Mary Jane Spink
Organizadora

PRÁTICAS DISCURSIVAS E PRODUÇÃO DE SENTIDOS NO COTIDIANO Aproximações teóricas e metodológicas

Rio de Janeiro 2013

Esta publicação é parte da Biblioteca Virtual de Ciências Humanas do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais – www.bvce.org Copyright © 2013, Mary Jane Spink. Copyright © 2013 desta edição on-line: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais Ano da última edição: 2004, Editora Cortez. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer meio de comunicação para uso comercial sem a permissão escrita dos proprietários dos direitos autorais. A publicação ou partes dela podem ser reproduzidas para propósito não comercial na medida em que a origem da publicação, assim como seus autores, seja reconhecida. ISBN: 978-85-7982-068-7 Centro Edelstein de Pesquisas Sociais www.centroedelstein.org.br Rua Visconde de Pirajá, 330/1205 Ipanema – Rio de Janeiro – RJ CEP: 22410-000. Brasil Contato: bvce@centroedelstein.org.br

SOBRE OS SENTIDOS…

Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma coisa, o significado fica-se logo por aí, é directo, literal, explícito, fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer; ao passo que o sentido não é capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros e quartos, de direcções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma estrela quando se põe a projectar marés vivas pelo espaço fora, ventos cósmicos, perturbações magnéticas, aflições.

José Saramago Todos os nomes

I

......... Spink e Vera Mincoff Menegon .. 188 II ......................................................... Spink e Rose Mary Frezza ....... 156 CAPÍTULO VIII Por Que Jogar Conversa Fora? Vera Mincoff Menegon ...............SUMÁRIO APRESENTAÇÃO .....IV CAPÍTULO I Práticas Discursivas e Produção de Sentido: Mary Jane P.............................................................................................................................................................................................. 22 CAPÍTULO III A Pesquisa como Prática Discursiva: Mary Jane P................................... 100 CAPÍTULO VI Garimpando Sentidos em Bases de Dados Lia Yara Lima Mirim ......................... 1 CAPÍTULO II Produção de Sentido no Cotidiano: Mary Jane P. 71 CAPÍTULO V Análise de Documentos de Domínio Público Peter Spink ..... Spink e Benedito Medrado............................................................................................... 127 CAPÍTULO VII Entrevista: uma Prática Discursiva Odette de Godoy Pinheiro............. Spink e Helena Lima ........................ 42 CAPÍTULO IV Rigor e Visibilidade: Mary Jane P...........................................................

................................................................................CAPÍTULO IX Textos em Cena: Benedito Medrado ........ Passarelli....................................................... 263 III ..................... 252 AUTORES ..................................................................................................... 242 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 215 CAPÍTULO X Imagens em Diálogo: Carlos André F....................

Pensar. expandia-se a proposta. já em formas coletivas: mesas. uma forma específica de pesquisar em Psicologia Social foi se definindo para mim a partir de leituras e de pesquisas. nos encontros no Núcleo de Pesquisa em Psicologia Social e Saúde. é claro. mas de um coletivismo resultante do próprio desenvolvimento teórico. afinal. portanto. quando muito. outros referenciais. assumiu. Emergiu dessas discussões a demanda de uma apresentação mais sistemática dessas ideias. Eram poucos os textos escritos por IV . Não se trata de uma proposta coletiva em sua origem. Sendo muitos os colaboradores. pautada pela interface entre leituras e pesquisas e tornada visível em texto e fala. os encontros e desencontros. é uma prática social e como tal. De empreitada típica dos fazeres intelectuais. Ampliavam-se as oportunidades para levar as ideias a passear e fazê-las conversar com outros autores. papers e painéis em coautoria. Não por acaso. a partir de 1996. Primeiramente. Esses outros foram inicialmente os vários orientandos de Mestrado e Doutorado para quem as ideias encontravam ecos. gerando. seria possível propor que o caráter coletivo desta obra definiu-se a partir de várias etapas. um caráter coletivo. progressivamente. esses interesses tinham na Saúde Pública o seu foco. as críticas. Coletivizava-se paulatinamente a proposta através da disponibilidade de falar sobre e de escutar as dúvidas. Não por acaso. na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.APRESENTAÇÃO Esta coletânea é fruto de uma longa trajetória. Esses eram ainda fóruns acanhados: diálogos travados em momentos de orientação. a perspectiva coletiva se fazia presente. Mas crescia também a dificuldade de socializá-la. Em retrospecto. Mas para que as ideias extrapolassem esse âmbito mais intimista foi preciso que fizessem sentido também para outros. perpassada por dialogia. leituras compartilhadas – ideias testadas. as propostas de seminários avançados e as inúmeras participações em congressos.

As reflexões estavam confinadas às teses e dissertações – sempre de difícil circulação – ou às apresentações orais em congressos – de circulação ainda mais difícil. fornecendo uma pista valiosa para redefinir subjetividade (e o conceito de indivíduo aí abrigado) a partir da perspectiva construcionista. Referiase ele à sociabilidade intrínseca do conceito de pessoa. Pedrinho é uma voz que se faz presente neste livro.nós. muitas outras pessoas contribuíram. aí sim propiciando contribuições deliberadas. assim. travaram-se em dois momentos. às vezes sem nem ao menos terem consciência da imensa contribuição que fizeram. Não só entre os autores. elaborado no âmbito da Teologia. Por exemplo. professor da PUC-SP cujas virtudes filosóficas tantas vezes nos iluminaram. Não se tratava de fazer uma palestra.1 inadvertidamente forneceu um conceito que se tornou central para nossos esforços de desfamiliarização das perspectivas essencialistas. mas de fornecer alguns textos por nós considerados básicos que foram lidos e discutidos anteriormente pelo grupo. Travou-se nesse contexto um rico debate visando problematizar conceitos e esclarecer dúvidas. em seminário recente. Rio Grande do Norte. a própria elaboração do livro suscitou um rico debate. V . Natal. Pedrinho Guareschi. uma apresentação mais sistemática das reflexões que fazíamos. Mas como uma oportunidade para ampliar o debate. 22 a 25 de novembro de 1998. Não um projeto acabado pois eles nunca o são. 2 Realizado no período de 2 a 5 de fevereiro de 1999 na FFCL da USP em Ribeirão Preto. No início desse ano fomos convidados para discutir nossas ideias no 4o Encontro Científico do Centro de Investigação Sobre 2 Desenvolvimento e Educação Infantil – CINDEDI. Mesmo sem compartilhar dos pressupostos que embasam nossa proposta. Os debates. Foi uma primeira oportunidade de testagem de conceitos e do inter-relacionamento 1 Simpósio Internacional sobre Representações Sociais – Questões Epistemológicas. Também Rogério Costa. teve um papel ativo para além do que ele possa estar ciente. Foi uma experiência muito rica. Tornava-se urgente. surgiu dessa premência a proposta de elaboração de uma coletânea de textos que refletissem o que propúnhamos. Sendo muitos os autores e novas as ideias. ou um seminário.

Foram discussões preciosas. achamos que seria interessante apresentar esses capítulos ao Núcleo de Pesquisa em Psicologia Social e Saúde de modo a usufruir das experiências que os membros do Núcleo já tinham no manuseio dos conceitos-chave que serão aqui discutidos. direta ou indiretamente. impossível. Muitos compareceram às reuniões do Núcleo especificamente para a discussão dos quatro capítulos iniciais. comunicamos a eles essa proposta. Uma experiência inesquecível de trocas pautadas pelo respeito mútuo – até mesmo quando os pressupostos não podiam ser compartilhados.desses em um ambiente receptivo e disposto a dialogar com o referencial em desenvolvimento. doutoranda. Um segundo momento de debate ocorreu já na fase de elaboração dos capítulos desta coletânea. alunos e pesquisadores de outras instituições. dar nomes às muitas vozes que se fizeram ouvir. mas se fizeram ouvir enviando seus comentários por correio. e Daniel Gonzalo Eslava. Reconhecemos também as contribuições de colegas da Faculdade de Saúde Pública da USP: Oswaldo VI . Ficamos encantados com a receptividade. Agradecemos muito especialmente as contribuições dos colegas que enfrentaram algumas horas de estrada para estarem presentes nessas discussões: Marisa Japur. de agradecer a Ana Paula Soares da Silva e os membros do Grupo de Trabalho de Entrevista. Ana Paula Silva. Tendo em vista a riqueza da experiência junto ao CINDEDI. pela importante sugestão de leitura de um texto de Fernand Braudel. de mencionar o nome de Carmem Craidy. professora da FFCL da USP de Ribeirão Preto. Muitos não puderam comparecer. mestrando nessa mesma Instituição. Emerson Fernando Rasera (o Mera). que leram nossos textos com tanta atenção e conduziram o debate com tanta propriedade. Foram muitas as pessoas presentes e muitas as contribuições. portanto. da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. doutorando na Faculdade de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto. Mas impossível também deixar de mencionar duas colegas – Maria Clotilde Rossetti Ferreira e Ana Maria Almeida Carvalho – pelo carinho com que acolheram nossos posicionamentos teóricos. Como participam do Núcleo.

