Expansão e fragmentação do horizonte estético 1

MARIO PERNIOLA (Universidade de Roma – Tor-Vergata)

Resumo: Propõe-se o conceito de «horizonte estético» como formado por uma aliança entre quatro tipos de investigação, a saber, sobre o belo, sobre a arte, sobre o conhecimento sensível e sobre a educação (i.e., sobre a educação para um «belo estilo de vida»). Em seguida, analisa-se o conjunto de causas e consequências da fragmentação e, finalmente, expansão – designadamente por via dos chamados estudos culturais – desta aliança. Palavras-chave: Estética, horizonte estético, cultura, sociologia cultural, estudos culturais, desinteresse. Abstract: The concept of «aesthetical horizon» is proposed as the result of an alliance between four kinds of investigation: on the beautiful, on art, on sensorial thinking and on education (educating for a beautiful «life style»). The author proceeds by assessing the complex of causes and consequences of the fragmentation and, finally, expansion – namely, through the so-called cultural studies – of this alliance. Key Words: Aesthetics, aesthetical horizon, culture, cultural sociology, cultural studies, disinterestedness.

Tomo como ponto de partida a questão que me foi colocada na carta com que me convidaram para estar presente neste colóquio: qual é a situação da estética contemporânea? Tentarei dar, de imediato, uma resposta extremamente concisa. Por um lado, assiste-se a uma
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1 Traduzido do italiano por Vítor Moura, da Universidade do Minho. Revisão da tradução: António Trigueiros.

DIACRÍTICA, FILOSOFIA E CULTURA, n.º 20/2 (2006), 107-118

o belo pensar e o estilo de vida procuram estabelecer entre eles um pacto vinculativo. Pouco tempo depois. a qual poderia ser descrita como a viragem cultural da estética. a estética nasceu e desenvolveu-se no século XVIII a partir do encontro de quatro problemáticas diferentes. que se poderia descrever como a desconstrução da estética. O horizonte estético Antes de considerar estas tendências. não é errado afirmar-se que o século XVIII é. que tende a incluir sempre novos territórios e objectos de estudo. o belo artístico. o seu carácter unitário. Portanto. a outra em direcção à fragmentação. a situação parece-me ser caracterizada por duas tendências opostas: uma tendendo à expansão. É então que o belo natural. até. independentemente das . mas só foram pensadas na sua relação recíproca a partir do século XVIII. sinto.108 DIACRÍTICA ampliação do horizonte estético. o juízo deixaria de pertencer ao âmbito do conhecimento sensível. O horizonte estético já não é um lugar de paz e de harmonia. de tempos a tempos. Contudo. que. O estilo de vida estético. o século da estética. Os contendores que agem no interior deste horizonte não são individualizáveis de um modo essencialista. Já para Kant. através da qual a estética acabará por se identificar com o estudo da cultura. este acordo durará pouco tempo. Portanto. nunca deixando de ser atravessado por tensões e atritos. o conhecimento e os estilos de vida). justamente. o conhecimento sensível e a educação. torna-se objecto da crítica de Kierkegaard. Schelling e Hegel rompem o acordo entre o belo natural e a arte e consideram que o título Filosofia da Arte seja preferível ao de Estética. no entanto. a arte. por excelência. Naturalmente. abrindo caminho às mais variadas situações estratégicas. a arte. a unidade do horizonte estético estilhaça-se numa multiplicidade de pesquisas e de objectivos. do seu encontro. que Schiller havia identificado com a formação da humanidade. através da qual as noções fundamentais da estética perderão. Como é sabido. O horizonte estético passa a caracterizar-se por um dinamismo permanente. necessidade de esclarecer o que entendo por horizonte estético. tais questões tinham sido já objecto de estudo desde a Antiguidade. que parecem ter pouco a ver uns com os outros. se manifesta em conflitos abertos. A estética enquanto disciplina autónoma nasce. mas um campo de batalha sobre o qual se confrontam e afrontam quatro contendores (o belo. que encabeçam quatro objectos distintos: o belo. Por outro lado.

