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Cenários transfigurados viram obra de arte

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A NATUREZA AO RAIO-X

A UNIÃO FAZ A FORÇA
PARA EVOLuIR, É pREcISO cOOpERAR

Um monstro subterrâneo à espreita

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UM ARQUITETO CEGO

Para se ver a vida de um outro jeito

POR

PeLLeGRINI
EDITOR

LUIS

A TRaJETÓRIa EVOLUTIVa TERRENa NÃO DEPENDE DE SELEÇÃO NaTURaL BaSEaDa EM GENES OU EM PROCESSOS CULTURaIS. SUa VERDaDEIRa MOLa MESTRa É O POTENCIaL, EM TODOS OS NÍVEIS DE ORGaNIZaÇÃO, QUE aS EQUIPES UNIDaS POR OBJETIVOS COMUNS POSSUEM PaRa OBTER MELHORES RESULTaDOS DO QUE INDIVÍDUOS OU GRUPOS ISOLaDOS”, JOHN STEWaRT

o analisar a conjuntura atual da humanidade, vários estudiosos no mundo todo chegaram à mesma conclusão: ou desenvolvemos urgentemente uma consciência individual e coletiva de cooperação, ou simplesmente correremos o risco de sucumbir como espécie. Nessa nova consciência, opções existenciais consideradas negativas como o individualismo patológico e a competitividade desenfreada não terão lugar de ser, e passarão a ser apresentadas como comportamentos doentios e perigosos, antes de serem varridas do mapa. Alguns desses pensadores, no entanto, são otimistas e acreditam num desfecho positivo da batalha que fatalmente será travada entre o egoísmo e o cooperativismo. Um deles é o australiano John Stewart, membro do Grupo de Pesquisa de Evolução, Complexidade e Cognição da Universidade Livre de Bruxelas (Bélgica). Para ele, um dos pilares dessa nova perspectiva da evolução reside no reconhecimento de que ela segue uma trajetória, o que indica um direcionamento prévio. “Em particular, a evolução na Terra repetidamente reuniu entidades de pequena dimensão em organizações

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PeLLeGRINI
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cooperativas em uma escala cada vez maior”, escreve. O processo se repete desde o surgimento das primeiras e mais primitivas células, as quais deram origem a células mais complexas, que, por sua vez, formaram organismos multicelulares, os quais depois se organizaram em sociedades cooperativas. “(...) Uma sequência similar parece ter desdobrado na evolução humana: a partir de grupos familiares, de bandos, de tribos, para comunidades agrícolas e cidades-estados, nações, e assim por diante”, analisa Stewart. De acordo com ele, a trajetória evolutiva terrena não depende de seleção natural baseada em genes ou em processos culturais. Sua verdadeira mola mestra é o potencial, em todos os níveis de organização, que as equipes unidas por objetivos comuns possuem para obter melhores resultados do que indivíduos ou grupos isolados. O conceito leva a uma discussão na qual a biologia tradicional ainda reluta em entrar: a evolução se move no sentido de favorecer o egoísmo ou a cooperação? A resposta preferida era o egoísmo, lembra Stewart, mas, nas últimas duas décadas, numerosos estudos fizeram o pêndulo se mover para a outra alternativa: “(...) Essas pesquisas mostram que a cooperação complexa emergirá entre indivíduos egoístas se eles estão organizados para que possam se beneficiar de seus atos cooperativos – e se aproveitadores e outros não colaboradores são contidos ou punidos.” O tema da cooperação é desenvolvido na nossa matéria de capa. Confira.

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A UNIÃO FAZ A FORÇA Para evoluir, é preciso cooperar
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A humanidade vai acabar tragada por guerras e desastres naturais ou vencerá seus problemas e explorará o universo? Uma nova perspectiva da teoria da evolução sugere que a seleção e a competitividade se enfraquecem numa sociedade global baseada nos valores da cooperação

