ALIENAÇÃO E SUAS FORMAS NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

– COMO ENTENDER ESTE DESEJO CONSTANTE DAS GERAÇÕES ACTUAIS PERMANECEREM ALIENADAS –

« Divertimento – Não tendo os homens conseguido acabar com a morte, a miséria e a ignorância, tiveram a ideia de, para se tornarem felizes, não pensar nelas» Pascal Perante esta óbvia alienação ou escapismo em que se entregam diariamente milhões de pessoas em todo o Ocidente, quase como uma demonstração de ser essa a única forma de resistirem às suas vidas quotidianas, parece pertinente debruçarmo-nos sobre o fenómeno. Este torna-se ainda mais interessante quando surge uma conexão com o problema da indiferença religiosa que tem varrido toda a Europa. A todos os que também julgam serem estes problemas merecedores da nossa atenção, sugiro que possam gastar uns minutos do vosso tempo na leitura deste artigo. Após uma breve introdução, reflectiremos sobre: - As origens europeias da alienação contemporânea. - O fenómeno da indiferença religiosa na Europa e a sua possível explicação - As principais formas de alienação do Ocidente: - A obsessão pelo sexo e a sua omnipresença na sociedade - O consumismo como a grande ideologia alienante do nosso século - O mundo virtual e a fuga do real

Introdução
Quando, na década de 60, foi declarada a morte de Deus por uma ala da teologia norteamericana já a segunda modernidade (Pós-modernismo) tinha rompido com todo o seu anelo pelo mundo espiritual. É interessante verificar que o surgimento da teologia que encarnava a secularização, o cientismo e o neo-positivismo da primeira metade do século XX – a teologia da morte de Deus – tenha coincidido com o início do seu próprio fim, com o regresso do religioso, com o relativismo que iria minar

a ciência enquanto verdade absoluta e do Maio de 68 que gritava “Tomemos a revolução a sério, mas não nos tomemos a sério” ou “A imaginação ao poder”. Se é verdade que o ateísmo prático se instalou nas nossas sociedades, fruto da secularização, também temos de reconhecer que este surge agora enxertado de um sentimento religioso, numa nova procura pelo sobrenatural. E, todavia, mesmo este retorno do sentimento religioso não é comum a todos e vem acompanhado de uma indiferença cada vez mais acentuada a respeito de temáticas cristãs ou religiosas em geral. Herdámos um secularismo que ainda hoje dita as regras, mas o regresso de Deus, da ânsia pelo espiritual e por diferentes formas de se experimentar o mundo do além também veio para ficar, assim como essa indiferença que não só é repetidamente mencionada nos relatórios dos missionários presentes na Europa como surge já como uma categoria religiosa ao lado do ateísmo e do agnosticismo. Vivemos, isso é certo, numa época de paradoxos, de antagonismos, de antíteses, de esquizofrenia. Como entender entender tudo isto? Como chegámos a este ponto, a esta conf confluência nfluência de forças antagónicas que aparentemente caminham em sentidos opostos mas que permanecem na nossa sociedade como se fossem naturalmente conciliáveis? conciliáveis? E de que forma a compreensão do nosso actual actual estado psíquicopsíquico-social nos poderá ajudar a compreender melhor essa essa alienação, em que a maior parte das nossas gerações recentes parecem estar absolutamente submersas? submersas? Na verdade, não podemos falar das consequências da alienação e das formas que a sociedade hodierna encontrou para se alienar sem antes reflectirmos sobre o que esta é e de que forma se instalou no Ocidente. Sem dúvida que a sua origem está intimamente relacionada com esta confluência de opostos que encontramos à nossa volta. Vamos ver como.

As origens europeias da alienação contemporânea.
A modernidade concedeu ao Ocidente da primeira metade do século XX uma confiança na razão humana e na possibilidade infinita do conhecimento científico. As constantes descobertas e realizações técnicas do séc. XIX permitiram criar um sentimento de euforia, acreditando que uma nova era gloriosa se avizinhava. A ciência tornou-se positivista, acolhendo a si toda e qualquer possibilidade

Jean-Paul Sartre. depois de Freud. principalmente a voz tonitruante e incómoda do alemão Friedrich Nietzsche. os valores herdados do cristianismo estavam agora reduzidos à sua formulação racional. humanismo esse que apenas havia dado aos preceitos cristãos – meramente contingentes e circunscritos a um período histórico-cultural – uma roupagem racional pretensamente universal. pretensamente universal. uma fundamentação inconsciente motivada principalmente pela repressão sexual? Seria possível. entre tantos outros possíveis. Sem Deus também a moral humanista não fazia sentido. compreendendo que seria necessário procurar outros alicerces éticos baseados não em qualquer ideia preconcebida ou herdada histórica e culturalmente. Ou como dizia Sartre. Não seria a morte de Deus um acontecimento de proporções demasiado drásticas para que tudo na moral continuasse exactamente na mesma? Não seriam os absolutos morais dos humanistas do século XIX e primeira metade do século XX apenas reformulações dos imperativos éticos cristãos? E seria possível mantê-los quando se torna supérflua a hipótese de Deus. Desde o programa racionalista de Kant (séc. Já não haveria um caminho a ser descoberto mas um caminho a ser trilhado.de sentido e verdade: desde esse período e até meados da década de 60. Como dizia Heidegger. que se entendiam as verdades éticas como uma conquista da capacidade autónoma do raciocinar humano. De igual modo. O conceito de verdade universal ainda estava profundamente enraizado. expor os problemas desse humanismo que mantinha os valores cristãos apesar . aparentemente bem intencionados. Mas os existencialistas apenas conseguiram denunciar a situação. formalizando toda a moral e arrancando-a da sua origem cristã. O problema estava em formar uma nova ética e uma nova sociedade que não se apoiasse já em declarar absolutos os antigos absolutos cristãos apesar de não haver absolutos alguns. Albert Camus. entre os principais). o caminho é o caminhar. mas sim a partir do facto de não existir um mundo do além que nos oriente e que nos dê um caminho de antemão. toda a verdade seria do domínio científico tal como todo o discurso objectivo. Perceberam estes que esquecer Deus mantendo a sua moral não era consequente. então. Todavia. Haveriam absolutos morais partilhados por todo o homem racional. Essa foi a tarefa que os existencialistas pretenderam encetar (Heidegger. continuar a confiar nos bons propósitos da nossa racionalidade? O grito de Nietzsche foi aos poucos ouvido por alguns que estavam atentos. já desde o século XIX que se tinha assistido ao protesto de algumas vozes isoladas. mas também à descoberta chocante do inconsciente por parte de Freud. A ciência passaria a englobar dentro dos seus limites não só a possibilidade de maior veracidade mas toda e qualquer pretensão à verdade. não há essência alguma que preceda a existência. XVIII). Sem Deus o homem estava entregue a si mesmo. A moral era. uma questão de absolutos apercebidos e abraçados por qualquer homem desde que conduzido convenientemente no seu pensar. precisamente a hipótese que valida e dá fundamento à moral cristã? E não teriam os processos conscientes do ser humano.

Mas é então que a ideologia nazi. Até esse momento a filosofia existencialista vinha minando o humanismo europeu. Perante os ataques aos direitos do homem realizados pelo nazismo. O que dizer perante uma posição que construía. civilizando e melhorando até que Cristo venha? Mas os europeus não imaginavam o que havia de vir. nem sequer se encontravam preparados para esse evento na história que acabaria por definir todo o futuro até aos dias de hoje: a segunda guerra mundial fomentada pela Alemanha nazi. o existencialismo nada pôde fazer. expondo a sua falta de fundamentos. Mas a guerra veio demonstrar que por detrás do progresso e da educação pode-se esconder um monstro. principalmente nos seus efeitos naquilo que se viria a chamar o Pós-modernismo. revelando a sua inconsistência. iniciando uma nova construção de toda a validade das acções humanas. se não houvesse uma verdadeira essência . com toda a sua compreensão peculiar das antropologias darwinistas que entretanto haviam emergido e da sua releitura nietzschiana do mundo (sim. Apercebemo-nos da importância política e económica da segunda guerra mas acabamos por olvidar os seus efeitos dramáticos na mudança da cosmovisão europeia.de ter eliminado o seu Deus. A palavra de ordem era civilizar mediante a educação de massas. colocando-o em causa. passando-a das Universidades para as ruas e mercados. explode na Europa como uma bomba mortífera e inescapável. de facto. sem dúvida. o grito de Nietzsche fez-se ouvir entre os nazis!). que outros fundamentos tornariam possível a universalidade e a objectividade da moralidade? Por outro lado. Mesmo em teologia as perspectivas escatológicas pós-milenistas sofriam um rude golpe: não seria já impossível acreditar-se numa sociedade que progressivamente se vai cristianizando. liberta das suas raízes cristãs e apelando à construção de um novo homem? Se não houvessem bases morais absolutas. uma nova sociedade. mostrando que afinal o rei vai nu. Quais as consequências do ateísmo prático? A necessidade incontornável de reformular toda a moral despindo-se esta da sua matriz cristã. por mais chocante que fossem as teses psicanalíticas. como se o próprio conhecimento tivesse a capacidade de educar e melhorar o ser humano em si. a problemática foi rapidamente disseminada pela Europa. baseada numa nova moral e numa nova compreensão das sociedades. o primeiro grande abalo na confiança da nova Europa. a racionalidade e a sua pretensa imparcialidade pareciam ter sido feridas de morte. no fundo. Este foi. Tem-se dado pouca importância e atenção a este período incontornável que marcou a transição da primeira para a segunda metade do século XX. Principalmente através de Sartre e Camus e mediante os seus romances onde escreviam filosofia de uma forma acessível a todos. Mas o problema mantinha-se. Como continuar a confiar na razão humana como método e ferramentas únicas para a discernibilidade moral se o inconsciente era a verdadeira plataforma das nossas acções? Como confiar em algo que não só não nos está acessível (por isso é inconsciente) como também é indefeso às pulsões humanas (deixando-se formatar por elas)? A primeira guerra mundial já tinha revelado os problemas de uma sociedade tão confiante no seu progresso. Que outra moral seria possível? Ou melhor.

