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ANÁLISE DO COMPORTAMENTO DA ÁREA TRATADA COM DRENOS VERTICAIS NA

EXPANSÃO ESTE DO ATERRO SANITÁRIO DE BEIROLAS

ANÁLISIS DEL COMPORTAMIENTO DE LA ZONA TRATADA CON DRENES


VERTICALES EN LA EXPANSIÓN ESTE DEL RELLENO SANITARIO DE BEIROLAS

Pardo de Santayana, Fernando, Dr. Eng. Civil, Laboratório Nacional de Engenharia Civil

RESUMO

A construção da expansão Este do aterro sanitário de Beirolas, destinada a armazenar os solos


contaminados procedentes de escavações na área de intervenção da Parque EXPO 98, em Lisboa, viu-
se afectada por um deslizamento de grandes proporções em Junho de 1995. A causa do deslizamento
foi a insuficiente resistência dos solos lodosos do terreno de fundação relativamente às hipóteses do
projecto. Para remediar as consequências do acidente, e com o objectivo de poder proceder à selagem
final do aterro sanitário, foi decidida a realização de um melhoramento do terreno de fundação com
drenos verticais na zona da expansão Este. No artigo descreve-se o tratamento efectuado e a sua
evolução, incluindo os resultados dos ensaios “in situ”, da observação, e os incidentes ocorridos
durante o período de consolidação. Inclui-se ainda a análise e a avaliação da eficácia do tratamento.

RESUMEN

La construcción de la expansión oriental del relleno sanitario de Beirolas, destinada a almacenar los
suelos contaminados procedentes de excavaciones en el área de intervención de Parque EXPO 98, en
Lisboa, se vió afectada por um deslizamiento de grandes proporciones en junio de 1995. La causa de
este deslizamiento fue la insuficiente resistencia, respecto a las hipótesis del proyecto, de los suelos
lodosos del terreno de cimentación. Para remediar las consecuencias del accidente, y para poder
proceder al sellado final del relleno sanitario, fue decidida la realización de un tratamiento de mejora
del terreno mediante el empleo de drenes verticales. En el artículo se describe el tratamiento
efectuado, incluyendo los resultados de la instrumentación y ensayos in situ, y los incidentes ocurridos
durante el proceso de consolidación, así como el análisis y la evaluación de la eficacia del tratamento.

1 - INTRODUÇÃO

O aterro sanitário de Beirolas localiza-se numa área baixa e plana na margem direita do estuário do
Tejo. Antes da realização dos trabalhos de selagem e recuperação empreendidos pela Parque EXPO
98, o aterro ocupava uma área de 17 hectares e atingia uma altura de cerca de 15 m sobre o terreno
circundante (Fig. 1). Entre o talude Este do aterro e o rio Tejo, existia uma faixa de terreno de cerca de
180 m de largura, relativamente plana, a uma cota média de +4 m, NGP. No decurso de uma
construção anterior aos trabalhos de selagem do aterro sanitário, foi escolhida esta zona para criar uma
expansão do aterro, destinada à deposição de cerca de 250.000 m3 de solos contaminados procedentes
das escavações nos locais das antigas industrias petrolíferas da área de intervenção da Parque EXPO
98. Esta expansão, adjacente ao talude Este do aterro, foi dividida em três células, ocupando uma área
aproximadamente rectangular de 7,5 hectares.

Geologicamente, toda a zona em questão encontra-se na área aluvial do rio Tejo, caracterizando-se
fundamentalmente pela ocorrência de três unidades distintas: o substrato Miocénico e Plio-
plistocénico, a profundidade variável (às cotas -1 m a -55 m, NPG, sob o aterro sanitário; e de -25 m a
-30 m na expansão Este); a formação aluvionar, predominantemente lodosa, com o seu topo situado
sensivelmente à cota +0 m, NPG; e uma camada de aterros artificiais, depositada nos anos 70 e 80,

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com uma espessura da ordem dos 4 m, como média, na expansão Este, embora diminuindo para Este
até se anular no rio.

