FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS CURSO DE DIREITO

RICARDO ELIEZER DE SOUZA E SILVA MAAS

SELETIVIDADE DO SISTEMA PENAL

BLUMENAU 2008

RICARDO ELIEZER DE SOUZA E SILVA MAAS

SELETIVIDADE DO SISTEMA PENAL

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado para obtenção do grau de Bacharel em Direito pela Universidade Regional de Blumenau

Orientadora: Ivone Morcilo Fernandes Lixa

BLUMENAU 2008

SELETIVIDADE DO SISTEMA PENAL

Por

RICARDO ELIEZER DE SOUZA E SILVA MAAS

Trabalho de Conclusão de Curso aprovado com nota 9,7 como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito, tendo sido julgado pela Banca Examinadora formada pelos professores:

____________________________________________________________ Presidente: Profª – Ivone Morcilo Fernandes Lixa – Orientadora, FURB

____________________________________________________________ Membro: Profª Lenice Kelner – Examinadora, FURB

Blumenau, 10 de Novembro de 2008

DECLARAÇÃO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE

Através deste instrumento, isento meu Orientador e a Banca Examinadora de qualquer responsabilidade sobre o aporte ideológico conferido ao presente trabalho.

________________________________________

RICARDO ELIEZER DE SOUZA E SILVA MAAS

AGRADECIMENTOS Meus agradecimentos à professora Ivone pela orientação e apoio.

- e a Justiça é mais severa com os homens mais desarmados. Cecília Meireles

RESUMO Mais do que certas condutas tidas como criminosas, o sistema penal parece perseguir certos indivíduos. Esse é o objetivo do presente trabalho, tentar compreender o funcionamento seletivo do sistema penal moderno. A análise parte da reflexão acerca da lógica punitiva moderna, com vistas a discutir as origens desse modelo de política criminal e confrontar as funções declaradas do sistema penal, tais como a repressão e a ressocialização, e suas funções reais, a estigmatização e a criação de verdadeiras carreiras criminais. Num segundo momento, tentar-se-á desconstruir o mito do direito penal como igualitário, atingindo a todos igualmente, independentemente de qualquer fator social. Ao final, a reflexão pretende discutir, com base na criminológica crítica, a forma como fatores como raça e condição social são determinantes na hora de se aplicar o direito penal. O objetivo institucional buscado foi a confecção do Trabalho de Conclusão de Curso, com a finalidade de obtenção do Grau de Bacharel em Direito. Utilizou-se o método indutivo, com pesquisas bibliográficas, livros, artigos, pesquisa em saítes da internet e dados estatísticos sobre o sistema prisional brasileiro. Palavras-chave: Criminologia Crítica. Sociologia Jurídica. Direito Penal.

ABSTRACT More than certain conduct taken as criminals, the criminal justice system seems to prosecute certain individuals. That's the goal of this paperwork, trying to understand the selective functioning of the modern criminal justice system. The analysis starts with a reflection regarding the modern punitive logic, in order to discuss the origins of this type of criminal policy and to confront the declared functions of the penal system, such as repression and resocialization, and its actual functions, the stigma and creation of criminal careers. Secondly, we will be tried to deconstruct the myth of criminal law as equal, persecuting all, regardless of any social factor. At the end, discussion, based on critical criminology, will be about the way factors like race and social status are crucial in time to apply the criminal law. The institutional objective sought was the construction of a college graduation thesis, with the aim of obtaining the degree of bachelor of law. We used the inductive method, with bibliographic searches, books, articles, searches on the Internet and statistics on the Brazilian prison system. Key words: Criminology. Legal Sociology. Criminal Law.

SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.....................................................................................................................8. 2 LÓGICA PUNITIVA MODERNA.....................................................................................9. 2.1 SISTEMA PENAL...............................................................................................................9. 2.1.1 Conceito............................................................................................................................9. 2.1.2 Segmentos do sistema penal...........................................................................................11. 2.1.3 Legitimação do sistema penal.........................................................................................12. 2.1.4 A função do sistema penal no estado moderno...............................................................14. 2.2 POLÍTICA CRIMINAL.....................................................................................................19. 3 SELETIVIDADE DO SISTEMA PENAL........................................................................22. 3.1 O MITO DO DIREITO PENAL IGUALITÁRIO.............................................................22. 3.2 A TEORIA DO ETIQUETAMENTO...............................................................................25. 3.3 A CIFRA NEGRA E A CRIMINALIDADE DE COLARINHO BRANCO....................28. 3.4 SELETIVIDADE QUANTITATIVA E QUALITATIVA DO SISTEMA PENAL.........32. 4 CONCLUSÃO.....................................................................................................................36. REFERÊNCIAS.....................................................................................................................38. ANEXO I – ESTUDO DE CASO.........................................................................................39.

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1 INTRODUÇÃO A Constituição da República, no caput do seu art. 5o, coloca a igualdade de tratamento perante a lei como garantia fundamental do individuo, juntamente com o direito a vida e o direito a liberdade. Nesse mesmo sentido, o sistema penal é colocado como o instrumento maior de defesa da sociedade, cujo objetivo é repreender a delinqüência de forma indiscriminada. Mas será que o sistema penal age realmente de forma indiscriminada, captando todos que comentem algum tipo de crime, independentemente de qualquer fator racial ou social? Uma analise mais apurada do seu funcionamento leva a crer que não. É sob essa égide que o trabalho visa à discussão da problemática da atuação seletiva do sistema penal, por se tratar de uma característica muito forte do sistema penal moderno. A monografia foi desenvolvida de acordo com o método indutivo, mas não deixou de utilizar, quando necessário, do método dedutivo, com base na legislação vigente, correntes doutrinárias, institutos jurídicos e análise de dados estatísticos. Serão abordadas em dois capítulos as considerações referentes à lógica punitiva moderna, a seletividade do sistema penal. O primeiro capítulo trata da lógica punitiva moderna, traz conceitos, descreve o real funcionamento do sistema penal e seus segmentos. Apresenta ainda, considerações sobre os mecanismos de legitimação do direito penal, o monopólio da violência pelo Estado e política criminal. No segundo capítulo entra-se na questão da seletividade do sistema penal propriamente dita, iniciando-se com uma analise crítica da alegada igualdade de tratamento no direito penal. Em seguida, apresenta-se a teoria do etiquetamento e sua relação com as funções reais do sistema penal. Esboça alguns comentários sobre a criminalidade de colarinho branco, sobre a chamada “cifra negra”, bem como sobre alguns mecanismos de seletividade do moderno sistema penal. O anexo I cuida de uma breve análise de dados estatísticos referentes ao sistema prisional brasileiro e a confrontação desses dados com as teorias da seletividade do sistema penal, ressaltando o conflito entre as funções declaradas e a real função do sistema penal. Nas considerações finais vislumbra-se análise conjunta dos temas abordados com a apresentação dos principais elementos que caracterizam a discussão atual da seletividade do sistema penal.

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2 LÓGICA PUNITIVA MODERNA

2.1 SISTEMA PENAL

2.1.1 Conceito O “monopólio da violência” é uma das características do Estado moderno, ou seja, na condição de pacificador da sociedade, somente o Estado pode fazer uso da força da violência, do uso da ação coercitiva. Todavia, trata-se de uma violência legitima, pois é autorizada pelo direito, a fim de regulamentar a ação humana e garantir um convívio normal e democrático na sociedade (WEBER, 1991, p. 525-526). De acordo com Weber (1991, p. 526), O Estado, do mesmo modo que as associações políticas historicamente precedentes, é uma relação de dominação de homens sobre homens, apoiada no meio da coação legítima (quer dizer, considerada legitima). Para que ele subsista, as pessoas dominadas têm que se submeter à autoridade invocada pelas que dominam no momento. Assim, qualquer organização de dominação que exige uma administração contínua necessita, num primeiro momento, da obediência dos indivíduos diante daqueles que dizem ser os portadores do poder legitimo. No Estado moderno, os indivíduos não dão vazão ao sentimento de vingança pela própria força, mas sim buscam o Poder público para que este faça justiça. Sendo que, “as demais associações ou pessoas individuais somente se atribui o direito de exercer coação física na medida em que o Estado permita (WEBER, 1991, p. 526-527). Da mesma forma, mediante a obediência de seus cidadãos, o Estado requer a disposição sobre os bens que serão necessários para aplicar a coação física. E é da “crença na validade de estatutos legais e da ‘competência’ objetiva, fundamentada em regras racionalmente criadas [...]” (WEBER, 1991, p. 526-527), através do direito, da legalidade, que se legitima a dominação de uns sobre outros.

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“A função do direito de estruturar e garantir determinada ordem econômica e social, à qual estamos nos referindo, é habitualmente chamada de ‘função conservadora’ ou de ‘controle social’” (BATISTA, 1990, p. 21). O controle social, por sua vez, Não passa da predisposição de táticas, estratégias e forças para a construção da hegemonia, ou seja, para a busca da legitimação ou para assegurar o consenso; em sua falta, para a submissão forçada daqueles que não se integram à ideologia dominante”. É fácil perceber o importante papel que o direito penal desempenha no controle social (CASTRO, 1987 apud BATISTA, 1990, p. 22) Nilo Batista (1990, p. 25) então conclui que, ao “grupo de instituições que, segundo regras jurídicas pertinentes, se incumbe de realizar o direito penal, chamamos sistema penal”. Para Zaffaroni (2007, p. 65-66): Chamamos ‘sistema penal’ ao controle social punitivo institucionalizado, que na prática abarca desde que se detecta ou supõe detectar-se uma suspeita de delito até que se impõe e executa uma pena, pressupondo uma atividade normativa que cria a lei que institucionaliza o procedimento, a atuação dos funcionários e define os casos e condições para esta atuação. Esta é a idéia geral de “sistema penal” em um sentido limitado, englobando a atividade do legislador, do público, da polícia, dos juízes e funcionários e da execução penal. Ainda, dentro desses conceitos, é possível incluir-se procedimentos rotineiros de controle de setores marginalizados da população, muitos conhecidos e até mesmo tolerados, como os esquadrões da morte, torturas para obtenção de confissão, espancamentos disciplinares, penas e execuções sem processo (ZAFFARONI, 2007, p. 66). Desta forma, a partir do momento em que o Estado avoca para si a competência exclusiva para resolução dos conflitos entre particulares e, por conseguinte, o monopólio da violência, faz-se necessário a utilização de uma série de instrumentos que possibilitarão a perpetuação desse monopólio do controle social, dentre os quais pode-se citar, como um dos mais importantes, o sistema penal propriamente dito e suas instâncias de atuação.

