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RELAÇÕES ENTRE LITERATURA E ANTROPOLOGIA NO ROMANCE “MAÍRA”, DE DARCY RIBEIRO Introdução Nathaniel Reis de

RELAÇÕES ENTRE LITERATURA E ANTROPOLOGIA NO ROMANCE “MAÍRA”, DE DARCY RIBEIRO

Introdução

Nathaniel Reis de Figueiredo (FURG)

Na área da Antropologia, as possíveis relações com a Literatura geram

acalorados debates. Almeida (2008) aponta que tais debates tem sua raiz na dicotomia,

ainda presente, entre Arte e Ciência. A Arte seria pobremente definida como subjetiva e

pouco preocupada com o real, enquanto que a Ciência, através do método, eliminaria a

subjetividade dando conta do real “tal como ele é”. Dessa dicotomia surge outra, entre

as Ciências “duras”, com estatuto elevado por serem supostamente objetivas, e as

Ciências “moles”, nas quais se inserem, entrem outras, a Antropologia. Dessa maneira:

O tema “antropologia e literatura” suscita sempre algum nervosismo

sobretudo, ou talvez só, entre os antropólogos. Se se colocar à discussão o tema “escultura e antropologia”, por exemplo, a reação será da mais tranquila neutralidade. Porque ao contrário deste, aquele não suscita apenas um inquérito sobre a velha questão das representações e das fontes; coloca, isso sim, o dedo na ferida da produção. (ALMEIDA, 2008, p.2)

Tal ferida encontra-se no fato da disciplina antropológica, que reivindica para si

o estatuto de Ciência, assentar-se metodologicamente na “experiência e na

intersubjetividade” (ALMEIDA, 2008, p.2), sendo que o principal produto de suas

reflexões é escrito, não como um relatório técnico, mas com a intenção de dar sentido à

outras culturas para o leitor.

Laplatine (2003), que parte de uma reflexão semelhante, considera que o

confronto entre Literatura e Antropologia é imprescindível, apontando o parentesco das

atividades do escritor e do antropólogo:

O antropólogo, que realiza uma experiência nascida do encontro do

outro, atuando como uma metamorfose de si, é frequentemente levado

a procurar formas narrativas (romanescas, poéticas e, mais recentemente, cinematográficas) capazes de expressar e

a procurar formas narrativas (romanescas, poéticas e, mais recentemente, cinematográficas) capazes de expressar e transmitir o mais exatamente possível essa experiência. (LAPLATINE, 2003,

p.143)

O antropólogo francês disserta sobre a experiência literária e antropológica de

autores que enxergam a etnologia como “uma maneira de viver e uma arte de escrever” (LAPLATINE, 2003, p.144), referindo-se especificamente aos profissionais que, paralelamente ao trabalho científico, produziram romances ou relatos etnográficos com alto grau de ficcionalização, uma produção que contribui imensamente ao conhecimento antropológico.

É dessa perspectiva que o presente trabalho propõe pensar o romance Maíra,

escrito pelo antropólogo e escritor Darcy Ribeiro, salientando que a experiência antropológica do autor foi de fundamental importância para a construção do romance. Busca-se comparar alguns conceitos chaves do trabalho antropológico do autor com a construção de três personagens no romance: Isaías/Avá - o "índio genérico"; Alma - a “brasileira branca urbanizada”; "Juca" - o "brasilíndio mameluco”. Dessa maneira, intenta-se demonstrar que, na intersecção entre Literatura e Antropologia, Darcy Ribeiro consegue dar valor estético para algumas ideias centrais de seu pensamento científico.

Referencial Teórico

Brait

(2006),

dissertando

sobre

as

diferentes

maneiras

de

se

pensar

os

personagens nos Estudos Literários, considera que

[…] uma abordagem atual da personagem não pode descartar as contribuições oferecidas pela Psicanálise, pela Sociologia, pela Semiótica e, principalmente, pela Teoria Literária moderna centrada na especificidade do texto. (BRAIT, 2006, p.47)

Por tanto, parte-se aqui da ideia que Darcy Ribeiro, mesmo se valendo de sua experiência antropológica, manipula em Maíra a linguagem artística do romance. Para dar conta da especificidade dessa linguagem, recorreu-se a uma rápida reflexão sobre as contribuições da Teoria Literária em relação ao estudo da narrativa e do personagem.