Esta postura prática do pós-guerra teve várias consequências para a sociedade e indivíduos do Ocidente. e esperar que. conseguisse resolver os problemas que o existencialismo levantou e encontrar bases absolutas para uma moral internacional. pois sabia que tal pretensão não tem validade e que ele é o senhor da sua própria existência. Criou-se. já não as podia aceitar no seu domínio privado. de certa forma. Como poderiam se. uma das sociedades mais cultas. O cinismo. Assim. assimilado e proclamado os ideais nazis? O homem aporético e o homo ebrius . 2º) seja eu de livre vontade a desejá-lo 3º) apenas me diga respeito. desconforto e. A cisão entre o domínio privado e público do homem. mas. a posteriori. O homem europeu foi obrigado a aceitar a perspectiva humanista no âmbito público. elaborar uma Declaração Universal dos Direitos do Homem. também. a sua própria moral. criou-se uma dicotomia que ainda hoje permanece na sociedade hodierna: a separação entre a esfera pública e privada. insegurança. por que razão não poderia o nazismo impor pela força a sua visão do mundo? Que poderia fazer o homem europeu se não retornar momentaneamente a um humanismo balofo no qual já não acreditava. acabaria por atolá-lo em dúvidas. desorientação. após um século de fé na civilização e racionalidade humanas. Apesar de não se acreditar em ideais universais e absolutos era necessário retornar a eles para responder ao nazismo. Entendeu-se que a moral é subjectiva e que. E foi exactamente esta desorientação que esteve na base do retorno da religião a partir da década de 60. como se existissem normas morais de cariz absoluto.humana. principalmente. premissas e valores diferentes. todavia. a felicidade do homem depende da maneira como ele inventa a sua própria história pessoal. a nova ética individual com três premissas fundamentais: Tudo é lícito desde que 1º) seja possível concretizá-lo. apesar de já se terem destruído todos os referenciais inamovíveis e de se ter compreendido a origem histórico-circunstancial da ética humana? A Europa não mais se recompôs desde esta época. educadas e bem formadas da Europa tinha aceite. privada Na esfera privada a moral existencialista deu os seus frutos. teria aqui o seu início. Perante a falta de uma ideologia que respondesse moralmente ao nazismo. Já não se acreditava que a ciência e o progresso seriam a resposta para os problemas do homem. com toda a sua matriz cristã. A moralidade cristã perdeu terreno. tão comum ao homem contemporâneo. se não houvesse um caminho já traçado antes do homem. com a invenção da bomba atómica e a sua demonstração de força no final da segunda guerra mundial. a tecnologia revelava todos os seus ferozes dentes? Como poderiam se. com regras. os cidadãos europeus retornaram ao humanismo com uma atitude totalmente pragmática. continuou a permanecer. Mas na esfera pública o humanismo.

Que usa ele como alienação? Reflectiremos sobre essa questão mais adiante. muito curta. O homem aporético. Podemos apontar a partir daqui o início da alienação contemporânea. O homo ebrius é o homem pós-moderno. uma espécie de tontura constante por nada ser aquilo que realmente parece. pelo contrário. aquelas que . o homem aporético é apenas uma fase. ainda enquanto adolescente. ao homem do século XXI. Ele não se aliena porque procura obsessivamente o prazer. Assim. contemporânea A este homem não resta outra solução que não alienar-se. O que é isto de homem aporético? O homem aporético é aquele que não consegue sair da aporia (beco sem saída) constante da sua vida. incómodo. dá. Aquele que procura constante alheamento. É alguém perdido mas sem angústia. apenas de transição para uma outra. como uma coisa que não se vê. como uma espécie de doença natural com a qual nascemos. dentro de nós. Ele não se sente confortável com a situação (como poderia se continua a ser um ser racional?) mas já se habituou a ela. Durante muito tempo. desconfiava das inúmeras declarações que ia ouvindo de cima do púlpito. origem ao homo ebrius. o que anseia. assim. Tal como um ébrio ou toxicodependente. fruto da 2ª grande guerra. O fenómeno da indiferença religiosa na Europa e a sua possível explicação É natural que já não haja angústia neste novo homem. Julgo. efectivamente. ficar alienado ou bêbado o mais tempo possível. vertigens. de que ninguém fala. Compreender as origens da cultura alienante das gerações actuais é um passo de gigante para nos percebermos e entendermos os que nos rodeiam. Causam-lhe náuseas. dessa incoerência entre os seus gestos e suas palavras. a do homo ebrius. o que constantemente se cruza connosco ou está. que o sentimento mais comum ao homem contemporâneo é o sentimento de confusão. mas que se sente. das palavras entre si e dos gestos entre si.Estas contradições em que o homem ainda vive não podem deixá-lo confortável. por não se poder apoiar em coisa alguma. mas antes absolutamente incoerente e sem rumo. esta incoerência. Indisposto mas sem capacidade de raciocínio. por não se sentir uno nas suas acções e decisões. pela sucessão de prazeres ou diversões sucessivas. ele aliena-se para acalmar este desnorteamento. até. O único caminho aberto a este homem com vertigens é a alienação. esta nudez de sentido onde parece estar mergulhado. Estamos já a falar de um novo tipo homem social que surge a partir da segunda guerra mundial: o homem aporético. ele é obcecado pelo prazer porque essa é a melhor forma de se alienar.

esta geração é uma geração ávida de sentido! sentido A única dificuldade é a de não ser possível transmitir seja o que for a um bêbado pois tem de se esperar que cure a embriaguez. o jovem de hoje procura activamente a alienação. é simplesmente um produto da alienação. Aquela já passou a fazer parte do senso comum dos movimentos missionários mundiais: a Europa é o cemitério dos missionários. a indiferença também não é mais do que um estado de embriaguez que esconde um profundo vazio existencial. A indiferença esconde uma fome de significado. O meu cepticismo não se reportava ao facto de Cristo preencher todo e qualquer vazio da nossa existência. ao invés de vermos indiferença passarmos a ver um total estado de embriaguez. também não se pode falar de Cristo a um alienado durante a sua alienação. ou seja. Na verdade. no interior do ser humano. a angústia da falta de sentido. temos de compreender que a alienação não é algo em relação à qual se possa responsabilizar o alienado. Mas. não era isso que eu testemunhava. Se ao olharmos para um europeu. Da mesma forma como não se procura orientações geográficas a quem não esteja na posse das suas correctas faculdades mentais. uma consequência. medo de assumir qualquer mentira. com efeito. está lá. pelo estilo de vida que professam. mas completamente adormecido pelo seu estado de embriaguez contemporâneo. talvez comecemos a entender a nossa actualidade. aos poucos. o que na verdade encaixava sem qualquer problema em muitas teologias da reforma. Dessa forma. uma profunda mágoa por se julgar impossível alcançar a verdade. constantes Por essa razão. Durante algum tempo cheguei mesmo a julgar que esse vazio não era sentido por todas as pessoas. nessa confusão e desorientação constantes. fui percebendo que o vazio. A tão famosa indiferença. Há uma apatia constante nas novas gerações. sofrimento. ao contrário do que se poderia esperar. em qualquer ser humano. era evidente. faz por ser alienado. medo de fazer uma única asserção positiva da qual nos possamos vir a arrepender. isto é. Como se para os pós-modernos só pudesse vir sofrimento da verdade. Nada há que nos sirva de guia. Ela não é uma procura positiva da parte das gerações mais novas: é. Mas essa descrição do estado psíquico dos indivíduos contemporâneos não correspondia com a maioria dos casos. De vez em quando lá encontrava uma ou outra pessoa na qual o vazio. por não suportar esse estado do homem aporético. mas fáfá-lo por fugir da angústia. Fazê-lo é incorrer num grave erro. as pessoas que estavam à minha volta sentiam esse vazio. Com efeito. cara aos europeus e que tantas dores de cabeça tem dado aos missionários missionários espalhados pela Europa. como se nós tivéssemos medo de assumir seja o que for. uma preocupação pelo supérfluo excessiva e desproporcionada. . já que a verdade ou não existe ou é exactamente isso. pela alienação constante em que o homem procura estar. de facto. estar constantemente alienadas e muitas são as formas que têm surgido para satisfazer esta pretensão. antes sim. Estamos sozinhos e abandonados na existência. De facto. mas sim se. O problema é que as gerações actuais procuram.apontavam para um vazio interior do homem que só podia ser preenchido por Jesus Cristo.

