ALIENAÇÃO E SUAS FORMAS NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

– COMO ENTENDER ESTE DESEJO CONSTANTE DAS GERAÇÕES ACTUAIS PERMANECEREM ALIENADAS –

« Divertimento – Não tendo os homens conseguido acabar com a morte, a miséria e a ignorância, tiveram a ideia de, para se tornarem felizes, não pensar nelas» Pascal Perante esta óbvia alienação ou escapismo em que se entregam diariamente milhões de pessoas em todo o Ocidente, quase como uma demonstração de ser essa a única forma de resistirem às suas vidas quotidianas, parece pertinente debruçarmo-nos sobre o fenómeno. Este torna-se ainda mais interessante quando surge uma conexão com o problema da indiferença religiosa que tem varrido toda a Europa. A todos os que também julgam serem estes problemas merecedores da nossa atenção, sugiro que possam gastar uns minutos do vosso tempo na leitura deste artigo. Após uma breve introdução, reflectiremos sobre: - As origens europeias da alienação contemporânea. - O fenómeno da indiferença religiosa na Europa e a sua possível explicação - As principais formas de alienação do Ocidente: - A obsessão pelo sexo e a sua omnipresença na sociedade - O consumismo como a grande ideologia alienante do nosso século - O mundo virtual e a fuga do real

Introdução
Quando, na década de 60, foi declarada a morte de Deus por uma ala da teologia norteamericana já a segunda modernidade (Pós-modernismo) tinha rompido com todo o seu anelo pelo mundo espiritual. É interessante verificar que o surgimento da teologia que encarnava a secularização, o cientismo e o neo-positivismo da primeira metade do século XX – a teologia da morte de Deus – tenha coincidido com o início do seu próprio fim, com o regresso do religioso, com o relativismo que iria minar

a ciência enquanto verdade absoluta e do Maio de 68 que gritava “Tomemos a revolução a sério, mas não nos tomemos a sério” ou “A imaginação ao poder”. Se é verdade que o ateísmo prático se instalou nas nossas sociedades, fruto da secularização, também temos de reconhecer que este surge agora enxertado de um sentimento religioso, numa nova procura pelo sobrenatural. E, todavia, mesmo este retorno do sentimento religioso não é comum a todos e vem acompanhado de uma indiferença cada vez mais acentuada a respeito de temáticas cristãs ou religiosas em geral. Herdámos um secularismo que ainda hoje dita as regras, mas o regresso de Deus, da ânsia pelo espiritual e por diferentes formas de se experimentar o mundo do além também veio para ficar, assim como essa indiferença que não só é repetidamente mencionada nos relatórios dos missionários presentes na Europa como surge já como uma categoria religiosa ao lado do ateísmo e do agnosticismo. Vivemos, isso é certo, numa época de paradoxos, de antagonismos, de antíteses, de esquizofrenia. Como entender entender tudo isto? Como chegámos a este ponto, a esta conf confluência nfluência de forças antagónicas que aparentemente caminham em sentidos opostos mas que permanecem na nossa sociedade como se fossem naturalmente conciliáveis? conciliáveis? E de que forma a compreensão do nosso actual actual estado psíquicopsíquico-social nos poderá ajudar a compreender melhor essa essa alienação, em que a maior parte das nossas gerações recentes parecem estar absolutamente submersas? submersas? Na verdade, não podemos falar das consequências da alienação e das formas que a sociedade hodierna encontrou para se alienar sem antes reflectirmos sobre o que esta é e de que forma se instalou no Ocidente. Sem dúvida que a sua origem está intimamente relacionada com esta confluência de opostos que encontramos à nossa volta. Vamos ver como.

As origens europeias da alienação contemporânea.
A modernidade concedeu ao Ocidente da primeira metade do século XX uma confiança na razão humana e na possibilidade infinita do conhecimento científico. As constantes descobertas e realizações técnicas do séc. XIX permitiram criar um sentimento de euforia, acreditando que uma nova era gloriosa se avizinhava. A ciência tornou-se positivista, acolhendo a si toda e qualquer possibilidade

uma fundamentação inconsciente motivada principalmente pela repressão sexual? Seria possível. então. Sem Deus o homem estava entregue a si mesmo. principalmente a voz tonitruante e incómoda do alemão Friedrich Nietzsche. Jean-Paul Sartre. formalizando toda a moral e arrancando-a da sua origem cristã. Haveriam absolutos morais partilhados por todo o homem racional. Albert Camus. A moral era. O conceito de verdade universal ainda estava profundamente enraizado. XVIII). O problema estava em formar uma nova ética e uma nova sociedade que não se apoiasse já em declarar absolutos os antigos absolutos cristãos apesar de não haver absolutos alguns. entre tantos outros possíveis. Essa foi a tarefa que os existencialistas pretenderam encetar (Heidegger. A ciência passaria a englobar dentro dos seus limites não só a possibilidade de maior veracidade mas toda e qualquer pretensão à verdade. os valores herdados do cristianismo estavam agora reduzidos à sua formulação racional. Não seria a morte de Deus um acontecimento de proporções demasiado drásticas para que tudo na moral continuasse exactamente na mesma? Não seriam os absolutos morais dos humanistas do século XIX e primeira metade do século XX apenas reformulações dos imperativos éticos cristãos? E seria possível mantê-los quando se torna supérflua a hipótese de Deus. mas sim a partir do facto de não existir um mundo do além que nos oriente e que nos dê um caminho de antemão. o caminho é o caminhar. uma questão de absolutos apercebidos e abraçados por qualquer homem desde que conduzido convenientemente no seu pensar. Já não haveria um caminho a ser descoberto mas um caminho a ser trilhado. Mas os existencialistas apenas conseguiram denunciar a situação. expor os problemas desse humanismo que mantinha os valores cristãos apesar . humanismo esse que apenas havia dado aos preceitos cristãos – meramente contingentes e circunscritos a um período histórico-cultural – uma roupagem racional pretensamente universal. não há essência alguma que preceda a existência. que se entendiam as verdades éticas como uma conquista da capacidade autónoma do raciocinar humano. pretensamente universal. entre os principais). continuar a confiar nos bons propósitos da nossa racionalidade? O grito de Nietzsche foi aos poucos ouvido por alguns que estavam atentos. precisamente a hipótese que valida e dá fundamento à moral cristã? E não teriam os processos conscientes do ser humano. Desde o programa racionalista de Kant (séc. De igual modo. mas também à descoberta chocante do inconsciente por parte de Freud. aparentemente bem intencionados. já desde o século XIX que se tinha assistido ao protesto de algumas vozes isoladas. Todavia.de sentido e verdade: desde esse período e até meados da década de 60. depois de Freud. Perceberam estes que esquecer Deus mantendo a sua moral não era consequente. compreendendo que seria necessário procurar outros alicerces éticos baseados não em qualquer ideia preconcebida ou herdada histórica e culturalmente. Sem Deus também a moral humanista não fazia sentido. Como dizia Heidegger. Ou como dizia Sartre. toda a verdade seria do domínio científico tal como todo o discurso objectivo.

revelando a sua inconsistência. A palavra de ordem era civilizar mediante a educação de massas. liberta das suas raízes cristãs e apelando à construção de um novo homem? Se não houvessem bases morais absolutas. o primeiro grande abalo na confiança da nova Europa. de facto. Mas o problema mantinha-se. iniciando uma nova construção de toda a validade das acções humanas. Este foi. Que outra moral seria possível? Ou melhor. a racionalidade e a sua pretensa imparcialidade pareciam ter sido feridas de morte. passando-a das Universidades para as ruas e mercados. nem sequer se encontravam preparados para esse evento na história que acabaria por definir todo o futuro até aos dias de hoje: a segunda guerra mundial fomentada pela Alemanha nazi. o existencialismo nada pôde fazer. expondo a sua falta de fundamentos. como se o próprio conhecimento tivesse a capacidade de educar e melhorar o ser humano em si. O que dizer perante uma posição que construía. Principalmente através de Sartre e Camus e mediante os seus romances onde escreviam filosofia de uma forma acessível a todos. o grito de Nietzsche fez-se ouvir entre os nazis!). sem dúvida. se não houvesse uma verdadeira essência . no fundo. por mais chocante que fossem as teses psicanalíticas. a problemática foi rapidamente disseminada pela Europa. Mas a guerra veio demonstrar que por detrás do progresso e da educação pode-se esconder um monstro. colocando-o em causa. principalmente nos seus efeitos naquilo que se viria a chamar o Pós-modernismo. explode na Europa como uma bomba mortífera e inescapável. Mesmo em teologia as perspectivas escatológicas pós-milenistas sofriam um rude golpe: não seria já impossível acreditar-se numa sociedade que progressivamente se vai cristianizando. mostrando que afinal o rei vai nu. Mas é então que a ideologia nazi. Como continuar a confiar na razão humana como método e ferramentas únicas para a discernibilidade moral se o inconsciente era a verdadeira plataforma das nossas acções? Como confiar em algo que não só não nos está acessível (por isso é inconsciente) como também é indefeso às pulsões humanas (deixando-se formatar por elas)? A primeira guerra mundial já tinha revelado os problemas de uma sociedade tão confiante no seu progresso. Tem-se dado pouca importância e atenção a este período incontornável que marcou a transição da primeira para a segunda metade do século XX. com toda a sua compreensão peculiar das antropologias darwinistas que entretanto haviam emergido e da sua releitura nietzschiana do mundo (sim. Apercebemo-nos da importância política e económica da segunda guerra mas acabamos por olvidar os seus efeitos dramáticos na mudança da cosmovisão europeia.de ter eliminado o seu Deus. civilizando e melhorando até que Cristo venha? Mas os europeus não imaginavam o que havia de vir. Quais as consequências do ateísmo prático? A necessidade incontornável de reformular toda a moral despindo-se esta da sua matriz cristã. baseada numa nova moral e numa nova compreensão das sociedades. uma nova sociedade. Até esse momento a filosofia existencialista vinha minando o humanismo europeu. que outros fundamentos tornariam possível a universalidade e a objectividade da moralidade? Por outro lado. Perante os ataques aos direitos do homem realizados pelo nazismo.

