LENINE

SOCIALISMO PEQUENO-BURGUÊS E SOCIALISMO PROLETÁRIO

ACERCA DOS COMPROMISSOS

ACERCA DA COOPERAÇÃO

CADERNOS OPERÁRIO VERMELHO

SOCIALISMO PEQUENO-BURGUÊS E SOCIALISMO PROLETÁRIO

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ACERCA DOS COMPROMISSOS

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ACERCA DA COOPERAÇAO

EDITORIAL M IN E R V A

EDITORIAL MINERVA Rua Luz Soriano, 31-33 — Lisboa, Portugal

Tradução:
A delino dos Santos Rodrigues

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edição: Maiç 1975

Composto e impresso nas oficinas gráficas da Editorial Minerva — Rua da Alegria, 30 — LISBOA

SOCIALISMO PEQUENO-BURGUÊS E SOCIALISMO PROLETÁRIO

Entre as diversas doutrinas do socialismo, o mar­ xismo adquiriu actualmente completo predomínio na Europa e a luta pela implantação' do regime socia­ lista trava-se quase integralmente como- uma luta da classe operária dirigida pelos partidos sociais-democratas. Mas este completo predomínio do socialismo proletário, baseado na doutrina do mar­ xismo, não se consolidou de repente, mas sim depois de luta prolongada contra todas as doutrinas retró­ gradas, contra o socialismo pequeno-burguês, o anarquismo, etc. Há cerca de trinta anos, o marxismo ainda nem sequer predominava na Alemanha, onde prevaleciam, para falarmos com propriedade, opi­ niões de transição, mistas, eclécticas, entre o socia­ lismo pequeno-burguês e o socialismo proletário. E nos países latinos, em França, em Espanha, na Bélgica, as doutrinas mais difundidas entre os ope­ rários avançados eram o proudhonismo, o blanquismo e o anarquismo, que exprimiam claramente o ponto • de vista do pequeno-burguês e não do proletariado.

A que se deve esta rápida e completa vitória do marxismo, precisamente nos últimos decênios? Toda a evolução, tanto econômica como política, das so­ ciedades contemporâneas, e toda a experiência do movimento revolucionário e da luta das classes opri­ midas, confirmaram cada vez mais a justeza das idéias marxistas. A decadência da pequena burgue­ sia trará consigo inevitavelmente, mais tarde ou mais cedO', o desaparecimento de todos os preconcei­ tos pequeno-burgueses. A evolução do capitalismo e a agudização da luta de classes no seio' da sociedade capitalista foram a melhor agitação em prol das idéias do socialismo proletário. O atraso' da Rússia explica logicamente a grande consistência que têm no nosso país diversas doutri­ nas retrógradas do socialismo. Toda a história do pensamento revolucionário russo durante o último quarto de século é a história da luta do marxismo contra o socialismo populista pequeno-burguês, E se o rápido crescimento e os êxitos surpreendentes do movimento operário russo também já deram ao mar­ xismo a vitória na Rússia, por outro lado o desen­ volvimento de um movimento camponês indubita­ velmente revolucionário — sobretudo depois dos célebres levantamentos camponeses de 1902 na Pequena Rússia— suscitou certa reanimação do populismo1 senil e decrépito. O velho- populismo, remoçado peto oportunismo europeu em moda (o revisionismo, o bernsteinismo e a crítica da teoria de Marx), constitui toda a bagagem ideológica original
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dos chamados socialistas revolucionários. Daí o motivo por que a questão camponesa ocupa o lugar principal nas disputas dos marxistas, tanto com os populistas puros como com os socialistas revolucio­ nários. O populismo foi até certo ponto uma doutrina perfeita e conseqüente. Negava-se o domínio do capi­ talismo na Rússia; negava-se o papel dos operários fa b r is como lutadores avançados de todo o proleta­ riado ; negava-se a importância da revolução política e da liberdade política burguesa; apregoava-se a revolução „socialista imediata, baseada na comuni­ dade camponesa com a sua pequena propriedade. De toda esta doutrina completa hoje só restam frag­ mentos. Mas para compreender conscientemente as disputas presentes e impedir que se convertam em guerra aberta é necessário ter sempre em conta as bases populistas gerais e fundamentais dos desvios cometidos pelos nossos socialistas revolucionários. O homem do futuro, na Rússia, é o mujique, pen­ savam os populistas, e esta opinião inferia-se inevi­ tavelmente da confiança no carácter socialista da comunidade rural e da desconfiança nos destinos do capitalismo. O homem do futuro, na Rússia, é o operário, pensavam os marxistas, e a evolução do capitalismo russo, tanto na agricultura como na indústria, confirma cada vez mais as suas opiniões. O movimento operário na Rússia obrigou agora a reconhecerem-no; pelo que se refere ao movimento camponês, todo* o abismo existente entre o populismo
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e o marxismo continua a manifestar-se até este mo­ mento na diferente compreensão deste movimento. Para o populista, o movimento camponês refuta pre­ cisamente o marxismo, é um movimento a favor da revolução* socialista imediata, não reconhece nenhuma liberdade política burguesa, não parte da grande economia, mas sim da pequena. Para o populista, em suma, o movimento camponês é um movimento ver­ dadeiramente socialista, autêntica e directamente socialista. A fé populista na comunidade rural e o anarquismo populista explicam por completo a ine­ vitabilidade destas conclusões. Para o marxista, o movimento camponês é preci­ samente um movimenta não socialista e siim demo­ crático. Ê na Rússia, como aconteceu noutros países, um acompanhante indispensável da revolução demo­ crática, burguesa devido ao seu conteúdo económico-social. Esse movimento não se orienta absoluta­ mente nada contra as bases do regime burguês, contra a economia mercantil, contra o capital. Pelo contrário, orienta-se contra as velhas relações de servidão pré-capitalistas no campo e contra a pro­ priedade agrária latifundiária como principal ponto de apoio de todas as sobrevivências do regime de servidão. Por isso, a vitória completa de tal movi­ mento camponês não eliminará o capitalismo, antes pelo contrário criará uma base mais ampla para o seu desenvolvimento, acelerará e agudizará a evolu­ ção puramente capitalista. A vitória completa de uma insurreição camponesa só pode criar um ba­
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luarte da república democrática burguesa, em que precisamente se desenvolverá pela primeira vez em toda a sua pureza â luta do proletariado contra a burguesia. São, pois, estas as cluas opiniões antagônicas que deve compreender com clareza quem desejar orientar-se no abismo que separa no campo dos princípios os socialistas revolucionários e os sociais-democratas. Segundo uma opinião, o movimento camponês é socialista; segundo outra, é um movimento democrático-burguês. Por aqui se pode ver a grande ignorância de que dão mostras os nossos socialistas revolucionários ao •repetirem pela centésima vez (comparemos, por exemplo, o n.° 75 do Revolutsionnaya Rossia) que algumas vezes os marxistas orto­ doxos «ignoraram» (não quiseram saber para nada) a questão> camponesa. Só existe um meio de lutar contra semelhante ignorância supina: repetir o ABC, expor as velhas idéias consequentemente populistas, indicar pela centésima ou milésima vez que a dife­ rença verdadeira não consiste no desejo ou na falta de desejo de ter em conta a questão camponesa, no seu conhecimento ou omissão, mas sim na diferente apreciação do presente movimento camponês e da actual questão camponesa na Rússia. Quem diz que os marxistas «fizeram caso omisso» da questão cam­ ponesa na Rússia é, em primeiro lugar, um perfeito ignorante, pois as principais obras dos marxistas russos, a começar pelo livro de Plekhanov intitulado As Nossas Discrepâncias, publicado há mais de vinte
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anos, foram primordialmente dedicadas a explicar o carácter errôneo das idéias populistas na questão camponesa russa. Em segundo lugar, quem diz que os marxistas «fizeram caso omisso» da questão campo­ nesa demonstra a sua tendência para fugir à aprecia­ ção completa da verdadeira discrepância de princípio : é ou não é democrático-burguês o actual movimento camponês? Está ou não está orientado, pelo seu significado objectivo, contra os restos do regime da servidão ? Os socialistas revolucionários nunca deram, nem podem dar, uma resposta clara e exacta a esta per­ gunta, pois perdem-se irremediavelmente entre a velha opinião populista e a actual opinião' marxista acerca do problema camponês na Rússia. Os mar­ xistas dizem que os socialistas revolucionários man­ têm o ponto de vista da pequena burguesia (e deno­ minam-nos ideólogos da pequena burguesia) preci­ samente porque estes não conseguem desembara­ çar-se das ilusões pequeno-burguesas, das fantasias do populismo, na apreciação do movimento camponês. Aí está porque nos vemos obrigados a repetir o bê-á-bá. A que aspira o actual movimento camponês na Rússia? Ã terra e à liberdade. Que significado terá a vitória completa deste movimento? Ao conse­ guir a liberdade, acabará com o domínio dos latifun­ diários e dos funcionários na administração do Estado. Ao conseguir a terra, entregará aos campo­ neses as terras dos latifundiários. Acabará com a economia mercantil a liberdade total e a expropria8

