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Foto: Aline Scátola

Entrevista

Soninha Francine

Quando Quando o o

mato mato está está

alto alto

Quando Quando o o mato mato já já está está alto alto 2 nome da revista

2 nome da revista - 07 de maio

Subprefeita da Lapa

A subprefeitu- ra da Lapa,

na zona Oeste, representa uma das melhores regiões de São Pau- lo. Seus moradores têm renda mais de duas vezes maior que a média do mu-

nicípio e boa parte

da

oferta de empre-

go

(8,77%) está ali.

A

oferta de equi-

pamentos culturais

públicos represen-

ta 6,43% de toda

Cidade, segundo o movimento Nossa São Paulo. Isso não exclui os problemas. Pro- porcionalmente, há mais crimes vio-

lentos não fatais e grande desigualda-

de de renda entre

negros e não ne- gros. Em entrevista ex- clusiva, a subprefeita

Soninha Franci-

ne fala sobre o pa-

pel do órgão, políti-

ca e administração.

Aline Scátola

Gisele Brito

alinescatola@gmail.com

brito.gisele@gmail.com

Cida: Na última eleição você se candidatou à prefeitura, ou seja, pensava em políticas integrais para a Cidade. Qual é a diferença de se pensar políticas públicas lo- cais na subprefeitura? Soninha: A dificuldade é a impo- tência. É muito bom você ter estu- dado a Cidade toda e ter uma noção melhor, aperfeiçoada da inter-relação entre as coisas. Por exemplo, uma das discussões mais fortes dessa eleição foi o trânsito e o transporte. E muita gen- te acha que para melhorar o trânsito em São Paulo precisa alargar as Mar- ginais, tapar o rio, aquela proposta do [Paulo] Maluf [candidato na última eleição pelo PP]. Mas não é lá o pro- blema. O problema é o que traz tanta gente para cá. Então, se você melhorar uma ligação entre a Freguesia do Ó e Santana, talvez melhore a Marginal. Ter essa noção ajuda. Porque se o Ter- minal da Lapa está sobrecarregado, provavelmente o problema não está aqui, está na demanda que faz muita gente ter que passar por aqui. Mas o que adianta eu saber de tudo isso?

Pois é, o que adianta saber de tudo isso? Aí que entra um ponto superim- portante: o gestor público não é só um gerente, um cara que tem que ter um superconhecimento técni- co para lidar com os recursos. Ele é um político. É um gestor que toma decisões, que escolhe prioridades e que procura influenciar pessoas. O subprefeito é esse cara que vai buscar recursos, vai tentar conseguir ações da SPTrans, da CPTM [Companhia Paulista de Trens Metropolitanos], do Metrô, da Sabesp. Se você for só ad- ministrar as entradas e saídas, como se tudo se resolvesse numa planilha, “tá” ferrado. A capacidade gerencial é superimportante. Mas é mais do que isso.

E como é o relacionamento com

o [Andrea] Matarazzo [secretá- rio das subprefeituras] nisso

tudo? É surpreendentemente bom.

Ele é muito

sível ao nosso drama cotidiano, que é receber todas as reclamações da po- pulação e ter muitos limites. Por um

lado

governo para acionar todas as secre- tarias. Ele tem essa noção do nosso martírio diário. E ele é muito firme, muito exigente com a qualidade do serviço que a gente presta. Muito rigo- roso com eficiência, honestidade, agi- lidade. Procura melhorar os processos pra que as coisas funcionem melhor. Ele tem uma preocupação obsessiva, do tipo “por que não anda? onde é que está errado? É um problema de pessoal? De recurso financeiro? Re- solvam. Muda o que precisar mudar”. Isso é muito legal. Ele é muito bom chefe de cima para baixo, nas relações com as pessoas que trabalham com ele. Talvez ele não consiga ser tão fir- me e tão exigente com seus pares, com os outros secretários. Essa ação política dele, eu acho que podia – devia ser mais forte.

ele é nosso porta-voz dentro do

de verdade, muito sen-

As subprefeituras foram criadas para descentralizar os serviços

da prefeitura. Isso acontece hoje? Apesar de o órgão estar mais per- to, ele tem dificuldades de comu- nicação com a comunidade, não?