a arte. como estilo de vida exemplar (até a abjecção). o estético e o estilo de vida exemplar. onde é frequente . a arte. Quem se interroga sobre a sua identidade. organizando.EXPANSÃO E FRAGMENTAÇÃO DO HORIZONTE ESTÉTICO 109 relações que pouco a pouco estabelecem entre si. está claramente separado da realidade efectiva. separadamente das suas relações. Diversamente da moral e da religião. alianças e antagonismos. como estético (até o inestético). quem se interroga sobre o que é a arte. poderia falar-se da liberdade que caracteriza o horizonte estético. o que é o belo. é muito mais fácil enganarmo-nos quanto ao motivo de não existirem normas codificadas. o que é o estético (entendido de uma forma neutra. não é preciso pensar que é possível proceder sem ter em conta a realidade efectiva. a liberdade que vigora no horizonte estético não deve ser confundida com o arbítrio nem com o capricho. Eles não podem ser retirados para fora do horizonte estético no interior do qual nasceram e se desenvolveram. poderia sustentar-se que o horizonte estético tem um carácter simbólico e que. Trata-se aqui de noções abertas e fluidas que se posicionam e se movem no horizonte estético mediante as circunstâncias e as oportunidades. oposto à necessidade que vigora no mundo natural. de vez em quando. o que é a conduta exemplar. acaba por chegar à conclusão desconfortável de que tudo pode ser considerado como belo (até o feio nas suas várias declinações). isto é. na qual se encontram imersos o mundo da técnica. portanto. o qual seria. Quanto ao seu carácter simbólico. que comummente se presume que se encontre regulado pelas leis científicas. Todavia. O belo. de recolher tanto a regra como a excepção. e não tanto por um esprit de géométrie. todavia. concordâncias e contrastes. da política e da economia. Sendo mais regido por um esprit de finesse. precisa. Esta abordagem metodológica. Em jeito de aproximação. de vez em quando. Igualmente em jeito de aproximação. Há. É um facto que as ligações interrelacionadas entre os actores do horizonte estético são muito mais importantes que as suas determinações singulares: cada um deles estabelece e muda a sua própria identidade na base das interacções com os outros. ainda que seja precedida de uma ampla resenha histórica dos vários modos pelos quais foram pensados o belo. Pelo contrário. uma espécie de limite intransponível de cuja manutenção depende a própria existência do horizonte estético. portanto. como o objecto por excelência da disciplina estética). o estético e o estilo de vida exemplar não constituem entidades que existem em si mesmas. como arte (até a anti-arte). corre o risco de não chegar a qualquer resultado. com referência a uma visão estratégica global.

Quanto aos estilos de vida exemplares. O perigo vem antes da retracção da energia emocional e do afundamento na inércia de um consumismo auto-destrutivo. O horizonte estético não deve ser considerado como algo de óbvio. O plano sobre o qual é colocado o horizonte estético é. a pretensão de valer e de se afirmar no mundo segundo dispositivos que são absolutamente diferentes dos dispositivos da guerra. ou antes. simultaneamente. por assim dizer. justamente. ou então de adquirido para sempre. no interior do qual as exigências espirituais e as práticas da vida humana são. no reino das idealidades impotentes e das utopias. reconhecidas e negadas. na idolatria do facto e do acontecimento. a arte e os estilos de vida. ou então se faz apelo ao além e à transcendência. perdem não só toda a sua grandeza fatal. a arte. Pode ser que no futuro cada um dos quatro elementos que o compõem – o belo. de um horizonte bastante particular. não são os fenómenos de degradação em si mesmos que constituem uma ameaça para o horizonte estético. A grandeza estética não nasce do esforço em direcção a metas inatingíveis. . são deslocadas do seu contexto habitual e transferidas para um outro âmbito. inclusive.110 DIACRÍTICA atribuir-se mais importância à pureza da intenção subjectiva que aos resultados efectivos. pode abandonar à futilidade o belo. de descontado. No entanto. caracterizado por um dinamismo excepcional devido à presença simultânea de quatro elementos bastante heterogéneos entre si. o horizonte estético permanece essencialmente mundano. Não é difícil imaginar que o belo acabará por ser absorvido completamente por uma perspectiva hedonístico-cosmética sem qualquer relação com os outros actores do horizonte estético. nem demasiado baixo. Trata-se. mas. portanto. da política e da economia. o horizonte estético atinge frequentemente grande vigor quando desenvolve contraposições. Pelo contrário. toda a possibilidade de constituírem uma moda. A filosofia. Aquilo que o caracteriza é. a partir do momento em que se dissolvem em simples looks. que se assumem momentaneamente. e entrincheirar-se num cientismo acintoso e pretensioso ou numa erudição fechada sobre si mesma. nem da obsessão de vencer a qualquer custo: ela dispõe-se no espaço intermédio entre valores incapazes de ser realidade e realidade privada de esplendor. deixando de ter a possibilidade de se confrontarem e de se enfrentarem. A tendência para transformar a arte num simples business é muito forte na sociedade contemporânea e não é fácil contrariá-la de uma forma eficaz. por sua vez. a filosofia e o estilo de vida exemplar – encetem caminhos completamente independentes uns dos outros. intermédio relativamente aos planos da idealidade e da efectividade: não está nem demasiado alto.