ção total dos latifundiários (confiscação das suas terras) ? Não, não acabará com ela. Acabará a liber­ dade total e a expropriação total dos latifundiários com as propriedades camponesas individuais na terra comunal ou na terra «socializada»? Não, não acabará com elas, Acabará a liberdade total e a expropriação total dos latifundiários com o profundo abismo exis­ tente entre o camponês rico, dono de muitos cavalos e vacas, e o trabalhador rural, o jomaleiro, quer dizer, entre a burguesia rural e o proletariado agrí­ cola? Não, não acabará com ele. Pelo contrário, quanto maig completa for a derrota e a liquidação do escalão superior (latifundiário), mais profundo terá o desentendimento de classe entre a burguesia e o proletariado. Que importância terá a vitória com­ pleta da insurreição camponesa no tocante ao seu significado objectivo ? Essa vitória varrerá por com­ pleto todos os restos do regime da servidão, mas não acabará com o regime econômico burguês, não aca­ bará com o capitalismo nem com a divisão da socie­ dade em classes, em ricos e pobres, em burguesia e proletariado. Por que motivo o actual movimento camponês é um movimento democrático-burguês? Porque ao acabar com o poder dos funcionários e dos latifundiários criará um regime democrático na socie­ dade sem modificar a base burguesa dessa sociedade democrática, sem pôr termo ao domínio do capital. Qual deve ser a atitude do operário consciente, do socialista, perante o actual movimento camponês? Deve apoiar esse movimento, ajudar com a maior
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energia os camponeses, ajudá-los até ao fim. a desem­ baraçarem-se tanto do poder dos funcionários como do dos latifundiários. Mas ao mesmo tempo deve explicar aos camponeses que não basta desembara­ çarem-se do poder dos funcionários e dos latifun­ diários. Ao fazerem isso é necessário prepararem-se, simultaneamente, para destruir o poder do capital, o poder da burguesia. E para esse fim há que difundir sem demora a doutrina inteiramente socialista, quer dizer, marxista, e unir, tornar coesos e organizar os proprietários agrícolas para a luta contra a bur­ guesia camponesa e contra toda a burguesia da Rússia. Pode o operário consciente esquecer a luta democrática nas aras da luta socialista ou vice-versa? Não, o operário consciente chama-se social-democrata precisamente porque compreendeu a relação existente entre uma e outra luta. Sabe que o único caminho para chegar ao socialismo passa pela demo­ cracia, pela liberdade política. Por isso busca a rea­ lização completa e conseqüente da democracia a fim de atingir o objectivo final, o socialismo. Porque não são iguais as condições da luta democrática e da luta socialista? Porque numa e noutra luta os operários terão infalivelmente aliados diferentes. Travam a luta democrática juntamente com uma parte da bur­ guesia, sobretudo da pequena burguesia. Travam a luta socialista contra toda a burguesia. A luta contra os funcionários e os latifundiários pode e deve ser travada juntamente com todos os camponeses, incluindo os ricos e os remediados. E a luta contra
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a burguesia e portanto contra os camponeses ricos só pode ser travada com a maior segurança junta­ mente com o proletariado agrícola. Se recordarmos toda^ estas verdades elementares do marxismo, a cuja análise os socialistas revolucio­ nários preferem sempre fugir, dificilmente aceitare­ mos as suas seguintes objecções («novíssimas») contra o marxismo. «Só Alá sabe», exclama o Revolutsionnaya Rossia (n.° 75), «por que motivo era necessário apoiar o camponês em geral contra o latifundiário e depois (quer dizer, ao mesmo tempo) o proletariado contra o camponês em geral, em lugar de se apoiar de uma vez o proletariado contra o latifundiário, e que tem o marxismo a ver com tudo isso!» Isto constitui o <ponto de vista do anarquismo mais primitivoi e puerilmente ingênuo. A Humanidade sonha desde há muitosi séculos, talvez desde há mui­ tos milênios, destruir «de uma vez» toda a explo­ ração. Mas esses sonhos continuaram a ser sonhos até que milhões de explorados; se começaram a unir em todo o Mundo a fim de sustentarem uma luta conseqüente, firme e multíplice para transformar a sociedade capitalista na direcção do* próprio desen­ volvimento dessa sociedade. Os sonhos socialistas transformaram-se na luta socialista de milhões de seres unicamente quando o socialismo científico de Marx vinculou as aspirações transformadoras à luta de determinada classe. Fora da luta de classes, o socialismo é uma palavra vazia ou um sonho
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ingênuo. E na Rússia temos diante dos olhos duas lutas diferentes de duas forças sociais diversas. O proletariado luta contra a burguesia em toda a parte onde existem relações de produção capitalistas (e essas relações existem — seja dito para conhe­ cimento dos nossos socialistas revolucionários — até na comunidade camponesa, quer dizer, na terra mais «socializada», do seu ponto de vista). O campesinato, como camada de pequenos proprietários da terra, de pequenos burgueses, luta contra todos os restos do regime da servidão, contra os funcionários e os lati­ fundiários. Só pessoas qua desconhecem em absoluto a economia política e a história das revoluções no Mundo inteiro são capazes de não ver estas duas guerras sociais, diferentes e de natureza diversa. Fechar os olhos à diferença destas duas guerras recorrendo às palavras «de uma vez» significa escon­ der a cabeça debaixo da asa e renunciar a toda a análise da realidade. Carecidos da integridade de opiniões do velho populismo, os socialistas revolucionários esqueceram até muitas coisa;-; da doutrina dos próprios popu­ listas. «A.o ajudar o campesinato a expropriar os lati­ fundiários», escreve o Revolutsionmya Rossia no mesmo artigo, «o Sr. Lémine contribui inconsciente­ mente para a instauração da economia pequeno-bur­ guesa sobre as ruínas de formas já mais ou menos evoluídas de economia agrícola capitalista. Não é isso um passo atrás do ponto de vista do marxismo ortodoxo ?»
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Tenham vergonha, meus senhores! Esqueceram-se do seu próprio Sr. V. V.! Consultem a sua obra Os Destinos do Capitalismo, os Ensaios do Sr. Nikolai-on e outros trabalhos que constituem a fonte da sua sabedoria e verificarão que a propriedade lati­ fundiária russa contém em si aspectos capitalistas e do regime da servidão. Descobrirão então que existe o sistema de pagamento' em trabalho, essa reminiscência evidente do serviço braçal. E se além disso folhearem um livro marxista ortodoxo como o ter­ ceiro tomo de 0 Capital, de Marx, encontrarão lá que o desenvolvimento da propriedade rústica baseada no serviço braçal e a sua transformação em capita­ lista não se efectuou em parte alguma, nem se podia efectuar, a não ser através da propriedade campo­ nesa pequeno-burguesa. Para denegrir o marxismo, os senhores procedem de uma maneira muito sim­ ples, há muito tempo desmascarada: atribuem ao marxismo a opinião simplista e caricatural da subs­ tituição directa da grande propriedade baseada no serviço braçal pela grande propriedade capitalista! Os senhores raciocinam assim: as colheitas dos lati­ fundiários são maiores do que as dos camponeses; portanto, a expropriação dos latifundiários repre­ senta um passo atrás. Esse raciocínio é de um primarismo confrangedor. Pensem, senhores, não terá constituído «um passo atrás» separar a terra cam­ ponesa de pouco rendimento da dos latifundiários de grande rendimento durante a queda do regime da servidão?
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A propriedade latifundiária moderna russa contém em si aspectos capitalistas e do regime da servidão. A luta actual dos camponeses contra os latifundiá­ rios é, pelo seu -significado objectivo, uma luta contra os restos do regime da servidão. Mas tentar contar todos os casos isolados e sopesar cada um deles, determinar com a precisão de uma balança de far­ mácia onde termina exactamente o regime da ser­ vidão e começa o capitalismo puro, significa da parte dos senhores atribuírem aos marxistas o seu próprio pedantismo. No preço dos produtos compra­ dos a um pequeno retalhista não podemos calcular que parte representa o valor criado pelo trabalho e que parte a especulação, etc. Significa isto, senho­ res, que se deva atirar pela borda fora a teoria do valor criado pelo trabalho? A propriedade latifundiária moderna contém em si aspectos capitalistas e do regime da servidão. Só os pedantes podem extrair disto a conclusão de qúe o nosso dever consiste em sopesar, contar e inscrever cada aspecto em cada caso isolado, consoante o seu carácter social. Só os utopistas podem extrair distoa conclusão de que «não há nenhuma razão» para diferenciarmos as duas lutas sociais distintas. O que se depreende disto, na realidade, é a conclusão — e unicamente esta conclusão— de que tanto no nosso programa como na nossa táctica devemos juntar a luta puramente proletária contra o- capitalismo à luta democrática geral (e camponesa geral) contra a servidão. u

