddle, 1987) e também um artigo de Kaslow (1987) dando conta das “tendências na psicologia da família”, numa perspectiva do passado, do presente e do futuro. Liddle (1992b) descreve, em traços gerais, o “progresso e as perspectivas duma disciplina em maturação”, cuja expressão mais visível é, talvez, a terapia familiar, manifestação clínica da nova disciplina, cujo título – psicologia da família – também é recente (L’Abate, 1983). Não obstante, podemos encontrar muitos conteúdos ímplícitos, pertencentes a esta área, em revistas e livros sobre psicologia do desenvolvimento, psicologia da criança e do adolescente, psicologia social, psicologia da personalidade, etc.

Liddle (1992b) apresenta diversos desafios que no futuro se põem à psicologia da família, a começar pela diversidade temática com um grande leque de questões e perspectivas diversas, onde se podem ouvir as mais diversas “vozes”,

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segundo a metáfora de Kaslow (1990). Um dos problemas principais da psicologia da família é

segundo a metáfora de Kaslow (1990). Um dos problemas principais da psicologia da família é o fraco envolvimento programático que a caracteriza, dada a pouca atenção que a psicologia clássica académica lhe tem prestado,

mais centrada na terapia familiar do que nos diversos tópicos da psicologia da família. Porém, cada vez mais os autores procuram dar um estatuto científico

a esta nova ciência psicológica. Na verdade ela pode dar um contributo notável

para a compreensão e tratamento de tantos problemas que afligem a instituição

familiar, como a violência, o abuso sexual de crianças, o mal-estar e depressão

do casal, o abuso de drogas, etc.

Neste número especial do Journal of Family Psychology aparecem outros artigos, como o de Markman (1992) que pensa que a família tem um papel fundamental na defesa e promoção da saúde mental e que, através dela, é melhor prevenir do que remediar tantos males que afectam o casal e por isso também as crianças e a sociedade em geral. Daí os desafios que se colocam à psicologia da família a partir de diversas perspectivas, sem excluir a contextual e multicultural. Por sua vez, Gable, Belsky e Crnic (1992) pensam que a psicologia do desenvolvimento da criança andou durante muito tempo, ao menos até à década de 70, desfasada da família, mas que é nesse contexto que deve ser primordialmente integrada e estudada, pois que o funcionamento do casal, da educação e da família, em geral, afectam sobremaneira o desenvolvimento positivo ou negativo da criança.

O artigo de Pinsof (1992) tenta apresentar as componentes principais na

tentativa de encontrar um paradigma científico da psicologia da família, definida como uma ciência e profissão votada essencialmente a melhorar a qualidade

de vida da família. Este paradigma incorpora três elementos principais: a

componente sistémica, enquandrando a psicologia da família, do ponto de

vista epistemológico, dentro de outros sistemas humanos; a componente

integradora de todos os aspectos abrangidos pela psicologia da família, como

a dimensão cultural, sexual e terapêutica; a dimensão processual ou temporal, considerando a evolução da psicologia e da psicoterapia da família ao longo

do tempo.

Outra revista importante dedicada não apenas à família mas também ao casal em si, como indica o título, é Marriage and Family Review com números monográficos sobre diversa problemática matrimonial e familiar, como a paternidade e a maternidade, sexualidade na família, divórcio, famílias com padrasto ou madrasta, famílias migrantes, perspectivas interculturais, etc., e mesmo temas muito específicos como a medicina familiar, os novos movimentos ou cultos religiosos e a família, aspectos económicos (herança, negócios, etc.), casamentos mistos (interculturais), o stress social e a família, homossexualidade e relações familiares, obesidade e a família, comportamentos disruptivos (violência, prostituição, suicídio), a Sida e a família, o lazer na família, os computadores e a família, os animais domésticos…

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Kaslow (1991) debruçando-se sobre a arte e a ciência da psicologia da família, numa perspectiva

Kaslow (1991) debruçando-se sobre a arte e a ciência da psicologia da família, numa perspectiva retrospectiva e prospectiva, pensa que a psicologia da família se tem desenvolvido em extensão e profundidade, a ponto de hoje ser reconhecida, em muitas nações, como um ramo da psicologia. A família deve ser estudada a nível de microcélula, mas também a nível macrossocial, pois ela funciona como interface entre outros sistemas sociais. A psicologia da família deve abordar problemas teóricos e também metodológicos a nível das pessoas que a constituem mas também numa perspectiva holística ou ecológica.

Muitos livros com títulos ou referências à Psicologia da Família, na realidade tratam do psicólogo da família numa perspectiva essencialmente de intervenção clínica ou terapêutica. É o caso de Voices in Family Psychology, em dois volumes, editado por F. Kaslow (1990) onde uma série de psicólogos relatam as suas experiências pessoais ou investigações a partir das mais diversas “vozes”, teorias ou formações, onde prevalece a psicanálise e o behaviorismo mas também modelos mais integrantes e sistémicos, como diz Coleman na Introdução. O editor considera o livro como “um testamento do trabalho de várias dezenas de líderes teóricos, investigadores, professores/treinadores e clínicos que se classificam a si mesmos sob a ampla rubrica de psicologia familiar” (p. 13). Os dois volumes são arrumados duma forma histórica, distinguindo-se quatro “gerações” ou momentos de interpretação e prática da psicologia familiar, embora tal distribuição possa tornar-se um tanto “arbitrária”, como reconhece Kaslow no Prefácio (p. 12).

A ideia do livro partiu do empenhamento de Kaslow na 43ª divisão da APA, denominada precisamente “Psicologia da Família”, donde surgiu também a revista homónima Journal of Family Psychology, que apresenta como subtítulo “Revista da divisão da Psicologia da Família da APA (divisão 43)”. Esta revista apresenta uma grande variedade de temas. No início dos anos 90 havia muitos artigos sobre terapia familiar desde as mais diversas perspectivas, mas mais recentemente centrou-se principalmente em temas referentes ao casal em si (marital relationships), ou relacionados com a educação dos filhos (parenting) ou situações ’anormais’ da família, como a separação e divórcio, conflitos e violência, alcoolismo e drogas, depressão e suicídio, pares homossexuais. Há números ou secções especiais, por exemplo sobre adolescentes com problemas de drogas e outros (1996, 10, 1) ou com sida (1997, 11, 1) ou sobre famílias multiculturais (2000, 14, 3) com artigos sobre famílias chinesas, afro-americanas ou méxico-americanas, ou então sobre questões metodológicas (1995, 9, 2). Encontram-se também artigos sobre a violência familiar, mas há uma revista que trata expressamente deste drama – Journal of Family Violence – referindo-se à violência física, psíquica, sexual e outras formas mais ou menos expressas de violência exercida sobre as crianças, mas também sobre a mulher.

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Há periódicos que acentuam particularmente a vertente terapêutica, como Journal of Marital and Family Therapy.

Há periódicos que acentuam particularmente a vertente terapêutica, como Journal of Marital and Family Therapy. Para além das revistas, muita bibliografia sobre a família é especializada na terapia, como é o caso de The handbook of family psychology and therapy em dois volumes, editado por L’Abate (1985). No Prefácio, o editor realça a importância da família a quem os psicólogos no passado não prestaram a atenção devida nem se prepararam para intervir a esse nível. Felizmente a situação está a mudar e um exemplo disso é este Manual onde os mais variados especialistas cobrem as mais deversas áreas da vida familiar, desde pais a filhos, da vida do casal à educação. Na realidade sabemos pouco sobre o que acontece nas famílias, e desconhecemos ainda mais o modo como as coisas acontecem (I, p. 45). Muitos outros livros abordam a terapia familiar desde as mais diversas perspectivas e correntes, como é o caso do livro editado por Hahlweg e Jacobson (1984), fruto dum simpósio num Congresso Internacional sobre a terapia matrimonial behaviorista. Outros privilegiam abordagens psicanalíticas, cognitivistas, humanistas ou sistémicas.

Há livros que se debruçam particularmente sobre alguns problemas matrimoniais, numa perspectiva desenvolvimental, como é o caso de The developmental course of marital dysfunction, editado por Bradbury (1998), onde diversos especialistas estudam, a partir de trabalhos empíricos, algumas disfunções do casal ao longo da sua evolução, mas também outros aspectos como a comunicação, processos de acomodação, a felicidade, etc. Trata-se dum bom livro para compreender como é que o casal desenvolve a sua própria (in)felicidade, como promove ou deteriora as suas relações, a partir dos primeiros anos de casamento e mesmo já antes de casar. No campo clínico, muitos autores privilegiam uma abordagem sistémica, como é o caso de Relvas (1996), visto que na realidade a família é um organismo vivo e um sistema em evolução contínua, dependendo do tempo e de muitas outras circunstâncias, como é o aparecimento e crescimento dos filhos.

1.3 Avaliação psicológica da família

Sendo a família tão importante, é necessário dispor de instrumentos fidedignos e válidos de avaliação psicológica dos diversos aspectos do casal e dos filhos. Existem, por exemplo, escalas sobre os diversos estilos ou atitudes em relação ao amor (Neto, 1992, 2000) ou sobre os estilos educativos parentais (Barros, 1994). Mas há muitos outros instrumentos, particularmente questionários; infelizmente a maior parte não estão adaptados à população portuguesa.

Grotevant e Carlson (1989) têm um livro intitulado precisamente“Avaliação da família (um guia de métodos e medidas)” que constitui um precioso

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instrumento, quer para investigadores quer para terapeutas, sobre a avaliação da família nas suas mais

instrumento, quer para investigadores quer para terapeutas, sobre a avaliação da família nas suas mais diversas perspectivas, no conjunto das interacções pais-filhos, na avaliação do stress e do coping, etc., embora não apresente instrumentos mais precisos da interacção do casal em si. Como são diferentes as diversas abordagens da família, dependendo das diversas teorias psicológicas, também as ferramentas de avaliação são diversificadas, mas todas seleccionadas com rigor científico, umas dirigidas mais à observação através de agentes externos e outras à auto-avaliação ou auto-reportagem (questionários). Os dois processos têm as suas partes fortes e fracas. Ideal seria combinar os dois métodos. Os autores organizam cada escala dentro do mesmo esquema: informação geral, descrição do questionário, processos de administração, avaliação (fidelidade e validade), um breve sumário, referências fundamentais e ainda um eventual comentário. Pena é que, em apêndice, não sejam fornecidos ao menos alguns questionários, o que facilitaria o seu uso, dadas as dificuldades em ter acesso aos originais.

Em particular sobre os cônjuges, é conhecida a escala de satisfação matrimonial (ENRICH) de Fowers e Olson (1993) que procura avaliar a qualidade do amor entre o casal através de dez domínios. Outras escalas tentam avaliar principalmente a comunicação do casal em conflito, como a MADS de Arellano e Markman (1995) que encontram na sua escala suficientes qualidades psicométricas capazes de avaliar a comunicação entre o casal, designadamente em situações conflituosas, partindo da hipótese de que a maior causa de insatisfação do casal reside na sua incapacidade de lidar com os afectos negativos particularmente durante as discussões.

Podemos ainda apontar algumas técnicas de diagnóstico (e de terapia) da situação familiar, referentes particularmente às crianças, umas de ordem mais geral e outras mais específicas:

1) Técnicas gerais:

a) métodos directos, em particular a observação e os questionários. Embora pareçam instrumentos eficazes, são de valor reduzido, particularmente no caso de crianças, porque os sintomas apresentados são muitas vezes a tradução inconsciente e transferida dos verdadeiros problemas. A descrição dos sinais clínicos pode não ir ao fundo do problema. Interrogar as crianças também não nos traz muitas mais indicações, porque pode fornecer respostas inibidas e deturpadas pelo medo e pela angústia. Mesmo em clima de confiança, a criança não ousa traçar um quadro exacto. Interrogar os pais sobre os filhos também apresenta grandes limitações, pois eles podem deformar, consciente ou inconscientemente, a verdade, por ignorância ou por autodefesa, ou interpretá-la a seu modo. Mesmo o seu testemunho sincero pode não ser objectivo.

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b) a psicanálise : Se os métodos de abordagem directa são lábeis, pode lançar-se mão

b)

a

psicanálise: Se os métodos de abordagem directa são lábeis, pode

lançar-se mão dos processos indirectos, como a psicanálise. Fizeram- se muitas tentativas de a aplicar às crianças, polemizando M. Klein com A. Freud sobre o melhor processo (cf. M. Klein, 1982) Apesar

das diversas tentativas, é difícil a psicanálise infantil, porque não resulta

a

associação livre (é normal a mitomania nas crianças) nem a ‘via

régia’ da análise dos sonhos (a maior parte deles são pobres e uniformes de conteúdo: medo, desejo, culpabilidade );

c)

técnicas projectivas comuns. O Rorschach só é aplicável a partir dos 9

anos e o TAT a partir dos 11 ou 12, mas menos próprio para as crianças; por isso Bellak criou o CAT (com figuras de animais). O teste Szondi

é susceptível de muitas críticas.

2) Técnicas projectivas (para crianças):

a) técnicas visuais. Lydia Jackson criou o “Teste de atitudes familiares”, semelhante ao TAT de Murray, visando explorar as relações familiares da criança. Fulchignoni (in Porot, 1979), criticou os testes deste género com imagens fixas, preferindo usar o filme que ‘hipnotiza’ melhor a criança. Assim, criou o “teste fílmico dos canários” onde se projecta a vida de um casal de canários e depois se faz um inquérito às crianças. Parece interessante, mas é preciso dispor do material

b) técnicas verbais: histórias, fábulas. Melhor que um “tema livre” (que em geral dá indicações medíocres) são as “histórias sobre um tema dado” (já a mãe de Goethe lhe contava histórias até meio, que o poeta devia completar). Foi Backes-Thomas a primeira a utilizar

metodicamente a técnica das histórias a completar; são 10 histórias, 4 delas referindo-se às relações familiares. Luísa Duss em 1940 propôs

o método das fábulas a completar. Há também a prova dos 3 desejos:

pergunta-se à criança quais das 3 coisas gostaria mais de ver realizada

c) técnicas lúdicas: o jogo livre e espontâneo (os mesmos inconvenientes que o tema livre) ou a modelagem (mas com pouco valor no caso presente). O melhor são os jogos de bonecos (robertos, fantoches, marionetas) onde são espontâneas as identificações da criança com os diversos personagens ‘bons’ ou ‘maus’. Pode usar-se também o psicodrama de Moreno;

d) técnicas gráficas: o desenho livre, ou melhor sobre temas dados, particularmente sobre a família. Talvez o método de “desenha a tua família” seja o mais indicado, desde que o psicólogo esteja presente para se dar conta de quem é desenhado em primeiro lugar e outros

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pormenores, sobre os quais deve dialogar com a criança, mandar identificá-los, perguntar pelas personagens ausentes,

pormenores, sobre os quais deve dialogar com a criança, mandar

identificá-los, perguntar pelas personagens ausentes, etc. Normalmente, o personagem mais importante é colocado no plano superior (muitas vezes usa dois planos), à esquerda, e desenhado em primeiro lugar; atenção à grandeza, ao gesto, à falta de algum membro (não desenhar um braço pode ser minimizar o personagem, tirar-lhe as mãos pode

às cores, etc. É uma técnica simples, mas não se

significar castigo

deve entrar em interpretações ingénuas, sem ter em conta outras fontes de informação e uma experiência grande de interpretação. Graesser teve a feliz ideia de convidar a criança a desenhar a família sob a forma de animais, o que lhe permite expressar mais livremente os seus sentimentos (cf. Porot, 1979; Hetzer, 1974)

),

Muitos outros testes de diagnóstico ou de terapia se poderiam citar, a nível de inteligência ou de personalidade, particularmente na área dos projectivos, quer para adultos quer para crianças, como as figuras de Rosenzweig ou o “pata negra” (entre a muita bibliografia sobre o argumento, cf. e.g. Anastasi, 1973). Trata-se de instrumentos úteis, embora a ser usados com circunspecção e competência, para avaliação do comportamento de pais e filhos.

Resumo

Não se afigura tarefa fácil definir o que se entende por família, mas os autores insistem em alguns elementos essenciais, como a duração da relação, a vida em comum, a convergência de serviços, a heterossexualidade do casal capaz de procriar e educar a prole. Todavia hoje assiste-se a uma multiplicidade de novas formas de família. Em todo o caso, não se pode chamar família a qualquer encontro, mais ou menos duradouro, de duas ou mais pessoas. É necessário esclarecer as motivações e as finalidades e verificar a sua execução.

Durante muito tempo os psicólogos praticamente se alhearam da complexa problemática familiar. Por isso a história da psicologia da família conta ainda poucas décadas. Em compensação, actualmente assiste-se a um grande desenvolvimento da investigação e intervenção neste domínio.

Sendo a família uma instituição tão importante, ou mesmo a mais importante da sociedade, e tão complexas as situações e interacções que se verificam no seu seio, é necessário dispor de alguns instrumentos de avaliação e intervenção nas diversas situações. Há medidas sobre variados aspectos do casal e da parentalidade, mas poucas estão adaptadas para a população portuguesa.

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Interrogações e sugestões O que é que entende quando diz ‘família’? Aponte os aspectos ou

Interrogações e sugestões

O que é que entende quando diz ‘família’?

Aponte os aspectos ou elementos que julga essenciais para a constituição duma verdadeira família e os que reputa acidentais.

Indique algumas novas formas de família e tente avaliá-las criticamente.

Trace as linhas principais da evolução histórica da psicologia da família.