Barthes (2008) considerava que se devia pensar a literatura como autônoma em relação às outras

Barthes (2008) considerava que se devia pensar a literatura como autônoma em relação às outras esferas discursivas. O romance aconteceria somente na linguagem, sendo independente de condições históricas ou sociais.

Em relação ao personagem, Barthes propõe romper com a ideia deste como um sujeito autônomo para pensá-lo como resultado no nível acional em uma relação com os outros níveis da narrativa: o nível das funções e o nível da narração.

[…] os personagens, como unidades do nível acional, só encontram sua significação (sua inteligibilidade) se são integrados ao terceiro nível da descrição, que chamamos aqui nível da narração (por oposição às funções e às ações). (BARTHES, 2008, p.48)

Tal perspectiva, que considera o personagem como produto da relação com as diferentes unidades da estrutura narrativa, converge, apesar das concepções diferentes, com a proposta de Candido (2009) sobre estudo do personagem no romance. O crítico e historiador brasileiro considera que:

[…] a verdade da personagem não depende apenas, nem sobretudo, da relação com a vida, com modelos propostos pela observação, interior ou exterior, direta ou indireta, presente ou passada. Depende, antes do mais, da função que exerce na estrutura do romance […] (CANDIDO, 2009, p.74-75)

A diferença entre as propostas de Barthes e Candido está na ênfase que dão em seus estudos na relação entre a construção do personagem e a realidade. Enquanto que o crítico francês descarta tal relação como “contingente” na análise de um romance, o crítico brasileiro considera relevante a pergunta sobre a maneira como o autor manipula a realidade para construir uma ficção, especialmente no caso dos personagens, ainda que tal estudo não tenha um caráter valorativo em relação a um romance:

[…] o problema […] da origem das personagens é interessante para o estudo da técnica de caracterização, e para o estudo da relação entre criação e realidade, isto é, para a própria natureza da ficção; mas é secundário para a solução do problema fundamental da crítica, ou seja, a interpretação e a análise valorativa de cada romance concreto. (CANDIDO, 2009, p.70)

Dentro dos mecanismos de criação do personagem levantados por Candido (2009), aprofunda-se a hipótese deste trabalho considerando que os personagens do romance Maíra não se baseiam necessariamente em um modelo “real” (uma pessoa),

mas a partir da experiência do escritor no campo da Antropologia. Dessa maneira, considera-se aqui

mas a partir da experiência do escritor no campo da Antropologia. Dessa maneira, considera-se aqui que através da comparação da produção de cunho científico/antropológico do escritor com seu romance, encontram-se semelhanças que permitem refletir sobre a relação entre a produção artística e outras esferas discursivas, especificamente entre a Literatura e a Antropologia, para além de relações simplistas de biografismo ou de puro espelhamento.

Isaías/ Avá: o “índio genérico”

Isaías/Avá, protagonista do romance, é apresentado como um índio pertencente à tribo Mairum. Ainda criança foi levado por um missionário para ser convertido em padre. Posteriormente, foi para Roma estudar teologia mas, não conseguindo se identificar com mundo “civilizado”, decide abandonar a Igreja e voltar para sua tribo, onde é esperado como sucessor do tuxaua (espécie de líder, como um “cacique”).

O capítulo que introduz o personagem no romance, com o nome de “Isaías”, é narrado em primeira pessoa. Nele se toma conhecimento da crise que Isaías/Avá sofre no convento em Roma, dividido entre ser Isaías da Ordem Missionária e Avá do clã Jaguar (um dos clãs da tribo Mairum). Ainda que domine a alta cultura ocidental, para ele as pessoas o enxergam como um “índio genérico”, sem as peculiaridades de sua tribo e, de certa forma, ele se identifica com essa condição:

Padre Ceschiatti está preocupado, Ele é o melhor confessor e guia espiritual que eu poderia ter. Nunca viu um índio. Nunca viu uma missão. Nunca saiu daqui de Roma. Por isso mesmo, pode me entender. Para ele, eu não sou um índio, sou o índio, um índio genérico, nem melhor nem pior do que ninguém. (RIBEIRO, 1983,

p.19)