Em 25 de Junho de 1995, a construção dos sistemas de confinamento basal das células da expansão
Este encontrava-se já completamente terminada, tendo sido colocados aproximadamente 110.000 m3
de solos contaminados nas células 2 e 3. A pilha de solos atingia praticamente as cotas finais de
projecto nestas duas células. Nesse dia, um deslizamento de grandes dimensões, com cerca de
trezentos metros de frente, afectou a totalidade da zona preenchida com solos contaminados nas
células 2 e 3, a qual assentou cerca de 4 metros, deslocando-se também vários metros para o rio. O
deslizamento estendeu-se mesmo até ao rio, observando-se nitidamente uma emersão do seu leito na
zona de flutuação das marés frente às células 2 e 3.

A pedido da Parque EXPO, o LNEC analisou as causas do deslizamento (LNEC, 1995), concluindo
que houve um erro de projecto na avaliação da resistência ao corte dos solos lodosos da fundação. Os
lodos foram considerados normalmente consolidados sob a sobrecarga dos aproximadamente 4 m de
aterros existentes no local. Porém, os lodos estavam subconsolidados, apresentando resistências ao
corte não drenadas inferiores às previstas no projecto em mais de 10 kPa entre as cotas –10 e –15 m,
NPG. Estas resistências viram-se ainda diminuídas pelo deslizamento de Junho de 1995, cuja zona
inferior de corte se localizou aproximadamente às cotas –20 m a –25 m, NPG.

A partir do acidente suspendeu-se a colocação de mais solos contaminados na expansão Este. Para
além de medidas correctivas tais como a reconstrução ou reparação de estações elevatórias, tubagens,
banquetas e outros elementos das células inutilizados pelo deslizamento, rapidamente foi levado a
cabo, por recomendação do LNEC, um reperfilamento da superfície do terreno na zona afectada pelo
deslizamento, uniformizando e suavizando ao máximo a sua inclinação entre o talude Este do aterro e
o rio, para incrementar assim os coeficientes de segurança nesta zona a curto prazo, de um valor
próximo à unidade até cerca de 1,3.

Posteriormente, foi decidida ainda a realização de um melhoramento do terreno de fundação na


expansão Este mediante a instalação de drenos verticais e uma plataforma de sobrecarga, com o
objectivo de aumentar a resistência ao corte dos solos lodosos antes de proceder à selagem final do
aterro sanitário. O tratamento, proposto pelo projectista, mereceu o parecer favorável do LNEC, o qual
foi solicitado para acompanhar a sua evolução. Em face da elevada sensibilidade da zona em questão,
foram instalados diferentes dispositivos de observação (marcas superficiais, tubos inclinométricos e
células de pressão intersticial), e foram também efectuados ensaios de molinete nos solos lodosos,
aquando da instalação dos drenos e vários meses depois, de modo a avaliar o ganho de resistência.

Os solos lodosos da fundação, na zona do tratamento, encontravam-se antes do deslizamento de 1995


num estado próximo da consolidação normal sob o seu próprio peso, sem praticamente reflectir,
portanto, o peso da camada superficial do aterro (de espessura variável, mas em geral de 0 a 6 m com
excepção de determinadas zonas onde a espessura de aterros era consideravelmente maior,
precisamente aquelas onde a instalação dos drenos não foi possível). Como consequência do
deslizamento, os lodos experimentaram uma perda notável de resistência, particularmente a
determinadas profundidades. Com a instalação dos drenos verticais pretendia-se, mediante a
dissipação do excesso de pressões intersticiais, acelerar o processo de consolidação destes lodos sob a
carga do aterro existente e da nova sobrecarga, recuperando, igualmente, a perda de resistência
causada pelo deslizamento.