Para avaliar as diversas situações da vida familiar é necessário dispor de instrumentos adequados: Aponte diversas técnicas usadas para diagnosticar e eventualmente para intervir em várias situações conjugais e parentais.

Como sugestão, poderia fazer um breve inquérito a diversas pessoas, diversificando a idade, o sexo, a cultura e eventualmente a classe social, sobre o que é que as pessoas entendem por família, como a definem e o que julgam mais importante para a constituição duma verdadeira família.

Leitura complementar

Ao longo da exposição já foram citados vários autores e obras conforme os diversos temas e que podem ser consultados na bibliografia. Para aprofundar este capítulo introdutório, poderia consultar-se especialmente algum número monográfico da revista Journal of Family Psychology e/ou da Marriage and Family Review ou ainda algum Manual de Psicologia da Família, como o editado por L’Abate (1985).

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PARTE I

PARTE I © Universidade Aberta O Casal

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O Casal

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2. Existência Conjugal: perspectiva desenvolvimental © Universidade Aberta

2. Existência Conjugal: perspectiva desenvolvimental

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Objectivos de aprendizagem No final deste capítulo deve ser capaz de: • Compreender melhor os

Objectivos de aprendizagem

No final deste capítulo deve ser capaz de:

• Compreender melhor os estádios de desenvolvimento segundo Erikson.

• Apontar alguns estádios do ciclo vital do casal, segundo diversos autores.

• Comprender as diversas crises por que passa o casal e apontar algumas razões da sua ocorrência.

• Apontar alguns indicadores de felicidade ou de infelicidade do casal.

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A conhecida fórmula de Lewin (1951) pode servir para compreender o desenvolvimento da família: C=f(P,M):

A conhecida fórmula de Lewin (1951) pode servir para compreender o

desenvolvimento da família: C=f(P,M): o comportamento é uma função da pessoa e do meio ambiente envolvente. Swensen (1977) aplicou a fórmula à

relação entre as pessoas, a começar pela família: R=f(P1, P2…Pn)M: a relação

é função das diversas pessoas envolvidas e do meio ou situação onde se

processa a relação. Aplicando à família, a relação muda quando alguma pessoa

ou o meio muda. Assim, a família está sempre a mudar, não apenas devido ao

sucessivo desenvolvimento físico e psicológico de cada um dos seus membros, mas também pelas contínuas mudanças ambientais, devido a factores sócio- políticos, económicos, comunicacionais e outros (cf. L’Abate, 1985, I, pp.

73-101).

O melhor processo para compreender minimamente a família é usar uma

abordagem sistémica, como fazem diversos autores. Relvas (1996) tem-se dedicado particularmente à terapia familiar desde uma perspectiva sistémica, consciente de que “não se faz terapia da família; faz-se terapia com a família”

(p. 5). Efectivamente, a família (e por isso a terapia familiar) é entendida “como um sistema, um todo, uma globalidade, que só nessa perspectiva holística pode ser correctamente compreendida” (p. 10). Segundo Gameiro (1992) (in Relvas, 1996, p. 11) “a família é uma rede complexa de relações e emoções que não são passíveis de ser pensadas com instrumentos criados para o estudo dos indivíduos isolados (…) A simples descrição de uma família não serve para transmitir a riqueza e complexidade relacional desta estrutura”. Trata-se

de “uma só carne em pessoas separadas”, conforme título sugestivo de Skinner

(1976), certamente inspirado na Bíblia que afirma a união do casal para constituírem “uma só carne”.

O sistema familiar é muito complexo e sui generis, com características ou

propriedades particulares, onde o todo é maior do que a soma das partes, com diversos subsistemas (como o conjugal, o parental, o fraternal), sistema hierarquizado e aberto a outros sistemas (a outras famílias, à escola, à sociedade). Trata-se ainda dum sistema ou de um organismo vivo e em contínua evolução através do seu ciclo vital de desenvolvimento que vai desde o casamento, ou do momento em que o casal se conheceu, até à velhice e à morte, passando pelo nascimento do(s) filho(s), seu crescimento e casamento, com o consequente abandono do lar, até à reforma e ao envelhecimento progressivo do casal primitivo.

2.1 Estádios de desenvolvimento do indivíduo

Antes de falarmos propriamente das diversas fases de evolução por que passa

o casal, vejamos antes os diversos estádios de evolução do indivíduo. Muitos

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dos psicólogos do desenvolvimento humano, como Freud e Piaget, limitaram- se a estudar a evolução

dos psicólogos do desenvolvimento humano, como Freud e Piaget, limitaram- se a estudar a evolução cognitivo-afectivo-social das crianças e dos adolescentes, não nos esclarecendo sobre o desenvolvimento dos adultos e eventualmente dos idosos. Acontece que na família, antes de mais estão presentes adultos – o casal – que posteriormente passam a ser pais. Depois vêm os filhos que, em determinada altura, atingem também a maturidade. Por isso, é necessário compreender minimamente a evolução psicológica do adulto jovem, do adulto médio e do adulto idoso, uma vez que os noivos são pessoas adultas (ou ao menos deviam ser).

O sistema mais conhecido dos estádios de desenvolvimento que cobrem todo

o arco da vida, é o de Erikson (1950) que se inspira, para os primeiros estádios, em Freud. O autor descreve cada estádio como uma tarefa desenvolvimental que deve ser resolvida antes de se atingir o estádio seguinte, embora a tarefa

específica de cada estádio se possa prolongar nos outros. Erikson dá importância

à interacção social da criança com o meio e explica o desenvolvimento não

apenas em termos de sexualidade mas da personalidade em geral. Ele refere- se ao “princípio epigenético” ou potencial de crescimento. Inicialmente formulou o seu quadro de referência em termos de estádios de crises, fornecendo definições bipolares da crise de cada estádio. Mais recentemente, Erikson (1982) sugeriu que cada um destes opostos pode ser resolvido numa nova condição.

Erikson aponta oito etapas, cada uma delas implicando uma crise central (que pode resolver-se positiva ou negativamente) com tarefas concretas de desenvolvimento. Eis as diversas etapas descritas sucintamente e com alusões educativas:

- confiança básica versus desconfiança (1º ano - sensorial - oral): a criança tem necessidade de ganhar confiança em si e nos outros. Se as

suas necessidades são satisfeitas, sente-se confiante, segura, feliz e sociável (resolução: esperança); de contrário, pode gerar insegurança

e desconfiança com consequências nefastas no futuro;

- autonomia vs. vergonha e dúvida (2º ano - muscular - anal): transição do lactente, totalmente dependente da mãe, para o começo de certa autonomia e domínio do ambiente, embora dentro das normas (resolução: vontade). Se os pais impõem demasiadas exigências e ameaçam com castigos, a criança perde o sentido da independência e da auto-confiança;

- iniciativa vs. culpa (2-6 anos - locomotor - genital): neste período cresce

a busca da autonomia, que a locomoção facilita, bem como um maior

domínio linguístico. A criança toma iniciativas procurando impressionar os adultos. Se recebe apoio, redobra de confiança e ensaia

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novas iniciativas (resolução: finalidade); pelo contrário, se é acolhida com indiferença e punição, desenvolve

novas iniciativas (resolução: finalidade); pelo contrário, se é acolhida com indiferença e punição, desenvolve sentimentos de culpabilidade, inibição e medo;

- competência (mestria) vs. inferioridade (6-11 anos - latência): com a saída para a escola, a criança afasta-se mais dos pais em direcção aos coetâneos, o que lhe exige novas competências. Deve aprender a cooperar, a partilhar, a conviver, a trabalhar. Se a criança sai bem desta primeira grande experiência social sente-se mais motivada para novos progressos (resolução: competência); de contrário, desenvolverá sentimentos de inferioridade em relação aos colegas e baixará a sua auto-estima, o que dificultará tarefas futuras, particularmente a nível escolar. Para que a criança possa superar positivamente esta fase, é imprescindível não apenas a ajuda dos pais que também de outros agentes educativos, como os professores, que devem concentrar-se nalguns pontos: levar as crianças a aceitar a sua individualidade, não se comparando obsessivamente com os colegas mas consigo mesmas; procurar que adquiram uma atitude realista, aceitando quer as suas capacidades quer as suas limitações; ajudá-las a adquirir um bom auto- conceito de si mesmas, comunicando-lhes expectativas e feedback

positivos;

- identidade vs. confusão (difusão) (puberdade e adolescência). Nesta etapa Erikson destaca a crise de identidade, devido ao desenvolvimento

acelerado físico, cognitivo, afectivo, social. O adolescente interroga- se sobre a sua identidade, o sentido da vida, o seu futuro (resolução:

fidelidade). Muitos sentem-se confusos e desorientados sobre o que são e o que querem, podendo desenvolver ansiedade, confusão e insatisfação. Na verdade, neste período pode aumentar o insucesso escolar, mesmo em alunos relativamente inteligentes. Também aqui os educadores têm papel determinante na ajuda afectiva e efectiva aos adolescentes, constituindo-se em figuras de identificação e ajudando- os a superar a crise em direcção a um novo reencontro consigo mesmos

e com a sociedade;

- intimidade vs. isolamento (juventude). Na juventude e início da idade adulta o indivíduo consegue relações mais íntimas com os outros, sobretudo com pessoas de outro sexo. Se é ajudado e se superou bem as etapas anteriores, consegue relacionar-se positivamente e nutre sentimentos de confiança e autonomia; de contrário, encontrará maiores dificuldades em relacionar-se e tenderá a isolar-se;

- generatividade vs. estagnação (idade adulta): o indivíduo torna-se apto

a constituir família e a satisfazer as suas necessidades, sentindo-se

satisfeito consigo e com os outros; de contrário, pode marginalizar-se

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e sentir-se marginalizado, o que leva a baixar a sua auto-estima e a parar psíquica

e sentir-se marginalizado, o que leva a baixar a sua auto-estima e a parar psíquica e socialmente;

- auto-aceitação vs. desespero (3ª idade). Ao entrar na velhice, ou a pessoa aceita naturalmente o seu declinar e se adapta a essa nova etapa, que culminará com a morte, ou então revolta-se interiormente, vive amargurada e desesperada.

Erikson reserva apenas um estádio para a adultez propriamente dita. Outros autores, como Levinson e col. (1978) desenvolvem mais esta etapa da vida que se processa entre construções e mudanças de novas estruturas. Estes autores dividem em quatro estádios o desenvolvimento humano, distinguindo ainda subestádios:

- pré-adultez (do nascimento aos 22 anos, aproximadamente);

- primeira adultez (dos 17 aos 45 anos, sempre aproximadamente):

período de realização das aspirações juvenis, formação duma família

e obtenção duma posição no mundo adulto. Dominam as ambições e

paixões e também as exigências da família, do trabalho e da sociedade. Constam dela os subperíodos seguintes: 1) dos 17 aos 22 anos dão-se os primeiros passos no mundo dos adultos; 2) dos 22 aos 28 anos normalmente passa-se da família de origem para uma nova família constituída; 3) dos 28 aos 33 pode acontecer um tempo de crise na luta da vida e da família; 4) dos 33 aos 40 anos tenta realizar os sonhos, altura em que o trabalho e a família pedem o máximo; 5) entre os 36 e 40 é tempo de atingir os objectivos e tornar-se um membro senior no mundo; 6) dos 40 aos 45 anos assiste-se à transição da meia idade;

- adultez média (dos 40 aos 65 anos). Trata-se do grupo dominante na sociedade. A paixão da primeira idade adulta vai cedendo lugar à compaixão, reflexão e ponderação. A pessoa é menos tiranizada pelos conflitos internos e pelas exigências externas, podendo amar mais genuinamente a si e aos outros. Também aqui se podem distinguir diversas etapas: 1) dos 40 aos 45 a pessoa reavalia a vida, integra polaridades entre a juventude e a velhice, a destruição e a criação, a

masculinidade e a feminilidade, a adesão e a separação; 2) entre os 45

e os 50 entra-se na meia idade; 3) entre os 50 e os 55 constrói-se uma

nova estrutura de vida para a meia idade; 4) dos 55 aos 60 anos atinge- se o cume da adultez média construindo-se uma segunda estrutura de vida; 5) dos 60 aos 65 assiste-se a uma idade de transição;

- adultez tardia (a partir dos 65 anos), incluindo o que se considera a 3ª idade e mesmo, em muitos casos, a 4ª idade ou os muito velhos.

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Um dos problemas acerca da adultez é se a personalidade se mantém mais ou menos

Um dos problemas acerca da adultez é se a personalidade se mantém mais ou menos estável ou se é susceptível de desenvolvimento e mesmo de mudanças significativas como ocorre na infância e na adolescência. Autores há que votam mais pela estabilidade, outros pela modificabilidade. Simões (1999) julga poder resolver o pleito usando antes a conjunção copolativa e em vez da adversativa ou. Assim, o adulto caracterizar-se-ia simultaneamente pela estabilidade e pela mudança ou, se quiséssemos usar a terminologia cara aos políticos, pela estabilidade na mudança. O que importa é tentar compreender como é que a mudança se processa sem pôr em risco a estabilidade.

2.2 Ciclo vital do casal

Gould (1978, 1980) segue de perto o esquema de Levinson e colaboradores (1978), mas aplica mais particularmente à evolução do casal. O processo de crescimento do casal alterna dialecticamente entre o crescimento e a intimidade. A relação amorosa também alterna entre períodos nos quais os dois partners crescem de forma não sincrónica e separadamente, e períodos em que crescem juntos e de modo íntimo. Durante a década dos 20, enquanto ainda se cresce na identidade pessoal, o par procura a complementaridade e depende muito um do outro. No final da década dos 20 e início da dos 30 podem aparecer conflitos, a relação pode tornar-se confusa. O aparecimento dos filhos pode ajudar ou ainda complicar mais a situação. Posteriormente emerge a necessidade duma maior clarificação e o amor torna-se mais adulto. Porém, o casal pode não ser convergente neste desenvolvimento, buscando o homem mais sensações e emoções íntimas e a mulher mais independência e poder. Isto é susceptível de originar novas situações conflituosas, julgando a esposa que o desejo de maiores intimidades por parte do marido signifique regressão e o marido interpretando o desejo de maior independência por parte da mulher como rejeição. Perante tais desequilíbrios, necessário se torna encontrar novos compromissos para que o casal não corra o risco de desagregação.

Segundo De Franck-Lynch (1986), o ciclo vital do casal passa por três etapas:

1) estádio de fusão em que o ‘eu’ e o ‘tu’ vão evoluindo em direcção ao ‘nós’, podendo ocupar os primeiros dez anos de casados em que os amantes se fecham a sós, embora comecem logo após os primeiros anos a surgir dúvidas sobre se foi acertada a escolha, etc., começando a investir também na eventual parentalidade e na profissão, como meio de algum modo atenuar ou compensar possíveis frustrações;

2) estádio do realismo, passado que foi o sonho e uma certa utopia, ou do retorno ao ‘eu’ e ao ‘tu’, do ‘nós’ à individualidade, do romantismo

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da “minha cara-metade” às “duas caras”, podendo o casal cair na rotina e no aborrecimento,

da “minha cara-metade” às “duas caras”, podendo o casal cair na rotina e no aborrecimento, o que gera grande ansiedade e medo quanto ao futuro. Entretanto, os filhos foram crescendo, tornando-se a

triangulação mais difícil e menos atenuadora dos conflitos. É a “crise dos quarenta”, podendo resolver-se de diversas formas: negação da personalidade de algum dos cônjuges, individualismo a dois, nova centração nos filhos, melhoria da relação ou então possível separação

e divórcio;

3) estádio do reequilíbrio entre o ‘eu’-‘tu’e o ’nós’, após mais ou menos 20 anos de casados, aceitando-se melhor um ao outro e lançando novas pontes através duma compreensão e diálogo renovados. Esta nova empatia não significa estabilidade definitiva, pois novos problemas se avizinham, como a reforma, os netos, a velhice…

Pode concluir-se que, ao longo do seu ciclo vital, o casal, bem como cada pessoa, está num contínuo processo de formação, de tese-antítese-síntese, na terminologia de Hegel, ou de assimilação-acomodação-(re)equilíbiro, na terminologia de Piaget.

Uma obra clássica sobre o ciclo vital da família, a partir de estudos empíricos, é a de Olson et al. (1989) que usam o modelo em circumplex, considerando fundamentalmente três variáveis: adaptabilidade, coesão e comunicação. São analisadas as mudanças por que passa o casal sem ou com filhos, menores ou maiores, como gerem o stress familiar, como se sentem satisfeitos, etc. Por sua vez, Lancaster et al. (1987), analisam as perspectivas biossociais e históricas do ciclo vital da família e as suas implicações e interacções na sociedade moderna.

Hill e Rodgers, referidos por Nock (1982), apontam três critérios para definir os diversos estádios do ciclo vital da família: alterações no número de elementos que a compõem, alterações etárias, alterações no estatuto laboral dos encarregados do sustento familiar. Baseados essencialmente no primeiro critério, os autores apresentam cinco estádios:

1.º estádio pré-parental (jovem casal sem filhos);

2.º estádio expansivo (a partir do nascimento do primeiro filho que “fecha”

a família);

3.º estádio estável (período de educação dos filhos);

4.º estádio de contracção (desde a saída do primeiro filho de casa até à do último);

5.º estádio pós-parental (como no início, o casal encontra-se de novo sem filhos).

