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Santas Cóleras

Nuno Serras Pereira


02. 09. 2009

Nestes tempos derrancados em que vivemos a macieza ou delicadeza foi elevada a


virtude suprema se não mesmo única. Suprema, uma vez que se considera que nenhuma
dela se abeira e que todas lhe estão sujeitas Única, no sentido em que “redime” todos os
crimes, vícios e pecados e que quem a tem, todas tem, enquanto que quem a não possui,
nenhuma possui. Assim ele confunde-se com a virtude da caridade e também com a da
humildade. Esta embaralhação está tão enraizada na mentalidade dominante que não
passa pela cabeça de ninguém que a calma e a cortesia tanto podem ser virtudes como
verdadeiros pecados.
Se alguém se irrita, se encoleriza, logo é acusado, de dedo em riste, de faltar à caridade,
adiantando-se imediatamente que se alguma razão tinha, logo a perdeu, devido aos
modos impetuosos ou coléricos com que reagiu.
Ciente disto mesmo o Maligno apresenta-se a mais das vezes com grandíssimos
aparatos de simpatia, tranquilidade, doce torpor. Os debates nas televisões, por exemplo,
não são ganhos em virtude da substância das questões, mas sim por aqueles que tiverem
maior capacidade de engolir sapos vivos com um sorriso benévolo ou pelo que tiver
emborcado o maior número de ansiolíticos.
Mesmo entre os católicos é preocupante verificar como tem vindo a crescer o número
daqueles que acham que nada é pecado, excepto o indignar-se com veemência, ou que
qualquer pecado pode ser desculpabilizado, menos o da iracúndia, mesmo quando esta é
uma virtude muito santa e não é falta nenhuma.
Quantas vezes não é a verdadeira caridade apupada, vaiada, acusada de o não ser, por
todos perseguida! E pelo contrário, com que frequência verificamos que a descaridade
feita fraqueza, desleixo, cobardia, silêncio, calculismo, lisonja, falta de firmeza e
determinação, ambiguidade é incensada como amor verdadeiro.
Toda a cólera é, nestes tempos desorientados, dada como desabrimento injusto quando
afinal também pode ser muito bem expressão de verdadeira justiça e caridade. Bastaria
conhecer bem as Sagradas Escrituras e a vida dos santos, interpretações vivas da Bíblia,
para verificar isso mesmo.

Importa, por isso, recordar, por exemplo, o que o grande Doutor da Igreja, o
Bispo S. João Crisóstomo (boca de ouro), ensinava os seus: “Só aquele
que se enraivece sem motivo se torna culpado; quem se enraivecer por
um motivo justo não tem culpa alguma. … Mais ainda: aquele que não
se encoleriza quando a razão o exige, comete um pecado grave, pois a
paciência não regulada pela razão propaga os vícios, favorece as
negligências e leva ao mal não somente os maus, mas sobretudo os
bons" (São João Crisóstomo, Homilia XI, in Math.).
(Fonte: “Infovitae”)

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