O único ponto sobre o qual se estabeleceu um consenso praticamente unânime é a referência ao dicionário histórico dos conceitos estéticos. mas apenas que as vias através das quais atinge uma longa duração são diferentes das vias ético-religiosas. Todavia. tal como sucede na esfera religiosa e moral. É essencial à própria ideia de conhecimento filosófico o confronto entre diferentes tendências. ninguém pode fazer outra coisa que não seja o reconhecimento e isto é tanto mais válido e firme quanto mais adversas são as partes de que se provém: sem o apreço e a admiração não existe horizonte estético. Frequentemente. um aspecto paradoxal: o seu valor não depende da invariância. mas apenas que as vias mediante as quais chega até à realidade são diferentes das vias político-militares. a anulação da multiplicidade e a aniquilação dos adversários. mas está obviamente no interior de cada um deles. apesar de os santos terem constituído um modelo estético exemplar muito importante. De facto. Os artistas competem não apenas com os outros artistas seus contemporâneos mas. nem a sua força da unidade. mas a este tipo de abordagem escapa necessariamente o . Não existe uma só noção de belo. com efeito.EXPANSÃO E FRAGMENTAÇÃO DO HORIZONTE ESTÉTICO 111 O horizonte estético apresenta. O aspecto agonístico não diz apenas respeito aos quatro elementos que o compõem. como sucede na esfera militar e política. e a esfera estética. caracterizada pela categoricidade e pela permanência. De modo análogo. o estilo de vida exemplar é tal enquanto implicar uma decisão e uma escolha que exclui todas as outras. as relações que percorrem o interior do horizonte estético não são relações bélicas. seguramente. Mas é evidente que o recurso a forças externas com o objectivo de prevalecer no campo estético é objecto de reprovação e de desprezo. cujo objectivo final não é. e em maior medida ainda. propriamente falando. como acontece nas disciplinas científicas. mas muitas noções e todas em concorrência entre si. Assim sendo. Quem se propusesse a tais objectivos. caracterizada pela mundanidade e pelo dinamismo. com os do passado. Finalmente. criticou-se à estética o facto de não fornecer um núcleo de princípios teóricos e de métodos de indagação partilhados pela maioria dos seus cultores. O horizonte estético está cheio de estratégias engenhosas e paradoxais. mas do despontar das diferenças e da novidade. porque. continua a haver uma diferença entre a esfera moral-religiosa. não se trata aqui de uma guerra de todos contra todos. cairia do horizonte estético no horizonte político-militar. Com isto não se pretende afirmar que o horizonte estético não é efectivo. Ele adquire prestígio e poder não da imutabilidade nem do consenso plebiscitário. não se pretende afirmar que o horizonte estético é efémero.

4 volumes. e. o sentir (reportável a Nietzsche). Estes conceitos filosóficos são a vida e a forma (reportáveis a Kant). por fim. Expansão do horizonte estético No meu livro A estética do século XX. Ainda hoje. Duas obras monumentais recentes partilham este projecto: a primeira é a Encyclopedia of Aesthetics.).. Sob o aspecto militante. dirigida por Karlheinz Barck e prevista para ocupar sete grossos volumes 3. ela apresenta-se como uma história de conceitos e. com os estudos culturais e até mesmo com a prática das artes e com as modas. O sentido geral desta tendência é o de considerar a estética como um campo de estudos mais vasto da filosofia. o aspecto científico e o aspecto militante estão ambos presentes: o pensador estético é um pouco cientista e um pouco guerreiro. portanto. Ästhetische Grundbegriffe. A pesquisa estética une em si mesma o aspecto teórico e o prático e é dessa mistura que deriva o seu interesse: é como uma sala que recebe luz de dois lados. 7 volumes. o conhecimento e a acção (reportáveis a Hegel). delineando cinco conceitos fundamentais no interior dos quais se podem arrumar os mais significativos contributos a esta disciplina. procurei fornecer as linhas gerais do horizonte estético deste século. B. dirigida por Michael Kelly e recentemente publicada em quatro grossos volumes 2. Oxford University Press. 1998. Trata-se de obras dife—————————— 2 Michael Kelly. A segunda é a Ästhetische Grundbegriffe.112 DIACRÍTICA aspecto sincrónico das experiências estéticas (e dos respectivos conceitos chave) em concorrência mútua. Metzler. O facto é que. Sob o aspecto científico. para a qual contribuíram mais de quinhentos estudiosos de várias especialidades. Stuttgart-Weimar. . 2000 e ss. no horizonte estético. alargando de modo considerável as fronteiras desta disciplina e mudando as suas características essenciais. encontra-se inteiramente envolvida na discussão sobre os métodos e sobre os fins da historiografia filosófica. a maior parte dos contributos estéticos contemporâneos move-se no interior destas cinco noções. 3 Karlheinz Barck (ed. Este fenómeno tem sido descrito como a viragem cultural da estética. Mas há um número crescente de pesquisas e de estudos que estão a ampliar o horizonte estético. Encyclopedia of Aesthetics. New York-Oxford. tem uma relação de proximidade com as poéticas artísticas. J.