2 - DESCRIÇÃO DO TRATAMENTO DE MELHORIA DO TERRENO

A zona para a qual foi previsto o tratamento com drenos verticais situava-se entre as células para solos
contaminados da expansão Este do aterro e a margem do rio Tejo, formando uma faixa de cerca de 60
m de largura, frente às células 2 e 3, e de 40 m frente à célula 1. Não foram instalaram drenos no
interior das células para não perfurar o seu sistema de impermeabilização basal. Os drenos verticais,
de plástico (geodrenos), foram instalados entre Dezembro de 1996 e Janeiro de 1997, com um

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espaçamento de 2 m (área por dreno de 3,46 m2), e um comprimento de uns 30 a 35 m, desde a


superfície do terreno (a uma cota entre +2 e +5 m, NGP). Não foi possível a instalação dos drenos em
toda a área prevista, devido à espessura e consistência das camadas de aterros superficiais nalguns
locais (Figs. 1 e 2).

Fig. 1 – Localização da área tratada com drenos verticais na expansão Este do aterro de Beirolas.

Conforme referido, previamente à instalação dos drenos verticais, nos primeiros meses de 1996, a área
de tratamento foi submetida a um reperfilamento do terreno, como medida correctiva da situação
originada pelo deslizamento de Junho de 1995. Com este reperfilamento, que abrangeu a zona das
células 2 e 3, desde o talude do aterro sanitário até ao rio, bem como a área entre a célula 1 (vazia) e o
rio, regularizou-se a superfície do terreno e suavizou-se a sua inclinação. As zonas afundadas situadas
entre a banqueta Este das células e o rio foram preenchidas com areia. Na faixa que ia ser tratada com
drenos verticais foi colocada uma espessura mínima de areia de 50 cm.

Após a instalação dos drenos, foi construída a plataforma de sobrecarga, com uma altura máxima de
cerca de 1,75 m. Estes trabalhos decorreram entre 10.04.97 e 15.05.97. Entre a camada de areia de
regularização e o aterro de sobrecarga foi colocado um geotêxtil. Na Fig. 4 mostram-se as cotas da
superfície do terreno em Julho de 1997.

Considerando, a partir da informação disponível sobre as características dos lodos, um coeficiente de


consolidação horizontal , ch, de 7x10-8 m2/s, obter-se-ia 75% da consolidação num prazo de 11 meses,
e 90% da consolidação em 19 meses. O aumento da resistência, no final do processo de consolidação,
conduziria a uma lei de resistência/profundidade paralela à correspondente aos lodos normalmente
consolidados sem a sobrecarga dos aterros (definida, nesta formação, pela relação Su = 0,22 σ’v0,
sendo Su a resistência ao corte não drenada, e σ’v0 a tensão vertical efectiva inicial nos lodos sem
sobrecarga), e deslocada de uma quantidade igual a ∆Su = 0,22 ∆σ’v, onde ∆σ’v é o incremento de
tensão efectiva vertical devido ao peso das camadas colocadas acima do topo dos lodos,
originariamente à cota 0 m, NGP, aproximadamente.

3 – RESISTÊNCIA DOS LODOS NO INÍCIO DO TRATAMENTO

Em Janeiro de 1997 foi levada a cabo uma campanha de ensaios de molinete para determinar a
resistência ao corte não drenada dos lodos na zona do tratamento na expansão Este, logo após a

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instalação dos drenos verticais. Foram realizados ensaios em três sondagens (GD-1, GD-2 e GD-3) em
locais onde se conseguiu instalar os drenos, e ainda em mais três sondagens (NT-1, NT-2 e NT-3) em
locais onde, devido à espessura dos aterros, não foi possível a instalação dos drenos. A localização
destes ensaios apresenta-se na Fig. 2. Na Fig. 5 podem ver-se os resultados da resistência ao corte
obtida nestes ensaios em função da profundidade. Na mesma figura apresenta-se a resistência dos
lodos no estado normalmente consolidado (NC) sob o seu peso próprio (resistência antes do
deslizamento), e o perfil de resistência atribuído à zona localizada entre as células 2 e 3 e o rio (zona
EB) após o deslizamento de Junho de 1995 a partir dos ensaios realizados nessa altura.