Quanto mais desenvolvidos estiverem os aspectos capitalistas da moderna propriedade latifundiária de semi-serviaão, tanto mais imperiosa será a neces­ sidade de organizar independentemente' o proletariado agrícola, pois maior será a rapidez com que apare­ cerá em cena, durante qualquer confiscação, o anta­ gonismo puramente capitalista ou puramente pro­ letário. Quanto mais acentuados forem os aspectos capitalistas da propriedade latifundiária, tanto mais rapidamente a confiscação democrática levará à verdadeira luta pelo socialismo e portanto mais peri­ gosa será a "falsa idealização da revolução democrá­ tica efectuada com o auxílio do palavrão «sociali­ zação». Aqui têm a conclusão que se extrai do entre­ laçamento do capitalismo com o regime da servidão na propriedade latifundiária. Portanto, há que ligar a luta puramente proletária com a luta camponesa geral, mas sem as confundir. Há que apoiar a luta democrática geral e a luta cam­ ponesa geral, mas sem de modo algum fundir com aquela esta luta, que não é de classes, sem a idealizar com palavrões falazes como socialização, sem esque­ cer um só momento a organização do proletariado urbano e do proletariado agrícola num partido social-democrata classista completamente independente. A o apoiar até ao fim o mais decidido democratismo, esse partido não se deixará desviar do caminho revo­ lucionário por sonhos reaccionários e experiências de «igualitarismios» na economia mercantil. Hoje, os camponeses travam com os latifundiários uma luta
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revolucionária; no momento actual da evolução econômica e política, a confiscação das terras dos latifundiários é revolucionária em todos os sentidos* e nós apoiamos essa medida revolucionário-demo­ crática. Mas chamar «socialização» a tal medida, enganarmo-nos a nós próprios e enganarmos o povo com a possibilidade do usufruto «igualitário» do solo na economia mercantil, constitui uma utopia reaccionária pequeno-burguesa que deixamos aos socialistas reaccionários.