um local de encontro de numerosas disciplinas e de várias tradições culturais. o que caracteriza esta última é o encontra e a mistura de códigos pertencentes a âmbitos diversos: ela desenvolve-se através de uma interacção de signos e de uma incessante deriva de significados. De facto. . em particular em entradas como «Alltägisch. portanto. «jazz». está o princípio barroco do engenho. aesthetics and activism». apresentam alguns aspectos comuns. Encontramos aí um amplo tratamento de fenómenos alternativos e considerados como marginais face à tradição estética. a qual. Pela palavra criticism entende-se. como a «antiart». «Aids. o direito de cada um a exprimir uma avaliação e uma apreciação independentes dos cânones oficiais e das hierarquias convencionais. a «popular culture». de fenómenos que não pertencem à «alta cultura». «sexuality». Procura. geralmente. onde a palavra usada para designar a estética era criticism. a abordagem da estética anglo-saxónica à sociedade e às artes caracteriza-se por um sentido não conformista e por uma ideia de cultura entendida como formação de uma esfera pública discursiva na qual todos podem participar. Alltag». que consiste em aproximar coisas à primeira vista longínquas e em afastar coisas à primeira vista próximas. «rock music». ou que fazem parte da vanguarda artística mais transgressiva. No fundo. é tanto mais original e inovadora quanto mais explora as zonas marginais e os confins dos conhecimentos canónicos. no cânone estético.EXPANSÃO E FRAGMENTAÇÃO DO HORIZONTE ESTÉTICO 113 rentes entre si e com um diferente rigor metodológico. colmatar o hiato existente entre o saber estético e a sociedade contemporânea. Todavia. tem uma abordagem não conformista à problemática estética contemporânea. O que se torna inadequado em relação às solicitações da sociedade contemporânea não é tanto o saber estético tradicional mas mais a sua pretensão teorético-especulativa. «situationist aesthetics». «feminism». Desde o início. A enciclopédia anglo-americana inspira-se explicitamente numa metodologia que considera a estética como um meeting place. a «performance art» ou a «installation art». As origens da actual viragem cultural encontram-se já no século XVIII. em Inglaterra. tais como «lesbian aesthetics». Parece que a estética apenas pode ser frutuosa se conseguir abrir um horizonte epistemológico caracterizado pela flexibilidade. Um tal princípio é ainda mais importante se for aplicado à investigação. como os «comics». com efeito. «iconoclasm and iconophobia». Esta opção não conformista é confirmada pela introdução. «obscenity». por exemplo. «gay aesthetics». cujas entradas são correctas e realmente sensatas. «fashion». assim. Também a obra alemã. na base desta metodologia dos Cultural Studies.