Fig. 2 – Localização dos dispositivos de observação, e dos ensaios de molinete de Janeiro de 1997.

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4 – DISPOSITIVOS DE OBSERVAÇÃO

Antes da colocação da sobrecarga, foram instalados diversos dispositivos de observação na zona de


tratamento: três inclinómetros verticais, I-1, I-2 e I-3, com a base encastrada no Miocénico e com
comprimentos totais de 36, 47 e 47 m, respectivamente, instalados em Fevereiro de 1997; dois
piezómetros eléctricos de corda vibrante, P-1 e P-2, colocados a meia profundidade no depósito de
lodos, também em Fevereiro de 1997; e três placas superficiais, para medição de assentamentos e
deslocamentos horizontais, PA-1, PA-2 e PA-3, instaladas, aproximadamente à cota 4 m, NGP, em
15.04.97. A localização em planta destes dispositivos pode ver-se na Fig. 2. Todos os inclinómetros
foram instalados no limite Este da área tratada. As marcas superficiais e os piezómetros foram
instalados no eixo longitudinal, aproximadamente, da faixa de terreno tratada.

5 – RESULTADOS DA OBSERVAÇÃO

5.1 – Resultados até Junho de 1997

Os inclinómetros I-1, I-2 e I-3 começaram a ser lidos a 31.03.97, mas só a partir da última semana de
Abril, coincidindo com a colocação da sobrecarga, começaram a reflectir deslocamentos horizontais
significativos, medindo-se, em 05.05.97, deslocamentos máximos para o rio de 55, 40 e 50 mm nos
inclinómetros I-1 (à cota –1 m, NPG), I-2 (à cota –5 m, NGP) e I-3 (à cota –5 m, NGP),
respectivamente. A partir dessa data, o comportamento do inclinómetro I-2, localizado numa área não
tratada, diferenciou-se dos outros, manifestando uma clara tendência à estabilização dos
deslocamentos (no final do período de observação, em Outubro de 1997, o deslocamento horizontal
máximo registado no I-2 foi de aproximadamente 60 mm). Nos inclinómetros I-1 e I-3, pelo contrário,
os deslocamentos horizontais continuaram a aumentar a um ritmo praticamente constante, registando-
se, a mediados de Junho de 1997, deslocamentos horizontais máximos na direcção do rio de 130 mm,
no I-1, e 95 mm. no I-3.

Nas placas superficiais verificaram-se, até Junho de 1997, deslocamentos horizontais crescentes na
direcção do rio. Na placa PA-2, próxima do inclinómetro I-1, e na PA-1, localizada na zona tratada
frente à célula 1, os deslocamentos na direcção do rio (130 mm e 50 mm, respectivamente)
estabilizaram ao longo do mês de Junho, sendo a componente na direcção perpendicular praticamente
nula. Pelo contrário, na placa PA-3, situada frente à célula 3, numa área sem drenos, o deslocamento
para o rio aumentou ainda durante o mês de Junho (140 mm a 23.06.97), registando-se também uma
componente para Norte.

No que se refere aos assentamentos superficiais, as placas PA-1 e PA-2 apresentaram uma evolução
congruente com o processo de consolidação com os drenos verticais; em 16.06.97, os assentamentos
eram de 220 mm e 380 mm, respectivamente. No entanto, a placa PA-3, localizada numa área sem
drenos, experimentou também assentamentos crescentes com o tempo, embora mais irregulares, os
quais atingiram os 180 mm em 16.06.97.

Relativamente aos piezómetros, ambos ficaram avariados muito cedo, o P-2 praticamente após a
instalação , e o P-1 em 12.05.97.