Proletari, n.° 24, de 7 de N ovem bro (25 de O utubro) de 1905. T. 12, págs. 39-48.

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ACERCA DOS COMPROMISSOS

Em política, chama-se compromisso à concessão feita em certas circunstâncias, à renúncia a uma parte das próprias reivindicações, em virtude de um acordo com outro partido. A ideia que o vulgo tem habitualmente! acerca dos bolcheviques, sustentada pelas calúnias da imprensa, consiste em que estes nunca se prestam a compro­ misso algum com ninguém. Tal ideia é lisonjeira para nós, como partido do proletariado revolucionário, pois demonstra que até os inimigos se vêem obrigados a reconhecer a nossa fidelidade aos princípios fundamentais do socialismo e da revolução. Mas, apesar de tudo, há que dizer a verdade: essa ideia não corresponde aos factos. Engels tinha razão quando na sua crítica ao mani­ festo dos blanquistas da Comuna (no ano de 1873) ridicularizava a declaração destes: «Nenhum com­ promisso!» Isto não passa de uma frase, dizia ele, pois os compromissos de um partido em luta são amiúde inevitavelmente impostos pelas circunstân­ cias e é absurdo renunciar de uma vez para sempre «a cobrar a dívida em. prestações». O dever de um n
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partido autenticamente revolucionário não consiste em proclamar impossível a aceitação de qualquer compromisso, mas sim em saber cumprir fielmente através ãe todos os compromissos — na medida em que sejam inevitáveis—■os deveres impostos pelos seus princípios, pela sua classe, pela sua missão revo­ lucionária, pela sua obra de preparar a revolução e educar as massas populares para o triunfo da revolução. Por exemplo: participar na III e IV Duma era um compromisso, uma renúncia temporária às reivindi­ cações revolucionárias. Mas era um compromisso absolutamente forçoso, pois a correlação de forças aconselhava-nos a pôr de parte, durante certo tempo, a luta revolucionária de massas, e para a sua ampla preparação era necessário saber trabalhar até da parte ãe dentro de semelhante «estábulo». E a his­ tória demonstrou que era correcto os bolcheviques, como partido, colocarem o problema em tais termos. Agora, o problema imediato não é um compromisso imposto e sim um compromisso voluntário. O nosso Partido, como qualquer outro partido político, aspira a conquistar o domínio' político para si. A nossa meta é a ditadura do proletariado revolucionário. Seis meses de revolução confirmaram com extraordinária clareza, força e eloqüência a jus­ teza e a inevitabilidade de tal exigência, precisa­ mente no interesse da revolução em vista, pois o povo não pode obter doutro modo nem uma paz democrática, nem a terra para os camponeses, nem
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completa liberdade (uma república inteiramente democrática). O curso dos acontecimentos no meio ano da nossa revolução, a luta de classes e dos par­ tidos, a evolução das crises de 20-21 de Abril, 9-10 e 18-19 de Junho, 3-5 de Julho e 27-31 de Agosto demonstraram e revelaram que era assim. Agora verificou-se na revolução russa uma vira­ gem tão brusca e original que, como partido, podemos propor um compromisso voluntário, é certo que não à burguesia, nosso directo e principal inimigo de classe, mas sim aos nossos adversários mais próxi­ mos, os «principais» partidos da democracia pequeno-burguesa, os eseristas e os mencheviques. Como uma mera excepção, apenas forçados por uma situação especial que, evidentemente, se man­ terá tão-só durante pouco tempo, podemos propor um compromisso a esses partidos e, na minha opi­ nião, devemos fazê-lo. É um compromisso da nossa parte regressar às nossas reivindicações anteriores a Julho: todo o poder aos Sovietes, formação de um governo de eseristas e mencheviques responsável perante os Sovietes. Agora, só agora, e talvez apenas durante poucos dias ou por uma ou duas semanas, seria possível constituir e firmar de modo absolutamente pacífico um governo desse gênero. Muito provavelmente, poder-se-ia ter como certo um movimento' pacífico de avanço de toda a revolução russa e oferecer-se-iam extraordinárias possibilidades de o movimento mun19