POR: EQUIpe OÁSIS

satos: para elas, os fanatismos políticos e religiosos, a ganância e o egoísmo inerentes à raça humana e tudo que comportamentos desequilibrados como esses acarretam na pobre Terra não nos deixariam nem sair do planeta, quanto mais viajar espaço afora ao lado de extraterrestres. Mas, para alguns estudiosos, a aposta preferencial no desastre não é a melhor escolha. Eles consideram que já existem elementos suficientes na humanidade para antevermos dias melhores, nos quais nossa raça terá um papel mais relevante no contexto universal. Organizações cooperativas cada vez maiores A base dessa hipótese está numa nova perspectiva da evolução, pela qual se descartam as ideias de que a vida na Terra não passa de um acidente desprovido de sentido em meio a um universo no qual a existência humana é, em termos práticos, um zero à esquerda. Há, sim, um significado por trás de tudo isso, assinala o pensador australiano John Stewart, membro do Grupo de Pesquisa de Evolução, Complexidade e Cognição da Universidade Livre de Bruxelas (Bélgica). E não é preciso buscá-lo no reino do sobrenatural. De acordo com o que Stewart descreve no estudo “The Meaning of Life in a Developing Universe” (O Significado da Vida em um Universo em
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embram-se do início da série Jornada nas Estrelas, uma das mais bem sucedidas produções da história da tevê e do cinema? A humanidade, após sobreviver a um conturbado século 21 e superar seus conflitos internos, lança-se à exploração de outras regiões do universo, em parceria com espécies alienígenas. Premissa válida ou pura ficção? Muitas pessoas preferem a segunda alternativa sem pestanejar, e com argumentos sen-

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cada vez maior”, escreve. O processo se repete desde o surgimento das primeiras e mais primitivas células, as quais deram origem a células mais complexas, que, por sua vez, formaram organismos multicelulares, os quais depois se organizaram em sociedades cooperativas. “(...) Uma sequência similar parece ter desdobrado na evolução humana: a partir de grupos familiares, de bandos, de tribos, para comunidades agrícolas e cidades- estados, nações, e assim por diante”, analisa Stewart. De acordo com ele, a trajetória evolutiva terrena não depende de seleção natural baseada em genes ou em processos culturais. Sua verdadeira mola mestra é o potencial, em todos os níveis de organização, que

PARA JOHN STeWART, A eXpANSÃO HUMANA peLO UNIVeRSO NÃO Se DeSeNROLARIA COMO UMA “CONSTRUÇÃO DO IMpÉRIO” DO TIpO DA ABORDADA NO FILMe AVATAR (ACIMA), MAS COMO UMA “ARTICULAÇÃO COOpeRATIVA COM OUTROS pROCeSSOS De VIDA”.

Desenvolvimento), publicado em uma recente edição especial da revista Foundations of Science, a própria teoria da evolução, vista sob uma ótica mais ampla, dá pistas do que deverá acontecer. Para o pensador australiano, um dos pilares dessa nova perspectiva da evolução reside no reconhecimento de que ela segue uma trajetória, o que indica um direcionamento prévio. “Em particular, a evolução na Terra repetidamente reuniu entidades de pequena dimensão em organizações cooperativas em uma escala
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SpOCK, O CÉLeBRe peRSONAGeM DA SÉRIe JORNADA NAS ESTReLAS. É UM ALIeNÍGeNA QUe VeM De UM pLANeTA ONDe TODA A ORGANIZAÇÃO SOCIAL É BASeADA NA COOpeRAÇÃO

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emergirá entre indivíduos egoístas se eles estão organizados para que possam se beneficiar de seus atos cooperativos – e se aproveitadores e outros não colaboradores são contidos ou punidos.” Cooperação no reino animal Pesquisas recentes revelam a importância da cooperação na sobrevivência de muitas espécies. Confira alguns exemplos a seguir: Formigas – Pesquisadores britânicos estudaram formigas tropicais por vários anos e desvendaram algumas de suas regras de comportamento. Uma delas é um sofisticado sistema de tráfego de mão dupla, no qual cada “pista” possui três faixas. Até 200 mil formigas deixam seu lar para buscar comida. Para isso, elas se dividem em dois grupos, de modo a formar duas rotas de saída; a volta se dá por uma única “pista” central, na qual são levados por vezes mais de 30 mil gafanhotos ou outros insetos que servirão de alimento. Para os cientistas, essa organização ultracooperativa deriva do fato de as formigas conviverem em grandes grupos há milhões de anos.
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as equipes unidas por objetivos comuns possuem para obter melhores resultados do que indivíduos ou grupos isolados. O conceito leva a uma discussão na qual a biologia tradicional ainda reluta em entrar: a evolução se move no sentido de favorecer o egoísmo ou a cooperação? A resposta preferida era o egoísmo, lembra Stewart, mas, nas últimas duas décadas, numerosos estudos fizeram o pêndulo se mover para a outra alternativa: “(...) Essas pesquisas mostram que a cooperação complexa
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neiro, os predadores preferem tê-lo por perto. Aves – O papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca), uma espécie de pardal, guincha alto quando um predador invade sua área. O risco de atrair o predador é compensado quando outros papa-moscas-pretos atendem ao chamado e se juntam em torno do intruso, expulsando-o. O gesto, porém, envolve uma recíproca, descobriram pesquisadores letões e estonianos: essas aves só respondem ao chamado de batalha daqueles que os ajudaram antes. Os que ouviram seu apelo mas não atenderam a ele são ignorados.