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2.1.2 Segmentos do sistema penal

O sistema penal, visto como instrumento de dominação social, não é um ente único e indivisível, mas sim um agrupamento de vários órgãos, entidades, etc. que lhe dão sustentação e forma. Em qualquer sistema penal podemos distinguir uma série de segmentos, sendo que, em nossos sistemas penais atuais, os segmentos básicos são o policial, o judicial e o executivo. À polícia judiciária incumbe investigar determinado crime, sujeitando-se às regras impostas pelo Código de Processo Penal (CPP). Uma vez concluído, o inquérito é encaminhado a Vara Criminal competente. Tratando-se de um crime de ação penal pública, o representante do Ministério Público oferecerá denúncia, e o procedimento previsto no CPP desenrolar-se-á. Condenado o réu a pena privativa de liberdade sob regime fechado, ele será recolhido a uma penitenciária e submetido aos ditames da Lei de Execução Penal (LEP). Neste exemplo, vê-se a sucessiva intervenção, em três estágios, de três instituições: a instituição policial, a instituição judiciária e a instituição penitenciária (BATISTA, 1990, p. 24-25). Para Zaffaroni (2007, p. 66-67): Trata-se de três grupos que convergem na atividade institucionalizada do sistema e que não atuam estritamente por etapas, mas que têm um predomínio determinado em cada uma das etapas cronológicas do sistema, podendo seguir atuando ou interferindo nas restantes. Na América Latina, o que se tem visto é uma constante tendência em diminuir ou neutralizar a interferência do Poder Judiciário, a fim de possibilitar a intervenção de organismos do Poder Executivo, o que acaba por desequilibrar o princípio da tripartidação dos poderes do Estado democrático (ZAFFARONI, 2007, p. 67). Ademais, “do sistema penal não podem ser excluídos os legisladores nem o público. Os primeiros são os que dão os padrões de configuração, embora freqüentemente eles mesmos ignorem o que é que realmente criam, pois superestimam seu poder seletivo” (ZAFFARONI, 2007, p. 67). A lei penal faz parte da dimensão programadora do sistema penal, mas tem caráter meramente programático, pois só enuncia um “dever-ser”, o que não tira dela um lugar central no sistema (ANDRADE, 1997, p. 175).

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O poder legislativo é, de qualquer modo, a fonte básica da programação do sistema, enquanto as principais agências de sua operacionalização são a Polícia, a Justiça e o sistema de execução de penas e medidas de segurança, no qual a prisão ocupa o lugar central. O sistema penal existe, pois, como a articulação funcional sincronizada da Lei penal-Polícial-Justiça-Prisão e órgãos acessórios (ANDRADE, 1997, p. 175). O público, por sua vez, exerce seu papel no sistema penal, por meio da denúncia, tendo em suas mãos a faculdade de desencadear funcionamento o sistema (ZAFFARONI, 2007, p. 67). Enfim, não se pode excluir do sistema penal o público, que, na condição de denunciante, tem o poder de operacionalizar o próprio sistema e na condição de opinião pública e “senso comum” interage ativamente com ele. A opinião pública figura na “periferia” do sistema (ZAFFARONI, 1987, p. 33; HULSMAN, 1993 apud ANDRADE, 1997, p. 175-176)

2.1.3 Legitimação do sistema penal.

O sistema penal é um dos principais instrumentos de controle e domínio do Estado, todavia, são necessários discursos, “saberes e ideologias” para justificar e, mais importante, legitimar seu exercício (BUSTOS RAMIREZ, 1983, p. 31; CARRASQUILLAS, 1988, p. 16 apud ANDRADE, 1997, p. 176). Nesse sentido, Zaffaroni (2007, p. 68) coloca que: O discurso jurídico ou judicial é, por regra geral, garantidor, baseado na redistribuição ou na ressocialização (na Argentina e no Brasil costumam-se combinar ambos; o discurso policial é predominantemente moralizante; o discurso penitenciário é predominantemente terapêutico ou de “tratamento”. O discurso judicial desenvolve sua própria cultura: pragmática, legalista, regulamentadora, de mera análise da letra da lei, com clara tendência à burocratização. Assim, a fim de garantir-lhe a existência e completar seus fins, houve necessidade de que outras ciências viessem em socorro ao Direito Penal (SANTOS, J. W. S., 1973, p. 23).

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Tendo em vista que o sistema penal é uma complexa manifestação do poder social, é necessário entender “legitimidade do sistema penal” como uma característica outorgada por sua racionalidade (ZAFFARONI, 1991, p. 16). O sistema penal quer mostrar-se como “um exercício de poder planejado racionalmente”, e é através do discurso jurídico-penal, ou “ciência penal” que se pretende explicar esse planejamento. Todavia, caso a ciência penal fosse racional e agisse o sistema penal em conformidade com a programação legal, só então haveria efetiva legitimidade (ZAFFARONI, 1991, p. 16). O poder de punir e o sistema penal, atualmente, são marcados por dois discursos legitimadores, o da legalidade, já que seu exercício está enquadrado dentro da previsão legal e normativa, e o utilitarista, segundo o qual o sistema penal busca conectar-se com sua finalidade declarada de defesa da sociedade. Sobre o princípio da legalidade, Batista (ROXIN, 1981, p. 98; ZAFFARONI, 1986, p. 49 apud 1990, p. 67) expõe que não compreende apenas o conceito de “previsibilidade da intervenção do poder punitivo do estado”, mas também a acepção de “sentimento de segurança jurídica”. Nesse sentido, o Estado moderno se coloca como Estado de Direito e seu poder de punir é apresentado como direito de punir (ANDRADE, 1997, p. 178). E essa “produção ideológica legitimadora do poder penal, baseada no princípio da legalidade, acompanha desde o começo a história do Direito Penal” (BARATTA, 1986, p. 79-80 apud ANDRADE, 1997, p. 178). Mas, uma vez que a racionalidade do Direito não pode se fundamentar unicamente sobre seus caracteres formais, mas requer sobretudo a instrumentalidade do conteúdo com respeito a fins socialmente úteis, a legalidade, representando um limite negativo e formal do poder de punir, não esgota seu discurso legitimador (BARATTA, 1986, p. 82 apud ANDRADE, 1997, p. 179) E é por essa razão, que além de atribuir ao sistema uma função de “proteção de bens jurídicos”, é necessário atribuir também a pena funções socialmente úteis, tais como prevenção e ressocialização. (ANDRADE, 1997, p. 179). A legitimidade do sistema penal requer, desta forma, uma congruência da sua dimensão operacional em relação à sua dimensão programadora em nome da qual pretende justificá-lo; ou seja, requer não apenas sua operacionalização no marco da programação normativa (exercício racionalizado de poder), mas também o

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cumprimento dos fins socialmente úteis atribuídos ao Direito Penal e à pena (programação teleológica) (ANDRADE, 1997, p. 181). De qualquer sorte, o que se vê é que existe um descompasso muito grande entre o que o sistema penal almeja e o que ele faz. Na criminologia de nossos dias, tornou-se comum a descrição da operacionalidade real dos sistemas penais em termos que nada têm a ver com a forma pela qual os discursos jurídico-penais supõem que eles atuem. Em outras palavras, a programação legal baseia-se em uma realidade inexistente. Da mesma forma, os órgão incumbidos de operacionalizar essa programação atuam de forma completamente diferente. (ZAFFARONI, 1991, p. 12). E Zaffaroni continua (1991, p. 13): “é bastante claro que, enquanto o discurso jurídico-penal racionaliza cada vez menos – por esgotamento de seu arsenal de ficções gastas -, os órgãos do sistema penal exercem seu poder para controlar um marco social cujo signo é a morte em massa”. De uma maneira geral, em que pese o sistema penal ser um instrumento de dominação social, o discurso dominante é o de que as instituições que o integram têm a função de guardiãs da sociedade, protegendo-a dos mal feitores. Isso se faz necessário para que o sistema penal possa funcionar a toda potência. Todavia, para que isso seja possível sem empecilhos, para que a sociedade considere legitima suas atividades, é de vital importância reforçar essa idéia de defensor da sociedade, instituição imprescindível a pacifica convivência social. 2.1.4 A função do sistema penal no estado moderno

As funções declaradas e justificadoras da atuação do sistema penal, em regra, são a defesa social, a intimidação (prevenção geral negativa) e a ressocialização (prevenção especial positiva). Por intimidação, pode-se entender que, ao atuar implacavelmente e indistintamente em defesa da sociedade, os delinqüentes sentir-se-iam amedrontadas de praticar qualquer ilícito, pois, por certo, seriam capturadas na fina malha da justiça.