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diàl avançar a passos largos para a paz e para o triunfo do socialismo. Só em nome desta evolução pacífica da revolução — possibilidade extraordinariamente rara na História e extraordinariamente valiosa, excepcionalmente rara —, só em nome dela podem e devem,' em meu entender, os bolcheviques partidários da revolução mundial e dos métodos revolucionários aceitar seme­ lhantes compromissos. O compromisso consistiria em os bolcheviques, sem pretenderem participar no governo (coisa impossível para um internacionalista enquanto se não realizarem efectivamente as condições da ditadura do proleta­ riado e dos camponeses pobres), renunciarem a exigir imediatamente a entrega do Poder ao proletariado e aos camponeses pobres e a pôr em prática os mé­ todos revolucionários de luta por essa reivindicação. A condição, de per si evidente e que não represen­ taria novidade alguma para os eseristas e os mencheviques, seria a plena liberdade de agitação e a convocação da Assembleia Constituinte, sem novas dilações e até num prazo mais breve. Como bloco governamental, os mencheviques e os eseristas consentiriam (na hipótese de se concre­ tizar o compromisso) em formar um governo inteira e exclusivamente responsável perante os Sovietes e passariam para as mãos destes todo o Poder também nas províncias. Nisso consistiria a «nova» condição. Penso que os bolcheviques não proporiam outras con­ dições, confiados em que uma verdadeira e completa
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liberdade de agitação e a imediata aplicação de novos princípios democráticos na composição dos Sovietes (novas eleições) e no seu funcionamento garanti­ riam de per si a evolução pacífica da revolução e poriam praticamente fim às lutas partidárias no seio dos Sovietes. Talvez isto seja já impossível? Talvez. Mas no caso de existir ainda que seja apenas uma probabili­ dade em cem, valeria a pena tentá-lo. Que ganhariam ambas as partes «contratantes», quer dizer, os bolcheviques por um lado e o bloco dos eseristas e mencheviques por outro, com este «com­ promisso»? Se nenhuma das duas partes ganhasse nada, seria necessário reconhecer a impossibilidade do compromisso e então não valeria a pena falar mais nele. Mas, por mais difícil que seja agora (depois de Julho e Agosto, dois meses que eqüivalem a duas décadas de um período «pacífico» e sono­ lento) esse compromisso, parece-me que existe uma pequena probabilidade de o pôr em prática, e essa probabilidade é dada pela decisão dos eseristas e dos mencheviques de não entrarem num governo de que façam parte os democratas constitucionalistas. Os bolcheviques ficariam a ganhar, pois obteriam a possibilidade de realizar com absoluta liberdade a propaganda das suas opiniões e de, em condições efectiva e inteiramente democráticas, procurarem conquistar influência nos Sovietes. Por palavras, «todos» reconhecem hoje essa liberdade aos bolche­ viques; mas na prática ela é impossível com um
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governo burguês ou em que participe a burguesia, com um governo que não seja soviético. Com um governo soviético essa liberdade seria possível (não dizemos garantida com segurança, mas sim possível). Por essa possibilidade valeria a pena decidirmo-nos, num momento tão difícil, por um compromisso com a maioria actual dos Sovietes. Numa verdadeira democracia, nada temos a recear, pois a vida está connosco e até a forma como se desenvolvem as correntes dentro dos partidos dos eseristas e dos mencheviques, que nos são hostis, confirma que estamos no caminho certo. Os mencheviques e os eseristas também ficariam a ganhar ao receberem imediatamente a plena possi­ bilidade de realizar o programa doj seu bloco, apoian­ do-se com conhecimento de causa na enorme maioria do povo e garantindo-se a utilização «pacífica» da sua maioria nos Sovietes. Claro que desse bloco — heterogêneo por ser bloçp, e também porque a democracia pequeno-burguesa é sempre menos homogênea do que a burguesia e do que o proletariado — se ergueriam provavelmente duas vozes. Uma voz diria: o nosso caminho não coincide de nenhum modo com o dos bolcheviques, com o do pro­ letariado revolucionário. De todas as maneiras este exigirá mais do que a conta e arrastará demagogieamente os camponeses pobres. Exigirá a paz e o rom­ pimento' com os aliados. Isso é impossível. Estamos mais identificados e mais seguros com a burguesia,

porque não no® separámos dela, apenas nos desen­ tendemos durante algum tempo e unicamente devido ao incidente Kornilov. Zangámo-nos, mas acabare­ mos por nos reconciliar. De resto, os bolcheviques não nos fazem nenhuma «concessão», visto os seus planos de insurreição estarem de todos os modos condenados à derrota, como a Comuna de 1871. Outra voz diria: a referência à Cbmuna é muito superficial e até estúpida, porque, em primeiro lugar, os bolcheviques alguma coisa aprenderam desde 1871 e agora não deixariam de se apoderar dos bancos nem hesitariam em marchar sobre Versalhes ; e em tais condições até a Cbmuna poderia ter triunfado. Além disso, a Comuna não podia oferecer imediata­ mente' ao povo tudo o que lhe poderão oferecer os bolcheviques se obtiverem o Poder, ou seja: a terra para os camponeses, a proposta imediata da paz, controlo efectivo da produção, paz honesta com os Ucranianos e com os Finlandeses, etc. Falando em termos vulgares, os bolcheviques têm dez vezes mais «trunfos» nas mãos do que a Comuna. Em segundo lugar, a Comuna significa de todos os modos uma penosa guerra civil, tuna prolongada interrupção do desenvolvimento cultural pacífico depois dela, faci­ lita as operações e as manobras de todos os suces­ sores de Macmahon e Kornilov e tais operações ameaçam toda a nossa sociedade burguesa. Será sensato correr o risco da Cbmuna? Mas a Comuna será inevitável na Rússia se não tomarmos o Poder, se as coisas continuarem na
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mesma situação difícil em que estiveram de 6 de Maio a 31 de Agosto. Todo o operário e soldado revo­ lucionário pensará inevitavelmente na Comuna, terá fé nela, tentará inevitavelmente pô-la em prática, raciocinando assim: o povo morre, a guerra, a fome e a ruína prossegue a sua marcha. A salvação reside apenas na Comuna. Pereceremos, morreremos todos, mas faremos da Comuna uma realidade. Tais pensamentos são inevitáveis nos operários e desta vez não se conseguirá vencer a Comuna tão facilmente como em 1871. A Comuna russa terá em todo o Mundo aliados cem vezes mais fortes do que em 1871... Será sensato corrermos o risco da Cbmuna ? Também não posso concordar que, no fundo, os bolcheviques não nos concedam nada com o seu com­ promisso, pois em todos os países civilizados os mi­ nistros inteligentes atribuem grande valor a qualquer acordo, por pequeno que seja, com o proletariado, durante a guerra. Reconhecem-lhe uma importância muito, muito grande. Trata-se de gente prática, de autênticos ministros, De resto, os bolcheviques forta­ lecem-se com bastante rapidez, apesar das repres­ sões, apesar da fraqueza da sua imprensa... Será sensato corrermos o risco da Comuna? Temos uma maioria garantida e ainda não está assim tão próximo o despertar do campesinato pobre ; temos tempo suficiente. Não creio que a maioria siga os extremistas num país essencialmente agrícola.