FRITjOF CApRA: “A VIDA, A pARTIR DO SeU INÍCIO, HÁ MAIS De 3 BILHÕeS De ANOS, TOMOU CONTA DO pLANeTA peLO eSTABeLeCIMeNTO De ReDeS, e NÃO peLOS COMBATeS”

Peixes – A cooperação entre peixes está presente na higiene e na saúde desses animais. Peixes “faxineiros” nadam na boca de peixes maiores, ou “clientes”, a fim de comer parasitas e bactérias nocivas. A vantagem é dupla: os primeiros ganham uma refeição, enquanto os últimos ficam com a boca mais saudável. Os clientes dos faxineiros incluem peixes predadores e não predadores, e cientistas se perguntaram por que os predadores não aproveitam a limpeza para devorar seus faxineiros. A resposta: estes últimos são pequenos – o que dificilmente renderia uma refeição satisfatória – e não é fácil encontrar um deles que seja confiável. Quando desenvolvem uma relação de confiança com um faxioÁsis
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Morcegos – Um biólogo norte-americano mostrou que grupos de morcegos-vampiros (habitantes do México e das Américas Central e do Sul) têm um sistema de partilha de alimentos que ajuda a garantir sua sobrevivência como espécie. Esses mamíferos alados se alimentam de sangue, e não é sempre que o conseguem; além disso, morrem se passarem dois dias sem alimento. Mas quem encontra comida a compartilha com os outros membros do grupo. Se isso não fosse feito, quatro de cinco morcegos-vampiros morreriam por ano; com a cooperação, a taxa fica em um para cada quatro. Também funciona nesse caso um esquema “olho por olho”: o que recebeu alimento de outro antes, mas não pôs seu achado à disposição do grupo, terá sua reputação manchada e não será mais convidado a participar de outras refeições. É um roteiro no qual a opção pela violência não surge como a grande vitoriosa, conforme já havia observado o pensador austríaco Fritjof Capra, autor do best-seller O Tao da Física. “A vida, a partir do seu início, há mais
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de 3 bilhões de anos, tomou conta do planeta pelo estabelecimento de redes, e não pelos combates”, disse ele. O processo em curso, ressalta Capra, requer uma organização social cooperativa que alimenta redes de comunicação, estimula o compartilhamento e a experimentação e propicia um ambiente de apoio mútuo. O grande desafio: aprender a cooperar Aprender a cooperar, portanto, é o grande desafio da história humana neste século, afirmam Capra e o oceanógrafo norte-americano Danny Grunbaum, estudio
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so da cooperação na vida marinha. A humanidade já consegue pôr adiante a Wikipedia, uma enciclopédia escrita por uma infinidade de autores, mas continua a mostrar que pode fazer os esforços de cooperação naufragarem de uma hora para outra, como se verifica em congestionamentos na hora do rush ou em estradas. A tendência, no entanto, é que superemos essa etapa – inicialmente pela negociação nas situações de conflito, em seguida pela percepção cada vez mais clara do melhor caminho a seguir em termos do interesse coletivo. “A cooperação nunca significa a ausência de conflito de interesse”, diz Grunbaum. “Ela significa um conjunto de regras para negociar conflitos de interesse de uma forma que os resolva.” Nosso aprendizado nessa área está acelerado, afirma ele, em parte porque a sociedade está se tornando bem mais integrada e a comunicação está acontecendo muito mais rapidamente no mundo. “Eu diria que os seres humanos são extraordinariamente cooperativos, e estamos ficando mais cooperativos a todo momento”, avalia o oceanógrafo. Nesse caso, qual seria a próxima etapa da evolução humana? Para Stewart, ela estaria associada ao surgimento de uma sociedade sustentável e marcada pela cooperação em todo o mundo. “Tal como acontece com as cooperações em todos os níveis, a sociedade global diminuiria conflitos internos e competições destrutivas, incluindo a guerra e a poluição”, assinala o pensador. “Transições anteriores demonstram como isso poderia ser organizado.”