Mas o receio de desilusão. É óbvia a presente erotização da sociedade. A percentagem de metáforas ou incitações explícitas ao sexo nos anúncios publicitários são cada vez mais frequentes e. só faz sentido se se acreditar na verdade. Que saída poderia restar a este homem que não a alienação. Ele rejeita até a possibilidade de adquirir sentido para a sua vida muitas vezes por desconfiança. por receio de ser enganado. Mas o que se passa na geração de hoje? O descrédito pelas metanarrativas leva-nos a ficar sem pontos de referência. então. principalmente um jovem. esse constante lançar de um gesto no vazio. Como se a realidade fosse éter ao qual não se pode agarrar. a fuga. A verdade está assim nos dois extremos deste relativismo hodierno. Não . Tudo é fugidio e passageiro. em alguns dias. a ocupação frenética que lhe permite desistir de procurar uma resposta? É. mais uma vez. por aquela que cruza grande parte da sociedade. uma dedicação inglória a certas ideologias? Como pode ele não assumir um cepticismo profundo se vê aqueles que procuravam a verdade perderem-se por entre os inúmeros corredores da modernidade que acabaram por conduzir a becos sem saída? Não suportando a vacuidade de sentido. Sabemos que uma pessoa motivada por uma boa causa consegue grandes feitos. Não há pontos de referência estáveis. só existe o devir. a alienação revela-se como a única opção possível.As principais formas de alienação do Ocidente: Ocidente: A OBSESSÃO PELO SEXO E A SUA OMNIPRESENÇA NA SOCIEDADE Outrora o vazio existencial que perseguia o ser humano era substituído por outras ideologias que o motivavam a seguir em frente. deveras impressionante verificar que foi o falhanço em encontrar a verdade que lançou a sociedade nesta conjectura actual. chegam a ser maioritárias nos nossos ecrãs televisivos. por receio de ser desiludido como os seus pais o foram. Como será possível ao homem de hoje apostar num valor ou num significado se vê nas gerações mais velhas uma falência das suas opções de vida. O erotismo e o sensualismo estão por todo o lado. Quais são. de facto. que tem definido a nossa consciência e valores e aquilo que hoje em dia parece ser o centro nevrálgico da actividade humana: o Sexo. O homem procura ser alienado porque acredita seriamente que nada mais há a fazer. os recursos alienantes utilizados? O EROTISMO UBÍQUO E A SUA FRIEZA CÍNICA Podemos começar pela primeira de todas.

é a procura do teu prazer. é a procura do meu prazer. SEXO E VERDADE As gerações mais velhas têm a tendência de apontar a libertinagem dos jovens. Sexo é agora a palavra fria. apesar de se usar ainda esta última. Tudo o que se pode acrescentar a esta posição é dúbio. penso que nunca houve uma tão perspicaz. Não acredito em nenhuma destas opções. o fenómeno é transversal a todas as gerações e a cada ano que passa parece cada vez mais central. a desilusão. sucinta e fria das premissas e conclusões herdadas das gerações anteriores. ensinado aos seus sucessores a fugir da mesma. A outra verdade incontornável – a da morte – foi-lhes vedada por uma geração que erigiu à sua volta um autêntico muro inibidor.interessa o produto. tendendo a expor-nos demasiado à possibilidade de encontrarmos o engano e. É importante analisar estas expressões pois representam posturas diferentes frente ao tema. Todavia. seja de modo físico. um pouco como se apenas a nossa geração pudesse agir conscientemente. Apenas e só. Sexo. Antigamente (ainda me recordo perfeitamente) para se referir ao acto do coito utilizava-se a expressão “fazer amor”. Julgo sinceramente que a razão para a obsessão desta geração pelo sexo encontra-se na sua efectiva compreensão (terrivelmente objectiva) do que se passa à sua volta. mais objectiva: relações sexuais. Normalmente os mais velhos tendem a interpretar as acções das gerações seguintes como meras reacções à novidade entretanto surgida na sociedade. forjando um tabu que ainda hoje perdura. directa. capaz de analisar o que a precedeu e o que lhe seguirá. O que eles pressentem. uma simples água ou manteiga podem recorrer a imagens e a uma lógica da sensualidade para captar a atenção dos consumidores. sem qualquer expressão sentimental que representa efectivamente o paradigma dominante hoje em dia. consequentemente. O sexo enquanto estratégia publicitária veio para ficar. Actualmente. perspectivam e compreendem é que o sexo enquanto sexo é a única verdade objectiva objectiva que lhes lhes resta. nada mais. capaz de uma análise rápida. não é uma moda passageira. Na verdade. . Talvez tal fosse compreensível em adolescentes que assistem às suas mudanças fisiológicas. È exactamente isso. seca. pois quem há ainda que acredita no amor? Sem dúvida de que se trata de uma relação mas esta palavra parece ainda possuir alguma centelha de emotividade da qual se quer expurgar todo o sexo. arriscado. O sexo é apenas isso: já não é mais fazer amor. criticamente. a entrega lascívia aos sentidos e a procura voluntária da concupiscência da carne como ou consequência da manipulação efectuada pelos media ou resultado duma depravação intrínseca desta geração. Ao contrário do que se poderia esperar esta não é uma geração de inconscientes. Nas camadas mais jovens a temática da sexualidade está sempre presente. basta somente a palavra “sexo” ou a expressão “fazer sexo”. Em meados da década de 90 essa expressão foi sendo preterida a favor de uma aparentemente mais madura. mais séria.

O homem pós-moderno entregou-se à única coisa sólida que lhe resta. Para obter algo deste género o homem pós-moderno vende até a possibilidade do amor. podemos perceber que a sensualidade omnipresente na na sociedade. encara-o na perspectiva hedonista do jogo. O novo homem sabe disso. O sexo é esse ponto de apoio absoluto hodierno. inconstâncias. o sexo como um deus venerado. mar de incertezas. venerado. não tendo como pensar nesse dado objectivo. intemporal e consistente? O amor não é de certeza objectivo. com todo o mistério aí associado. do flirting. etc. da aventura e emoção presentes num novo olhar e rosto. Esta geração sabe muito bem o que faz quando se atira de cabeça para uma vida sexual desregrada. seguro. mas sim de algo compacto. o meu acto sexual sem ilusões e pretensões supérfluas. A NOVA REALIDADE DO SEXO As coisas mudaram de tal modo que aquilo que anteriormente era visto como uma fórmula científica da psicologia humana entre adolescentes – o rapaz dá amor em troca de sexo e a rapariga dá sexo em troca de amor – já não faz qualquer sentido nas gerações mais novas. Assim. A moral presente na sociedade não tem fundamentos e apenas se mantém pelo carácter repressivo da lei que a sustenta. sabe que se pretender algo mais pode e vai sair magoado e que não é disso que precisa. irreal. tal como em todos os séculos. sólido e universal? Apenas e só o prazer pessoal que pode ser retirado do sexo. fluidez. Então. A fidelidade é apenas um valor do passado que cede terreno ao vício da novidade constante presente no hedonismo hodierno. recusa-se a aceitá-lo. firme. Quem é que está agora à procura de amor quando faz sexo? As jovens adolescentes que participam em orgias cada vez mais frequentes na alta/média alta sociedade? Que procuram activamente o sexo? Que se enfadam quando . àquilo que não pode ser colocado em causa e que não mudará. verdade. Apenas revela que. Deste modo. sabe desse jogo de palavras nas letras das músicas. razão essa que não se revelará utópica. Os ensinos da escola mudam e os que não mudam apenas reafirmam a incrível arbitrariedade de se estar vivo. concreto. a única coisa não volátil dos tempos presentes. o que existe. o que é real. Os pais desta geração são pais divorciados que mostraram aos seus filhos que apenas a morte é certa (apesar de ser proibido pensar nela) e não as decisões que são tomadas em vida. consistente e seguro que não pode ser colocado em causa: o meu prazer. não é mais que a outra face da procura. o que há hoje de objectivo. da ânsia. consistente. incerta. A possibilidade do amor é apenas uma possibilidade do romance. a sociedade juvenil actual virase para a única outra certeza que tem: o sexo dá prazer e só com isto pode contar. as pessoas necessitam de pontos de apoio absolutos para poderem viver. algo que proporciona uma razão para se continuar vivo. Afinal. porto não seguro para o ser. pois tudo o mais é neblina. O prazer do sexo é isso mesmo e nada mais. a minha emoção.seja psicológico. do anelo que todo o homem tem de verdade.

Todavia. a busca pela mesma ainda condiciona. Entre a procura obsessiva pela verdade no Modernismo e a desilusão amarga pela falta dela no Pós-modernismo. perante ela. Agimos mal quando. o elemento comum continua a ser o mesmo. o sexo como única verdade possível não pode trazer verdadeira satisfação. A verdade e o prazer do sexo permitem fugir da existência amórfica na qual se é obrigado a viver. E este não só se apresenta como indiscutível e certo (ao contrário de tudo o mais à nossa volta) como permite obter sensações alienantes. como pode o acto sexual não ser apelativo? Poderá haver mistura mais explosiva para esta pós-modernidade (possibilidade de escape baseada numa certeza inabalável)? Para o homem aporético nada há de mais paliativo do que o sexo. A procura de felicidade mediante o prazer é inglória: o resultado é sempre o descontentamento. no caso do jovem viciado em prazer sexual. rapidamente aprendem pela via mais dura que hoje. com a diferença de que. pela recurso à violência. o que. obsequiará o surgimento de um homo ebrius embriagado de sexo. como no caso do toxicómano. Já Kierkegaard no século XIX havia apontado os problemas intrínsecos a qualquer filosofia de vida baseada no prazer: o seu fim é o desespero. nada mais. Tendo em conta as circunstâncias actuais. o que é certo é o sexo e apenas o sexo. A vastidão de toda esta nova conjectura é difícil de imaginar. Desesperam os homens em aflição constante pela procura incessante de novidade que nunca trará completa satisfação. apenas avançamos justificações hedonistas como causa. Alguns pais têm-se recusado a entender estas mudanças recentes. Os jovens de hoje estão cada vez mais activos e mais cedo relativamente à sua vida sexual. mesmo que inconscientemente. não porque procurem afecto mas porque pretendem uma ilusão de sentido tal como é proporcionada pelo sexo.têm o mesmo namorado mais do que uma semana? Que se habituaram a falar de “experiências” com as colegas (e quando não as têm vão à procura delas)? E aquelas que ainda não perceberam a mudança e procuram o amor no sexo. numa sede que aumenta à medida que se . a opção passa pela ridicularização (de alguém que lhe transmita uma perspectiva diferente) ou pela vida dupla (quando os seus condicionalismos sociais o aconselham a ser discreto) e não. proporcionando uma incontornável impressão de escape deste mundo com traços de irrealidade. Nesta sociedade que aparentemente abandonou a pretensão de alcançar a verdade. Qualquer tentativa de lho tirar produzirá uma reacção semelhante àquela que tem um toxicodependente quando lhe tentam impedir de consumir estupefacientes. capazes de apagarem a mente durante alguns momentos. as nossas decisões e acções. outros nem sequer se apercebem do que se passa hoje em dia nas escolas e nas festas entre amigos. Uma realidade feita de lama que se desfaz por entre os dedos a qualquer tentativa de apropriação e que nos atira para a instabilidade perpétua. como consequência.

