Você está na página 1de 5

A TEMPESTADE

Música

A atmosfera da ilha encantada de A Tempestade é criada, em grande parte,


através do som. As marcações de palco exigem uma variedade de efeitos sonoros,
incluindo Ariel tocando um tamborim e uma flauta. [37]
Originalmente, Ariel deve ter sido representado por um músico, pois, além de
tocar um tamborim e uma flauta, ele canta quatro canções. Por toda extensão da peça, as
músicas de Ariel são um veículo para a magia de Próspero: elas guiam Ferdniand ao
encontro de Miranda, acordam Gonzalo a tempo de evitar o regicídio*. [38] Comparado
com as canções de Ariel, o resto da música presente em A Tempestade é interessante,
porém possui pouca importância na trama. [39]
Poucas peças de Shakespeare demandam tanta música e nenhuma delas coloca
tanta ênfase em um tipo de música dissipada que parece vir de todas as partes do palco.
[40]

Linguagem

A linguagem de A Tempestade não é menos evasiva do que sua ilha e música. A


poesia da linguagem seduz o público e o faz entrar em um estado de suspensão
estilística, uma zona intuitiva entre o sono e o despertar, uma condição marginal entre a
expectativa e a compreensão, a afirmação e o ceticismo, a comédia e a tragédia. A
linguagem cria o efeito surreal da ilha, contribuindo para a sensação de suspensão de
tempo e espaço sofrida pela platéia. [41]
Os apóstrofos são usados para omitir sílabas de algumas palavras. Em alguns
momentos, palavras são visivelmente omitidas, deixando que o espectador faça a
coerência, acrescentando os substantivos, pronomes, verbos e advérbios mais
adequados. [42]
Apesar das sugestões de movimento, a maioria das cenas de A Tempestade são
exposições estáticas do passado ou planos para o futuro, uma qualidade que faz com que
o uso de “linhas quebradas”** seja muito importante. [43] A alta proporção de linhas
irregulares em A Tempestade, o frequente uso de uma sílaba átona extra no final das
linhas, repetem, em âmbito lingüístico, a tensão oculta do enredo entre a harmonia e a
interrupção, entre os desejos utópicos e o caos causado pela natureza humana. Esse caos
é, talvez, melhor tipificado em Caliban, pois as discussões da linguagem da peça são
frequentemente focadas em seus discursos. [44]

Personagens

Como a localização da ilha encantada, a origem dos personagens da peça é


evasiva. Existem, com certeza, ligações com obras anteriores de Shakespeare: Próspero
tem sido frequentemente comparado com o personagem Vincentio de “Medida por
Medida” (Measure for Measure), Miranda com o último romance “Marina, Imogen,
Perdita”. Apesar dos ecos de criações passadas, os personagens de A Tempestade são
muito mais únicos do que a estrutura e a linguagem da peça. [45]