mas que se desenvolve se encontra as condições favoráveis. como o historiador Georg Mosse. A reflexão de Pierre Bourdieu sobre a noção de «desinteresse interessado» é da maior importância. Esta nasce de um excesso. A estratégia teórica da nova síntese estética consiste em tomar sob a égide de uma economia dos bens simbólicos todas as atitudes. na maioria das vezes. «Ekel». «Subkultur». porque expande as fronteiras da estética e lança as premissas de uma nova síntese mais vasta ao ponto de responder ao desafio proveniente da globalização dos saberes e dos conhecimentos. Cada acção se desempenhada com zelo e não por puro servilismo contém. Não se trata. créolité». Kulturindustrie». isto é. a qual não é assim tão nova como pretendem os apoiantes dos Cultural Studies. bem como o de alguns dos seus alunos. no cânone estético. toda uma série de autores e pensadores que são comummente integrados na historiografia ou nas ciências humanas. que toma em consideração até o indivíduo. relativizando as noções de sucesso e de fracasso. de um surplus inutilizado que inicialmente até pode ser muito exíguo. Schock». o pensador japonês Watsuji. «Warenaesthetik. que considerava a cultura como um poder crítico face ao estado e à religião. a possibilidade de ter relações sociais não funcionais. «Erotisch. este excesso.114 DIACRÍTICA «Design». que encontra na arte a sua mais alta manifestação. distanciada e desinteressada. Erotik. filmisch». ou seja. em si mesma. «Medien. numa palavra. Com Burckhardt. e muitos outros. portanto. «Performance». os sociólogos Plessner e Gehlen. parece-me ser importantíssimo para esta ampliação cultural da estética o trabalho do sociólogo francês Pierre Bourdieu. deparamos por detrás da obra alemã com um conhecimento muito maior da história da estética e das origens desta viragem cultural. a segurança das condições materiais de vida. «Film. apenas abre caminho a um confusionismo comunicativo. as acções. de propor uma interdisciplinaridade genérica que. o semiótico Umberto Eco. O pai fundador da estética cultural na Alemanha pode ser considerado Jakob Burckhardt. «Kommunikation». «Schrecken. e. a ausência de repressão. toda a história universal se torna objecto de uma visão estética. Em época mais recente. . os comportamentos. Black Aesthetics. que através dos séculos constituiu o aspecto essencial da experiência estética. definindo-a como a soma total das manifestações do espírito que surgem espontaneamente e não reivindicam nenhuma validade universal e coercitiva. «Négritude. medial». com efeito. todos os habitus guiados por esse «desinteresse interessado». No entanto. A viragem cultural da estética implícita na obra histórica de Burckhardt permite inserir na história da estética do século XX. Erotismus».

Éditions du Seuil. Através desta ampliação é. e que tem no Vocabulário das Instituições Indo-Europeias. por definição. Unicamp. que desde sempre foram consideradas como independentes das contratações explícitas e controladas. Fragmentação do horizonte estético – A esta expansão do horizonte estético corresponde todavia uma linha de tendência oposta. profissionais e burocráticas que implicam. constitui um produto relevantíssimo deste tipo de abordagem metodológica aos problemas da filosofia. é a constatação de que muitos —————————— 4 Vocabulaire Européen des Philosophes. educativas.EXPANSÃO E FRAGMENTAÇÃO DO HORIZONTE ESTÉTICO 115 Sob a estética acabam. assim. possível compreender e apreciar as lógicas que regulam as relações sociais nas chamadas «sociedades tradicionais». não sem razão. Por este motivo. entram na estética as relações familiares. se opõem. que em mil e quinhentas e trinta e duas páginas examina quatrocentas palavras chave das principais línguas europeias. de Émile Benveniste (Campinas. . dirigido por Barbara Cassin. por se encontrar não apenas as artes mas também todas aquelas actividades científicas. de amizade. Dictionnaire des Intraduisibles. as quais. numa estratégia global de resistência e de luta. assim. 1995) o seu modelo inspirador. A estética acaba. e de amor. por fornecer os critérios deontológicos que estabelecem a correcção de qualquer actividade intelectual e sobre os quais se funda o seu prestígio. de resto. realizado sob a direcção de Barbara Cassin 4. mostrando como tais conceitos são inseparáveis das línguas nas quais são expressos. O essencial é começar a retirar das coisas pequenas como das coisas grandes aquele «pensamento único» que pretende aplanar sob o rolo compressor da economia restrita e quantitativa todos os aspectos da existência. portanto. O ponto de partida desta obra. 2004. A nova síntese estética pode fornecer. mas também como fontes de obrigações muito mais exigentes e prolongadas no tempo. a uma colonização que assumiu o aspecto de uma insensata auto-destruição da própria cultura ocidental. as coordenadas teóricas e os instrumentos conceptuais que permitam transformar a crescente sofreguidão face aos meios de comunicação de massas. Paris. liberdade e autonomia face à economia do lucro imediato e das negociações e que se encontram dirigidas à formação de um capital cultural e simbólico não redutível ao capital económico. Dictionnaire des Intraduisibles. O Vocabulaire Européen des Philosophes. que desconstrói os conceitos fundamentais da estética ocidental.