O cinismo. premissas e valores diferentes. Perante a falta de uma ideologia que respondesse moralmente ao nazismo. com toda a sua matriz cristã. desorientação. a nova ética individual com três premissas fundamentais: Tudo é lícito desde que 1º) seja possível concretizá-lo. com regras. todavia. apesar de já se terem destruído todos os referenciais inamovíveis e de se ter compreendido a origem histórico-circunstancial da ética humana? A Europa não mais se recompôs desde esta época. por que razão não poderia o nazismo impor pela força a sua visão do mundo? Que poderia fazer o homem europeu se não retornar momentaneamente a um humanismo balofo no qual já não acreditava. 2º) seja eu de livre vontade a desejá-lo 3º) apenas me diga respeito. Esta postura prática do pós-guerra teve várias consequências para a sociedade e indivíduos do Ocidente. como se existissem normas morais de cariz absoluto. continuou a permanecer. os cidadãos europeus retornaram ao humanismo com uma atitude totalmente pragmática. O homem europeu foi obrigado a aceitar a perspectiva humanista no âmbito público. A cisão entre o domínio privado e público do homem. E foi exactamente esta desorientação que esteve na base do retorno da religião a partir da década de 60. pois sabia que tal pretensão não tem validade e que ele é o senhor da sua própria existência. Como poderiam se. desconforto e. Assim. Entendeu-se que a moral é subjectiva e que. teria aqui o seu início. Apesar de não se acreditar em ideais universais e absolutos era necessário retornar a eles para responder ao nazismo. de certa forma. com a invenção da bomba atómica e a sua demonstração de força no final da segunda guerra mundial. principalmente.humana. conseguisse resolver os problemas que o existencialismo levantou e encontrar bases absolutas para uma moral internacional. se não houvesse um caminho já traçado antes do homem. após um século de fé na civilização e racionalidade humanas. a posteriori. Criou-se. Mas na esfera pública o humanismo. também. A moralidade cristã perdeu terreno. a sua própria moral. mas. assimilado e proclamado os ideais nazis? O homem aporético e o homo ebrius . tão comum ao homem contemporâneo. criou-se uma dicotomia que ainda hoje permanece na sociedade hodierna: a separação entre a esfera pública e privada. a tecnologia revelava todos os seus ferozes dentes? Como poderiam se. acabaria por atolá-lo em dúvidas. Já não se acreditava que a ciência e o progresso seriam a resposta para os problemas do homem. a felicidade do homem depende da maneira como ele inventa a sua própria história pessoal. elaborar uma Declaração Universal dos Direitos do Homem. privada Na esfera privada a moral existencialista deu os seus frutos. e esperar que. educadas e bem formadas da Europa tinha aceite. insegurança. uma das sociedades mais cultas. já não as podia aceitar no seu domínio privado.

apenas de transição para uma outra. fruto da 2ª grande guerra. até. aquelas que . dentro de nós. ele aliena-se para acalmar este desnorteamento. O único caminho aberto a este homem com vertigens é a alienação. o homem aporético é apenas uma fase. o que constantemente se cruza connosco ou está. incómodo. vertigens. esta nudez de sentido onde parece estar mergulhado. como uma coisa que não se vê. Ele não se aliena porque procura obsessivamente o prazer. ficar alienado ou bêbado o mais tempo possível. Aquele que procura constante alheamento. muito curta. por não se sentir uno nas suas acções e decisões. desconfiava das inúmeras declarações que ia ouvindo de cima do púlpito. O que é isto de homem aporético? O homem aporético é aquele que não consegue sair da aporia (beco sem saída) constante da sua vida. efectivamente. É alguém perdido mas sem angústia. como uma espécie de doença natural com a qual nascemos.Estas contradições em que o homem ainda vive não podem deixá-lo confortável. por não se poder apoiar em coisa alguma. dá. a do homo ebrius. ainda enquanto adolescente. assim. o que anseia. Estamos já a falar de um novo tipo homem social que surge a partir da segunda guerra mundial: o homem aporético. Indisposto mas sem capacidade de raciocínio. origem ao homo ebrius. Compreender as origens da cultura alienante das gerações actuais é um passo de gigante para nos percebermos e entendermos os que nos rodeiam. ele é obcecado pelo prazer porque essa é a melhor forma de se alienar. Durante muito tempo. pelo contrário. O homem aporético. das palavras entre si e dos gestos entre si. Julgo. que o sentimento mais comum ao homem contemporâneo é o sentimento de confusão. O fenómeno da indiferença religiosa na Europa e a sua possível explicação É natural que já não haja angústia neste novo homem. Tal como um ébrio ou toxicodependente. O homo ebrius é o homem pós-moderno. Que usa ele como alienação? Reflectiremos sobre essa questão mais adiante. mas que se sente. de que ninguém fala. ao homem do século XXI. contemporânea A este homem não resta outra solução que não alienar-se. pela sucessão de prazeres ou diversões sucessivas. Podemos apontar a partir daqui o início da alienação contemporânea. dessa incoerência entre os seus gestos e suas palavras. uma espécie de tontura constante por nada ser aquilo que realmente parece. esta incoerência. mas antes absolutamente incoerente e sem rumo. Causam-lhe náuseas. Ele não se sente confortável com a situação (como poderia se continua a ser um ser racional?) mas já se habituou a ela. Assim.

Aquela já passou a fazer parte do senso comum dos movimentos missionários mundiais: a Europa é o cemitério dos missionários. o jovem de hoje procura activamente a alienação. Mas essa descrição do estado psíquico dos indivíduos contemporâneos não correspondia com a maioria dos casos. Durante algum tempo cheguei mesmo a julgar que esse vazio não era sentido por todas as pessoas. é simplesmente um produto da alienação. constantes Por essa razão. Estamos sozinhos e abandonados na existência. Dessa forma. já que a verdade ou não existe ou é exactamente isso. as pessoas que estavam à minha volta sentiam esse vazio. Fazê-lo é incorrer num grave erro. pelo estilo de vida que professam. Mas. mas fáfá-lo por fugir da angústia. medo de fazer uma única asserção positiva da qual nos possamos vir a arrepender. em qualquer ser humano. A tão famosa indiferença. uma consequência.apontavam para um vazio interior do homem que só podia ser preenchido por Jesus Cristo. temos de compreender que a alienação não é algo em relação à qual se possa responsabilizar o alienado. a angústia da falta de sentido. no interior do ser humano. Da mesma forma como não se procura orientações geográficas a quem não esteja na posse das suas correctas faculdades mentais. mas sim se. como se nós tivéssemos medo de assumir seja o que for. faz por ser alienado. cara aos europeus e que tantas dores de cabeça tem dado aos missionários missionários espalhados pela Europa. Com efeito. O meu cepticismo não se reportava ao facto de Cristo preencher todo e qualquer vazio da nossa existência. . Há uma apatia constante nas novas gerações. mas completamente adormecido pelo seu estado de embriaguez contemporâneo. De vez em quando lá encontrava uma ou outra pessoa na qual o vazio. Nada há que nos sirva de guia. uma preocupação pelo supérfluo excessiva e desproporcionada. nessa confusão e desorientação constantes. o que na verdade encaixava sem qualquer problema em muitas teologias da reforma. com efeito. ou seja. por não suportar esse estado do homem aporético. a indiferença também não é mais do que um estado de embriaguez que esconde um profundo vazio existencial. de facto. sofrimento. fui percebendo que o vazio. está lá. Como se para os pós-modernos só pudesse vir sofrimento da verdade. Na verdade. Ela não é uma procura positiva da parte das gerações mais novas: é. ao invés de vermos indiferença passarmos a ver um total estado de embriaguez. medo de assumir qualquer mentira. era evidente. também não se pode falar de Cristo a um alienado durante a sua alienação. Se ao olharmos para um europeu. De facto. uma profunda mágoa por se julgar impossível alcançar a verdade. aos poucos. O problema é que as gerações actuais procuram. A indiferença esconde uma fome de significado. isto é. ao contrário do que se poderia esperar. talvez comecemos a entender a nossa actualidade. antes sim. pela alienação constante em que o homem procura estar. não era isso que eu testemunhava. esta geração é uma geração ávida de sentido! sentido A única dificuldade é a de não ser possível transmitir seja o que for a um bêbado pois tem de se esperar que cure a embriaguez. estar constantemente alienadas e muitas são as formas que têm surgido para satisfazer esta pretensão.