O conceito de “índio genérico” faz parte do estudo de Darcy Ribeiro sobre o impacto do contato da civilização com as tribos indígenas, desenvolvido principalmente no livro Os indios e a civilização (1982). Valendo-se de seu material etnográfico levantado nos anos 1950, Darcy Ribeiro faz uma distinção entre o “índio tribal” e o “índio genérico”:

Os primeiros são os que conservam, como os Kaapor ou os Kayapó, seu ethos tribal e sua autonomia cultural. Os últimos, reduzidos a uma

indianidade sem definição tribal, como os Potiguára , os Tuxá , já não falam a

indianidade sem definição tribal, como os Potiguára, os Tuxá, já não

falam a língua original nem conservam [

mas se identificam como Tuxá ou Potiguara, em face dos brasileiros,

como forma particular de integração na sociedade nacional. (RIBEIRO, 1982, p.422)

seu patrimônio cultural,

]

Os “índios genéricos”, em uma espécie de situação limite identitária, oscilam

ora a negar sua identidade tribal, ora a negar sua qualidade nacional.”

(RIBEIRO, 1983, p.423). No romance, o personagem Isaías/Avá decide voltar para a sua tribo aceitando sua “metade” índio Mairum. Volta então como Avá, não como Isaías, como indica o próprio capítulo do relato da viagem de volta do personagem para o Brasil, intitulado “Avá”.

entre “[

]

No romance, Isaías/Avá vive a tragédia do “índio genérico”, um indivíduo que já não mais se adapta aos costumes de sua tribo e que não se identifica com os costumes “civilizados” infundidos nele. Nessa divisão, torna-se um “pária social” dentro de seu grupo étnico.

Após encontrar a personagem Alma em sua viagem de regresso, que também se dirigia à tribo Mairum, chegam à aldeia e são recebidos com grande alegria, pois Avá era esperado para suceder seu tio, morto recentemente, como tuxaua da tribo.

Sua reinserção na tribo logo se demonstra problemática, como no capítulo “O mundo alheio”, em que toda a tribo se reúne no baíto para arguir Isaías/Avá sobre as “maravilhas” que todos esperavam que ele tivesse visto. O personagem, já despido da ótica mitológica dos Mairum, não consegue corresponder ao que seus espectadores esperam ouvir. Remui, pai de Isaías/Avá e aroe (espécie de líder religioso) da tribo, tenta explicar para Jaguar, sobrinho de Isaías/Avá, o mistério que ocorre em não reconhecerem Avá no indivíduo que retornou:

O Avá veio na forma do embuçado, do encoberto que não se deixa ver. Sua forma visível só esconde, só encobre a sua essência verdadeira. É preciso não julgá-lo. Não pensar um momento sequer que ele seja tão somente o que se vê. Atrás dele está o escondido, o recôndito, cumprindo a sina que lhe impuseram os pajés-sacaca da Missão. Nele, através dele, se cumpre algum desígnio. Divino ou demoníaco? Qual? (RIBEIRO, 1983, p.211)

Deslocado tanto no mundo “civilizado” quanto no mundo “tribal”, Isaías/Avá acaba ignorado por todos, tendo

Deslocado tanto no mundo “civilizado” quanto no mundo “tribal”, Isaías/Avá acaba ignorado por todos, tendo uma morte conotativa. Suas tentativas de se reinserir na tribo, como na falha tentativa de coordenar a plantação com intuitos comerciais e no fracasso de seu casamento arranjado com Inimá, acabam demonstrando a incapacidade do índio de se adaptar a “civilização”, perdendo sua própria identidade tribal e marginalizando-se:

nos casos de destribalização decorrentes do impacto com a civilização, o processo de desintegração da cultura corresponde a dissociação das personalidades que conduz a diversos tipos de desajustamentos. O principal dele é a marginalidade cultural, ou seja, os conflitos mentais decorrentes da interiorização de valores não somente diferentes, mas opostos uns aos outros: os valores e normas tribais e os da sociedade nacional. (RIBEIRO, 1982, p.397)

Alma: a “brasileira branca urbanizada”

A personagem Alma é a coprotagonista do romance. Ela é uma mulher branca, representante do mundo “civilizado”, que após a morte do pai se desencanta da sociedade urbana e busca na religião católica uma reposta para o caos em que vive. É importante ressaltar que no início do romance Alma está morta: seu corpo ao lado de dois bebês, também mortos, é encontrado perto da aldeia Mairum por um estrangeiro.