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Ultrapassando a família nuclear (se bem que estamos a voltar a ela) e tendo em

Ultrapassando a família nuclear (se bem que estamos a voltar a ela) e tendo em conta as diversas gerações, numa perspectiva mais sistémica, McGoldrick e Carter (1982) apresentam outro esquema em seis estádios considerando o processo emocional de transição e as mudanças necessárias ao processo de desenvolvimento:

1.º entre famílias: o jovem adulto independente;

2.º junção de famílias pelo casamento: o novo casal;

3.º famílias com filhos pequenos;

4.º famílias com filhos adolescentes;

5.º saída dos filhos de casa;

6.º última fase da vida da família (cf. esquema in Relvas, 1996, p. 20).

Tendo em conta as diversas fases ou estádios apontados por estes e outros autores, poderíamos simplificar distinguindo fundamentalmente três fases, embora cada uma com diversos momentos:

1.ª pré-parental (formação do casal e período antes do nascimento dos filhos);

2.ª parental ou educacional (prolongando-se desde o nascimento do primeiro filho até que o último deixa o lar para construir nova família, deixando o “ninho vazio”);

3.ª

pós-parental (quando o casal fica novamente só, embora continuem a ser pais e avós mas não com a primeira responsabilidade educativa).

É evidente que um casal sem filhos nunca passa da primeira fase, a não ser que adopte alguma criança; ou se tem filhos mas algum não casa, ou casa mas fica na casa dos pais, permanece na segunda, embora o filho adulto, eventualmente casado, tenha um estatuto diferente.

Segundo Mucchielli (1979), ao contrário do que talvez pense o par de enamorados, o casal só potencialmente está constituído na altura do casamento; deve continuar a consolidar-se ao longo da vida em comum, passando por diversas fases de evolução com as respectivas tarefas a desenvolver e crises a suplantar:

1. lua de mel (com duração variável entre algumas semanas e um ano), caracterizada pela euforia dum novo estatuto social e pelo desinteresse por tudo o que não seja o amor entre ambos, vivido quase como um narcisismo a dois. O casal deve intensificar a sua relação afectiva e a comunicação e procurar antes o interesse do outro do que o próprio,

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levado pelo desejo de agradar, capaz de suplantar o egocentrismo, descentrando-se de si e centrando-se

levado pelo desejo de agradar, capaz de suplantar o egocentrismo, descentrando-se de si e centrando-se no(a) outro(a);

2. existência conjugal comprometida (primeiros anos de casados, antes de ter filhos), fase de “rodagem”, com regresso ao realismo e reintegração no mundo. Já aqui podem surgir crises (como demonstram muitos divórcios após um ou poucos anos de casados), provocadas pelas primeiras desilusões e dificuldade de adaptação de duas personalidades diferentes. Nesta fase é necessário que os cônjuges procurem tornar um ao outro felizes e ajustar o seu comportamento em todas as dimensões: sexual, profissional, económica. Todos os problemas devem ser tratados abertamente, num diálogo sincero de negociação e compromisso, se o amor não é suficientemente forte para ceder um ao outro;

3. busca de estabilidade a longo prazo (após o nascimento dos filhos, entre os 5/7 e os 15/20 de casamento), atingindo o casal o que poderíamos designar de “velocidade de cruzeiro”, aproveitando da experiência a um tempo dolorosa mas também realista da fase anterior. Porém, durante ou ao fim desta fase podem surgir novas crises e divórcios, ou ao menos compensações individuais pouco legítimas e que distanciam mais um do outro, sem contar com acontecimentos graves, como o nascimento dum filho anormal, uma crise financeira, a

morte dum ente querido, etc. É necessário acertar as perspectivas quanto

à

carreira, aos bens adquiridos em conjunto, ao número de filhos a ter

e

particularmente ao modo como educá-los;

4. maturidade e perspectiva de envelhecimento a dois (após mais ou menos 20 anos de casados), onde a aceitação é maior, com necessidade de novos compromissos que levem o casamento até à morte. Todavia, espreitam também as crises e os balanços negativos, com a tentação de “refazer a vida”, ao mesmo tempo que a crise da “meia idade” ou o “demónio do meio dia” tenta a novas experiências amorosas a que o casal por vezes só resiste para não perder a face diante da sociedade. Mas se consegue ultrapassar as diversas tentações começa a entrar num período mais estável onde a paz reina, apesar dos diversos problemas, a começar com o da saúde que começa a fraquejar.

Noller e Feeney (in Bradbury, 1998, pp. 11-43) examinam particularmente a comunicação nos primeiros anos do casal, as suas respostas aos conflitos, a sua expressão não verbal e modelos de conversação. Concluem que em grande parte o nível de satisfação do casal depende da qualidade da sua comunicação, que já inicia antes do casamento e que vai influenciar também os primeiros anos de união e, a partir daí, o futuro do casal. Rusbult, Bissonnette, Arriaga e Cox (in Bradbury, 1998, pp. 74-113) estudam particularmente os processos

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de acomodação durante os primeiros anos de casamento, concluindo que o nível de compromisso é

de acomodação durante os primeiros anos de casamento, concluindo que o nível de compromisso é o motivo específico central da relação, promovendo a vontade de acomodação ou ajustamento entre o casal.

Enfim, o casal tem algumas funções específicas a desenvolver ao longo do ciclo vital:

1) biológica ou procriadora, não se podendo escamotear esta finalidade necessária à sobrevivência da espécie, para além do filho constituir a primeira obra-prima do casal;

2) social, constituindo o casal e a família uma pessoa moral e jurídica, com direitos e deveres, sendo primordial a paternidade/maternidade e a educação da prole;

3) psíquica, como desejo e realização da intimidade, da expansão afectiva, do evitamento da solidão, enfim, de crescimento e maturidade psicológica a todos os níveis.

Como acontece na psicologia do desenvolvimento do indivíduo, também no desenvolvimento duma família, os estádios não são compartimentos estanques mas podem interpenetrar-se, como no caso duma família com diversos filhos, sendo uns crianças e outros já adultos e eventualmente casados, podendo os pais de uns serem ao mesmo tempo avós de outros, continuando a obra educativa até à morte. Isto supondo-se uma família mais ou menos nuclear, porque nas famílias patriarcais em que todos os filhos ficavam em casa e o chefe mais velho superentendia sobre todos, a situação podia ser diferente. Como muda hoje em que abundam os divórcios, as famílias monoparentais, os casais sem filhos ou com um único filho, para não falar de uniões de facto, de troca de pares, de uniões homossexuais…

2.3 Crises na evolução do casal

Há autores que estudam o desenvolvimento do casal, no seu bom ou mau funcionamento, ao longo do arco da vida. Lemaire (1979) deu mesmo um título ao seu livro, considerado um pouco ambicioso ou mesmo temerário – Le couple: sa vie, sa mort. Efectivamente, são muitos os motivos mais ou menos inconscientes que o par tem para se aproximar e constituir a unidade

do casal (por exemplo o desejo de se continuar na espécie, de evitar a solidão

e o medo da morte), mas também são muitas as razões que progressivamente

e subrepticiamente, ou então de repente, levam à disfunção e à destruição do casal. Lemaire, numa perspectiva clínica (psicanalítica de inspiração essencialmente Kleiniana), a partir sobretudo da terapia do casal, mas

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considerando também os factores sociológicos e sistémicos, tenta seguir, quer a evolução positiva quer a

considerando também os factores sociológicos e sistémicos, tenta seguir, quer

a evolução positiva quer a negativa do casal.

As diversas crises por que passa o casal ou o agregado familiar ao longo da seu arco evolutivo, dependem muito da estrutura mais ou menos rígida ou

flexível da família e de quem toma e executa as diversas decisões, se unicamente

o marido ou a mulher, se os dois conjuntamente, em diálogo, sendo

evidentemente esta forma, com muitos matizes, como as outras, a que proporciona mais estabilidade e menos tensões. As crises e tensões dependem também do modo como cada agente familiar ocupa o seu próprio “campo” ou espaço de competência dominante e interage com o campo do outro cônjuge ou dos filhos. Para além dos campos pessoais, existem outros campos materiais, como o económico e financeiro, o das relações sociais, o do lazer, etc. Para

que os conflitos e crises sejam superados, é necessário que exista uma

“mentalidade de casal” e não apenas dois individualismos, é necessária a tensão equilibrada entre a unidade do casal e a fecundidade ou a abertura aos outros,

a começar pelos filhos, é necessário o justo equilíbrio entre a protecção da intimidade e a abertura ao exterior.

2.4 Condições de felicidade conjugal

Para além das possíveis crises, o casal deve ir construindo, lenta e por vezes dolorosamente, a sua felicidade. Muitos autores insistem nas variáveis personológicas de cada um dos membros do casal, sobretudo a sua sanidade psicológica ou então as suas perturbações, como o neuroticismo ou a ansiedade, determinantes não apenas para a satisfação e bem-estar do casal mas para a educação e felicidade dos filhos (cf. e. g. Caughlin, Huston e Houts, 2000; Clark, Kochanska e Ready, 2000). Pode afirmar-se que a qualidade dum casal depende, pela negativa, da ausência ou superamento de crises e conflitos e, pela positiva, do nível de felicidade que manifestam a dois.

Porém, a felicidade dum casal não depende só dos dois e da sua idiossincrasia, mas de muitos outros factores, como a satisfação profissional de um ou dos dois, a situação económica, a saúde, as relações sociais. Todavia, os factores pessoais, têm muito maior peso no bem-estar e na felicidade (cf. Barros, 2000) do que os factores sócio-económicos e contextuais. Mais do que as coisas, estão em causa as infra-estruturas psicológicas de cada um dos cônjuges, onde conta grandemente a imagem mais ou menos positiva ou negativa com que cada um chegou ao casamento, imagem muito influenciada pelos próprios

pais, as relações estabelecidas desde a infância com o outro sexo (se se aceitou

o próprio sexo, se houve traumatismos infantis por experiências precoces, se

os pais se davam bem, etc.), e sobretudo da maturidade ou imaturidade afectiva

de cada um dos cônjuges, não bastando que um seja equilibrado, se o outro é

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neurótico. Muitos estudos (cf. e. g. Burgess e Wallin, 1953) afirmam e confirmam que o

neurótico. Muitos estudos (cf. e. g. Burgess e Wallin, 1953) afirmam e confirmam que o matrimónio feliz depende da maturidade dos cônjuges ou que a infelicidade se baseia no carácter mais ou menos neurótico e desequilibrado de um ou de ambos os parceiros.

Se os dois membros do casal são importantes para a felicidade do casal, diversos estudos (cf. Uhr, in Mucchielli, 1979, p. 57) demonstram o peso maior do marido que, se é mais ou menos desequilibrado ou neurótico, marca mais a infelicidade do casal desde o seu arranque, não só pelo carácter neurótico, mas também porque assim não ajuda a mulher que depende muito dele, pois o casamento significa para ela um maior esforço de adaptação quer como esposa quer como mãe, dificuldade de adaptação que é facilitada, ou então dificuldade, pela idiossincrasia e comportamento do marido.

Veroff, Douvan, Orbuch e Acitelli (in Bradbury, 1998, pp. 152-179) estudam

a felicidade dos casais, limitando-se aos primeiros anos de vida, supondo que

há aspectos que farão sempre o casal feliz ao longo de toda a sua existência,

embora outros aspectos possam contar mais particularmente para a felicidade

na adultez do casal ou na sua velhice. Num tempo em que tantos casamentos

fracassam pelo divórcio, ou não são felizes, apesar de se manterem juntos, debruçar-se sobre os factores alimentadores da felicidade do casal é importante. Mas não é fácil definir nem apontar os factores principais que produzem a felicidade e o bem-estar subjectivo, uma vez que há múltiplas teorias sobre a felicidade mais ou menos centradas sobre a própria pessoa ou sobre os factores sociodemográficos e contextuais (cf. Barros, 2000; Simões et al., 2000).

A maior parte dos estudiosos colocam o assento principal nos factores

personológicos para fundamentarem e interpretarem a felicidade. Se as coisas acontecem assim a nível pessoal, o mesmo parece acontecer a nível do casal.

Se a personalidade de ambos é mais ou menos equilibrada, será mais fácil o

casal manter-se unido e feliz. Se um ou dois dos parceiros tem tendências neuróticas, mais ou menos acentuadas, está comprometida em grande medida a felicidade, apesar de eventualmente outros factores contextuais serem

favoráveis. Não obstante, há também variáveis sociodemográficas importantes, como realça o estudo de Veroff et al. (in Bradbury, 1998), particularmente o sexo e a etnia. Na verdade, o marido pode diferir da mulher e vice-versa nos factores mais fundantes do bem-estar ou da satisfação. Por outro lado, pode tratar-se também dum conceito com fortes conotações culturais, não tendo o mesma ideia de satisfação, por exemplo, um branco que um negro. De qualquer modo, em todos os casos se realça a importância da qualidade da interacção entre o par e o modo como cada um gere o seu autoconceito e auto-afirmação

na relação com o outro.

Outros autores analisam os factores que podem atentar contra a felicidade do casal ou que podem fazer degenerar o seu nível de satisfação. Kurdek ((in

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Bradbury, 1998, pp. 180-204) estuda particularmente o primeiro ano de vida do casal onde se

Bradbury, 1998, pp. 180-204) estuda particularmente o primeiro ano de vida do casal onde se podem encontrar já muitos gérmens de infelicidade a desenvolver ao longo da vida, em particular nos primeiros seis anos analisados mais pormenorizadamente pelo autor.

Autores há que analisam a comunicação, a intimidade e as relações mais íntimas nas diversas perspectivas e o seu contributo para o bem-estar do casal, como é

o caso do livro editado por Derlega (1984). Outros autores (e.g. Brubaker,

1990) debruçam-se em particular sobre a relação familiar na idade avançada dos casais que são ao mesmo tempo velhos pais, com netos, com saúde periclitante e com a sexualidade em declínio.

Resumo

Só uma abordagem sistémica possibilita uma melhor compreensão da existência conjugal mesmo na sua vertente desenvolvimental. A maior parte dos autores de psicologia do desenvolvimento limitam o seu estudo sobre os estádios de desenvolvimento à infância e adolescência. Erikson estuda também a adultez mas dedicando-lhe apenas dois estádios. Outros autores desenvolvem melhor a psicologia da idade adulta e outros aplicam ao ciclo vital do casal e da família.

Na sua evolução, tanto a pessoa como o casal (e a família) conhecem as suas crises bem como os seus momentos de glória ou de felicidade. É bom que, quer eles quer o psicólogo, estejam atentos à evolução para evitar as eventuais crises e potenciar o bem-estar.

Interrogações e sugestões

Como descreve sumariamente os estádios de desenvolvimento psicológico segundo Erikson?

Aponte alguns autores mais representativos que tentaram também descrever o ciclo vital da família em diversos estádios ou situações.

Quais as razões principais da(s) crise(s) por que passa(m) tantos casais (e famílias)?

Porque é que outros casais são felizes?

Tente observar dois ou três casais ou famílias (incluindo eventualmente a sua)

e notar em que fase se encontram da sua evolução psicológica.

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Leitura complementar Procurar aprofundar a teoria de alguns autores sobre o ciclo vital do casal.

Leitura complementar

Procurar aprofundar a teoria de alguns autores sobre o ciclo vital do casal. Ler particularmente Mucchielli (1979) e ainda Lemaire (1979). Sobre as diversas teorias e factores de felicidade, susceptíveis de serem aplicados ao casal e à família, ler em particular o vol. 4 (2) de 2000 da revista Psicologia, Educação, Cultura, que foi dedicado à psicologia positiva.

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3. O Amor, esse (des)conhecido © Universidade Aberta

3. O Amor, esse (des)conhecido

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Objectivos de aprendizagem Após leitura deste capítulo, o estudante deve ser capaz de: • Apontar

Objectivos de aprendizagem

Após leitura deste capítulo, o estudante deve ser capaz de:

• Apontar algumas teorias sobre a atracção interpessoal e a escolha amorosa.

• Enumerar algumas razões por que as pessoas se casam e são mais ou menos (in)felizes.

• Distinguir diversos termos que traduzem diversas classes de amor.

• Apontar alguns estádios de desenvolvimento do amor.

• Descrever algumas tipologias de amor, conforme os diversos autores, e apreciá-las criticamente.

• Distinguir criticamente algumas componentes de amor segundo Sternberg.

• Enumerar algumas patologias ou doenças do amor.

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Um dia, paulatinamente ou de chofre, dois jovens se enamoram. A atracção física, estética, sexual

Um dia, paulatinamente ou de chofre, dois jovens se enamoram. A atracção física, estética, sexual joga um papel importante, mais no homem do que na mulher, bem como os estereótipos sobre o modelo ideal de mulher ou de homem, embora este ideal dependa igualmente da classe social e de outras circunstâncias, como a religião, o nível sociocultural, a influência mais ou menos velada dos pais, etc. Além disso, muitas escolhas processam-se sem razões aparentes, talvez comandadas inconscientemente, e que só a psicanálise poderia tentar esclarecer. De qualquer modo, faz-se jus à sabedoria popular que considera o amor “cego”. Ao contrário, devia ter os olhos bem abertos para não se esbarrar.