Tudo é fugidio e passageiro. chegam a ser maioritárias nos nossos ecrãs televisivos. por receio de ser desiludido como os seus pais o foram. Como se a realidade fosse éter ao qual não se pode agarrar. deveras impressionante verificar que foi o falhanço em encontrar a verdade que lançou a sociedade nesta conjectura actual. a fuga. só faz sentido se se acreditar na verdade. de facto. a alienação revela-se como a única opção possível. Não . principalmente um jovem. Que saída poderia restar a este homem que não a alienação.As principais formas de alienação do Ocidente: Ocidente: A OBSESSÃO PELO SEXO E A SUA OMNIPRESENÇA NA SOCIEDADE Outrora o vazio existencial que perseguia o ser humano era substituído por outras ideologias que o motivavam a seguir em frente. mais uma vez. A percentagem de metáforas ou incitações explícitas ao sexo nos anúncios publicitários são cada vez mais frequentes e. Ele rejeita até a possibilidade de adquirir sentido para a sua vida muitas vezes por desconfiança. Como será possível ao homem de hoje apostar num valor ou num significado se vê nas gerações mais velhas uma falência das suas opções de vida. a ocupação frenética que lhe permite desistir de procurar uma resposta? É. então. Sabemos que uma pessoa motivada por uma boa causa consegue grandes feitos. O homem procura ser alienado porque acredita seriamente que nada mais há a fazer. O erotismo e o sensualismo estão por todo o lado. Mas o que se passa na geração de hoje? O descrédito pelas metanarrativas leva-nos a ficar sem pontos de referência. por receio de ser enganado. esse constante lançar de um gesto no vazio. Mas o receio de desilusão. os recursos alienantes utilizados? O EROTISMO UBÍQUO E A SUA FRIEZA CÍNICA Podemos começar pela primeira de todas. É óbvia a presente erotização da sociedade. em alguns dias. por aquela que cruza grande parte da sociedade. Quais são. Não há pontos de referência estáveis. uma dedicação inglória a certas ideologias? Como pode ele não assumir um cepticismo profundo se vê aqueles que procuravam a verdade perderem-se por entre os inúmeros corredores da modernidade que acabaram por conduzir a becos sem saída? Não suportando a vacuidade de sentido. só existe o devir. A verdade está assim nos dois extremos deste relativismo hodierno. que tem definido a nossa consciência e valores e aquilo que hoje em dia parece ser o centro nevrálgico da actividade humana: o Sexo.

um pouco como se apenas a nossa geração pudesse agir conscientemente. criticamente. capaz de uma análise rápida. pois quem há ainda que acredita no amor? Sem dúvida de que se trata de uma relação mas esta palavra parece ainda possuir alguma centelha de emotividade da qual se quer expurgar todo o sexo. . Todavia. forjando um tabu que ainda hoje perdura. Actualmente. apesar de se usar ainda esta última. tendendo a expor-nos demasiado à possibilidade de encontrarmos o engano e. Julgo sinceramente que a razão para a obsessão desta geração pelo sexo encontra-se na sua efectiva compreensão (terrivelmente objectiva) do que se passa à sua volta. Nas camadas mais jovens a temática da sexualidade está sempre presente. Sexo é agora a palavra fria. O que eles pressentem. Normalmente os mais velhos tendem a interpretar as acções das gerações seguintes como meras reacções à novidade entretanto surgida na sociedade. O sexo é apenas isso: já não é mais fazer amor. seca. uma simples água ou manteiga podem recorrer a imagens e a uma lógica da sensualidade para captar a atenção dos consumidores. Ao contrário do que se poderia esperar esta não é uma geração de inconscientes. Não acredito em nenhuma destas opções.interessa o produto. é a procura do meu prazer. o fenómeno é transversal a todas as gerações e a cada ano que passa parece cada vez mais central. Apenas e só. seja de modo físico. a entrega lascívia aos sentidos e a procura voluntária da concupiscência da carne como ou consequência da manipulação efectuada pelos media ou resultado duma depravação intrínseca desta geração. mais objectiva: relações sexuais. Talvez tal fosse compreensível em adolescentes que assistem às suas mudanças fisiológicas. sem qualquer expressão sentimental que representa efectivamente o paradigma dominante hoje em dia. Tudo o que se pode acrescentar a esta posição é dúbio. arriscado. é a procura do teu prazer. sucinta e fria das premissas e conclusões herdadas das gerações anteriores. È exactamente isso. A outra verdade incontornável – a da morte – foi-lhes vedada por uma geração que erigiu à sua volta um autêntico muro inibidor. directa. perspectivam e compreendem é que o sexo enquanto sexo é a única verdade objectiva objectiva que lhes lhes resta. basta somente a palavra “sexo” ou a expressão “fazer sexo”. nada mais. consequentemente. Em meados da década de 90 essa expressão foi sendo preterida a favor de uma aparentemente mais madura. O sexo enquanto estratégia publicitária veio para ficar. não é uma moda passageira. a desilusão. capaz de analisar o que a precedeu e o que lhe seguirá. Antigamente (ainda me recordo perfeitamente) para se referir ao acto do coito utilizava-se a expressão “fazer amor”. É importante analisar estas expressões pois representam posturas diferentes frente ao tema. Na verdade. ensinado aos seus sucessores a fugir da mesma. SEXO E VERDADE As gerações mais velhas têm a tendência de apontar a libertinagem dos jovens. mais séria. penso que nunca houve uma tão perspicaz. Sexo.

consistente. sabe desse jogo de palavras nas letras das músicas. o que existe. encara-o na perspectiva hedonista do jogo.seja psicológico. mar de incertezas. intemporal e consistente? O amor não é de certeza objectivo. inconstâncias. com todo o mistério aí associado. firme. sabe que se pretender algo mais pode e vai sair magoado e que não é disso que precisa. incerta. do flirting. Apenas revela que. mas sim de algo compacto. O novo homem sabe disso. o que é real. Os pais desta geração são pais divorciados que mostraram aos seus filhos que apenas a morte é certa (apesar de ser proibido pensar nela) e não as decisões que são tomadas em vida. Para obter algo deste género o homem pós-moderno vende até a possibilidade do amor. verdade. podemos perceber que a sensualidade omnipresente na na sociedade. àquilo que não pode ser colocado em causa e que não mudará. A moral presente na sociedade não tem fundamentos e apenas se mantém pelo carácter repressivo da lei que a sustenta. da aventura e emoção presentes num novo olhar e rosto. Assim. Então. o que há hoje de objectivo. não tendo como pensar nesse dado objectivo. Esta geração sabe muito bem o que faz quando se atira de cabeça para uma vida sexual desregrada. venerado. da ânsia. fluidez. recusa-se a aceitá-lo. concreto. O homem pós-moderno entregou-se à única coisa sólida que lhe resta. a sociedade juvenil actual virase para a única outra certeza que tem: o sexo dá prazer e só com isto pode contar. Quem é que está agora à procura de amor quando faz sexo? As jovens adolescentes que participam em orgias cada vez mais frequentes na alta/média alta sociedade? Que procuram activamente o sexo? Que se enfadam quando . a minha emoção. Deste modo. do anelo que todo o homem tem de verdade. A possibilidade do amor é apenas uma possibilidade do romance. não é mais que a outra face da procura. porto não seguro para o ser. a única coisa não volátil dos tempos presentes. irreal. o sexo como um deus venerado. consistente e seguro que não pode ser colocado em causa: o meu prazer. etc. razão essa que não se revelará utópica. seguro. O prazer do sexo é isso mesmo e nada mais. sólido e universal? Apenas e só o prazer pessoal que pode ser retirado do sexo. as pessoas necessitam de pontos de apoio absolutos para poderem viver. algo que proporciona uma razão para se continuar vivo. pois tudo o mais é neblina. Afinal. A fidelidade é apenas um valor do passado que cede terreno ao vício da novidade constante presente no hedonismo hodierno. A NOVA REALIDADE DO SEXO As coisas mudaram de tal modo que aquilo que anteriormente era visto como uma fórmula científica da psicologia humana entre adolescentes – o rapaz dá amor em troca de sexo e a rapariga dá sexo em troca de amor – já não faz qualquer sentido nas gerações mais novas. o meu acto sexual sem ilusões e pretensões supérfluas. Os ensinos da escola mudam e os que não mudam apenas reafirmam a incrível arbitrariedade de se estar vivo. tal como em todos os séculos. O sexo é esse ponto de apoio absoluto hodierno.

com a diferença de que. a busca pela mesma ainda condiciona. outros nem sequer se apercebem do que se passa hoje em dia nas escolas e nas festas entre amigos. o sexo como única verdade possível não pode trazer verdadeira satisfação. Qualquer tentativa de lho tirar produzirá uma reacção semelhante àquela que tem um toxicodependente quando lhe tentam impedir de consumir estupefacientes. E este não só se apresenta como indiscutível e certo (ao contrário de tudo o mais à nossa volta) como permite obter sensações alienantes. Já Kierkegaard no século XIX havia apontado os problemas intrínsecos a qualquer filosofia de vida baseada no prazer: o seu fim é o desespero. Entre a procura obsessiva pela verdade no Modernismo e a desilusão amarga pela falta dela no Pós-modernismo. Nesta sociedade que aparentemente abandonou a pretensão de alcançar a verdade. Agimos mal quando. a opção passa pela ridicularização (de alguém que lhe transmita uma perspectiva diferente) ou pela vida dupla (quando os seus condicionalismos sociais o aconselham a ser discreto) e não. Todavia. A procura de felicidade mediante o prazer é inglória: o resultado é sempre o descontentamento. Os jovens de hoje estão cada vez mais activos e mais cedo relativamente à sua vida sexual. no caso do jovem viciado em prazer sexual.têm o mesmo namorado mais do que uma semana? Que se habituaram a falar de “experiências” com as colegas (e quando não as têm vão à procura delas)? E aquelas que ainda não perceberam a mudança e procuram o amor no sexo. pela recurso à violência. capazes de apagarem a mente durante alguns momentos. obsequiará o surgimento de um homo ebrius embriagado de sexo. rapidamente aprendem pela via mais dura que hoje. como no caso do toxicómano. o que é certo é o sexo e apenas o sexo. como pode o acto sexual não ser apelativo? Poderá haver mistura mais explosiva para esta pós-modernidade (possibilidade de escape baseada numa certeza inabalável)? Para o homem aporético nada há de mais paliativo do que o sexo. o que. Tendo em conta as circunstâncias actuais. como consequência. Alguns pais têm-se recusado a entender estas mudanças recentes. as nossas decisões e acções. o elemento comum continua a ser o mesmo. proporcionando uma incontornável impressão de escape deste mundo com traços de irrealidade. numa sede que aumenta à medida que se . não porque procurem afecto mas porque pretendem uma ilusão de sentido tal como é proporcionada pelo sexo. apenas avançamos justificações hedonistas como causa. A vastidão de toda esta nova conjectura é difícil de imaginar. Desesperam os homens em aflição constante pela procura incessante de novidade que nunca trará completa satisfação. mesmo que inconscientemente. perante ela. nada mais. Uma realidade feita de lama que se desfaz por entre os dedos a qualquer tentativa de apropriação e que nos atira para a instabilidade perpétua. A verdade e o prazer do sexo permitem fugir da existência amórfica na qual se é obrigado a viver.