No capítulo “Alma”, a personagem é rapidamente apresentada como “uma moça loura, espigada”(RIBEIRO, 1983, p.36). De seu diálogo com uma freira, fica revelada a sua intenção de se unir a uma missão de irmãs francesas que pretendem trabalhar com os índios Mairum e com elas tornar-se também uma freira.

O próximo capítulo dedicado à personagem, intitulado “Serviço”, são apresentados os verdadeiros motivos de Alma. Formada em Psicologia, é uma ninfomaníaca que possuía sérios problemas com o pai, pessoa muito religiosa. Fica-se sabendo também que a personagem, não conseguindo se satisfazer sexualmente, buscou nas drogas uma possibilidade de prazer, sendo posteriormente internada para se recuperar da dependência. A partir de sua internação, a personagem considera que sua conversão se iniciou, até ficar sabendo, através de uma reportagem, sobre a missão das freiras francesas junto aos índios, tendo uma “revelação” de como se salvar:

Um dia caiu em minhas mãos a mensagem de Deus, a sua palavra, a que

Um

dia caiu em minhas mãos a mensagem de Deus, a sua palavra, a

que

me há de salvar. Foi aquela reportagem sobre as irmãzinhas. As

irmãzinhas que me hão de salvar. (RIBEIRO, 1982, p.66)

Ainda que seu desejo de se unir às francesas seja negado pelas autoridades eclesiásticas, ela vai por conta própria esperar as freiras na aldeia para servi-las como intérprete.

Na relação com o trabalho antropológico de Darcy Ribeiro com a caracterização da personagem, dois pontos são importantes: o processo de urbanização acelerada no Brasil durante o século XX e a questão do “branco” na sociedade brasileira.

Pensando no processo de industrialização e urbanização do Brasil, Darcy Ribeiro aponta que “No presente século [XX] teve lugar uma urbanização caótica” (RIBEIRO, 2006, p.181). Tal “urbanização caótica” tem como resultado a deterioração urbana e a consequente deculturação dos indivíduos, onde há meros acasalamentos eventuais e onde a crise de empregos gera o crime organizado ao redor das drogas. Disso resulta uma “anomia” social onde multidões se entregam aos entorpecentes e a gestos de “revolta” e “salvação” sem grande repercussão.

Darcy Ribeiro, negando a visão do Brasil como uma “democracia racial” tal como pensada por Gilberto Freyre, vai caracterizar o “branco” de maneira pejorativa, ainda que se insira dentro da problemática identitária de outras etnias:

A classe dominante branca ou branca-por-autodefinição desta

população majoritariamente mestiça, tendo como preocupação maior,

no plano racial, salientar sua branquidade e, no plano cultural sua

europeidade, só aspirava ser lusitana, depois inglesa e francesa, como

agora que ser norte-americana. E conseguia simular, razoavelmente, estas identificações nos modos de morar, de vestir, de comer, de

educar-se, de rezar, de casar, de morrer, etc. Só a ação diferenciadora

dos fatores ecológicos e do contexto humano em que vivia é que, a seu

pesar, a tornavam irremediavelmente brasileira nestas mesmas condições (RIBEIRO, 1980, p.143)

A personagem Alma é produto do contexto de “caos urbano”. Suas crises, trocando constantemente de parceiro sexual e buscando nas uma drogas uma resposta ao seu impulso sexual incontrolável, é resultada da vida nesse “caos”. Para superá-lo, Alma evade-se de seu mundo através de uma reposta arcaica dentro da sociedade brasileira: a

religião. É a “branca e loira”, com formação acadêmica que se relaciona com pessoas de

religião. É a “branca e loira”, com formação acadêmica que se relaciona com pessoas de poder aquisitivo considerável, como seu ex-amante Fred, que busca uma nova identidade evocando para si uma “missão religiosa”.

