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TEMPO COMUM. VIGÉSIMA QUARTA SEMANA.

QUARTA-FEIRA

6. PRATICAR O BEM COM A PALAVRA


– A palavra é um grande dom de Deus e não se deve empregá-la para o mal.

– Imitar Cristo na sua conversa amável com todos. A nossa palavra deve enriquecer, animar,
consolar...

– Passar pela vida fazendo o bem com a nossa conversação. Não falar nunca mal de ninguém.

I. ALUDINDO a alguma canção popular ou a alguma


brincadeira dos meninos hebreus da época, Jesus censura os
que interpretam distorcidamente os seus ensinamentos, a falta
de lógica das desculpas que apresentam. São semelhantes a
esses garotos que estão sentados na praça e que gritam uns
para os outros dizendo: Tocamos flauta para vós e não
dançastes, entoamos lamentações e não chorastes. A seguir, o
Senhor transmite-nos o que alguns comentavam de João Batista
e d’Ele mesmo: Porque veio João Baptista, que não come pão
nem bebe vinho, e dizeis: Está possuído pelo demónio. Veio o
Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis um glutão e
bebedor de vinho, amigo dos publicanos e dos pecadores 1. O
jejum de João é interpretado como obra do demónio; e a Jesus,
por sua vez, chamam-no glutão. São Lucas não tem reparo
algum em mencionar as acusações levantadas contra o Mestre2.

Logicamente, a Sabedoria divina manifesta-se de maneira


diferente em João e em Jesus. João prepara o conhecimento do
mistério divino mediante a penitência; Jesus, perfeito Deus e
perfeito homem, é portador da salvação, da alegria e da paz.
“Por um caminho ou por outro – comenta São João Crisóstomo –
deveríeis ter vindo a parar no Reino dos céus”3. O Senhor
termina assim esta breve passagem do Evangelho que lemos na
Missa de hoje: Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus
filhos.

No entanto, muitos fariseus e doutores da Lei não souberam


descobrir essa sabedoria que lhes chegava. Ao invés de
cantarem a glória de Deus que tinham diante dos olhos,
serviram-se das suas palavras para se entregarem à
maledicência, tergiversando o que viam e ouviam. Os seus olhos
não viam as maravilhas que se realizavam diante deles, e os
seus corações estavam fechados para o bem. Como eram
diferentes aquelas outras pessoas a quem o Senhor tinha tantas
vezes de impor silêncio porque ainda não chegara a hora da sua
manifestação pública! E quando ela chega, estando já próxima a
Paixão, toda a multidão dos seus discípulos começou
alegremente a louvar a Deus em altas vozes por todas as
maravilhas que tinham visto, dizendo: Bendito o rei que vem em
nome do Senhor, paz no céu e glória nas alturas4. Alguns
fariseus pediram a Jesus que os fizesse calar, mas Ele
respondeu: Digo- vos que, se eles se calarem, gritarão as
pedras.

A palavra é um grande dom de Deus, que nos deve servir para


cantar os seus louvores e para fazer sempre o bem, nunca o
mal. “Acostuma-te a falar cordialmente de tudo e de todos; em
particular, de todos os que trabalham no serviço de Deus.

“E quando não for possível, cala-te! Também os comentários


bruscos ou levianos podem beirar a murmuração ou a
difamação”5.

II. JESUS GOSTAVA de conversar com os seus discípulos. São


João relata-nos no seu Evangelho as suas confidências na
última Ceia. “Conversava enquanto se dirigia para outra cidade –
aquelas longas caminhadas do Senhor! –, enquanto passeava
debaixo dos pórticos do Templo. Conversava nas casas, com as
pessoas que estavam ao seu redor, como Maria, sentada aos
seus pés, ou como João, que reclinou a cabeça sobre o peito de
Jesus”6. Nunca se recusou a falar com os que se aproximavam
d’Ele, nas mais diversas circunstâncias de cultura do seu
interlocutor ou de tempo...: Nicodemos, a mulher samaritana
que fora buscar água ao poço da cidade, um ladrão que lhe fala
quando a sua dor era mais forte... Comunicava-se com todos e
todos saíam reconfortados das palavras que trocavam com Ele.

A palavra, dádiva de Deus ao homem, deve servir-nos para


fazer o bem: para consolar os que sofrem; para ensinar os que
não sabem; para corrigir amavelmente os que erram; para
fortalecer os fracos, tendo em conta que – como diz a Sagrada
Escritura – “a língua do sábio cura as feridas”7; para levantar
amavelmente os que caíram, como Jesus faz constantemente.