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Quanto à ressocialização, segundo o discurso oficial, a pena, notadamente a de prisão, aplicada ao delinqüente não é um castigo, mas sim um processo pelo qual o Estado irá ressocializá-lo, fazendo-o compreender de que o crime não compensa. Tais discursos são muito alentadores, levando muitos a crer no discurso oficial de que o sistema penal é o garantidor de uma ordem social justa. Infelizmente seu desempenho real destoa dessa aparência. Para Foucault (1977, p. 234), Não há uma justiça penal destinada a punir todas as práticas ilegais e que, para isso, utilize a polícia como auxiliar, e a prisão como instrumento punitivo, podendo deixar no rastro de sua ação o resíduo inassimilável da “delinqüência”. Deve-se ver nessa justiça um instrumento para o controle diferencial das desigualdades [...] Os juízes são os empregados, que quase não se rebelam, desse mecanismo. Ajudam na medida de suas possibilidades a constituição da delinqüência, ou seja, a diferenciação das ilegalidades, o controle, a colonização e a utilização de algumas delas pela ilegalidade da classe dominante. Ao sistema penal não cabe eliminar as ilegalidades, mas sim geri-las de forma desigual, aplicando o poder punitivo de forma seletiva a certos indivíduos, que se encaixam em determinado estereótipo (FOUCAULT, 1977, p. 75). O sistema penal é apresentado como igualitário, atingindo igualmente as pessoas em função de suas condutas, quando na verdade seu funcionamento é seletivo, atingindo apenas determinadas pessoas, integrantes de determinados grupos sociais, a pretexto de suas condutas (BATISTA, 1990, p. 26). Assim, ao contrário do que se possa pensar, a lógica que desde a fundação do sistema penal orienta o seu funcionamento não é a do tratamento igualitário, mas sim um tratamento desigual, diferenciando, selecionado ou excluindo determinadas pessoas, de acordo com suas características sociais. O sistema também é colocado como justo, já que buscaria prevenir o delito, restringindo sua atuação aos limites da necessidade. Todavia, o que se vê, é que sua atuação é repressiva, seja pela frustração de sua atividade preventiva, seja pela incapacidade de regular a intensidade das respostas penais (BATISTA, 1990, p. 26). Os tradicionais discursos jurídico, criminológico, policial, penitenciário, judicial e político proclamam o fim e a função preventiva do sistema penal. Isto pode ser entendido em dois sentidos: o sistema penal teria uma função preventiva tanto “especial” como “geral”, isto é, por um lado daria lugar à “ressocialização” do apenado

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e por outro advertiria ao resto sobre a inconveniência de imitar o delinqüente. No que diz respeito ao primeiro, nos últimos anos se tem posto de manifesto que os sistemas penais, em lugar de “prevenir” futuras condutas delitivas, se convertem em condicionantes de ditas condutas, ou seja, de verdadeiras “carreiras criminais” (ZAFFARONI, 2007, p. 68-69). Com relação à apregoada “ressocialização”, principalmente mediante tratamento nas instituições em que o sujeito passa prolongado período de tempo, estudos tem revelado os efeitos dessas instituições sobre a personalidade do apenado, notadamente deterioração psíquica, muitas vezes irreversível, culminando na franca crise da ideologia do tratamento e na idéia geral de fracasso da prisão (ZAFFARONI, 2007, p. 70). Todavia, mesmo que todo o staff da prisão fosse de primeira qualidade, ainda assim não serviria melhor para a finalidade de ressocializar o sentenciado. A questão, como já dissemos, não está colocada na falta de pessoal habilitado ou na insuficiência de recursos materiais. O que acontece é que é impossível treinar um homem preso para viver em liberdade. E, se essa impossibilidade existe mesmo quando se trate de penitenciárias providas de todos os recursos humanos e materiais, o que dizer das cadeias e presídios onde as celas são coletivas e a promiscuidade grassa livremente, onde não há pessoal competente e mínguam os recursos materiais? (PIMENTEL, 1983, p. 157) Para Pimentel (1983, p. 157), essa lógica da prisão, de almejar preparar um homem preso para viver em liberdade, é algo comparável a pretender preparar um corredor para uma corrida, fazendo-o ficar deitado em uma cama durante o mês que precede a corrida. Quando acontece, eventualmente, de um preso apresentar-se como regenerado, a avaliação desse fato conduz a desoladora conclusão. Augusto Thompson cita em seu livro “A questão penitenciária” esta passagem: “Dostoiévski, através da dolorosa experiência como prisioneiro, extraiu a conclusão de que o convicto regenerado é, apenas, uma múmia ressequida e meio louca. E Papillon atribuiu seu sucesso de adaptação à vida livre exatamente à circunstância de ter sido, sempre, o inverso de um bom preso (PIMENTEL, 1983, p. 160). “Ainda que divina, a punição talvez não eduque o homem” (SANTOS, J. W. S., 1973, p. 23). Contudo, ao aparentemente fracassar em seu objetivo declarado de combater a criminalidade, a prisão não erra seu objetivo ao estabelecer uma ilegalidade visível e socialmente útil, estigmatizando determinado grupo de pessoas e deixando a sombra as que se quer ou se deve tolerar (FOUCAULT, 1977, p. 230).

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Nesse mesmo sentido, apresenta-se o sistema penal como comprometido com a proteção da dignidade humana, mas a pena é estigmatizante e promove uma degradação da figura social de sua clientela (BATISTA, 1990, p. 26). Tudo isso demonstra que, ao menos em boa medida, o sistema penal seleciona pessoas ou ações, como também criminaliza a certas pessoas segundo sua classe e posição social. […] Há uma clara demonstração de que não somos todos igualmente “vulneráveis” ao sistema penal, que costuma conduzir-se por “estereótipos” que recolhem os caracteres dos setores marginalizados e humildes, que criminalização gera fenômeno de rejeição do etiquetado como também daquele que se solidariza ou contata com ele, de forma que a segregação se mantém na sociedade livre. A posterior perseguição por parte das autoridades como permanentes suspeitos incrementa a estigmatização social do criminalizado (ZAFFARONI, 2007, p. 69). Seletividade, repressividade e estigmatização são as características mais marcantes de sistemas penais como o nosso. Isso ocorre, pois, nosso sistema penal é reflexo de nosso sistema social, sendo que a estigmatização e a marginalização integram sua função política de perpetuação do atual modelo de sociedade. Não se pode apegar-se somente à letra fria da lei, sem considerar a contradição que existe entre as linhas programáticas legais e o real funcionamento das instituições que as executam (BATISTA, 1990, p.26). “Em definitivo, em um nível mais alto de abstração o sistema punitivo se apresenta como um subsistema funcional da produção material e ideológica (legitimação) do sistema social global; ou seja, das relações de poder e propriedade existentes, mais do que como instrumento de tutela de interesses e direitos particulares dos indivíduos. (BARATTA, 1987, p. 625 apud ANDRADE, 2003, p. 56) “Trata-se, em última instância, da recondução do sistema penal a um sistema seletivo classista e de violência institucional como expressão e reprodução da violência estrutural, isto é, da injustiça social”. (ANDRADE, 2003, p. 56) Os objetivos ideológicos do aparelho penal se resumem em duas metas: a repressão da criminalidade e o controle (e redução) do crime. Os objetivos reais do sistema carcerário aparecem em uma dupla reprodução: reprodução da criminalidade (recortando formas de criminalidade das classes dominadas e excluindo a criminalidade das classes dominantes) e reprodução das relações sociais (a repressão da criminalidade das classes dominadas funciona como tática de submissão ao poder das classes dominantes) (SANTOS, J. C., 1981, p. 57).

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Nesse mesmo sentido, J. C. Santos (1981, p. 42), entende que isso ocorre, pois a atuação do sistema penal esta atrelada ao sistema de produção e, por conseguinte, ao mercado de trabalho: Este conceito se desdobra em duas hipóteses: se a força de trabalho é insuficiente para as necessidades do mercado, a punição assume a forma de trabalho forçado, com finalidades produtivas e preservativas da mão-de-obra; se a força de trabalho é excedente das necessidades do mercado, a punição assume a forma de penas corporais, com destruição ou extermínio da mão-de-obra: a abundância torna desnecessária a preservação (RUSCHE, 1977, p. 4 apud SANTOS, J. C., 1981, p. 42). Essa teoria exemplifica a relação existente entre o funcionamento e evolução do sistema penal e as relações de classes, pois, segundo ela, São as relações do mercado de trabalho, no período capitalista, que explicam a generalização da prisão como método de controle e disciplina das relações de produção (fábrica) e de distribuição (mercado), com o objetivo de formar um novo tipo humano: a força de trabalho necessária e adequada ao aparelho produtivo (MELOSSI, 1973, p. 75 apud SANTOS, J. C., 1981, p. 43). É a aquilo que Foucault (1977, p. 195) chamou de a produção de “indivíduos dóceis e úteis, através de um trabalho preciso sobre seu corpo” para objetivos econômicos específicos. O que se objetiva com o encarceramento de determinado sujeito não é a sua “ressocialização”, mas sim sua reconstituição como “sujeito obediente” às ordens, às regras, à autoridade, bem como sua adequação aos processos produtivos, “com o aprendizado das regras da propriedade, a disciplina no trabalho produtivo, a estabilidade no emprego, na família, etc.” (SANTOS, J. C., 1981, p. 53, 58). O sistema penal representa uma estratégia de poder (definida nas instituições jurídico-políticas do Estado), explicável como política das classes dominantes, para produção permanente de uma “ideologia de submissão” em todos os vigiados, corrigidos e utilizados na produção material (SANTO, J. C., 1981, p . 44). Ou seja, ao invés da ressocialização do prisioneiro, o que o sistema penal objetiva é a sua “domesticação” e reintegração à lógica do trabalho capitalista.