Conversavam ele e o marquês de Casalduero. personagem do conto de Gabriel Garcia Marquez. A frase surpreendeu o marquês. quando foram surpreendidos pelas badaladas das cinco. Deixo público meu reconhecimento pelo empenho e investimento de dois dos VII . e Marcos Reigota. ainda. Quiçá. que da lonjura do Kentucky enviou tantas contribuições preciosas. como herdeiros de Bakhtin. como os anjos. sim. Ao bispo aquilo pareceu uma coincidência natural. o problema da autoria. membros atuais – ou futuros – do Núcleo. desenhou no ar uma série de círculos contínuos. O que vem a ser autoria quando tantas vozes se fazem presentes? Quando fazemos interlocução com tantos autores? Quem somos. Sônia Andrade e Cristina Melo. o que fizemos? Talvez tudo o que podemos fazer é concordar com Dom Toríbio de Cáceres y Virtudes. assim. os alunos do Mestrado e Doutorado da PUC-SP. – cada hora me ressoa nas entranhas como um tremor de terra. como Jacqueline Machado Brigagão. que em suas perambulações globais encontrou tempo para nos enviar por correio (nada eletrônico) suas ponderações. a necessidade de contabilizar esforços. Do amor e outros demônios. Acatar a natureza coletiva das ideias não elimina a responsabilidade de cada um por fazê-las circular. pois era o mesmo que ele pensara quando soaram as quatro.Tanaka. Trata-se de reconhecer as contribuições e o tempo despendido e de aceitar a responsabilidade pelas ideias formuladas no conjunto dos textos desta coletânea. – As ideias não são de ninguém – disse. não poderia ser de outra forma!! Mas vivendo em outras épocas. portanto. – É horrível – disse o bispo. a responsabilidade pela organização desta coletânea. Assumo eu. Agradecemos ainda os comentários de colegas que se fizeram presentes por vias eletrônicas. doutorandas nesse mesmo Departamento. Com o indicador. professor do Departamento de Saúde Materno Infantil. E. Restou-nos. e concluiu: – Andam voando por aí. coloca-se.

introduz algumas das técnicas que vêm sendo utilizadas por nós para dar visibilidade ao processo de interpretação. volta-se à discussão metodológica. abordar a diversidade de formas de coletar informações para dar subsídios à compreensão dos processos de produção de sentido a partir das práticas discursivas. Constituem por vezes exemplos de uso das técnicas apresentadas no capítulo quatro. têm. Situa a perspectiva construcionista e a forma de trabalhar com linguagem no âmbito da Psicologia Social. retoma a problemática do rigor à luz dos processos de interpretação. escrito em coautoria com Vera Mincoff Menegon. Os capítulos seguintes. nesse processo. Buscam. ainda. O capítulo quatro. De resto. Tem como objetivo problematizar o conceito instituído de pesquisa científica e apresentar a posição construcionista. buscando ressignificar. foi escrito em coautoria com Benedito Medrado e tem por objetivo discutir os pressupostos e definir os conceitos que vêm fornecendo subsídios para a compreensão da produção de sentidos no cotidiano a partir da análise das práticas discursivas. Rigor e visibilidade: a explicitação dos passos da interpretação. O primeiro. como não poderia deixar de ser. mais coletiva e foco dos debates travados. A pesquisa como prática discursiva: superando os horrores metodológicos. O terceiro capítulo. sem ser esse entretanto seu objetivo VIII . em seu conjunto. fruto de reflexões e pesquisas realizadas pelo grupo. Fazendo uma ponte com os capítulos seguintes da coletânea. O segundo capítulo. A primeira parte.meus colaboradores mais próximos – Benedito Medrado e Vera Menegon. autoria única. Maria Helena de Carvalho e Rita de Cássia Q. o conceito de rigor. Agradeço. escrito em coautoria com Helena Lima. Produção de sentido no cotidiano: uma abordagem teórico-metodológica para a análise das práticas discursivas. intitulado Práticas discursivas e produção de sentido: a perspectiva da Psicologia Social . compreende quatro capítulos escritos em coautoria. foi escrito em coautoria com Rose Mary Frezza e visa fornecer o contexto histórico da perspectiva teórica endossada na coletânea como um todo. as autorias definem as características do próprio livro. a cuidadosa revisão dos textos feita por Teresa Cecília de Oliveira Ramos. Gorgati.

o capítulo cinco. de Vera Mincoff Menegon. Posiciona assim as conversas como modalidades privilegiadas para o estudo da IX . O capítulo sete. Para isso. Entrevista: uma prática discursiva. entendida como prática discursiva. O capítulo seis. inicia com uma discussão sobre a ciência como linguagem social que tem formas peculiares de apresentação e circulação de discursos. intitulado Por que jogar conversa fora? Pesquisando no cotidiano. para além do que está impresso em suas páginas. jornais etc. Busca ainda exemplificar os procedimentos de análise e interpretação de dados relacionados à entrevista. propõe que as conversas podem ser algo mais do que um mero hábito corriqueiro do cotidiano. de autoria de Lia Yara Lima Mirim. são parte do processo de construção da esfera pública. intitulado Análise de documentos de domínio público. Mas pontua também a especificidade do tratamento que a Psicologia Social dá a esses documentos visto que eles refletem práticas discursivas que. O capítulo oito. arquivos. de Odette de Godoy Pinheiro.explícito. de autoria de Peter Spink. a partir de pesquisa focalizada na entrevista inicial de um Serviço de Saúde Mental da rede básica. Focaliza então a crescente importância das bases de dados como acesso à literatura científica e fornece um exemplo de uso de uma base específica (o Medline) utilizada em pesquisa sobre a construção social do sentido do teste HIV. discute os aspectos teórico-metodológicos relacionados à (inter)ação dos interlocutores na situação de entrevista. seja pela forma de análise e identificação do material ou pelo tratamento que dão à temática do tempo. explora as possibilidades de trabalhar os documentos de domínio público (relatórios.) como processos sócio-históricos de construção de saberes e fazeres. Assim. Chama a atenção para as importantes contribuições que os historiadores podem trazer para a Psicologia Social. Garimpando sentidos nas bases de dados. Focalizam as diferentes maneiras em que a construção dialógica do sentido se faz presente no cotidiano. tem por objetivo discutir a utilização da literatura científica como recurso metodológico em pesquisa.

Com base nos conceitos de dialogia. 15 de junho de 1999 X . O capítulo dez. Traz. dessa forma. apresenta os elementos que compõem a linguagem cinematográfica. apresenta algumas experiências de pesquisa com jornais e comerciais de televisão. de autoria de Carlos André F. De modo a ilustrar alguns processos que caracterizam a produção midiática. algumas reflexões sobre as peculiaridades e a importância das conversas nas interações sociais de nosso cotidiano. São todos eles trabalhos estimulantes. Discute a reconfiguração entre as dimensões do público e privado proporcionada pela mídia a partir de seu poder de dar visibilidade aos fenômenos sociais e de construir novas dinâmicas interacionais. Benedito Medrado focaliza conceitos e processos que são centrais aos estudos em mídia. Passarelli. buscando entendêlos a partir da perspectiva teórica dos estudos de linguagem de Bakhtin. Ou talvez apenas novas configurações de velhos olhares. Propostas de análise que buscam entender os fenômenos do cotidiano a partir de um olhar pautado pela dialogia dos processos sociais implícita nas práticas discursivas que permeiam nosso dia-a-dia. Imagens em diálogos: filmes que marcaram nossas vidas. enunciação e gêneros discursivos busca compreender que imagens podem se formar no campo da Psicologia Social a partir das que são projetadas na tela do cinema. Textos em cena: a mídia como prática discursiva. Para tanto. busca discutir os pressupostos do processo de recepção de sons e imagens em movimento que constitui o campo de análise de filmes. baseando-se na pesquisa que realizou com conversas cujo assunto em pauta era a menopausa. No capítulo nove. São olhares novos.produção de sentido. Mary Jane Paris Spink São Paulo.

Embora focando o estudo da produção de sentido na Psicologia Social. Do ponto de vista da Psicologia Social. aspecto que será explorado na primeira parte deste capítulo. na segunda parte do capítulo. Concebendo o sentido como uma construção dialógica. Busca. Consideramos necessário. buscaremos situar brevemente a genealogia da temática produção de sentido. buscaremos. Faz-se necessário esclarecer que o objetivo é nos posicionarmos no debate contemporâneo. do construcionismo ou das correntes filosóficas que privilegiam a linguagem. entretanto. consideramos que a proposta teórico-metodológica em construção é 1 . A contextualização a ser feita aqui busca situar.CAPÍTULO I PRÁTICAS DISCURSIVAS E PRODUÇÃO DE SENTIDO: A perspectiva da psicologia social Mary Jane P. situar a produção de sentido como forma de conhecimento que se afilia à perspectiva construcionista e situar as práticas discursivas dentre as várias correntes voltadas ao estudo da linguagem. abordaremos essa temática na terceira parte do capítulo. no âmbito da Psicologia Social. Finalmente. que será apresentada nos capítulos que compõem esta coletânea. explicitar os fundamentos epistemológicos desta proposta a partir de uma breve apresentação da perspectiva construcionista em Psicologia Social. ainda. fazer uma análise histórica da Psicologia Social. o estudo da produção de sentido a partir da análise das práticas discursivas. esclarecer quais afiliações pautam nossa proposta. Não pretendemos. entendendo ser necessário também situar a noção de linguagem que embasa a proposta de trabalho com práticas discursivas. Spink e Rose Mary Frezza O objetivo deste capítulo é fornecer o contexto histórico necessário para a compreensão da proposta teórico-metodológica do estudo da produção de sentido no cotidiano. assim.

2 . Ernest Hilgard. Até os anos setenta. o interesse pela compreensão dos sentidos na vida cotidiana era.. traduzido em sua prática. a partir da reflexão sobre as formas possíveis de concretizar uma proposta metodológica. em cognição. (1953). busca compreender. afirmando que a Psicologia. apoiavase sobretudo no método. Falava-se em percepção. visto como suspeito. uma espécie de tendência central operando socialmente em direção ‘a média. Buscando responder à pergunta: como damos sentido ao mundo em que vivemos?..1 em influente obra publicada nos anos cinquenta. em atitudes. vivia-se o sonho da Psicologia Científica. Para concretizar o projeto científico. explícito e passível de ser repetido para conseguir-se alguma coisa”. no mínimo. E.necessariamente interdisciplinar. tal como outras ciências. ou pelo menos da ortodoxia da disciplina. e também com a Filosofia (e mais especificamente com a Epistemologia). na definição fornecida por Mario 1 Hilgard. e até mesmo na força do grupo em direção à conformidade. um procedimento regular. No afã de definir conceitos e mecanismos universais passíveis de demonstração empírica de cunho experimental. Essas interfaces serão expostas e discutidas ao longo dos capítulos seguintes. a partir da hegemonia do método científico: “. predizer e controlar o comportamento de homens e outros animais. tornou-se imprescindível estabelecer uma interface com a História e com a Antropologia – como resultado da necessária reflexão sobre o contingente e o universal –. Psicologia Social e a compreensão do sentido na vida cotidiana A expressão dar sentido ao mundo nem sempre fez parte do projeto da Psicologia Social. London: Methuen. em interação. reiterava o discurso corrente na época. Introduction to Psychology. pensando ciência como um fazer pautado pela demonstração e generalização dos resultados. 1.