E contra uma maioria segura, numa república verda­ deiramente democrática, a insurreição é impossível. Assim falaria a segunda voz. Talvez se encontre uma terceira voz entre alguns partidários de Martov ou de Spiridonova, que diga: indigna-me, «camaradas», que ao raciocinarem acerca da Comuna e da possibilidade da sua existência ambos se coloquem sem hesitar ao lado dos seus adversários, um de uma forma e o outro de outra, mas ambos do lado dos que esmagaram a Comuna. Não irei fazer agitação pela Comuna, não posso pro­ meter de antemão que combaterei nas suas fileiras, como fará qualquer bolchevique, mas apesar disso devo dizer que se a Comuna surgir a despeito dos meus esforços, mais depressa ajudarei os seus defen­ sores do que os seus adversários... A discordância no «bloco» é grande e inevitável, pois na democracia pequeno-burguesa está represen­ tado um mundo de matizes, desde um perfeito bur­ guês absolutamente ministrável até um semimendigo ainda não completamente apto a adoptar o ponto de vista do proletariado. E ninguém sabe qual será em cada momento dado o resultado dessa discordância.

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As linhas precedentes foram escritas na sexta-feira, dia 1 de Setembro, e devido a circunstâncias casuais (a História dirá que no tempo de Kerenski nem todos os bolcheviques tinham o direito de fixar

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livremente a sua residência) não chegaram à redac­ ção nesse mesmo dia. E depoisi de ler os jornais de sábado e de hoje, digo para comigo: talvez seja dema­ siado tarde para propor um compromisso. Talvez tenham passado também os poucos dias em que ainda era possível uma evolução pacífica. Sim, tudo indica que já passaram. De uma maneira ou de outra, Kerenski afastar-se-á do partido eserista e dos ese­ ristas e firmar-se-á com o auxílio dos burgueses, sem, os eseristas, graças à inacção destes... Sim, tudo indica que já passaram os dias em que seria ocasio­ nalmente possível o caminho da evolução pacífica. Só me resta enviar estas notas à redacção e pedir-lhe que as intitule assim: Pensamentos Tardios... Ãs vezes, talvez possa ter certo interesse conhecer alguns pensamentos tardios. 3 de Setembro de 1917.

E scrito em 1-3 (14-16) de Setem bro ãe 1917. P u blicado em 19 (6) ãe Setem bro ãe 1917 no n .“ 3 de R abochi Put. Assinado: N. Lénine. — T. 25, págs. 282-287.

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ACERCA DA COOPERAÇÃO I Parece-me que não prestamos suficiente atenção à cooperação. É pouco provável que todos compreen­ dam que a partir da Revolução de Outubro e inde­ pendentemente da Nep (pelo contrário, neste sentido dever-se-ia dizer: precisamente graças à Nep) a cooperação adquire no nosso país uma importância verdadeiramente extraordinária. Nos sonhos dos velhos cooperadores há muita fantasia. São com fre­ quência cômicos, pelo que têm de fantásticos. Mas em que consiste o seu carácter fantástico? No facto de as pessoas não compreenderem a importância fundamental, essencial, da luta política da classe operária para aniquilar o domínio dos exploradores. Agora é já um facto esse aniquilamento, e muito do que parecia fantástico, mesmo romântico e até trivial nos sonhos dos velhos cooperadores, converte-se numa realidade sem artifícios. Cbm efeito, sendo a classe operária senhora do poder do Estado no nosso país e pertencendo a esse poder estatal todos os meios de produção, na rea­

lidade só nos resta a tarefa de organizar a popu­ lação em cooperativas. Conseguindo a máxima orga­ nização dos trabalhadores em cooperativas, atinge por si mesmo o seu objectivo aquele socialismo que dantes provocava zombarias justificadas, sorrisos e uma atitude de desprezo por parte daqueles que estavam convencidos, e com razão, da necessidade da luta de classes, da luta pelo poder político, etc. Ora bem, nem todos os camaradas se dão conta da importância gigantesca e incomensurável que adquire agora para nós a organização cooperativa na Rússia. Côm a Nep fizemos uma concessão ao camponês na sua qualidade de comerciante, uma concessão ao prin­ cípio do comércio privado; é precisamente daí que emana (ao contrário do que alguns julgam) a impor­ tância gigantesca da cooperação. No fundo, tudo o que necessitamos é organizar em cooperativas a população russa, num grau suficientemente amplo e profundo, durante a dominação da Nep, pois agora encontrámos o grau de conjugação dos interesses particulares, dos interesses comerciais privados, com os interesses gerais, os métodos de comprovação e controlo dos interesses particulares pelo Estado e o grau da sua subordinação aos interesses gerais, o que anteriormente constituiu um escolho para muitos socialistas. Com efeito, todos os grandes meios de produção em poder do Estado e o poder do Estado nas mãos do proletariado ; a aliança desse mesmo proletariado com milhões e milhões de pequenos e
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muito pequenos camponeses; a direcção dos campo­ neses pelo proletariado, etc. — não é, porventura, tudo o que se necessita para edificar a sociedade socialista completa, partindo da cooperação, e exclusi­ vamente da cooperação, à qual dantes chamávamos mercantilismo e agora, sob 9. Nep, merece também, de certo modo, o mesmo nome? Não é, porventura, isto tudo o que se torna indispensável para edificar a sociedade socialista completa? Isto não é ainda a edificação da sociedade socialista, mas é o indis­ pensável e o suficiente para tal edificação. Pois bem, esta circunstância é depreciada por muitos dos nossos militantes dedicados ao trabalho prático. Entre nós sente-se menosprezo pela coope­ ração, sem se compreender a excepcional importância que tem, em primeiro lugar do ponto de vista dos princípios (a propriedade dos meios de produção nas mãos do Estado), e em segundo lugar do ponto de vista da passagem a uma nova ordem de coisas pelo caminho mais simples,. fácil e acessível para o campesimato. E nisto, uma vez mais, reside o essencial. Uma coisa é fantasiar sobre toda a espécie de associações operárias para a construção do socialismo e outra é aprender na prática a construir esse socialismo, de tal modo que cada pequeno camponês possa cola­ borar nessa construção. Chegámos agora a esse degrau, e é indubitável que, uma vez alcançado, o aproveitamos muito pouco.
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Ao passarmos à Nep excedemo-nos, não no sentido de dedicarmos demasiado espaço ao princípio da indústria e do comércio livres, mas sim no sentido de que nos esquecemos da cooperação, não a conside­ ramos agora o suficiente e começámos já a esquecer a sua importância gigantesca nos dois aspectos do sèu significado atrás indicados. Proponho-me agora conversar com o leitor acerca do que se pode e deve fazer praticamente de momento, partindo desse princípio «cooperativo». Com que recursos se pode e deve começar a desenvolver hoje esse princípio «cooperativo», de tal modo que para todos e para cada um seja evidente o seu significado socialista? É necessário organizar politicamente a cooperação de sorte que não só desfrute em todos os casos de certas vantagens, mas também que estas sejam de índole puramente material (o tipo de juro bancá­ rio, etc.). É necessário conceder à cooperação cré­ ditos do Estado que superem, ainda que pouco, os concedidos às empresas privadas, elevando-os inclusivamente até ao nível dosi créditos destinados à indús­ tria pesada, etc. Qualquer regime social surge exclusivamente com o apoio financeiro de determinada classe. Escusado será recordar as centenas e centenas de milhões de rublos que custou o desabrochar do «livre» capita­ lismo. Agora devemos compreender, para agirmos em conformidade, que o regime social a que no presente
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devemos prestar apoio extraordinário é o regime cooperativo. Mas é necessário apoiá-lo no verdadeiro sentido da palavra, quer dizer, não basta entender como tal apoio a ajuda prestada a qualquer inter­ câmbio cooperativo, mas sim que por tal apoio se deve entender o prestado a um intercâmbio coopera­ tivo em que participam efectivamente verdadeiras massas da população. Conceder um bônus ao cam­ ponês que participe no intercâmbio cooperativo é, sem dúvida, uma forma acertada, mas ao mesmo tempo é necessário, verificar essa participação e até que ponto é consciente e valiosa; nisso- reside a chave da questão. Quando um cooperador chega a uma aldeia e organiza um armazém cooperativo, a popu­ lação-, falando estritamente, não participa nisso de modo- algum, mas ao mesmo tempo e guiada pelo seu próprio interesse, apressa-se a tentar a sua parti­ cipação. Esta questão tem também outro aspecto. Falta-nos fazer muito pouco, do ponto de vista de um europeu «civilizado» (acima de tudo, do que saiba ler e es­ crever) para a população inteira participar, e não de uma maneira passiva, mas sim activa, nas opera­ ções das cooperativas. A bem dizer, falta-nos só uma coisa: elevar a nossa população a tal grau de «civili­ zação» que compreenda todas as vantagens da parti­ cipação de todos nas cooperativas e que organize essa participação. Só isto. Não necessitamos agora de nenhuma outra espécie de sabedoria para passarmos 31