desempenhando. a metodologia seguida nesta obra recusa a posição oposta ao universalismo lógico. A abordagem metodológica que inspira este vocabulário configura-se como uma terceira posição alternativa. como se cada um se encontre legitimado apenas a falar de autores que pertençam à sua língua materna. em cada língua europeia. e simultaneamente. um sintoma bastante significativo de tal reacção. assim. Os conceitos encontrar-se-iam de tal modo radicados na experiência colectiva de um povo que cada tradução ou descontextualização daria lugar ao sub-entendimento e ao mal-entendido. A obra estuda os principais sintomas de diferença entre as línguas e vai à procura dos termos que. tal metodologia implica a recusa do universalismo lógico que defende a existência de um universal lógico. para a Antiguidade. provenientes de estrangeiros. e o Alemão. as línguas filosóficas por excelência seriam o Grego. por um lado. Daí resulta que. de modo algum. o signo de um conceito. que enfatiza a relação entre a filosofia e a língua ao ponto de considerar a meditação filosófica como inseparável da língua na qual se manifesta. não há conceito sem palavra: uma vez que esta última pertence obviamente a uma língua específica. A reacção de suficiência e de altivez com que são recebidos pelas grandes culturas nacionais os contributos. apre- .116 DIACRÍTICA termos da linguagem filosófica estão tão estreitamente ligados às línguas nas quais foram elaborados conceptualmente que resultam intraduzíveis. uma função análoga à do Latim durante quase dois milénios. mas encontra-se radicada na língua. Como explica Barbara Cassin na introdução. O modelo no qual se inspira é o da lógica matemática: na impossibilidade de uma formalização radical da linguagem filosófica. idêntico em todos os lugares e em todos os tempos: pouco importa a língua em que é dito. a condição para uma abordagem metodológica não ingénua à filosofia passa através do estudo do termo singular e da comparação do modo como é traduzido para as outras línguas. o uso de um Inglês internacionalizado (isto é. efectivamente. que lhes dizem respeito. É esta a escolha da corrente analítica da filosofia contemporânea. ou então traduzíveis somente através de um desvio de significado que se torna evidente em cada caso. para a Modernidade. é. Segundo os apoiantes do nacionalismo ontológico. relativamente às duas primeiras. privado das suas características literárias) constitui um compromisso aceitável para os tempos modernos. Todavia. A palavra não é. o nacionalismo ontológico. a qual – segundo Barbara Cassin – une «o angelismo do racional com o militantismo da linguagem vulgar».

entre as quais o Francês. quatros significados diferentes que se entrosam e contaminam de um modo muito complexo. «percepção sensível» (aisthêsis). o Espanhol. A palavra sentido é uma das mais ambíguas do vocabulário filosófico. muito brevemente: 1. o qual dispõe de quatro termos diferentes para indicar estas quatro acepções. Eis o seu elenco.EXPANSÃO E FRAGMENTAÇÃO DO HORIZONTE ESTÉTICO 117 sentam caracteres tão particulares que resultam intraduzíveis. . Tomemos a palavra onde tem origem a estética e a sua tradução nas muitas línguas ocidentais. Traduzimos a palavra sentido para Inglês. Pode dizer-se «I feel a sensation» ou «I feel my mind». para um sentir impessoal. enquanto que o Grego antigo. o Russo. Traduzir feeling por sentir significa uma excessiva substantivação. o Português e o Grego constituem outros tantos lemas autónomos. interroga-se sobre a especificidade da linguagem filosófica das várias culturas nacionais. o Italiano. 4. A esta desobjectivação corresponde uma de-objectivação. Tal polissemia não existe em Grego. como nas expressões muitas vezes recorrentes na obra de Hume: «Something felt». mas muito mal. «compreensão». Foi observado. que o verbo to feel é apenas usado na forma passiva. que é completamente diferente de sentido. cada língua abre para um modo particular de ver o mundo e contém um sistema completo de conceitos que remetem um para o outro. portanto. ao passo que a expressão «sinto uma sensação» constitui um pleonasmo. Mais radicalmente. Em segundo lugar. «percepção intelectual» (nous). A dificuldade de traduzir a palavra feeling não resulta apenas da sua etimologia. em cada termo filosófico de qualquer língua existe uma tensão entre a pretensão à universalidade do conceito e a sua expressão linguística: exactamente sobre tal tensão encontra-se baseada a especificidade da linguagem filosófica relativamente a qualquer outra. é o operador –ing que é intraduzível. sem indicação daquele que sente. Daqui resulta que nem mesmo os conceitos fundamentais da estética escapam a esta desconstrução. de facto. que se pode traduzir. o Hebraico e o Árabe são tratados na entrada «Línguas e tradições». de facto. porque o feeling não tem um objecto pré-estabelecido como tem a sensação. É verdade que sentir é mais impessoal que sentido. Ao mesmo tempo. Feeling remete. Encontramos feeling (de etimologia anglo-saxónica). Ela possui. a estas deve juntar-se ainda «direcção» (como quando. «significado» (sêma). o Inglês. se fala de um sentido proibido). 2. o Latim. Os pressupostos teóricos sobre os quais se encontra construído este vocabulário são dois. 3. na sinalética rodoviária. Em primeiro lugar. por «qualquer coisa de sentido». o Alemão. «sensação».