Para além do Sistema Solar A seguir, a ampliação contínua dessa organização cooperativa levaria o homem para além do Sistema Solar. “Sempre que possível, essa expansão ocorreria por meio da articulação cooperativa com outros processos de vida, em vez da ‘construção do império’”, observa Stewart, numa referência a métodos de conquista e de subjugação dos habitantes locais como os empreendidos por espanhóis e portugueses nas Américas ou pelos humanos no filme Avatar, de James Cameron. “A possibilidade de vida surgindo em outros lugares parece elevada e, embora seja provável que os detalhes da evolução em outros planetas difiram dos nossos, a for

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quaisquer objetivos que escolhesse”. Conseguir qualquer objetivo significa, de certa forma, tornar-se um deus. Stewart não menciona a palavra, mas ela surge nas entrelinhas quando o pensador propõe que um desses objetivos poderia ser resolver o “problema de sintonia fina” – na sua definição, “o enigma de por que as leis fundamentais e os parâmetros do universo parecem estar sintonizados para apoiar o surgimento da vida, sabendo-se que bastariam ligeiras alterações para originar um universo em que a vida provavelmente não surgiria”. Ao entender esses mecanismos, o homem poderia tentar reproduzi-los, o que daria origem a novos universos, elaborados de modo a favorecer ainda mais o surgimento e o desenvolvimento da vida e da inteligência, num processo em princípio infindável. “De acordo com esse cenário, nosso próprio universo está incrustado em processos evolutivos que modelam universos”, analisa Stewart. “E a vida (incluindo o homem) tem uma função e um propósito dentro desses processos mais amplos, no mesmo sentido que nossos olhos têm uma finalidade dentro dos processos evolu
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ma geral da trajetória evolutiva seria universal”, afirma o australiano. O progresso nesse quadro resultaria numa expansão que abrangeria todo o universo, dando ao homem conhecimento sobre uma imensidão de processos vivos e informações das mais diversas origens. Stewart avalia que, nessa época, o homem chegaria a tal estágio evolutivo em termos de inteligência que “seu comando sobre a matéria, a energia e outros recursos também se expandiria, assim como seu poder para conseguir
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tivos que moldaram a humanidade.” Concorrência e seleção O pensador australiano observa que, até o estágio atual, a evolução na Terra tem sido pautada pela concorrência e pela seleção. Essas pressões, porém, se enfraquecem diante do surgimento de uma sociedade global, pois ela não terá nenhum concorrente direto. “Desse ponto em diante, a evolução continuará a avançar se a sociedade global emergente decidir fazer avançar o processo evolutivo intencionalmente”, afirma Stewart. “A sociedade deve despertar para a possibilidade de que está vivendo no meio de um processo evolutivo direcional, perceber que a continuação do êxito do processo depende de suas ações intencionais e, então, empenhar-se ativamente para fazer esse processo avançar.” Gente disposta a cooperar e alinhada com o bem-estar da coletividade tem, portanto, perfil afinado com a sociedade do futuro. E os que fogem desse figurino, como ditadores, extremistas religiosos, racistas, xenófobos e outros inveterados pregadores e praticantes da desigualdade? Quem for incapaz de fazer a transição para os novos tempos será descartado à maoÁsis
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neira de uma experiência evolutiva que falhou, avalia Stewart. Como, segundo ele, a humanidade já se aproxima do limiar crítico da transição evolutiva (algo que os avanços na genética e na física já estão sinalizando), a observação serve de alerta: aqueles que quiserem fazer parte do primeiro grupo devem pôr mãos e mentes à obra o quanto antes.