ao socialismo. Mas para realizarmos esse «só» é necessária toda uma revolução, toda uma etapa de desenvolvimento cultural das massas do povo. Pelo mesmo motivo, a nossa norma deve ser: a menor quantidade possível de lucubrações e a menor quan­ tidade de artifícios. Neste sentido a Nep representa já um progresso, pois adapta-se ao nível do camponês mais comum e não lhe exige nada superior. Mas para conseguirmos, por intermédio da Nep, que tome parte nas cooperativas o conjunto da população, necessi­ tamos de todo um período histórico. Na melhor das hipóteses, poderemos percorrer esse período em um ou dois decênios, Mas será um período histórico especial, e sem passarmos por esse período histórico, sem conseguirmos que todos saibam ler e escrever, sem um grau suficiente de compreensão, sem habi­ tuarmos em grau suficiente a população à leitura de livros e sem uma base material para isso, sem certas garantias, digamos, contra as más colheitas, contra a fome, etc.— sem isso não poderemos alcançar o nosso objectivo. Toda a questão reside agora em sabermos combinar esse impulso revolucionário, esse entusiasmo revolucionário, que já revelámos com suficiente amplitude e vimos coroado de completo êxito, em sabermos combiná-lo com a capacidade de ser (aqui estou quase disposto a dizê-lo) um mer­ cador inteligente e instruído, o que é perfeitamente suficiente para se ser um bom cooperador. Por capa­ cidade para ser um bom mercador entendo o saber

ser um mercador culto. Que tenham isto bem pre­ sente os Russos ou simplesmente os camponeses que julgam que pelo facto de comerciarem já sabem ser comerciantes. Isso é absohitamente errado. Comer­ ciam, mas daí a saberem ser comerciantes cultos vai uma grande distância. Agora comerciam em estilo asiático, ao passo que para se saber ser comerciante se deve comerciar em estilo europeu. E dieso sepa­ ra-os todo um período. Termino: há que conceder uma série de privilé­ gios econômicos, financeiros e bancários à coopera­ ção; nisto deve consistir o apoio prestado pelo nosso Estado socialista ao novo princípio de organização da população. Mas com isto o problema só está colo­ cado em linhas gerais, pois ainda permanece inde­ terminado e por desenvolver pormenorizadamente o aspecto prático do problema: quer dizer, há que saber encontrar a forma dos «bónus» (e as condições da sua entrega) que concederemos pelo trabalho realizado em prol da cooperação, a forma dos «bónus» que nos permita prestar uma ajuda sufi­ ciente às cooperativas e preparar cooperadores cul­ tos. Ora bem, quando os meios de produção perten­ cem à sociedade, quando é um facto o triunfo de classe do proletariado sobre a burguesia, o regime dos cooperadores cultos é o regime socialista. 4 de Janeiro de 1923.

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Sempre que escrevi qualquer coisa acerca da nova política econômica, citei o meu artigo de 1918 acerca do capitalismo de Estado. Isto, em mais de uma ocasião, despertou dúvidas entre alguns camaradas jovens. Mas as suas dúvidas giravam sobretudo à volta de questões políticas abstractas, Achavam que se não devia qualificar de capita­ lismo de Estado um regime em que os meios de pro­ dução pertencem à classe operária e no qual esta é senhora do poder estatal. Contudo, não se davam conta de que eu utilizava o qualificativo' «capita­ lismo de Estado» em 'primeiro lugar para estabelecer a relação histórica da nossa posição actual com a posição ocupada na minha polêmica contra os cha­ mados comunistas de esquerda; e também já então' demonstrei que o capitalismo de Estado seria supe­ rior à nossa economia de hoje. O importante para mim era estabelecer a continuidade entre o habitual capitalismo de Estado e aquele extraordinário, mesmo excessivamente extraordinário capitalismo' de Es­ tado a que me referi ao introduzir o leitor na nova política econômica. Em segunão< lugar, para mim sempre foi de grande importância o objectivo prá­ tico. E o objectivo' prático da nossa nova política econômica consistia na obtenção de concessões — concessões que sem dúvida alguma, nas nossas con­ dições, seriam já um tipo puro de capitalismo de