No desenrolar do romance, Alma se une na viagem a Isaías/Avá e começa a duvidar de sua capacidade de se dedicar a evangelização dos índios. Ao chegar a aldeia, logo se adapta e identifica-se com a simplicidade do mundo Mairum, que contrasta com ao mundo caótico do qual ela veio. Canindejub (mulher branca), como é chamada pelos Mairuns, se torna uma mirixorã (sacerdotisa sexual, ou, na visão de Alma, “uma puta de índios”) e identifica-se com a posição que lhe é dada na tribo. Isto fica claro na reposta que dá a Isaías/Avá quando este lhe explica como ela é vista pelo tribo e a aconselha a ir embora:

Que nada, Isaías-Avá. Quem é você para me dar conselhos? Eu não tenho nada com o mundo lá fora Tenho tudo com essa vidinha daqui. Não largo esse osso, não. Minha vida é aqui. Aqui me realizei. Aqui vou viver. Você é que está sobrando, rapaz. (RIBEIRO, 1983,p.264)

Essa identificação da personagem com o mundo tribal dos Mairum é destinada a tragédia, como já se sabe no inicio do romance. Se a morte de Isaías/Avá é conotativa, não conseguindo se adaptar novamente ao ethos tribal, a morte de Alma é denotativa, pois está acaba engravidando e, por não ter a preparação física das índias, morre no parto sem auxílio médico.

Se os índios não podem se adaptar plenamente a civilização, também os “brancos” não podem se adaptar plenamente ao mundo tribal. Disso é possível concluir, como é constante no pensamento de Darcy Ribeiro, que nossa identidade nacional é um drama que, devido a nossa dualidade cultural da qual surgiu uma “nova civilização”, ainda esta em processo de construção:

Nós, brasileiros, […] somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. (RIBEIRO, 2006, p.410)

Juca: o “brasilíndio mameluco”

O personagem Juca é secundário dentro do romance. É um mestiço, filho de uma índia

O personagem Juca é secundário dentro do romance. É um mestiço, filho de uma índia da tribo Mairum com o agente do antigo Serviço de Proteção aos Índigenas que “amansou” a tribo. Saiu da aldeia ainda criança acompanhando um comerciante, seu Toninho, pai de sua esposa. Depois de adulto, Juca tornou-se um comerciante de considerável poder aquisitivo na região explorando os habitantes ribeirinhos do rio Iparanã, que passa pela aldeia Mairum, em busca de peles de caça e outros produtos típicos da região.

No capítulo que apresenta o personagem, intitulado “Juca”, ele vai até a aldeia Mairum após a morte do tuxaua Anacã para oferecer presentes, como espingardas e enxadas, objetos geralmente cobiçados por índios, em troca de pele de lontra. É expulso pelo índio Teró lembrando que o tuxaua morto havia dito ele nunca mais voltar e que mesmo com ele morto sua palavra continuava viva. Como este capítulo (e os outros em que Juca é o foco) é narrado quase que inteiramente em discurso direto, é da discussão entre Juca e Teró que fica claro as intenções do primeiro em relação a tribo:

O orgulho de vocês está na proteção do governo, não é? É aquele merda de seus Elias [agente do posto da FUNAI perto da tribo Mairum] arrotando que chama tropa até de avião. Pois não chama não. E vocês vão ver. Vou a Brasília e volto como agente do Posto. Ponho aquele ladrão pra fora. Aí a cantiga vai mudar. Vocês não perdem por esperar, vão ver! (RIBEIRO, 1983,

p.26)

O próximo capítulo onde Juca tem papel central, “Quinzim”, o personagem Quinzim, que acompanhava o estrangeiro que encontrou a personagem Alma morta, é interpelado de maneira violenta por Juca sobre o acontecido. No fim do capítulo, quando Quinzim pede ajuda a Juca por não ter dinheiro para voltar para casa, ele responde: “[…]Comigo sua conta está fechada.[…]Sustendo mais de cem famílias de safados nesse rio afora e está para nascer safado que vai me enrolar.” (RIBEIRO, 1983,

p.88)

Em outros capítulos, fica-se sabendo como Juca “sustenta” os ribeirinhos do Iparaña: ele deixa alguns objetos, como espingardas, calças, mosquiteiros e agulhas,

exigindo em troca pele de lontra e de jaguatirica, que não são fáceis de serem caçados.