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Para Andrade (1997, p. 196), trata-se de aumentar a eficácia produtiva do homem e diminuir sua força política, garantindo e reproduzindo as relações de poder dentro da sociedade. Assim, a apregoada busca pela “defesa social” pelo sistema penal, deve ser entendida como “defesa das condições morais materiais e ideológicas da sociedade capitalista” (SANTOS, J. C., 1981, p. 52, 64). O sistema penal é, então, o instrumento do qual as classes dominantes se valem para perpetuarem sua opressão sobre as classes dominadas. Infelizmente, não obstante o sempre crescente aumento da delinqüência, a indução da reincidência, com a transformação do infrator ocasional em delinqüente habitual, características mais marcantes do nosso aparelho penal, essa lógica fracassada de funcionamento vem garantido, há anos, a manutenção do sistema (SANTOS, J. C., 1981, p. 56). 2.2 POLÍTICA CRIMINAL. Para Batista (1990, p. 34): Do incessante processo de mudança social, dos resultados que apresentem novas ou antigas propostas do direito penal, das revelações empíricas propiciadas pelo desempenho das instituições que integram o sistema penal, dos avanços e descobertas da criminologia, surgem princípios e recomendações para a reforma ou transformação da legislação criminal e dos órgãos encarregados de sua aplicação. A esse conjunto de princípios e recomendações denominase política criminal. Nesse mesmo sentido, pode-se conceituar, ainda, política criminal como: Conjunto sistemático dos princípios fundados na investigação cientifica das causas do crime e dos efeitos das penas, segundo os quais o Estado deve levar a cabo a luta contra o crime por meio da pena e das instituições com esta relacionadas (LISZT, 1905, p. 292 apud DIAS e ANDRADE, 1992, p. 93). Política criminal, então, é algo como a ciência de escolher os bens ou direitos que devem ser tutelados, assim como os caminhos para efetivar essa tutela. Além de guiar as decisões do poder político, também proporciona argumentos para criticar os valores e meios já escolhidos.

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Assim como a legislação penal é parte da legislação em geral, isto é, do ordenamento jurídico, deve ser interpretada sempre dentro deste contexto, a política criminal é também um capítulo da política geral, que deve ser sempre entendido dentro deste marco geral. Daí surge a relação íntima existente ente as política criminais e as ideologias políticas (ZAFFARONI, 2007, p. 120). A política criminal proporciona o componente teleológico interpretativo ao saber penal. Da mesma forma, o saber penal acaba se valendo de uma ideologia política para interpretar seu objeto de conhecimento. Interpretações essas que se traduzem em soluções estabelecidas por um poder de Estado, ou atos de decisão política, para casos concretos (ZAFFARONI, 2007, p. 120). Desta forma, partindo-se dos conceitos já expostos e da idéia de que o sistema penal é um mero instrumento de dominação das classes dominantes, tem-se que a política criminal segue o mesmo caminho, dando continuidade ao mesmo projeto, ao dar ênfase a perseguição dos crimes praticados por aqueles advindos das camadas oprimidas da sociedade (crimes contra o patrimônio), e impondo uma quase que total impunidade aos crimes tipicamente praticados pelos opressores (crimes contra o sistema financeiro, por exemplo). Essa distorção ideológica pode ser exemplificada pela demonstração das alternativas do trabalhador na sociedade capitalista: “Conformar-se à brutalização, transformando-se em um homem sem vontade, destruído pela rotina, a monotonia, a exaustão física e mental dos processos produtivos” ou furtar a propriedade do rico para satisfazer necessidades básicas, com os riscos da criminalização (YOUNG, 1980, p. 94-96 apud SANTOS, J. C., 1981, p. 12). Os crimes patrimoniais, inclusive, segundo estatísticas, seriam os mais comuns em uma sociedade capitalista. Estes crimes, na realidade, constituem, como já dito, uma tentativa normal e consciente para suprir carências econômicas dos deserdados sociais, ao contrário dos crimes de abuso econômico e políticos, que visam à mera acumulação de capital e/ou perpetuação no poder dos poderosos, que refletem muito mais negativamente na sociedade do que os crimes contra o patrimônio praticados pelos “não proprietários”. Todavia, o que se observa, é que estes é que são estigmatizados como os grandes vilões da paz social (SANTOS, J. C., 1981, p. 9). “O criminoso estereotipado é o ‘bode expiatório’ da sociedade, como objeto da agressão das classes dominantes, que substitui e desloca a sua revolta contra as classes dominantes” (CHAPMAN, 1968, p. 197 apud SANTOS, J.C., 1981, p. 15).

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A política penal oficial é delimitada pelos processos de criminalização e de estigmatização penal (definição de crimes, aplicação da lei penal e execução das penas e medidas de segurança), cuja estratégia (limitada as relações de distribuição) objetiva o controle das classes dominadas e a disciplina da força de trabalho, mediante uma política de criminalização, revigorada e ampliada por formas alternativas de controle social (SANTOS, J. C., 1981, p. 82). De qualquer sorte, mesmo considerando-se as recentes alternativas criadas à prisão, como a transação penal, o sursis, o livramento condicional, o que se vê é que reduziuse a prisão, mas ampliou-se o controle da população criminalizada (SANTOS, J. C., 1981, 78). [...] a ampliação da rede de controles como sursis, o livramento condicional, a justiça juvenil, os reformatórios, as prisões abertas, etc., cujos manifestos benefícios pessoais abrigam um aspecto contraditório, que significa controle mais geral e dominação mais intensa (PLATT, 1980, p. 116 apud SANTO, J. C., 1981, p. 11) E mesmo nesses casos de aplicação de penas alternativas, quando “elementos relativos à situação familiar e profissional do acusado jogam um papel decisivo”, os acusados advindos de camadas superiores da sociedade são, por óbvio, favorecidos. O que não ocorre com os marginalizados, pois, com relação a esses, Prevalece a tendência a considerar a pena detentiva como mais adequada, no seu caso, porque é menos comprometedora para o seu status social já baixo, e porque entra na imagem normal do que freqüentemente acontece a indivíduos pertencentes a tais grupos sociais [...] Assim, as sanções que mais incidem sobre o status social são usadas, com preferência, contra aqueles cujo status social é mais baixo (BARATTA, 1999, p. 178). Enfim, na perspectiva da criminologia crítica, a ação do Estado, não só no âmbito penal, reflete os interesses dos grupos sociais que detêm o poder econômico. Interesses esses, que pelas mãos do Estado são institucionalizados e instrumentalizados na hora de decidir quais são os bens e direitos que devem ser tutelados pelo direito penal e, por conseguinte, quem são os sujeitos que deverão ser perseguidos criminalmente (BARATTA, 1999, p. 135).

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3 SELETIVIDADE DO SISTEMA PENAL

3.1 O MITO DO DIREITO PENAL IGUALITÁRIO

No caput do art. 5º da Constituição Federal, aquele dos direitos e garantias fundamentais, encontram-se os seguinte dizeres: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza [...]”. Todavia, como já explanado no capitulo anterior deste trabalho, o funcionamento do nosso sistema penal atua em sentido contrário a essa garantia constitucional de isonomia de tratamento perante a lei. E a razão desse tratamento desigual é perpetuar a opressão de uma classe social mais forte sobre outra mais fraca. O objetivo é manter o domínio daqueles que possuem o poder econômico e, subsidiariamente, estigmatizar, etiquetar aqueles que furtam a propriedade dos opressores para subsistir, ao invés de se conformar com a lógica do modo de produção capitalista. Mas para que essa lógica punitiva funcione como esperado e sem criar alarde, é necessário criar discursos legitimadores, como o da “defesa social”, da “ressocialização”, entre tantos outros sustentados pelo pela dogmática jurídica. Poder-se-ia dizer que não, que o sistema penal é imparcial e isento, atingindo a tudo e a todos com a mesma intensidade, conforme garantia constitucionalmente solidificada. Uma analise do nosso sistema punitivo e os resultados de pesquisas empíricas sobre os mecanismos de criminalização podem ser condensados em três proposições que constituem a negação radical do “mito do direito penal como igualitário” que está na base da ideologia da defesa social:
a) o direito penal não defende a todos e somente os bens essenciais nos quais todos os cidadãos estão igualmente interessados e quando castiga as ofensas aos bens essenciais, o faz com intensidade desigual e de modo parcial (fragmentário); b) a lei penal não é igual para todos. O status criminal é desigualmente distribuído entre os indivíduos; c) o grau efetivo de tutela e da distribuição do status de criminal é independente da danosidade social das ações e da gravidade das infrações à lei, pois estas não constituem as principais variáveis da reação criminalizadora e de sua intensidade (BARATTA apud ANDRADE, 1997, p. 282)

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Será que algum grande empresário culpado pela prática de abuso do poder financeiro ou político, os chamados “crimes de colarinho branco”, sempre com reflexos nefastos na vida de muitas pessoas, será punido com a mesma intensidade que alguém advindo das classes menos favorecidas pego furtando um pote de margarina? A comparação pode parecer meio exagerada, mas a realidade é que, muitas vezes, na hora da criminalização de determinado individuo, parecem existir alguns fatores que são levados mais em consideração do que a conduta praticada. Sobre essa questão, Zaffaroni (2007, p. 107) ensina que Ainda que não haja um critério unitário acerca do que seja o direito penal do autor, podemos dizer que, ao menos em sua manifestação extrema, é uma corrupção do direito penal, em que não se proíbe o ato em si, mas o ato como manifestação de uma “forma de ser” do autor, esta sim considerada verdadeiramente delitiva. O ato teria valor de sintoma de uma personalidade; o proibido e reprovável ou perigoso, seria a personalidade e não o ato. Dentro desta concepção não se condena tanto o furto, como o “ser ladrão”, não se condena tanto o homicídio como o ser homicida, o estupro, como ser delinqüente sexual etc. Ou seja, no dito “direito penal do autor”, o réu é punido mais pelo que ele é, do que pelo que ele fez. Ou melhor, para fins penais, na hora de desencadear o processo punitivo e aplicar a pena, mais importante do que o ato cometido pelo acusado, é quem ele (o acusado) é. O conceito de “direito penal do autor” corrobora o ditado popular de que, no Brasil, os três pês, pretos, pobres e p., são mais visados pelo sistema penal do que outras pessoas. Nesse mesmo sentido, Andrade (1997, p. 270) coloca que, A clientela do sistema penal é constituída de pobres, não porque tenham uma maior tendência de para delinqüir, mas precisamente porque têm maiores chances de serem criminalizados e etiquetados como delinqüentes. As possibilidades (chances) de resultar etiquetado, com as graves conseqüências que isto implica, se encontram desigualmente distribuídas. Para Baratta (1999, p.131), “a criminalidade é um status social atribuído a uma pessoa por quem tem poder de definição”. Atualmente, em nossa estrutura social, quem detêm o poder econômico, detêm o poder de, entre tantas outras coisas, dizer o que é, e o que não é crime.

