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PATOLOGIA GERAL - DB-301, UNIDADE I, FOP/UNICAMP

ÁREAS DE SEMIOLOGIA E PATOLOGIA

ATROFIA E NECROSE

Atrofia
Conceito: Atrofia (sem alimento) é a diminuição adquirida do tamanho de uma célula, tecido
ou órgão, com conseqüente diminuição de seu metabolismo ou atividade.

Patogenia: A causa geral da atrofia é a diminuição do metabolismo, devido à falta de


nutrientes ou de estímulos que controlam a atividade celular.
Os principais fatores são:
- diminuição da atividade
- perda da inervação
- diminuição do suprimento sangüíneo
- diminuição da nutrição
- diminuição da estimulação endócrina
- envelhecimento
A nível celular a célula atrófica não é uma célula normal em miniatura, pois suas
funções não são mais realizadas com a mesma intensidade e qualidade. As alterações são
principalmente citoplasmáticas, com o núcleo mantendo o volume normal. Nos tecidos e
órgãos há diminuição do tamanho e/ou número de células, com aumento ou não de estroma
fibroso. No timo e baço ocorre a diminuição do número de células com a idade (atrofia
numérica).
A célula atrófica tem menor quantidade de mitocôndrias e de retículo endoplasmático.
Pode também apresentar vacúolos autofágicos, contendo fragmentos de membranas,
mitocôndrias e R.E. Parte dos restos celulares pode resistir à digestão e persistir como
corpúsculos residuais, como os grânulos de lipofuscina. Quando em quantidade suficiente, a
lipofuscina dá uma coloração parda ao tecido (atrofia parda).
No coração normal a fibra mede 0,8 cm de comprimento, na hipertrofia 2-3cm e na
atrofia 0,5cm. Na atrofia do miocárdio as fibras podem acumular lipofuscina. A lipofuscina é
uma lipoproteína, cujo acúmulo não compromete a função celular. No fígado e em neurônios
também é comum o acúmulo de lipofuscina.

1- Atrofia por inanição


A má nutrição causada pela deficiente ingestão, absorção ou metabolização de
alimentos provoca o emagrecimento geral (caquexia), com conseqüências físicas e mentais. As
principais causas são a fome, anorexia nervosa e câncer.
Os tecidos mais afetados em ordem decrescente são adiposo, muscular e linfático. Em
seguida vem pele, glândulas e ossos. Os mais preservados são pulmões, coração e cérebro.

2- Atrofia senil
Com a idade há atrofia de vários órgãos, como do timo após a puberdade e endométrio e
ovários após a menopausa. As causas do envelhecimento não estão bem estabelecidas, mas
deve haver predominância do catabolismo sobre o anabolismo. São característicos os processos
de ateroesclerose resultando numa circulação menos eficiente e o enrugamento da pele devido a
perda de elasticidade. A polpa dental sofre atrofia após a erupção do dente, com substituição
das células por fibras e calcificações. No idoso o cérebro sofre atrofia, provavelmente devido a
diminuição da circulação, devido a ateroesclerose. Na velhice há redução generalizada dos
órgãos.
Envelhecimento- as causas ainda não estão determinadas, mas considera-se como
importantes:
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-as células têm número limitado de divisões.


-ineficiência de reparo de DNA
-radicais livres
-diminuição de eliminação de proteínas e organelas alteradas
-diminuição de estímulos endócrinos.

3- Atrofia por desuso


A inatividade diminui o metabolismo celular, causando atrofia. O músculo esquelético
sofre atrofia quando não estimulado, ocorrendo hipertrofia quando do exercício físico. A atrofia
muscular de uma perna engessada é reversível. Tecidos glandulares sofrem atrofia e
fibrosamento quando da obstrução dos ductos excretores. No pâncreas, a oclusão dos ductos
resulta em atrofia do tecido acinar, enquanto que as ilhotas de Langerhans continuam normais.

4- Atrofia isquêmica
Ocorre devido a diminuição da circulação, como em casos de trombose.

5- Atrofia por compressão


A pressão sobre um tecido dificulta o seu crescimento, assim como provoca atrofia.
Deve-se considerar também que a pressão estimula a reabsorção óssea e dentária. O
parênquima renal sofre atrofia devido a retenção urinária (hidronefrose).