ao mesmo tempo. a substantivação de um gerúndio. Para exprimir mais correctamente o tipo de experiência neutra e impessoal que constitui o eixo em torno ao qual gira a minha reflexão sobre a afectividade. correndo o risco de regredir de uma metafísica do sujeito (de derivação cartesiana) a uma metafísica da substância. de criar conceitos que iludem o esquema sujeito-objecto no interior do qual permanecemos prisioneiros em línguas que possuem uma marca metafísica. O Inglês. pelo contrário. a saudade. deveria inventar-se uma palavra que a gramática portuguesa não permite. Um outro exemplo é fornecido por uma palavra portuguesa intraduzível. em Italiano. . como um não sentir de todo. o sentir. em Francês e em Alemão.118 DIACRÍTICA mas configura-se ou como uma faculdade sugestiva substancializada ou. ou seja. Trata-se de um termo estético intraduzível para outras línguas. transformar um verbo num substantivo implica. perde-se a dimensão progressiva implícita no operador – ing. ao invés. Na substantivação de um infinito. dá-nos a possibilidade de substantivar sem substancializar. Por outras palavras. o sentindo. substantivá-lo metafisicamente. no caso em que não se consegue imaginar um sentir sem objecto.

designadamente quando Kant preferiu tratar o estatuto do juízo estético separando-o do conhecimento sensível. a política ou a economia. Perniola gostaria de ver recuperada a ligação entre as quatro facetas que compõem este horizonte. muito mais preocupado com os resultados efectivos e materiais do que com as intenções subjectivas. sobre a educação para um «belo estilo de vida»).e. carece de uma «visão estratégica comum» e retira ao domínio estético aquilo que mais claramente o distingue de outras dimensões teóricas como. sobre o conhecimento sensível e sobre o «belo viver» (i. e também se entende melhor que tal liberdade não pode ser desqualificada como simples capricho ou arbítrio. FILOSOFIA E CULTURA. a saber. é marcadamente espiritual mas. 119-121 . Une um aspecto «científico» a um lado guerreiro. sobre o belo. a moral ou a religião. Empenhar-se na investigação de uma faceta sem contemplar as outras três não produz resultados. O acordo entre as quatro dimensões começou a desaparecer no século XVIII. n. por DIACRÍTICA.º 20/2 (2006). por exemplo. Através da mesma ligação é mais fácil compreender como o horizonte estético liga de uma forma única exigências espirituais e práticas da vida humana: é mundano e capaz de desenvolver estratégias de domínio mas sem usar os dispositivos que encontramos na guerra ou na política. Do primeiro resulta a procura analítica de fixação dos conceitos utilizados. sobre a arte..Comentário a Mario Perniola VÍTOR MOURA (Universidade do Minho) Mario Perniola propõe o conceito de «horizonte estético» como uma aliança entre quatro tipos de investigação. e ao contrário da moral ou da religião. A partir da ligação entre as quatro facetas do horizonte estético percebe-se melhor que o mesmo seja caracterizado por uma liberdade que não encontramos em outras actividades humanas.