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E é por isso que os “três pês” são muito mais perseguidos pelo aparelho penal do que aqueles perpetradores de “crimes de colarinho branco”, pois são justamente esses segundos que “escolhem” o que deve ser perseguido pelo direito penal, já que são os detentores do poderio econômico. O resultado disso é a intensidade com que se penaliza o furto, crime tipicamente praticado por “não proprietários” e que afronta a lógica do capitalismo, e a quase que total impunidade existente para com os crimes contra o sistema financeiro, tipicamente praticados por grandes empresários, mesmo sendo muito mais danosos para a sociedade como um todo. Não é de se estranhar que o sistema penal é tão zeloso em sancionar o protesto político ou o consumo de estupefacientes e tão tolerante com a criminalidade de colarinho branco (DIAS; ANDRADE, 1984, p. 47) Ademais, a mídia, em sintonia com o Capital, cumpre seu papel imunizando e ignorando os crimes praticados pelas classes altas, e identificando a criminalidade como a violência individual das classes baixas, agravando a estigmatização das classes despossuídas no senso comum. Com efeito, a crença cega na igualdade do direito penal, contribui para mistificar os mecanismos de seleção e estigmatização dos “clientes” do sistema penal. “[...] uma aparência de racionalidade aos mesmos processos de estigmatização que no Antigo Regime tiveram lugar sobre a base de crenças ou adesões de fé. A verdade da ciência substitui a verdade da fé em sua justificação da discriminação e desigualdade perante a lei penal. Não é necessário acudir aos planteamentos da mais-valia para concluir que a questão criminal não é congênita a um determinado grupo social (RAMIREZ, 1987, p. 18 apud ANDRADE, 1997, p. 271). Para Andrade (1997, p. 271), os vários discursos que cuidam de legitimar a idéia de direito penal igualitário, são a [...] matriz fundamental na produção (e reprodução) de uma imagem estereotipada e preconceituosa da criminalidade e do criminoso vinculada aos baixos estratos sociais que condiciona, por sua vez, a seletividade do sistema penal, num círculo de representações extraordinariamente fechado que goza de uma secular vigência no senso comum geral e nos operadores do controle penal em particular. A essa estigmatização dos indivíduos advindos dos estratos mais baixos da sociedade, convencionou-se chamar de labeling aproach ou teoria do etiquetamento.

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3.2 A TEORIA DO ETIQUETAMENTO

Essa teoria parte da premissa que determinados indivíduos são “etiquetados” como criminosos, como, por exemplo, aqueles advindos dos estratos mais baixos da sociedade, como se somente estes é que fossem capazes de práticas delituosas. Para a criminologia positivista, amplamente adotada pelo nosso sistema penal, A criminalidade é o atributo de uma minoria de indivíduos socialmente perigosos que, seja devida a anomalias físicas (biopsicológicas) ou fatores ambientais e sociais, possuem uma maior tendência de delinqüir. Sendo um sintoma revelador da personalidade mais ou menos perigosa (anti-social) de seu autor, para a qual se deve dirigir uma adequada defesa social, a criminalidade constitui uma propriedade da pessoa que a distingue por completo dos indivíduos normais (FERRI, 1931 apud ANDRADE, 1997, p. 263-264). É a projeção do mal e da culpa na figura do “bode expiatório”, substituído as funções preventivas e éticas nas quais se baseia a ideologia penal tradicional (ANDRADE, 1997, p. 201). No labeling aproach, parte-se da ideia de que o crime não é uma qualidade ontológica da ação criminosa, mas antes o resultado de uma reação social e que o delinqüente apenas se distingue do homem normal devido à estigmatização que sofre. Daí que o tema central desta perspectiva criminológica seja precisamente o estudo do processo de interação, no termo do qual um indivíduo é estigmatizado como delinqüente (DIAS; ANDRADE, 1984, p. 50). Nessa mesma linha, Andrade (1997, p. 205), coloca que o labeling,
Parte dos conceitos de “conduta desviada” e “reação social”, como termos reciprocamente interdependentes, para formular sua tese central: a de que o desvio – e a criminalidade – não é uma qualidade intrínseca da conduta ou uma entidade ontológica preconstituída à reação (ou controle) social, mas uma qualidade (etiqueta) atribuída a determinados sujeitos através de complexos processos de interação social, isto é, de processos formais e informais de definição ou seleção.

Ao contrário do que possa se pensar, esse processo de estigmatização social tem lugar no seio do controle social e não a sua margem, tanto é que este modo de considerar

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a criminalidade esta profundamente enraizada no senso comum e materializa-se no estereotipo de delinqüente. Por via de conseqüência, as regiões em que as pessoas etiquetadas como criminosos se concentram, tornam-se “áreas de concentração de crimes e criminosos” e provocam uma presença diferencial da policia. Tanto é que contumazmente se vê incursões da polícia em regiões marginalizadas, como morros e favelas, enquanto que nunca se vê esse tipo de movimentação em áreas tidas como “nobres”. Será que a criminalidade está restrita aos morros e favelas? Ou será que não se consomem drogas nem se praticam ilegalidades em edifícios de luxo?’ O sistema penal concentra sua atividade em áreas marginalizadas e contra indivíduos advindos dessas áreas, pois esses possuem a “etiqueta” de marginais. Até porque, como já dito, são aqueles que moram em coberturas de luxo que decidem o que é, e o que não é crime, a fim de incrementar seus interesses econômicos e políticos. Nesse sentido, Pimentel (1983, p. 11) coloca que “a escola positivista trouxe uma profunda modificação, introduzindo o conceito de periculosidade social, motivando radical alteração nos critérios punitivos, pois deslocou o enfoque do ente jurídico para a pessoa do criminoso”. Por isso mesmo, ao lado daquelas figuras que no consenso social merecem ser consideradas crimes, e geralmente o são, existem outras que deveriam ser tipificadas e, no entanto, escapam através das malhas grossas da tolerância; e, ao revés, comportamentos menos ofensivos, por serem comumente atribuídos aos indivíduos dos estratos sociais mais baixos, são aprisionados na rede fina da pressão e acabam convertidos em tipos penais (PIMENTEL, 1983, p. 15). A corrente da criminologia crítica tenta elucidar essa distorção deslocando o foco de analise do fenômeno criminal, do sujeito criminalizado para o sistema penal e os processos de criminalização que dele fazem parte (BARATTA, 1999, p. 49). O principio da igualdade cai por terra quando confrontado com a teoria do etiquetamento, pela qual se demonstra que o desvio e a criminalidade não são entidades inerentes e preconstituídas, identificáveis pela ação do sistema penal, mas sim “uma qualidade atribuída a determinados sujeitos por meio de mecanismos oficiais e não oficiais de definição e seleção” (ANDRADE, 1997, p. 201). Segundo a definição sociológica, a criminalidade, como em geral do desvio, é um status social que caracteriza ao individuo somente quando lhe é adjudicada com êxito uma etiqueta de desviante ou

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criminoso pelas instâncias que detêm o poder de definição (ANDRADE, 1997, p. 202). Nessa perspectiva, a teoria do etiquetamento é resultado de um sistema penal de atuação desigual e seletiva, onde a pessoa do etiquetado é mais importante do que seu comportamento.
[...] os grupos sociais criam o desvio ao fazer as regras cuja infração constitui o desvio e aplicar ditas regras a certas pessoas em particular e qualificá-las de marginais (estranhos). Desde este ponto de vista, o desvio não é uma qualidade do ato cometido pela pessoa, senão uma conseqüência da aplicação que os outros fazem das regras e sanções para um “ofensor”. O desviante é uma pessoa a quem se pode aplicar com êxito dita qualificação (etiqueta); a conduta desviante é a conduta assim chamada pela gente (BECKER, 1971, p. 19 apud ANDRADE, 1997, p. 206).

Como já dito, o que o sistema penal busca não é a alegada defesa social, mas sim a defesa dos interesses dos detentores do poder, funcionando como mero legitimador das relações de poder dentro da sociedade. Ademais, essa atuação seletiva do aparato penal, enquanto agência de controle social, voltada a indivíduos etiquetados como criminosos, é um dos instrumentos de perpetuação dessa dominação de uma classe social sobre outra.
A legitimação tradicional do sistema penal como sistema necessário à tutela das condições essenciais de vida de toda a sociedade civil, além da proteção de bens jurídicos e de valores igualmente relevantes para todos os consórcios, é fortemente problematizada no momento em que se passa – como é lógico em uma perspectiva baseada na reação social – da pesquisa sobre a aplicação seletiva das leis penais à pesquisa sobre a formação mesma das leis penais e das instituições penitenciárias (BARATTA, 1991a, p. 115 apud ANDRADE, 1997, p. 210).

“Por isso, mais apropriado que falar em criminalidade (e do criminoso) é falar da criminalização (e do criminalizado) e esta é uma das várias maneiras de construir a realidade social” (ANDRADE, 1997, p. 205). Ainda com relação à estigmatização das classes desfavorecidas, Pimentel (1983, p. 17) expõe que, com base em dados estatísticos do sistema penitenciário de São Paulo, nota-se que 95% do encarcerados são advindos das camadas inferiores do estrato social. Todavia, ao mesmo tempo, segundo levantamentos também feitos na cidade de São Paulo, verifica-se que apenas 5% dos “favelados” delinqüem.

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O que o levou a concluir que, “a pobreza não é causa de crime, pois, se o fosse, todos os pobres cometeriam crimes, o que, felizmente não acontece. Mas, certamente, a pobreza é fato de crime, porque os 95% de encarcerados provieram da classe mais humilde”. Deste ponto de vista, a criminalidade não é uma exceção restrita aos estratos sociais mais baixos, mas sim uma regra disseminada em todos os níveis da pirâmide social. O problema é que aqueles que pertencem às classes oprimidas têm muito mais chances de serem captados e etiquetados como criminosos pelas diversas instâncias do sistema penal.