ao qual tudo sacrificamos e penhoramos incluindo a nossa alma. Um dos grandes mitos contemporâneos é a inexistência de ideologias que governem a nossa vida. Se o consumo é o que não podemos deixar de fazer para sobrevivermos. Que nova ideologia é essa? O consumismo. Consumir faz agora parte da nossa identidade Ocidental mas nem sempre foi assim. a que passa despercebida e que não é identificada como tal. uma ideologia com todo um conjunto de valores que lhe são inerentes. Este é um monstro com cara de anjo ou até sem rosto algum. o deus do conforto e do consumismo a ele associado. um ideal. da ausência de ideais que comandem as nossas acções. O problema é tão sério e simultaneamente tão pouco falado que merecerá uma introdução mais longa. A alienação momentânea proporcionada pelo acto sexual não permanece e esvai-se com a facilidade com que surgiu. já o consumismo é algo diferente. A produção industrializada substituiu rapidamente a doméstica. com o desconforto e náusea que pressente através de si mesmo e no que o rodeia. Assim é o retrato da sociedade contemporânea. com a ausência de referências. (expressão aparentemente paradoxal. A grande mudança surgiu na segunda metade do séc. um estilo de vida que assumimos e que orienta as nossas acções. Com efeito. É preciso algo mais que preencha esses tempos vazios (a maioria da vida) onde ele regressa a si e é obrigado a conviver com este nonsense da existência. já que se há coisa que um consumista pós-moderno não suporta são hábitos instalados).experimentam novas formas de prazer e que nunca nos satisfazem. Nada poderia estar mais longe da realidade. Daí que ao homem que pretende estar constantemente alienado a erotização da sociedade não chega. No homem esteta. XIX quando a evolução tecnológica iniciada um século antes começou a gerar superproduções em quase todos os sectores. não pode haver melhor alienação que aquela que se desconhece. a verdadeira felicidade encontra-se sempre ao virar da esquina. Esta “rotina do consumo”. Já não falamos somente de uma entre as diversas formas alienantes mas de toda uma ideologia que veio substituir a falência das metanarrativas da era moderna. o número de fábricas quase triplicou e as novas máquinas . Somos todos adoradores do novo deus Mamon. E torna-se urgente outra forma de alienação que evite este retorno ao estado aporético… O CONSUMISMO COMO A GRANDE IDEOLOGIA ALIENANTE DO NOSSO SÉCULO A sociedade Ocidental esta ainda mergulhada numa outra forma de evasão mas que raramente é reconhecida enquanto tal. A angústia retorna e o ciclo de euforia e angústia que este estilo de vida fomenta leva ao desespero. introduz uma nova forma de viver.

A partir de então já não se produziria para satisfazer as necessidades mas antes criar-se-iam novas para escoar os excessos de produção. consumir existindo para ir tendo artigos de consumo. a mesma coisa. O comunismo era um perigo visível para a fé cristã na medida em detinha uma agenda religiosa pública: utilizar o poder do Estado para ensinar a inexistência de Deus e a irrelevância de todo e qualquer sistema religioso. Mas a acção destrutiva do consumismo não fica só por aqui. Não sentiu o presente leitor um arrepio ao ler estas linhas? Não pressente que a sociedade hodierna concretiza estes anseios de Lebow? É necessário reconhecer que o consumismo. talvez mais eficaz que todos os outros que proliferam nas estantes das livrarias. a forma como o evangelho de Cristo é apresentado hoje em dia fá-lo soar aos ouvidos da contemporaneidade como uma espécie de manual de auto-ajuda. Para o homem consumista a razão de existir não está já em ser algo mas em ter e consumir. A alteração que se tem processado na sociedade é de tal ordem que mesmo a proclamação do evangelho já está enferma. repostas e descartadas em grau cada vez maior”. Toda esta operação é demasiado subtil para que se preste realmente atenção. Ora. O que era ainda o início de algo novo no início do século XX transformou-se em ideologia logo após a segunda guerra mundial: o americano Victor Lebow em 1955 considerava que “ a nossa economia [americana] enormemente produtiva exige que tornemos o consumismo como nossa maneira de viver. fundamental à mensagem de Cristo. interpretando-a de acordo com os seus padrões. Sem uma compreensão prévia da importância do ser torna-se difícil entender os evangelhos pois toda a sua mensagem está aí baseada. é anulada por uma . e indicar onde tais desejos podem ser atendidos”. Também o valor da abdicação. enquanto estilo de vida. Assim não acontece com o consumismo que é aparentemente inofensivo para a fé cristã. Mas não é assim: este propaga uma série de valores contrários ao cristianismo e que vão criando ruído aquando da proclamação da Palavra. A solução para o problema foi a invenção de uma economia de mercado baseada no consumismo. obviamente. O movimento do ser para o ter coloca cada vez mais dificuldade à compreensão do Evangelho pelas gerações actuais. Precisamos que coisas sejam consumidas. que procuremos no consumo nossa satisfação espiritual e a satisfação do ego. Para compreender a salvação é necessário saber-se do que se é salvo e entender que é necessário um arrependimento. Uma matriz obcecada pelo ter ou ir tendo distorce a Palavra. A prática consumista com a divulgação dos seus valores anti-essencialistas tem criado autênticos autistas à mensagem cristã inclusive dentro da própria igreja. queimadas. Desenvolveu-se a publicidade e propaganda e já em 1901 (enfatizo 1901) o Red Book on Adversiting afirmava “O alvo do anúncio é ensinar o povo a desejar o que não desejava antes. gastas.permitiram uma taxa de produtividade nunca antes vista. Cristo é apresentado mais como uma ajuda do que uma salvação o que não é. que convertamos em rituais a compra e o uso de bens de consumo. representa um perigo para o cristianismo muito superior àquele que o comunismo alguma vez representou.

Esta é a triste sina de todos nós. pois este nada promete enquanto que aquele assegura o contrário daquilo que realmente oferece. Ela só funciona se os bens comprados acabarem. de todos os habitantes das capitais mundiais rendidas às falsas promessas do consumo frenético.vida obcecada pelo ter imediato. por si só. por já não proporcionar a satisfação pretendida. Mas haverá alguma resistência ao consumismo? O que o impede de invadir o mundo impondo os seus valores? O MOTOR DA IDEOLOGIA CONSUMISTA O consumismo é. ao contrário do que se diz. Os hábitos de consumo publicitados às crianças e adolescentes de hoje têm como propósito fazer nascer uma insaciabilidade de objectos e serviços intrínseca ao pensar e raciocinar humano. um engano ou uma mentira. Somos por natureza insatisfeitos e o consumismo aproveita-se desse facto para exacerbar essa característica. isto é. Esta é a roda do consumismo: os produtos não têm o propósito de nos proporcionar satisfação mas apenas a ilusão momentânea da mesma. a evitar. E o tempo em que o produto nos proporciona satisfação necessita de ir diminuindo de modo a aumentar a procura. também o consumismo tem origens em estruturas radicalmente opostas às apresentadas publicamente. um verdadeiro mal. o arrependimento. não podem ter como objectivo satisfazer-nos plenamente mas apenas aquietar momentaneamente essa insaciabilidade que se vai instalando em cada acção da nossa vida. Ora. obrigando-nos a adquirir um novo produto de modo a readquirir a ilusão de satisfação. se os produtos vendidos nos facultassem satisfação completa a economia de mercado baseada no consumismo entraria em colapso. Não é só a anulação do ser como valor essencial mas a da própria capacidade de abdicar e do reconhecimento desta como um valor. estando para sempre totalmente satisfeitos. De facto. Esteve até longe disso. . deixaríamos de consumir. Como pode uma sociedade que não vê virtude na abdicação entender quem é Cristo. mais cedo ou mais tarde. potenciando-a e aumentando-a. segundo os padrões actuais. Se porventura algum bem que adquiríssemos nos trouxesse a satisfação procurada. Os bens de consumo. ou até a necessidade de levarmos a nossa própria cruz? O comunismo não conseguiu penetrar em todos os países do mundo. O motor da ideologia e prática consumista é exactamente o oposto daquilo que se esperaria. qualquer forma de abdicação é vista como algo desprezível. Tal como a obsessão pelo sexo tem raízes em estruturas – as da necessidade de verdade e de significados fixos e não adulteráveis – aparentemente nas antípodas do hedonismo. O caso do consumismo é ainda mais grave que o do sexo. comprar algo diferente. O verdadeiro motor do consumismo é a insatisfação e não a produção (aparente) de satisfação.

