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Um grito pro silêncio

(o meu receio é que não me entendam)

Hoje grito ao mundo que me vou embora. Vou-me embora de ti.


Vou-me embora da tua vida. Vou-me embora do teu coração!
Deixo-te estas palavras e as chaves que te roubei para poder entrar no teu peito.
Desculpa se estraguei alguma coisa. Desculpa se te pesei. Desculpa se entrei sem
pedir. Desculpa se te amei.
Agora quero ser livre. Viver noutros peitos. Comer outros sabores. Amar outras
vidas. Agora quero ser eu e não ser mais teu.

Deixei meu amor


Sérgio Corrêa

Deixei meu amor partir


Sofri, mas não pude chorar Refrão
Tenho uma vida para conduzir
Não posso abandonar o meu lar.

Ela foi ingrata maltratou meu coração


Que nêga danada até quebrou meu violão
Perdi o chão quando soube que era outro
Que estava tomando conta da situação.

Refrão

Fazia juras, me enchia de carinho


Dizia sempre que queria um menino
Cuidei de tudo, preparei o nosso ninho
Estava pronto pra cumprir o meu destino.

Refrão

Comprei fogão, geladeira e sofá


Cama redonda, abajour, ventilador
Panela nova para a deusa cozinhar
Só esqueci de comprar o seu amor.

Refrão

Apresentei a safada pra família


Cortei o cabelo, mudei todo o visual
Parei com a noite, abandonei a orgia
Só não sabia que ia me dar mal.

Refrão

A mãe de santo já tinha me avisado


“Abre seu olho, o perigo mora ao lado!"
Me fiz de surdo e segui o meu caminho
Perdi a mulher pro safado do vizinho.

Entre o céu e o inferno

Sérgio Corrêa

Nascida em um conto de fadas


Num mundo de risos e gestos
Onde tudo, não vale nada
Onde a vida é feita de restos.
Crescendo na corda bamba
Equilíbrio na linha da vida
Entregou-se ao mundo do samba
Como se essa fosse a melhor saída.
Cantou alegrias, cantou amores
Eternizando esse momento mágico
Tentou aliviar as dores
Para esquecer esse instante trágico.
A dúvida que chega em forma de arte
Cruza com a arte da medicina
Pés na lua, cabeça em Marte
Confundem o sonho dessa menina.
Mas já lhe dizia o poeta, com carinho
“É melhor ser alegre, que ser triste"
Deixe que a sorte marque o seu caminho
“Alegria é a melhor coisa que existe!"

Em negrito, citação de Samba da Bênção - Vinicius de Moraes.

Poesia para minha amiga e fã número 1, Ariana

Sérgio Corrêa

Entre penumbras que se escondes


Há um feixe de luz
Que insiste em realçar seu brilho.
És ébano, és afro
És alegria onde passas.
Tens um sorriso entre parênteses
Sempre pronto para florir
E por falar em flores,
Quantos odores
Quantos amores
Cabem nas pétalas do seu
Bem-me-quer?
Que do seu riso se façam alegrias;
Do seu olhar, canções;
Da sua vida eternidade...
PEDAÇOS DE EMOÇÕES

Sérgio Corrêa

Fragmentos de minha vida...


Volto no tempo e caminho.
Meus passos...
Os estilhaços.
Não se perde no nevoeiro do tempo...
Vozes... Murmúrios... Olhares...
Gestos...
Não, não se perdem os pedaços coloridos de ilusões...
Perco-me em devaneios...
Voltam-me inteiros...
Aqueles dias... Aquelas horas...
Tardes de outrora...
Janelas para o sul... O vento...
O pó da estrada...
Uma risada...
Uma mão... Uma carícia...
Que delícia!
Jardins... Campos em flor...
Retratos... Bilhetes... Cartões.
Quanto amor!
Estou no passado.
Tudo imaculado.
Tão bem guardado.
Só eu tenho chave desta caixa de recordações...
Meu peito guarda o gosto do primeiro beijo.
Guarda um deslizar de mãos. Corpos colados.
Quantas emoções!
Se fecho meus olhos eu trago tudo de volta.
A palavra, o lugar... O modo de amar...
A vida é um eterno armazenar...
Pra depois recordar.

RETRATO ESCRITO

Rabisquei paredes e areia de praias, escrevi bilhetes, memorandos e epitáfios, por vezes
escrevia nas estrelas, em outras escrevia para elas.