Mostraremos o caminho a muitos que andam perdidos pela


vida. “Recordo-me de que certa vez – relata um bom escritor –
andávamos perdidos nos Pireneus, ao meio-dia, pelas altas
solidões [...]. De repente, envolto no gritar do vento, ouvimos um
som de guizos; e os nossos olhos alvoroçados, pouco
acostumados àquelas grandezas, tardaram muito em descobrir
uma manada de cavalos que pastava lá em baixo, num raro
verdor. Para lá nos dirigimos esperançosos [...]. Pedimos
orientação ao homem, que parecia de pedra; e ele, movendo os
olhos no seu rosto estático, levantou lentamente o braço
apontando vagamente para um atalho, e mexeu os lábios. No
meio das atroadoras rajadas de vento que afogavam toda a voz,
apenas sobrenadavam duas palavras que o pastor repetia
obstinadamente: «Aquele canal...»; essas eram as suas
palavras, e apontava vagamente naquela direcção, para o alto.
Como eram belas as duas palavras gravemente ditas contra o
vento! [...] O canal era o caminho, o canal por onde desciam as
águas das neves derretidas. E não era um qualquer, mas aquele
canal, que o homem distinguia bem dentre todos pela fisionomia
especial e própria que tinha para ele; era aquele canal. Vedes?
Para mim, isto é falar”8: enriquecer, orientar, animar, alegrar,
consolar, tornar amável o caminho... “Descubro também que a
minha pessoa se enriquece através da conversação. Porque
possuir sólidas convicções é belo; mas mais belo ainda é poder
comunicá-las e vê-las compartilhadas e apreciadas por outros”9.

Muitas das pessoas que nos rodeiam andam perdidas no seu


pessimismo, na ignorância, na falta de sentido daquilo que
fazem. As nossas palavras, sempre animadoras, hão de indicar a
muitos os caminhos que levam à alegria, à paz, ao
descobrimento da própria vocação... Por “aquele canal”, por
aquele caminho encontra-se a Deus. E muitos encontrarão
Cristo nessas confidências normais, cheias de sentido positivo,
que teremos oportunidade de manter no meio da vida corrente
de todos os dias.

III. A PALAVRA “é um dos dons mais preciosos que o homem


recebeu de Deus, dádiva belíssima para manifestar altos
pensamentos de amor e de amizade ao Senhor e às suas
criaturas”10. Não podemos utilizá-la de modo frívolo, vazio ou
inconsiderado – como acontece quando nos deixamos levar pela
loquacidade –, e menos ainda para com ela faltar à verdade ou à
caridade, pois a língua – como afirma o Apóstolo Tiago – pode
converter-se num mundo de iniqüidade11, causando muito mal ao
nosso redor: discussões estéreis, ironias, zombarias,
maledicência, calúnias... Quanto amor desfeito, quanta amizade
perdida, porque não se soube calar a tempo!

Como Jesus tinha em alta estima a palavra e a conversação!:


Eu vos digo que, de qualquer palavra ociosa que disserem os
homens, prestarão contas dela no dia do juízo12. Palavra ociosa
é aquela que não aproveita nem ao que a pronuncia nem ao que
a escuta, e que provém de um interior vazio e empobrecido.
Essa maneira descontrolada de falar, esses modos de
expandir-se dificilmente compatíveis com uma pessoa que
procura agir sempre na presença de Deus, costumam ser
sintoma de tibieza, de falta de conteúdo interior. O homem bom
tira coisas boas do bom tesouro do seu coração; e o homem
mau tira coisas más do seu mau tesouro13.

Dessas conversas, nas quais se podia ter feito o bem e não se


fez, o Senhor pedirá contas. “Depois de ver em que se
empregam, por completo!, muitas vidas (língua, língua, língua,
com todas as suas consequências), parece-me mais necessário
e mais amável o silêncio. – E compreendo muito bem que peças
contas, Senhor, da palavra ociosa”14. Da conversa vã e
superficial à murmuração, ao mexerico, à intriga, à insídia ou à
calúnia costuma haver um caminho muito curto. É difícil
controlar a língua se não há um esforço por estar na presença
de Deus.

De um cristão que quer seguir Cristo, deveria poder-se dizer


que em nenhuma circunstância o ouviram falar mal de ninguém.
Pelo contrário, deveria poder-se dizer que passou pela vida,
como Cristo, fazendo o bem15, igualmente com a palavra, com a
conversa amável e cheia de interesse pelos outros. Uma
simples saudação a um conhecido por quem passamos deveria
levar-lhe o bem, deixá-lo mais bem disposto, mais risonho.

Recorramos ao nosso Anjo da Guarda antes de começarmos a


conversar com alguém. Ele saberá ajudar-nos a não dizer
nenhuma palavra ociosa: “Se tivesses presente o teu Anjo da
Guarda e os do teu próximo, evitarias muitas tolices que
deslizam na tua conversa”16. E então as nossas conversas, por
mais intranscendentes que sejam, serão instrumento para uma
sementeira de alegria e de paz.
(1) Lc 7, 31-35; (2) cfr. Sagrada Bíblia, Santos Evangelhos, EUNSA, Pamplona,
1983, nota a Mt 11, 16-19; (3) São João Crisóstomo, Homilias sobre São
Mateus, 37, 4; (4) Lc 19, 37-38; (5) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Sulco,
Quadrante, São Paulo, 1987, n. 902; (6) Albino Luciani, Ilustríssimos senhores;
(7) cfr. Prov 12, 18; (8) J. Maragail, Elogio de la palabra, Salvat, Madrid, 1970,
pág. 24; (9) Albino Luciani, Ilustríssimos senhores; (10) Bem-aventurado
Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 298; (11) Ti 3, 6; (12) Mt 12, 36; (13) Mt
12, 35; (14) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 447; (15) Act 10,
38; (16) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 564.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)