O amor é tão antigo quanto o homem. Desde que tomou consciência de si, o

homem conheceu-se com capacidade para amar e ser amado. O amor é também o constituinte fundamental do casal, é a sua maior força ou traço de união e está na base da sua vida. A vida não teria sentido e a grande maioria das pessoas não casaria sem amor, como demonstram vários estudos (cf. Neto, 2000, p. 226). Mas é difícil defini-lo. É uma emoção muito particular, mas que não prescinde da cognição e que se expressa numa grande variedade de comportamentos (palavras, expressões não verbais, expressões físicas, prendas, sacrifícios pelo amado). Talvez os poetas se aproximem mais da realidade, como Camões no seu célebre soneto: “O amor é um fogo que arde sem se ver, / é ferida que dói e não se sente; / é um contentamento descontente, / é dor que desatina sem doer”.

3.1 Teorias sobre a atracção interpessoal e a escolha amorosa

A pessoa humana é um ser de (em) relação, incapaz de viver sozinha e isolada.

Na realidade, a maior parte do tempo passamo-lo com outras pessoas. Todavia

há uma infinidade de relações, desde o simples encontro à amizade e ao amor.

Levinger (1974) interpreta as relações entre duas pessoas através de quatro níveis: nenhum contacto ou ausência de relação; algum conhecimento mas nenhuma interacção; contacto superficial com alguma interacção; contacto mais recíproco com um relacionamento mais ou menos íntimo, desde a simples amizade, à amizade mais profunda e ao amor duradouro. A aventura de dois jovens que se encontram progride, mais ou menos rapidamente, através das diferentes etapas, até estabilizar na última, podendo “dar o laço” no casamento. Junta-se o desejo de afiliação com o de atracção, conceitos bem definidos pelos psicólogos sociais (cf. Mucchielli, 1979, pp. 22-43).

Os dois seres que se encontram, sentem-se atraídos um pelo outro. Há diversas teorias sobre a atracção interpessoal: teoria do reforço (gosta-se das pessoas mais compensadoras); teoria da troca social (gosta-se das pessoas que oferecem mais garantias com menos custos); teoria da equidade (equilíbrio entre

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recompensas e custos); teoria sociobiológica (a atracção é influenciada por objectivos sociobiológicos, como a

recompensas e custos); teoria sociobiológica (a atracção é influenciada por objectivos sociobiológicos, como a perpetuação dos próprios genes). As diversas teorias não se excluem mas completam-se mutuamente, sendo umas mais credíveis do que outras. Os autores falam ainda dos diversos determinantes da atracção interpessoal, como a familiaridade, a proximidade, a semelhança, a complementaridade, a reciprocidade, as qualidades positivas (como a sinceridade ou a honestidade), a atracção física (cf. Neto, 2000, pp. 141-181).

Estas teorias e determinantes da atracção interpessoal aplicam-se ao processo que leva dois jovens a enamorar-se e eventualmente a casar-se. Normalmente as semelhanças ditam a aproximação (qui se ressemble, s’assemble, dizem os franceses: “quem se parece, junta-se” ou, mais portuguesmente, “cada qual com o seu igual”). Outro ditado reza assim: “para cada panela existe o seu testo”. Outros falam de “almas gémeas” ou da “minha cara metade”. Mas também as dessemelhanças ou as diferenças podem atrair-se como é o caso de dois pólos contrários ou conforme o ditado: “os extremos tocam-se”. Até o acaso pode jogar um papel determinante, prevalecendo um encontro fortuito sobre uma verdadeira escolha. Cada caso amoroso tem a sua história pessoal onde alguns determinantes pesam mais do que outros, sendo necessário também ter em conta o sexo, pois o homem e a mulher podem reger-se por ideias e afectos diferentes na aproximação ou ‘vender-se’ na praça pública do amor por preços diferentes. De qualquer modo, o amor tem muito de ilusão, mas também de realidade (cf. Kaufmann, 1999, pp. 5-43).

Se a escolha amorosa por vezes é considerada irracional e obra do acaso, no entanto em geral os amantes “levam a água ao seu moinho” ou “chegam a brasa à sua sardinha”, embora nem sempre se trate dum processo consciente. Os sociólogos, tentando explicar o encontro e união de duas pessoas, acreditam mais nas semelhanças (de raça, religião, estatuto social, idade, etc.). Muitos psicólogos também votam pelas semelhanças de gosto, interesses, valores, que unem dois seres e que poderíamos apelidar de “homofilia”: os amantes aprovam reciprocamente os mesmos valores e crenças; o amor acentua qualquer semelhança e disfarça as diferenças. Mas outros psicólogos defendem a “teoria da complementaridade das necessidades”, como Winch (1958) que se inspira na teoria das necessidades de Murray: uma pessoa que necessita de ser protegida escolherá um protector; a pessoa com tendência à submissão, escolherá alguém com tendência a dominar, etc. Mas também há quem defenda hipóteses intermediárias ou mistas, fixando-se mais no conceito de “compatibilidade” e menos no de semelhança ou complementaridade: a compatibilidade incluiria certo grau de semelhança e também de complementaridade. De qualquer modo, os que se sentem atraídos avaliam as probabilidades de felicidade, embora se possam enganar, porque há muitos factores em jogo.

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Ninguém escolhe a família de origem onde nascemos, mas escolhe-se o par com quem se

Ninguém escolhe a família de origem onde nascemos, mas escolhe-se o par com quem se deseja construir nova família, o que faz com que, de qualquer forma, se juntem também duas famílias: a dele e a dela. Segundo Skinner (1976), o motivo fundamental por que se escolhe determinado parceiro é por afinidades psicológicas, sobretudo a partir dos antecedentes familiares. Mas certamente outras razões, mais ou menos conscientes ou inconscientes, estão presentes, como o aspecto físico, a atracção sexual, os dotes intelectuais, a situação financeira, afinidades religiosas ou étnicas, o modelo de beleza ou de ideal de homem ou de mulher veiculado pelos mass media, etc. De qualquer modo, são semelhanças num ou noutro aspecto. Porém, também acontecem casamentos com personalidades opostas, visando cada um completar-se no outro e realizando o ditado que afirma que “os extremos tocam-se”. Se muitos escolhem o par pensando na imagem do pai ou da mãe, também podem escolher pensando o contrário do pai ou da mãe ou ao menos na tentativa inconsciente de compensar o que falhou na relação dos pais entre si e com os filhos. Alguém pode escolher outro(a) que julga submisso(a) porque ele ou ela gosta de mandar; outro pode escolher uma pessoa muito mais velha vendo nela de qualquer forma a imagem do pai ou da mãe de quem está ainda muito dependente. Há ainda aproximações mais ou menos naturais, enquanto outros pares se podem aproximar lutando contra as diversas dificuldades (às vezes os pais, quanto mais se opõem a determinado namoro dos filhos, mais os aproximam).

Muitos estudos existem sobre as motivações (inconscientes) por que se escolhe a profissão de professor e que por analogia também se podem aplicar à escolha do parceiro. Segundo Mucchielli-Bourcier (1979, pp. 55-57), as razões inconscientes que moveram alguém a ser professor são: desejo de ser “o único comandante a bordo”, exibicionismo e procura de um certo público, identificação com a criança, desempenho do papel parental. Outros autores insistem também em motivações ambivalentes, como domínio e submissão, e que depois têm consequências a nível de satisfação ou de frustração com a profissão (cf. Barros e Barros, 1999, II, pp. 14-18). Em todo o caso, o modelo ideal de profissão e também de companheiro(a) começa a delinear-se desde a infância muito dependendo da qualidade da relação dos pais entre si, dele(a) com os pais e com os irmãos, embora tal imagem possa ser desfocada e mal apreendida na infância.

Enfim, a atracção amorosa continua a ser em grande parte um mistério e, em certo modo, fruto do acaso ou de um momento de encontro, dum sorriso, dum gesto tímido, dum olhar, duma característica física (feições do rosto, cor dos olhos, tom de voz, maneira de andar, altura…). Muitas vezes não se trata propriamente duma escolha mas de ser escolhido(a), não é um acto verdadeiramente livre e racional, mas afectivo e instintivo, mais fruto duma expectativa ou duma busca, onde se misturam motivações conscientes e inconscientes mais ou menos incontroláveis. Todavia, o instinto move-se de

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algum modo segundo um “modelo interior” preformado que serve de filtro na busca do amado(a).

algum modo segundo um “modelo interior” preformado que serve de filtro na busca do amado(a). Mas também se pode pôr a fasquia muito alta ou o nível de exigência não ser muito compatível com a realidade por medo de

compromisso. Ou então não pintar tão bem o “príncipe azul” porque ele tarda

a chegar e o tempo vai passando, sendo necessário prescindir do ideal para ficar com o possível.

Todos estes ‘trabalhos’ cognitivo-afectivos, são muito influenciados, positiva ou negativamente, pelas figuras parentais ou por outras pessoas representativas, por vivências infantis, eventualmente por “amores” ou namoricos de infância, ou ainda pela própria psicologia e auto-conceito do amante que se busca no outro ou nele procura realizar a sua imagem ideal. Pode admitir-se que muitas das escolhas têm uma componente neurótica mais ou menos acentuada. Na realidade, como diz o ditado, muitas vezes “o amor é cego” e é tanto mais cego quanto mais neurótica for a pessoa interessada.

3.2 Razões para casar e motivos de (in)felicidade

Porque é que as pessoas se casam? Praticamente todos os namorados e casais dizem que foi por amor, um amor apaixonado e impossível de terminar. Mas depois aparecem as desilusões e as divisões tão dolorosas, podendo passar o amor a ódio refinado. Não será então ilusão e utopia o amor? Ter-se-iam encontrado e juntado apenas por amor? Certamente outras necessidades inconscientes estão na base da constituição do casal, que não apenas o amor, como o desejo de fruição sexual, a busca de apoio e de aprovação, a fuga à solidão, o encontro e a necessidade de companhia, a segurança para o futuro, um novo estatuto social, a realização das expectativas (e mesmo pressões) familiares e sociais, e mesmo razões económicas e outras menos nobres, como

o desejo de ‘fugir’ da casa paterna. Em particular sobre a pressão social, afirma

Nock (1982, p. 642): “o homem ou mulher atractivos e sem deficiências pessoais evidentes, que acabam por não casar, convertem-se num ‘puzzle’ indecifrável para os outros, sendo sujeitos a constantes perguntas ou insinuações sobre os motivos por que não casam”. Estão menos sujeitos a pressões, embora nem sempre sejam compreendidos, os que não casam por motivos religiosos, como os padres e as freiras. De qualquer modo, são múltiplas e complexas as motivações por que alguém casa ou não casa (sobre a natureza e as diversas teorias da motivação, bem como sobre as diversas teorias da personalidade, pois é esta que condiciona as motivações, cf. e.g. Pinto, 2001).

É evidente que os motivos mais ou menos conscientes da escolha do parceiro

têm influência decisiva nas razões da felicidade ou infelicidade do casal. Em qualquer dos casos, o novo casal tem de fazer um grande esforço de adaptação,

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porque o ideal de homem ou de mulher vão-se esfumando com o tempo, ficando a

porque o ideal de homem ou de mulher vão-se esfumando com o tempo, ficando

a realidade dos factos. A adaptação pode ser menos dolorosa e acabar em

felicidade se a escolha foi bem feita, e antes de mais se ambos são mais ou menos pessoas equilibradas psicologicamente. Porém, se um ou os dois são desequilibrados, com tendências neuróticas, a situação torna-se mais difícil.

À idiossincrasia pessoal juntam-se outros factores que contribuem para a estabilidade ou desagregação do casal, como o momento do primeiro encontro (se foi em situação normal ou após algum deles ou os dois terem perdido outro namorado), a relação com a família de origem (é necessário desenraizamento, mesmo no espaço físico -“quem casa quer casa” – mas sem prejuízo dum bom relacionamento com os pais de um e outro cônjuge), a maior ou menor liberdade com que casaram (muitas vezes os pais exercem uma forte influência ou pressão, não cumprindo o ditado “entre homem e mulher nunca metas a colher”, que é válido também antes do casamento), a idade com que casaram (talvez a idade ideal, embora não haja regra sem excepção, se coloque na 3º década da vida, à volta dos 25 anos – casar muito cedo ou muito tarde pode trazer mais inconvenientes), o tempo e a qualidade do namoro (em geral à volta dos 3 anos é o tempo ideal, mas depende da formação de cada um), o tempo da primeira gravidez (se já vão para o casamento com um filho por nascer ou nascido pode pensar-se nalgum défice de liberdade), a situação financeira (se não de todo desafogada, seja ao menos suficiente).

Mas cada casal é um caso e às vezes assiste-se a famílias unidas apesar de muitas condições adversas, enquanto outras são infelizes e se desagregam aparentemente em melhores condições de partida. Nada está predeterminado;

o prognóstico é reservado, embora se possa intuir maior ou menor sucesso,

considerando as pessoas em causa, os motivos por que se casaram e as diversas situações onde se movem, sendo muito importante, particularmente no início do novo casal, o comportamento dos progenitores. Em todo o caso, impõe-se uma construção contínua do edifício conjugal ou o cultivo do amor em todas as estações da vida. É necessário diálogo (comunicação), respeito, tolerância, boa gestão dos conflitos inevitáveis, fidelidade, capacidade de perdão e outros valores ou virtudes que ajudam o casal a manter-se unido e a progredir cada vez mais na unidade e felicidade.

3.3 O amor na Bíblia

Sendo o amor tão antigo quanto o homem e um ou mesmo o elemento essencial do ser humano, e a coisa mais importante da vida para muitas pessoas, não admira que ele esteja presente desde as origens e o encontremos em todas as manifestações do homem, em particular na religião, como expressão

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fundamental da humanidade. Referindo-nos em concreto à religião judaico- cristã, na base da civilização ocidental,

fundamental da humanidade. Referindo-nos em concreto à religião judaico- cristã, na base da civilização ocidental, encontramos na Bíblia alguns vocábulos que nos podem ajudar a compreender a essência do amor. Para exprimir a ideia de amar, a língua hebraica do Antigo Testamento só possuía o verbo aheb e o substantivo derivado ahabah que cobria uma grande variedade de amores.

Os tradutores da versão dos “Setenta” dispunham de quatro termos gregos para exprimir o verbo hebraico aheb: agapân, philein, erân, stergein. Este último (donde deriva o substantivo storgê, ternura) exprime sobretudo a afeição dos pais pelos filhos, mas nunca aparece na Bíblia grega. Por sua vez, erân (donde deriva eros) mal aparece no Antigo Testamento e é banido totalmente do Novo Testamento por ter uma conotação pouco apropriada para exprimir a pureza do amor de Deus pelos homens e destes por Deus. Restavam os outros dois: philein, carregado de sensibilidade e afectividade, emprega-se para evocar os laços de parentesco e as relações amigáveis. Agapân, por sua vez, denota uma preferência de escolha que provém mais da inteligência e da vontade do que da sensibilidade, implicando um juízo de valores. Foi este vocábulo, na sua forma verbal e substantiva (agapê), que pareceu mais apropriado aos autores do Novo Testamento para exprimir o amor de Deus pelos homens, manifestado em Jesus Cristo, e dos homens por Deus e entre si.

Na tradução da Bíblia grega para o latim, os autores (como S. Jerónimo na tradução da Vulgata) acharam que o termo que melhor exprimia agapê era cáritas (derivado de carus, valioso, querido), termo mais nobre do que amor que os clássicos latinos também usavam, sobretudo referindo-se ao amor familiar, e reservando preferentemente cáritas para o amor divino ou entre os homens ilustres. Infelizmente a conotação de “caridade” nas línguas latinas pode significar apenas algum donativo ou a “caridadezinha”, mas não assim no original. Por outro lado, o termo “amor” anda totalmente banalizado, predominando nele uma conotação sexual (“fazer amor”). Todavia, trata-se dum termo abrangente, podendo denotar amizade, afecto, intimidade, ternura, carinho, predilecção, e ainda compaixão, misericórdia, perdão, paixão…

De qualquer modo, a complexidade do sentimento amoroso exprime a dificuldade em expressá-lo linguisticamente e por isso nasceram diversos vocábulos na tentativa de exprimir os seus diversos cambiantes. Psicologicamente podemos defini-lo como uma força de unificação (intimidade) e de crescimento. Não é uma coisa mas uma relação entre pessoas ou pessoas em relação íntima (sobre o conceito de intimidade, cf. Neto, 2000, pp. 205–

-207).

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3.4 Estádios de desenvolvimento do amor O amor é como um ser vivo: nasce, cresce,

3.4 Estádios de desenvolvimento do amor

O amor é como um ser vivo: nasce, cresce, atinge a plenitude ou então pode

morrer. A relação amorosa passa por diferentes estádios, descritos por diversos autores. Podem notar-se as seguintes sequências, combinando as descrições

de Altman e Taylor (1973) e de Weiner (1980):

1) orientação: os dois começam por conhecer-se e interagir de modo superficial;

2) exploração: começa uma relação afectiva superficial e o par vai-se conhecendo e interessando melhor um pelo outro;

3) início amoroso: o intercâmbio amoroso sobe rapidamente e os dois começam por explorar mais profundamente as características da personalidade até que a idealização atinge o máximo;

4) desmascaramento: a maior intimidade e o mútuo abrir-se um ao outro vai revelando também defeitos mútuos;

5) manipulação mútua: cada um procura fazer do outro a pessoa que deseja que ela seja;

6) resolução: cada um adapta-se à realidade do outro e desenvolve uma relação cada vez mais permanente.

O modelo de Secord e Backman (1974) distingue quatro estádios no desenvolvimento das relações íntimas:

1) precoce: os dois interessados exploram as vantagens da relação;

2) negociação: estudo das condições que permitem o estabelecimento da relação;

3) compromisso: aumenta a dependência mútua, independentemente de outras possibilidades amorosas;

4) institucionalização: reconhecimento oficial da relação exclusiva.