6- Atrofia endócrina
Tecidos e glândulas dependentes de estímulo hormonal sofrem atrofia na deficiência
dos hormônios na circulação. A atividade da tireóide, adrenais e ovários dependem de
hormônios hipofisários. O tratamento prolongado com corticosteróides diminui a liberação de
ACTH pela pituitária, podendo causar atrofia irreversível do córtex da adrenal.

7- Atrofia por perda de inervação


A atrofia das fibras musculares ocorre quando são denervadas, deixam de ser usadas ou
são privadas de irrigação. As fibras ficam menores, e ao corte transversal mostram aspecto
angulado devido a pressão das fibras adjacentes normais. A redução do volume não é
acompanhada por perda de núcleos, e assim sendo, a densidade nuclear aumenta. As fibras
podem recuperar o tamanho normal.
Na poliomielite há atrofia muscular devido a perda de inervação motora, e na miastenia
grave por diminuição de resposta a acetilcolina.
O testículo, por exemplo, pode sofrer atrofia por várias causas:
1- ateroesclerose do suprimento sangüíneo na senilidade
2- fase final de orquite inflamatória
3- hipopituitarismo (redução de gonadotrofinas)
4- desnutrição generalizada (caquexia)
5- obstrução do fluxo do sêmen
6- irradiação
7- atrofia por exaustão, devido estimulação persistente por níveis elevados de hormônio
hipofisário folículo estimulante.
8- A atrofia testicular também pode ocorrer na síndrome de Klinefelter, com
cromossomos XXY. (atrofia testicular, ginecomastia, ausência de barba e de voz grave).
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Necrose
Necrose é a morte celular no organismo vivo, acompanhada de alterações morfológicas
características. Se o tecido é fixado em formol a 10%, as células estão mortas, mas não
necróticas. A necrose é a manifestação morfológica da lesão celular irreversível.
Necrobiose é a morte natural das células que são constantemente substituídas. Ocorre de
maneira evidente no epitélio de revestimento, sendo imperceptível no fígado onde o processo é
mais lento.
A morte do indivíduo é chamada morte somática e a destruição tecidual por enzimas
intra e extracelulares de AUTÓLISE.

Aspectos morfológicos da necrose


A célula que sofreu necrose apresenta alterações morfológicas que indicam que morreu.
O citoplasma perde as afinidades tintoriais, tornando-se eosinófilo. A eosinofilia é devida a
perda do RNA citoplasmático, e a afinidade da eosina à proteínas desnaturadas (a basofilia do
citoplasma é dada pelo RNA, como ocorre nos hepatócitos e plasmócitos).
A alteração mais precoce da cromatina é a agregação junto a membrana nuclear. O
núcleo diminui de tamanho, torna-se mais denso e com maior afinidade pela hematoxilina
(picnose). A dissolução da cromatina leva ao processo de cariólise, provavelmente devido a
ação de DNases lisossômicas. A fragmentação nuclear é a cariorexis.

Causas da necrose
Qualquer agente físico, químico ou biológico que altere as funções vitais da célula pode
causar necrose. As principais alterações ocorrem nas mitocôndrias, membranas celulares, na
síntese protéica e no processo de manutenção da integridade DNA. A morte tecidual por
insuficiência de suprimento sangüíneo é chamada de INFARTO.

1 – Agentes químicos
O bicloreto de mercúrio, formol e fenol coagulam as proteínas. Os álcalis (NaOH)
amolecem e liqüefazem os tecidos. O clorofórmio e o tetracloreto de carbono desorganizam os
constituintes lipídicos das membranas, sendo mais tóxicos para o fígado. O HgCl2 atua
principalmente nos rins. A aloxana lesa as ilhotas de Langerhans, sendo usada para provocar
diabete experimental em ratos.

2 – Agentes físicos
As células são mais sensíveis ao calor do que ao frio. Acima de 42ºC as células morrem
rapidamente, provavelmente devido a desnaturação pelo calor. "In vitro" as células podem
resistir ao resfriamento até 0 oC. A congelação é letal, pois a formação de cristais de gelo causa
dano mecânico à estrutura celular. Entretanto, células isoladas e cultivadas em laboratório
(eucarióticas ou bactérias) são rotineiramente armazenadas em nitrogênio líquido (-196 oC),
desde que imersas em solução contendo glicerol ou dimetil-sulfóxido, que impedem a formação
de cristais de gelo. O organismo humano não resiste a imersão a 4oC por cerca de 1h, quando a
temperatura corporal atinge 25oC.
A radiação provoca alterações no DNA, sendo as células mais suscetíveis aquelas que
estão em multiplicação. A radioterapia é acompanhada de perda de pelos, ulcerações e diarréia.