Em 16.06.97, o inclinómetro I-3, o que está situado mais a Norte dos três, partiu-se aos 20 m de
profundidade. Nessa data foi descoberta uma fenda na superfície do terreno na zona Norte da
plataforma de sobrecarga, de cerca de 1 cm de abertura e com certa continuidade, afectando a área dos
dispositivos I-3 e PA-3 (Fig. 4). Soube-se então que em dias anteriores tinham sido efectuadas
operações de deposição e dragagem de lodos no leito do rio não muito longe do extremo Norte da zona
do tratamento. Em consequência, e embora se considerasse que os sintomas de instabilidade (rotura do
inclinómetro, aparição da fenda e deslocamentos horizontais verificados na zona Norte da área de
tratamento) podiam dever-se talvez ao processo de consolidação dos lodos mediante os drenos, face à
extrema sensibilidade da área em questão, optou-se por efectuar novamente um reperfilamento na zona

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a Norte do I-1, retirando parcialmente a sobrecarga, de modo a uniformizar novamente a inclinação da


superfície do terreno entre as células e o rio (Fig. 4).

5.2 – Resultados a partir de Junho de 1997

Após a escavação de alívio parcial da sobrecarga na zona a Norte do inclinómetro I-1, os


deslocamentos horizontais nos dispositivos nesta zona, ou próximos, (inclinómetros I-1 e I-2, e placas
PA-2 e PA-3) cessaram. Os assentamentos continuaram sem alteração do ritmo nas placas PA-1 e PA-
2; contudo, cessaram na placa PA-3 (área sem drenos verticais), situada na zona reperfilada.

Na segunda semana de Julho, coincidindo com a realização de trabalhos no extremo Sul da expansão
Este relacionados com a selagem final do aterro sanitário (colocação de terras na antiga célula 1 e
construção da cobertura final), verificou-se uma aceleração dos deslocamentos horizontais em
direcção ao rio na placa PA-2. Igualmente, em 15.07.97, o inclinómetro I-1 partiu-se aos 15 m de
profundidade (cota –13,5 m, NGP). O inclinómetro I-2, no entanto, não registou nenhum
deslocamento significativo nesses dias. Decidiu-se, então reforçar a frequência de leituras e repor os
inclinómetros I-1 e I-3.

Entre 15 de Julho e 15 de Setembro, verificaram-se deslocamentos horizontais para o rio nas três
placas superficiais, PA-1, PA-2 e PA-3, tendendo a estabilizar, porém, a partir da ultima data em cerca
de 100, 275 e 225 mm, respectivamente.

Relativamente aos assentamentos, estes continuaram regularmente a um ritmo decrescente nas placas
PA-1 e PA-2 (assentamentos totais de 430 mm e 745 mm, respectivamente, a 13.10.97), enquanto que
cessaram na placa PA-3 (240 mm em 13.10.97; só 10 mm de assentamento em 100 dias).

Novas fendas apareceram no mês de Setembro na zona do inclinómetro I-1 e da placa PA-2, mas
concluiu-se que neste caso deviam ser consequência dos assentamentos diferenciais e deslocamentos
originados pelo processo de consolidação na zona tratada com drenos verticais. Considerou-se
oportuno, então, a realização de novos ensaios de molinete nos lodos para avaliar o ganho de
resistência e a eficácia do tratamento.

6 – ANÁLISE DOS ASSENTAMENTOS NAS ZONAS TRATADAS COM DRENOS VERTICAIS

6.1 – Evolução dos assentamentos nas áreas das placas PA-1 e PA-2

Para analisar a evolução dos assentamentos medidos nas placas PA-1 e PA-2 no período de
observação (de Abril a Dezembro de 1997), esta evolução foi comparada com as leis teóricas que
representam os processos de consolidação com drenos verticais.

