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D EFENSORIA P ÚBLICA DO E STADO DE S ÃO P AULO EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ

DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA SEGUNDA VARA CRIMINAL CENTRAL DA CAPITAL - SP

Processo 0049277-49.2011.8.26.0050 Controle nº 1612/11

COSMERINDO JARDIM DA SILVA, devidamente qualificado nos autos em epígrafe, na AÇÃO PENAL que lhe move o Ministério Público, vem à presença de Vossa Excelência, por seu Defensor, que esta subscreve, apresentar sua RESPOSTA À ACUSAÇÃO.

De início, há que se ressaltar que o denunciado deve ser absolvido sumariamente, na medida em que, não obstante tenha sido preso em flagrante por supostamente portar arma de fogo sem permissão, o fato é que, por ser Guarda Civil Metropolitano, o acusado tinha sim a autorização para porte do instrumento.

Isso porque ele é Guarda Civil Metropolitano na cidade de Itaquaquecetuba/SP, onde a Câmara dos Vereadores aprovou a Lei Municipal n. 2.777 de 2010, que confere ao corpo de guardas municipais daquela cidade o porte de arma.

O acusado, contudo, foi abordado na fronteira entre os municípios de Itaquaquecetuba e São Paulo, por Policiais Militares do Estado

D EFENSORIA P ÚBLICA DO E STADO DE S ÃO P AULO de São Paulo, que

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de São Paulo, que não tinham a consciência de que, em Itaquaquecetuba, a Guarda Civil tem permissão para o porte de arma.

Note-se que o local da abordagem é irrelevante, pois a lei municipal de Itaquaquecetuba é norma cujo âmbito de incidência dá-se pelo critério da pessoalidade, ou seja, aplica-se rationae personae.

Os

servidores

públicos

vinculados

a

determinado

Município, ainda que exercendo funções em outra comarca, estão

submetidos às normas administrativas e legais daquele município.

Assim, o fato é que a conduta é flagrantemente atípica, dada a existência de permissão legal para o porte da arma.

Ainda

que

se

questione,

contudo, a competência

legislativa do município para atribuir porte de arma a algum servidor, é certo

que, para efeitos penais, o conflito de competência não pode prejudicar o cidadão que se escora em uma lei regularmente aprovada e sancionada.

Ainda

que

a

lei

Municipal

seja

possivelmente

questionável quanto à sua regularidade e conformidade à competências constitucional para produção legislativa, é certo que o acusado não tinha como ter ciência de que a conduta por ele praticada era proibida.

Em

seu

interrogatório,

o

acusado

afirmou

que

o

interrogado de imediato disse: ‘sou guarda civil’. Mesmo assim foi revistado

D EFENSORIA P ÚBLICA DO E STADO DE S ÃO P AULO e em sua cintura

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e em sua cintura sua arma pessoal, uma pistola semi automatica marca Imbel, a qual, estava municiada, porém sem munição na câmara.” (fls. 06).

Dessa forma, por ser um guarda civil metropolitano na cidade de Itaquaquecetuba/SP, o denunciado acreditou que poderia portar sua arma normalmente, uma vez que o seu uso era autorizado por lei municipal.

Ora, se de um lado ninguém pode ignorar a existência formal da lei, pode faltar ao sujeito o potencial conhecimento da proibição contida, levando-o a atuar com o desconhecimento do injusto, existindo assim, o erro de proibição, que incide na ilicitude do fato, sobretudo, conforme supramencionado, pelo fato de que a conduta perpetuada é comum entre todos os seus colegas de profissão.

Ocorre que, no caso em apreço, o denunciado acreditou que poderia portar a arma normalmente, uma vez que o artigo 1º da Lei Municipal nº 2.777/10 de Itaquaquecetuba/SP (doc. anexo) garante ao guarda civil metropolitano o porte de arma de fogo.

Assim,

no município em que reside

e labora,

uma lei que autoriza o porte de armas para guardas civis

metropolitanos, razão pela qual acreditou que poderia portá-la.

No mais, a sua crença foi reforçada pelo fato de que o

seu colega, Roberto Luciano Ferreira

dos Santos, conseguiu um salvo-

D EFENSORIA P ÚBLICA DO E STADO DE S ÃO P AULO conduto da 1ª Vara

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conduto da 1ª Vara Criminal da Comarca de Itaquaquecetuba/SP (Proc. 977/11), reforçando a sua crença de que poderia portar normalmente o artefato apreendida (doc. anexo).

E mais, outro colega seu teve um problema símile na Justiça, mas acabou sendo absolvido sumariamente (Proc. 138/10/1ª Vara da Comarca de Jaguariúna/SP) (doc. anexo), o que apenas reforçou a compreensão do acusado de que poderia portar normalmente a arma, já que dois juízes já se manifestaram no sentido de que a conduta descrita na denúncia não é delituosa.

Desta forma, o fato narrado na denúncia é atípico ou, quando muito, houve erro sobre a ilicitude do fato. Desta forma, pelo contexto narrado, percebe-se que se trata de erro inevitável e, portanto, há exclusão da culpabilidade.

Nesse sentido, os ensinos da melhor doutrina:

“O erro de proibição de modo algum pertence à tipicidade, e nem com ela se vincula, sendo um puro problema de culpabilidade. Chama-se erro de proibição àquele que recai sobre a compreensão da antijuridicidade da conduta. Quando é invencível, isto é, quando com a devida diligência o sujeito não teria podido compreender a antijuridicidade do seu injusto, tem o efeito de liminar a culpabilidade.

D EFENSORIA P ÚBLICA DO E STADO DE S ÃO P AULO ( ) Quando invencível,

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(

)

Quando invencível, o erro de proibição sempre impede

... entendimento da antijuridicidade, mas, às vezes, o faz porque afeta a possibilidade de conhecimento dela, enquanto em outras há conhecimento da antijuridicidade, mas não se pode exigir a sua compreensão ou entendimento. Essa segunda forma de erro de proibição é o erro de compreensão, ou seja, o erro que impede a internalização ou introjeção da norma, por mais que ela seja conhecida.” (ZAFFARONI, Eugenio Raul. Manual de direito penal:

volume 1: parte geral, 9. Ed., São Paulo:RT, 2011, p. 551)

Destarte, o acusado deve ser absolvido sumariamente nos termos do artigo 397, incisos I, II ou III, do Código de Processo Penal,

até mesmo para se garantir a segurança jurídica, uma vez que outros juízos já se manifestaram nesse sentido.

No mais, protesta pela inocência do réu, como restará comprovado no curso do processo, arrolando-se as testemunhas de fls. 02-d, requerendo-se a substituição oportunamente, se necessário.

Finalmente,

o

denunciado asseverou que não

será

necessária a expedição de Carta Precatória para que se proceda ao seu interrogatório, na medida em que, caso seja devidamente intimado, comparecerá a esse Juízo da 2ª Vara Criminal de São Paulo/SP para que se proceda ao ato processual.

D EFENSORIA P ÚBLICA DO E STADO DE S ÃO P AULO São Paulo, 22 de

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São Paulo, 22 de fevereiro de 2012.

BRUNO SHIMIZU

Defensor Público do Estado