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Terceira Igreja Batista do Plano Piloto // EBD: Visão certa, mundo incerto // 30 agosto 2009 1

Visão certa, mundo incerto


Aula 03: Artes e entretenimento

“Se a partir deste mundo podemos aprender algo acerca do caráter de Deus, certamente
é que ele é criativo e multifacetado. O interesse divino em beleza e em detalhes é
inquestionável quando se olha para o mundo que criou à nossa volta, e às próprias
pessoas em particular, como resultado de sua habilidade.” (Frank Schaeffer)

Qual a posição que o cristão deve tomar a respeito das artes? Podemos assistir todo e qualquer programa de TV ou
é importante assistir apenas os que contêm mensagens cristãs? O que fazer com a música que não fala de Deus? Só
podemos nos divertir quando somos “edificados” ou é possível entreter-se simplesmente por diversão? Para responder
essas questões sem cairmos em extremos é importante entendermos o que a Bíblia diz sobre Deus, o homem e a
Criação. Para isso, o conceito de graça comum é essencial.

Graça comum
A Bíblia nos ensina que Deus, apesar do pecado, continua a sustentar a sua criação e a conferir dons e bens para a
humanidade. Estamos tão familiarizados com as coisas boas produzidas pelo homem que muitas vezes nos esquecemos
que mesmo o pão que compramos na padaria é fruto da bondade de Deus sobre o pecador. A esses favores não-merecidos,


que não envolvem a salvação e suas conseqüências, os teólogos dão o nome de graça comum.

Essa graça é comunal, não perdoa nem purifica a natureza humana, e não efetua a salvação dos
pecadores. Ela reprime o poder destrutivo do pecado, mantém em certa medida a ordem moral
do universo, possibilitando assim uma vida ordenada, distribui em vários graus dons e talentos


entre os homens, promove o desenvolvimento da ciência e da arte, e derrama incontáveis benções
sobre os filhos dos homens.” (Louis Berkhof )

Vemos na Bíblia várias situações em que essa verdade é ensinada:

No passado ele permitiu que todas as nações seguissem os seus próprios


caminhos. Contudo, Deus não f icou sem testemunho: mostrou sua
[ Atos 14.16,17 ] bondade, dando-lhes chuva do céu e colheitas no tempo certo, concedendo-
lhes sustento com fartura e um coração cheio de alegria.
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Eu escolhi Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do


[ Êxodo 31.2-5 ] Espírito de Deus, dando-lhe destreza, habilidade e plena capacidade artística
para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, para talhar e
esculpir pedras, para entalhar madeira e executar todo tipo de obra artesanal.

Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o
[ Romanos 13.3-4 ] mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o
enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal,
tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente
da justiça para punir quem pratica o mal.

Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e
[ Mateus 5.45 ] injustos.

Isso significa que Deus tem interesse em abençoar sua criação. Ela não é uma realidade desprezada pelo Criador e,
portanto, não deveria ser desprezada pelos cristãos. Devemos entender que mesmo as coisas mais simples como o nascer
do sol ou um governo humano justo são frutos do cuidado de Deus junto aos homens e ao mundo. Não fomos chamados
para desprezar essa terra, como faziam muitos monges e eremitas, mas para desfrutar de maneira correta aquilo que o
Senhor criou.

É o Senhor que faz crescer o pasto para o gado, e as plantas que o homem
[ Salmo 104.14,15 ] cultiva, para da terra tirar o alimento: o vinho, que alegra o coração do homem;
o azeite, que lhe faz brilhar o rosto, e o pão que sustenta o seu vigor.

Mandato cultural
Quando o Senhor criou Adão e Eva, ele nos comissionou a dominar sua criação. Isto é, eles deveriam proteger, cuidar,
explorar e aproveitar aquilo que Deus fez. Isso significa que tanto a agricultura, quanto a ciência, e até a reprodução da
humanidade, por exemplo, não são atividades meramente mundanas, mas ordens divinas ao ser humano. Essa também é
a base para entendermos que os dons artísticos e suas obras são parte desse chamado divino. Essa missão de domínio é
conhecida como mandato cultural, uma ordem geral a todos os povos.