O grau de consolidação médio de um solo tratado com drenos verticais (Uh) pode exprimir-se da
seguinte maneira: Uh = 1-exp(-8Th/F(n)), onde Th, o factor de tempo, calcula-se a partir da expressão:
Th = (cht)/d2e . Nesta expressão, t é o tempo para atingir o grau de consolidação em questão; ch é o
coeficiente de consolidação horizontal; e de é o diâmetro efectivo da área correspondente a cada dreno,
igual a 1,05 vezes o espaçamento entre drenos. A relação de espaçamento, n, é igual ao quociente
de/dw, onde dw é o diâmetro equivalente do dreno vertical (dw = 2(a+b)/π; sendo a e b a largura e
espessura, respectivamente, do dreno de plástico). Como função de espaçamento, F(n), pode adoptar-
se a seguinte: F(n) = ln(n)-0,75.

Não considerando neste caso, como simplificação, uma zona de solo alterado em redor do geodreno, e
adoptando, de acordo com os critérios de projecto, os seguintes valores para os parâmetros anteriores:
dw = 2(100 mm+3 mm)/π = 65 mm; de = 2,1 m; n = de/dw = 32,0; F(n) = ln(n)-0,75 = 2,716;
-8 2
ch = 7x10 m /s, resulta a seguinte relação entre Uh e o tempo:

Uh = 1 – exp(-t/247,5) (t em dias) (1)

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A esta expressão (1), no entanto, não correspondem exactamente os assentamentos medidos em obra
nas placas PA-1 e PA-2. Porém, é possível encontrar expressões análogas, variando o valor do
parâmetro mais duvidoso, neste caso, o coeficiente de consolidação horizontal, ch, de modo a ajustar a
curva teórica aos valores medidos.

Os assentamentos registados na placa PA-1 podem representar-se com muita aproximação mediante a
seguinte expressão: Uh = 1 – exp(-t/175), juntamente com um valor do assentamento final de 0,700 m.
Na Fig. 3 compara-se esta curva com os assentamentos medidos na placa PA-1. A utilização desta
expressão supõe assumir um coeficiente de consolidação horizontal, ch , de 9,9x10-8 m2/s, ligeiramente
superior, portanto, ao estimado no projecto. Como simplificação, adoptou-se como origem de tempos
a data de colocação das placas, 15.04.97, coincidente com a colocação da sobrecarga,
aproximadamente.

No caso da placa PA-2 (Fig. 3) o gráfico de assentamentos medidos/tempo pode também ajustar-se
com bastante aproximação a uma curva teórica da forma: Uh = 1 – exp(-t/165), com um assentamento
final de 1,127 m, à qual corresponde um coeficiente de consolidação horizontal de 1,05x10-7 m2/s,
parecido ao calculado para a placa PA-1. O ajuste é relativamente bom, apesar de a placa PA-2 ficar
muito perto da zona em que foi retirada parcialmente a sobrecarga em finais de Junho. Por outro lado,
deve ter-se em conta que, entre a data de instalação dos drenos (Janeiro de 1997) e a colocação da
sobrecarga, houve provavelmente processos de consolidação pelo facto dos lodos estarem
subconsolidados relativamente à carga do aterro existente; isto, associado ao facto de que o
carregamento não é pontual, incide, certamente, no ajuste das curvas teóricas aos assentamentos reais.

Segundo as curvas obtidas para ambas as placas, eram de esperar graus de consolidação de 50 %, 75 %
e 90 %, em aproximadamente 4 meses, 8 meses e 13 meses, respectivamente.

Tempo, dias
0 30 60 90 120 150 180 210 240 270 300 330 360 390 420
0
-0,1 (Tempo 0: 15-04-97)

-0,2
-0,3 PLACA PA-1
S = 0,700m (1-exp(-t/175))
Assentamento, m

-0,4
-0,5
-0,6
-0,7
-0,8
-0,9 leituras PA-1
modelo PA-1
-1
leituras PA-2 PLACA PA-2
-1,1 modelo PA-2 S = 1,127m (1-exp(-t/165))
-1,2

Fig. 3 – Comparação entre assentamentos medidos nas placas PA-1 e PA-2 e os obtidos
nos modelos.