Para Murstein (1976), as relações íntimas que levam ao casamento desenvolvem-se em três estádios ou passam por três tempos:

1) estímulos: percepção das características físicas, psicológicas e sociais do outro(a) com a consequente avaliação das suas qualidades;

2) valores: ambos os intervenientes avaliam os seus valores pessoais e do outro(a) e o que pode resultar da sua interacção;

3) papéis: avaliação mútua dos diferentes papéis.

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O amor também pode mudar ao longo da vida matrimonial. O amor romântico inicial vai

O amor também pode mudar ao longo da vida matrimonial. O amor romântico

inicial vai cedendo lugar ao que alguns autores designaram de “amor- companheiro” com diversas facetas. Ao longo do tempo o amor pode sofrer desgaste, tornando-se mais convencional, passivo, diminuindo as expressões externas de amor. Mas pode acontecer que o verdadeiro amor não decline, apesar de não se expressar tão efusivamente. Ao longo da vida do casal surgem também diversos conflitos, por razões internas, como os filhos, ou externas, como o emprego. Se os conflitos forem bem resolvidos, podem tornar-se em momentos de crescimento e união. Mas também podem desagregar a família, caso não haja entendimento.

Se o amor é o cimento-armado que une o casal, é também a matriz do desenvolvimento e educação dos filhos. A psicologia do desenvolvimento, atenta aos primeiros meses e anos de vida, afirma que o amor é absolutamente necessário para um normal desenvolvimento psico-afectivo da criança. Normalmente este amor primordial é dado pela mãe. Mas na sua ausência, uma boa figura feminina pode suprir esta necessidade de carinho e quase simbiose. Se este amor primitivo está ausente, não apenas a criança não desenvolve normalmente, senão que gera distúrbios psicossomáticos que prevalecem por toda a vida. O amor entre pais e filhos manifesta-se aos mais diversos níveis. Logo no início da vida e pela vida fora, para além dos pais, a criança é influenciada, positiva ou negativamente, por outras figuras mais representativas, como sejam os eventuais irmãos, avós, tios, primos, amigos, professores, etc. (cf. Swensen, in L’Abate (Ed.), 1985, I, pp. 357-377).

3.5 Tipologias do amor

O amor na família é uma força de unificação e de crescimento existente dentro

dum grupo especial de pessoas que vivem juntas. Neste amor há uma dialéctica entre autonomia e intimidade, entre individualização e integração ou quase fusão. O amor que unifica a família é também a força que a prolonga noutra família quando um dos seus membros, normalmente o filho mais velho, começa a amar outra pessoa acabando por unir-se a ela e constituindo nova família.

Mas o amor pode outrossim estar na base da desagregação do núcleo familiar, se um dos cônjuges se enamora por outra pessoa e resolve trocar o amor primitivo. De qualquer modo, o amor é a grande força ou íman de aproximação das pessoas e a base de construção das famílias. O amor satisfaz as necessidades fundamentais, porque a necessidade fundamental é a necessidade de amar. O amor está presente ao largo de todo o desenvolvimento pessoal e familiar, embora com intensidades e cambiantes diferentes.

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A relação amorosa entre homem e mulher em ordem a constituir o lar, começa normalmente

A relação amorosa entre homem e mulher em ordem a constituir o lar, começa

normalmente no estádio que Erikson (1950) define como de intimidade vs. isolamento. Inicialmente trata-se de um amor romântico (distinto de amor companheiro, cf. Neto, 2000, pp. 238-244) que tem algumas características:

preocupação com o amado e desejo de estar na sua presença; idealização e sobrevalorização do amado; fantasias acerca do amado nas quais ele satisfaz

as necessidades e leva a uma existência ideal; vulnerabilidade narcisística para com o amado e vigilância para não o perder. Trata-se dum amor dependente e erótico.

Neste amor, há diferenças por género. As mulheres não parecem inclinadas a amar durante os períodos de transição, ao contrário dos homens; as mulheres caem no amor mais frequentemente, mas são mais cépticas e cautelosas do que o outro sexo; aparentemente as mulheres gozam mais com o amor, enquanto os homens sofrem mais.

Quanto à tipologia do amor, o amor romântico e o amor companheiro (de amizade) estão longe de esgotar todas as cambiantes ou variedades do amor. Lee (1973) distingue seis “cores” ou estilos de amor, sendo três primários (éros-paixão, ludus-jogo, storgê-amizade) e três secundários (pragma-prático, mania-possessão, agápê-altruismo). Os primários são comparados às três cores principais (vermelho, amarelo e azul) e os secundários podem identificar-se com as cores mistas, como no caso dos compostos químicos, resultando, das diferentes combinações, amores com características diferentes.Assim, Pragma é composto de storgê e de ludus; Mania provém da combinação de éros e de ludus; Agápê é um composto de eros e de storgê.

Pode discordar-se desta catalogação de Lee (deveria, por exemplo, incluir-se entre os amores primários o amor agápico, em vez do lúdico) e das suas diversas combinações (será, por exemplo, que um amor pragmático tem alguma coisa de ternura - storgê?), mas indubitavelmente trata-se duma catalogação louvável.

Deste hexágono proviriam seis modos possíveis de amar conforme os diferentes

níveis de desenvolvimento, e que foram descritos particularmente por Lasswell

e Lasswell (1976) e por Lee (1977). Podemos descrevê-los num crescendo

valorativo:

1) mania: amor obsessivo, possessivo, ansioso, dependente, ciumento, incapaz de tolerar a perda do amado, podendo até desenvolver doenças. Esta espécie de amor anda associada a um baixo auto-conceito e auto- estima. É típico de pessoas num estádio de desenvolvimento do eu impulsivo e autoprotectivo;

2) ludus: o amante joga aos amores procurando obter o máximo lucro com o mínimo custo e abstendo-se de qualquer dependência ou

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compromisso. Tal amor é mais típico das pessoas num estádio de desenvolvimento autoprotectivo; 3) pragma

compromisso. Tal amor é mais típico das pessoas num estádio de desenvolvimento autoprotectivo;

3) pragma: amor prático, sensível, consciente, realista, provocando ou desfazendo a relação por razões práticas. Tais pessoas denotam ainda um estádio de desenvolvimento do eu autoprotectivo, com aspectos também conformistas, mas em vias de superação;

4) eros: amor romântico ou apaixonado que idealiza o amado e procura agradar-lhe. Fixa-se sobretudo nas características de beleza física. Denota um estádio conformista;

5) storgê: amor de ternura, afeição, relação, interdependência, mútua abertura e realização, comprometido a longo prazo, próprio de amigos íntimos ou de casais que atingiram um estádio de desenvolvimento onde prevalece a autonomia;

6) agapê: amor puro, oblativo, altruista, gratuito, desinteressado. O amante quer e procura o melhor bem para o amado que corresponde da mesma maneira desinteressada e incondicionalmente, sem olhar a sacrifícios

e recompensas. Pode encontrar-se eventualmente num casal que atingiu

a maturidade, e é símbolo sobretudo do amor maternal e mais ainda do amor divino.

Fazendo jus aos diversos vocábulos usados na Bíblia grega, poderíamos ainda falar de um amor philia ou de amizade, mas ele compara-se e está incluído de algum modo no amor storgê. É um amor menos altruísta e menos universal que o amor agapê, mas já muito purificado e abrangente. Para ser mais exaustivos, era necessário, dentro de cada uma das categorias, distinguir várias subcategorias. Mas o esforço de Lee e de outros autores para catalogar uma emoção tão complexa como é o amor, pode considerar-se benemérita.

A partir desta tipologia, os autores procuraram encontrar escalas (multifactoriais)

de avaliação dos diversos graus de amor, como é o caso de Lasswell e Lobrenz (1980) e sobretudo de Hendrick e Hendrick (1986, 1989). Estes estilos de amor foram também identificados em Portugal (Neto, 1992, 1994), embora se

possam verificar diferenças interculturais. Todavia, a distinção entre seis classes de amor e as consequentes escalas hexafactoriais é susceptível de contestação

e aperfeiçoamento. Partindo de outras teorias sobre o amor, seria possível

elaborar escalas com menos factores ou até de tendência unifactorial visto que, no fundo, só há amor verdadeiramente tal quando há dom gratuito de si mesmo; o resto são escórias do amor, subprodutos do egoísmo ou de comportamentos mais ou menos possessivos ou patológicos.

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3.6 Componentes do amor Sternberg (1986, 1987), a exemplo do que tinha feito com a

3.6 Componentes do amor

Sternberg (1986, 1987), a exemplo do que tinha feito com a sua teoria da inteligência, distingue três dimensões fundamentais no amor, propondo um modelo triangular, ou “teoria triangular do amor”, como lhe chama na obra editada juntamente com Barnes (Sternberg e Barnes, 1988), intitulada precisamente Psicologia do amor, e que é na realidade uma verdadeira enciclopédia sobre o amor, segundo a perspectiva psicológica. Sternberg considera em cada vértice do triângulo um dos elementos principais do amor:

1) intimidade: sentimentos de proximidade e de união entre os amantes e que geram alegria e entusiasmo;

2) paixão: impulsos que levam à atracção e à união física dos amantes;

3) decisão/compromisso de assumir eventualmente uma relação a longo prazo.

A intimidade é a componente principal do amor, enquanto a paixão é a menos nobre e duradoura. Se quiséssemos aproximar estas dimensões dos tipos de amor apontados por Lee, poderíamos dizer que a intimidade e o compromisso afectam sobretudo o amor storgê e agapê, enquanto a paixão está particularmente presente no amor erótico e de algum modo no maníaco. Cada uma das três componentes pode exprimir-se de diversas maneiras: a intimidade através da comunicação de sentimentos interiores, da promoção do bem-estar do outro, da partilha de bens; a paixão através de diversas expressões físicas (beijar, abraçar, etc.); o compromisso através da fidelidade, mesmo em momentos difíceis.

Sternberg (1986) aponta ainda algumas propriedades do amor (estabilidade, controlabilidade, etc.) mais ou menos presentes em cada uma das três componentes. Por exemplo, quanto à estabilidade, a intimidade e o compromisso desempenham um papel fundamental nas relações a longo prazo, enquanto a componente passional está mais presente a curto prazo, podendo com o tempo desaparecer.

Sternberg, analisando as três componentes do amor, identificou oito espécies de amor, dependendo da presença ou da ausência de cada componente. A sua taxonomia é constituída por: não amor, amor de gosto, amor louco, amor vazio, amor romântico, amor companheiro, amor insensato, amor perfeito. Por exemplo, uma relação envolvendo compromisso, mas não intimidade nem paixão, é um “amor vazio”; uma relação envolvendo intimidade e compromisso mas não paixão, é um “amor companheiro”; um amor com as três componentes seria um “amor perfeito” que pode estar presente nos casais e mesmo na relação pais-filhos (cf. Sternberg e Barnes (Eds.), 1988; Neto, 2000, pp. 249-252).

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É evidente que também esta catalogação e interpretação do amor, segundo Sternberg, pode ser objecto

É evidente que também esta catalogação e interpretação do amor, segundo Sternberg, pode ser objecto de crítica, carecendo de confirmação empírica, mas é mais uma tentativa de classificar a panóplia do amor. Todavia, é de estranhar que Sternberg, como cognitivista que é, não tenha apontado também como elemento ou componente principal do amor, para além da intimidade, da paixão e do compromisso, o (re)conhecimento crítico do amor, que não deve ser “cego” mas antes ter os olhos bem abertos. Mais avisado andava Piaget que, confrontando-se com Freud e aproximando a inteligência da afectividade, afirmava que não há amor que não tenha uma componente cognitiva, como não há raciocínio, mesmo matemático, onde a afectividade ou motivação não esteja de algum modo presente (cf. Barros, 1991).

Tenha-se ainda em conta as diversas variáveis que dão coloridos particulares ao amor, como a idade, o sexo (é ao mesmo tempo muito diferente e essencialmente idêntico o modo de amar em feminino ou masculino), a personalidade ou idiossincrasia de cada um, para além de determinantes contextuais e interculturais (cf. Neto, 2000, pp. 256-268).

Ao longo da formação e constituição do casal, e mesmo na relação dos pais para com os filhos e destes para com os pais, podem encontrar-se representados estes diversos tipos de amor, quer segundo Lee, quer segundo Sternberg, em doses diferentes conforme a idade e os diversos momentos dos amantes. Porém, todos os casais deviam procurar atingir o amor storgê, se não o amor agápico, na tipologia de Lee, ou o amor perfeito, na terminologia de Sternberg.

Pode haver, e há, outras classes de amor, mais ou menos autênticos ou apaixonados, mais ou menos duradouros ou efémeros, mas o amor conjugal tem a sua especificidade própria. Para tentar defini-lo é melhor dizer antes o que não é ou não deve ser: 1) um amor-paixão que tem sempre algo de patológico e de trágico, a exemplo do romance Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda e outros que contibuíram para o mito ocidental de que o amor verdadeiro tem de ser dramaticamente apaixonado; 2) uma alienação que julga, por influência freudiana, que a verdadeira auto-realização não deve conhecer barreiras ou proibições, dando antes largas a todos os instintos; 3) uma repetição permanente do passado, sem abertura para o futuro.

Ao contrário, o verdadeiro amor conjugal deve ter algumas características principais: 1) compromisso futuro que implica uma intencionalidade, uma vontade de continuarem unidos e mutuamente se fazerem felizes; 2) necessidade de criação contínua que passa não apenas pelos filhos mas pelos problemas quotidianos de habitação, trabalho, etc.; 3) aceitação duma transcendência que pode não ser religiosa mas aceita o sacrifício de si para renascer no outro; 4) corresponsabilidade em todas as dimensões, pressupondo igualdade e colaboração.

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3.7 Patologias do amor O amor autêntico e normal é oblativo, dom de si, centrado

3.7 Patologias do amor

O amor autêntico e normal é oblativo, dom de si, centrado no outro, na vontade de lhe agradar e de o tornar feliz, é solicitude e responsabilidade pelo outro, é livre e libertador, não possessivo ou obcecado unicamente pelo sexo ou por outros interesses sócio-económicos que não seja a pessoa em si. Há uma interdependência entre os amados, a necessidade de estarem juntos, a disposição de se sacrificarem um pelo outro, o desejo de intimidade e outros aspectos que distanciam o amor do egoísmo, do egocentrismo e do narcisismo que muitas vezes se mascaram de amor mas que de amor não têm nada ou quase nada. O verdadeiro amor não tem bilhete de ida e volta, antes se perde no amado. O verdadeiro amante é feliz na medida em que faz o outro feliz. Trata-se duma concepção de amor muito além da teoria freudiana e psicanalítica, até agora dominante, que concebe o amor unicamente como instinto, pulsão libidinosa, desejo de satisfação sexual.

Se existe um amor autêntico também há muito amor patológico e doentio, fruto de personalidades imaturas e possessivas, que utilizam o outro como meio para se compensarem a si mesmos, para exprimirem o seu desejo de posse e de prazer a todo o custo, confundindo e reduzindo o amor à paixão sexual (hoje esta tentação é muito mais frequente porque veiculada pelos mass- media e porque vivemos numa sociedade pansexualizada na publicidade, nos espectáculos e noutras manifestações). Trata-se de um ‘amor’ muitas vezes neurótico ou psicótico e até perverso (masoquista, sádico). Frutos amargos ou consequências deste ‘amor’ são a pedofilia, o incesto, o homicídio ou suicídio por paixão, e outras aberrações.

Uma das patologias específicas ou ao menos perturbações do amor é o ciúme As relações amorosas (do casal ou de um par de namorados) são frequentemente afectadas por este mal que, até uma certa dose, é relativamente normal, mas que em excesso é patológico e corrói o amor. Se um pouco de ciúmes torna o amor mais apimentado e vigilante, sendo sinal de verdadeiro amor, há ciúmes doentios e patológicos, sem fundamento algum, a necessitar de intervenção terapêutica (se não se manifestam incuráveis), pois não apenas tornam infeliz quem os tem mas também (e sobretudo) quem é vítima deles, particularmente quando se sente inocente. Trata-se de um sentimento frequente abrangendo uma parte significativa de amantes (mesmo homossexuais), embora com maneiras de reagir diversificadas, mostrando-se os homens mais activos e zangados e as mulheres mais passivas e sofredoras. Pfeiffer e Wrong (1989) definem os ciúmes como um emaranhado cognitivo-afectivo-comportamental. Do ponto de vista cognitivo, está em causa uma ameaça mais ou menos real ou fictícia. As reacções emotivas envolvem medo, mal-estar, ira, surpresa e outros sentimentos dolorosos. A pessoa ciumenta pode comportar-se de diversos modos, tentando aproximar-se do outro par ou então reagindo mais ou menos

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violentamente ou passivamente. De qualquer modo, é uma pessoa infeliz e faz infeliz a outra.

violentamente ou passivamente. De qualquer modo, é uma pessoa infeliz e faz infeliz a outra.

Não sendo possível aprofundar este mal-estar do amor, remete-se para a bibliografia especializada, por exemplo o artigo de Silva e Marks (1997) que procuram definir, avaliar e dar indicações clínicas sobre o ciúme, baseados na literatura e na própria experiência.