3 – Agentes biológicos
A toxina tetânica atua no SNC. A aflotoxina produzida pelo fungo Aspergillus, causa
necrose hepática.
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Tipos de necrose tecidual


O aspecto morfológico da necrose depende do tecido e do fator etiológico, os quais
determinam os mecanismos que causam a morte celular. O organismo, através da inflamação,
elimina o tecido necrótico substituindo por tecido fibroso.

1 – Necrose por coagulação


Coagulação é a transformação do estado coloidal (SOL) das proteínas celulares para um
estado mais sólido (GEL), como na coalhada e coagulação sangüínea. Há desnaturação das
proteínas, com inativação das enzimas proteolíticas. O tecido torna-se firme, pálido e
ressecado, como se tivesse sido cozido.
Nos órgãos sólidos como baço, rim e coração, o infarto é por coagulação. São tecidos
ricos em proteínas e pobres em enzimas proteolíticas. O fenol, formol e cloreto de mercúrio
também desnaturam as proteínas, sendo inclusive usados como fixadores de tecido durante o
processamento histológico. Microscopicamente o tecido torna-se homogêneo e acidófilo, com
perda do núcleo, mas preservando a arquitetura tissular.

2 – Necrose por liquefação


A necrose por liquefação ocorre principalmente no cérebro e nos abscessos. O cérebro é
rico em lipídeos, que não sofrem coagulação como as proteínas, havendo dissolução. Os
abscessos são ricos em enzimas hidrolíticas oriundas dos neutrófilos.

3 – Necrose gordurosa
É a necrose do tecido adiposo devido a ação de lipases. É comum na necrose
pancreática aguda. Ácidos graxos são produzidos que formam complexos com o cálcio, criando
sabões de cálcio, que nos cortes aparecem como depósitos basofílicos, amorfos e granulosos.

4 – Necrose caseosa
É um tipo especial de necrose que ocorre na tuberculose onde as células são
transformadas em uma massa amorfa constituída de proteínas e lipídeos. Foi assim chamada
porque macroscopicamente lembra o aspecto de queijo cremoso. Microscopicamente tem
aspecto granuloso e amorfo com perda total de detalhes celulares, sendo uma combinação de
coagulação e liquefação.

5 – Necrose fibrinóide
Ocorre principalmente na parede dos vasos e no tecido conjuntivo, onde a estrutura
normal é substituída por massa hialina, intensamente acidófila e de propriedades tintoriais
semelhantes a fibrina. Constitui uma das lesões características das chamadas "doenças do
colágeno" como a febre reumática e artrite reumatóide. O material fibrinóide é formado de
fibrina e outras proteínas precipitadas.

6 - Goma
Necrose que ocorre na sífilis terciária. Consistência firme e elástica e aspecto
homogêneo, como na necrose caseosa.

7 - Necrose Hemorrágica (infarto hemorrágico)


Geralmente devido a obstrução venosa.

8 – Gangrena
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- Gangrena seca é a necrose isquêmica por coagulação das extremidades. O tecido


fica escuro e seco, devido a alterações da hemoglobina e perda de água.
- Gangrena úmida é a decomposição tecidual por bactérias saprófitas e anaeróbicas
que causam putrefação e amolecimento do tecido.
- Gangrena gasosa causada pelo Clostridium perfringens e Clostridium septicum, que
invadem feridas causando mionecrose cerca de 1 a 3 dias após a infecção. A
mionecrose uterina pode ocorrer em casos de contaminação durante a prática de
aborto ilegal. A gangrena gasosa é comum em guerras ou após acidentes. A espécie
clostridia libera colagenase e hialuronidase, enzimas que facilitam a degradação do
conjuntivo e difusão de toxinas. Clostridium perfringens produz cerca de 12 toxinas,
sendo a principal a alfa-toxina, que é uma fosfolipase C capaz de degradar lecitinas
(fosfoglicerolipídeos) da membrana celular, destruindo hemácias e causando
mionecrose. As bolhas gasosas são formadas por fermentação bacteriana.