engajam-se em investigações filosóficas de sua prática ou no exame crítico das bases metafísicas implícitas de suas teorias (1993:24). Diz ele: ao contrário dos físicos. 2. de forma maliciosa. (1938). & Schlosberg. ver Farr.. 1998). 19. Piaget. New York: Oxford University Press (já na sétima edição em 1962).5 É isso é o que aponta Rom Harré. p. Epistemologia. quando afirma. Robert Zajonc afirmava: “A Psicologia Social não é um ‘tipo’ ou uma ‘escola’ da Psicologia. 5 Por exemplo... (1953).6 em recente reavaliação da Psicologia Social contemporânea. ao usar o termo metafísica. por exemplo: Woodworth. visto que a ciência moderna define-se sobretudo pela contraposição à metafísica. Harré. a influente vertente da Psicologia Experimental3 com suas ressonâncias na Psicologia Social Experimental. Osgood. (1966). Exploradas inicialmente por sociólogos e psicólogos. faz um jogo de palavras.A. 4 Com raras exceções. L'Épistémologie Génétique. 7 A esse respeito. Zajonc. C. (1980). Method and Theory in Experimental Psychology. 3 .). abandonando as raízes mais sociais dos fundadores da disciplina (entre eles George Mead e Kurt Lewin) e fortalecendo a perspectiva individualista em Psicologia Social. São Paulo: T. e reconhece integralmente as leis da Psicologia Geral e Experimental”. É d ecididamente um ramo da Psicologia. 6 Psicólogo e filósofo que contribuiu para as obras iniciais de psicologia crítica. falava-se pouco em bases filosóficas. Paris: Presses Universitaires de France (traduzido para o português pela Editora Vozes). London: Methuen (revisado em 1954). R.. Michael Billig (. 4 Em livro publicado em 1966. na tradição inaugurada em 1918 2 3 Bunge. com exceção de figuras notáveis como Jerome Bruner (.. 2 Emerge. (1970). J. Califórnia: Wadsworth. poucos psicólogos. R. que os psicólogos são avessos à metafísica. The Roots of Modern Social Psychology. (1996).). p. Veja-se. Social Psychology: an Experimental Approach. desse contexto.) e John Shotter (. H. Experimental Psychology. 7 O estudo das atitudes é um excelente exemplo desse movimento de progressiva individualização dos conceitos centrais da disciplina. emprega-o no sentido de “reflexão crítica sobre a natureza do ‘mundo’ a ser investigado”..Bunge. M. Oxford: Blackwell (traduzido para o português pela Editora Vozes. Eram essas as forças hegemônicas que empurravam os psicólogos sociais para o laboratório. R. Queiroz.

e Stigma. H. Inevitavelmente. A valorização da observação minuciosa dos comportamentos pode ser exemplificada com o fortalecimento do ensino da Etologia nos cursos de graduação10 e com as pesquisas sobre comportamento infantil da Psicologia do Desenvolvimento. USA: Prentice Hall. no trabalho de Erving Goffman 13 sobre dramaturgia 8 Thomas. 1959 (traduzido para o português pela Editora Vozes). Mass. Mães e Crianças – separação e reencontro. Por exemplo. New Jersey. & Rauch. On Aggression. Ver Ferreira. London: Methuen. 9 Estamos nos referindo. New York: Holt. F. o que levou a uma revalorização do estudo dos processos sociais – inspirada. Worcester. impulsionada inicialmente em duas direções: a valorização da observação dos comportamentos em situações naturais e o estudo de comportamentos em seu ambiente natural. 12 Willems. W. Lorenz. passaram primeiramente por uma purgação nominal.R. W. São Paulo: Edicon. L. abandonando. Naturalistic Viewpoints in Psychological Research. deixando de ser denominadas de atitudes sociais para adotar apenas a qualificação de atitudes. K. (1958). & Znaniecki. (1966). Murchinson (org. a ser estudadas preferencialmente por meio de escalas e situações experimentais em laboratório. aqui.) (1935). (1986). os estudos de campo. Handbook of Social Psychology. a seguir. The Polish Peasant in Europe and America. entre outros. 11 Já a perspectiva naturalista do estudo de comportamentos em seu ambiente natural tem na obra de Edwin Willems e Harold Rauch12 um marco importante. New York: Dover Publ. No final dos anos cinquenta e na década de sessenta. M. sair do laboratório implicava acatar a visão do outro. Dentre eles destacamos: The Presentation of Self in Everyday Life. publicado em C. ao artigo de G.C.pelo estudo de William Thomas e Florian Znaniecki 8 sobre camponeses poloneses emigrados para os Estados Unidos. 1963 (traduzido pela Editora Zahar) 4 . fazendo parte de uma vertente denominada Psicologia Social Sociológica que se constituiu em contraposição à Psicologia Social Experimental. P. esboçava-se uma reação ao paradigma dominante de fazer ciência em Psicologia Social.: Clark University Press. 13 Os trabalhos de Goffman marcam uma distinção na produção do conhecimento em Psicologia Social. em larga medida. por exemplo. Allport sobre atitudes. 10 O fortalecimento do ensino de Etologia foi impulsionado pelo trabalho de Lorenz e Tinbergen. A. 9 Passaram. 11 Nesse contexto destaca-se John Bolwby como precursor. E. (1969). New York: Doubleday Anchor.

por exemplo. Paris: Presses Universitaires de France. de Nick Heather. com forte influência na América Latina. tal como os antecessores europeus. I.e de Serge Moscovici14 sobre o conhecimento do senso comum. Antes de adentrar a caracterização dos posicionamentos construcionistas e suas 14 La Psychanalise – son image et son public. Dentre as obras importantes para esta reflexão destacamos (no contexto Europeu): The Context of Social Psychology. organizado por Joachim Israel e Henri Tajfel e publicado em 1972. São obras que focalizam. que reagia contra a psicologia de laboratório. portanto. surgiram importantes reflexões críticas focando tanto a naturalização do fenômeno psicológico (que faz perder de vista o fato de que os conceitos e teorias são produtos culturais. socialmente construídos e legitimados) como a despolitização da disciplina (que faz perder de vista o papel da disciplina. Radical Perspectives in Psychology. 15 Ver. antes de mais nada. e especialmente na década de setenta. organizado por Silvia Lane e Wanderley Codo. na legitimação da ordem social). solo em que se ancoraram os teóricos pós-modernos da Psicologia Social. 5 . a naturalização e despolitização da Psicologia. publicado em 1976. publicado pela primeira vez em 1984. organizado por Nigel Armistead e publicado em 1974. (1989). London: Routledge. É esse. entendida como domínio de saber. Essas obras congregam muitos dos autores que. Tratava-se. The Crisis in Modern Social Psychology – and how to end it. Reconstructing Social Psychology. Obviamente o impulso metodológico tem implicações para a própria definição do que vem a ser o objeto da Psicologia Social. A partir dos anos sessenta.15 Um pouco mais tarde. mas que adquirem uma conotação singular por serem reflexões feitas a partir do ponto de vista dos dominados. Parker. definiram as bases para a Psicologia Social Crítica. Grupo y Poder. de uma virada metodológica. foram publicadas as obras de Ignacio Martín Baró (Acción e Ideología. 1961 (traduzido para o português pela Editora Zahar). 1983. e Sistema. 1989 e o livro Psicologia Social: o Homem em Movimento. o contexto histórico em que se apoia a proposta de estudo da produção de sentido por meio das práticas discursivas. na Europa.

em vários lugares. 2. é importante frisar que. paralelamente. obviamente. e também a psicologia crítica apresenta-se polissêmica: muitos são os seus sentidos. é mais sutil e seus efeitos mais difíceis de identificar sem cair em afirmações tendenciosas. em quatro autores: Peter Berger e Thomas Luckmann. Os três movimentos são. na Psicologia Social.. duas fontes de conservadorismo na Psicologia Social: uma filosófica e outra cultural.) uma mistura desconcertante de desenvolvimentos e desapontamentos. na Sociologia do Conhecimento. algumas das piores características do antigo programa persistiram praticamente inalteradas (1993:24). lado a lado. interdependentes. 6 . como uma desconstrução da retórica da verdade. para isso. Trata-se da longa hegemonia norteamericana na psicologia acadêmica. a qual tem exercido uma pressão contínua no sentido da incorporação do individualismo e do cientificismo na Psicologia Social e. e na Política. segundo Harré. Ocorreram expansões e aplicações vigorosas do “novo paradigma”. como mencionamos anteriormente. como busca de empowerment de grupos socialmente marginalizados. admite ele. Há. Construcionismo e Psicologia Social A perspectiva construcionista é resultante de três movimentos: na Filosofia. mas. como em tantos outros domínios de nossa vida. refletindo um movimento mais amplo de reconfiguração da visão de mundo própria a nossa época. A primeira. a resistência às inovações.. Sendo impossível fazer uma discussão mais ampla no escopo deste trabalho. A segunda. Nas palavras de Harré: A história da psicologia social nos últimos vinte anos tem sido (. como consequência. apoiando-nos. Nem toda a Psicologia Social é uma psicologia crítica. Kenneth Gergen e Tomás Ibáñez. iremos focalizar o construcionismo a partir da Psicologia Social e da Sociologia do Conhecimento. decorre da falta de reflexão filosófica entre os psicólogos. o novo e o velho convivem. como uma reação ao representacionismo.implicações para o trabalho com linguagem.

Rose. e construcionismo para referir-se à abordagem teórica. Pragmatics of Human Communication. vem à mente o nome de Peter Berger e Thomas Luckmann. por exemplo. J. (1968). Gergen: Texts of Identity. J. para o construcionismo. publicado originalmente em 1966. Califórnia. Beavin. D. dessa forma. 7 . pelo historicismo marcante de sua obra. da Escola de Palo Alto. 17 Vide. por exemplo. H. Em seus primórdios. pelo anti-idealismo ferrenho da Genealogia da Moral e de A Vontade de Potência. London: Sage. Individualizing Psychology. e Karl Mannheim. entretanto. gerar confusões conceituais. e de seu livro.1. uma vez que ele é empregado também pelos autores vinculados à escola piagetiana para referir-se à centralidade da atividade do sujeito no desenvolvimento cognitivo. centrados na relação entre ideologia e verdade. preferencialmente. Há autores que empregam o termo construtivismo. e Wilhem Dilthey.17 Decorre daí nossa opção por essa nomenclatura. já um clássico. A Sociologia do Conhecimento tem ancestrais imponentes: Karl Marx. que lhe deu os contornos clássicos. Shotter & K. como campo empírico. lembramos que. 2. a excelente análise de Nicholas Rose sobre o tema. mesmo quando o indivíduo é concebido como um ser em sociedade. P. Mas a disciplina propriamente dita tem como fundadores Max Scheler. N. Friedrich Nietzsche. como por exemplo aqueles vinculados às correntes teóricas da terapia familiar sistêmica. pela reflexão sobre a relação entre a atividade humana e a consciência. dá margem à adesão (ainda que não intencional) a uma perspectiva individualista. & Jackson. O construcionismo na perspectiva da Sociologia do Conhecimento Quando falamos em construcionismo. London: Faber and Faber. a própria noção de indivíduo é uma construção social. herdeiros de Gregory Bateson e Paul Watzlawick. a Sociologia do Conhecimento focalizava questões epistemológicas utilizando. Em J. O termo construtivismo. Watzlawick. presente sobretudo nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos. filósofo alemão que cunhou o termo Sociologia do Conhecimento na década de vinte.Esses autores utilizam. intitulado A Construção Social da Realidade. a expressão construção social para falar da ação.. D. a história das 16 Ver. (1992).16 O uso desse termo pode.