Resumo

Toda a gente fala do amor, mas não é fácil a sua definição nem apontar todos os seus elementos e componentes. Aplicando directamente ao amor conjugal, interessa antes de mais compreender algumas teorias sobre a atracção interpessoal, a escolha amorosa e as razões por que as pessoas se casam e com quem. Os autores debatem-se entre razões de similaridade, complementaridade e mesmo oposição. Depende de cada caso, mas certamente conforme os motivos mais ou menos (in)conscientes da escolha, temos um casal mais ou menos (in)feliz. A complexidade do amor manifesta-se também na diversa terminologia para o expressar, já a partir da Bíblia e dos gregos.

Os autores, tentando compreender como é que o amor nasce e se desenvolve, apontam diversos estádios de desenvolvimento do amor. Há também tentativas de catalogar o amor ou de lhe apontar tipologias. Lee distingue seis espécies de amor e a partir daí construíram-se algumas escalas na tentativa de avaliação da qualidade do amor. Sternberg, por seu lado, tendo já definido a inteligência tridimensionalmente, faz o mesmo com o amor, falando de três componentes:

intimidade, paixão e compromisso.

Se o amor é coisa sublime e delicada, está também sujeito a muitas doenças, uma das quais é o ciúme, que tem várias conotações e motivações, mas que sempre perturba e pode mesmo matar o amor.

Interrogações e sugestões

Descreva sumariamente as diversas teorias sobre a atracção interpessoal e a escolha amorosa, bem como as implicações que daí decorrem.

Distinga diversos estádios de desenvolvimento do amor apontados pelos diversos autores.

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Distinga algumas tipologias do amor donde derivam diversas espécies de amor, conforme os diversos autores.

Distinga algumas tipologias do amor donde derivam diversas espécies de amor, conforme os diversos autores.

Lee distingue seis modos possíveis de amar e que podem ter diversas combinações entre si, como as cores: aponte-os e diga se concorda com essa teoria.

Sternberg tem uma teoria triangular sobre o amor: descreva os seus componentes e tente apreciar esta teoria criticamente.

O amor é coisa sublime mas frágil e pode também adoecer: fale um pouco do ciúme.

Tente analisar um caso de par amoroso, interrogando-os sobre as razões de escolha mútua e eventualmente observando alguns dos seus comportamentos.

Leitura complementar

Há muita literatura sobre o amor. Para aprofundar o tema podia ler-se o capítulo que Neto (2000, pp. 225-268) dedica ao assunto. Clássica é a obra editada por Sternberg e Barnes (1988) precisamente sobre “Psicologia do amor”. Referência fundamental é também a obra de Lee (1973) sobre “As cores do amor”.

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4. Harmonia e Desarmonia Sexual © Universidade Aberta

4. Harmonia e Desarmonia Sexual

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Objectivos de aprendizagem Pretende-se com este capítulo que o leitor seja capaz de: • Apontar

Objectivos de aprendizagem

Pretende-se com este capítulo que o leitor seja capaz de:

• Apontar as principais diferenças bio-psicológicas do género.

• Enumerar alguns objectivos da relação sexual e alguns mitos que a envolvem.

• Decrever alguns factores de que depende a satisfação na relação sexual.

• Dizer porque é que é importante a harmonia sexual no casal e alguns factores que para isso contribuem.

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É abundante a bibliografia sobre a sexualidade no casal (cf. e.g. Eysenck e Wilson, 1979),

É abundante a bibliografia sobre a sexualidade no casal (cf. e.g. Eysenck e

Wilson, 1979), quer do ponto de vista normal, quer anormal ou patológico, necessitando neste caso de terapia. Não nos podemos alongar sobre este particular. Todavia, seguindo fundamentalmente Mucchielli (1979, pp. 5-21), vamos referir-nos a alguns aspectos mais importantes, pois trata-se duma dimensão fundamental da pessoa e em particular do casal.

4.1 Bio-psicologia diferencial do género (masculinidade/ feminilidade)

Trata-de de diferenças acidentais ou essenciais? Há vários instrumentos ou escalas para tentar avaliar estas diferenças. Das suas diversas passagens, e supondo a sua validade, em geral pode concluir-se que as mulheres obtêm maior êxito em tarefas implicando factores estéticos (mais gosto nas cores,

imagens), verbais (falam mais facilmente, utilizam vocabulário mais concreto), realizações manuais, preocupações sociais (relações humanas e capacidade de simpatia, maior “memória social” para nomes e caras), organização material do trabalho. Além disso, exprimem as suas emoções de forma mais espontânea

e mais extrema, são menos indiferentes que os homens em relação aos

interesses, são mais introvertidas, etc. Ao contrário, os homens conseguem fazer melhor tarefas que impliquem aptidões espaciais, uma percepção analítica, um tempo de reacção rápida, raciocínio matemático e lógico, definições de palavras abstractas, etc.

Estamos perante diferenças psicofisiológicas ou mais de índole cultural (estereótipos)? Num estudo de Rocheblave-Spenlé (1964), os esterótipos masculinos e femininos, conforme alguns grupos de traços, apontavam o homem como mais decidido, disciplinado, independente, com necessidade de poder, gosto pela luta, activo, criador, de sexualidade imperiosa… enquanto a mulher era vista mais como caprichosa, faladora, com necessidade de confiar, de agradar, diplomata, passiva, intuitiva, de sexualidade acariciadora… A autora conclui que muitos destes traços são representações culturais onde está presente o domínio masculino (machismo) que atribui prevalentemente ao homem valores positivos e à mulher defeitos, segundo uma percentagem de 11 qualidades para 1 defeito no homem e de 8 defeitos para 2 qualidades na mulher. Mesmo as mulheres reconhecem esta “supremacia” do homem (sobre estereótipos do género, cf. Neto, 2000, pp. 31-123).

A partir de determinada altura, e como reacção a esta situação, começaram a

surgir na América e na Europa movimentos feministas, reividicando para a mulher igualdade de direitos na família, no trabalho, na política e contestando a consideração da mulher unicamente como um “ventre” ou como “uma casta

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inferior”, votada à menor-idade e a viver no lar à volta da panela e dos

inferior”, votada à menor-idade e a viver no lar à volta da panela e dos filhos. Pôs-se também em causa ou reinterpretou-se a psicologia diferencial da mulheres, considerando como mitos muitas dessas diferenças. É famosa a expressão de Simone Bouvoir em “O segundo sexo”: on ne naît pas femme, on le devient. Todas as diferenças seriam convencionais ou artefactos sócio- culturais, resultados da educação machista e da pressão social. Faz-se crer que

o sexo anatómico e fisiológico nada tem a ver com a diferenciação e que toda

a distinção não é mais do que papéis sociais aprendidos. Cai-se assim noutro extremo da igualdade absoluta ou do uni-sexo não apenas no vestir, mas no comportamento e nos papéis sociais.

A contra-reacção não se fez esperar, mesmo numa perspectiva científica. Assim

Margaret Mead (1966), a partir da antropologia, constata que as diferenças culturais apenas formalizam a diferença biológica dos sexos e que os papéis masculino-feminino foram fixados desde cedo na espécie humana. E isso devido particularmente ao facto incontestável que é a mulher que concebe e dá à luz realizando a sua feminilidade na maternidade. E é a mãe que instintivamente se relaciona e educa diferentemente o menino da menina, porque esta se parece com ela e o menino se deve tornar diferente dela e semelhante ao pai.

Também a partir da antropologia, M. Mead constata que o papel masculino original é o de alimentar a família. Comparando os humanos com os macacos, ela demonstra que o papel tipicamente viril não consiste propriamente em proteger a sua mulher e os filhos (isso acontece nos símios superiores), nem na posse soberana das fêmeas disputando-as a outros machos (como acontece nos primatas e noutras espécies animais), mas antes no comportamento do homem preocupado em alimentar a família.

Pode concluir-se que a diferenciação dos papéis entre os sexos é uma realidade

transcultural e que radica na biologia, embora os estereótipos culturais tenham

o seu peso e as representações possam evoluir. Mas por vezes tal evolução é

fruto da pressão cultural, como alguns comportamentos masculinos bastante efeminados que M. Mead encontrou em três tribos, mas atribuídos à

colonização branca que proibiu aos homens realizarem as actividades guerreiras

a que estavam habituados. A etologia também nos diz que nos animais existe

uma estreita relação entre a hierarquia social e o comportamento sexual. Assim, por exemplo, um veado vencido e dominado por outro macho, torna-se impotente; um babuino vencedor monta o que é vencido e este adopta um comportamento feminino (não devendo isto ser interpretado como homossexualidade). Parece, por conseguinte, que a concepção masculina e feminina ao longo das diversas culturas e tempos é uma invariante e a sua explicação fundamental é de ordem biológica, embora a educação e a cultura possam também influenciar.

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Efectivamente, existem entre o homem e a mulher profundas diferenças genéticas, hormonais e fisiológicas com

Efectivamente, existem entre o homem e a mulher profundas diferenças genéticas, hormonais e fisiológicas com grandes repercussões a nível neurológico e psicológico. Biologicamente o sexo masculino é mais frágil, havendo mais abortos espontâneos e maior mortalidade infantil entre os meninos. Além disso, as raparigas desenvolvem-se mais rapidamente, física e psicologicamente, na adolescência e as mulheres duram em média mais 6 ou 7 anos do que os homens. O último par de cromossomas (23) que determina o sexo, na rapariga é constituído por dois XX, enquanto no rapaz por XY, sabendo-se que o cromossoma Y, proveniente do pai, é cinco vezes mais pequeno que o X e constituído por poucos genes. Pensa-se que as anomalias de um cromossoma podem ser mais facilmente compensadas pelo outro na rapariga do que no rapaz. Além disso este par de cromossomas tem ainda outras propriedades para além da determinação do sexo, como resistência a

certas doenças e resistência psicológica e moral (por exemplo, é muito maior

a taxa de suicídios entre os homens).

Dependente da genética (genital), as hormonas sexuais também interferem diferencialmente no homem e na mulher, determinando os caracteres sexuais secundários (como a voz, a barba, os seios), o esqueleto, a altura e o peso, a

pele, o cabelo, a força, o sistema cárdio-vascular, o cérebro, e ainda o carácter

e o comportamento, podendo afirmar-se que tudo em nós, quer físico quer

psicológico, é sexuado e por isso diferenciado. Sabe-se, por exemplo, que a progesterona penetra no cérebro afectando o seu funcionamento; através do hipotálamo influencia também o humor. A ablação dos testículos num jovem provoca perturbações no desenvolvimento normal e uma certa feminização, enquanto na mulher a ablação dos ovários trava a evolução feminina mas sem provocar virilização.

A própria expressão da sexualidade é muito diferente no homem e na mulher, sendo o homem mais excitável e agressivo; por isso a poligamia é mais frequente que a poliandria, e o adultério masculino também mais frequente. O homem facilmente separa a genitalidade da afectividade, ao contrário da mulher. No homem trata-se mais de uma actividade (fragmentada), enquanto na mulher é antes um estado (de ternura global). O homem pode funcionar em compartimentos estanques, enquanto a mulher funciona (ou não funciona) na sua globalidade sómato-psíquica. Humoristicamente pode afirmar-se que o homem não precisa de afinar a viola para tocar, mas a mulher só toca bem (ou vibra sexualmente) quando todas as cordas físicas e psíquicas estiverem afinadas (o que leva o seu tempo…).

As diferenças manifestam-se igualmente a nível de paternidade e de maternidade. No homem, a vida sexual e a possível paternidade não o compromete biologicamente, mas apenas social e afectivamente, enquanto na mulher a possível maternidade compromete antes de mais biologicamente, com consequências a nível hormonal e psicológico ao longo da gravidez e

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durante a amamentação, com reflexos a longo prazo. O mesmo se diga do sentimento paternal

durante a amamentação, com reflexos a longo prazo. O mesmo se diga do sentimento paternal ou maternal, também eles diferentes, sentindo o pai prevalentemente orgulho por ter descendência, poder, responsabilidade, não havendo em geral conflito entre sentimentos paternos e conjugais (a menos que sinta ciúmes patológicos do bebé que veio partilhar com ele a vida da esposa-mãe, dependendo também do comportamento desta). O mesmo não se passa com a mulher que tem mais dificuldade em gerir simultaneamente a dupla função esposa-mãe, havendo quem faça prevalecer mais a mãe (em detrimento do marido) ou da esposa (eventualmente em detrimento do filho

que, neste caso, será mais estimado quando crescer, enquanto no caso anterior

a mãe o prefere pequeno).

Tais diferenças radicadas na biologia dos sexos, têm também implicações a nível psicológico e de concepção da vida. Antes de mais a nível da própria inteligência e afectividade. Quanto às diferenças de inteligência, para além das conotações culturais e idiossincráticas, no homem o raciocínio parece mais abstracto e espacial, enquanto a mulher é mais intuitiva e concreta. O facto da inteligência feminina se enraizar na sua natureza biológica de procriadora, torna-a mais sensível e compreensiva. A afectividade e emotividade femininas contrastam com a agressividade masculina cuja raiz é também biológica, tratando-se duma agressividade ofensiva e física, enquanto a agressividade feminina é mais defensiva e verbal. A violência (por exemplo na guerra) é mais típica do homem.

É também diferente a Weltanschauung ou concepção do mundo e da vida, em

particular da vida doméstica. A mulher concebe o casamento como uma situação vital essencial onde espera realizar-se, podendo sentir dificuldades em conciliar o seu lugar no lar com o seu papel ou intervenção social. Ao contrário, o marido não sente essa dificuldade, podendo dar-se de corpo e alma à sua profissão ou intervenção sócio-política sem achar que isso colide com a vida conjugal. Ele vê a casa como lugar de refúgio e descanso no meio da agitação da vida, enquanto a esposa a considera também como lugar de trabalho, eventualmente desopilando melhor fora de casa, podendo resultar daí alguns conflitos, se o marido não ajuda nas lides domésticas ou se se recusa a sair nos fins-de-semana.

Mas, como dissemos, embora a biologia continue a ter o seu peso inegável na estrutura físico-psicológica e comportamental dos géneros, os factores socioculturais são cada vez mais determinantes, havendo muitas crenças e comportamentos estereotipados.

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4.2 Sexualidade conjugal Ninguém duvida da importância da sexualidade na vida pessoal e do casal,

4.2 Sexualidade conjugal

Ninguém duvida da importância da sexualidade na vida pessoal e do casal, para além das evoluções no percepcionar e viver a sexualidade, tendo em conta ainda as diversas revoluções e contra-revoluções a que se tem assistido na sociedade em relação ao sexo e à sexualidade (cf. Neto, 2000, pp. 271-

287). Teoricamente trata-se da relação mais íntima entre duas pessoas. Muitos pares queimam etapas e iniciam rapidamente esta relação íntima julgando que com ela vem a segurança e a felicidade, considerando-a como um fim, quando

na realidade se trata dum processo gradual e por vezes doloroso. Qual a relação

entre a satisfação matrimonial e a satisfação sexual? Os autores normalmente estão de acordo que a harmonia sexual contribui em grande parte para o bom entendimento do casal. Mas não há grande investigação sobre o assunto.

Spanier e Lewis (1980) fizeram uma revisão das investigações realizadas nos anos 70 sobre a qualidade matrimonial. Notaram primordialmente três áreas que contribuem para a qualidade do casal: diferenças sexuais, efeito dos filhos, profissão. Mas só encontraram cinco artigos que indirectamente abordavam a relação entre a qualidade matrimonial e a sexualidade.

A expressão sexual do casal é um processo dinâmico em contínua evolução,

dependendo da personalidade de ambos, da saúde, da idade, do contexto social, do número de filhos e de outros factores. Trata-se duma relação ao mesmo tempo forte e delicada podendo ser fonte de grande prazer mas também de dor, desilusão e insegurança, principalmente por parte da mulher, cuja vibração sexual depende de todo o contexto afectivo, enquanto o homem pode separar a relação sexual da afectividade.

Segundo Talmadge (in L’Abate (Ed.), 1985, I, pp. 468-470), cinco objectivos estão presentes no exercício da sexualidade matrimonial: 1) a procriação: o desejo sexual é uma pulsão instintiva para a sobrevivência da espécie. A procriação tem fortes razões bio-psico-sociais; uma delas é unir mais o casal e torná-lo mais adulto (cf. Ballon, 1978); 2) a relação: a união sexual é um meio privilegiado de exprimir afeição e amor mútuo, do casal viver em intimidade e interdependência, num contacto ao mesmo tempo emotivo e fisiológico; 3) a recriação: na relação sexual o casal encontra prazer e ao mesmo tempo expressões lúdicas e relaxantes; 4) um aferidor ou barómetro da satisfação do casal em geral: quando a relação sexual vai perdendo qualidade, pode ser um indicador ou prenúncio de que a união do casal corre riscos; 5) a celebração do laço matrimonial: a relação sexual pode significar uma força capaz de dar qualidade à vida, de dar saúde física e mental, para além de manter o casal unido.

Talmadge (pp. 470-477) aponta também alguns mitos da sexualidade matrimonial: é fácil o uso do sexo no casamento (mas tem antes de ser uma conquista progressiva); a frequência do exercício sexual é o primeiro indicador

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da compatibilidade sexual e da felicidade do casal (mais do que a quantidade interessa a

da compatibilidade sexual e da felicidade do casal (mais do que a quantidade interessa a qualidade); uma relação sexual pobre conduz à infelicidade do casamento e a expressões extramatrimoniais (depende das causas dessa ‘pobreza’); a relação sexual e a relação matrimonial são entidades separadas

(assim pode acontecer, mas a relação matrimonial necessita da relação sexual);

o sexo cria intimidade no casal (se for de boa relação); os casais felizes não

têm problemas sexuais (podem tê-los mas são capazes de os superar); desde que haja uma boa colaboração sexual com o partner, a relação sexual matrimonial será satisfatória (são necessárias outras condições para uma boa relação); o sexo matrimonial é sempre romântico, excitante e orgásmico (pode não ser).