Estado. Aqui têm em que aspecto tratava eu a questão do capitalismo de Estado. Mas existe ainda outro aspecto* da questão pelo qual poderíamos necessitar do capitalismo de Es­ tado, ou pelo menos traçar um paralelo com este. Trata-se da cooperação. Ê indubitável que a cooperação, nas condições do Estado capitalista, representa uma instituição capi­ talista colectiva. Também não há dúvida que nas condições da nossa actual realidade econômica quando juntamos as gmpresas capitalistas privadas — mas não doutro modo que não seja na base da terra socializada e debaixo do controlo do poder do Es­ tado, pertencente à classe operária—1 com as em­ presas de tipo consequentemente socialista (quando tanto os meios de produção como o solo em, que se encontra implantada a empresa e toda ela no seu conjunto pertence ao Estado) surge a questão de um terceiro tipo de empresas, que anteriormente não eram independentes do ponto de vista da sua im­ portância de princípios, a saber: as empresas coope­ rativas. No capitalismo privado, as empresas coope­ rativas diferenciam-se das empresas capitalistas, como as empresas colectivas se diferenciam das pri­ vadas. N o* capitalismo de Estado, as empresas coope­ rativas diferenciam-se das empresas capitalistas de Estado, em primeiro lugar por serem empresas pri­ vadas e em segundo lugar por serem empresas colec­ tivas. No nosso regime actual, as empresas coopera­ tivas diferenciam-se das empresas capitalistas pri­
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vadas por serem empresas colectivas, mas não se diferenciam das empresas socialistas sempre e quando se baseiem numa terra e empreguem meios de pro­ dução pertencentes ao Estado, quer dizer, è classe operária. Não tomamos esta circunstância suficientemente em conta quando discutimos acerca da cooperação. Esquece-se que a cooperação adquire no nosso país, devido à peculiaridade do nosso regime político, uma importância verdadeiramente excepcional. Se puser­ mos de parte as concessões, que evidentemente não alcançaram no nosso país desenvolvimento impor­ tante, sob as nossas condições, a cooperação coincide a cada passo e plenamente com o socialismo. Explico a minha ideia. Em que consiste o caracter fantástico dos planos dos velhos cooperativistas, a começar por Roberto Owen? Em que sonhavam com a transformação pacífica da sociedade moderna por meio do socialismo, sem terem em conta questões tão fundamentais como a luta de classes, a conquista do poder político pela classe operária, o aniquila­ mento da dominação da classe dos exploradores. E por isso temos razão para considerar tal socia­ lismo «cooperativo» uma pura fantasia, qualquer coisa romântica e até trivial pelos seus sonhos de transformar, mediante um simples agrupamento da população' em cooperativas, os inimigos de classe em colaboradoresi de classe e a guerra de classes em paz de classes (a chamada paz civil).
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Indubitavelmente, do ponto de vista da tarefa fundamental na actualidade, nós tínhamos razão, pois sem a luta de classes pelo poder político do Es­ tado o socialismo não pode ser realizado. Mas reparem como se modificou agora a questão, uma vez que o poder do Estado se encontra nas mãos da classe operária, uma vez que o poder político dos exploradores foi aniquilado e todos os meios de pro­ dução (excepto aqueles que o Estado operário, voluntária e condicionalmente, dá por certo tempo em concessão aos exploradores) estão- nas mãos da classe operária. Agora temos o direito de afirmar que para nós o simples desenvolvimento da cooperação se identifica (salvo- a «pequena» excepção atrás indicada) com o desenvolvimento do socialismo-, e ao mesmo- tempo vemo-nos obrigados a reconhecer a mudança radical produzida em todo o nosso ponto de vista acerca do socialismo. Essa mudança radical consiste em que anteriormente colocávamos e devíamos colocar o centro de gravidade na luta política, na revolução-, na conquista do poder, etc., ao passo que actualmente o centro de gravidade muda até se deslocar para o trabalho pacífico de organização «cultural». E estou disposto a dizer que o centro de gravidade se trans­ feriria no nosso país para a obra de cultura, se não fossem as relações internacionais, se não- fosse por termos de lutar pelas nossas posições em escala in­ ternacional. Mas se pusermos essa questão de parte e nos limitarmos às nossas relações econômicas
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internas, na realidade o centro de gravidade do tra­ balho resume-se hoje à obra cultural. Temos diante de nós duas tarefas principais, que representam toda uma época. Uma é a tarefa de re­ fazer o nosso aparelho, que não serve agora .absolu­ tamente para nada e que recebemos integralmente da época anterior; não conseguimos refazê-lo seria­ mente em cinco anos de luta, nem o podíamos con­ seguir. A nossa segunda tarefa consiste no nosso trabalho cultural entre os camponeses. E esse tra­ balho cultural entre os camponeses persegue preci­ samente, como objectivo econômico, a cooperação. Se pudéssemos organizar nas cooperativas toda a população, já estaríamos com ambos os pés no solo socialista. Mas esta condição, a de organizarmos toda a população em cooperativas, pressupõe em si tal grau de cultura dos camponeses (precisamente dos camponeses, como uma massa imensa) que essa cooperação completa é impossível sem uma não* menos completa, revolução cultural. Os nossos adversários têm-nos dito mais de uma vez que empreendemos uma obra descabelada ao im­ plantar o socialismo num país de cultura insuficiente. Mas enganam-se; não- começámos pela ordem devida segundo a teoria (de todo um grupo de pedantes), e a revolução política e social precedeu, no nosso país, a revolução cultural — essa revolução cultural pe­ rante a qual, apesar de tudo, nos encontramos agora. Hoje basta-nos esta revolução cultural para nos convertermos num país completamente socialista,

mas tal revolução cultural apresenta incríveis difi­ culdades para nós, tanto no aspecto puramente cul­ tural (pois somos analfabetos) como no aspecto material (pois para se sej* culto é necessário certo desenvolvimento dos meios materiais de produção, necessita-se de certa base material).
6 de Janeiro de 1923.

Publicado pela prim eira vez nos dias 26 e 27 de Maio ã e 1923, nos n.°* 115 e 116 ã o Pravda. Assinaão: N. Lénine. T. 45, págs. 369-377.

SEBO DO MARCÃO BARUERII

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www.sebodomarcao.com.br/barueri;

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