Olha

está ruim com as subprefeitu-

ras, mas sem elas estaria muito pior. Quer dizer, se daqui eu já estou longe

da Vila Jaguara, imagina se não tivesse

a subprefeitura. Mas esse órgão teria

que ter postos avançados, ter outra perna em cada um dos distritos. Aí você tem que afinar as divisões terri-

toriais da Cidade e as duas administra- ções – municipal e estadual – deviam caminhar para ajustar essas divisões.

E também precisa criar outras instân-

cias de representação da população na

subprefeitura, porque a Câmara Muni-

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Entrevista

Soninha Francine

Subprefeita da Lapa

cipal não dá conta. Mas a gente con- tinua com um problema para ter ca- pilaridade, para ter comunicação, para ter presença mesmo na Cidade toda. Muitas coisas continuam sendo cen- tralizadas, não só na prefeitura. O que

existe de mídia local é a mídia impressa

e a qualidade dos jornais locais é muito desigual. Em muitos casos os jornais locais têm uma ligação muito forte com um determinado cacique político

local. Já televisão não é local e as rádios locais seriam as comunitárias, mas elas continuam tendo toda dificuldade do mundo para se viabilizar. Então o que

a gente faz é usar a web.

Em um dos seus blogs você

comentou que a limpeza dos

lugares públicos atualmente

é

dos seus objetivos é sistematizar

o

é que se definem as priorida- des e como está sendo monta- da essa sistematização? Como

serviço. Nesse cenário, como

feita sob demanda e que um

incêndio. Não dá para parar tudo

para se criar isso. O mato já está alto. Tem os critérios que vem da própria prefeitura e os de cada subprefeitura. Um dos critérios de toda sub é sobre as áreas onde tem mais movimento. Onde passa mais gente você tem que dar atenção urgente. Além disso a im- pressão de descuido faz mal para todo mundo. Quando a Cidade parece que está descuidada a chance das pessoas jogarem lixo fora do lugar, pararem carro na calçada, deixarem suas facha- das descuidadas é muito maior. Áreas em torno de equipamentos públicos

está pegando fogo, o jeito é apagar

o

e áreas que ofereçam riscos também tem prioridade.

dividida em seis distritos bem desiguais. Ao mesmo tempo em que tem o Jaguaré, onde 43,40% das famílias vivem em favelas, tem Perdizes, um bairro de clas-

se média. As pessoas de Perdizes são muito mais organizadas, co- bram muito mais, sabem quem faz

o que na subprefeitura. Elas tem

mais acesso aos jornais, então se fa- zem ouvir muito mais. Emplacam

matérias nos grandes veículos.

a turma do Jaguara só se faz ouvir nos jornais do bairro. É um barulho forte, mas não tem o mesmo efeito do que uma foto em um grande jor-

nal ou revista. Então tem uma deci- são política espinhosa, que eu não me incomodo de tomar. É preciso deixar esse pessoal de Perdizes chiar um pouco mesmo. Eu sei que aqui está ruim, mas lá está bem pior. Daí sai a foto no Estadão e eles falam:

“se aqui no Sumaré está ruim, ima- gina na periferia?” Pois é, lá tem co-
“se aqui no Sumaré está ruim, ima- gina na periferia?” Pois é, lá tem co-
“se aqui no Sumaré está ruim, ima- gina na periferia?” Pois é, lá tem co-

“se aqui no Sumaré está ruim, ima- gina na periferia?” Pois é, lá tem co- bra, não é só feio, não. Tem cobra!

“se aqui no Sumaré está ruim, ima- gina na periferia?” Pois é, lá tem co- bra,
“se aqui no Sumaré está ruim, ima- gina na periferia?” Pois é, lá tem co- bra,

Apesar de ser uma região com bons índices socioeconômicos,

você tem que lidar com as dife-

Olha é difícil para a prefei-

tura como um todo. Lidar com isso

da baixa renda. A própria prefeitura,

que gera receita, tem muita dificul-

dade em lidar com a miséria e com a desigualdade. Porque obviamente o município é muito influenciado pela política econômica e cambial que é definida em Brasília. Então na subprefeitura você tem uma di- ficuldade imensa em lidar com o comércio irregular, por exemplo, e isso tem muito a ver com política cambial, fiscal e controle de fron-

renças

No fim das contas, cada sub tem sua própria periferia, não é? É. É

isso mesmo.