Talmadge (pp. 477-492) descreve ainda diversos factores de satisfação sexual matrimonial que sintetiza: 1) factores de personalidade (auto-imagem, imagem do corpo, identidade do género, sentimentos de culpabilidade, poder, estilos defensivos, autonomia, dependência, conflitos intrapsíquicos); 2) contexto social (desenvolvimento do casamento, educação, idade, cultura, mass-media, filhos, acontecimentos casuais como mudanças profissionais, mortes, etc.); 3) estado físico (comportamento hormonal, situação cárdio-vascular, saúde geral, obesidade, situação neurológica, funcionamento da genitalidade, outros distúrbios); 4) família de origem (sexualidade dos pais, clima sexual da casa, atitudes e conhecimento parental sobre o sexo, experiências sexuais na infância, incesto e traumas sexuais, clima afectivo); 5) personalidade da relação (estilo de comunicação, amor, confiança, entrega, intimidade, resolução de problemas, dependência/independência, apoio mútuo, capacidade de abertura, etc.).

Muita outra bibliografia analisa a natureza e importância da sexualidade no sistema familiar, e não apenas no casal, que também nos filhos, como Maddock (1983), que em parte concorda com Freud quando considerava a sexualidade ou a atmosfera erótica da família como a força maior de socialização da criança. Efectivamente, muitos estudos têm provado a grande influência da sexualidade no comportamento individual e colectivo de todos os membros da família.

4.3 Harmonia sexual e comunicação

Peso determinante na (in)felicidade do casal tem a (des)harmonia sexual entre ambos os parceiros, sendo neste campo mais determinante a satisfação da mulher que, por outro lado, depende muito do marido, do modo como a estima

e ama e do modo como prepara e vive o acto sexual. A mulher, se se sente

feliz com o marido, mais facilmente atinge o orgasmo e, por outro lado, na medida em que é compensada sexualmente, pode tornar-se mais alegre, num círculo bem-fazejo que ajuda mais facilmente o casal a superar as diversas crises.

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A respeito da harmonia sexual, como de outras expressões do amor e relacionamento conjugal, é

A respeito da harmonia sexual, como de outras expressões do amor e relacionamento conjugal, é muito importante também o ajustamento das percepções, crenças e/ou expectativas recíprocas entre os dois, a respeito da própria pessoa de cada um, do seu comportamento, dos papéis, trabalhos, etc. Em grande parte vivemos das expectativas (cf. Barros, 1992), mas estas podem

ser deturpadas, sendo necessário o diálogo para afinar, no caso vertente, o que

é que o marido pretende da esposa e esta do marido e como se percepcionam mutuamente.

Neste grande sistema de expectativas, pode estabelecer-se uma certa hierarquia. Figuram em primeiro lugar as aspirações interpessoais fundamentais: sentir que se ocupa o primeiro lugar no coração do outro, que nos podemos apoiar nele e que somos, de qualquer modo, indispensáveis. No casal, as expectativas sobre o papel de cada um, são também importantes: o marido espera primordialmente da esposa carinho e outras qualidades afectivas, mas também

intelectuais e sociais, enquanto a esposa espera do marido segurança, sobretudo nas dificuldades, apoio económico, mas também que seja afectuoso, inteligente

e capaz de autocontrolo. Apesar de algumas destas características poderem

ser mais fruto de estereótipos, à medida que a situação “unisexo” se vai impondo, é sempre evidente que estão em campo duas personalidades complementares, psicológica e socialmente.

A satisfação destas expectativas gera felicidade e crescimento mútuo do casal, enquanto a sua decepção vai abrindo rombos mais ou menos graves no amor

e na comunicabilidade entre ambos. Antes que esta comunicação falhe, é

necessário fazê-la funcionar para evitar círculos viciosos: quanto maior frustração das expectativas, menos comunicação ou mais isolamento e quanto mais isolamento e silêncio, maior frustração. Nos casais felizes a comunicação verbal (diálogo) e outras espécies de comunicação não verbal (afectiva, presencial) é reconfortante, sobretudo nos momentos de dificuldade, enquanto nos casais infelizes ou em vias de rotura não há propriamente comunicação, sendo substituída pela agressividade ou pelo silêncio.

Enfim, a existência conjugal não pode ser assimilada a um jogo onde cada um puxa para seu lado, até rebentar a corda, ou onde há um que perde e o outro que ganha (a vitória de um faz-se à custa da derrota do outro), nem mesmo onde há empate, repartindo-se as vitórias e as derrotas, mas onde as vitórias de um pertencem também ao outro e as derrotas (que a vida impõe) também são repartidas. Assim, as alegrias partilhadas tornam-se maiores e produzem mais unidade, enquanto as cruzes levadas a dois se tornam mais leves e podem constituir também momentos de crescimento. De qualquer modo, é difícil manter uma boa comunicação entre o casal, se a relação sexual perde qualidade afectiva.

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Resumo Há autores que, para explicar as diferenças comportais entre o homem e a mulher,

Resumo

Há autores que, para explicar as diferenças comportais entre o homem e a mulher, se apoiam fundamentalmente nos factores genético-constitucionais, enquanto outros acentuam particularmente os factores socioculturais. Defende- se que as principais diferenças psicológicas entre os dois sexos radicam fundamentalmente no biológico (genético, hormonal, fisiológico). A antropologia cultural parece corroborar esta tese. Todavia os factores socioculturais, com muitos estereótipos, desempenham também um papel determinante.

Reveste-se de grande importância o exercício da sexualidade para o bem- estar do casal. Os autores apontam diversos objectivos nesta relação, mas também existem muitos mitos a este respeito. São ainda diversos os factores de satisfação sexual matrimonial. De qualquer modo a harmonia sexual exerce papel determinante para a felicidade do casal e para uma boa comunicação entre os cônjuges.

Interrogações e sugestões

Em que factores se fundamenta a diferença bio-psicológica entre os dois sexos?

Quais os objectivos principais que os dois cônjuges têm na relação sexual?

Aponte alguns mitos que correm sobre a relação sexual.

Quais os objectivos que o casal tem (ou pode ter) no exercício da sexualidade matrimonial?

Diga algumas razões sobre a importância duma boa harmonia sexual entre o casal e alguns factores que contribuem para isso.

Faça um inquérito mais ou menos estruturado a alguns casais sobre a importância que dão à relação sexual na sua vida de casal e se essa relação é preparada. Tente notar as perspectivas diversas do homem e da mulher.

Leitura complementar

Para aprofundar este tema, pode ler-se o livro de Eysenck e Wilson (1979) sobre a “Psicologia do sexo” ou ainda alguns capítulos do 1º volume da obra editada por L’Abate (1985).

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5. Doenças do Casal – Conflitos e Divórcio © Universidade Aberta

5. Doenças do Casal – Conflitos e Divórcio

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Objectivos de aprendizagem Pretende-se que, no final deste capítulo, os seus leitores sejam capazes de:

Objectivos de aprendizagem

Pretende-se que, no final deste capítulo, os seus leitores sejam capazes de:

• Identificar diversos processos e momentos na vida do casal que podem conduzir ao divórcio.

• Apontar as consequências dos conflitos e do divórcio para os cônjuges e para os filhos.

• Enumerar algumas classes de violência no casal e na família.

• Aconselhar algum casal em vias de ruptura e/ou propor alguma terapia.

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Até ao último quartel do século XX, os psicólogos pouco se interessaram pelos conflitos familiares,

Até ao último quartel do século XX, os psicólogos pouco se interessaram pelos conflitos familiares, que muitas vezes terminavam na separação e no divórcio, mais fixados no indivíduo do que nas suas relações, embora nos anos 70 houvesse já preocupação com o divórcio, particularmente pelas consequências que acarretava para os filhos, como é o caso do livro de Liberman (1979). Nas duas últimas décadas é abundante a literatura sobre as diversas doenças do casal e da família.

Maurey (1977), num livro que intitula O casal doente, começa por afirmar que, enigmaticamente, conforme a descrição das primeiras páginas da Bíblia, o primeiro casal (Adão e Eva) começou logo a ter problemas, deixando-se seduzir pela serpente e recriminando o homem a mulher e esta a serpente, tornando-se ambos infelizes. Pode dizer-se que o casal nasceu mal. E será que houve grande evolução até agora? Na realidade, muitos casais actuais – como ao longo de toda a História - nascem mal e continuam mal, acabando por desfazer-se.

No corpo humano, as diversas manifestações patológicas não se manifestam

de um dia para o outro, mas progressiva e silenciosamente, de tal modo que,

por vezes, quando os sintomas aparecem mais claramente, já é demasiado tarde e pode estar a desenvolver-se, em estado avançado, um cancro ou outra doença grave. O processo é idêntico do ponto de vista psicológico:

comportamentos neuróticos ou psicóticos (por exemplo, fobias ou obsessões, depressões, tendências esquizóides, etc.) vão-se desenvolvendo subreptícia e gradualmente. O mesmo se passa com o casal. No início tudo corria bem (quando corria) e pouco a pouco, quase imperceptivelmente, instala-se a desilusão, o fracasso, a infelicidade, o divórcio.

5.1 Processo do divórcio – decepção e tentativas de reconciliação

O processo que desagua muitas vezes na separação e no divórcio passa,

segundo Lee (1984), por diversos estádios, desde a descoberta do problema, à sua exposição ao parceiro, a algum tipo de negociação que pode chegar a algum tipo de resolução ou então à cisão mais ou menos a curto ou a longo prazo. Quando chegam a este ponto, dá a impressão que os cônjuges caminharam sempre em vias paralelas e não convergentes. Acusam-se mutuamente, mas no fundo ambos são responsáveis e vítimas, embora em graus diferentes, conforme cada caso. Também a dor e as consequências sentidas pela separação dependem de muitos factores, principalmente se o passado foi amoroso ou sempre relativamente frio; no caso duma boa relação anterior, os custos são maiores. Há investigações que levam a concluir que a

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separação acarreta sofrimento maior para os homens, mas depende de cada casal (cf. Neto, 2000,

separação acarreta sofrimento maior para os homens, mas depende de cada casal (cf. Neto, 2000, pp. 291-295).

O processo por que se chega à desilusão ou decepção pode ser diversificado,

mas tem sempre etapas mais ou menos detectáveis, como a incompreensão, a acusação mútua, a humilhação, as expectativas frustradas e consequente monotonia e aborrecimento, a desarmonia sexual, o egocentrismo, o silêncio, desigualdades no modo de pensar e de viver, a agressividade verbal ou mesmo física, e outras causas. O casal, por si mesmo ou ajudado por alguém amigo ou por algum técnico (psicólogo, advogado, sacerdote) pode fazer o ponto da situação e arrepiar caminho, dando passos no sentido um do outro, quando antes se iam separando cada vez mais, caminhando em sentido contrário. Assim, depois da crise pode vir a bonança ou mesmo os melhores dias do casal. Por isso, há formas mais ou menos activas e construtivas de abordar o problema, como verbalizar a situação e manifestar capacidade de diálogo e de lealdade um pelo outro; e há formas mais ou menos passivas e destrutivas, como o deixa-correr negligente ou o esticar mais a corda até ao rompimento total.

Pode acontecer a reconciliação e um recomeçar novo caminho. Mas também,

por diversas razões (a ferida é já demasiado profunda, a psicologia de ambos

é de difícil compatibilização, não há vontade suficiente de reiniciar o caminho, etc.), a reconciliação pode ser apenas aparente ou sol de pouca dura, recomeçando o processo de separação e decepção, que passa pelo isolamento, procura de compensações fora de casa, ruptura da comunicação (silêncio agressivo ou indiferente), exasperação permanente, doenças físicas ou psíquicas, como a depressão, ou mesmo tentativas de suicídio (fruto do stress ou como mecanismo para ‘castigar’ inconscientemente o outro, ou ainda como último grito de alerta e desejo de salvar o lar), comportamentos desviantes (como o álcool ou a droga) ou mesmo o crime, podendo chegar a matar o outro cônjuge, num acto de desespero. Mas o mais ‘normal’ é a separação ou

o divórcio. Pode também o casal às vezes, para salvar a face social ou por

outras razões, como as económicas, permanecer sob o mesmo tecto (divórcio afectivo) mas levando vidas totalmente independentes como se não tivessem nada a ver um com o outro.

Os diversos processos de ruptura funcionam a um tempo como mecanismos de defesa contra a culpabilidade pessoal, como culpabilização do outro ou como necessidade de se autocastigar ou de castigar o outro. Tais tensões e

‘guerrilhas’, mais ou menos silenciosas ou manifestas, não atingem unicamente

o casal, mas os familiares próximos de um e outro e sobretudo os filhos (se os

há e conforme a idade dos mesmos), gerando neles sentimentos de insegurança, culpabilidade, desorientação, dificuldades de identificação, desadaptação social (que pode chegar à criminalidade passiva ou activa), distorção da imagem de família, medo do casamento futuro.

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O diagnóstico de tantos lares falhados nem sempre é fácil de fazer e é sempre

O diagnóstico de tantos lares falhados nem sempre é fácil de fazer e é sempre multifactorial. Mas poder-se-iam apontar causas de doença grave ou de morte do casal mais ou menos internas (controláveis) ao casal ou mais ou menos externas (incontroláveis). Entre as primeiras, conta-se o arrefecimento ou mesmo a morte do amor, graves incompatibilidades de personalidade e de expectativas, nível sócio-cultural e de origem muito diferente, desarmonia sexual, conflitos a propósito dos papéis de cada um e a propósito de tudo e de nada. Causas mais extrínsecas da crise podem ser: matrimónios muito precoces ou mais ou menos forçados e irresponsáveis (como alienação), sem a devida preparação e liberdade, doença mental ou psíquica de um dos cônjuges (como tendências neuróticas ou psicóticas, homossexuais, sádicas, etc.), problemas profissionais ou financeiros, presença de terceiros (sogros, por exemplo), trabalho da mulher fora de casa (chegando a casa cansada e sem possibilidade de atender bem o marido e os filhos), meios de comunicação social que atentam contra a fidelidade do casal, etc. (cf. Mucchielli, 1979, pp. 77-116).

Touzard (1975, pp. 24-29), através duma investigação com casais franceses, refere-se ao impacto do conflito que frequentemente começa por ser intrapessoal antes de se tornar interpessoal, uma vez que a mesma pessoa, marido ou esposa, devem assumir diferentes papéis que podem ser contraditórios ou dificilmente compatíveis entre si. Mas os conflitos mais graves passam-se a nível das duas pessoas que constituem o casal e que têm traços de personalidade incompatíveis com o outro cônjuge que também não sabe ligar com as diferenças. A fonte do conflito pode ser também cultural e social, mais frequente actualmente em sociedades com grande fluxo migratório.

Os muitos conflitos que surgem ao longo da vida do casal e da família podem ser resolvidos das mais diversas formas, umas muito negativas até outras com sucesso. Vaillant (1977) descreve quatro níveis de defesas: 1) defesas psicóticas, como a projecção ilusória, a negação e a distorção; 2) mecanismos de defesa imaturos, como projecções, fantasias esquizóides, hipocondrias, comportamentos passivo-agressivos e mesmo agressões; 3) defesas neuróticas como a racionalização, o recalcamento, a deslocação, a formação reactiva, a dissociação; 4) defesas maduras como o altruísmo, o humor, a supressão, a sublimação, a antecipação. Só esta última forma de reagir aos conflitos e situações quase de ruptura consegue resolver a situação positivamente e a longo prazo para bem de ambos os contendores.

Não se trata propriamente de evitar o conflito mas de usá-lo construtivamente e não destrutivamente, para o próprio casal e principalmente para o bem dos filhos. Humphreys (2000) afirma que o conflito pode ser “uma força criativa dentro da família” se é encarado como “oportunidade para a mudança” e “sinal para os membros familiares de que algum processo de cura é necessário” (p. 98). Tal processo de cura pode ser necessário a diversos níveis: físico, comportamental, emocional, social, sexual, cognitivo. Para uma boa solução

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do conflito é necessário, antes de mais, identificar bem o(s) problema(s) e que todos os

do conflito é necessário, antes de mais, identificar bem o(s) problema(s) e que

todos os intervenientes estejam dispostos a empenhar-se na solução.

Diga-se ainda que muitos casais se separam, após mais ou menos tempo juntos, porque na realidade nunca viveram como autênticos casais mas apenas como duas pessoas justapostas, não formando uma verdadeira comunidade conjugal, dinâmica e viva, para além do contrato civil ou do quadro formal. A união conjugal é um começo de duas vidas em convergência, bem diferente de um grupo normal, pois a díade conjugal ultrapassa todos os esquemas de grupo, tendo uma dinâmica nova.

Rucquoy (1974) tenta compreender as dificuldades, conflitos e crises do casal a partir das razões ou “determinantes” que levaram o casal a formar-se, devendo considerar-se determinantes sociológicos (o contexto em que habitam tem um papel fundamental no futuro (des)entendimento) e psicológicos (razões mais

ou menos conscientes da escolha que, por exemplo, tanto podem tentar satisfazer certas tendências profundas, como reagir a essas mesmas tendências).