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A NATUREZA AO RAIO-X Cenários transfigurados viram obra de arte
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Um buquê de tulipas, um peixinho a nadar, um cameleão à espera da presa: ao fotografar com técnica radiológica, o holandês Arie van’t Riet mostra um outro mundo escondido sob as aparências

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POR: EQUIpe OÁSIS FOTOGRAFIA: ARIe VAN’T RIeT

de um mundo totalmente real, porém imperceptível a nossos olhos nus. Formado também em física das radiações, Arie van’t Riet utiliza em seu trabalho equipamento de raio-X de frequência muito baixa. Com essa tecnologia fotografa cenas comuns, como o pousar de uma borboleta sobre uma flor, um peixe no mar, um ratinho no campo, uma garça à beira do rio, um passarinho pousado no galho de uma árvore e coisas do gênero. Mas o resultado final nos mostra cenários transfigurados, como se pertencessem a um outro mundo.

médico radiologista holandês Arie van’t Riet passou décadas trabalhando com o raio-x. Um dia, um amigo lhe pediu que fizesse a radiografia de um quadro para verificar se, sob a pintura, existia outro quadro. Foi o bastante para Arie perceber que o raio-x seria a sua forma de arte, e a natureza a sua musa. Assim, graças a uma delicada e refinada pós-produção que recolora em parte o negativo das imagens, esse artista nos proporciona visões mágicas e belíssimas de plantas e de animais. Visões

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POR: EQUIpe OÁSIS

O supervulcão que dormita sob o parque de Yellowstone, nos Estados Unidos, é muito maior do que se pensava até agora. A sua câmera magmática é 2 vezes e meia maior das estimativas feitas até então. Ela se estende a 90 quilômetros de profundidade e contem de 200 a 600 quilômetros cúbicos de rocha fundida

uando se fala de supervulcões está-se referindo a vulcões que comumente dão origem a erupções de proporções dificilmente imagináveis. Erupções capazes de destruir boa parte da flora e da fauna e influenciar profundamente o clima de todo o nosso plane
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poles, Itália, o lago Toba, na Indonésia, e o próprio Yellowstone. Quando explodir, acontecerá uma catástrofe Um estudo recentemente publicado demonstra que a câmera magmática do vulcão Yellowstone é cerca de 2,5 vezes maior do que as estimativas precedentes. Uma equipe de pesquisadores descobriu que ela possui um diâmetro de 90 quilômetros e contem cerca de 600 quilômetros cúbicos de rocha fundida pronta para sair à superfície. Os resultados foram apresentados há poucos meses

ta. Na Terra existe uma dezena de supervulcões ativos. Por sorte eles nunca entraram em erupção com sua máxima intensidade desde que o homem moderno existe. Entre esses supervulcões está o que se encontra sob o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. Seu potencial destruidor é conhecido há bastante tempo, mas só recentemente se descobriu ser muito maior do que se pensava no passado. A rigor, em termos puramente geológicos, os supervulcões não são vulcões no sentido estrito da palavra, embora existam crateras em seu interior e constantes atividades de tipo secundário, como gêiseres, fumarolas e fontes termais. As mais conhecidas estruturas desse gênero são os Campos Flegrei, na região de NáoÁsis
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do os terremotos que continuamente se produzem no parque. São terremotos de baixa intensidade. Uma rede muito ampla e sofisticada de sismógrafos detecta e grava esses terremotos durante todo o tempo, e isso possibilita dar forma àquilo que acontece sob a superfície. Jamie Farrell, também da Universidade de Utah, diz que “nós registramos os terremotos e as ondas sísmicas que viajam através do território. As que correm mais lentamente informam que estão atravessando o material quente e parcialmente fundido da câmera

na convenção anual da American Geophysical Union em San Francisco. Bob Smith, da Universidade de Utah, entidade responsável pela pesquisa, declarou: “Há muito estamos trabalhando na investigação desse vulcão e sempre soubemos que sua câmera magmática deveria ser muito grande, mas o que descobrimos nos deixou estupefactos. Se o supervulcão de Yellowstone explodisse hoje, as consequências seriam catastróficas”. Quando será a próxima erupção? Os pesquisadores conseguiram calcular as dimensões reais da câmera magmática do Yellowstone estudanoÁsis
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teceu há 640 mil anos, a próxima não deve estar longe em termos geológicos, mas extremamente distante em termos humanos. Os vulcões, no entanto, não seguem ciclos e comportamentos regulares. Um estudo publicado durante a mesma convenção demonstra que o Yellowstone comportou-se de modo bastante diferente no período entre 8 milhões e 2 milhões de anos em relação ao último período. Nesse arco de tempo, com efeito, existiram menos erupções, mas muito mais violentas do que as últimas.