Eles operacionalizam sua proposta a partir da indagação: como é possível que os significados subjetivos se tornem facticidades objetivas? Essa indagação é respondida a partir de três conceitos centrais da proposta teórica dos autores: tipificação. 1966/1976:30). Um exemplo de esquemas tipificadores são os preconceitos (de gênero. a importância de focar essa dimensão do conhecimento se justifica à medida que “é precisamente este ‘conhecimento’ que constitui o tecido de significados sem o qual nenhuma sociedade poderia existir” (Berger & Luckmann. pois. Berger e Luckmann são inovadores. Partindo do pressuposto de que a sociedade é uma realidade objetiva. e fazem uma distinção. de raça etc.ideias ou a história das ciências. eles propõem que a sociedade é um produto humano (ou seja. A partir do conceito de tipificação. os autores partem do pressuposto de que a realidade é socialmente construída e que a Sociologia do Conhecimento deve analisar como isso ocorre. usam o conceito de institucionalização para situar como essa objetividade é 8 . centrando-se no conhecimento do homem comum. não se leva em conta o conhecimento que os homens comuns têm da realidade. não reconhecendo os avanços da reflexão feminista. embora os usem entre aspas. Falam em homens para referirem-se às pessoas. à medida que a base da realidade da vida cotidiana são as interações face a face em que o outro é apreendido a partir de esquemas tipificadores. Na obra acima referida.). A crítica que fazem é com relação à compreensão intelectualista do conhecimento que o restringe ao pensamento teórico. ou seja. usam e abusam de conceitos problemáticos como realidade e conhecimento. Para esses autores. hoje suspeita. mas pertencem a sua época. Essa é uma proposta interacionista. Berger e Luckmann subvertem essa ordem instituída partindo de uma reorientação da reflexão. institucionalização e socialização. As heranças de Mead e Goffman são visíveis. a realidade é construída socialmente). o conhecimento do senso comum. nessa dimensão. entre ideias – domínio dos homens sábios – e senso comum – domínio do povo.

difere do enfoque tradicional por transferir o locus da explicação dos processos de conhecimento internos à mente para a exterioridade dos processos e estruturas da interação humana.2.18 Nesse artigo. A investigação. 1985:266). Kenneth Gergen. é que o homem é um produto social. Mass. Defendem que os esquemas tipificadores. O pressuposto. tornam-se habituais com o decorrer das gerações e. explicam ou dão conta do mundo (incluindo a si mesmos) em que vivem” (Gergen. será nosso principal interlocutor com base em um artigo publicado no American Psychologist em 1985.: Harvard University Press. Mas não se trata de um modelo estático pois. ou seja. Cambridge. institucionalização e socialização. K. Gergen afirma: 18 Para uma versão mais recente da posição de Gergen. preocuparam-se sobretudo com os processos de conservação e transformação social: daí focalizarem os processos de tipificação.construída. como sociólogos. um dos primeiros psicólogos sociais a focalizar o conhecimento nessa perspectiva. como hábitos. os processos de ressocialização e as rupturas decorrentes do enfrentamento do não familiar possibilitam a ressignificação e a transformação social. Já os autores da Psicologia Social. adquirem autonomia e institucionalizam-se. os processos de produção de sentido na vida cotidiana. a partir dos quais o outro é apreendido. ver: Gergen. ele define o que vem a ser a investigação construcionista: “A investigação socioconstrucionista preocupa-se sobretudo com a explicação dos processos por meio dos quais as pessoas descrevem. 9 . 2. aqui. (1994). sob essa perspectiva. É justamente esse processo de institucionalização que gera a objetividade percebida. Essa objetividade instituída é internalizada por meio de processos de socialização primária e secundária. se a socialização é um instrumento de conservação. O construcionismo na Psicologia Social Berger e Luckmann. Realities and Relationships: soundings in social construction. tendem a focalizar justamente o momento da interação. que são porta-vozes dessa perspectiva no âmbito da disciplina.

Criamos espaço.). constituindo o acervo de repertórios interpretativos disponíveis para dar sentido ao mundo. e.). assim.. e sim algo que constroem juntas. Nesse sentido. enquanto tais. a qual tem como pressuposto a concepção de mente como espelho da natureza (Rorty. psicólogo social da Universidade Autônoma de Barcelona. teorias) e a ressignificação contínua e inacabada de teorias que já caíram em desuso.. por um lado. um esforço de desconstrução de noções profundamente arraigadas na nossa cultura. mas as anteriores ficam impregnadas nos artefatos da cultura.. Decorre daí a espiral dos processos de conhecimento. 1979/1994). a concepção representacionista do conhecimento. Utilizaremos mais especificamente um texto publicado em 1994 no qual Ibáñez aborda quatro temáticas que estão no cerne do realismo fundante da retórica da ciência na modernidade: a dualidade sujeito-objeto. convida-se à investigação das bases históricas e culturais das variadas formas de construção de mundo (. aqui.. colocam-se como grandes obstáculos para que outras possam ser construídas. Damos preferência ao termo desfamiliarização porque dificilmente “des-construímos” o que foi construído. por outro. abdicar da visão representacionista do conhecimento. Essa forma de posicionar-se perante o conhecimento implica. 10 . produtos de intercâmbios historicamente situados entre pessoas (. um movimento que permite a convivência de novos e antigos conteúdos (conceitos. A adoção plena da perspectiva construcionista exige. adotar a concepção de que o conhecimento não é uma coisa que as pessoas possuem em suas cabeças.Os termos em que o mundo é conhecido são artefatos sociais. As descrições e explicações sobre o mundo são formas de ação social. Para falar desses esforços de desfamiliarização nos apoiaremos nos escritos de Tomás Ibáñez. para se referir ao trabalho necessário de reflexão que possibilita uma desfamiliarização com construções conceituais que se transformaram em crenças e. sim. Desse modo. a retórica da verdade e o cérebro como instância produtora de conhecimento. estão entremeadas com todas as atividades humanas (1985:267-268). para novas construções. O termo desconstrução é utilizado.

linguagem: enfim. Acatar essa afirmação. convenções. se essas categorias são artefatos humanos. Trata-se das categorias do entendimento. características de ambos. as quais são universais e necessárias para o conhecimento. pelo realismo ontológico (ou seja. então a hegemonia dos sistemas de categorias depende das vicissitudes dos processos sociais e não da validade interna dos constructos. pelo construcionismo epistemológico. práticas. a postulação de que a realidade não existe independente de nosso modo de acessá-la. constitutivas da mente humana. apresentando. a possibilidade do conhecimento não se encontra do lado do objeto. Isso significa dizer que o conhecimento não é uma 19 Por exemplo. a crítica da concepção representacionista do conhecimento é uma decorrência da desfamiliarização da dicotomia sujeitoobjeto. R. J. por outro. tanto o sujeito como o objeto são construções sócio-históricas que precisam ser problematizadas e desfamiliarizadas. para o interacionismo. de nossos processos de objetivação. pautada. Baskar. for the Theory of Social Behavior 27: 2/3. mas sim do sujeito. Alguns dos pensadores construcionistas acabam por acatar uma dupla noção de realidade. produtos de interações historicamente situadas. a postulação da existência da realidade) e. Essa é. Já para o idealismo. ou seja. a bem dizer. implica problematizar a noção de realidade.19 Isso significa que é o nosso acesso à realidade que institui os objetos que a constituem. o idealismo e o interacionismo. Dito de outra forma. (1997). uma versão fraca de construcionismo. cada vez mais precisas. Por fim. entretanto. o objeto é a determinação última do conhecimento. por um lado. On the ontological status of ideas . de modo que o projeto científico consiste em aproximações.A crença na dualidade sujeito-objeto apoia-se em três posturas epistemológicas: o empirismo. a esse objeto. Na perspectiva construcionista. só apreendemos os objetos que se nos apresentam a partir de nossas categorias. Se os objetos da natureza são constituídos por nossas categorias. 11 . o conhecimento é produzido na interação entre sujeito e objeto. Para o empirismo. Por sua vez. portanto.

sugere apenas que elas são sempre específicas e construídas a partir de convenções pautadas por critérios de coerência. muitos de seus elementos ainda hoje estão presentes.C. foi preciso ainda quase um século para a construção de uma nova concepção. “não há portanto nada que seja verdade no sentido estrito da palavra” (1994:45). anatomicamente. A antiga desfez-se. Daí. Segundo Ibáñez. o autor focaliza a mudança de concepção que ocorreu nos últimos séculos sobre a anatomia dos órgãos sexuais femininos. A desfamiliarização da objetividade implícita na retórica da verdade baseia-se na crítica da concepção de verdade como conhecimento absoluto. Não se trata de um vale-tudo. se os critérios de verdade são estabelecidos socialmente. moralidade.representação nem uma tradução de algo que pertence à realidade externa. as evidências acabaram por mostrar que essa concepção era infundada. ou seja. A obra Making Sex.) acreditou-se que os órgãos sexuais femininos eram. Entretanto. Nesse livro. Trata-se. A verdade é a verdade de nossas convenções. No entanto. inteligibilidade. iguais aos masculinos. 12 . Ibáñez não propõe que vivamos num mundo sem verdades. Basta pensar no poder organizador da dualidade ativo-passivo. de perceber que não há uma verdade absoluta. utilidade. Com o advento da anatomia e com a dissecação sistemática de cadáveres. só que internalizados. de adequação às finalidades que designamos coletivamente como relevantes. No entanto. Desde Galeno (130 a 200 a. enfim. perdendo sua coerência interna. porque elas têm como limite as próprias características dos humanos que as produzem. pois os exageros poderiam acarretar na expulsão desses órgãos e na consequente mudança de sexo. aqui. é exemplar para ilustrar o que acaba de ser dito. de Thomas Laqueur (1990). nem por isso. entretanto. outro modelo interpretativo tornou-se possível. É importante observar que essa mudança de perspectiva sobre a verdade não significa que possamos abrir mão dela. então. as características sociais e biológicas de pessoas historicamente situadas. embora. Essa concepção anatômica implicava uma série de restrições à vida da mulher. apesar das evidências anatômicas. reconfigurados numa teoria de gênero. essas construções não são ficções desenfreadas. menos impositiva.

