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Gostar X

Amar
Descubra o verbo que define melhor o seu relacionamento
BEL1SÁRIO MARQUES

Todos nós, de uma ou de outra maneira, já confundimos o que sentimos em relação a


outras pessoas. Além da premissa tradicional "amor X paixão", há outra dualidade que costuma
figurar com certa frequência nos relacionamentos. Amar ou gostar: qual verbo define
corretamente o tipo de afeto que sentimos pelos outros?
Em primeiro lugar, é preciso estabelecer que amar e gostar não pertencem à mesma dimensão.
Não se passa de uma experiência para a outra; são vivências diferentes. É possível amar sem
gostar e gostar sem amar. A pessoa que pensa que amar e gostar são a mesma coisa, está pronta
para se machucar.
O AMOR
Amar é um princípio que se fortalece com o tempo. Por mais que se tente desvendar a sua com-
plexidade, menos palavras encontramos para descrevê-lo. Uma coisa é certa: achar que existe amor à
primeira vista é uma ilusão. Quando alguém se vangloria de que foi amor à primeira vista, está é
expressando sua ânsia de ser amado.
A pessoa pode, isso sim, se sentir atraída por outra assim que a vê - mas isso não é amor, é
atração. Amor é um processo complicado que ocorre em relações especiais. Ele demora a se
desenvolver entre duas pessoas e exige muito investimento dos mais variados recursos disponíveis
aos seres humanos.
Ao contrário da paixão - que fantasia, idealiza e, também, desaparece facilmente - o amor
prospera em longo prazo. As características novas que vão sendo descobertas pelo conhecimento
não são negadas nem distorcidas. As diferenças vão sendo negociadas e compreendidas. As
experiências vividas juntos vão provocando mudanças, adaptações, transformações, crescimento.
E um aperfeiçoamento que evolui com a preocupação pelo bem mútuo, que é cada vez mais
praticado, visando o crescimento do ser amado.
Amar não é sentimento; é atitude. Não é impulso; é vocação. Não é emoção; é vontade. Não é
afeição; é determinação. Não é querer só o próprio bem; é querer o bem do outro. Não é só
satisfazer as próprias necessidades; é satisfazer a necessidade do outro também. Não é
preocupação só consigo mesmo; é também preocupação com o outro.
É por isso que o amor não acaba. O amor é um ato de vontade. É voluntário. É uma questão de
querer e não de sentir. É o exercício da vontade para o bem do outro. Assim, dá até para
entender a ordem de "amar os inimigos".

O GOSTAR
Sobre o gostar, sabe-se que ele pode ser formado sem a pessoa ter consciência do que está
acontecendo. É um sentimento incontrolável no seu aparecimento. Torna-se admi-nistrável
apenas depois que aparece. Ele pode ser mais forte quando não se está prestando atenção do que
quando se está atento. É, portanto, um processo automático, independente da consciência. Está
muito mais sujeito aos mecanismos dos sentidos. Daí as preferências, devido à impressão dos
sentidos ou ao condicionamento.
Mesmo sendo automático, há várias condições que contribuem para o gostar. O psicólogo
norte-americano Sidney Jourard as resume em dois fatores: necessidades e valores. Realmente, a
pessoa gosta de quem satisfaz as suas necessidades. Percebemos ou pensamos no objeto gostado,
quando a necessidade se manifesta. É por isso que gostamos mais de certos tipos de pessoas
que de outros. Já em relação aos valores, a pessoa gosta mais das coisas que correspondem a seus
ideais, crenças e alvos. O que se encaixa, conforma ou está de acordo com os valores é apreciado; o
que se desvia é depreciado.
Assim, no gostar, há um prazer subjetivo e uma reação afetiva mediada por regiões
específicas do cérebro, sensíveis a estímulos específicos. Quando estes estímulos se fazem
presentes, o organismo reage com algum tipo de afeto ou sentimento. Se o estímulo for
agradável, "gostável", o indivíduo vai buscá-lo, vai se aproximar dele. Se for desagradável,
"desgostável", o indivíduo vai evitá-lo, se afastar dele. Temos, então, dois estados: um desejado e
outro indesejado. O sentimento brota quando os resultados desejados são alcançados ou evitados
e quando as incertezas e dificuldades são vencidas.
Gostar, portanto, é um componente afetivo a uma expectativa de reviver uma experiência
passada. O objeto presente ou algum aspecto dele produziu satisfação no passado ou estava
associado a outro que a produziu.

EQUILÍBRIO
Juntando satisfação, necessidade, valores, crenças e alvos, podemos compreender que a
relação ínti-
ma nada mais é do que uma troca equilibrada de benefícios. O esposo que beneficia a esposa
contribui para ela gostar dele. Em contraponto, leva-a a retornar o benefício. Assim, a
relação de gostar é alimentada. Há prazer de estar junto, perto um do outro.
Em contraponto, o benefício precisa partir de uma pessoa altruísta, generosa e liberal, que
o pratica com espontaneidade. Daí, então, o benefício vai ser acreditado, aceito e
agradecido. Sem estes componentes, o benefício não é reconhecido. Quando flui
naturalmente, ele motiva a retribuição, formando uma cadeia positiva de interações agra-
dáveis. Ele alimenta a troca entre os parceiros e mantém o equilíbrio da relação. Há
correspondência de aceitação mútua, apoio, admiração e veneração um pelo outro, com-
panheirismo e incentivo nas horas difíceis, cortesia e tato no trato.
Uma situação assim torna aprazível o viver, porque é mais agradável, há sintonia de
sentimentos, harmonia de pensamentos, tolerância pelas atitudes, respeito pelas
inclinações. Porém, sobretudo, há correspondência nas manifestações positivas.
Dessa forma, em uma relação sadia, reina o gostar e o amar. Reina o querer perto e o
querer bem. Reina o sentimento e a razão. Um corrige o outro. Por isso exige coragem para
correr o risco de ser ferido e determinação para a aventura da felicidade.
Lembre-se de que querer ser gostado e amado por todos é uma ilusão que leva à
frustração. Achar que pode gostar e amar a todos é um belo superficialismo, uma tremenda
hipocrisia. Tentar qualquer esforço nessa direção é certeza plena de fracasso, tifr

Belisário Marques é doutor em Psicologia


DEZEMBRO 2006
VIDA E SAÚDE 49