3.3 A CIFRA NEGRA E A CRIMINALIDADE DE COLARINHO BRANCO

Uma vez suscitada essa questão da teoria do etiquetamento e verificado que a criminalidade não é a exceção, mas sim a regra em nossa sociedade, não se restringindo as classes sociais marginalizadas, faz-se necessário analisar dois outros “problemas” com relação à criminalidade: o crime de colarinho branco e a cifra negra. De acordo com pesquisas realizadas pelo sociólogo norte-americano Edwin Sutherland, existe uma modalidade de criminalidade, praticada por indivíduos de alto prestigio social, que raramente aparece nas estatísticas criminais. São o que Sutherland chamou de White Collar Crimes, ou crimes de colarinho branco. Como dito, os crimes de colarinho branco são infrações praticadas por indivíduos que gozam de prestigio social no âmbito econômico. Alguns exemplos de crimes de abuso econômico são o dumping, truste¸ monopólio, etc. São, de uma maneira geral, ações pela quais esses indivíduos, se valendo do poder econômico/político de que gozam, obtêm vantagens, normalmente grande acumulação de capital. Com apoio de dados estatísticos, Sutherland demonstrou o quão freqüentes eram as infrações a normas gerais neste setor (BARATTA, 1999, p. 101). Para Baratta (1999, p. 101), a criminalidade de colarinho branco
[...] correspondem a um fenômeno criminoso característico não só dos Estado Unidos da América, mas de todas as sociedades de capitalismo avançado. Sobre o vastíssimo alcance deste fenômeno influíram, de maneira particular, as conivências entre classe política e operadores econômicos privados, conivências que tiveram eficácia não só sobre causas do fenômeno, mas também sobre a medida muito escassa, em relação a outras formas de criminalidade, em que a criminalidade de colarinho branco, mesmo sendo

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abstratamente prevista pela lei penal, é de fato perseguida.

Em grande medida, essa impunidade ocorre, pois a criminalidade de colarinho branco esta funcionalmente atrelada a nossa estrutura social e acaba escapando da vigilância da lei por fatores sociais, tais quais:
O prestigio dos autores das infrações, o escasso efeito estigmatizante das sanções aplicadas, a ausência de um estereótipo que oriente as agências oficiais na perseguição das infrações, como existe, ao contrário, para as infrações típicas dos estratos mais desfavorecidos (BARATTA, 1999, p. 102).

O fato é que esses crimes são praticados por quem “escolhe” o que deve, ou não, ser perseguido pelo direito penal, em razão da constante interpenetração do poder político pelo poder econômico. Os poucos processo que são instaurados para apurar esse tipo de crime, “se não terminam em absolvição, dão lugar a condenações muitas vezes puramente simbólicas, sem o estigma e os custos da prisão (DIAS; ANDRADE, 1984, p. 536). Os crimes de colarinho branco são considerados “crimes sem vítimas” ou “crimes de vítimas abstratas”, pois, normalmente, não atingem uma pessoa especifica, mas sim a sociedade como um todo. E por isso mesmo, seus reflexos são de extrema gravidade e muito piores do
que qualquer furto ou o simples usos de substâncias entorpecentes. Por exemplo, no caso dos crimes em que o próprio Estado é lesado e são subtraídos valores que reverteriam em investimentos na saúde, segurança e educação, para não falar em outros serviços públicos essenciais, acarretando a perda de vidas humanas pela deficiência desses serviços.

Ou ainda, o resultado de uma crise econômica, como a que estamos vivenciando atualmente, com reflexos terríveis em diversos países, tudo em razão da irresponsável especulação financeira nos Estados Unidos.
Historicamente, todas as sociedades, no seu tempo e ao seu modo, engendraram fatores criminógenos. Os hábitos e condutas privativas dos nobres, pelo contágio hierárquico, passaram para a burguesia, tornando-se comuns os saques, as violações, os seqüestros, a embriaguez, comportamentos que não acarretam punições para os nobres, mas que se tornam criminosos quando cometidos pelos homens do povo (PIMENTEL, 1983, p. 19).

Ainda hoje em dia, esses tipos de comportamento desviantes, praticados por

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pessoas altamente situadas nas esferas governamentais e políticas, apesar de violarem o sentimento de justiça da comunidade, normalmente não são considerados delituosos. Não obstante, mesmo quando são consideradas como criminosas, as condutas delituosas desses indivíduos raramente figuram nas estatísticas oficias. A este fenômeno, pelo qual certos delitos não aparecem nas estatísticas oficias de criminalidade, em especial aqueles praticados pelos detentores de poder econômico, dando a impressão de que a criminalidade se restringe a determinada classe social, deu-se o nome de “cifra negra” ou criminalidade oculta.
As pesquisas sobre esta forma de criminalidade [criminalidade de colarinho branco] lançaram luz sobre o valor das estatísticas criminais e de sua interpretação, para fins de analise da distribuição da criminalidade nos vários estratos sociais, e sobre as teorias da criminalidade relacionadas com estas interpretações. De fato, sendo baseadas sobre a criminalidade identificada e perseguida, as estatísticas criminais, nas quais a criminalidade de colarinho branco é representada de modo enormemente inferior à sua calculável “cifra negra”, distorceram até agora as teorias da criminalidade, sugerindo um quadro falso da distribuição da criminalidade nos grupos sociais (BARATTA, 1999, p. 102).

As estatísticas oficiais sobre a criminalidade mascaram a real criminalidade, deixando de fora os crimes praticados por aqueles no topo da pirâmide social (criminalidade oculta), e reforçando o estigma, a etiqueta de delinqüente dos desfavorecidos, dando a falsa impressão de que a criminalidade está restrita aos estratos mais baixos da sociedade. O objetivo disso é claro: legitimar e orientar a atuação seletiva do sistema penal, mostrando a criminalidade como somente originada de pessoas pobres, em má situação familiar e acometidas de desvios psicológicos.
Estas conotações da criminalidade incidem não só sobre os estereótipos da criminalidade, os quais, como investigações recentes têm demonstrado, influenciam e orientam a ação dos órgãos oficiais, tornando-a, desse modo, socialmente “seletiva”, mas também sobre a definição corrente de criminalidade, que o homem da rua, ignorante das estatísticas criminais, compartilha. Realmente, esta definição de criminalidade, e as correspondentes reações não institucionais por ela condicionadas (a reação da opinião pública e o alarme social), estão ligadas ao caráter estigmatizante que a criminalidade leva, normalmente, consigo, que é eficacíssimo no caso da criminalidade de colarinho branco (BARATTA, 1999, p. 103).

Em poucas palavras, pode-se dizer que a criminalidade oculta, ou cifra negra, é a criminalidade não apresentada ao sistema formal de controle ou por ele não recebida.

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A verdade, é que a estatística criminal, ao invés de quantificar a criminalidade realmente ocorrida, pouco informa nesse sentido, mas proporciona dados precisos sobre a magnitude da criminalização e reforçando a teoria do etiquetamento. Constado isso, as estatísticas criminais adquirem uma nova dimensão científica, como instrumento privilegiado para o estudo da lógica do controle social e dos modelos de comportamento seletivo das agências de controle penal e das suas especificas clientelas (ANDRADE, 1997, p. 262). Nesse sentido, Dias e Andrade (1984, p. 137) citam um estudo sobre a delinqüência de jovens estudantes universitários, oriundos de classes sociais privilegiadas:
A sua conclusão mais significativa é a de que, em matéria de delinqüência real, não há diferenças significativas entre estes jovens e os jovens estudantes pertencentes aos estratos mais desqualificados. A única diferença é que, ao contrário do que sucede com estes últimos, a delinqüência dos primeiros escapa sistematicamente aos registros oficiais. Um dos temas centrais deste tipo investigação tem sido precisamente o problema da localização social da delinqüência, sendo recorrente a conclusão de que a uma homogeneidade tendencial no que toca à criminalidade real corresponde um peso diferencial nas estatísticas oficiais em função da raça e do estatuto econômico-social.

Daí se deriva a conclusão fundamental de que “a imunidade e não a criminalização é a regra no funcionamento do sistema penal (HULSMAN apud ANDRADE, 1997, p. 266). A conduta criminal é, então, o comportamento de muitos ou até da maioria dos membros de nossa sociedade. Na realidade, em qualquer sociedade onde existe liberdade e onde as pessoas são, em tese, livres, há que se suportar certa taxa de criminalidade.
O que é preciso, como disse Durkheim, é lembrar que quando a taxa de criminalidade é inusitadamente alta, como acontece agora no mundo capitalista, esse excesso é de natureza mórbida e revela que essa sociedade está doente ou que algo não está certo em seu seio (PIMENTEL, 1983, p. 24)

Assim, levando-se em conta que a conduta desviante é majoritária e disseminada por toda a pirâmide social, mas, em quase todos os lugares do mundo, a clientela do sistema penal normalmente é formada por pessoas pertencentes às classes sociais mais baixas, conclui-se, então, que há um processo de seleção de pessoas que são etiquetadas como delinqüentes e não, com se pretende, um mero processo de seleção de condutas tidas como criminosas.
Desta forma, a “minoria criminal” a que se refere a explicação etiológica (e a

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ideologia da defesa social a ela conecta) é o resultado de um processo de criminalização altamente seletivo e desigual de “pessoas” dentro da população total, enquanto a conduta criminal não é, por si só, condição suficiente deste processo. Pois os grupos poderosos na sociedade possuem a capacidade de impor ao sistema uma quase que total impunidade das próprias condutas criminosas (ANDRADE, 1997, p. 267)

A atuação do sistema geralmente imuniza o comportamento desviante dos poderosos, enquanto superestima infrações de menor danosidade social (crimes contra o patrimônio), especialmente quando esses são praticados por indivíduos pertencentes aos estratos sociais marginalizados, agindo assim de forma altamente seletiva, tanto quantitativamente como qualitativamente.