A sub da Lapa, por exemplo, é

teira. Porque está muito mais fácil vender qualquer bugiganga “made

in China” do que montar um negó-

cio para fabricar aqui.

Vocês lidam mais com os pro-

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links em

gabinetesoninha.

blogspot.com

Barra Funda, Jaguara, Jaguaré, Lapa, Perdizes, Vila Leopoldina

blemas do que com as políti-

Não conseguimos chegar

nas políticas capazes de realmente transformar. Isso é uma tortura para mim, para um subprefeito. Porque você consegue remediar mais ou menos, mas o que é estru- tural, estruturante está super fora do seu alcance. Mas azar, a gente tem que fazer o que puder. Inclu- sive tentar com seus instrumentos promover desenvolvimento. Daí

cas

que entra você identificar o que é a vocação dos lugares. Aqui na Lapa

e em quase São Paulo toda a gente

explora super pouco o turismo, que

é um tipo de atividade econômica

que envolve muito pouco maquiná-

rio, insumos, produção industrial, e

a partir da qual você consegue gerar renda, independentemente da polí- tica cambial. Não tem como com-

petir, o que é atração turística aqui,

é só daqui mesmo.

E você acha que essa é uma voca- ção da Lapa? É. Outro dia eu vi uma foto aérea do Farol do Jaguaré, que na verdade é um relógio. Poxa, é superle- gal.

Alguns índices da região são bem ruins, como problemas circula- tórios, gravidez precoce e, espe- cificamente na Barra Funda, as mortes no trânsito. Como a sub- prefeitura se relaciona com isso? Tem algumas intervenções que estão ao nosso alcance que podem fazer a diferença. As medidas de engenharia de tráfego, propriamente – faixa de pedestre, mão, contra mão – com- petem à CET [Companhia de Enge- nharia de Tráfego]. Mas aí cabe nossa ação política de ficar pressionando, exigindo. Não pode ir muito além dis- so. Alguma solução viária a subprefei- tura pode fazer, mas a maioria delas é da CET mesmo. Mas por exemplo, nós temos muitas mortes de pedestre.

E aí você chega em um ponto que é

muito nosso, que são as calçadas. Se

o sujeito tem que andar pelo meio da

rua, ele está mais exposto, se árvore

cobre o semáforo, ele corre mais ris- co. Se a Cidade está uma desordem de modo geral, o trânsito fica mais um salve-se quem puder. Então tem muitas medidas de urbanização mes- mo, de requalificação urbana que a gente consegue, além da manutenção.

E tem uma coisa que me incomoda

muito, que também é macro, que é

o excesso de viagens, excesso de de-

manda. Se as pessoas não precisassem

se deslocar tanto, se as coisas fossem

mais próximas umas das outras, você

não teria tanto trânsito, tanto estresse, tanto ponto de ônibus transbordando de gente. Então pensamos como in- duzir as coisas de modo que as pesso-

as tenham mais lazer e mais comércio perto de casa.

Que tipo de ação se pode fazer

por exemplo, olhando

com mais carinho para nossas áreas

públicas. A gente tem ali o viaduto

da Lapa, debaixo tem o sacolão. Está

funcionando bem? Está faltando alguma coisa? Como é que a gente pode melhorar a oferta do sacolão. Do lado tem uma quadra desativa. Pô, as pessoas tem a maior necessida-

de de lazer, de ter o que fazer. Então de repente, em vez de a pessoa pegar

a moto e sair zoando, ele vai jogar

bola? É oferecer alternativas de lazer,

de convivência. E isso tudo nos leva à

história das doenças circulatórias, que tem a ver com estresse, com sedenta- rismo. Então quanto mais você ofere- cer alternativas para as pessoas saírem a pé, conviverem umas com as outras, tudo isso faz bem. Dinamizar os es- paços públicos para dar melhores condições de vida para as pessoas. Pode não parecer na hora, mas em algum momento vai fazer efeito

sobre a vida das pessoas.

para isso? É

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