magmática e isso nos permite medir as suas dimensões”. Com esse sistema os vulcanologistas descobriram que essa câmera se encontra entre os 2 quilômetros e os 15 quilômetros de profundidade e possui um diâmetro mínimo de 15 quilômetros e um máximo de 90 quilômetros. Ante as descobertas, a pergunta óbvia é: Mas quando esse vulcão irá despertar mais uma vez? Os pesquisadores não sabem dar uma resposta precisa. Podem apenas reportar-se aos ciclos de erupção que nos últimos 2 milhões de anos parecem ter se verificado uma vez a cada 700 mil anos. Como a última erupção aconoÁsis
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UM ARQUITETO CEGO Para se ver a vida de um outro jeito

Como seria uma cidade projetada para pessoas cegas? Chris Downey é um arquiteto que subitamente ficou cego em 2008. Ele compara a vida em sua querida São Francisco, antes e depois da cegueira, e mostra como os projetos urbanos bem pensados, que facilitam sua vida de cego agora, podem, na verdade, facilitar a vida de todos, sejam eles cegos ou não

dos em design urbano, Downey cria e traça projetos a partir de sua perspectiva de arquiteto maduro, porém cego. Desse modo consegue realizar ambientes que não apenas oferecem ótimas facilidades de acesso físico, mas também uma experiência de soluções arquitetônicas bonitas e agradáveis aos demais sentidos.

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VÍDeO: TED – IDeAS WORTH SpReADING TRADUÇÃO: RAISSA MeNDeS. ReVISÃO: FRIDA STeReNBeRG

hris Downey é arquiteto, projetista e consultor em questões urbanas. Ao trabalhar com clientes e com equipes de projetistas especializa39/44 2/9

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Vídeo da palestra de Chris Downey

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Tradução integral da palestra de Chris Downey

Então, depois de descer do ônibus, me dirigi para a esquina na direção oeste, a caminho de uma aula de braille. Era o inverno de 2009, e eu tinha ficado cego havia cerca de um ano. Estava indo tudo muito bem. Quando cheguei a salvo no outro lado, me virei para a esquerda, apertei o botão para acionar o sinal sonoro do pedestre, e esperei para atravessar. Quando ele soou, comecei a travessia e cheguei são e salvo do outro lado. Ao pisar na calçada, ouvi o som de uma cadeira de aço deslizando no passeio de concreto a minha frente. Sei que existe um café na esquina, e eles têm cadeiras do lado de fora, então eu simplesmente desviei para a esquerda para andar mais perto da rua. Assim que me desviei, a cadeira também deslizou. Eu percebi que tinha cometido um erro e voltei para a direita, e a cadeira também, em perfeita sincronia. Aí comecei a ficar um pouco ansioso.Voltei para a esquerda, e a cadeira também, bloqueando o meu caminho. Naquele altura, eu já estava oficialmente surtando. Então gritei: “Que diabos tem aqui? O que está acontecendo?” Aí, imediatamente, ouvi algo, um chocalho familiar. Parecia familiar, e rapidamente pensei numa outra possibilidade, e aproximei minha mão esquerda, até que meus dedos começaram a alisar uma coisa peluda, e encostei numa orelha, a orelha de um cão, talvez um golden retriever. Sua correia tinha sido presa na cadeira, enquanto o dono tinha entrado para tomar um café, e o cão foi bem persistente em seus esforços para tentar me cumprimentar e, quem sabe, conseguir um afago atrás da orelha. Quem sabe, talvez o cão estivesse se oferecendo para me ajudar. (Risos) Mas essa história é, na verdade, sobre os medos e equívocos que acompanham a ideia de se deslocar numa cidade sem enxergar, aparentemente alheio ao ambiente e às pessoas ao redor. Então, me permitam voltar um pouco e tentar contextualizar um pouco essa questão. No dia de São Patrício, em 2008, dei entrada
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no hospital para uma cirurgia para remover um tumor cerebral. A cirurgia foi um sucesso. Dois dias depois, minha visão começou a falhar. No terceiro dia, tinha desaparecido completamente. Imediatamente, fui atingido por uma incrível sensação de medo, de confusão, de vulnerabilidade, como qualquer um naquela situação se sentiria. No entanto, quando parei para pensar, comecei, na verdade, a perceber que tinha muito pelo que agradecer. Lembrei-me, especialmente, do meu pai, que morreu de complicações decorrentes de uma cirurgia no cérebro. Ele tinha 36 anos. E eu, na época, tinha 7 anos. Assim, apesar de ter todos os motivos para temer o que estava por vir, e de não ter a menor ideia do que ia acontecer, eu estava vivo. Meu filho ainda tinha um pai. E além disso, eu não era a primeira pessoa no mundo a perder a visão. Eu sabia que tinha de haver todo tipo de siste
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Tradução integral da palestra de Chris Downey