*
Assassinato de um governante
*
* Linhas em que o pensamento continua na próxima linha.
*
Próspero é “afortunado”, pois depois de doze anos de sofrimento em uma ilha
distante, ele vê sua filha prometida de casamento e depois tem seu ducado restaurado.
Ele é claramente o personagem principal da peça; ele tem mais falas e também manipula
os outros personagens. [46]
No século XVII, quando o Mago (Próspero) era percebido com um filósofo
esclarecido e benigno, a peça parecia uma comédia mágica; já no século XX, quando
Próspero veio a ser visto como um transtornado – se não, tirânico – imperialista, a peça
começou a parecer mais problemática. [47]
Em harmonia com essas interpretações em constante mudança, existiram – e
ainda existem – diferente imagens físicas do Mago. Do século XVII até o XX, ele era
costumeiramente representado no palco como um velho sábio e com uma barba
parcialmente branca; em muitos comentários pós século XX, ele é apresentado como
um homem de meia idade, o que reflete a cultura real do Renascimento e, em parte, a
influência de teorias freudianas. [48]
Quando Richard Burbage (1567-1619) encenou Próspero em 1611, ele tinha 44
anos (Shakespeare tinha 47), o que confirma nossa impressão de que Próspero tinha
entre 40 e 45 anos, porém, não mais velho do que isso. [49]
Durante a peça Próspero mustra uma excelente combinação de poder e cotrole
em suas relações com os outros. Sua postura é autoritária, o que pode explicar a mutante
reação ao seu papel através dos séculos. [50]
Próspero é visto também como um mágico. Ele usa túnica e bastão mágicos e
refere-se aos seus livros de magia. Mágica é a tecnologia dele, um meio de conseguir
tudo que ele quer. [51]
Talvez, o papel mais controverso de Próspero é o de Mestre. A seu serviço estão:
Ariel, que o serve sob um contrato oral e por um período indeterminado, e Caliban, que
foi escravizado pelo mágico. [52] Esse papel é controverso pois o Mago tenta lidar com
seus subordinados através de ameaças de confinamento e tortura.
Em um esforço para controlar seus discípulos, Próspero também procura
monopolizar a narrativa, como quando ele entedia Miranda em seu discurso, com umas
das exposições mais demoradas em todo o drama Shakespeariano. [53]
O papel de Miranda na estrutura autoritária de A Tempestade é primeiro como
uma filha e, depois, como o de uma futura esposa. Mas, mesmo quando ela
convenientemente (ou magicamente) se apaixona pelo homem de escolha do seu pai,
Miranda não é tão mansa e submissa como ela é retratada. Ela encontra-se com
Ferdinand clandestinamente (ela pensa), sem a permissão do pai dela e depois
desobedece a ordem que ele deu para que ela não revelasse seu nome. [54]
Central à obsessão de Próspero com a castidade e a fertilidade está Miranda, ela
é a sua “razão de ser” (em francês, raison d’être), pois o casamento dela e os seus
futuros filhos darão a ele a promessa de imortalidade. [55]
Embora Miranda seja central na história de A Tempestade, os dois servos de
Próspero representam papéis mais proeminentes e dinâmicos; ambos têm nomes
problemáticos. ‘Ariel’ deve ter tido muita consonância com a platéia jacobina: ‘Uriel’ é
o nome de um anjo na Cabala dos Judeus. [56] E as nuances bíblicas são muito mais
ricas. Embora a Bíblia Bishop* relacione Ariel à cidade de Jerusalém (Isaías 29), a
Bíblia Geneva** observa que o nome hebreu ‘Ariel’ significa Leão de Deus e significa
altar, por causa do altar levantado para oferecer sacrifícios a Deus. Na Bíblia Bishop, o

*
Tradução da bíblia para a língua inglesa feita no reinado da rainha Elizabete I
** Uma das mais importantes traduções da bíblia feita em língua Inglesa antes do reinado de James. Foi a
bíblia usada para reforma protestante e também foi bastante utilizada por Shakespeare.
profeta declara que o altar de Jerusalém será visitado por Deus com trovões, tremores de
terra, um grande barulho, uma chama de fogo devorador e uma tempestade. [57]
Ariel descreve sua atividade na tempestade e diz que “flamejou espanto” e
queimou muitos lugares. Shakespeare provavelmente ouviu o capítulo 29 de Isaías ser
exposto na Igreja ou o tenha lido em casa. Se ele se baseou diretamente na bíblia ou
redigiu inconscientemente, a imagem de Ariel como “Leaão de Deus” fala através da
enchente e do fogo e reverbera em A Tempestade. [58]
Própero descreve ariel como uma criatura curiosa, delicada, suave e brincalhona.
[59] Como um espírito do ar, Ariel pode ser vista como um pólo do dualismo
neoplatônico: ar como oposição à terra de Caliban. Assim, Ariel é geralmente é ilustrada
sendo carregada pelo ar ou, algumas vezes, com asas. [60] Ariel também é associada
com água: o espírito implementa a tempestade e é disfarçado como uma ninfa do mar.
Ar e água conotam leveza, fluidez e graça de movimento. [61]
Caliban, por sua vez, é constrangidamente esquisito, frequentemente impedido
por suas nadadeiras ou sua corcunda.
Embora a lista de personagens de A Tempestade e o seu próprio texto não
identifique Ariel como um ser humano (embora racional) e sim, como um espírito, ele
tem pensamentos e sentimentos independentes. [62]
A natureza de Caliban é mais controversa que a de Ariel e tão confusa quanto a
origem de seu nome. Um longo consenso prevaleceu é o de que Caliban é um anagrama
de “canibal”, Shakespeare, desse modo, identificou o selvagem de alguma forma com o
antropofagismo. [63] A resposta usual é que Shakespeare não quis dizer que Caliban era
literalmente um canibal, mas que era moralmente e socialmente deficiente. [64]
Várias etimologias alternativas foram oferecidas para explicar a origem do nome
de Caliban: “Calibia”, um lugar da áfrica; “Chalybes”, um povo mencionado pelo autor
clássico Virgil; “Kalebon” uma palavra árabe que significa “vil, cão”; “Kalee-ban”, uma
palavra hindu e, a mais plausível, “Caulibon”, uma palavra cigana para coisas negras.
[65]
A dimensão da deformidade de Caliban não é precisa. Stephano e Trinculo
reduzem Caliban à categoria de monstro, combinando com os adjetivos: superficial,
fraco, pérfido e bêbado, horripilante, abominável, ridículo e, em um modo positivo (mas
sarcástico), bravo. [67] Porém, mesmo que Caliban não possua a forma humana, em
muitos aspectos, ele tem qualidades humanas. [68] Mais uma vez A Tempestade não
determina o volume de evidências que possam apontar que Caliban é - apesar de seu
parentesco demoníaco - essencialmente humano. [69]