dificulta – a especificidade do trabalho de fixação e delimitação dos conceitos estéticos. À fragmentação progressiva do horizonte estético – que Perniola lamenta – contrapôs-se. há algo no texto de Perniola que parece contrariar esta sua estratégia. com base no universo das línguas europeias. a Encyclopedia of Aesthetics. uma tentativa de expansão do mesmo horizonte. pelo menos. conhecimento. e Ästhetische Grundbegriffe. uma e outra vez. um elenco de termos com características tão peculiares que os tornam praticamente intraduzíveis. o que leva a encontrarmos repetidas. justamente. um metodológico e outro de objecto. para ser usada como arma de arremesso contra o universalismo lógico de que participa a Encyclopedia of Aesthetics. teorias e modelos explicativos que encontrámos em obras do passado. de manter ligada a reflexão sobre a arte e a análise dos estilos de vida. A ampliação deste horizonte temático é exemplificado por duas obras de edição recente. Ao referir-se a Ästhetische Grundbegriffe. ampliando-o até à dimensão dos chamados «estudos culturais». a obra é útil. Perniola prefere a segunda abordagem. no discurso sobre arte. «sublime» ou «gosto». o que coloca em causa – ou. que remete para a análise do modus vivendi nacional ou cultural onde tem lugar a reflexão sobre a arte. Ao marcar a especificidade do seu significado nativo. dirigida por Karlheinz Barck. alguns dos conceitos-chave da estética. Contudo. A obra Inglesa é acusada de sofrer de dois problemas. como «belo». mais uma vez. Perniola elogia . no entanto. O segundo problema está na definição demasiado abrangente de «cultura» enquanto «esfera pública em que todos participam». de Barbara Cassin. Perniola pretende provar duas coisas: (a) a impossibilidade de uma estética analítica universal e (b) a necessidade. E são cinco os conceitos fundamentais da estética. o que pode redundar numa espécie de «pensamento único» servido pelo «universalismo lógico» e pelo «Inglês internacional» de que se servem os autores da filosofia analítica. Sem pretender cair no extremo do nacionalismo ontológico fundamentado em idiossincrasias linguísticas. como o Inglês «feeling» ou o Italiano «senso». O projecto de Cassin pretende reunir. Entre esses termos encontraríamos. forma.120 DIACRÍTICA exemplo. Contra este «angelismo do racional». Perniola invoca o Vocabulaire Européen des Philosophies. segundo Mario Perniola: vida. «experiência estética». Do segundo resulta uma ligação às poéticas culturais e aos estudos culturais. no século XX. acção e sentir. dirigida por Michael Kennedy. O primeiro caracteriza-se por apresentar os estudos culturais como baseados no princípio barroco do engenho: aproximar o que está afastado e afastar o que está próximo sem grandes cuidados de levantamento histórico.

«Desinteresse» é uma das mais antigas e reflectidas categorias do pensamento estético. É sintomático que Perniola termine o seu texto com as várias dificuldades que permeiam o trabalho de tradução. Como se pudéssemos esperar deles o algoritmo de tradução que permita sustentar acordos sem bases objectivas e insistir. A definição do «desinteresse» participa daquele esforço. na utopia de uma comunidade de gosto. a teoria estética consitui uma experiência de tradução. o segundo reflecte sobre o «desinteresse interessado» que caracteriza todas as actividades culturais. Schopenhauer. o belo. encontrando-se espalhados ao longo de um horizonte que abrange a arte. De facto. Bergson. entre o sensorial e a predicação. A maior virtude do texto de Perniola consiste em recordar-nos que os pólos que importa pôr em acordo são ainda mais vastos do que supomos. As suas advertências finais não são suficientes para que deixemos de testar os conceitos que poderão explicá-los. é um esforço trans-linguístico e trans-cultural importante. Perniola menciona duas definições de cultura que estarão mais próximas desse entendimento. nomeadamente por via da fixação das condições necessárias e conjuntamente suficientes para a sua aplicação. «expressão» ou «forma». em compreensão e em extensão. A procura da sua definição. em boa medida. Ela constitui um tema central na obra de autores tão díspares como Kant. um trabalho sobre protocolos de tradução e um teste às metáforas que usamos para mediar entre sinestesias. Por isso é que a estética sempre se concentrou em torno de termos como «representação». entre formas de arte distintas. Eu opto pela dificuldade dessa primeira pretensão. O primeiro define cultura como o conjunto das actividades do espírito que apresentam uma «visão distanciada e desinteressada». as de Jacob Burckhardt e de Pierre Bourdieu. que se traduz na procura de um acordo sem bases objectivas sobre os termos que utilizamos.COMENTÁRIO A MARIO PERNIOLA 121 o seu maior conhecimento da história da estética ao reconhecer que os «estudos culturais» são bem mais antigos do que pretendem alguns dos seus adeptos contemporâneos. por exemplo. entre diferentes idiomas. cujas bases encontramos em Sócrates. a filosofia e os estilos de vida. talvez um dos mais longos e empenhados da cultura ocidental. em Hume ou em Kant. Croce. . Sintomaticamente. ao preferir ver como é ensaiada a universalidade de certos conceitos e como são continuamente testadas as explicações que concorrem com as idiossincrasias gramaticais. Perniola refere a tensão entre a «pretensão à universalidade dos conceitos» e a sua expressão linguística localizada. Bullough ou Stolnitz.