seria uma redução dizer que o pensamento é produto apenas das práticas sociais. Entretanto. o estudo do cérebro). por exemplo. que faz da nossa forma atual de pensar a forma canônica de pensamento. Consequentemente. 13 . se todo o corpo social se constitui a partir dos organismos que lhe dão sustento. que os mecanismos do pensamento estão situados apenas na complexa estrutura de neurônios. 2) o essencialismo. as quais são produções sociais. portanto. não numa substância. Ibáñez procura mostrar que. A concepção do cérebro como a instância produtora do conhecimento parte da constatação óbvia de que não podemos pensar se não possuímos um cérebro e de que o pensamento fica prejudicado quando lesionamos determinadas partes do cérebro. Para entender a linha de argumentação utilizada por Ibáñez. Entender o pensamento e o conhecimento como fenômenos intrinsecamente sociais possibilita superar três premissas que impedem uma adesão plena ao construcionismo: 1) o internalismo. mas num processo” (1994:47). deve se situar no nível das ciências sociais. pontuar sua importância não como verdade em si. embora o cérebro constitua uma condição de possibilidade para o pensamento. o pensamento. a própria estrutura linguística –. mas como relativa a nós mesmos. por se constituir na interface cérebro-social. no sentido de que não existem diferenças entre enunciados verdadeiros e falsos ou de que alguém pode estabelecer o que é verdadeiro. às ferramentas disponíveis – como. basta pensar no impacto das tecnologias da inteligência – a escrita. que situa os processos cognitivos dentro da cabeça e reduz a explicação aos processos neurológicos. afirma-se. que faz da cognição um objeto natural. o mais correto seria dizer que o pensamento tem sua condição na interface entre cérebro e sociedade. O conhecimento é contingente. “e. e 3) o universalismo. O que a postura construcionista reivindica é a necessidade de remeter a verdade à esfera da ética. Com base nessas constatações. a imprensa. também. de livre e espontânea vontade. entre outras.incondicionalmente. a microinformática. sendo esse o nível que cabe às ciências biológicas (por exemplo. Para Ibáñez. frequentemente. essa não é a única condição.

constituem bons exemplos da possibilidade de outras formas de pensamento. Muito semelhantes a nós. trazendo consigo alguns filósofos. de estranhamento. A querela é “entre aqueles que pensam que nossa cultura. mas não tinham noções como “sentir-se maravilhosamente bem”. 14 . eles diferiam num aspecto fundamental: não sabiam que tinham mentes. seres ficcionais que habitam um planeta em outra galáxia. Como as disciplinas mais avançadas eram a neurologia e a bioquímica. A crítica endereçada ao relativismo associado ao construcionismo pauta-se numa definição específica do termo a partir da qual toda e qualquer crença sobre um dado tópico é igualmente aceitável. Objeções ao construcionismo Como toda proposta que se contrapõe ao que nos parece óbvio. diz ele.3. pois. não é entre pessoas que acham que um ponto de vista é tão bom quanto qualquer outro e os que não pensam assim. e a polêmica que se estabeleceria com a tentativa de traduzir os modos de apreensão antipodianos para os terráqueos. “Isso faz o meu feixe neurônico G-14 estremecer”. utilizados por Richard Rorty (1979/1994) para desnaturalizar a perspectiva da mente como espelho da natureza. 1996:166). a abordagem construcionista do conhecimento tende a ser ou absolutamente ignorada ou violentamente contestada. 2. perspectiva filosófica intrinsecamente associada ao construcionismo. Crítica semelhante é endereçada ao pragmatismo. natural e legítimo. Rorty imagina. é.Os antipodianos. Richard Rorty (1996) comenta: “Os filósofos que são chamados de ‘relativistas’ são os que afirmam que as razões para a escolha entre tais opiniões [referindo-se a opiniões incompatíveis] são menos pautadas por algoritmos do que se pensava” (Rorty. o passo primeiro para a desfamiliarização de noções que foram naturalizadas. A possibilidade de ruptura com o habitual. então. grande parte da conversação entre as pessoas referia-se ao estado de seus nervos: diziam. nem o que significavam os estados mentais. A contestação tem como principais alvos o relativismo e o reducionismo linguístico. A querela. a chegada de uma expedição vinda da Terra.

produtos de nossas convenções. 15 . apenas. em suma. produtos de nossa época e não escapamos das convenções. para o construcionismo. 1996:167). Impõe-se. mas a opção refletida a partir de nossos posicionamentos políticos e éticos. que esse algo que adquire estatuto de objeto a partir da linguagem seja de natureza linguística. a necessidade de explicitação de nossas posições: não a escolha arbitrária entre opções tidas como equivalentes. de fato. Como construções históricas e culturais. por princípio. conforme o termo grego. esse relativismo histórico e cultural só se torna claro numa perspectiva de análise de “tempo longo”. Entretanto. explicar. os princípios transcendentais – herdeiros de Platão. que todos os fenômenos se reduzam à linguagem. das ordens morais e das estruturas de legitimação. No cotidiano de nossas vidas.20 portanto. entretanto. e as pessoas que ainda almejam outros tipos de suporte” (Rorty. escolher entre as opções que se apresentam são construções humanas. algo adquire o estatuto de objeto a partir do processo de construção linguístico-conceitual. É um convite a aguçar a nossa imaginação e a participar ativamente dos processos de transformação social. Sendo uma vertente do historicismo – de Hegel. portanto. ainda. somos. práticas e peculiaridades. que o construcionismo reconhece a centralidade da linguagem nos processos de objetivação que constituem a base da sociedade de humanos. Quer dizer. Lembramos. em contrapartida. ressignificado por Kant – e os que enfatizam a conversação como princípio básico da liberdade – herdeiros da dialética. não há dúvida de que. um convite a examinar essas convenções e entendê-las como regras socialmente construídas e historicamente localizadas. da querela entre os que almejam atingir as essências. A pesquisa construcionista é. reinterpretado por Dilthey –. no sentido de “arte da conversação”. Isso não quer dizer. Trata -se. que a centralidade da linguagem no pensamento não é 20 Tomado. o construcionismo incorpora a noção de que os critérios e conceitos que utilizamos para descrever. Quanto ao reducionismo linguístico. ser invariantes.nossos objetivos (purpose) e instituições não podem ser sustentados a não ser conversacionalmente. aqui. elas não podem.

situar a perspectiva linguística com a qual nos propomos a trabalhar. passou a ser moda falar na virada linguística e citar Wittgenstein ad nauseum. duas correntes analíticas: a que focaliza as trocas linguísticas e a que focaliza o discurso.1. assim. mais particularmente. 3. Em um artigo publicado em 1984. 1) Foco na boa formatação (well formedness): “(. Bruner propõe que. com uma multiplicidade de abordagens. ao estudarmos a linguagem. O objetivo é tão-somente situar a perspectiva linguística que vem sendo usada na Psicologia Social de cunho construcionista e. Trata-se de um terreno complexo por ser transdisciplinar e contar. O próximo tópico busca. Destacaremos. A proposta. Pensamento e Linguagem. S. 16 . Vygotsky. portanto.. Esse é o caso de Jerome Bruner.absolutamente um privilégio do construcionismo. assim. O foco nas trocas linguísticas Sem dúvida. sobretudo. (1989). como tal. L. Fica mais fácil entender essa perspectiva apoiando-nos em autores que buscam.. situá-la no conjunto dos trabalhos sobre linguagem. nossos objetivos associam-se a três possíveis critérios. Outras correntes focalizaram os processos linguísticos: por exemplo. justamente. até porque isso requereria um aprofundamento na Filosofia da Linguagem que extrapolaria o escopo deste capítulo.) perguntamos dos enunciados se eles são bem formados no sentido de conformar-se às 21 Vygotsky. São Paulo: Martins Fontes. cada qual presa a seu sistema de referência teórico e metodológico. brevemente. A linguagem como prática social A linguagem tornou-se um tópico moderno e. descritos a seguir. 21 importante precursor de uma perspectiva que dá à linguagem papel central no desenvolvimento cognitivo e que. não é dar uma visão de conjunto da linguagem no pensamento contemporâneo. o que está em pauta nas análises discursivas da Psicologia Social é a linguagem em uso. os pressupostos linguísticos que vêm norteando esse trabalho. 3. aqui. conceitua a linguagem numa perspectiva social.

. as máximas da pragmática) têm a ver com quando. Essa tipologia é útil à medida que possibilita situar as contribuições de filósofos e linguistas. a um terceiro critério possível para a análise linguística. 17 .regras gramaticais que governam a linguagem” (Bruner. 66. o debate histórico principal centra-se na gênese primeira. que em 1962 publicou o influente livro How to do Things with Words. 3) Foco na performática: “as regras da pragmática (ou melhor. que focaliza os aspectos 22 Grice. Trata-se da esfera da sintaxe cuja análise refere-se às relações entre significantes. como sabemos.) isso. preso ao contexto de uso. H. é uma dupla questão. que em 1969 publicou o livro Speech Acts: an essay in the philosophy of language. a qual se refere às condições de uso dos enunciados e que tem como figuras fundantes dois filósofos: John Austin. e Mikhail Bakhtin. contrapondo. se gramática (sintaxe) ou semântica. que focaliza a gramática generativa. Os dois aspectos juntos constituem o sentido (meaning)” (1984:971). na esfera da semântica. Estritamente falando. Isso nos leva. Essa é a esfera da pragmática da linguagem. P. (1957). Grice22 publicar um artigo em 1957 no qual propunha a existência de dois possíveis tipos de sentido: o sentido a-histórico (timeless) e o sentido ocasional. ou em um mundo possível. 1984:969). Wittgenstein. o performático. Obviamente. 2) Foco no sentido (meaningfulness): “(. Um enunciado refere-se a algo no mundo ‘real’. e John Searle. aqui. Noam Chomsky. assim. cuja análise refere-se aos significados. com que intenção e. O contexto não foi problematizado até o filósofo H. obviamente. Philosophical Review. em que condições. são esses mesmos critérios que pautam as reflexões de outro influente filósofo da linguagem. Meaning. por exemplo. cujo livro Philosophical Investigations foi publicado em 1953. de que modo devemos falar” (1984:972). e tem um sentido. e que não busca entender o sentido dos enunciados ou o uso que deles é feito.. Estamos.