ouvindo o que normalmente não se ouve. Acção e mente são companheiras na criação de um novo mundo de oportunidades. Estamos viciados em conforto e nem o percebemos. sendo. por sua vez. tacteando o ar como se este fosse um objecto sólido. o ambiente radicalmente diferente em que se coloca o corpo humano (no ar em plena queda) permite uma ampliação do aparelho sensitivo. por exemplo. contribuindo também para um desenvolvimento e capacitação mental adaptado às novas possibilidades de acção. e assim por diante. A quantidade de conforto a que os Ocidentais estão hoje habituados é absurda e chega a ser imoral quando olhamos para os dois terços da humanidade fora do Ocidente. o nosso corpo adaptarse-ia rapidamente às novas possibilidades. A acção B vai potenciar o desenvolvimento cognitivo B que. Uma nova acção permite uma nova adaptação da mente humana. Toda a tecnologia abre-nos uma nova dimensão da acção humana. no fundo o abrir de um novo mundo. Quando alguém faz paraquedismo. O PAPEL DA TECNOLOGIA NA ALIENAÇÃO CONTEMPORÂNEA Outra dimensão fundamental para percebermos o consumismo e a alienação por ele proporcionada é a da evolução tecnológica. abrirá espaço ao desenvolvimento de uma acção C que levará à capacitação mental C e assim sucessivamente. Novas situações.O acto de consumir ultrapassa hoje o âmbito da necessidade e já é da ordem do comportamento compulsivo. novas oportunidades e novas acções que o nosso corpo efectua abre-nos todo um mundo anteriormente vedado. É interessante verificar que basta proporcionar ao corpo humano um novo ambiente para que este procure explorar capacidades adormecidas dos sentidos de modo a fazer face às novas condições. . A mudança foi tão subtil que artigos e serviços perfeitamente supérfluos para a vida humana no tempo nos nossos avós e da juventude adulta dos nossos pais são hoje considerados “bens de primeira necessidade”. explora horizontes antes vedados à nossa natureza. detectando os odores mais ténues e subtis possíveis. na verdade. De qualquer modo. Perante a situação de risco aparente os cinco sentidos passam a captar realidades nunca antes notadas parecendo adquirir inéditas capacidades. a única realidade que esta ideologia dos tempos modernos tem para nos oferecer. Se fosse possível voarmos individualmente mediante uma pequena máquina que se colocasse às costas. mas já não acontece com a mente das gerações mais velhas que necessitam de fazer um esforço adicional para conseguirem efectuar as mesmas operações. o que interessa reter aqui é que a actual economia de mercado pretende educar cidadãos para a insatisfação e que é neste sentimento que se baseia toda a força do consumismo. As mentes das crianças de hoje estão aptas a trabalhar com tudo o que seja botões. Para entendermos melhor este aspecto necessitamos de reflectir sobre a conexão de que os antropólogos falam entre gestos (acção) e mente.

aquilo que lhe permite enfrentar os minutos diários que antecedem o sono. Como se processa esta alienção? O homo torna-se ebrius pela sua obsessão em obter bens e experiências diferentes.Assim é com a tecnologia. na antecipação da compra. etc. o entusiasmou durante meses. o fenómeno encontrou uma disseminação global penetrando. com a globalização. . E a cada geração que passa esse período é encurtado cada vez mais. encontrar algo que lhe traga felicidade. A cada novo invento abrem-se novas dimensões pelas quais nos podemos mover pela primeira vez. a esperança de. a par do sexo. para lá aquilo que já possui. principalmente em países pobres. O verdadeiro prazer não está na posse do objecto mas. no novo ecrã plasma que saiu no mercado. É a tecnologia que permite a existência do consumismo. Numa sociedade sem valores de referência que dependam de normas válidas por si mesmas. num iPod com mais espaço porque 2 gigas já não são suficientes. não há filtro suficiente para as promessas ilusórias do consumismo. etc. o sentimento de satisfação decresce proporcionalmente ao tempo de uso. vê nas novas possibilidades tecnológicas uma esperança: a esperança de sair de onde está. minutos perigosos onde enfrentamos o nosso pensamento no silêncio que nos reenvia para nós mesmos. em perspectiva de o adquirir. O homem alienado. A tecnologia não nos liberta (como por vezes se fala) mas simplesmente adiciona novas possibilidades de acção. portanto. aumentando o espaço do nosso pequeno universo pessoal. ALIENAÇÃO E CONSUMISMO Perante o que já ficou esclarecido relativamente ao consumismo não é difícil entender de que maneira este se transformou numa das maiores formas de alienação contemporânea. É nos adolescentes de hoje que podemos ver com mais facilidade como todo este processo se transformou numa autêntica alienação. A inovação tecnológica permite-nos. após esta. como se anelássemos constantemente por algo que ainda não temos. Os adolescentes são consumidores compulsivos. principalmente na fase de homo aporético. A abertura e publicidade de diferentes nichos provoca no consumidor a ilusão de poder encontrar algo diferente que lhe dê sentido ou resposta. pelo menos. Já não falamos somente do mundo dito “Ocidental” mas inclusive de países de terceiro mundo onde a pobreza abunda e a fome é a realidade diária. nessa experimentação da nova dimensão. Digo em todo o mundo porque. julgar possível escapar à vida presente. principalmente. porque. em todas as capitais mundiais. bastando adquirir o novo produto anunciado. Nessas alturas o homem consumista adormece pensando no novo carro que quer comprar. o maior alienador de massas existente em todo o mundo. O consumismo é. acrescentando realidades à realidade. no iPhone que está na moda. Hoje em dia um adolescente pode em apenas uma semana aborrecer-se com aquilo que. O sonho de ter a última novidade torna-se o seu veículo de escape.

Consumir freneticamente está na ordem do dia. basicamente. as luzes. Qualquer pessoa que viaje hoje pelas capitais mundiais perceberá que o modo de viver juvenil reproduz uma realidade cada vez mais homogénea. uma das melhores formas de o homo ebrius se manter afastado da sua fase aporética. o movimento dos corpos e o imenso álcool consumido produzem todo um cenário de alienação. E o faz incessantemente. O consumo inquieto de saídas. como objectivo da relação um puro preenchimento do vazio sentido. Saltar de. Daí que os desportos radicais sejam tão populares. o veículo de alienação mais divulgado por todo o mundo. pois. enfim. porque entramos nesta roda viva que gira e gira sem parar. Grande parte dos jovens que já ingressaram no mercado de trabalho. a abulia.etc. . O consumismo é. sem nunca satisfazer-se. entra em depressão. escorrega para o próprio vácuo. e sim consumir coisas. Apesar do Pós-modernismo se ter iniciado como uma recuperação da etnia e do seu valor intrínseco (subjugado durante anos pela aculturação do Ocidente). As mesmas formas de diversão. consequentemente o tédio e a solidão”. As discotecas estão cheias às sextas e sábados à noite e as batidas frenéticas da música tecno. O homem pós-moderno é um homem relacional (isso foi uma das mais valias que a pós-modernidade nos trouxe) tendo. de música e de dança é das alienações mais eficazes actualmente. saltar para. Reparamos nisto de forma quase imediata quando analisamos os tempos livres da juventude (incluindo os jovens adultos) de hoje. a inércia. não tendo nada dentro de si para consumir. a mesma alienação. um experimentador. vazio. As discotecas são. principalmente no formato de pequenas feiras deambulantes que proporcionam experiências a quem passa e a quem suporte com paciência as imensas filas de curiosos. saltar através. E quando de repente deixa de consumir. sem margem de dúvida. O consumismo permite-nos preencher a cabeça com possibilidades de compra e sonhar acordados. numa espiral de alienação que se pretende contínuo. As palavras de Allinges Mafra na revista Ultimato de Maio de 1997 fazem cada vez mais sentido: “Na verdade o consumidor não busca possuir coisas. já que a solidão e o silêncio são o terror da contemporaneidade. apenas aguentam as suas tarefas ordinárias porque sabem que irão adquirir capital suficiente para o esbanjar rapidamente nessas noites de fim-de-semana. Alguns deles não admitem sequer a possibilidade de ter outro programa: retiraremlhes essa dose semanal seria obstruir a respiração que lhes permite viver. a mesma atitude. as massas juvenis mundiais estão cada vez mais similares nos modos de ser e estar. posto que. Também experimentar está na ordem do dia e este homo ebrius é. Não é por acaso que a série de maior sucesso em todo o mundo seja Friends. os mesmos problemas. O estilo de vida consumista implementa também um certo ritmo fundamental nas nossas relações sociais. todavia. existimos e vivemos porque consumimos. Já não somos só aquilo que consumimos. inúmeras variantes com a mesma atracção: novidade e adrenalina. Somos.