Deus os abençoou, e lhes disse: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e


[ Gênesis 1.28 ] subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e
sobre todos os animais que se movem pela terra”.

Quando um ser humano coloca em ação habilidades como pintar, cantar, compor, escrever e cozinhar ele está cumprindo
(ainda que de maneira imperfeita e, muitas vezes, pecaminosa) esse mandato.

A diferença deste mandato para os mandamentos de Deus é que os mandamentos são dados para obediência de um povo,
para santificação de uma comunidade separada pelo Criador. O cumprimento dos mandamentos de Deus necessariamente
afasta o homem do pecado. Já o mandato cultural é uma ordem divina à coroa da sua criação, o homem, seja ele parte do
povo santo de Deus ou não. Sendo assim, qualquer produção cultural representa o cumprimento do mandato cultural,
ainda que, sendo algo pecaminoso, torne-se uma ação distanciada do seu ideal.

Com essas verdades em mente, podemos entender qual a visão de arte que a Palavra propõe para o cristão.
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O cristão e a arte
Uma das perguntas mais comuns e polêmicas feitas na igreja – “posso ouvir musica secular?” – traz à tona exatamente esse
assunto, a visão cristã das artes. Precisamos evitar noções pré-concebidas, para que não caiamos em alguns extremos.
Por exemplo, alguns negam que haja motivo para que o cristão entre em contato com obras seculares, mas vemos que
Paulo tinha acesso a vários clássicos de sua época e os citava em pregações e textos. Nos textos a seguir, o Apóstolo cita,
respectivamente, um hino a Zeus, o filósofo Epimênides, e uma frase retirada de uma peça grega.

“Pois nele vivemos, nos movemos e existimos”, como disseram alguns dos poetas
[ Atos 17.28 ] de vocês: “Também somos descendência dele”.

Um dos seus próprios profetas chegou a dizer: “Cretenses, sempre mentirosos,


[ Tito 1.12 ] feras malignas, glutões preguiçosos”.

[ 1 Coríntios 15.33 ] Não se deixem enganar: “As más companhias corrompem os bons costumes”.

Paulo reconhecia que algumas vezes haviam princípios corretos nas afirmações desses autores. O apóstolo também tinha
noções de retórica e poesia, o que demonstra seu envolvimento com a cultura de sua época. O que aprendemos com
esse exemplo é que a arte é uma das áreas da cultura humana, e não deve ser simplesmente rejeitada. Há dois perigos do
relacionamento do cristão com a arte que podem levá-lo a uma situação de ignorância e alienação. Eles são o utilitarismo
e a mediocridade.

Dois extremos perigosos


Utilitarismo é a idéia de que somente obras com temática explicitamente cristã são
válidas e proveitosas para o crente. Entende-se que trabalhos feitos por incrédulos não
edificam o cristão, uma vez que não tratam de temáticas “espirituais”.

A falha desse ensinamento é que ele não apenas promove uma separação drástica entre
santo e secular, como despreza o conceito de graça comum e do mandato cultural. O
defensor desse sistema cai no erro de não valorizar a Criação e suas histórias como
algo bom em si mesmo. Para ele, o homem só cumpre seu chamado quando se envolve
com assuntos religiosos, algo que não é ensinado pelos primeiros capítulos de Gênesis
e o restante da Bíblia.

A mediocridade é o lado oposto da moeda. Aqui, uma temática cristã justifica qualquer
produção, sem necessidade de cuidado ou dedicação. Aqueles que caem nesse erro
entendem, por exemplo, que se um filme tem uma mensagem cristã evidente, não há
necessidade de se preocupar com a qualidade ou o aspecto artístico. Questões como
direção de arte, fotografia, roteiro ou diálogos são relegados ao segundo plano.