) (1984). Atkinson. Cambridge: Cambridge University Press. 23 A análise visa a descrever os procedimentos usados para sustentar e negociar as relações sociais. possivelmente. que precisam ser mencionadas: a etnometodologia e a análise de conversação. sem a intervenção do pesquisador. Garfinkel desenvolveu uma série de métodos para estudar a compreensão compartilhada. que publicou seu livro Studies in Ethnomethodology em 1967. sendo nosso foco o uso da linguagem. Esses métodos são socialmente organizados e compartilhados. justamente. e usados incessantemente no cotidiano para dar sentido a objetos e eventos sociais. A etnometodologia busca analisar a racionalidade do senso comum. do qual depende a interação e a comunicação. de difícil leitura (o que. J. A análise de conversação – uma derivação metodológica da etnometodologia – tem por objetivo entender as estruturas normativas do raciocínio que estão imbricadas na compreensão e produção de formas de interação inteligíveis. Trata-se de Harold Garfinkel. tendo como foco a sequência de interações (turn of talk) na conversação. em observar episódios de quebra das regras. J. centradas na linguagem em uso. são as tramas e repercussões no âmbito das Ciências Humanas que mais nos interessam e. resulta de uma multiplicidade de métodos tácitos de formas de raciocinar. há duas correntes importantes. procura entender como os atores sociais obtêm uma apreensão compartilhada do mundo social. preferencialmente. Entretanto. A etnometodologia é uma abordagem desenvolvida por um sociólogo assaz hermético. (orgs. tende a haver uma demanda pela justificação – o que os etnometodólogos chamam de accountability. sobretudo as interações que ocorrem.performáticos subsumidos na perspectiva dialógica que será discutida mais tarde. Structures of Social Actions: Studies in Conversational Analysis. Todos têm como cerne entender o poder normativo e o conteúdo moral das regras subjacentes à ação social. & Heritage. 23 Por exemplo. inibiu a difusão de sua obra). nesse sentido. 18 . Garfinkel parte do pressuposto de que o compartilhamento cognitivo. Como sair das normas gera raiva e frustração. ou seja. Muitos dos métodos usados para entender essas normas consistem.

cunhando-se aí a expressão análise de discursos. Em contraste com esse tipo de análise. É dele a afirmação de que “não há nada além do texto”. o que o leva a um embate com as vertentes interpretativas que buscam o sentido do texto privilegiando o que está fora do texto. que exerceu grande influência nos debates e investigações sobre as relações entre saber e poder. o termo análise de discurso tende a ser identificado com o método introduzido por M. a segunda corrente aqui considerada – a perspectiva discursiva – procura problematizar o contexto discursivo. As condições de 24 Publicação original em 1961. que é essencialmente um empreendimento estruturalista. 1963 e 1966. mais hermético. Embora os autores teóricos mencionados venham de uma tradição pós-estruturalista. 3. que têm no livro A Arqueologia do Saber. através da análise da superfície semântica e sintática desse discurso (ou conjunto de discursos)” (Bardin. Pêcheux – a análise automática do discurso –. A perspectiva discursiva A linguagem também se tornou foco de interesse para autores voltados à compreensão do poder dos discursos emanados de diversas esferas de saber. 1979:214). publicado em 1969. tomando o contexto como referente do sentido. respectivamente. um discurso é determinado pelas condições de produção e por um sistema linguístico. O segundo autor.No entanto. sem perder de vista a interação. 19 . é Jacques Derrida.2. Para Pêcheux. “Desde que se conheçam as condições de produção e o sistema linguístico. mas também essencial para entender o que vem a ser um esforço de desconstrução do texto. pode-se descobrir a estrutura organizadora ou processo de produção. uma sistematização dos aspectos conceituais que orientaram suas obras anteriores: História da Loucura. especialmente por meio de seus trabalhos de arqueologia. ambas são abordagens minimalistas que focalizam as minúcias da interação linguística tão excessivamente que perdem de vista o contexto da interação. O primeiro deles é Michel Foucault. Nascimento da Clínica e As Palavras e as Coisas24. Dois autores servem de referência a essa área.

ancoram-se na tradição da etnometodologia. os pesquisadores buscam. a variação é concebida como consequência da função e da construção. Por fim. lugares-comuns e descrições usado em construções gramaticais e estilísticas específicas. para isso. Já a construção diz respeito ao uso dos recursos linguísticos preexistentes – os repertórios interpretativos –. Searle e Wittgenstein. são definidas pelos lugares ocupados pelo emissor e receptor na estrutura de uma formação social. Potter e colaboradores aproximam-se dessa perspectiva ao incluírem entre os aspectos centrais de sua teoria a noção de repertórios interpretativos – o conjunto de termos. para Pêcheux. Parker. seleções. pois é tão produtor de realidade quanto qualquer ação concreta. Dentro dessa perspectiva.produção. a construção e a variação. com certeza. constituem o foco central de análise na abordagem construcionista. atitudes e preconceitos) são construídos no discurso e como são aí construídos os sujeitos – como nós nos experienciamos quando falamos e quando ouvimos outros falarem sobre nós. 1989. Esse aspecto de sua teoria tem forte influência de Austin. contextos. enfim. Essa é uma proposta que se aproxima das configurações atuais da Psicologia Social Discursiva. o que implica seleção e escolha. segundo Parker. ou seja: se o discurso é construído para a ação. linguagens. identifica-se com a perspectiva pós-estruturalista. Potter. As práticas discursivas. assim situadas. Mas a ênfase de sua proposta é no uso da linguagem e. uma variedade de produções sociais das quais 20 . 1987. 1996a) e Ian Parker (Parker. focaliza três temáticas: a função. diferentes situações implicariam a construção de diferentes discursos. A análise de discurso. Implicam ações. segundo Potter e colaboradores. entender como os objetos (tais como personalidade. termo que ele emprega para referir-se às diversas abordagens que suspeitam da pretensão de que é possível experienciar um mundo que estaria para além da linguagem. Burman & Parker. 1993) seus mais loquazes teóricos. que tem em Jonathan Potter (Potter & Wetherell. A função refere-se ao discurso tomado como ação. escolhas.

são expressão. então. Propor que a produção de sentido é uma força poderosa e inevitável da vida em sociedade e buscar entender como se dá sentido aos eventos do nosso cotidiano fez com que novos horizontes se abrissem e novas perspectivas pudessem ser consideradas. justamente. dessa forma. aquilo que é sua base. a configuração de um contexto propício para novas buscas: conceitos. portanto. epistemologia. visão de mundo. tem-se. pois é esse o solo que lhe dá sustentação e possibilita seus desenvolvimentos. métodos. quando a produção do conhecimento começa a ser questionada por desconsiderar. 21 . da sintaxe e da semântica. é importante retomar em seus diversos aspectos o contexto histórico do qual emerge o projeto teórico-metodológico de estudo da produção de sentido a partir das práticas discursivas. quando a Psicologia Social começa a fazer sua própria crítica quanto ao que produz e quanto à despolitização daí resultante. Constituem. Para concluir. Quando a questão do sentido não pode mais ser respondida somente no âmbito da língua. É. o senso comum. um caminho privilegiado para entender a produção de sentido no cotidiano. teoria. no bojo desse movimento que se vem construindo essa nova proposta que denominamos práticas discursivas e produção de sentido.

que a produção de sentido não é uma atividade cognitiva intraindividual. propomos. Vingt ans de cognition sociale. 472-491. dar sentido ao mundo é uma força poderosa e inevitável na vida em sociedade. nas bases das teorizações sobre a interação humana. Spink e Benedito Medrado O sentido é uma construção social. estão os processos de comunicação e a atividade de interpretação que os acompanha. Jean Paul (1988). lembramos que. em suas raízes. XLII (390). nem 1 Ver. Los Angeles e California: University of California Press. a produção de sentido no cotidiano. 2 Coerentes com a perspectiva psicossocial. um empreendimento coletivo. Esse pressuposto está na base do desenvolvimento da Psicologia Social. por exemplo: Blumer. 1 Quanto à vertente interacional. Neste capítulo. Quanto à vertente sociocognitiva. Berkeley. seja na sua vertente interacional. Em nossa perspectiva. por exemplo: Codol. por meio do qual as pessoas – na dinâmica das relações sociais historicamente datadas e culturalmente localizadas – constroem os termos a partir dos quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos a sua volta. mais precisamente interativo. estão as proposições da teoria da Gestalt e sua ênfase na seletividade dos processos perceptivos. Symbolic Interactionism – perspectives and methods. Herbert (1986). pretendemos discutir pressupostos e conceitos que nos têm fornecido subsídios para apreender. Bulletin de Psychologie. seja na sua vertente sociocognitiva. 22 .CAPÍTULO II PRODUÇÃO DE SENTIDO NO COTIDIANO: Uma abordagem teórico-metodológica para análise das práticas discursivas Mary Jane P. aqui. 2 Ver. basta recordarmos que. por meio da análise das práticas discursivas.

assim. Jodelet (1989). Parker (1989). Potter e Wetherell (1987). Gergen (1985) e Ibáñez (1993a) são alguns dos que se identificam com o referencial construcionista e que embasam nossa abordagem. para utilizarmos uma expressão de Bronwyn Davies e Rom 3 Autores como Rorty (1979/1994). Essa abordagem teórico-metodológica está embasada no referencial do construcionismo social. entendidas tanto como contexto social e interacional. em nossa perspectiva. buscamos trabalhar a interface entre os aspectos performáticos da linguagem 5 e as condições de produção. Shotter (1993). dialógica. terminologia distinta para trabalharmos em diferentes níveis de análise. A produção de sentido é tomada. Mais precisamente. Billig (1991). ver capítulo um. Potter (1996a). Potter e Reicher (1987). Ela é uma prática social. ou. como os repertórios utilizados nessas produções discursivas. argumentações e conversas. portanto. Potter e Mulkay (1985). por exemplo). que implica a linguagem em uso.pura e simples reprodução de modelos predeterminados. Davies e Harré (1990). e alia-se aos psicólogos sociais que trabalham. Potter e Billig (1992). É necessária. entendemos a linguagem como prática social e. 4 Alguns desses autores(as) são: Moscovici (1961). Usamos. O discurso. Potter et alli (1990). com base em nossa abordagem teórico-metodológica. história e pessoa. 5 Sobre a linguagem e sua dimensão performática. quanto no sentido foucaultiano de construções históricas. remete às regularidades linguísticas. uma distinção entre discurso e práticas discursivas. 23 . portanto. 3 como apresentado no capítulo um.4 sendo melhor definida a partir de três dimensões básicas: linguagem. Linguagem em uso: Introduzindo o conceito de práticas discursivas A concepção de linguagem que adotamos está centrada na linguagem em uso. como um fenômeno sociolinguístico – uma vez que o uso da linguagem sustenta as práticas sociais geradoras de sentido – e busca entender tanto as práticas discursivas que atravessam o cotidiano (narrativas. de formas variadas. com práticas discursivas. 1.