6.2 – Cálculo dos assentamentos de consolidação

Os assentamentos de consolidação nos locais das placas PA-1 e PA-2 foram calculados de acordo com
a expressão: S = Ccε ·H ·log(1 + ∆σ’v/σv0), onde Ccε é o índice de compressão em deformações dos

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lodos (0,18, neste caso); σv0 é a tensão vertical efectiva inicial; e ∆σ’v é o incremento de tensão
vertical efectiva. As espessuras das diferentes camadas de solos e as cotas da superfície do terreno em
diferentes momentos nos locais das duas placas resumem-se no Quadro 1. Foram adoptados os
seguintes pesos volúmicos totais: solos lodosos, 16,5 kN/m3; aterro preexistente, 17 kN/m3; areia, 20
kN/m3; aterro de sobrecarga, 18 kN/m3. O nível freático supôs-se situado à cota +1 m, NPG, e para ter
em conta a sua posição no final da consolidação, consideraram-se, de partida, uns assentamentos
iguais aos deduzidos na subsecção anterior.

No caso da placa PA-1, considerou-se que em Janeiro de 1997, data de instalação dos drenos, os lodos
estariam num estado normalmente consolidado só devido ao seu peso próprio, e que entre Janeiro e
Abril (data de colocação da sobrecarga) se teria atingido 50% da consolidação correspondente ao peso
do aterro existente. Utilizou-se, pois, como tensão efectiva inicial nos lodos, na data de colocação da
sobrecarga, a correspondente ao peso efectivo dos lodos mais 50% do peso efectivo do aterro
existente.

No caso da placa PA-2, cujo local se viu afectado pelo deslizamento de Junho de 1995, considerou-se
que os 3 a 4 meses em que os drenos estiveram instalados antes da colocação da sobrecarga, serviram
para dissipar o excesso de pressão intersticial gerado pelo deslizamento, e que, por conseguinte, em
Abril de 1997 a tensão efectiva vertical nos lodos era a correspondente ao seu peso próprio, ainda não
suportando a carga do aterro antigo.

Com estas hipóteses, foram calculados assentamentos finais de consolidação de 0,69 m, para a placa
PA-1, e de 1,14 m para a placa PA-2, valores muito aproximados daqueles para os que tendiam as
leituras efectuadas.

Quadro 1 – Espessuras de camadas e cotas nos locais das placas PA-1 e PA-2

Local de PA-1 Local de PA-2


a) Espessura inicial dos lodos (m) 25,00 30,00
b) Espessura dos aterros preexistentes (m) 3,00 3,00
c) Cota inicial do terreno (m, NPG) +3,00 +3,00
d) Espessura da camada de areia (m) 0,71 1,00
e) Espessura da camada de aterro (m) 0,72 0,70
f) Cota após a colocação da sobrecarga (m, NPG) +4,43 +4,70

7 – ANÁLISE DOS RESULTADOS DOS ENSAIOS DE MOLINETE DE SETEMBRO DE 1997

Em Setembro de 1997 foram realizados ensaios de molinete em três sondagens, M1, M2 e M3, cuja
localização pode ver-se na Fig. 4. Os três locais correspondem a zonas com drenos verticais. Os locais
dos ensaios M1 e M2 estão situados muito próximos das placas PA-1 e PA-2, respectivamente. A
sondagem M3 localiza-se na zona Norte. O incremento na tensão vertical efectiva causado pela
consolidação com drenos verticais no depósito de lodos estimou-se em 63,0 kN/m2, como média nos
três locais. Tendo em conta a relação Su = 0,22∆σ’v, podia esperar-se um incremento da resistência ao
corte de cerca de 14,0 kN/m2 relativamente ao perfil NC, em toda a altura de lodos, no final da
consolidação. Em Setembro de 1997, cinco meses após a colocação da sobrecarga, o grau de
consolidação devia, teoricamente, ser superior a 60-80%. Na Fig. 6 apresentam-se os resultados dos
ensaios de Setembro, os quais se comparam com a resistência final prevista teoricamente.

