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Guerra dos Peloponésios e Atenienses

Péricles, o Discurso Fúnebre: II.37


Tradução de Mário da Gama Kury

M
uitos dos que me precederam conveniente, numa ocasião como esta,
neste lugar fizeram elogios ao dar-lhes este lugar de honra
legislador que acrescentou um rememorando os seus feitos. Na
discurso à cerimônia usual nestas cir- verdade, perpetuando-se em nossa terra
cunstâncias, considerando justo celebrar através de gerações sucessivas, eles, por
também com palavras os mortos na seus méritos, no-la transmitiram livre até
guerra em seus funerais. A mim, todavia, hoje. Se eles são dignos de elogios,
ter-me-ia parecido suficiente, tratando-se nossos pais o são ainda mais, pois
de homens que se mostraram valorosos aumentando a herança recebida,
em atos, manifestar apenas com atos as constituíram o império que agora possu-
honras que lhes prestamos – honras ímos e a duras penas nos deixaram este
como as que hoje presenciastes nesta legado, a nós que estamos aqui e o
cerimônia fúnebre oficial – em vez de temos. Nós mesmos aqui presentes,
deixar o reconhecimento do valor de muitos ainda na plenitude de nossas
tantos homens na dependência do maior forças, contribuímos para fortalecer o
ou menor talento oratório de um só império sob vários aspectos, e demos à
homem. É realmente difícil falar com nossa cidade todos os recursos,
propriedade numa ocasião em que não é tornando-a auto-suficiente na paz e na
possível aquilatar a credibilidade das guerra. Quanto a isto, quer se trate de
palavras do orador. O ouvinte bem feitos militares que nos proporcionaram
informado e disposto favoravelmente esta série de conquistas, ou das ocasiões
pensará talvez que não foi feita a devida em que nós ou nossos pais nos
justiça em face de seus próprios desejos empenhamos em repelir as investidas
e de seu conhecimento dos fatos, guerreiras tanto bárbaras quanto
enquanto outro menos informado, helênicas, pretendo silenciar, para não
ouvindo falar de um feito além de sua me tornar repetitivo aqui diante de
própria capacidade, será levado pela pessoas às quais nada teria a ensinar.
inveja a pensar em algum exagero. De Mencionarei inicialmente os princípios
fato, elogios a outras pessoas são tole- de conduta, o regime de governo e os
ráveis somente até onde cada um se traços de caráter graças aos quais
julga capaz de realizar qualquer dos atos conseguimos chegar à nossa posição
cuja menção está ouvindo; quando vão atual, e depois farei o elogio destes
além disto, provocam a inveja, e com ela homens, pois penso que no momento
a incredulidade. Seja como for, já que presente esta exposição não será
nossos antepassados julgaram boa esta imprópria e que todos vós aqui reunidos,
prática também devo obedecer à lei, e cidadãos e estrangeiros, podereis ouví-la
farei o possível para corresponder à com proveito.
expectativa e às opiniões de cada um de Vivemos sob uma forma de governo
vós. que não se baseia nas instituições de
Falarei primeiro de nossos antepas- nossos vizinhos; ao contrário, servimos
sados, pois é justo e ao mesmo tempo
de modelo a alguns ao invés de imitar Somos também superiores aos
outros. nossos adversários em nosso sistema de
Seu nome, como tudo depende não preparação para a guerra nos seguintes
de poucos mas da maioria, é aspectos: em primeiro lugar, mantemos
democracia. Nela, enquanto no tocante nossa cidade aberta a todo mundo e
às leis todos são iguais para a solução de nunca, por atos discriminatórios, impe-
suas divergências privadas, quando se dimos alguém de conhecer e ver qual-
trata de escolher (se é preciso distinguir quer coisa que, não estando oculta,
em qualquer setor), não é o fato de possa ser vista por um inimigo e ser-lhe
pertencer a uma classe, mas o mérito, útil. Nossa confiança se baseia menos
que dá acesso aos postos mais honrosos; em preparativos e estratagemas que em
inversamente, a pobreza não é razão nossa bravura no momento de agir. Na
para que alguém, sendo capaz de prestar educação, ao contrário de outros que
serviços à cidade, seja impedido de fazê- impõem desde a adolescência exercícios
lo pela obscuridade de sua condição. penosos para estimular a coragem, nós,
Conduzimo-nos liberalmente em com nossa maneira liberal de viver,
nossa vida pública, e não observamos enfrentamos pelo menos tão bem quanto
com uma curiosidade suspicaz a vida eles perigos comparáveis. Eis a prova
privada de nossos concidadãos, pois não disto: os lacedemônios não vêm sós
nos ressentimos com nosso vizinho se quando invadem nosso território, mas
ele age como lhe apraz, nem o olhamos trazem com eles todos os seus aliados,
com ares de reprovação que, embora enquanto nós, quando atacamos o terri-
inócuos, lhe causariam desgosto. Ao tório de nossos vizinhos, não temos
mesmo tempo que evitamos ofender os maiores dificuldades, embora comba-
outros em nosso comvívio privado, em tendo em terra estrangeira, em levar
nossa vida pública nos afastamos da freqüentemente a melhor. Jamais nossas
ilegalidade principalmente por causa de forças se engajaram todas juntas contra