mas, e técnicas, e treinamentos para se levar uma vida significativa, plena e ativa sem visão. Então, quando tive alta do hospital, alguns dias depois, saí com uma missão, a missão de conseguir o melhor treinamento o mais rápido possível para reconstruir a minha vida. Em 6 meses, já estava de volta ao trabalho. Meu treinamento tinha começado. Comecei até mesmo a andar de bicicleta tandem com meus antigos amigos ciclistas, e estava indo para o trabalho sozinho, andando pela cidade e pegando ônibus. Foi muito trabalho duro. Mas o que eu não consegui prever durante aquela rápida transição foi a incrível experiência de justapor a minha experiência com

visão à minha experiência de cegueira, nos mesmos lugares e com as mesmas pessoas, num período de tempo tão curto. Daí resultaram muitos insights, ou “outsights”, como passei a chamá-los, coisas que aprendi desde que perdi a visão. Esses “outsights” variavam dos mais triviais aos mais profundos, do mundano ao cômico. Como arquiteto, aquela justaposição tão forte de minha experiência com visão e sem visão dos mesmos lugares e das mesmas cidades, num espaço de tempo tão curto, me deu toda sorte de “outsights” maravilhosos da cidade por si só. Um dos mais marcantes foi a percepção de que, na verdade, as cidades são lugares fantásticos para os cegos. Também fiquei bastante surpreso pela propensão da cidade para a bondade e o cuidado, em oposição à indiferença ou coisa pior. E, assim, comecei a perceber que parecia que os cegos tinham uma influência positiva na cidade em si. Isso foi uma descoberta curiosa para mim. Deixe-me voltar um pouco e mostrar por que a cidade é tão boa para os cegos. Junto com o treinamento para recuperar-se da perda de visão, aprendemos a confiar em todos os nossos sentidos não visuais, coisas que de outro modo talvez fossem ignoradas. É como se um mundo totalmente novo de informação sensorial se abrisse para você. Eu fiquei realmente impressionado pela sinfonia de sons sutis ao meu redor na cidade, que podem ser ouvidos e usados para orientar onde você está, como se mover e aonde você precisa ir. Da mesma forma, apenas segurando firme uma bengala, você pode sentir texturas contrastantes no chão sob seus pés, e, com o passar do tempo, você constrói um padrão sobre onde você está e para onde está indo. Da mesma forma, sentir o sol aquecendo um lado do seu rosto, ou
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o vento no seu pescoço, lhe dá pistas sobre seu alinhamento e sua progressão através de um quarteirão e seu movimento no tempo e no espaço. Tem o olfato também. Alguns bairros e cidades têm seu próprio cheiro, assim como lugares e coisas ao seu redor, e, com sorte, você até consegue deixar seu nariz te levar até aquela padaria nova que você estava procurando. Tudo isso realmente me surpreendeu, pois comecei a perceber que minha experiência de cegueira era muito mais multissensorial do que foi minha experiência com visão. O que me surpreendeu também foi o quanto a cidade estava mudando ao meu redor. Quando se tem visão, todo mundo fica meio que ensimesmado, cuidando da própria vida. Quando se perde a visão, aí a história muda completamente. E não sei quem está observando quem, mas desconfio de que muitas pessoas estão me observando. E não sou paranoico, mas em todos os lugares aonde vou me dão todo tipo de orientação: “Passe por aqui”; “Vai por lá”; “Cuidado com isso”. Muitas das informações são boas. Algumas são úteis. Muitas são o oposto. Você tem de descobrir o que elas realmente significam. Algumas são erradas e não são úteis. Mas, de maneira geral, está tudo bem. Mas, uma vez, eu estava em Oakland, andando na Broadway, e cheguei a uma esquina. Estava esperando pelo sinal sonoro do pedestre e, assim que ele soou, eu estava pronto para começar a atravessar a rua, quando, de repente, minha mão direita foi agarrada por esse cara, e ele puxou o meu braço, e me puxou para a faixa de pedestre e atravessou a rua me puxando, e falando em mandarim. (Risos) Bem, não houve escapatória da pegada mortal desse homem, mas ele me levou a salvo para o outro lado. O que eu podia fazer? Mas, podem acreditar, existem maneiras mais educadas de oferecer ajuda. Não sabemos que você está lá, assim, seria melhor dizer “olá” primeiro. “Você precisa de ajuda?”
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Mas, em Oakland, eu realmente fiquei surpreendido por quanto a cidade tinha mudado, quando perdi minha visão. Quando eu enxergava, eu gostava dela. Era legal. Era uma ótima cidade. No entanto, quando perdi a visão, e estava andando pela Broadway, fui abençoado em cada quarteirão do caminho. “Deus te abençoe, cara.” “Vá em frente, irmão.” “Deus te abençoe.” Não tinha nada disso quando eu enxergava. (Risos) E, mesmo cego, não me tratam assim em São Francisco. E sei que isso incomoda alguns dos meus amigos cegos, não apenas eu. Normalmente, acha-se que essa é uma emoção que vem por piedade. A minha tendência é pensar que vem da nossa humanidade compartilhada, vem da nossa união, e acho