um sindicato. ao uso institucionalizado da linguagem e de sistemas de sinais de tipo linguístico. ao se encontrarem. Esse processo de institucionalização pode ocorrer tanto no nível macro dos sistemas políticos e disciplinares. como: 1. Oi. 24 . num mesmo contexto histórico. ou. o espaço. Diferentes estruturas de poder têm seus discursos. Tudo bem. num determinado contexto. o contexto – situação. como no nível mais restrito de grupos sociais. isto é. a Antropologia. Muito prazer! 2. tudo bem? 2. é possível identificar. discursos que podem competir entre si ou criar versões distintas e incompatíveis acerca de um dado fenômeno social. embora. para o discurso médico sobre a homossexualidade. o tempo e o(s) interlocutor(es). alguém dirá Meus parabéns!. há uma tendência à permanência no tempo. –. Além disso. os speech genres ou gêneros de fala.Harré (1990). é comum o enunciado Meus pêsames! E. são os discursos peculiares a um estrato específico da sociedade – uma profissão. Diferentes grupos sociais – como uma organização não governamental. a Sociologia. um grupo etário etc. o tempo etc. – molda a forma e o estilo ocasional das enunciações. os speech genres. Diferentes domínios de saber – tais como a Psicologia. apesar da baixa probabilidade. Segundo Bakhtin (1995). um partido – têm seus discursos. isso não seja completamente improvável. Por exemplo. que. em um determinado momento histórico. raríssimas vezes. O prazer é todo meu! Num enterro. num primeiro encontro: 1. a História – têm seus discursos oficiais. embora o contexto histórico possa mudar radicalmente os discursos: basta atentarmos. Além disso. Sendo institucionalizado. os discursos aproximam-se da noção de linguagens sociais. que buscam coerência com o contexto. e você?. por exemplo. ao longo dos anos. na definição de Mikhail Bakhtin (1929/1995). como defendem Davies e Harré (1990). interlocutores presentes ou presentificados. Assim concebidos. duas pessoas com frequência empregam enunciados típicos. são as formas mais ou menos estáveis de enunciados.

em relação aos fenômenos do campo da saúde. O olhar recai sobre a não regularidade e a polissemia (diversidade) das práticas discursivas. Entretanto. É essa. passaremos a visualizar não mais a primeira cena. É interessante resgatar aqui a metáfora do binóculo. da Epidemiologia. é inegável que existem prescrições e regras linguísticas situadas que orientam as práticas cotidianas das pessoas e tendem a manter e reproduzir discursos. portanto. é pela ruptura com o habitual que se torna possível dar visibilidade aos sentidos. de observar a especificidade diante do global. por certo. passamos a focalizar a linguagem em uso. é possível perceber que focos diferentes produzem objetos distintos. talvez nunca tenham sido alvo de reflexões. uma das estratégias centrais da pesquisa social. irredutíveis um ao outro. Não se trata. uma formiga sobre uma pequena folha seca. não diretamente 25 . uma questão de foco. precisamente. como no caso. por exemplo. Por exemplo. Por meio desse exercício. as perguntas tendem a focalizar um ou mais temas que. se procurarmos entender os sentidos que uma doença assume no cotidiano das pessoas. Mas. antes de tudo. Qualquer fenômeno social pode ser visto à luz das regularidades. numa entrevista. no primeiro momento. desde a primeira observação. A formiga estava lá. É. Ao invertermos esse mesmo instrumento.Assim. uma densa floresta. ele não desconsidera a diversidade e a não regularidade presentes em seu uso diário pelas pessoas. conseguimos visualizar uma cena composta de tal forma que a especificidade de seus elementos pouco interferem no conjunto. porém nosso olhar. uma outra cena. Sem elas. por exemplo. por exemplo. de distinção entre o que se elege como figura/fundo. podendo gerar práticas discursivas diversas. Se olharmos através desse instrumento. embora o conceito de discurso aponte para uma estrutura de reprodução social – ou seja. a vida em sociedade seria impraticável. a linguagem vista a partir das regularidades –. a totalidade aponta para além da soma de suas partes. só nos permitiu nomear a floresta. nem de observar o global em detrimento da especificidade. para os entrevistados. Vemos. Usualmente. mas uma outra imagem. Vemos.

os enunciados de uma pessoa estão sempre em contato com. o habitual gerado pelos processos de institucionalização.associadas ao tema originalmente proposto. Na visão desse autor. associados à noção de vozes. As vozes compreendem diálogos. ou seja. que. de produção de sentido. práticas discursivas como linguagem em ação. O enunciado é o ponto de partida para a compreensão da dialogia. fazendo-se neles presentes no momento de sua produção. assim. corresponde aos momentos ativos do uso da linguagem. As práticas discursivas têm como elementos constitutivos: a dinâmica. em nossas pesquisas. e os conteúdos. mesmo quando os diálogos são internos. tendo em vista que o próprio falante é sempre um respondente em maior ou menor grau. adquirem seu caráter social. O conceito de práticas discursivas remete. ou são endereçados a. ou seja. Discurso. ou seja. uma ou mais pessoas e esses se interanimam mutuamente. Podemos definir. Bakhtin (1994b) define os enunciados como expressões (palavras e sentenças) articuladas em ações situadas. que são os speech genres (definidos acima). aos momentos de ressignificações. nos quais convivem tanto a ordem como a diversidade. de rupturas. portanto. por sua vez. Elas antecedem os enunciados. 26 . as formas. Estamos. as maneiras a partir das quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas. é impossível pensar a ideia de um “primeiro locutor a quebrar o silêncio do universo”. Os conceitos de enunciados e vozes caminham juntos na abordagem de Bakhtin: ambos descrevem o processo de interanimação dialógica que se processa numa conversação. os enunciados orientados por vozes. Em outras palavras. As vozes compreendem esses interlocutores (pessoas) presentes (ou presentificados) nos diálogos. que são os repertórios interpretativos. convidando os participantes à produção de sentido. a todo momento. negociações que se processam na produção de um enunciado. linguagem social ou speech genre são conceitos que focalizam.

comentado. Dessa forma.Na perspectiva bakhtiniana. Esse processo. A compreensão dos sentidos é sempre um confronto entre inúmeras vozes. é preciso entender que a linguagem é ação e produz consequências. não se restringe às produções orais. quando falamos. num esforço de produzir sentido. Assim. um elemento de comunicação verbal que provoca discussões ativas: pode ser elogiado. Ao mesmo tempo. produzindo um jogo de posicionamentos com nossos interlocutores. por exemplo. quando meu pai…”. em seu caráter performático. –. dependendo do tema em pauta. criticado. as vozes às quais um enunciado é dirigido podem estar espacial ou temporalmente distanciadas. contudo. Num movimento constante de argumentação. pois os sentidos são construídos quando duas ou mais vozes se confrontam: quando a voz de um ouvinte (listener) responde à voz de um falante (speaker) (Wertsch. nesse momento. justificando etc. como cientistas sociais que analisam práticas discursivas. Entretanto. Pode trazer também a voz da professora. Um texto escrito. linguagem é. A pessoa não existe isoladamente. constituem speech acts ou atos de fala. com maior ou menor ênfase. uma prática social. da mãe. do contexto em que são produzidas. é exatamente estudar a dimensão performática do uso da linguagem. de quem pergunta. do amigo. estamos invariavelmente realizando ações – acusando. 1991). Todas essas vozes permeiam essa prática discursiva e se fazem nela presentes. expressão cunhada pela etnometodologia para se referir à orientação do uso da linguagem para a ação. diz: “Pois é. 1991). por definição. ele traz para a dialogia a voz do pai. de exercício retórico (Billig. inclusive o pensamento é dialógico: nele habitam falantes e ouvintes que se interanimam mutuamente e orientam a produção de sentidos e enunciados. enfim. perguntando. tenhamos ou não essa intenção. constitui um ato de fala impresso. por exemplo. Se um entrevistado. trabalhando com consequências amplas e nem sempre intencionais. pode orientar trabalhos posteriores. do local. eu me lembro da mi nha infância. nos dias 6 As práticas discursivas. 27 .6 Nosso trabalho. ao ser indagado sobre um assunto qualquer.

Os repertórios interpretativos. Eles estão presentes em uma variedade de produções linguísticas e atuam como substrato para uma argumentação. a televisão. 7 Gilbert. em linhas gerais. posicionando-se em relação a ele. magicamente. Ele constitui uma unidade do ato de comunicação. Os repertórios interpretativos são. Jonathan Potter e Margareth Wetherell (1987). complexamente organizados. Em outras palavras. Opening Pandora’s’ Box: a sociological analysis of scientist’s discourse. o falante utiliza um sistema de linguagem e de enunciações preexistente.7 definem os repertórios interpretativos como dispositivos linguísticos que utilizamos para construir versões das ações. são componentes fundamentais para o estudo das práticas discursivas. e Mulkay. Cambridge: Cambridge University Press. o rádio. ao produzir um enunciado. pois é por meio deles que podemos entender tanto a estabilidade como a dinâmica e a variabilidade das produções linguísticas humanas. baseados nos trabalhos de Gilbert e Mulkay. no cotidiano. do nada. M. frequentemente. obedecendo a uma linha de argumentação. o sentido decorre do uso que fazemos dos repertórios interpretativos de que dispomos.atuais. (1984). lugares-comuns e figuras de linguagem – que demarcam o rol de possibilidades de construções discursivas. tendo por parâmetros o contexto em que essas práticas são produzidas e os estilos gramaticais específicos ou speech genres. 28 . esse conceito é particularmente útil para entendermos a variabilidade usualmente encontrada nas comunicações cotidianas. descrições. eventos e outros fenômenos que estão a nossa volta. mas gerando. N. quando repertórios próprios de discursos diversos são combinados de formas pouco usuais. O que estamos propondo é que. um enunciado não surge. os sites da Internet etc. Além disso. contradições. as unidades de construção das práticas discursivas – o conjunto de termos. um dos elos de uma corrente de outros enunciados. podem também ser considerados atos de fala. na visão desses autores. Em outras palavras.