3.4 SELETIVIDADE QUANTITATIVA E QUALITATIVA DO SISTEMA PENAL

As estatísticas criminais oficias, então, pouco ajudam na hora de se auferir números quanto à delinqüência real, servindo apenas para falsear a distribuição da criminalidade e contribuir para a crença de que a delinqüência se concentra nos estratos sociais mais baixos. “De modo que à minoria criminal da Criminologia positivista opõe-se a equação ‘maioria criminal x minoria pobre regularmente criminalizada’” (ANDRADE, 1997, p. 265). “[...] torna-se óbvio que o sistema penal está estruturalmente montado para que a legalidade processual não opere e, sim, para que exerça seu poder com altíssimo grau de arbitrariedade seletiva dirigida, naturalmente, aos setores vulneráveis” (ZAFFARONI, 1991, p. 27). Nesta perspectiva, a seletividade do sistema penal deriva de duas variáveis estruturais. A primeira é a sua incapacidade operacional para dar conta do exercício penal programado. O discurso jurídico-penal programa um número incrível de hipóteses em que, segundo o “dever-ser”, o sistema penal intervém repressivamente de modo “natural” (ou mecânico). No entanto, as agências do sistema penal dispõe apenas de uma capacidade

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operacional ridiculamente pequena se comparada à magnitude do planificado (ZAFFARONI, 1991, p. 26). Só para exemplificar, no Brasil, além do Código Penal, existem diversas leis que tipificam um número “sem fim” de condutas como criminosas - desde os crimes de trânsito, passando pelos trafico de drogas, até os crimes ambientais. Todavia, essa hercúlea programação criminalizadora colide frontalmente com a própria incapacidade do Estado em processar tudo isso, materializada na eterna falta de funcionários e estrutura material, só para citar como exemplo. Além do que, tento em vista esse extenso rol de condutas tidas como criminosas em nosso ordenamento jurídico, se o Estado dispusesse de estrutura para dar vazão a toda essa demanda criminal, acabar-se-ia condenado praticamente toda a população. Até por que, quem nunca cometeu um ilícito penal, qualquer que seja, na vida?
Todos praticamos diariamente algum tipo de comportamento contrário a normas vigentes, tais como pequenas infrações de trânsito (estacionar em fila dupla ou em lugar proibido; percorrer um trecho na contramão; ultrapassar pela direita; das sinais de luz, nas rodovias para advertir os motoristas da presença de fiscalização; exceder a velocidade permitida); obtenção de alguma vantagem indevida, mediante pequenos subornos; desrespeitar a ordem de preferência de chegada em balcões ou outros locais de atendimento; comprar mercadorias estrangeiras contrabandeadas; comprar mercadorias estrangeiras no manual, e muitos outros tipos de comportamentos transgressores de menor relevância (PIMENTEL, 1983, p. 18).

Dessa generalizada não observância da lei, assumidas pelas pessoas tidas como “de bem”, dá bem uma idéia da anomia existente (PIMENTEL, 1983, p. 18), ou seja, o descumprimento da lei é a regra, e não o contrário.
A disparidade entre o exercício de poder programado e a capacidade operativa dos órgãos é abissal, mas se por uma circunstância inconcebível este poder fosse incrementado a ponto de chegar a corresponder a todo o exercício programado legislativamente, produzir-se-ia o indesejável efeito de se criminalizar várias vezes toda a população (ZAFFARONI, 1991, p. 26).

Imagine se todos os furtos, todos os adultérios, todos os abortos, todas as defraudações, todas as falsidades, todos os subornos, todas as lesões, todas as ameaças, enfim, todos os crimes do nosso ordenamento jurídico fossem concretamente criminalizados, praticamente não haveria individuo em nossa sociedade que não fosse, por diversas vezes, criminalizado (ZAFFARONI, 1991, p. 26).
Se o sistema penal concretizasse o poder criminalizante programado

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‘provocaria uma catástrofe social’. E diante da absurda suposição – absolutamente indesejável – de criminalizar reiteradamente toda a população, torna-se óbvio que o sistema penal está estruturalmente montado para que a legalidade processual não opere em toda sua extensão (ANDRADE, 1997, p. 265).

A criminalização na total extensão da lei geraria resultados desastrosos, incompatíveis com nossa vida social e indesejados pelos poderosos, pois acabar-se-ia criminalizando quase todos os indivíduos de nossa sociedade, inclusive aqueles pertencentes aos estratos mais altos. Nesse sentido, Dias e Andrade (1984, p. 368) colocam que uma sociedade que estivesse em condições de descobrir e sancionar toda a delinqüência destruiria simultaneamente o valor das suas normas, porquanto a função protetora da norma só atua eficazmente se circunscrita a uma reduzida expressão quantitativa.
O sistema de justiça penal está integralmente dedicado a administrar uma reduzidíssima porcentagem das infrações, seguramente inferior a 10%. Esta seletividade depende da própria estrutura do sistema, isto é, da discrepância entre os programas de ação previstos nas leis penais e as possibilidades reais de intervenção (BARATTA apud ANDRADE, 1997, p. 266).

Mas não é só da defasagem entre a programação legal e a estrutura disponível, a chamada “seletividade quantitativa”, que desempenha um papel importante no funcionamento seletivo do sistema penal. Existem, ainda, outras variáveis que também são importantes, quais sejam: “A especificidade da infração e as conotações sociais dos autores (e vitimas), isto é, das pessoas envolvidas. Trata-se, esta última, de uma seletividade ‘qualitativa’ que é recriadora de cifras negras ao longo do processo de criminalização” (ANDRADE, 1997, p. 266-267). Aqui retorna-se àquela questão de que fatores como raça e condição social desempenharam um papel crucial na captação de determinado sujeito pelo sistema penal, bem como no andamento do processo penal e posterior aplicação da pena. Ou seja, aqueles advindos da base da pirâmide social possuem mais chances de serem etiquetados como criminosos e perseguidos pelo sistema penal. Não se pode duvidar da força persuasiva dos estereótipos e da sua eficácia seletiva: “eles operam claramente em benefício das pessoas que exibem os estigmas da respeitabilidade dominante e em desfavor dos que exibem os estigmas da associalidade e do

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crime” (DIAS; ANDRADE, 1984, p. 541).
Numerosas são assim as investigações desenvolvidas nos últimos anos, em sua maioria associadas ao paradigma da reação social, com o propósito de demonstrar como tais variáveis (status social, etnia, condição familiar, etc.) obtêm sua influência e condicionam a seletividade decisória dos agentes do sistema penal: polícia, Ministério Público, juízes (ANDRADE, 1997, p. 268).

Dias e Andrade (1984, p. 385), por sua vez, sustentam que o predomínio das classes marginalizadas nas instâncias do controle penal e nas estatísticas oficiais da criminalidade não é uma coincidência, mas sim “grandezas sistematicamente produzidas”. É, por isso, natural que sobre os membros das classes mencionadas existam maiores probabilidades de criminalização.
A criminologia radical sustenta, por seu turno, que a seleção não pode encarar-se em termo tão neutros. Segundo ela, a seleção operada pelas instâncias de controle não reflete apenas a dissonância organizacional daquelas instâncias, antes reproduz, no plano da justiça criminal, as linhas de fratura e de conflito que, a nível macroscópico, dominam cada formação social. O que significa entender, segundo esta perspectiva criminológica, que é a justiça de classe a idéia central a que acaba por reconduzir-se toda a seleção [...] (DIAS; ANDRADE, 1984, p. 385-386).

Mais uma vez, a questão retorna ao ponto da real função do sistema penal, não de defensor de uma ordem social justa, mas de instrumento de dominação de uma classe sobre outra. Com os indivíduos pertencentes dos estratos mais baixos da sociedade carregando o eterno estigma de potenciais delinqüentes, fica muito mais fácil mantê-los sob controle da minoria dominante. E pra piorar, esse estigma que é diariamente reforçado pela mídia e pelas estatísticas oficiais da criminalidade. A contribuição do estigma para a perpetuação do nosso modelo de sociedade é a legitimação de incursões da polícia em favelas, da violência policial, do tratamento subumano e indigno nas prisões e, por via de conseqüência, da seletividade do sistema penal.

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4 CONCLUSÃO O sistema penal, como o conhecemos, surge quando o Estado moderno avoca para si a responsabilidade de resolver os conflitos entre particulares, sendo um instrumento de manutenção desse monopólio da violência pelo Estado. Sua premissa maior é a defesa social, a defesa da sociedade. O que se esperara do sistema penal, então, em sua busca pela manutenção de uma ordem social justa e igualitária, é que atuasse em favor da sociedade como um todo. A Constituição, por sua vez, teve inserido em seu texto normas que buscam essencialmente a proteção aos direitos fundamentais dos indivíduos e a limitação do poder repressivo do Estado. O princípio da isonomia, segundo o qual todos são iguais perante a lei, independentemente de qualquer fator, foi consagrado no caput do art. 5º de nossa constituição, constituindo um direito fundamental do individuo em um estado democrático de direito. Contudo, em uma sociedade cujo signo maior é a desigualdade social e a dominação de uma classe social sobre outra, o real funcionamento do sistema penal destoa de sua função declarada de defensor da sociedade. Em que pese as garantias constitucionais e os discursos oficiais, o sistema penal é apenas mais um instrumento de perpetuação desse modelo de sociedade desigual, agindo seletivamente contra certos indivíduos, mais do que contra certas condutas tidas como criminosas. Entendemos que, em que pese as estatísticas oficiais e a influência da mídia, a criminalidade não está restrita aos estratos mais baixos da sociedade. Na verdade, o sistema penal atua quase que exclusivamente contra esses indivíduos e contra os crimes típicos dos estratos sociais marginalizados como forma reprodução das desigualdades. O principal argumento de defesa social cai por terra, quando se verifica que a enorme maioria da população carcerária brasileira foi incursa na prática de crimes contra o patrimônio particular, muitas vezes sem relevância social nenhuma, enquanto que aqueles privilegiados socialmente cometem crimes econômicos e políticos com terríveis reflexos sociais e escapam impunes. Isso sem falar nas condutas delituosas cometidas diariamente por pessoas que não se encaixam no estereotipo de delinqüente e que são sistematicamente ignoradas pelo sistema penal. Estes fatos, a nosso ver, só vêm a reforçar o estereotipo de delinqüente e

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legitimar a atuação quase que exclusiva do aparato penal contra determinado grupo de indivíduos.