com a ausência de referências. a verdadeira felicidade encontra-se sempre ao virar da esquina. Um dos grandes mitos contemporâneos é a inexistência de ideologias que governem a nossa vida. não pode haver melhor alienação que aquela que se desconhece. Se o consumo é o que não podemos deixar de fazer para sobrevivermos. introduz uma nova forma de viver. A angústia retorna e o ciclo de euforia e angústia que este estilo de vida fomenta leva ao desespero.experimentam novas formas de prazer e que nunca nos satisfazem. Somos todos adoradores do novo deus Mamon. A alienação momentânea proporcionada pelo acto sexual não permanece e esvai-se com a facilidade com que surgiu. já que se há coisa que um consumista pós-moderno não suporta são hábitos instalados). A produção industrializada substituiu rapidamente a doméstica. Consumir faz agora parte da nossa identidade Ocidental mas nem sempre foi assim. Já não falamos somente de uma entre as diversas formas alienantes mas de toda uma ideologia que veio substituir a falência das metanarrativas da era moderna. já o consumismo é algo diferente. O problema é tão sério e simultaneamente tão pouco falado que merecerá uma introdução mais longa. No homem esteta. um ideal. Com efeito. uma ideologia com todo um conjunto de valores que lhe são inerentes. o deus do conforto e do consumismo a ele associado. o número de fábricas quase triplicou e as novas máquinas . a que passa despercebida e que não é identificada como tal. ao qual tudo sacrificamos e penhoramos incluindo a nossa alma. E torna-se urgente outra forma de alienação que evite este retorno ao estado aporético… O CONSUMISMO COMO A GRANDE IDEOLOGIA ALIENANTE DO NOSSO SÉCULO A sociedade Ocidental esta ainda mergulhada numa outra forma de evasão mas que raramente é reconhecida enquanto tal. Que nova ideologia é essa? O consumismo. um estilo de vida que assumimos e que orienta as nossas acções. É preciso algo mais que preencha esses tempos vazios (a maioria da vida) onde ele regressa a si e é obrigado a conviver com este nonsense da existência. A grande mudança surgiu na segunda metade do séc. Daí que ao homem que pretende estar constantemente alienado a erotização da sociedade não chega. Este é um monstro com cara de anjo ou até sem rosto algum. Assim é o retrato da sociedade contemporânea. (expressão aparentemente paradoxal. da ausência de ideais que comandem as nossas acções. Nada poderia estar mais longe da realidade. com o desconforto e náusea que pressente através de si mesmo e no que o rodeia. XIX quando a evolução tecnológica iniciada um século antes começou a gerar superproduções em quase todos os sectores. Esta “rotina do consumo”.

O movimento do ser para o ter coloca cada vez mais dificuldade à compreensão do Evangelho pelas gerações actuais. que convertamos em rituais a compra e o uso de bens de consumo. fundamental à mensagem de Cristo. queimadas. Mas não é assim: este propaga uma série de valores contrários ao cristianismo e que vão criando ruído aquando da proclamação da Palavra. e indicar onde tais desejos podem ser atendidos”. Também o valor da abdicação. A partir de então já não se produziria para satisfazer as necessidades mas antes criar-se-iam novas para escoar os excessos de produção. a forma como o evangelho de Cristo é apresentado hoje em dia fá-lo soar aos ouvidos da contemporaneidade como uma espécie de manual de auto-ajuda. a mesma coisa. Toda esta operação é demasiado subtil para que se preste realmente atenção. Desenvolveu-se a publicidade e propaganda e já em 1901 (enfatizo 1901) o Red Book on Adversiting afirmava “O alvo do anúncio é ensinar o povo a desejar o que não desejava antes. representa um perigo para o cristianismo muito superior àquele que o comunismo alguma vez representou. Não sentiu o presente leitor um arrepio ao ler estas linhas? Não pressente que a sociedade hodierna concretiza estes anseios de Lebow? É necessário reconhecer que o consumismo. Mas a acção destrutiva do consumismo não fica só por aqui. gastas. A alteração que se tem processado na sociedade é de tal ordem que mesmo a proclamação do evangelho já está enferma. Precisamos que coisas sejam consumidas. repostas e descartadas em grau cada vez maior”.permitiram uma taxa de produtividade nunca antes vista. Para o homem consumista a razão de existir não está já em ser algo mas em ter e consumir. Sem uma compreensão prévia da importância do ser torna-se difícil entender os evangelhos pois toda a sua mensagem está aí baseada. Para compreender a salvação é necessário saber-se do que se é salvo e entender que é necessário um arrependimento. é anulada por uma . O que era ainda o início de algo novo no início do século XX transformou-se em ideologia logo após a segunda guerra mundial: o americano Victor Lebow em 1955 considerava que “ a nossa economia [americana] enormemente produtiva exige que tornemos o consumismo como nossa maneira de viver. interpretando-a de acordo com os seus padrões. enquanto estilo de vida. Assim não acontece com o consumismo que é aparentemente inofensivo para a fé cristã. Ora. que procuremos no consumo nossa satisfação espiritual e a satisfação do ego. A solução para o problema foi a invenção de uma economia de mercado baseada no consumismo. obviamente. A prática consumista com a divulgação dos seus valores anti-essencialistas tem criado autênticos autistas à mensagem cristã inclusive dentro da própria igreja. O comunismo era um perigo visível para a fé cristã na medida em detinha uma agenda religiosa pública: utilizar o poder do Estado para ensinar a inexistência de Deus e a irrelevância de todo e qualquer sistema religioso. talvez mais eficaz que todos os outros que proliferam nas estantes das livrarias. Cristo é apresentado mais como uma ajuda do que uma salvação o que não é. consumir existindo para ir tendo artigos de consumo. Uma matriz obcecada pelo ter ou ir tendo distorce a Palavra.

Como pode uma sociedade que não vê virtude na abdicação entender quem é Cristo. O motor da ideologia e prática consumista é exactamente o oposto daquilo que se esperaria. um engano ou uma mentira. pois este nada promete enquanto que aquele assegura o contrário daquilo que realmente oferece. Mas haverá alguma resistência ao consumismo? O que o impede de invadir o mundo impondo os seus valores? O MOTOR DA IDEOLOGIA CONSUMISTA O consumismo é. De facto. a evitar. Esta é a roda do consumismo: os produtos não têm o propósito de nos proporcionar satisfação mas apenas a ilusão momentânea da mesma. O verdadeiro motor do consumismo é a insatisfação e não a produção (aparente) de satisfação. por já não proporcionar a satisfação pretendida. Os bens de consumo. . mais cedo ou mais tarde. comprar algo diferente. de todos os habitantes das capitais mundiais rendidas às falsas promessas do consumo frenético. um verdadeiro mal. estando para sempre totalmente satisfeitos. segundo os padrões actuais. Esta é a triste sina de todos nós. Ela só funciona se os bens comprados acabarem. Somos por natureza insatisfeitos e o consumismo aproveita-se desse facto para exacerbar essa característica. deixaríamos de consumir. qualquer forma de abdicação é vista como algo desprezível. Ora. Não é só a anulação do ser como valor essencial mas a da própria capacidade de abdicar e do reconhecimento desta como um valor. por si só. Esteve até longe disso. Tal como a obsessão pelo sexo tem raízes em estruturas – as da necessidade de verdade e de significados fixos e não adulteráveis – aparentemente nas antípodas do hedonismo. obrigando-nos a adquirir um novo produto de modo a readquirir a ilusão de satisfação. isto é.vida obcecada pelo ter imediato. se os produtos vendidos nos facultassem satisfação completa a economia de mercado baseada no consumismo entraria em colapso. ao contrário do que se diz. também o consumismo tem origens em estruturas radicalmente opostas às apresentadas publicamente. Se porventura algum bem que adquiríssemos nos trouxesse a satisfação procurada. não podem ter como objectivo satisfazer-nos plenamente mas apenas aquietar momentaneamente essa insaciabilidade que se vai instalando em cada acção da nossa vida. potenciando-a e aumentando-a. ou até a necessidade de levarmos a nossa própria cruz? O comunismo não conseguiu penetrar em todos os países do mundo. E o tempo em que o produto nos proporciona satisfação necessita de ir diminuindo de modo a aumentar a procura. Os hábitos de consumo publicitados às crianças e adolescentes de hoje têm como propósito fazer nascer uma insaciabilidade de objectos e serviços intrínseca ao pensar e raciocinar humano. O caso do consumismo é ainda mais grave que o do sexo. o arrependimento.