O CONTEXTO

A Tempestade é estruturada ao redor de oposições entre o discurso elegante e um


amplo contexto lingüístico. [70] Ninguém sabe o por quê e como o dramaturgo bebeu,
conscientemente ou inconscientemente, de fontes tão ricas. Pesquisadores podem,
entretanto, indicar as conexões mais prováveis entre a linguagem e os personagens de A
Tempestade e as circunstâncias políticas, sócias e intelectuais nas quais Shakespeare
viveu e produziu. [71]
Uma vez que a A Tempestade está situada dentro da estrutura histórica do século
XVII, as consonâncias culturais e literárias que eram transparentes para as primeiras
platéias de Shakespeare, se tornaram opacas para as gerações subseqüentes. [72]
A Tempestade tem sido vista como um espelho da imagem da corte jacobina,
com Próspero parcialmente refletindo James*. [73] Como o Mágico, James estava
preocupado com o casamento de sua filha (Elizabete I), o futuro da dinastia e quem iria
governar seu povo. [74]
Muitos críticos argumentam que os extensos e variados discursos sobre
colonialismo estão profundamente embutidos na linguagem e nos eventos do drama.
Próspero comanda uma ilha distante e impõe sua tecnologia superior (mágica) e sua
língua como ferramentas de conquista e dominação. [75]
Shakespeare e sua platéia estão familiarizados com a colonização americana não
restrita somente à posição privilegiada da Inglaterra na costa América do Norte, mas
também com a espanhola, portuguesa, francesa, alemã. Por mais de um século relatos
dessas descobertas produziram uma crescente inundação de fatos e mitos. [76] A
volumosa literatura da exploração européia foi predominantemente marcada por
tempestades, naufrágios, milagres, monstros, demônios e nativos fascinantes. Embora a
maioria dos dramaturgos contemporâneos de Shakespeare tirasse mais desse tipo de
literatura do que ele, A Tempestade pode ser a oblíqua dramatização de Shakespeare
sobre a era de descoberta da Europa. [77]
A tentação de ver Caliban como um índio americano origina-se da ambiguidade
geográfica de A Tempestade: se a peça se passa na América ou metaforicamente se
refere à colonização do Novo Mundo, Caliban pode ser, em certo grau, um americano
nativo. [78]