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Tradução integral da palestra de Chris Downey

isso muito legal. Na verdade, quando me sinto para baixo, vou para a Broadway, no centro de Oakland, faço uma caminhada, e me sinto melhor rapidinho. Mas também isso mostra como a deficiência e a cegueira meio que atravessam linhas étnicas, sociais, raciais e econômicas. A deficiência fornece uma chance de oportunidades iguais. Todos são bem vindos. De fato, ouvi na comunidade de deficientes que na verdade só existem dois tipos de pessoas: existem as portadoras de deficiência, e aquelas que ainda não descobriram a sua. É um jeito diferente de ver a questão, mas acho que é bonito, pois é certamente muito mais inclusivo do que o “nós versus eles”, ou o “não-deficiente versus o deficiente”, e isso é muito mais honesto e

respeitoso com relação à fragilidade da vida. Assim, minha palavra final para vocês é que não apenas a cidade é boa para o cego, mas que ela precisa da gente. E tenho tanta certeza disso que quero propor aqui hoje que o cego seja usado como um protótipo de morador da cidade, quando imaginarmos novas e maravilhosas cidades, e não pessoas que só são pensadas depois que o molde já foi feito. Aí é muito tarde. Assim, ao se projetar uma cidade com os cegos em mente, teremos uma rede generosa de calçadas caminháveis, com um grande leque de opções e escolhas, tudo disponível no nível da rua. Ao se projetar uma cidade tendo em mente as pessoas cegas, as calçadas serão previsíveis e generosas. O espaço entre os prédios será melhor distribuído entre as pessoas e os carros. Na verdade, carros, quem precisa deles? Se você é cego, você não dirige. (Risos) Eles não gostam quando você dirige. (Risos) Ao se planejar uma cidade com os cegos em mente, projeta-se uma cidade com um sistema de trânsito robusto, acessível, de massa e bem conectado, que liga todas as partes da cidade e a região ao redor. Ao se projetar uma cidade com os cegos em mente, haverá empregos, um monte de empregos. Pessoas cegas querem trabalhar também. Eles querem ganhar o seu dinheiro. Assim, ao projetar uma cidade para os cegos, espero que vocês comecem a perceber que isso seria, na verdade, mais inclusivo, uma cidade com mais equidade, mais justa para todos. E, baseado em minha experiência com visão, parece uma cidade muito legal, não importa se você é cego, se você tem uma deficiência, ou se simplesmente você ainda não descobriu qual é a sua. Muito obrigado.
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