tão pouco tempo (ou nenhum) para parar. no desenrolar do culto semanal ou do tempo de louvor e adoração. Não se pode falar de alienação sem se mencionar este mundo em franco desenvolvimento. uma das maiores formas de alienação hodierna é o mundo virtual. OS JOGOS DE COMPUTADOR Aqueles que ainda julgam que os videojogos têm como públicos alvo as crianças encontram-se um pouco desfasados da realidade. Enquanto os jogos virtuais representavam uma dimensão no interior do computador doméstico. É por este último ramo da alienação virtual que iniciaremos a nossa análise. jogado principalmente com um teclado. todavia. seja a nível da diversidade proporcionada pelo constante progresso tecnológico. as crianças eram os seus principais consumidores. Muitas vezes ser-se religioso não é mais que outra forma de se estar bêbado. inclusive o consumo de religião. A alienação oferecida pelo virtual abrange diversas áreas desde a Internet. os maiores inimigos do homem moderno e é de lamentar quando também o são para a igreja evangélica contemporânea. a tudo o que aparentemente me possa reencaminhar para mim mesmo. O horror aos tempos mortos e ao silêncio que possa acontecer. Não interessa o quê exactamente que consumimos mas desde que isso nos mantenha ocupados e afastados de algum pensamento que questione toda a nossa existência. O surgimento de um aparelho que permitia interacções divertidas com a televisão da sala. seja a nível das faixas etárias afectadas. meditar e praticar o que se ouviu. O silêncio e a solidão são.Até mesmo as igrejas evangélicas já ficaram afectadas por este vírus: o frenesim de actividades. De facto. mas no momento em que as consolas surgiram como mais um apetrecho da sala de estar. fez com . de ouvir mais e. Neste momento é uma das maiores alienações do nosso mundo Ocidental e aquela que apresenta a maior capacidade de expansão. esta forma de diversão generalizou-se e passou também a fazer parte dos tempos livres de graúdos. às redes sociais virtuais que aquela proporciona. até aos jogos de computador. O MUNDO VIRTUAL E A FUGA DO REAL Por último. Hoje em dia os consumidores de consolas não são mais as crianças mas sim uma franja de gerações que compreende os mais pequenos até aos adultos com 40 anos de idade. de aprender mais. não nos podemos esquecer que a alienação assume diversas formas. nomeadamente os jogos da PlayStation (a consola que mais contribuiu para este vício das gerações de jovens adultos). de palestras de todos os géneros. porventura. de facto.

paulatinamente. Mas para além das razões sociais que obsequiaram a incorporação dos jogos de vídeo como uma actividade banal entre os jovens adultos é a própria natureza do jogo virtual que oferece uma um estilo de alienação praticamente único. Por outro lado. logo se reuniram à sua volta. um grupo atento de adultos com mais de 30 anos. . O tempo que se passava em discotecas na adolescência é o mesmo tempo que se passa já com emprego e. indumentária e acções juvenis. Mesmo sem filhos. os jovens adultos simplesmente estabelecem uma linha de continuidade entre a sua adolescência e a sua maioridade. os telemóveis transformaram-se numa divulgação em massa deste tipo de ocupação lúdica e no futuro serão cada vez mais apelativos. Pelo contrário: os novos adultos (20 aos 35 anos) são aqueles que na adolescência já não sabiam divertir-se sem incorporarem esta dimensão lúdica. por vezes. A necessidade que os nossos pais e avós tinham de marcar a diferença entre a idade juvenil e adulta já não existe. O que se ambiciona é exactamente isso. Os jogos de computador conseguiram essa proeza de fornecer também aos adultos aquilo que lhes faltava na televisão: uma interactividade onde o herói da trama já não era outro que não eu mesmo e onde já não se tratava de receber passivamente os conteúdos mas sim de participar neles. existe já todo um conjunto de gerações que viveu jogando este tipo de jogos. onde à volta de um novo jogo virtual de acção se encontravam a jogar e a assistir 7 adultos. ao invés.que filhos e pais se sentissem uma vez mais a brincar juntos. os jogos que os telemóveis disponibilizam têm permitido aos que viajam comummente em transportes públicos. Se hoje isto é possível é porque não é mais considerado um exercício exclusivo das crianças. Gastam-se esforços para que essa distinção não apareça. Vivemos numa era em que o ideal de permanecer jovem é absolutamente incontornável. A distinção que havia outrora é agora evitada até onde a idade o permitir (o que será destas gerações quando atingirem a terceira idade?). Apesar de arcaicos e graficamente pouco atraentes. antes pelo contrário. O que se pretende é permanecer jovem não havendo qualquer complexo de revelar posturas. incorporando um estilo de vida e de ocupação de tempos livres que não desaparecem só por se atingir a idade adulta. utilizar as diversões virtuais como forma de passar o tempo. com uma vida a dois. Apesar deste ser apenas um episódio já não foi o primeiro assistido e acredito que será cada vez mais frequente. Há alguns anos atrás seria impensável um acontecimento como este pois nenhum adulto teria a coragem de se expor publicamente a uma “actividade tão infantil”. Desta feita. ou pelo menos não seja muito visível. Os telemóveis também vieram obsequiar a utilização de jogos de vídeo entre os adultos. Após o gesto cada vez menos corajoso de um adulto ao pegar no comando. Recordo-me de uma situação recente numa loja FNAC. sem que para isso fosse necessário sair de casa ou permanecerem mudos diante de um programa televisivo. a comunicar mediante actividades lúdicas que se encontravam à distância de um polegar. Pais e filhos poderiam quebrar o silêncio que se tinha estabelecido diante da “caixa negra” e passarem. divertindo-se enquanto esperam e viajam.

podemos apresentar o sucesso que nos circunscreve. Estes valores são tão hegemónicos que até penetraram nas igrejas mediante a teologia da prosperidade: só conseguimos levantar a cabeça se. consegue obter os seus intentos. por não ser um adversário à altura. no final. . na verdade. não interessa em quê. Um jogo demasiado fácil é abandonado por ser ridículo. ou assassinos que escolhem matar aqueles que. Mas para aqueles que experimentam a progressão num jogo. ou ladrões de bancos e outras instituições abonadas de capital. O facto de não estarem habituados ao joystick nem à dinâmica do teclado necessária aos jogos de computador faz com que tenham mais dificuldade em saírem vitoriosos dos mesmos. Os que conhecem este tipo de jogos sabem que os editores necessitam de produzi-los com um equilíbrio bastante difícil de alcançar. Esta é a razão que explica a dificuldade deste tipo de actividade lúdica atingir os adultos acima dos 40 anos. mas uma das sensações que os jogos proporcionam é a da vitória. A paranóia atingiu um tal grau que a sétima arte não se coíbe de apresentar vilões ou heróis anti-heróis que nos fazem admirá-los não pelos valores que professam mas por serem bem sucedidos. de alguma forma. são consideradas más pessoas ou ainda o fascínio que o bom vilão passa a ter sobre o bom polícia que o capturou e vice-versa (pois só um polícia de sucesso poderia capturar um vilão de sucesso). independentemente da natureza dos mesmos. de forma arbitrária. Mas qual a relação desta obsessão da sociedade com o mundo dos jogos virtuais? Não é um facto muito alardeado. a constante ilusão de ganhar um pedaço de alguma coisa que. Por outro lado.Se repararmos com atenção. Também não é por acaso que todos os jogos de computador incluem a possibilidade de configurar previamente a sua dificuldade. Aliás. o jogo de computador responde a duas necessidades fundamentalmente pós-modernas e que se encaixam perfeitamente no perfil do homo ebrius: Vivemos numa sociedade obcecada pelo sucesso. que emana das nossas acções. Trata-se de facilitar o equilíbrio. por não entusiasmar. Os jogos de computador permitem uma radical sensação de superação de limites. esmagando um inimigo ou superando um obstáculo físico (mas virtual) ou intelectual. a nova definição de herói que se encontram nas películas é exactamente essa: aquele que. permitindo uma progressiva adaptação ao mesmo. viver é ter êxito. Só dessa forma se compreende que actualmente se consiga consumir séries e filmes onde a personagem principal é um advogado que não olha a meios para atingir os seus fins. Lidamos mal com as derrotas e fracassos e o alvo da nossa vida é apresentarmo-nos como pessoas vitoriosas no que fazemos. onde a balança tem nos seus pratos por um lado o desafio que o jogo lança e por outro a dificuldade em ultrapassá-lo. pois. nada é. a probabilidade de incorporarem este divertimento no seu dia-a-dia aumenta exponencialmente. um jogo bastante difícil que não permite uma superação progressiva é também abandonado imediatamente: ao invés de proporcionar uma sensação de vitória provoca no jogador uma desconfortável sensação de fracasso.