novas oportunidades e novas acções que o nosso corpo efectua abre-nos todo um mundo anteriormente vedado. contribuindo também para um desenvolvimento e capacitação mental adaptado às novas possibilidades de acção. o ambiente radicalmente diferente em que se coloca o corpo humano (no ar em plena queda) permite uma ampliação do aparelho sensitivo. É interessante verificar que basta proporcionar ao corpo humano um novo ambiente para que este procure explorar capacidades adormecidas dos sentidos de modo a fazer face às novas condições. por sua vez. por exemplo. . As mentes das crianças de hoje estão aptas a trabalhar com tudo o que seja botões. na verdade. explora horizontes antes vedados à nossa natureza. mas já não acontece com a mente das gerações mais velhas que necessitam de fazer um esforço adicional para conseguirem efectuar as mesmas operações. Toda a tecnologia abre-nos uma nova dimensão da acção humana. e assim por diante. Para entendermos melhor este aspecto necessitamos de reflectir sobre a conexão de que os antropólogos falam entre gestos (acção) e mente. o nosso corpo adaptarse-ia rapidamente às novas possibilidades. no fundo o abrir de um novo mundo. A quantidade de conforto a que os Ocidentais estão hoje habituados é absurda e chega a ser imoral quando olhamos para os dois terços da humanidade fora do Ocidente. Perante a situação de risco aparente os cinco sentidos passam a captar realidades nunca antes notadas parecendo adquirir inéditas capacidades. Acção e mente são companheiras na criação de um novo mundo de oportunidades. A acção B vai potenciar o desenvolvimento cognitivo B que. a única realidade que esta ideologia dos tempos modernos tem para nos oferecer. Se fosse possível voarmos individualmente mediante uma pequena máquina que se colocasse às costas. O PAPEL DA TECNOLOGIA NA ALIENAÇÃO CONTEMPORÂNEA Outra dimensão fundamental para percebermos o consumismo e a alienação por ele proporcionada é a da evolução tecnológica. Novas situações.O acto de consumir ultrapassa hoje o âmbito da necessidade e já é da ordem do comportamento compulsivo. detectando os odores mais ténues e subtis possíveis. ouvindo o que normalmente não se ouve. abrirá espaço ao desenvolvimento de uma acção C que levará à capacitação mental C e assim sucessivamente. tacteando o ar como se este fosse um objecto sólido. Quando alguém faz paraquedismo. o que interessa reter aqui é que a actual economia de mercado pretende educar cidadãos para a insatisfação e que é neste sentimento que se baseia toda a força do consumismo. A mudança foi tão subtil que artigos e serviços perfeitamente supérfluos para a vida humana no tempo nos nossos avós e da juventude adulta dos nossos pais são hoje considerados “bens de primeira necessidade”. sendo. Estamos viciados em conforto e nem o percebemos. De qualquer modo. Uma nova acção permite uma nova adaptação da mente humana.

principalmente na fase de homo aporético. não há filtro suficiente para as promessas ilusórias do consumismo. O consumismo é. É nos adolescentes de hoje que podemos ver com mais facilidade como todo este processo se transformou numa autêntica alienação. Digo em todo o mundo porque. . nessa experimentação da nova dimensão. para lá aquilo que já possui. Hoje em dia um adolescente pode em apenas uma semana aborrecer-se com aquilo que. É a tecnologia que permite a existência do consumismo. pelo menos. o sentimento de satisfação decresce proporcionalmente ao tempo de uso. A tecnologia não nos liberta (como por vezes se fala) mas simplesmente adiciona novas possibilidades de acção. principalmente. na antecipação da compra. o entusiasmou durante meses. porque. Já não falamos somente do mundo dito “Ocidental” mas inclusive de países de terceiro mundo onde a pobreza abunda e a fome é a realidade diária. O homem alienado. vê nas novas possibilidades tecnológicas uma esperança: a esperança de sair de onde está. a par do sexo. bastando adquirir o novo produto anunciado. O verdadeiro prazer não está na posse do objecto mas.Assim é com a tecnologia. em perspectiva de o adquirir. Como se processa esta alienção? O homo torna-se ebrius pela sua obsessão em obter bens e experiências diferentes. A abertura e publicidade de diferentes nichos provoca no consumidor a ilusão de poder encontrar algo diferente que lhe dê sentido ou resposta. no novo ecrã plasma que saiu no mercado. aumentando o espaço do nosso pequeno universo pessoal. minutos perigosos onde enfrentamos o nosso pensamento no silêncio que nos reenvia para nós mesmos. como se anelássemos constantemente por algo que ainda não temos. ALIENAÇÃO E CONSUMISMO Perante o que já ficou esclarecido relativamente ao consumismo não é difícil entender de que maneira este se transformou numa das maiores formas de alienação contemporânea. após esta. portanto. principalmente em países pobres. a esperança de. A cada novo invento abrem-se novas dimensões pelas quais nos podemos mover pela primeira vez. O sonho de ter a última novidade torna-se o seu veículo de escape. julgar possível escapar à vida presente. acrescentando realidades à realidade. etc. em todas as capitais mundiais. etc. Nessas alturas o homem consumista adormece pensando no novo carro que quer comprar. aquilo que lhe permite enfrentar os minutos diários que antecedem o sono. Numa sociedade sem valores de referência que dependam de normas válidas por si mesmas. encontrar algo que lhe traga felicidade. com a globalização. o maior alienador de massas existente em todo o mundo. A inovação tecnológica permite-nos. o fenómeno encontrou uma disseminação global penetrando. num iPod com mais espaço porque 2 gigas já não são suficientes. Os adolescentes são consumidores compulsivos. no iPhone que está na moda. E a cada geração que passa esse período é encurtado cada vez mais.

posto que. uma das melhores formas de o homo ebrius se manter afastado da sua fase aporética. . Daí que os desportos radicais sejam tão populares. saltar para. Saltar de. sem nunca satisfazer-se. principalmente no formato de pequenas feiras deambulantes que proporcionam experiências a quem passa e a quem suporte com paciência as imensas filas de curiosos.etc. a mesma alienação. O consumo inquieto de saídas. Consumir freneticamente está na ordem do dia. Alguns deles não admitem sequer a possibilidade de ter outro programa: retiraremlhes essa dose semanal seria obstruir a respiração que lhes permite viver. O homem pós-moderno é um homem relacional (isso foi uma das mais valias que a pós-modernidade nos trouxe) tendo. o movimento dos corpos e o imenso álcool consumido produzem todo um cenário de alienação. Somos. a mesma atitude. todavia. e sim consumir coisas. existimos e vivemos porque consumimos. O consumismo permite-nos preencher a cabeça com possibilidades de compra e sonhar acordados. Não é por acaso que a série de maior sucesso em todo o mundo seja Friends. como objectivo da relação um puro preenchimento do vazio sentido. as luzes. O estilo de vida consumista implementa também um certo ritmo fundamental nas nossas relações sociais. o veículo de alienação mais divulgado por todo o mundo. enfim. Apesar do Pós-modernismo se ter iniciado como uma recuperação da etnia e do seu valor intrínseco (subjugado durante anos pela aculturação do Ocidente). não tendo nada dentro de si para consumir. vazio. escorrega para o próprio vácuo. entra em depressão. pois. Reparamos nisto de forma quase imediata quando analisamos os tempos livres da juventude (incluindo os jovens adultos) de hoje. As mesmas formas de diversão. as massas juvenis mundiais estão cada vez mais similares nos modos de ser e estar. numa espiral de alienação que se pretende contínuo. a inércia. porque entramos nesta roda viva que gira e gira sem parar. O consumismo é. As discotecas estão cheias às sextas e sábados à noite e as batidas frenéticas da música tecno. os mesmos problemas. E o faz incessantemente. Já não somos só aquilo que consumimos. sem margem de dúvida. apenas aguentam as suas tarefas ordinárias porque sabem que irão adquirir capital suficiente para o esbanjar rapidamente nessas noites de fim-de-semana. basicamente. Grande parte dos jovens que já ingressaram no mercado de trabalho. As palavras de Allinges Mafra na revista Ultimato de Maio de 1997 fazem cada vez mais sentido: “Na verdade o consumidor não busca possuir coisas. a abulia. já que a solidão e o silêncio são o terror da contemporaneidade. Qualquer pessoa que viaje hoje pelas capitais mundiais perceberá que o modo de viver juvenil reproduz uma realidade cada vez mais homogénea. inúmeras variantes com a mesma atracção: novidade e adrenalina. um experimentador. As discotecas são. Também experimentar está na ordem do dia e este homo ebrius é. consequentemente o tédio e a solidão”. saltar através. de música e de dança é das alienações mais eficazes actualmente. E quando de repente deixa de consumir.