Leonard e Roberts ((in Bradbury, 1998, pp. 44-73) referem-se particularmente

às agressões entre o casal no primeiro ano de vida, havendo diferenças

significativas no comportamento do marido e da esposa quando ajudados a solucionar os seus problemas e a resolver os seus conflitos.

Bales (1970) descreveu um modelo tridimensional do comportamento interpessoal que pode ser aplicado à dinâmica familiar. As três dimensões são:

topo-base (up-down), positivo-negativo, para a frente-para trás (forward- backward). A primeira dimensão representa a dominância vs. a submissão. A segunda inclui associações positivas (como o amor e relações interpessoais

satisfatórias) ou negativas (como a hostilidade e a ansiedade). A terceira leva

o grupo ou à mútua aceitação e consecução do objectivo, ou então ao

afastamento do projecto comum. Cada pessoa tende a levar o grupo para o lugar ou atitude onde se move. Por exemplo, uma pessoa no espaço topo- positivo-frente, tende a ser ascendente, amicável e toma a iniciativa de fazer com que o grupo atinja os objectivos. Uma pessoa no topo-negativo-frente também tende a ser dominante e a levar o grupo a atingir os objectivos, mas é menos cooperante na relação no interior do grupo e pode tornar-se autoritária. Uma pessoa na base-negativo-para trás é submissa, tem atitudes negativas e

pessimistas, e não coopera na obtenção dos fins do grupo. Na situação familiar,

os diversos membros encontram-se em situações diferentes nas três dimensões

e podem acontecer as mais variadas combinações no funcionamento do

agregado familiar, gerando-se os mais diversos conflitos ou então soluções satisfatórias (cf. Swensen, in L’Abate (Ed.), 1985, I, pp. 73-101).

A hipótese de o casal terminar em fracasso é estudada também

longitudinalmente, como é o caso da investigação de Gottman (1993) que se

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queixa de haver poucos estudos longitudinais neste sentido. Este autor apresenta a sua teoria da

queixa de haver poucos estudos longitudinais neste sentido. Este autor apresenta

a sua teoria da dissolução matrimonial que permite outrossim prever a sua

eventual estabilidade, dando importância, para além de outros factores, às expectativas negativas ou positivas do casal que tendem a generalizar-se de situações pontuais para a relação conjugal na sua globalidade.

Maccoby et al. (1993) analisam os papéis da mãe e do pai no pós-divórcio e as suas implicações na vida dos filhos adolescentes. Trata-se também dum estudo

longitudinal com famílias divorciadas, onde se verifica, como noutros estudos, que em geral são as mães a assumirem a responsabilidade principal dos filhos que ficam com elas. Mas há muitos pais que manifestam também um grande envolvimento na educação dos filhos. Os autores estudam os possíveis custos

e também benefícios do contacto dos filhos com um dos progenitores ausente

do lar. São apresentados diversos estudos que consideram positivo o contacto com o outro progenitor, desde que algumas condições sejam satisfeitas, como

a qualidade psicológica satisfatória do progenitor, o conflito matrimonial não

muito grande a ponto de levar um dos pais a denegrir o outro diante dos filhos, etc. Mas há também estudos que não encontram benefícios nestes contactos, mesmo que algumas premissas sejam satisfeitas.

Carrère et al. (2000), partindo da constatação que, nos Estados Unidos (certamente na Europa os números serão idênticos), um terço dos casais fracassa nos primeiros cinco anos de matrimónio, terminando metade ou dois terços em divórcio, com todas as consequências perniciosas para a saúde física e psíquica do casal e eventualmente dos filhos, procuram encontrar factores capazes de predizer a estabilidade ou a fracasso dos casais. Detectando e compreendendo a influência destes factores, será possível construir uma teoria sobre a qualidade e estabilidade matrimonial. Para esta análise, os autores baseiam-se fundamentalmente na teoria de Gottman (1993, 1994) que aponta três domínios – percepções, fisiologia e comportamento - que funcionam, a nível individual e grupal, como termostates interactivos no casamento.

Castellan (1993, pp. 181-210) analisa sumariamente a problemática da separação e do divórcio, havendo tantas formas de divórcio quantas as formas de casamento, não se podendo generalizar as situações, antes tentando

compreender caso a caso e se possível ajudar a ultrapassar a situação de crise

e de risco de cisão que acarreta sempre graves custos quer para o casal quer

para os eventuais filhos. Pode acontecer a reconciliação após um período mais

ou menos longo de separação. Mas na maior parte dos casos isso não se verifica

e cada um dos ex-cônjuges, após período mais ou menos longo de solidão ou

de vida como família monoparental, caso haja filhos, tenta recompor o núcleo familiar casando de novo, com sucesso diversificado conforme as diversas circunstâncias, quer para os pais quer para os filhos.

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White e Mika (1983) mostram-se bastante críticos sobre a investigação que se faz a propósito

White e Mika (1983) mostram-se bastante críticos sobre a investigação que se faz a propósito da separação e do divórcio. Quando não se controlam todas as variáveis, podem tirar-se conclusões apressadas.

5.2 Consequências dos conflitos e do divórcio nos pais e nos filhos

Já anteriormente se fizeram referências aos efeitos perniciosos dos conflitos e do eventual divórcio nos cônjuges e nos filhos. Insiste-se agora mais nas consequências das diversas rupturas sobretudo nos filhos.

Cummings e Davies (1994) analisam o impacto que os conflitos conjugais podem ter, a curto ou a longo prazo, para o desenvolvimento integral dos filhos, sendo frequentemente geradores das mais diversas expressões patológicas que se podem prolongar pela vida fora e afectar também a constituição futura duma nova família. São analisadas as múltiplas reacções

das crianças e os mais diversos efeitos produzidos (cólera ou violência, apatia ou alienação, incompatibilidades várias, infelicidade ou depressão) conforme

a sua personalidade e conforme a natureza do conflito e da personalidade dos

pais. Na realidade, o mesmo conflito pode produzir efeitos muitos diversificados conforme a índole da criança e as diversas circunstâncias que a rodeiam.

Apesar de ser diversificado o impacto dos conflitos parentais sobre os filhos, eles causam sempre perturbações quer a nível de personalidade quer de educação. Isto porque a qualidade e felicidade dos pais, muito dependente da relação conjugal, se reflecte forçosamente na qualidade da educação em geral. De qualquer modo, os pais devem ao menos evitar ‘jogar’ os filhos contra um dos cônjuges, como muitas vezes acontece, procurando antes ‘poupá-los’ o mais possível às suas quezílias e agressões de toda a ordem. Contudo, as discussões entre o casal podem revestir também aspectos positivos. O conflito em si não é intrinsecamente mau e, até certo ponto, é inevitável e motivo de novas (re)adaptações, se o casal souber concordar com as suas discordâncias

e tentar resolvê-las com o mínimo de desgastes para si e para os filhos.

Os filhos reagem diferentemente, não apenas conforme a intensidade do conflito entre os pais e como ele é resolvido, dependendo em grande parte da maneira de ser de cada um dos cônjuges, mas também conforme a idade, o sexo e principalmente a idiossincrasia de cada filho, havendo uns que se

remetem ao silêncio e à frustração afectiva, enquanto outros tomam parte activa

e muitas vezes ajudam os progenitores a resolver pelo melhor a situação

conflituosa. Em todo o caso, os conflitos devem ser geridos de forma a proteger

o mais possível os filhos (e os pais) e a promover o seu bem estar.

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Muitos outros autores estudam as consequências ou os diversos padrões de resposta das crianças aos

Muitos outros autores estudam as consequências ou os diversos padrões de resposta das crianças aos conflitos parentais, que podem levar a comportamentos agressivos a depressivos (cf. Davis et al., 1998). Grych (1998) estuda particularmente a avaliação que os filhos fazem dos conflitos parentais, interpretando-os sobretudo em chave contextual.

Liberman (1979) analisa do ponto de vista psicopatológico e médico-social as implicações negativas (desequilíbrio social, intelectual, afectivo e somático) da separação dos pais para o desenvolvimento dos filhos, dando ainda sugestões para a prevenção (primária, secundária e terciária) do divórcio. Levinger e Moles (1979) abordam o contexto, as causas e consequências deste fenómeno, insistindo nos determinantes sócio-psicológicos, económicos e outros e nas consequências para os ex-esposos e para os filhos.

Clarke-Steward et al. (2000) analisam as consequências do divórcio nos filhos logo nos primeiros anos de vida, com influências negativas na sáude física e psíquica das crianças, embora o impacto possa ser menor conforme o comportamento de cada um dos pais. Ayalon e Flasher (1993) dedicam um livro exclusivamente às “reacções em cadeia” que podem sofrer as crianças com a separação dos pais. As autoras têm preocupações essencialmente de ordem terapêutica, na tentativa de prevenir e remediar os eventuais traumatismos por que passam as crianças com pais divorciados e recasados, muito dependendo dos próprios pais, da idiossincrasia de cada criança e do ambiente que as rodeia.

Outro estudo que se debruça sobre a adaptação dos filhos pequenos no pós- divórcio é o de Whiteside e Becker (2000). Trata-e duma meta-análise de outros estudos que em geral apontam para uma intervenção contextual ou sistémica, considerando a criança em relação à mãe e ao pai e a outros factores envolventes.

Um bom livro sobre o casamento, o divórcio e as consequências na adaptação das crianças é o de Emery (1988). Trata o problema desde as mais diversas perspectivas (cultural, histórica, demográfica), as questões metodológicas e conceptuais da investigação sobre o divórcio, a adaptação dos filhos, e ainda abordagens terapêuticas e legais. Emery afirma que “se há algo que caracteriza todos os divórcios é a mudança” (p. 11), que muitas vezes começa muito antes da separação física e se prolonga depois desta. Esta mudança para pior, ou degenerativa, afecta o casal e também os filhos que se têm de adaptar a uma mudança mais ou menos radical, podendo este processo ser facilitado ou complicado, dependendo de muitas condições. É injusto generalizar ou exagerar nos dois sentidos: dizer que infalivelmente as crianças saem gravemente traumatizadas ou afirmar que o divórcio não tem impacto significativo. A verdade é que a situação abrange grande número de casais e de crianças e não pode ser menosprezada. Por outro lado, é verdade que muitas vezes, antes do

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divórcio, a criança sofria mais do que no pós-divórcio. Depende de cada caso e, aqui

divórcio, a criança sofria mais do que no pós-divórcio. Depende de cada caso e, aqui mais do que nunca, cada caso é um caso. Trata-se dum processo multifactorial que tem de ser visto no seu contexto ecológico.

Em particular quanto às consequências do divórcio nas crianças, pode concluir- se que há maior consulta de crianças com pais divorciados nos serviços de saúde mental, sendo mais difícil a construção da própria identidade, mesmo a nível sexual, notando-se nestas crianças uma precoce actividade sexual, mais problemas de comportamento, menos sucesso na escola. Mas se é justa alguma preocupação, não é para alarmar, porque há muita crianças que passam praticamente imunes, dependendo da idiossincrasia do pai ou da mãe com quem ficam (normalmente é a mãe que fica com o filho, mas hoje já é bastante comum ficar com o pai, dependendo, novamente, de muitas circunstâncias), do contacto e da sua qualidade com o outro genitor, do eventual novo casamento de um ou dos dois progenitores, da presença ou não de outros familiares, da idade e do sexo das crianças, do estatuto social e de outras variáveis que contribuem positiva ou negativamente para ultrapassar ou agravar os problemas.

Laumann-Billings e Emery (2000) analisam o sofrimento psíquico de jovens adultos provenientes de famílias divorciadas, concluindo que essa maior tristeza depende também de outros factores, como a frequência dos contactos que mantêm com os pais, o conflito interparental e a idiossincrasia de cada filho. Martin (1997), na sequência duma tese de doutoramento em sociologia, estuda os efeitos, a curto ou a longo prazo, da dissolução do matrimónio e a evolução do agregado familiar após a desunião até à eventual recomposição da família.

Muitos autores julgam que actualmente, devido a diversas razões, os efeitos perniciosos do divórcio, sobre o próprio casal bem como sobre os filhos, são menos acentuados. Polacek (2001) tenta demonstrar o contrário, apesar de haver intervenções psico-sociais capazes de mitigar os efeitos deletérios, que, não obstante, não parecem diminuir. Amato (2000) partiu da hipótese de que no último decénio as coisas tinham melhorado, baseando-se em alguns argumentos: o divórcio é mais bem aceite na sociedade actual e por isso os filhos dos divorciados são menos estigmatizados; os pais estão mais preparados para gerir as consequências do divórcio nos filhos; nas escolas foram facilitados programas de intervenção para reduzir os efeitos negativos do divórcio. Mas Amato não confirmou a sua hipótese de melhoramento, tendo em conta o rendimento escolar, os problemas de comportamento, a adaptação psicológica, o autoconceito e a auto-estima, a competência social e o estado da saúde. Já antes Frost e Pakiz (1990) tinham previsto uma maior dificuldade dos adolescentes para lidar com o divórcio dos pais.

Estudos específicos tentam predizer a estabilidade matrimonial ou então o divórcio em casais recentes (Carrère et al., 2000). Outros sugerem que o divórcio perturba o comportamento parental, levando os pais a terem menores

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exigências e afeição para com os filhos, mais inconsistência na disciplina, a serem menos positivos

exigências e afeição para com os filhos, mais inconsistência na disciplina, a serem menos positivos e mais irritadiços. Arendell (1995) estuda as consequências do divórcio desde a perspectiva do marido, apresentando razões convencionais e menos convencionais que levaram à separação. Tein et al. (2000), num estudo longitudinal, analisam particularmente o comportamento das mães divorciadas em relação com outras variáveis.

5.3 Agressividade e violência

O’Leary e Cascardi (in Bradbury, 1998, pp. 343-374) debruçam-se sobre o problema da agressão física no casamento, numa perspectiva desenvolvimental, começando por constatar que só a partir da década de 80 os especialistas se começaram a interessar mais a sério por esta situação, infelizmente sempre em crescendo, em que o marido abusa da mulher sexualmente, usando ainda outras formas de agressão. O estudo procura encontrar explicações psicológicas (diversas características de personalidade) e ainda biológicas e até genéticas, para esta situação humilhante e violadora do respeito e da liberdade do outro cônjuge. Esta problemática complexa também pode ser estudada numa perspectiva mais sociológica e cultural.

Muitos outros estudos abordam o drama da violência ou da agressão, mesmo física, no casal e as repercussões evidentes que tem no comportamento e nos problemas do outro cônjuge (particularmente da mulher, porque em geral a agressão parte do marido) e nos filhos (cf. e. g. Gordis, Margolin e John, 1997; Hamby e Gray-Little, 1997; Jouriles et al, 1996; Walker, in Kaslow, 1990, II, 139-158). Há Manuais que procuram ser exaustivos sobre a violência familiar, como é o caso do editado por Van Hasselt (1988) que se coloca essencialmente numa perspectiva psicanalítica, sociológica e intercultural, analisando todas as formas de agressão: física, sexual (incesto), homicídio, etc. e ainda os diversos factores que conduzem à situação violenta, como o descontrolo psíquico e o álcool.

Um livro recente português de Costa e Duarte (2000) intitula-se precisamente

Violência Familiar. As autoras centram-se particularmente na violência conjugal

e parental, começando por definir os conceitos, embora não seja tarefa fácil

dada também as dificuldades inerentes à investigação nesta área. As autoras privilegiam o modelo explicativo (e interventivo) ecológico-desenvolvimental por parecer mais abrangente da complexa problemática que é a violência

familiar. No final as autoras, fundadas na literatura e na sua própria experiência, abordam a questão da intervenção junto das famílias onde se pratica a violência

e programas para tentar prevenir tais situações, tendo em conta particularmente

a situação portuguesa.

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Trata-se dum problema antigo, embora hoje seja mais visível graças aos meios de comunicação social

Trata-se dum problema antigo, embora hoje seja mais visível graças aos meios

de comunicação social que publicitam qualquer situação anómala. Apesar disso,

a maior parte dos casos continua no segredo do lar, porque a mulher ou os

filhos têm muitas vezes pudor e mesmo medo de denunciar a situação. Se a mulher é normalmente a vítima, não quer dizer que seja imune de culpa, pois muitas vezes também pode usar de violência verbal, de chantagens e outros processos, como a negligência, que irritam o marido e o conduzem à violência mesmo física. Há violência familiar em todas as classes sociais. Como sempre,

melhor é prevenir do que remediar, ajudando o casal a gerir os conflitos através do diálogo e a suportar melhor as frustrações. Mas muitas vezes é necessário que a mulher tenha a coragem de denunciar a situação, quando não há outro remédio. O Código Penal Português prevê e pune os crimes de violência contra

a família, considerando mesmo alguns deles crimes públicos, susceptíveis de serem denunciados por terceiros (cf. entrevista das autoras em Notícias Magazine, 25.03.2001).

5.4 Melhor prevenir do que remediar

Qual a terapia para evitar tantos males do casal ou a sua própria destruição? Como sempre, conforme a sabedoria do ditado, “é melhor prevenir do que remediar”. E uma forma de prevenção é tentar promover uma família nova, desde a raiz, isto é, fazendo com que os jovens não avancem para o casamento ou para a vida em comum de ânimo leve, antes após preparação necessária, ajudados pelos pais, pela escola, pela Igreja, por instituições especializadas e pela sociedade em geral.

Mas se a doença já corrói o tecido familiar, é