de condutores de automóveis de fórmula 1 a líderes de gangs. Quem ainda não ouviu falar do famoso Second Life? Um “jogo” on-line onde o que se oferece é a simulação de uma pessoa e personalidade diferentes. terminando com uma frase verdadeiramente apelativa: “Já vivi!” Ora. As acções disponibilizadas permitem-nos passar de conquistadores romanos a presidentes de câmara.. A ideia é simplesmente ser outra pessoa. tudo isso pode ser alcançado virtualmente. O anúncio utilizava um narrador que ia contando as suas experiências de vida. Será uma realidade dos tempos modernos onde já não se sabe brincar ao faz-de-conta? O mundo virtual transporta-nos para paisagens de países nunca visitados. estratégia. ambientes longe do alcance do homem. simuladores de todos os géneros até da própria vida humana em sociedade. de facto. a tenista campeão. superando os desafios apresentados. E para quem está entediado com o mundo concreto e verdadeiro é possível inventar uma . As situações vão-se sucedendo às vezes tal como na vida real. A dinâmica dos jogos virtuais que permitem experimentar “existências” aparentemente inacessíveis pode. que a possibilidade de sucesso no mundo do jogo de vídeo não atrai somente quem não o tem na vida real mas qualquer um que a experimente: vencer uma inteligência artificial. Como já dizia alguém “para que quero eu a realidade?”. O jogo de computador permite ainda alimentar uma necessidade do homem contemporâneo: a necessidade de experiências novas e de mudança. numa verdadeira lógica de substituição. nada pode estar mais longe da realidade. de jogadores de futebol a magos com poderes sobrenaturais. dessa forma. passar por situações diferentes e experimentar aquilo que a realidade não permite ou não permitiu. Mas. etc. veículos nunca conduzidos. Existem jogos para todos os gostos desde acção. desde general comandado exércitos. de outra forma. para o mundo virtual isso não é um defeito. estão vedadas. é aliciante para qualquer um. é importante frisar. Os testes de criatividade têm revelado que as crianças possuem cada vez menos capacidade imagética.A oportunidade de sucesso no mundo virtual pode ainda colmatar algum fracasso da vida real. profissionais. Não é de admirar que num anúncio da playstation já de há largos anos se fizesse uso desta imensidão de recursos virtuais disponibilizados. Se no mundo real não se tem êxito nas relações amorosas. a vida dos que os cicunvizinham. Os ambientes representados também tendem para o infinito e a evolução tecnológica consegue-os cada vez mais realistas. fazer com que o jogador se sinta a viver mais do que a realidade o permite. alterando. mas. As restantes personagens do jogo têm igualmente pessoas reais por detrás conectadas mundialmente. obtendo assim as sensações que. As ofertas são quase inesgotáveis podendo abarcar qualquer realidade que venha à mente não existindo limites para a imaginação dos programadores informáticos. com efeito. Comunicam em Inglês descrevendo as suas acções e reacções ao que lhes vai acontecendo. até planetas e lugares inexistentes na vida real mas atractivos à mente humana. antes uma virtude.

Durante o tempo em que se joga nada mais existe e tudo se concentra na superação das dificuldades que vão surgindo: é a alienação absoluta incorporada numa viagem para um outro mundo. quem quer a realidade quando a virtual é bastante mais aliciante e diversificada? Para quem. para efeitos deste artigo. Os resultados iriam sem dúvida surpreender-nos. a melhor forma de alienação sendo um dos maiores atractivos destes jogos. Seria necessário fazer um estudo à escala global incluindo adolescentes mas também adultos. Segundo o psicólogo Owe Sandberg citado pelo mesmo jornal “entre 30 mil e 40 mil adolescentes na Suécia estão actualmente sob o risco de se tornarem dependentes de videojogos”.personagem dentro de universos fantásticos com dragões. seres de outro mundo ou até. Nem a fome. o que for necessário. e tudo isto apesar de Second Life não ser propriamente um jogo. nem a protecção automática contra o stress foram mais fortes que as possibilidades oferecidas pelo mundo virtual. envolvimentos. apenas comendo e dormindo (pouco). neste caso o famoso World of Warcraft (já fonte de negócio para alguns. de certa forma. Os enredos conseguem ser tão atractivos que alguns jogadores deixam simplesmente de viver a sua vida real. Se estivermos atentos à nossa vizinhança e amigos/conhecidos talvez não seja difícil encontrar casos mais ou menos semelhantes ao desse infeliz sueco (não tão graves a nível de saúde) ou outros em que se percebe que a vida é orientada ao redor de jogos de computador. enfim. considerando a inexistência de objectivos e desafios a superar. conversas. vestuário. A falta de descanso. uma outra personalidade. As consequências. encontramos a notícia de um adolescente de 15 anos que entrou em estado de convulsão após jogar um jogo de vídeo durante 24 horas. são irrelevantes. talvez por questões de dificuldade de relacionamento ou aversão a . Um mundo onde o que podemos alcançar é bem mais interessante do que comparado com o real. nem o sono. O capital real que se investe no jogo vai dependendo da carteira (também real) do jogador. apartamentos. a alimentação inadequada e a concentração elevada durante esse dia inteiro fizeram com que o rapaz sueco sofresse uma convulsão semelhante a um ataque de epilepsia. Apenas um ciclo de acções. A loucura é tanta que existe uma paridade entre a moeda virtual do Second e a moeda real para que se possam comprar terrenos. sociedades vampirescas. Mais uma vez. Todo o mundo virtual é um mundo feito à nossa medida preparado para o dominarmos e. para as almas mais negras. princesas e magos. escaparmos da nossa vida quotidiana e banal. O que interessa aqui realçar é a capacidade que o jogo revelou. Num artigo de 18 de Novembro do jornal Sol. de facto. desenvolvendo as personagens a custo zero e depois vendendo-as aos impacientes que queiram progredir mais depressa) em suplantar-se às necessidades mais básicas do ser humano. Com certeza não será só na Suécia. Em certo tipo de pessoas não é difícil reconhecer que os objectivos diários se resumem em trabalhar para sobreviver e comprar videojogos. normalmente estudantes que vão faltando aos seus compromissos académicos sem que os pais o imaginem. A mudança facultada nestas “aparências de realidade” é. pois os “objectivos” do jogo suplantam os reais.

considerando os efeitos que actualmente os jogos de computador têm. Num futuro próximo os lares de terceira idade começarão a incorporar estas novas tecnologias para poderem proporcionar actividade física aos residentes. não consiga optar pela alienação mor dos tempos modernos – as discotecas – a possibilidade de submergir em mundos surpreendentes e inéditos é. os perigos e a pobreza dos mundos reais? O cenário poderá parecer ao presente leitor um pouco catastrofista mas a verdade é que.multidões. num futuro ao qual o presente autor não assistirá. demasiado sedutora para ser recusada. abrindo portas para conquistar a última geração de resistentes aos jogos de computador. Quem sabe se. A terceira idade passará o resto dos seus dias ligada a computadores de modo a readquirirem as experiências de um corpo saudável e jovem e tudo isto se fará em nome de um certo humanismo. desde que haja tecnologia disponível (acaba por ser ainda um privilégio muito . não é difícil entendê-los numa relação proporcional aos futuros desenvolvimentos tecnológicos. É de assinalar que a publicidade efectuada a esta consola raramente inclui crianças e adolescentes preferindo mostrar jovens adultos e até mesmo idosos em pleno divertimento. mas não é possível deixar passar a oportunidade de apontar para um futuro onde os jogos de computador proporcionarão a alienação máxima da sociedade. que não demorará muitos séculos. oferecerse-á a estadia em mundos virtuais. Quando os neurocirurgiões conseguirem aceder directamente aos nossos centros nervosos e ligá-los a um computador as possibilidades de alienação não conhecerão limites. As limitações são cada vez mais reduzidas. com a nova Nintendo. Não é este o espaço indicado para aprofundar o tema. O primeiro passo para esta realidade já foi dado com a consola Wii. os jogos passaram. evitando assim os desconfortos. como destino de férias durante um mês. O filme Matrix já mostrou o caminho que será percorrido e. Apesar de ainda não ser uma ligação directa ao cérebro. Os que vivem de rendimentos talvez até preferirão confinar-se às vielas virtuais na maior parte do seu tempo diário disponível. O mundo virtual já não está na ponta dos dedos. a maior fonte de alienação de todo o mundo. a ser uma extensão de todo o movimento do corpo. O futuro de um mundo de alienação hipervirtual e transgeracional chegou! A NOVA TECNOLOGIA E AS REDES VIRTUAIS A Internet democratizou a informação e o contacto entre os povos. em todos os domínios. Não será difícil perceber que a comunicação do evangelho também terá de ser efectuada nesses universos paralelos tal como acontece actualmente no Second Life. as relações sociais reais serão substituídas pelas virtuais. Para quem possuir capital suficiente. acredito. mas em todo o nosso corpo. provavelmente. Nenhum divertimento poderá rivalizar com o que os jogos oferecerão nem mesmo o sexo. Sendo hoje apenas um entre outros meios de alienação contemporânea – sem sequer conseguir rivalizar com o consumismo e o sexo – será.

A expressão “aldeia global” encaixa com perfeição num futuro próximo. partilham-se e divulgam-se problemáticas com características regionais mas discutidas à escala global. não sendo necessário um conhecimento prévio dos dois inter dialogantes. partilham-se vídeos e músicas com grupos de interesse constituídos por elementos espalhados pelos continentes. acedem-se a realidades que teriam ficado no esquecimento para quem não pode viajar. Entre os adolescentes já nem se trata de visita mas de “viver” na Internet. Começa a não ser raro ver estabelecidas conversas íntimas através de msn. Mesmo alguns pais têm verificado que é mais fácil falar de assuntos privados com os filhos no messenger do que cara a cara. Ora. não sendo de forma alguma um processo penoso participar de todas as acções acima indicadas. em primeiro lugar. mas o que nos interessa realmente evidenciar para efeitos da temática aqui abordada são as novas possibilidades que a mediação – o computador – fornece para efeitos de alienação. Qualquer contacto pode ser obtido pela própria Internet. Existe um fenómeno recente que tem admirado os pais destas novas gerações e que consiste em chegar a casa e continuar a falar com os colegas dos quais se tinha despedido ainda há bem pouco tempo à saída da escola. O tempo que ali despendemos é um prazer. mas acima de tudo muito personalizado. a transmissão de emoções vocais e . a Internet desenvolve comunidades absolutamente virtuais. Em muitos casos é já possível afirmar que os diálogos mais profundos entre amigos ocorreram através do computador e não de forma presencial. Tem-se verificado até que os assuntos mais íntimos são agora conversados com um computador como mediador e não presencialmente. sendo um fluxo de informações. As oportunidades de comunicar com tanta facilidade mas sempre através de um mecanismo que impede a visualização directa (se exceptuarmos as câmaras) permitem uma máscara do eu. donde apenas se sai para ir à escola ou outro lugar qualquer. Sinais dos novos tempos? È provável que se esteja a fomentar uma timidez latente que se reflectirá no futuro. Hoje em dia é possível ficar conectado na Internet 24h e mesmo assim descobrir novos interesses que nos façam prolongar a visita.específico das nações menos). um verdadeiro paraíso da comunicação. por vezes. A Internet. Entretanto. assumem-se posturas e formas de estar na vida (tribos urbanas) que estão do outro lado do atlântico e sem qualquer representação em outros locais. Enfim. Pela facilidade com que a sua comunicação se processa. Este tipo de comunicação bloqueia. fazem-se amigos desconhecidos por causa de um único interesse comum ou. Não só é fácil como rápido e eficiente (se exceptuarmos a transmissão de voz e imagem). Podem-se ter mil e umas conversas sobre os mais variados temas com quem nunca se viu e provavelmente nunca se irá ver. fica-se mais informado e em tempo real sobre acontecimentos em nações e povos que nos são estranhos do que do sucedido nos nossos bairros de residência. talvez impensável a algumas décadas atrás. facilita e cativa a sua utilização. para tudo isto é preciso despender tempo. entre os países onde a Internet é já uma ferramenta comum o futuro já chegou e facilmente falamos em tempo real com alguém que está do outro lado do planeta a custos reduzidos.