A personagem Alma, assim que toma conhecimento das práticas de Juca, pensa: “[

mameluco cumprindo sua sina de castigador do gentio materno”(RIBEIRO, 1983,

]é o

p.124). Tal “sina” do mameluco brasileiro é trabalhada em perspectiva histórico- antropológica por Darcy Ribeiro

p.124). Tal “sina” do mameluco brasileiro é trabalhada em perspectiva histórico- antropológica por Darcy Ribeiro no livro O Povo Brasileiro (2006). Ao tratar da “gestação étnica” dos brasileiros, o antropólogo dedica um capítulo aos “brasilíndios”, figuras históricas geradas do cruzamento brancos lusitanos com índias, em grande parte responsáveis pela exploração dos índios e pela expansão do domínio português para dentro do continente durante o período colonial:

O que buscavam no fundo dos matos a distâncias abismais era a única mercadoria que estava a seu alcance: índios para uso próprio e para a venda, índios inumeráveis que suprissem as suas necessidades e se renovassem à medida que fossem sendo desgastados, índios que lhes abrissem roças, caçassem, pescassem, cozinhassem, produzissem tudo o que comiam, usavam ou vendiam; índios, peças de carga, que lhes carregassem toda a carga ao longo dos mais longos e ásperos caminho. (RIBEIRO, 2006, p.95).

Esses mestiços são filhos da dupla rejeição: dos pais, com quem querem se identificar, e do gentio materno, que buscam explorar, situação semelhante a do personagem Juca no romance. Estes mestiços, para Darcy Ribeiro, ficam em um espaço de ninguendade, uma das características da identidade brasileira. Ainda assim, como Juca, alguns conseguiram alguma prosperidade:

Os mais bem-sucedidos deles alcançavam não só a prosperidade que essa pobre economia podia dar, mas também o reconhecimento público de suas façanhas e o mais alto contentamento consigo mesmos. (RIBEIRO, 2006, p.96)

No romance, tal reconhecimento culmina em uma tragédia. Juca recebe a proposta de um senador de mapear a região ao longo do rio Iparaña dominada pela tribo hostil e rival do Mairuns, os Epexãs (também fictícia) em troca de uma uma porção dessas terras mapeadas. Durante o serviço, Juca é atacado e morto.

É interessante ressaltar que a caracterização e o desfecho do personagem Juca acaba subvertendo a representação romântica de identidade nacional centrada no mestiço, como plasmada por José de Alencar em Iracema:

[…] o perfil de Juca, malicioso, talvez possa-se dizer, até ingrato, para com aqueles que o criaram e, sem nenhuma dúvida, preconceituoso, dá a medida exata do quão distante este romance se coloca de um texto como Iracema, de José de Alencar, cujo objetivo era difundir a crença no mito fundacional, fixado no nascimento de Moacyr, fruto do

encontro amoroso entre o conquistador branco e a índia […] (RODRIGUES, 2009, p.140) Conclusão No

encontro amoroso entre o conquistador branco e a índia […] (RODRIGUES, 2009, p.140)

Conclusão

No decorrer do trabalho, percebeu-se que o antropólogo e romancista Darcy

Ribeiro conseguiu estabelecer no romance Maíra uma ligação entre as suas duas áreas de atuação para além da dicotomia simplista “ciência versus arte”, valendo-se tanto da

Literatura como da Antropologia para “[

esse ser do homem esquecido pela tendência cada vez mais hiper-tecnológica e não reflexiva da ciência.” (LAPLATINE, 2003, 146)

de uma maneira não especulativa

]explorar

Com Isaías/Avá se tem o índio tribal que não consegue se adaptar a civilização; com Alma, a branca civilizada que não se reconhece em seu meio mas não consegue se adaptar plenamente no mundo tribal; com Juca, a mestiçagem dos dois povos que acaba servindo muito mais aos propósitos dos grupos dominantes do que a constituição de um “legítimo” brasileiro. De meio de tudo isso, a tribo Mairum, incapaz de se adaptar aos novos tempos e incapaz de se manter como era antes, fadada a extinguir-se.

Ao transmutar em objeto artístico sua experiência de antropólogo, Darcy Ribeiro conseguiu criar um romance que possui tanto riqueza literária quanto antropológica. Fez muito mais do que demonstrar, como a linguagem cientifica faz, mostrando o destino trágico de uma etnia e, ao mesmo tempo, abrindo reflexões sobre uma série questões que cruzam tanto o literário quanto o antropológico.

Referências

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