Hoje em dia os consumidores de consolas não são mais as crianças mas sim uma franja de gerações que compreende os mais pequenos até aos adultos com 40 anos de idade. inclusive o consumo de religião. de ouvir mais e. O surgimento de um aparelho que permitia interacções divertidas com a televisão da sala. até aos jogos de computador. tão pouco tempo (ou nenhum) para parar. seja a nível das faixas etárias afectadas.Até mesmo as igrejas evangélicas já ficaram afectadas por este vírus: o frenesim de actividades. no desenrolar do culto semanal ou do tempo de louvor e adoração. Muitas vezes ser-se religioso não é mais que outra forma de se estar bêbado. Não se pode falar de alienação sem se mencionar este mundo em franco desenvolvimento. de aprender mais. fez com . De facto. A alienação oferecida pelo virtual abrange diversas áreas desde a Internet. de facto. O silêncio e a solidão são. os maiores inimigos do homem moderno e é de lamentar quando também o são para a igreja evangélica contemporânea. É por este último ramo da alienação virtual que iniciaremos a nossa análise. seja a nível da diversidade proporcionada pelo constante progresso tecnológico. uma das maiores formas de alienação hodierna é o mundo virtual. todavia. nomeadamente os jogos da PlayStation (a consola que mais contribuiu para este vício das gerações de jovens adultos). não nos podemos esquecer que a alienação assume diversas formas. Enquanto os jogos virtuais representavam uma dimensão no interior do computador doméstico. Não interessa o quê exactamente que consumimos mas desde que isso nos mantenha ocupados e afastados de algum pensamento que questione toda a nossa existência. as crianças eram os seus principais consumidores. esta forma de diversão generalizou-se e passou também a fazer parte dos tempos livres de graúdos. de palestras de todos os géneros. jogado principalmente com um teclado. Neste momento é uma das maiores alienações do nosso mundo Ocidental e aquela que apresenta a maior capacidade de expansão. O horror aos tempos mortos e ao silêncio que possa acontecer. mas no momento em que as consolas surgiram como mais um apetrecho da sala de estar. a tudo o que aparentemente me possa reencaminhar para mim mesmo. OS JOGOS DE COMPUTADOR Aqueles que ainda julgam que os videojogos têm como públicos alvo as crianças encontram-se um pouco desfasados da realidade. porventura. às redes sociais virtuais que aquela proporciona. meditar e praticar o que se ouviu. O MUNDO VIRTUAL E A FUGA DO REAL Por último.

incorporando um estilo de vida e de ocupação de tempos livres que não desaparecem só por se atingir a idade adulta. Após o gesto cada vez menos corajoso de um adulto ao pegar no comando. A distinção que havia outrora é agora evitada até onde a idade o permitir (o que será destas gerações quando atingirem a terceira idade?). os telemóveis transformaram-se numa divulgação em massa deste tipo de ocupação lúdica e no futuro serão cada vez mais apelativos. por vezes. um grupo atento de adultos com mais de 30 anos. Vivemos numa era em que o ideal de permanecer jovem é absolutamente incontornável. Os telemóveis também vieram obsequiar a utilização de jogos de vídeo entre os adultos. Desta feita. Há alguns anos atrás seria impensável um acontecimento como este pois nenhum adulto teria a coragem de se expor publicamente a uma “actividade tão infantil”. Pais e filhos poderiam quebrar o silêncio que se tinha estabelecido diante da “caixa negra” e passarem. utilizar as diversões virtuais como forma de passar o tempo. os jogos que os telemóveis disponibilizam têm permitido aos que viajam comummente em transportes públicos. . sem que para isso fosse necessário sair de casa ou permanecerem mudos diante de um programa televisivo. A necessidade que os nossos pais e avós tinham de marcar a diferença entre a idade juvenil e adulta já não existe. Se hoje isto é possível é porque não é mais considerado um exercício exclusivo das crianças. ao invés. logo se reuniram à sua volta. existe já todo um conjunto de gerações que viveu jogando este tipo de jogos. Gastam-se esforços para que essa distinção não apareça. paulatinamente. antes pelo contrário. indumentária e acções juvenis. O tempo que se passava em discotecas na adolescência é o mesmo tempo que se passa já com emprego e. divertindo-se enquanto esperam e viajam.que filhos e pais se sentissem uma vez mais a brincar juntos. O que se ambiciona é exactamente isso. Mas para além das razões sociais que obsequiaram a incorporação dos jogos de vídeo como uma actividade banal entre os jovens adultos é a própria natureza do jogo virtual que oferece uma um estilo de alienação praticamente único. Apesar deste ser apenas um episódio já não foi o primeiro assistido e acredito que será cada vez mais frequente. Recordo-me de uma situação recente numa loja FNAC. Mesmo sem filhos. Pelo contrário: os novos adultos (20 aos 35 anos) são aqueles que na adolescência já não sabiam divertir-se sem incorporarem esta dimensão lúdica. onde à volta de um novo jogo virtual de acção se encontravam a jogar e a assistir 7 adultos. Apesar de arcaicos e graficamente pouco atraentes. com uma vida a dois. ou pelo menos não seja muito visível. O que se pretende é permanecer jovem não havendo qualquer complexo de revelar posturas. Por outro lado. a comunicar mediante actividades lúdicas que se encontravam à distância de um polegar. Os jogos de computador conseguiram essa proeza de fornecer também aos adultos aquilo que lhes faltava na televisão: uma interactividade onde o herói da trama já não era outro que não eu mesmo e onde já não se tratava de receber passivamente os conteúdos mas sim de participar neles. os jovens adultos simplesmente estabelecem uma linha de continuidade entre a sua adolescência e a sua maioridade.

por não entusiasmar. a constante ilusão de ganhar um pedaço de alguma coisa que. Mas para aqueles que experimentam a progressão num jogo. Esta é a razão que explica a dificuldade deste tipo de actividade lúdica atingir os adultos acima dos 40 anos. de forma arbitrária. A paranóia atingiu um tal grau que a sétima arte não se coíbe de apresentar vilões ou heróis anti-heróis que nos fazem admirá-los não pelos valores que professam mas por serem bem sucedidos. a nova definição de herói que se encontram nas películas é exactamente essa: aquele que. a probabilidade de incorporarem este divertimento no seu dia-a-dia aumenta exponencialmente.Se repararmos com atenção. um jogo bastante difícil que não permite uma superação progressiva é também abandonado imediatamente: ao invés de proporcionar uma sensação de vitória provoca no jogador uma desconfortável sensação de fracasso. de alguma forma. são consideradas más pessoas ou ainda o fascínio que o bom vilão passa a ter sobre o bom polícia que o capturou e vice-versa (pois só um polícia de sucesso poderia capturar um vilão de sucesso). no final. Os que conhecem este tipo de jogos sabem que os editores necessitam de produzi-los com um equilíbrio bastante difícil de alcançar. ou ladrões de bancos e outras instituições abonadas de capital. podemos apresentar o sucesso que nos circunscreve. esmagando um inimigo ou superando um obstáculo físico (mas virtual) ou intelectual. por não ser um adversário à altura. onde a balança tem nos seus pratos por um lado o desafio que o jogo lança e por outro a dificuldade em ultrapassá-lo. viver é ter êxito. Um jogo demasiado fácil é abandonado por ser ridículo. . Os jogos de computador permitem uma radical sensação de superação de limites. independentemente da natureza dos mesmos. pois. Por outro lado. não interessa em quê. Trata-se de facilitar o equilíbrio. Estes valores são tão hegemónicos que até penetraram nas igrejas mediante a teologia da prosperidade: só conseguimos levantar a cabeça se. na verdade. Também não é por acaso que todos os jogos de computador incluem a possibilidade de configurar previamente a sua dificuldade. Aliás. o jogo de computador responde a duas necessidades fundamentalmente pós-modernas e que se encaixam perfeitamente no perfil do homo ebrius: Vivemos numa sociedade obcecada pelo sucesso. Mas qual a relação desta obsessão da sociedade com o mundo dos jogos virtuais? Não é um facto muito alardeado. O facto de não estarem habituados ao joystick nem à dinâmica do teclado necessária aos jogos de computador faz com que tenham mais dificuldade em saírem vitoriosos dos mesmos. ou assassinos que escolhem matar aqueles que. Lidamos mal com as derrotas e fracassos e o alvo da nossa vida é apresentarmo-nos como pessoas vitoriosas no que fazemos. nada é. que emana das nossas acções. mas uma das sensações que os jogos proporcionam é a da vitória. consegue obter os seus intentos. permitindo uma progressiva adaptação ao mesmo. Só dessa forma se compreende que actualmente se consiga consumir séries e filmes onde a personagem principal é um advogado que não olha a meios para atingir os seus fins.