Autólise e Putrefação
Autólise é a digestão do tecido por suas próprias enzimas. Na morte somática todos os
tecidos sofrem autólise com maior ou menor intensidade, na dependência da quantidade de
enzimas líticas que contém. Nos tecidos ricos nestas enzimas, como o pâncreas, o processo é
mais intenso. As enzimas que provocam autólise estão normalmente presentes nos lisossomos.
A morte celular libera estas enzimas, que encontrando um pH ótimo começam a agir na própria
célula.
A putrefação é a digestão dos tecidos pela ação de bactérias saprófitas do tubo digestivo
e de germes anaeróbios. Alguns destes microorganismos produzem gases como o sulfeto de
hidrogênio e metilmercaptana responsáveis pelo forte odor. A putrefação ocorre normalmente
na morte somática, mas também pode ocorrer "in vivo" como na gangrena.

Destino do material necrosado


O material necrosado pode ser eliminado do organismo ou reabsorvido deixando uma
cicatriz no local. Se não for eliminado, há a formação de uma cápsula fibrosa que isola a área
das demais estruturas, como no abscesso.

Apoptose
O termo apoptose significa desmoronar.
APO - sem (como em apocromático - sem aberrações de cor)
PTOSIS - cair (como em visceroptose)
Apoptose é a morte celular programada que ocorre por ativação gênica devido a quebras
específicas e irreversíveis do DNA por endonucleases. O estímulo inicial pode ser fisiológico
ou não. Por exemplo, bilhões de neutrófilos morrem por apoptose a cada dia em um homem
adulto; um linfócito T citotóxico pode ativar receptores de superfície celular na célula alvo
sinalizando para que esta entre em apoptose; drogas como actinomicina D, glicocorticóides e
irradiação também induzem morte celular por apoptose.
O exato mecanismo que controla a apoptose ainda é um mistério. As células apoptóticas
têm um núcleo condensado e fragmentado, ao passo que as células que morrem acidentalmente
(como resultado de uma injúria aguda) usualmente incham e estouram (necrose), despejando
todo o conteúdo de seu citoplasma no espaço extracelular, induzindo desta forma uma resposta
inflamatória. Ao contrário, as células que morrem por apoptose desaparecem eficientemente,
sendo fagocitadas por macrófagos ou outras células vizinhas, não havendo extravasamento de
enzimas citosólicas nem tampouco reação inflamatória.
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A apoptose foi descrita na eliminação programada de células embrionárias que


participam da formação de tecidos e órgãos. Também parece ocorrer na atrofia por
insuficiência hormonal da próstata e córtex da glândula adrenal.
O núcleo sofre compactação e fragmentação, com a célula quebrando-se em
corpúsculos contendo organelas e fragmentos nucleares (corpúsculos apoptóticos). Cada
corpúsculo tem mitocôndrias e outras organelas viáveis. O material é eliminado por células
adjacentes ou macrófagos, sem evidências de inflamação.

Enzimas liberadas no sangue após lesão celular:


Coração:
- creatinina quinase
- aspartato transaminase (AST)
- lactato desidrogenase (LDH)
Fígado: alanina transaminase
Músculo estriado: creatinina quinase
Pâncreas exócrino: amilase.
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Objetivos - Atrofia e Necrose

1. Conceitue atrofia.
2. Descreva os aspectos morfológicos de uma célula atrófica.
3. Descreva e exemplifique os seguintes tipos de atrofia:
- por inanição
- senil
- por desuso
- isquêmica
- por compressão
- endócrina
- por perda de inervação
4. Cite as causas de atrofia do testículo.
5. Usando como exemplo a fixação de tecidos em formol a 10%, compare morte e necrose
celular.
6. Descreva os aspectos morfológicos da célula necrosada.
7. A congelação mata as células por formação de cristais, mas como células cultivadas em
laboratório ou sêmen podem ser mantidas em nitrogênio líquido?
8. Descreva e exemplifique necrose por:
- coagulação
- liquefação
- gordurosa
- caseosa
- fibrinóide
- hemorrágica
- goma
9. Que é gangrena seca e úmida?
10. Que é autólise?
11. Que é putrefação?
12. Conceitue, e exemplifique apoptose.
13. Que significado tem a presença de enzimas normalmente presentes no interior da célula no
plasma?