A Bíblia, por outro lado, ensina que toda obra deve ser feita com dedicação e esmero.
Recebemos dons e capacidades de Deus, e devemos usá-las para sua glória. Fomos feitos
à imagem de um Deus criativo e devemos refletir isso, com o melhor que pudermos.

[ Salmo 33.3 ] Cantem-lhe uma nova canção; toquem com habilidade ao aclamá-lo.

[ Jeremias 48.10 ] Maldito o que faz com negligência o trabalho do Senhor!


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Anorexia e glutonaria cultural


Como foi discutido, a Bíblia apresenta uma visão positiva da cultura humana e da Criação. Isso significa que podemos
consumir qualquer produto cultural ou artístico? Evidentemente, não. O cristão deve estar atento para a mensagem e
os valores propostos por cada obra. Nenhuma produção artística ou de entretenimento é isenta de alguma mensagem,
desde um panfleto até um blockbuster hollywoodiano aparentemente sem propósito. Mesmo inconscientemente, um autor


expressa seus pensamentos e precisamos estar atentos a isso. Certo autor define arte dessa maneira:


“Vejo arte como qualquer atividade humana que não se desenvolve a partir dos dois instintos
básicos da nossa espécie: sobrevivência e reprodução.” (Scott McCloud)

Ainda que essa definição seja bastante ampla e questionável, ela nos é útil por lembrar algo importante: tudo que se faz
(além desses “instintos”) na vida é um reflexo de nossa cosmovisão. Como devemos lidar com isso?

O autor Brian Godawa em seu livro Cinema e Fé Cristã nos apresenta duas posições extremadas que o cristão corre o risco
de tomar. Ele as chama de anorexia e glutonaria culturais. O primeiro termo diz respeito àquelas pessoas que discutimos
na seção anterior – são aqueles que vivem como eremitas culturais, negando qualquer obra que contenha idéias, cenas,
narrativas que não sejam cristãs. Essas pessoas se excluem e criam uma espécie de “racismo” cristão – somente o que é
feito por crentes é bom e deve ser aceito.

Os glutões culturais estão no lado oposto dessa questão. São aqueles cristãos que simplesmente consomem qualquer tipo
de produção, ignorando suas mensagens, visões e apelos. São aqueles que “apenas querem se divertir” ao ir ao cinema ou
ver uma novela, absorvendo tudo que lhes é apresentado, sem filtrar nada.

Precisamos ter uma visão equilibrada dessa questão, a fim de não nos tornarmos ou pessoas manipuladas pela mídia
(glutões) ou irrelevantes na sociedade (anoréxicos). Uma proposta para que não caiamos em nenhum desses erros é
entendermos a produção humana como algo que pode apresentar valores sagrados, seculares ou mundanos.

Sagrado, secular e mundano


É importante entendermos que essa é uma divisão didática, para direcionar nossos questionamento quando entramos
em contato com alguma obra. Ou seja, não estamos apresentando algum tipo de doutrina, mas uma simplificação da
realidade. Sugerimos classificar o conteúdo ou a mensagem de uma produção de três formas:

Sagrado – envolve temas cristãos, sejam eles explícitos (como uma canção da Igreja Batista da Lagoinha) ou não (por
exemplo, As Crônicas de Nárnia). Essas obras são importantes para mantermos um relacionamento vivo com Deus e
sua igreja, e nos levam a crescer na graça. Isso não significa que tudo que contenha a palavra “Jesus” ou feito por um
evangélico deve ser consumido pelo crente de forma indiscriminada (utilitarismo). Consideramos “sagrado” a temática
religiosa que não contradiz a Bíblia.

Secular – são obras que tratam de assuntos da Criação e ser humano. Por exemplo, uma canção de amor (“Eu sei que
vou te amar” de Tom Jobim) ou pinturas que retratem a sociedade humana (“Lição de Anatomia” de Rembrandt). Essas
produções fazem parte do mandato cultural à humanidade e glorificam a Deus pelo uso dos dons e pela valorização
daquilo que foi criado por ele.

[ Jó 36.24 ] Lembre-se de exaltar as suas obras, às quais os homens dedicam cânticos de


louvor.