Ser diferente do que se é. A comunicação. pois. Com msn no telemóvel (desde que a preços atractivos. Em terceiro. podemos receber os problemas de outros e dizermo-nos “amigos” já que a responsabilidade dessa amizade nunca poderá ser testada (só em casos muito raros. Inventou-se a televisão portátil. com os novos desenvolvimentos tecnológicos é possível aceder ao msn através do telemóvel. Estas redes sociais que se formam na Internet são. os péssimos conteúdos televisivos já podem . Actualmente a diferença não é muita. atingindo o objectivo que todos perseguem: a eliminação absoluta da solidão. evitando relações presenciais e mudando constantemente de pares dialógicos. As redes sociais virtuais serão procuradas assiduamente pelas gerações actuais e futuras. mas a partir de agora já não existirá esse obstáculo. permite um resguardo considerável do que somos ou estamos a ser nesse momento. assim. As possibilidades serão imensas. se falamos com pessoas conhecidas na Internet e que moram em países diferentes. mas a mobilidade ainda não é aquela que uma conexão entre telemóvel e Internet sem restrições permitirá. A partir de agora a magia da “caixa negra” pode continuar a exercer a influência que detinha nos lares e transportar-se para as ruas. considerando o tempo que se passa em Internet nos nossos computadores pessoais. O sempre contactável disponibilizado actualmente pelo telemóvel passa a sempre acompanhado com esta fusão. ou seja. existe sempre o botão de off). até um género diferente. Em segundo lugar. ocultar defeitos visíveis. Outro dos serviços recentemente disponibilizados para os telemóveis de terceira geração é a recepção de canais televisivos para o telemóvel. Até este momento era necessário desligar o computador (conjuntamente com a conversa) para cumprir com os deveres sociais. Esta confluência entre Internet (msn) e telemóvel permitirá um acréscimo considerável do estado de alienação juvenil. sabemos que dificilmente possa haver oportunidade para um contacto directo. não assumir responsabilidades. Os amigos podem mudar consoante o nosso estado de ânimo e podemos partilhar os problemas à vontade modificando a sua origem e natureza de acordo com a forma como nos sentimos mais confortáveis. o adolescente (e também o adulto no seu local de trabalho) poderá desligar-se do ambiente que o envolve e permanecer ligado a um mundo ou pessoa que pode até não existir. só ainda neste primeiro nível. mas. podendo até assumir uma nova personalidade.faciais. apresentar-se a outros a partir do zero como se a vida pudesse recomeçar sem passado e sem história a qualquer momento. poderá ser alcançado. uma excelente oportunidade para fugir ao dia-a-dia e esquecer a vida real. e quando falamos para pessoas desconhecidas. podendo demorar ainda uns anos) o ideal absoluto de nunca se sentir sozinho e de fugir do silêncio que nos reenvia a nós próprios. embrenhando-se em mundos distintos com possibilidades de manipulação e de encobrimento da realidade quase infinitas. não há qualquer responsabilidade envolvida na relação. enquanto se espera pelo autocarro. Ora. De igual modo. Acima de tudo. a liberdade é total.

inclusive em andamento. definitivamente. os telemóveis deixaram de ser um prestador de serviços bastante limitado para ser o arauto do novo paraíso. A outra alternativa é esperar os momentos (poucos) de transição entre alienações. apesar de se poder deslocar durante esse tempo? Como será tentar resistir à tentação de ver o seu programa favorito a qualquer hora do dia e em qualquer local? Ver-se-á ainda alguém a ler um livro nos transportes públicos. O telemóvel. esse brinquedo maravilhoso que cabe no bolso. retirar os paliativos que a outros servem de consolo. O único limite será a capacidade da bateria. Mas não só. Apenas nos momentos de crise se poderá esperar um ouvido atento ao que Cristo tem para nos dizer. seres viciados em imagens e/ou comunicação? Em jeito de conclusão Se existe elemento caracterizador da sociedade pós-moderna e pós-cristã é esta ânsia pela alienação. em primeiro lugar em nós mesmos – lutando para que não sejamos nós igualmente alienados – e. Um certo humanismo secularizado e relativista que se instalou diz-nos que não é prudente. terá de se adaptar às novas realidades.alimentar a nossa alma. Assim. o consumismo e as potencialidades do mundo virtual. como um duche frio incómodo e do qual se quer sair. talvez até pouco ético. enquanto palavra de salvação. Mas esta posição só pode resultar de uma compreensão não essencialista da vida. agora que também a televisão passa a ser ubíqua? Passaremos a ser. tarefa complexa pois as camadas sucessivas que se sobrepõem permitem alterar as formas alienantes enquanto ainda se permanecem noutras. nos outros. As opções conformistas são sempre relativistas e não devemos esperar que as coisas se . em primeiro lugar. O Evangelho. a não ser se incluída num sentido mais amplo onde a religião não surge sozinha mas acompanhada de uma imensidão de outros interesses que se reflectem como a manifestação de um padecimento global. Esta segunda opção é. A famosa expressão marxista “A religião é o ópio do povo” não faz mais sentido. como má nova. em segundo. Como será poder iniciar uma conversa e só a terminar 12 ou 16 horas depois. permitirá a fuga sem sair do sítio. aquilo que nos arranca a esta embriaguez constante. A Boa Nova tem de se apresentar. Mesmo no local de trabalho já não será possível monitorizar o empregado através do seu próprio computador. A visão cristã aponta para conclusões radicalmente opostas: há uma ontologia existencial por detrás das nossas vidas e isso deve-nos coagir a provocar a libertação da alienação. Aquela que foi a primeira grande fonte de alienação tecnológica estará em todo o tempo e em todo o lugar. provavelmente a mais confortável. O ópio do povo é agora o sexo e a erotização ubíqua. permitirá a fuga de qualquer local.

Alguém dúvida que a melhor forma de se perceber que os valores da ganância e do lucro desmedido. a mais eficaz. Todo e qualquer disfarce da sua situação de crise constitui obstáculo à compreensão da mensagem de Deus. da centralização no ter ou ir tendo e não no ser. Somos chamados à provocação. tal como nos é revelado pela vida d’Aquele que é o máximo exemplo para todos nós. não existe outra forma de o compreender. pois alienados produzem mais alienados numa espiral sem fim à vista. era. só a alienação poderá seguir-se a uma profunda compreensão da nossa solidão no universo. tal como o comunismo de Marx e Engels o foi. uma ilusão. Novembro de 2008 Manuel Rainho . do mercado como deus absoluto. a angústia típica do existencialista não existe mais. Assim é com as nossas vidas pessoais.resolvam por si mesmas. O superhomem de Nietzsche. Como disse anteriormente. o ser humano precisa de observar a aporia da sociedade que criou e sentir a necessidade de redenção. Os seus três anos de ministério são anos de provocação. mas esta. Jesus contornava as alienações do seu tempo indo ao encontro delas. Só o homem aporético pode salvar-se de si mesmo mediante a acção de Jesus. Só aos que se descobrem enfermos é possível a cura. Pelo que podemos observar hoje da nossa história Ocidental. pelos vistos. Sem confrontação o estado de alienação apenas irá aumentar. em aberta oposição. A diferença está em que alguns apercebem-se do seu estado lastimável e outros não. erróneos a não ser através de uma crise deste mesmo sistema? Não. Todos precisam de remição. a não ser passando pelo seu próprio colapso e pela necessidade de regeneração. são. pareceme. esse construtor de valores emancipado. não só nas palavras como nos actos. A sociedade aguentou o quanto possível essa etapa onde o homem aporético olhou para si e se compreendeu como tal. etc. A alienação dos nossos gestos e pensamentos facultam-nos a ilusão da tábua de salvação e a melhor forma de compreendermos o quanto ilusória tem sido a nossa existência diária é darmos um passo em falso e tombarmos no vazio que sempre evitámos a todo o custo. A alienação pode ser combatida de diversas formas. Quando Cristo disse que os sãos não precisavam de médico mas sim os doentes de modo algum considerou que existiam justos no mundo. de alguma forma. Neste momento.

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