No conjunto das três sondagens, M1, M2 e M3, os resultados de molinete mostraram um aumento de
resistência muito significativo em relação a Janeiro de 1997 na metade superior do depósito de lodos,
nalguns casos superando, inclusive os 14 kPa previstos. Na metade inferior, os resultados não
mostraram grande ganho de resistência entre Janeiro e Setembro; no entanto, os valores foram
claramente superiores à resistência atribuída aos lodos antes do tratamento. Na avaliação da eficácia
do tratamento mediante os resultados de molinete deve ter-se em conta que o processo de consolidação

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se efectua no plano horizontal, e, portanto, pode haver diferenças de resistência de uns pontos para
outros situados a pouca distância e à mesma profundidade. Outras possíveis explicações para o menor
ganho de resistência na parte inferior dos lodos poderiam ser as seguintes: um menor coeficiente de
permeabilidade na camada de lodos situada entre os – 14 m e os – 22 m, NPG, talvez por ter ficado
mais remexida pelo deslizamento de 1995; a criação de uma zona mais impermeável em redor dos
drenos a profundidades grandes durante a instalação; finalmente, a possibilidade de eventuais perdas
de resistência, como consequência de novos fenómenos de instabilidade, nomeadamente na área do
M3, implicando, talvez, perda de continuidade nos geodrenos.

Fig. 4 – Localização dos ensaios de molinete de Setembro de 1997 na área dos drenos verticais.

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Resistência ao corte, Su (kPa) Resistência ao corte, Su (kPa)


0 10 20 30 40 50 60 70 80 0 10 20 30 40 50 60 70 80
0 0
NC
NC
Zona EB Zona EB
GD-1 (Jan/97) M1 (Set/97)
-5 -5
GD-3 (Jan/97) M2 (Set/97)
GD-4 (Jan/97) M3 (Set/97)
NT-1 (Jan/97) NC + 14 kPa
-10 NT-2 (Jan/97) -10
NT-3 (Jan/97)

Cota, m (NGP)
Cota, m (NPG)

NC + 14 kPa

-15 -15

-20 -20

-25 -25

-30 -30

Fig. 5 – Resultados dos ensaios de Fig. 6 – Resultados dos ensaios de


molinete de Janeiro de 1997. molinete de Setembro de 1997.

8 - CONCLUSÕES

A observação da evolução do tratamento com drenos verticais na expansão Este do aterro sanitário de
Beirolas revestiu-se de especial importância devido à elevada sensibilidade da área em questão, bem
como ao óbvio interesse, acentuado pela então iminente inauguração da Exposição de 1998, de evitar
novos incidentes tais como o deslizamento de Junho de 1995. Os dispositivos de observação
instalados, nomeadamente as placas superficiais e os inclinómetros, bem como as inspecções visuais,
permitiram alertar sobre sintomas de possíveis instabilidades, perante os quais se adoptaram medidas
para garantir em todo momento a estabilidade da zona, de fundamental importância para a conclusão
dos trabalhos de selagem do aterro sanitário.

A análise dos assentamentos nas zonas tratadas com drenos verticais na expansão Este, e dos
resultados dos ensaios de molinete efectuados no início do tratamento e vários meses depois,
confirmaram a eficácia dos drenos verticais no incremento da resistência ao corte dos solos lodosos.

AGRADECIMENTOS

O autor agradece à Parque EXPO as facilidades para a redacção deste artigo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LNEC (1995). Aterro de solos contaminados da EXPO 98. Análise das causas do deslizamento
ocorrido em 25.06.95. Relatório interno, Setembro.

LNEC (1997). Análise da zona tratada com drenos verticais na Expansão Este do aterro sanitário de
Beirolas. Relatório interno, Outubro.

Pardo de Santayana, F.; Veiga Pinto, A. (1998). The Beirolas Landfill Eastern Expansion landslide.
Third International Congress on Environmental Geotechnics, Lisboa, pp. 905-910.

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