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REFERÊNCIAS ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A ilusão de segurança jurídica: do controle da violência a violência do controle penal. Porto Alegre : Livraria do Advogado, 1997. ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Sistema penal máximo x cidadania mínima: códigos da violência na era da globalização. São Paulo : Livraria dos Advogados, 2003. BARATTA, Alessandro. Criminologia critica e critica do direito penal: introdução a sociologia do direito penal. 2. ed. Rio de Janeiro : Freitas Bastos : Instituto Carioca de Criminologia, 1999. BATISTA, Nilo. Introdução critica ao direito penal brasileiro. Rio de Janeiro : Revan, 1990. CARVALHO, Amilton Bueno de. Magistratura e direito alternativo. São Paulo : Academica, 1992. DIAS, Jorge de Figueiredo; ANDRADE, Manuel da Costa. Criminologia: o homem delinqüente e a sociedade criminógena. Coimbra : Coimbra Ed, 1984. DIAS, Jorge de Figueiredo. Questões fundamentais do direito penal revisitadas. São Paulo : Revista dos Tribunais, 1999. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis : Vozes, 1977. PIMENTEL, Manoel Pedro. O crime e a pena na atualidade. São Paulo : Revista dos Tribunais, 1983. SANTOS, Jose Wilson Seixas. Sintese expositiva de criminologia. 2.ed. São Paulo : Jurid Vellenich, 1973. SANTOS, Juarez Cirino dos. A criminologia radical. Rio de Janeiro : Forense, 1981. 97p. ZAFFARONI, Eugenio Raul. Em busca das penas perdidas: a perda de legitimidade do sistema penal. Rio de Janeiro : Revan, 1991. ZAFFARONI, Eugenio Raúl; PIERANGELI, José Henrique. Manual de direito penal brasileiro: parte geral.7. ed. rev. e atual. São Paulo : Revista dos Tribunais, 2007. WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasilia : UnB, 1991.

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ANEXO ESTUDO DE CASO DOS DADOS DO SISTEMA PENITENCIÁRIO NACIONAL Semestralmente, com base em informações recebidas dos Estados da federação, o Ministério da Justiça, por intermédio do Departamento Penitenciário Nacional, compila um relatório analítico do sistema prisional brasileiro, cobrindo dados referentes aos estabelecimentos prisionais, recursos humanos, logísticos e financeiros, e sobre a população prisional, com o intuito de direcionar os rumos da política criminal no Brasil. De acordo com relatório mais recente realizado em junho de 2008, o total de apenados no Brasil, incluindo-se todos os tipos de regimes, é de 381.112. Em contrapartida, existem 277.847 vagas no sistema prisional, havendo um déficit de mais de 100 mil vagas. Ademais, considerando-se que o Brasil, atualmente, conta com uma população de 190 milhões de habitantes, pode-se estimar que 0,2% da população encontra-se cumprindo algum tipo de pena. Com relação ao grau de escolaridade, observa-se do relatório, que apenas 5.180 dos apenados possuem ensino superior incompleto ou completo, menos de 1,3% do total, e apenas 77 possuem formação acima do nível superior, algo em torno de 0,2% do total. O restante dos encarcerados, por sua vez e por via de conseqüência, possuem pouca ou nenhuma escolaridade.

1% 5% 17%

8% 12%
Analfabetos Alfabetizados Ensino Fundamental Ensino Médio Nível superior ou maior Não informado

57%

40

Verifica-se, também, que cerca de 215.642 dos apenados (56% do total) possuem idade entre 18 e 30 anos, sendo que somente aqueles com idade entre 18 e 24 anos perfazem quase 31% do total, algo como mais de 117 mil jovens cumprido algum tipo de pena no Brasil.

3% 6% 1% 15% 32%
18 a 24 anos 25 a 29 anos 30 a 34 anos 35 a 45 anos 46 a 60 anos Mais de 60 anos Não informado

17% 26%

Com relação à etnia ou cor de pele, tem-se que, de um total de 373.018 apenados, 149.774, ou 40% do total, são tidos como “brancos”, 62.218, ou 16%, são tidos como “negros”, 144.701, ou 38%, são tidos como “pardos”, 1.823, ou 0,4%, são tidos como “amarelos”, e, finalmente, 430, ou 0,1%, são tidos como “indígenas”. Existem, ainda, cerca de 13.118 apenados, algo em torno de 3,5% do total, que foram “catalogados” como “outras”. 0% 0%3%

41% 39%

Branca Negra Parda Amarela Indigena Outras

17% Em suma, pode-se afirmar que 222.290, quase 60% do total de indivíduos

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que estão cumprindo pena no sistema penitenciário brasileiro podem ser considerados como “não brancos”. Desta forma, o que se conclui é que a população carcerária brasileira, como no resto do mundo, é formada majoritariamente por jovens “não brancos” com baixo nível de escolaridade. Podendo-se presumir, então, que a grande maioria pertence aos estratos marginalizados da sociedade. Dentro de uma perspectiva da criminologia positivista, a delinqüência é um sintoma revelador da personalidade socialmente perigosa de determinado individuo. Essa característica de periculosidade social é identificada pelos positivistas como uma anormalidade, e é usada como medida na captação do sujeito e aplicação de pena pelo sistema penal. Todavia, essa tese, apesar de amplamente utilizada, é contraposta pela criminologia crítica, para quem o sistema penal age de forma seletiva sobre determinado indivíduos, além de considerar que a prática delituosa não é uma exceção, mas sim o comportamento da maioria dos indivíduos em nossa sociedade. Assim, com base na afirmação de que a maior parte da população carcerária no Brasil é formada por jovens “não brancos” advindos dos estratos mais baixos da sociedade, faz-se necessário ponderar: serão esses mais propensos a práticas delituosas por razões físicopsíquicas que os diferenciam do homem médio, ou será que é o sistema penal que, atuando de forma seletiva, acaba concentrando seu poder punitivo contra esses sujeitos? Adotando-se a corrente crítica da criminologia, pode-se dizer que a delinqüência não se restringe aos estratos inferiores, mas sim, como já exposto neste trabalho, é prática disseminada por todos os andares da pirâmide social. Da mesma forma, a periculosidade social desses indivíduos não advém de características físico-psíquicas que os diferenciam dos ditos homens de bem e os tornam mais propensos à criminalidade, mas sim do fato de quebrarem a lógica de trabalho e submissão do capitalismo, do fato de não serem meros “corpos dóceis e úteis” a disposição do capital, etc. Veja que, segundo o relatório em comento, a população carcerária brasileira responde, no total, pela prática de 424.645 crimes. Desse total, mais de 207 mil (48%) foram crimes que atentaram, ao menos de alguma forma, contra o patrimônio, mais especificamente: 1.499 seqüestros, 5.963 extorsões, 11.086 receptações, 13.061 latrocínios, 61.579 furtos, 115.320 roubos. De uma maneira geral, o relatório especifica a prática de algo em torno de 20 crimes, dentre os quais, os mais expressivos são os crimes contra o patrimônio, aqueles

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contra os costumes (19.307 – 4% do total), os crimes contra a vida (63.485 - 14% do total), os contra a “Lei de Armas” (20.240 – 4% do total) e o tráfico de drogas (66.367 – 15% do total). Fora esses, constam alguns poucos menos expressivos que, juntos, não perfazem mais de 15 mil delitos. Existem ainda, 41.714 crimes praticados pelos apenados que foram agrupados e listados como “outros crimes”.

13% 5% 15% 48%

Crimes contra o patrimônio Crimes contra os costumes Crimes contra vida Lei de Drogas Lei de Armas Outros Crimes

15%

4%

Ora, não há que se olvidar que a imensa maioria da população carcerária brasileira foi incursa na prática de um número muito pequeno de crimes se comparado ao número de condutas tipificadas como crime em nosso ordenamento jurídico. Vale lembrar que, somente o nosso código penal especifica mais de uma centena de condutas criminosas. É de ressalta que, de acordo com o relatório, no Brasil cumpre-se pena pela prática de apenas 2.911 crimes contra administração pública, 0,6% do total de crimes pelos quais se cumpre pena. Tal dado causa estranheza, pois os “crimes contra a administração pública” são aqueles dos artigos 312 ao 337 do nosso Código Penal, dentre os quais destacase o peculato (art. 312), emprego irregular de verbas ou rendas públicas (art. 315), corrupção passiva (art. 317), corrupção ativa (art. 333), sonegação de contribuição previdenciária (art. 337A), entre tantos outros. Uma explicação seria a de que crimes contra a administração pública, como aqueles supra mencionados, não sejam comuns no Brasil. Ou talvez sejam, mas como a função declarada do sistema penal é a defesa social, os crimes contra o patrimônio particular sejam mais lesivos a sociedade como um todo, do que sonegar contribuições previdenciárias ou dar às verbas públicas destinação diversa da estabelecida em lei. Na verdade, a imensa maioria da população carcerária brasileira esta incursa

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na prática de crimes contra o patrimônio, pois furtos e roubos são praticados, em sua grande maioria, por indivíduos advindos da base da pirâmide social. Enquanto que os crimes que lesam o erário público, e refletem muito mais negativamente na sociedade, são praticados pelos detentores do poder econômicos e/ou político. Como se vê, o discurso da “defesa social” não passa de mero instrumento legitimador dessa lógica distorcida de funcionamento do Sistema Penal, aonde quem é condenado e preso é aquele indivíduo etiquetado como criminoso e que, mesmo sem saber, se rebela contra a lógica do sistema de produção capitalista. Em contrapartida, aqueles que de fato comentem crimes com reflexos socialmente negativos são ignorados pelo sistema penal. Ou seja, mais do que contra certas condutas tidas como criminosas, o sistema penal parece se voltar contra certos indivíduos.

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