Mundano – são aqueles produtos que apresentam ideais ou mensagens de rebelião contra Deus e devem ser evitados pelos
cristãos. Isso não significa que um personagem ruim, por exemplo, anula totalmente o valor de um livro. Se fizéssemos
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isso, não poderíamos passar dos primeiros capítulos da Bíblia. Queremos dizer que é importante afastar-se de qualquer
coisa que possa contaminar-nos e levar-nos a pecar. Certos tipos de danças típicas são expressões culturais mas podem
levar muitos a cair. Um programa de humor pode levar-nos a pecar com piadas blasfemas. O cristão deve vigiar e não se
deixar levar cegamente pela indústria cultural.

Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que
[ Filipenses 4.8 ] for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa
fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas.

Muitas vezes erramos ao tomar posições não-bíblicas sobre esse assunto. É importante sabermos discernir aquilo que nos
é apresentado por esse mundo, sempre à luz da Palavra de Deus. O assunto da arte e entretenimento é muito amplo e
subjetivo, e todos nós precisamos ter consciência de quais são nossas fraquezas nessa área. Deus nos criou criativos e não
podemos abusar ou desperdiçar esse dom.

Um pequeno teste
As seguintes perguntas foram adaptadas do livro Cinema e Fé Cristã, de Brian Godawa. Faça essas perguntas a si mesmo
para desafiar o seu crescimento pessoal:

Você é um glutão cultural ou um anoréxico cultural?


Glutonaria cultural

1. Você lê todo livro que lhe interessa sem antes considerar se o assunto tratado é
apropriado?

2. Você acha que clipes e shows musicais são apenas formas de diversão que não
apresentam nenhuma mensagem?

3. Quantas horas você gasta por semana vendo TV? Compare esse tempo com o tempo
que você gasta lendo a Bíblia ou outro material de cunho cristão.

4. Quantas vezes você já viu um filme e mais tarde veio a perceber que ele ofendia suas
convicções ou maneira de ver o mundo?

Anorexia cultural

1. Você considera todos os filmes de forma generalizada como “mundanos” ou vê


qualquer representação de pecado como algo errado, sem se preocupar com seu
contexto?

2. Você é incapaz de apreciar algo bom em um livro por causa das coisas ruins que lê
nele?

3. Você considera arte e diversão uma perda de tempo e por isso passa todo o seu
tempo livre envolvido em atividades “espirituais”?

4. Quantas vezes você foi incapaz de interagir com as pessoas à sua volta por não
compreender a experiência cultural delas?
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WALL-E – Um robô com princípios bíblicos? por Solano Portela1