Nunca havia me atrevido a enfrentar a brancura do papel para descrever os dias que me
passavam pelos olhos. Quando os poucos limites da folha branca já não mais me
amedrontaram, comecei a fazê-los para um luxo pessoal, como fotografias que ia
tirando de momentos vistos e vividos.

As folhas de papel foram se avolumando e se transformando em incômodas pilhas que,


opostas ao decoro, foram se tornando um estorvo. A limpeza foi ampla, geral e irrestrita;
inevitável. Joguei fora um tanto também de mágoas que, além de limparem os armários,
limparam também o meu coração.

Passei longo tempo sem fazer investidas literárias, até porque nunca me senti realmente
capaz da produção de algo que pudesse merecer grande atenção. Com o advento dos
microcomputadores, retomei o hábito de fotografar o meu cotidiano e do mundo, com as
teclas do meu PC, este sim os guardou e isto ocupando pouquíssimos espaços.

Certa feita um anjo me encorajou a tornar públicas minhas letras, me enchi de coragem
e encarei o desafio de expor os meus retratos em crônicas de um mundo nem sempre tão
real.

Se por acaso outros olhos, que não sejam os meus, em algum dia, entrarem no meu
mundo das palavras, minhas palavras, que sejam iludidos pela "intenção", a minha
intenção de escrever a vida.

INTIMIDADE

Sérgio Corrêa

Podem roubar-me as posses,


Revelarem meus antigos passos,
Publicarem meus escritos e recados,
Condenarem meus pecados e
Exibirem meus recatos.

No inevitável e derradeiro dia,


Tomarão posse de um corpo,
Desnudo, indefeso, moribundo.
Não mais terão detrás deste olho
Minh'alma que se escondera do mundo.

Descubram minhas amizades


Verdadeiras e falsas, e passageiras.
Mas não desvendarão meus segredos,
Ocultos nesta eterna companhia
Que não se rendeu por amores enfermos.

Comigo levarei a intimidade


Dos amores secretos e sofríveis,
Dos desejos mais bizarros e impossíveis,
Das certezas solitárias e da saudade
De quem carregarei até minha eternidade.

Guardada na alma que então flutua


Minha intimidade liberta de armadilhas,
Confidenciada à mudez desta lua
E da errante senhora rapariga,
Levarei ao infinito das noites e dias.
Pois resta-nos somente esta vida:
Uma imaculável intimidade,
Lá dentro da alma, contida.
Fiel e discreta guardiã
Dos mais íntimos e sigilosos pensamentos.

O samba pra mim acabou!


Minha lágrima não vai rolar na avenida
Vai ficar na minha face contida
Lembrando do que já passou.
O samba pra mim acabou!
Não é brincadeira, mas parece absurdo
Não vou mais vibrar com a batida do seu surdo
Nem com o toque marcado do seu agogô.
Quantas vezes sorri ao ver a bandeira bailar
E batia forte no peito exaltando o seu valor?
Hoje em dia já não me emociono mais
Ao ver o rumo que você tomou.
Cantei seus versos, contei sua criação
Vesti suas cores como pele em mutação
Por muitas vezes minha vida misturou-se à sua
Mas não ponho mais o meu bloco em sua rua.
Até a mulata está sumindo do seu espaço
Já estão lhe negando um abraço
O seu samba se perdeu.
Lhe desejo, pro futuro, boa sorte
O leão é um bicho muito forte
Fique com os seus, Velho Estácio, adeus!

Perguntaram-me um dia o que era a poesia


E eu não soube responder
Porque poesia não é mais que magia
Sede de querer e de viver
Que salta dos sonhos do poeta para a vida
Criando ilusões e acendendo os sentidos num bolero apaixonado

Poesia é uma explosão de sentimentos e idéias soltas


Num fogo de artifício colorido e pleno de paixão
Que se transforma de repente em palavras mágicas e transpõe o real
Para o mundo da imaginação, do sonho, da ilusão

Poesia é olhar para o mar plano e calmo


E vê-lo revolto e apaixonado
É olhar para um pôr do sol e ver o futuro em tons de rosa
É olhar para os olhos de uma criança e ver um jardim colorido
É procurar nos olhos de um velho as rugas dos sentimentos
Poesia é aquilo que não se faz... acontece
É algo que não se procura...existe em cada um de nós
É sentir o mundo de forma musical, com a alma e o corpo por inteiro
Com a entrega dos amantes e a procura dos infelizes...

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