a tenista campeão. que a possibilidade de sucesso no mundo do jogo de vídeo não atrai somente quem não o tem na vida real mas qualquer um que a experimente: vencer uma inteligência artificial. Os ambientes representados também tendem para o infinito e a evolução tecnológica consegue-os cada vez mais realistas. é importante frisar. nada pode estar mais longe da realidade. superando os desafios apresentados. Como já dizia alguém “para que quero eu a realidade?”. com efeito. para o mundo virtual isso não é um defeito.A oportunidade de sucesso no mundo virtual pode ainda colmatar algum fracasso da vida real. estratégia. de condutores de automóveis de fórmula 1 a líderes de gangs. Não é de admirar que num anúncio da playstation já de há largos anos se fizesse uso desta imensidão de recursos virtuais disponibilizados. obtendo assim as sensações que. fazer com que o jogador se sinta a viver mais do que a realidade o permite. de facto. estão vedadas. A ideia é simplesmente ser outra pessoa. Os testes de criatividade têm revelado que as crianças possuem cada vez menos capacidade imagética. As ofertas são quase inesgotáveis podendo abarcar qualquer realidade que venha à mente não existindo limites para a imaginação dos programadores informáticos. a vida dos que os cicunvizinham. veículos nunca conduzidos. A dinâmica dos jogos virtuais que permitem experimentar “existências” aparentemente inacessíveis pode. até planetas e lugares inexistentes na vida real mas atractivos à mente humana. As acções disponibilizadas permitem-nos passar de conquistadores romanos a presidentes de câmara. As restantes personagens do jogo têm igualmente pessoas reais por detrás conectadas mundialmente. profissionais. simuladores de todos os géneros até da própria vida humana em sociedade. Comunicam em Inglês descrevendo as suas acções e reacções ao que lhes vai acontecendo. passar por situações diferentes e experimentar aquilo que a realidade não permite ou não permitiu. de jogadores de futebol a magos com poderes sobrenaturais. ambientes longe do alcance do homem. terminando com uma frase verdadeiramente apelativa: “Já vivi!” Ora. antes uma virtude. alterando. O anúncio utilizava um narrador que ia contando as suas experiências de vida. Será uma realidade dos tempos modernos onde já não se sabe brincar ao faz-de-conta? O mundo virtual transporta-nos para paisagens de países nunca visitados. Quem ainda não ouviu falar do famoso Second Life? Um “jogo” on-line onde o que se oferece é a simulação de uma pessoa e personalidade diferentes. dessa forma. Mas. mas. desde general comandado exércitos. Existem jogos para todos os gostos desde acção. etc.. tudo isso pode ser alcançado virtualmente. numa verdadeira lógica de substituição. Se no mundo real não se tem êxito nas relações amorosas. é aliciante para qualquer um. O jogo de computador permite ainda alimentar uma necessidade do homem contemporâneo: a necessidade de experiências novas e de mudança. de outra forma. E para quem está entediado com o mundo concreto e verdadeiro é possível inventar uma . As situações vão-se sucedendo às vezes tal como na vida real.

O capital real que se investe no jogo vai dependendo da carteira (também real) do jogador. pois os “objectivos” do jogo suplantam os reais. nem o sono. para efeitos deste artigo. o que for necessário. princesas e magos. quem quer a realidade quando a virtual é bastante mais aliciante e diversificada? Para quem. O que interessa aqui realçar é a capacidade que o jogo revelou. seres de outro mundo ou até. Segundo o psicólogo Owe Sandberg citado pelo mesmo jornal “entre 30 mil e 40 mil adolescentes na Suécia estão actualmente sob o risco de se tornarem dependentes de videojogos”. Num artigo de 18 de Novembro do jornal Sol. envolvimentos. sociedades vampirescas. desenvolvendo as personagens a custo zero e depois vendendo-as aos impacientes que queiram progredir mais depressa) em suplantar-se às necessidades mais básicas do ser humano. Com certeza não será só na Suécia. uma outra personalidade. Em certo tipo de pessoas não é difícil reconhecer que os objectivos diários se resumem em trabalhar para sobreviver e comprar videojogos. Apenas um ciclo de acções. Seria necessário fazer um estudo à escala global incluindo adolescentes mas também adultos. As consequências. Um mundo onde o que podemos alcançar é bem mais interessante do que comparado com o real. normalmente estudantes que vão faltando aos seus compromissos académicos sem que os pais o imaginem. neste caso o famoso World of Warcraft (já fonte de negócio para alguns. encontramos a notícia de um adolescente de 15 anos que entrou em estado de convulsão após jogar um jogo de vídeo durante 24 horas. a melhor forma de alienação sendo um dos maiores atractivos destes jogos. enfim. de facto. Todo o mundo virtual é um mundo feito à nossa medida preparado para o dominarmos e. e tudo isto apesar de Second Life não ser propriamente um jogo. considerando a inexistência de objectivos e desafios a superar. vestuário. Os enredos conseguem ser tão atractivos que alguns jogadores deixam simplesmente de viver a sua vida real. A loucura é tanta que existe uma paridade entre a moeda virtual do Second e a moeda real para que se possam comprar terrenos. apartamentos. de certa forma. Mais uma vez. talvez por questões de dificuldade de relacionamento ou aversão a . Nem a fome. apenas comendo e dormindo (pouco). nem a protecção automática contra o stress foram mais fortes que as possibilidades oferecidas pelo mundo virtual. A falta de descanso. escaparmos da nossa vida quotidiana e banal. Se estivermos atentos à nossa vizinhança e amigos/conhecidos talvez não seja difícil encontrar casos mais ou menos semelhantes ao desse infeliz sueco (não tão graves a nível de saúde) ou outros em que se percebe que a vida é orientada ao redor de jogos de computador. para as almas mais negras. a alimentação inadequada e a concentração elevada durante esse dia inteiro fizeram com que o rapaz sueco sofresse uma convulsão semelhante a um ataque de epilepsia. A mudança facultada nestas “aparências de realidade” é. são irrelevantes.personagem dentro de universos fantásticos com dragões. Durante o tempo em que se joga nada mais existe e tudo se concentra na superação das dificuldades que vão surgindo: é a alienação absoluta incorporada numa viagem para um outro mundo. Os resultados iriam sem dúvida surpreender-nos. conversas.

É de assinalar que a publicidade efectuada a esta consola raramente inclui crianças e adolescentes preferindo mostrar jovens adultos e até mesmo idosos em pleno divertimento. evitando assim os desconfortos. os jogos passaram. Num futuro próximo os lares de terceira idade começarão a incorporar estas novas tecnologias para poderem proporcionar actividade física aos residentes. em todos os domínios. mas não é possível deixar passar a oportunidade de apontar para um futuro onde os jogos de computador proporcionarão a alienação máxima da sociedade. Quem sabe se.multidões. demasiado sedutora para ser recusada. abrindo portas para conquistar a última geração de resistentes aos jogos de computador. Apesar de ainda não ser uma ligação directa ao cérebro. com a nova Nintendo. O mundo virtual já não está na ponta dos dedos. desde que haja tecnologia disponível (acaba por ser ainda um privilégio muito . Para quem possuir capital suficiente. Quando os neurocirurgiões conseguirem aceder directamente aos nossos centros nervosos e ligá-los a um computador as possibilidades de alienação não conhecerão limites. a ser uma extensão de todo o movimento do corpo. As limitações são cada vez mais reduzidas. A terceira idade passará o resto dos seus dias ligada a computadores de modo a readquirirem as experiências de um corpo saudável e jovem e tudo isto se fará em nome de um certo humanismo. Os que vivem de rendimentos talvez até preferirão confinar-se às vielas virtuais na maior parte do seu tempo diário disponível. O futuro de um mundo de alienação hipervirtual e transgeracional chegou! A NOVA TECNOLOGIA E AS REDES VIRTUAIS A Internet democratizou a informação e o contacto entre os povos. O primeiro passo para esta realidade já foi dado com a consola Wii. oferecerse-á a estadia em mundos virtuais. Não será difícil perceber que a comunicação do evangelho também terá de ser efectuada nesses universos paralelos tal como acontece actualmente no Second Life. os perigos e a pobreza dos mundos reais? O cenário poderá parecer ao presente leitor um pouco catastrofista mas a verdade é que. a maior fonte de alienação de todo o mundo. Sendo hoje apenas um entre outros meios de alienação contemporânea – sem sequer conseguir rivalizar com o consumismo e o sexo – será. as relações sociais reais serão substituídas pelas virtuais. não é difícil entendê-los numa relação proporcional aos futuros desenvolvimentos tecnológicos. considerando os efeitos que actualmente os jogos de computador têm. não consiga optar pela alienação mor dos tempos modernos – as discotecas – a possibilidade de submergir em mundos surpreendentes e inéditos é. mas em todo o nosso corpo. acredito. num futuro ao qual o presente autor não assistirá. Nenhum divertimento poderá rivalizar com o que os jogos oferecerão nem mesmo o sexo. como destino de férias durante um mês. que não demorará muitos séculos. provavelmente. O filme Matrix já mostrou o caminho que será percorrido e. Não é este o espaço indicado para aprofundar o tema.

por vezes. a transmissão de emoções vocais e . sendo um fluxo de informações. Entretanto. Enfim. assumem-se posturas e formas de estar na vida (tribos urbanas) que estão do outro lado do atlântico e sem qualquer representação em outros locais. facilita e cativa a sua utilização. a Internet desenvolve comunidades absolutamente virtuais. mas o que nos interessa realmente evidenciar para efeitos da temática aqui abordada são as novas possibilidades que a mediação – o computador – fornece para efeitos de alienação. para tudo isto é preciso despender tempo. não sendo necessário um conhecimento prévio dos dois inter dialogantes. Este tipo de comunicação bloqueia. Tem-se verificado até que os assuntos mais íntimos são agora conversados com um computador como mediador e não presencialmente. A Internet. Mesmo alguns pais têm verificado que é mais fácil falar de assuntos privados com os filhos no messenger do que cara a cara. talvez impensável a algumas décadas atrás. Ora. Hoje em dia é possível ficar conectado na Internet 24h e mesmo assim descobrir novos interesses que nos façam prolongar a visita. em primeiro lugar. mas acima de tudo muito personalizado. Começa a não ser raro ver estabelecidas conversas íntimas através de msn. As oportunidades de comunicar com tanta facilidade mas sempre através de um mecanismo que impede a visualização directa (se exceptuarmos as câmaras) permitem uma máscara do eu. entre os países onde a Internet é já uma ferramenta comum o futuro já chegou e facilmente falamos em tempo real com alguém que está do outro lado do planeta a custos reduzidos. Existe um fenómeno recente que tem admirado os pais destas novas gerações e que consiste em chegar a casa e continuar a falar com os colegas dos quais se tinha despedido ainda há bem pouco tempo à saída da escola. fazem-se amigos desconhecidos por causa de um único interesse comum ou. Podem-se ter mil e umas conversas sobre os mais variados temas com quem nunca se viu e provavelmente nunca se irá ver. Pela facilidade com que a sua comunicação se processa. fica-se mais informado e em tempo real sobre acontecimentos em nações e povos que nos são estranhos do que do sucedido nos nossos bairros de residência. um verdadeiro paraíso da comunicação. Não só é fácil como rápido e eficiente (se exceptuarmos a transmissão de voz e imagem). não sendo de forma alguma um processo penoso participar de todas as acções acima indicadas.específico das nações menos). O tempo que ali despendemos é um prazer. partilham-se e divulgam-se problemáticas com características regionais mas discutidas à escala global. acedem-se a realidades que teriam ficado no esquecimento para quem não pode viajar. partilham-se vídeos e músicas com grupos de interesse constituídos por elementos espalhados pelos continentes. Qualquer contacto pode ser obtido pela própria Internet. A expressão “aldeia global” encaixa com perfeição num futuro próximo. Em muitos casos é já possível afirmar que os diálogos mais profundos entre amigos ocorreram através do computador e não de forma presencial. Sinais dos novos tempos? È provável que se esteja a fomentar uma timidez latente que se reflectirá no futuro. Entre os adolescentes já nem se trata de visita mas de “viver” na Internet. donde apenas se sai para ir à escola ou outro lugar qualquer.