um temor reverente, pois somos um inimigo, pois aos cuidados com a
submissos às autoridades e às leis, frota se soma em terra o envio de
especialmente aquelas promulgadas para contingentes nossos contra numerosos
socorrer os oprimidos e as que, embora objetivos; se os lacedemônios por acaso
não escritas, trazem aos transgressores travam combate com uma parte de
uma desonra visível a todos. nossas tropas e derrotam uns poucos
soldados nossos, vangloriam-se de haver
Instituímos muitos entretenimentos repelido todas as nossas forças; se,
para o alívio da mente fatigada; temos todavia, a vitóroia é nossa, queixam-se
concursos, temos festas religiosas regu- de ter sido vencidos por todos nós. Se,
lares ao longo de todo o ano, e nossas portanto, levando nossa vida amena ao
casas são arranjadas com bom gosto e invés de recorrer a exercícios extenu-
elegância, e o deleite que isto nos traz antes, e confiantes em uma coragem que
todos os dias afasta de nós a tristeza. resulta mais de nossa maneira de viver
Nossa cidade é tão importante que os que da compulsão das leis, estamos
produtos de todas a as terras fluem para sempre dispostos a enfrentar perigos, a
nós, e ainda temos a sorte de colher os vantagem é toda nossa, porque não nos
bons frutos de nossa própria terra com perturbamos antecipando desgraças
certeza de prazer não menor que o ainda não existentes e, chegando o
sentido em relação aos produtos de momento da provação, demonstramos
outras. tanta bravura quanto aqueles que estão
sempre sofrendo; nossa cidade, portanto, gratidão. Em contraste, aquele que deve
é digna de admiração sob esses aspectos é mais negligente em sua amizade,
e muitos outros. sabendo que a sua generosidade, em vez
Somos amantes da beleza sem de lhe trazer reconhecimento, apenas
extravagância e amantes da filosofia sem quitará uma dívida. Enfim, somente nós
indolência. Usamos a riqueza mais como ajudamos os outros sem temer as
uma oportunidade para agir que como consequências, não por mero cálculo de
motivo de vanglória; entre nós não há vantagens que obteríamos, mas pela
vergonha na pobreza, mas a maior confiança inerente à liberdade.
vergonha é não fazer o possível para Em suma, digo que nossa cidade, em
evitá-la. Ver-se-á em uma mesma pessoa seu conjunto, é a escola de toda a Hélade
ao mesmo tempo o interesse em e que, segundo me parece, cada homem
atividades privadas e públicas, e em entre nós poderia, por sua personalidade
outros entre nós que dão atenção própria, mostrar-se auto-sufuciente nas
principalmente aos negócios não se verá mais variadas formas de atividade, com
falta de discernimento em assuntos poli- a maior elegância e naturalidade. E isto
ticos, pois olhamos o homem alheio às não é mero ufanismo inspirado pela
atividades públicas não como alguém ocasião, mas a verdade real, atestada
que cuida apenas de seus próprios pela força mesma de nossa cidade,
interesses, mas como um inútil; nós, adquirida em consequência dessas
cidadãos atenienses, decidimos as qualidades. Com efeito, só Atenas entre
questões públicas por nós mesmos, ou as cidades contemporâneas se mostra
pelo menos nos esforçamos por superior à sua reputação quando posta à
compreendê-las claramente, na crença prova, e só ela jamais suscitou irritação
que não é o debate que é empecilho à nos inimigos que a atacaram, ao verem o
ação, e sim o fato de não se estar autor de sua desgraça, ou o protesto de
esclarecido pelo debate antes de chegar seus súditos porque um chefe indigno os
a hora da ação. Consideramo-nos ainda comanda. Já demos muitas provas de
superiores aos outros homens em outro nosso poder, e certamente não faltam
ponto: somos ousados para agir, mas ao testemunhos disto; seremos portanto
mesmo tempo gostamos de refletir sobre admirados não somente pelos homens de
os riscos que pretendemos correr; para hoje mas também do futuro. Não
outros homens, ao contrário, ousadia necessitamos de um Homero para cantar
significa ignorância e reflexão traz a nossas glórias, nem de qualquer outro
hesitação. Deveriam justamente ser poeta cujos versos poderão talvez
considerados mais corajosos aqueles deleitar no momento, mas que verão a
que, percebendo claramente todos os sua versão dos fatos desacreditada pela
sofrimentos quanto às satisfações realidade. Compelimos todo o mar e
inerentes a uma ação, nem por isso toda a terra a dar passagem à nossa
recuam diante do perigo. Mais ainda: em audácia, e em toda parte plantamos mo-
nobreza de espírito contrastamos com a mentos imorredouros dos males e dos
maioria, pois não é por receber favores, bens que fizemos. Esta, então, é a cidade
mas por fazê-los, que adquirimos pela qual estes homens lutaram e morre-
amigos. De fato, aquele que faz o favor ram nobremente, considerando seu dever
é um amigo mais seguro, por estar não permitir que ela lhes fosse tomada; é
disposto, através de constante bene- natural que todos os sobreviventes, por-
volência para com o beneficiado, a tanto, aceitem de bom grado sofrer por
manter vivo nele o sentimento de ela.”