África e Irlanda

Outros dois contextos geopolíticos e suas abundantes reflexões literárias podem


ter influenciando os escritos de Shakespeare em A Tempestade. Invasões feitas pela
Inglaterra na África e os esforços dos ingleses para governarem a Irlanda, fez desses
dois lugares compatíveis com os aspectos de colonização encontrados na peça. [79] A
áfrica aparece explicitamente várias vezes na peça; a Irlanda nunca é mencionada, mas
deve ter sido subentendida em alguns dos temas de A Tempestade. [80]
A temática de Caliban tende à África; o seu nome, se derivado da cidade de
Calibia, é enfaticamente africano, e se Caliban é um anagrama de Canibal, pode
corresponder às percepções inglesas com relação aos africanos e aos nativos
americanos. [82] É preciso salientar que na época do reinado de Elizabete africanos
eram vistos como “negros, selvagens, monstruosos e rudes”. [83]
Quanto à Irlanda, ela dever ter servido como um exemplo de assuntos complexos
como: colonização d’além mar, legitimidade política, vingança e arrependimento. [84]
O mais provável, nós creditamos, é que a Irlanda se encaixou na mente do
dramaturgo com os outros temas contextuais da África, América e Europa. [85]

Precursores literários

Há dois romances anteriores que devem ter inspirado a Shakespeare na produção


de A Tempestade. O espanhol El espejo de Príncipes y Caballeros e o alemão Die
Schöne Sidea. Ambos romances mantinham similaridades com a peça de Shakespeare e
refletem o fascínio durante o Renascimento Europeu com temas como: contos exóticoS
de mágicos, bruxos, bestas, ilhas encantadas e ‘amor romântico’. [88]
O ‘homem selvagem’
*
Rei do período jacobino
A exploração de A Tempestade sobre o que no faz civilizados e livres é
características não só dos grandes textos do velho mundo, mas também do folclore e
lenda medieval. [89] O contraste entre “civilidade” e “barbarismo” tem sido registrado
em tapeçaria, escultura de madeira, pinturas, poesia e cortejos da idade média até o
renascimento. [90]
O homem selvagem aparece frequentemente nos cortejos e nos dramas
renascentistas. [91] Embora Caliban discorde, em muitas maneiras, com essa figura de
selvagem, eles compartilham algumas características. Em um lado admirável, Caliban
conhece as ‘qualidades da ilha’ e é harmonizado com a sua música, ele também
aprendeu de Próspero e Miranda a língua e alguma ciência rudimentar. Mas isso não
pode subjugar sua ferocidade, pois ele é filho de uma bruxa e um demônio. [92]

Mágica

O impresso denomina “arte” quando menciona a mágica de Próspero. [93]


Próspero é frequentemente descrito como um mágico, um praticante de ‘magia branca’,
que segue um rigoroso sistema de filosofia que permite ao mágico energizar-se em
deuses ou controlar outras inteligências espíritas no trabalho de efeitos miraculosos.
[94]
Na criação dos elementos mágicos de A tempestade, Shakespeare deve ter sido
influenciado também pelos mágicos de rua, uma figura legendária e contemporânea do
dramaturgo. Mágicos de rua era uma característica frequentemente na vida urbana dos
jacobinos frequentemente representadas nos palcos de Londres. [95]
Próspero tenta fazer uma distinção, atribuindo o poder de demoníaco à sua
inimiga e alter-ego, a bruxa Sycorax. [96]

O Pós-vida

A pós-vida de A Tempestade atravessou os séculos ao redor da terra e uma


grande variedade de gêneros e mídias sugeriram que a peça é singularmente adaptável.
[97] A localização indefinida em tempo e espaço de A Tempestade dá à peça uma
transportabilidade incomum. [98] A imprecisão de lugar da peça atrai escritores e
artistas para o que os escritores de ficção científica chamam de “segundo mundo”, no
qual ilhas distantes, imaginárias e, às vezes, encantadas são ideais. [99]
Os personagens da peça, além disso, personificam os relacionamentos humanos
mais básicos: pai e filha, rei e súdito, mestre e servo. Em todas essas interações a peça
enfatiza as dinâmicas de liberdade e restrição, obediência e rebelião, autoridade e
tirania. [100]
Em suma, os personagens centrais de A Tempestade e seus relacionamentos são
simultaneamente específicos para formar uma história efetiva e vagos o suficiente para
permitirem novas reformulações. [101]
Finalmente, a ênfase de Shakespeare em artes espetáculo, magia e linguagem
poética em A Tempestade encoraja artistas a recriarem o drama nos seus próprios
termos através da mídia não dramática. [102] Uma simples peça inspirou muito
pintores, poetas, músicos e cineastas, novelistas e escritores políticos, a produzirem uma
grande variedade de representações.