mas. embrenhando-se em mundos distintos com possibilidades de manipulação e de encobrimento da realidade quase infinitas. pois. uma excelente oportunidade para fugir ao dia-a-dia e esquecer a vida real. se falamos com pessoas conhecidas na Internet e que moram em países diferentes. Os amigos podem mudar consoante o nosso estado de ânimo e podemos partilhar os problemas à vontade modificando a sua origem e natureza de acordo com a forma como nos sentimos mais confortáveis. podendo demorar ainda uns anos) o ideal absoluto de nunca se sentir sozinho e de fugir do silêncio que nos reenvia a nós próprios. mas a partir de agora já não existirá esse obstáculo. evitando relações presenciais e mudando constantemente de pares dialógicos. Esta confluência entre Internet (msn) e telemóvel permitirá um acréscimo considerável do estado de alienação juvenil. Estas redes sociais que se formam na Internet são. poderá ser alcançado. As possibilidades serão imensas. A comunicação. podendo até assumir uma nova personalidade. permite um resguardo considerável do que somos ou estamos a ser nesse momento. não há qualquer responsabilidade envolvida na relação. não assumir responsabilidades. os péssimos conteúdos televisivos já podem . o adolescente (e também o adulto no seu local de trabalho) poderá desligar-se do ambiente que o envolve e permanecer ligado a um mundo ou pessoa que pode até não existir. De igual modo. enquanto se espera pelo autocarro. Com msn no telemóvel (desde que a preços atractivos. até um género diferente. mas a mobilidade ainda não é aquela que uma conexão entre telemóvel e Internet sem restrições permitirá. Ora. só ainda neste primeiro nível. e quando falamos para pessoas desconhecidas. sabemos que dificilmente possa haver oportunidade para um contacto directo. O sempre contactável disponibilizado actualmente pelo telemóvel passa a sempre acompanhado com esta fusão. com os novos desenvolvimentos tecnológicos é possível aceder ao msn através do telemóvel. a liberdade é total.faciais. Outro dos serviços recentemente disponibilizados para os telemóveis de terceira geração é a recepção de canais televisivos para o telemóvel. Em terceiro. Em segundo lugar. Até este momento era necessário desligar o computador (conjuntamente com a conversa) para cumprir com os deveres sociais. assim. atingindo o objectivo que todos perseguem: a eliminação absoluta da solidão. existe sempre o botão de off). A partir de agora a magia da “caixa negra” pode continuar a exercer a influência que detinha nos lares e transportar-se para as ruas. ou seja. Ser diferente do que se é. apresentar-se a outros a partir do zero como se a vida pudesse recomeçar sem passado e sem história a qualquer momento. Acima de tudo. podemos receber os problemas de outros e dizermo-nos “amigos” já que a responsabilidade dessa amizade nunca poderá ser testada (só em casos muito raros. Inventou-se a televisão portátil. ocultar defeitos visíveis. As redes sociais virtuais serão procuradas assiduamente pelas gerações actuais e futuras. Actualmente a diferença não é muita. considerando o tempo que se passa em Internet nos nossos computadores pessoais.

como um duche frio incómodo e do qual se quer sair. A famosa expressão marxista “A religião é o ópio do povo” não faz mais sentido. O Evangelho.alimentar a nossa alma. O telemóvel. Um certo humanismo secularizado e relativista que se instalou diz-nos que não é prudente. em primeiro lugar em nós mesmos – lutando para que não sejamos nós igualmente alienados – e. enquanto palavra de salvação. provavelmente a mais confortável. A outra alternativa é esperar os momentos (poucos) de transição entre alienações. apesar de se poder deslocar durante esse tempo? Como será tentar resistir à tentação de ver o seu programa favorito a qualquer hora do dia e em qualquer local? Ver-se-á ainda alguém a ler um livro nos transportes públicos. em primeiro lugar. Apenas nos momentos de crise se poderá esperar um ouvido atento ao que Cristo tem para nos dizer. inclusive em andamento. esse brinquedo maravilhoso que cabe no bolso. O único limite será a capacidade da bateria. Como será poder iniciar uma conversa e só a terminar 12 ou 16 horas depois. A Boa Nova tem de se apresentar. como má nova. Mas não só. As opções conformistas são sempre relativistas e não devemos esperar que as coisas se . retirar os paliativos que a outros servem de consolo. seres viciados em imagens e/ou comunicação? Em jeito de conclusão Se existe elemento caracterizador da sociedade pós-moderna e pós-cristã é esta ânsia pela alienação. definitivamente. Aquela que foi a primeira grande fonte de alienação tecnológica estará em todo o tempo e em todo o lugar. a não ser se incluída num sentido mais amplo onde a religião não surge sozinha mas acompanhada de uma imensidão de outros interesses que se reflectem como a manifestação de um padecimento global. A visão cristã aponta para conclusões radicalmente opostas: há uma ontologia existencial por detrás das nossas vidas e isso deve-nos coagir a provocar a libertação da alienação. Mesmo no local de trabalho já não será possível monitorizar o empregado através do seu próprio computador. nos outros. aquilo que nos arranca a esta embriaguez constante. tarefa complexa pois as camadas sucessivas que se sobrepõem permitem alterar as formas alienantes enquanto ainda se permanecem noutras. agora que também a televisão passa a ser ubíqua? Passaremos a ser. Assim. permitirá a fuga de qualquer local. permitirá a fuga sem sair do sítio. Esta segunda opção é. talvez até pouco ético. O ópio do povo é agora o sexo e a erotização ubíqua. os telemóveis deixaram de ser um prestador de serviços bastante limitado para ser o arauto do novo paraíso. Mas esta posição só pode resultar de uma compreensão não essencialista da vida. em segundo. o consumismo e as potencialidades do mundo virtual. terá de se adaptar às novas realidades.

da centralização no ter ou ir tendo e não no ser. pois alienados produzem mais alienados numa espiral sem fim à vista. em aberta oposição. uma ilusão. Somos chamados à provocação. A alienação dos nossos gestos e pensamentos facultam-nos a ilusão da tábua de salvação e a melhor forma de compreendermos o quanto ilusória tem sido a nossa existência diária é darmos um passo em falso e tombarmos no vazio que sempre evitámos a todo o custo.resolvam por si mesmas. O superhomem de Nietzsche. do mercado como deus absoluto. Neste momento. de alguma forma. Alguém dúvida que a melhor forma de se perceber que os valores da ganância e do lucro desmedido. A alienação pode ser combatida de diversas formas. não só nas palavras como nos actos. só a alienação poderá seguir-se a uma profunda compreensão da nossa solidão no universo. Pelo que podemos observar hoje da nossa história Ocidental. Só aos que se descobrem enfermos é possível a cura. pelos vistos. Jesus contornava as alienações do seu tempo indo ao encontro delas. Todos precisam de remição. mas esta. pareceme. Novembro de 2008 Manuel Rainho . Só o homem aporético pode salvar-se de si mesmo mediante a acção de Jesus. Os seus três anos de ministério são anos de provocação. A diferença está em que alguns apercebem-se do seu estado lastimável e outros não. erróneos a não ser através de uma crise deste mesmo sistema? Não. tal como o comunismo de Marx e Engels o foi. Quando Cristo disse que os sãos não precisavam de médico mas sim os doentes de modo algum considerou que existiam justos no mundo. Como disse anteriormente. Sem confrontação o estado de alienação apenas irá aumentar. A sociedade aguentou o quanto possível essa etapa onde o homem aporético olhou para si e se compreendeu como tal. era. a não ser passando pelo seu próprio colapso e pela necessidade de regeneração. o ser humano precisa de observar a aporia da sociedade que criou e sentir a necessidade de redenção. são. a mais eficaz. etc. esse construtor de valores emancipado. Assim é com as nossas vidas pessoais. Todo e qualquer disfarce da sua situação de crise constitui obstáculo à compreensão da mensagem de Deus. a angústia típica do existencialista não existe mais. tal como nos é revelado pela vida d’Aquele que é o máximo exemplo para todos nós. não existe outra forma de o compreender.

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