Leitura complementar
Era necessário surgir WALL-E para me motivar a sentar durante duas horas por sua saga ambiental e sair da
experiência não somente satisfeito e entretido, com as paradoxais expressões e sentimentos demonstrados pelo maltratado
robô, mas ponderando sobre as questões e valores levantados pelo filme. Ele é uma forte crítica social ao estágio de letargia,
descaso e hedonismo que caracteriza os humanos, não somente os do filme (que aparecerão mais tarde), mas também os de
nossa geração.
A primeira coisa que me chama a atenção é o empenho colocado por WALL-E no trabalho, no desempenho de sua
missão. É lógico que foi programado para isso, mas no transcorrer do filme o contraste com a preguiça e descuido das pessoas
ficará bem evidente. WALL-E tem foco, tem responsabilidade, desempenha o que lhe foi confiado e, os acontecimentos
terminam motivando as pessoas a reexaminarem as suas vidas, posturas e prioridades. Apesar de sua seriedade no trabalho,
WALL-E não é só isso – ele procura as coisas bonitas ou que entretêm e consegue ser despertado para o lado artístico,
criativo e sentimental, que igualmente foram descartados pela humanidade.
WALL-E não está exatamente solitário na Terra. Uma simpática baratinha (as mulheres acharão que isso é uma
contradição de termos...) o acompanha em todos os seus passos (ou, já que esse robô não tem pernas, nas voltas de sua
esteira). Nessa Terra pós-catástrofe o filme dá guarida à tese, já bastante repetida, que, no advento de um holocausto global
“as baratas herdarão a terra” (aparentemente há um tênue respaldo científico para essa suposta resistência das baratas,
existindo registros de que elas sobreviveram o bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki; testes posteriores revelaram
que elas suportam 10 vezes mais radiação do que o ser humano – apesar de continuarem impotentes perante o solado de
sapato de minha esposa).
Mas a sua solidão é, realmente, quebrada, quando EVE, uma robô de última geração, coletora de alguma coisa, é
deixada na terra. Segue-se uma singela história de aproximação e de amor entre WALL-E e EVE. Sem qualquer palavra
ou diálogo durante quase metade do filme, podemos testemunhar não somente a timidez de WALL-E, mas pudor, recato –
valores que estão muito ausentes de nossas crianças e de nossas famílias. A estranha história de amor dos dois, muito ensina
sobre altruísmo, proteção da amada, compartilhamento de belezas e interesses – todos valores cristãos bem registrados por
Paulo em 1 Co 13.
Sem diálogos e apenas com a expressão dos olhares, vamos sendo envolvidos na história do robozinho feioso, que
“pega”, após recarregar as baterias, com som harmônico do computador MacIntosh, e da robozinha, com aparência de I-Pod,
até o contato cheio de aventuras com a nave de humanos que já órbita a Terra há muitos anos, esperando tempos melhores
para retornar ao planeta.
O contato não somente dos robôs, mas do espectador, com os humanos revelará uma humanidade totalmente
destruída em seu élan. A crítica social é clara e pertinente: o consumismo não somente dominou a todos, mas uniformizou a
humanidade em uma massa amorfa, com todos acima do peso; quase sem movimentação própria; ligados 100% na televisão.
Nessa sociedade fechada da “arca”, os humanos são tão introvertidos e preocupados em ser servidos, que o contato social com
os semelhantes foi praticamente obliterado. Não falta conforto, mas ao mesmo tempo, a essência do viver bem foi reduzida
a quase nada. A perspectiva de uma volta ao planeta, para retrabalhá-lo, recolonizá-lo, se os desafios para chegarem a esse
ponto forem vencidos, significará muito trabalho e um novo estilo de vida a ser adotado. Estarão dispostos a isso? Assista ao
filme e não se surpreenda se os humanos do filme se pareçam com você, grudado à poltrona do cinema ou de sua casa!
No final, WALL-E deixa um balanço positivo, além da admirável técnica de vanguarda em entreter, mesmo que
siga a trilha Holywoodiana de tratar as questões ignorando a existência de Deus. O filme fornece campo para muitas
discussões proveitosas (e não apenas na área de ecologia). Valores bíblicos relacionados com a filosofia do trabalho; com o
valor da família; com amor e desvelo – estão presentes em várias ocasiões. “Há esperança, no meio do caos,” é a mensagem –
e temos oportunidade de mostrar e reafirmar qual é a verdadeira esperança da humanidade e em quem confiam os cristãos.
A busca do WALL-E por companhia, pode nos levar a discussão sobre o perigo e a dor da solidão.
WALL-E celebra as virtudes de moderação e auto-controle no mercantilismo exacerbado de nossos dias –
demonstrando as conseqüências da ausência de limites e o perigo de sermos consumidos pelo consumo. Preste atenção,
igualmente, ao término do filme, na animação que acompanha os “créditos”, onde temos um tributo às artes, ao trabalho e ao
cultivo. WALL-E é, portanto, mais do que uma parábola ecológica, é uma crônica de resgate de valores que não podem ser
esquecidos por nossa sociedade, sob pena de pagarmos pesados pedágios. É um lembrete sobre os perigos do individualismo
e do egoísmo.
1
Trecho de texto publicado em http://tempora-mores.blogspot.com/2008/11/wall-e-um-rob-com-princpios-bblicos.html