e passa a incluir também a própria variabilidade e polissemia que caracterizam os discursos. vivemos num mundo social que tem uma história. tudo começa e tudo acaba pelo tempo” (Braudel. de modo a entender a construção social dos conceitos que utilizamos no métier cotidiano de dar sentido ao mundo. 1996). é uma categoria fundamental na História. Por outro lado. apenas a regularidade. 29 . entendendo polissemia. é claro. o que nos levou a trabalhar numa perspectiva temporal. Como diz Fernand Braudel. a natureza polissêmica da linguagem possibilita às pessoas transitar por inúmeros contextos e vivenciar variadas situações. não significa. não como “um fenômeno semântico em que uma palavra se estende de um sentido primitivo a vários outros”. Contudo. dizer que não há tendência à hegemonia ou que os sentidos produzidos possuem igual poder de provocar mudanças. entretanto. 8 Admitir que as práticas discursivas são polissêmicas. Os repertórios interpretativos que nos servem de referência foram histórica e culturalmente constituídos. Tempo.O foco dos estudos que adotam esse conceito deixa de ser. Tempo e história: O diálogo entre permanências e rupturas Buscando entender o uso dos repertórios interpretativos nas práticas discursivas cotidianas. 2. o invariável. 8 O conceito de polissemia opõe-se ao de polilexia. utilizado por linguistas contemporâneos para designar a existência de vários sinônimos para uma mesma ideia (Lalande. o consenso. “para o historiador. assim. Trabalhar no nível da produção de sentido implica retomar também a linha da história. cedo percebemos que eles possuíam inscrições na história. 1996). 1989:34). mas como “a propriedade que uma palavra possui (numa dada época) de representar várias ideias diferentes” (Lalande.

resolver a problemática decorrente dessa imbricação. História e Ciências Sociais. Nossa aproximação com a temporalidade dos repertórios decorre da problemática dos contextos de sentidos. são sempre passíveis de renovação nos desenvolvimentos futuros do diálogo.Entretanto. Cada autor busca. de anteontem. “Nada está absolutamente morto: todo sentido poderá ter seu festival de boas vindas (homecoming)” (Bakhtin. a inscrição histórica desses repertórios não é o foco de nossos interesses. de outrora (…) o presente e o passado esclarecem -se mutuamente. Obviamente. em 1977 (Burke. Em seu texto clássico.. 1989:18-21). Não 9 No original: “it extends into the boundless and the boundless future”. Em qualquer momento. não são estáveis. da vida cotidiana ou da tomada de consciência. 1994a:169). disse Braudel numa entrevista concedida a Pet er Burke. com uma luz recíproca (Braudel. Mesmo os sentidos passados. decorrentes de diálogos travados há muitos séculos. 1990a:170).. publicado originalmente em 1958. O sentido contextualizado institui o diálogo contínuo entre sentidos novos e antigos: “No contexto dialógico não há nem uma primeira nem uma última palavra e não há limites (ele se estende ao passado sem fronteira e ao futuro infinito)”9 (Bakhtin. Braudel aborda reiteradamente essa questão da imbricação do presente com o passado: Cada “atualidade” reúne movimentos de origem e de r itmo diferentes: o tempo de hoje data simultaneamente de ontem. a sua maneira. o único problema que tive que resolver. Braudel nos fala do tempo longo (la longue durée) e o contrasta com o tempo breve – o tempo dos acontecimentos. a escala dos indivíduos. O tempo longo é para ele a medida da permanência. o locus de compreensão da estrutura que “boa ou má (. foi o de mostrar que o tempo se move em velocidades diferentes”. essas massas de sentidos contextuais esquecidas podem ser recapituladas e revigoradas assumindo outras formas (em outros contextos). 1990:39).) domina os problemas de longa duração” (1989:14). 30 . Mas também os historiadores têm consciência plena dessa problemática: “Meu grande problema. Bakhtin fala como linguista.

das linguagens sociais aprendidas pelos processos de socialização. Essa divisão tripartite possibilitou-nos abordar o paradoxo de enunciados que pertencem concomitantemente à ordem das regularidades – possibilitando visualizar as permanências que sustentam o compartilhamento – e à da polissemia dos repertórios. o tempo vivido. Nosso trabalho com práticas discursivas levou-nos a propor uma divisão temporal semelhante. o passado recente e o futuro esperado. as posições socialmente disponíveis e as estratégias linguísticas utilizadas para nos posicionar na interação. 1994b. que focaliza 10 Ver. Chamamos de tempo longo o domínio da construção social dos conteúdos culturais que formam os discursos de uma dada época. Spink (1993a. que marca os conteúdos culturais. por sua vez. embora a formação específica em Psicologia Social tenha suscitado a necessidade de inclusão de mais um tempo: o da vida vivida. mas a quem são geralmente concedidos séculos de duração” (Braudel. MedradoDantas (1997). 31 . O tempo pequeno engloba o dia de hoje. definidos ao longo da história da civilização. Assim. Deparamos aqui com as fronteiras da História Social. O tempo grande consiste no “diálogo infinito e inacabado no qual nenhum sentido (meaning) morre” (1994a:169). 1989:15). desde 1993 10 vimos postulando a necessidade de trabalhar o contexto discursivo na interface de três tempos históricos: o tempo longo. 1996. apresenta-nos uma divisão temporal que faz dialogar o pequeno tempo (smalltime) e o grande tempo (great time). Essa forma de aproximação com os conteúdos históricos decorre da ambição de trabalhar as práticas discursivas em diferentes níveis. entre outros. Bakhtin. que sustenta a singularidade dos processos de produção de sentido. 1999b). Pinheiro (1998). por exemplo. Menegon (1998). 1993b. 1994a. dos processos de socialização.que sejam estruturas universais e imutáveis. afirma o autor: “são universos construídos que constituem outras tantas explicações imperfeitas. 1999a. buscando apreender a cristalização em discursos institucionalizados. marcado pelos processos dialógicos. e o tempo curto.

digamos. ressignificada. Só os temos como fragmentos e. Definimos tempo vivido como o processo de ressignificação desses conteúdos históricos a partir dos processos de socialização primária e secundária (Berger & Luckmann. o habitus é um conjunto de esquemas apreendidos desde a infância e permanentemente atualizados ao 32 . que carregam em suas imagens uma imensidão de sentidos. Como destaca Sérgio Miceli (1987). Desse modo. uma imagem de pai construída. Não os temos mais como teorias. mas se fazem nela presentes por meio de instituições.processos de formação e ressignificações continuadas. como repertórios. O tempo longo constitui o espaço dos conhecimentos produzidos e reinterpretados por diferentes domínios de saber: religião. das ilusões. ou seja. pois muitas já perderam sua razão de ser. Entramos assim no território do habitus. 1966). se faz presente em nosso cotidiano. da reprodução social. da interanimação. na Renascença. das disposições adquiridas a partir da pertença a determinados grupos sociais (Bourdieu. 1994). por isso mesmo. É assim que o tempo longo se faz presente. É nesse tempo histórico que podemos apreender os repertórios disponíveis que serão moldados pelas contingências sociais de época. a paternidade. também não os temos como acontecimento. tempo da vida cotidiana. depositada nos tempos passados. definem e ampliam os repertórios de que dispomos para produzir sentido. conhecimentos e tradições do senso comum. É nesse nível que ocorre a aprendizagem das linguagens sociais. Esses conhecimentos antecedem a vivência da pessoa. são construções que alimentam. Não é uma história morta. ciência. convenções. os quais dão acesso aos múltiplos significados que foram historicamente construídos. e a partir das quais podemos delinear a representação social de um tema. constituindo as vozes de outrora que povoam nossos enunciados. Um exemplo de como as construções do tempo longo permeiam nosso cotidiano e nossas práticas discursivas são as obras de museu. por exemplo. enfim. como. normas. corresponde às experiências da pessoa no curso da sua história pessoal. modelos.

Como as combinações são múltiplas. Esse é o momento concreto da vida social vista como atividade de caráter interativo. a grupos profissionais. Entretanto. as linguagens sociais e as 33 . É nosso ponto de referência afetivo. Nesse tempo. em linhas gerais. teórica e empiricamente. pela demarcação das possibilidades de sentidos em que operam as relações de força e poder. adentramos o campo das abstrações: as tipificações de papel. concomitantemente. as possibilidades de combinação das vozes. nessa escala. portanto. em que os interlocutores se comunicam diretamente. com a processualidade e a produção situada desses repertórios. deparamos. estão em pauta. pela dialogia e pela concorrência de múltiplos repertórios que são utilizados para dar sentido às experiências humanas. no qual enraizamos nossas narrativas pessoais e identitárias. a faixas etárias etc. da comunicação e a construção discursiva das pessoas. o tempo vivido é também o tempo da memória traduzida em afetos. no tempo de vida de cada um de nós. deixando emergir a possibilidade de construção de inúmeras versões de nossas pessoas. ao mesmo tempo. Focalizando o momento da interação por meio das práticas discursivas. a possibilidade da compreensão (understanding). ativadas pela memória cultural de tempo longo ou pela memória afetiva de tempo vivido. pauta-se. Depararemos. do tempo curto. encontraremos polissemia e contradição.longo da trajetória social da pessoa. O tempo curto – tempo do acontecimento e tempo da interanimação dialógica – é aquele que nos possibilita entender a dinâmica da produção de sentido. esquemas que demarcam os limites da consciência que pode ser mobilizada pelos grupos e/ou classes. fazem-se presentes. À medida que nos distanciamos. as regras de discurso. com a polissemia. Estamos falando da aprendizagem. Nesse momento específico. Trata-se das vozes situadas que povoam nossas práticas discursivas. O tempo curto refere-se às interações sociais face a face. sendo assim responsáveis. sejam elas externalizadas ou não. das inúmeras linguagens sociais próprias a segmentos de classe.

assim. A concepção de história que adotamos em nossos trabalhos está. tais como indivíduo-sociedade e público-privado. não depositamos todas as permanências no tempo longo. pressupondo cisões claras e absolutas. Pessoa como relação social Ao adotarmos o termo pessoa em nossos estudos e pesquisas. e orientam as práticas discursivas das pessoas. para compreendermos o modo como os sentidos circulam na sociedade é necessário considerar as interfaces desses tempos – longo. indivíduosociedade. recuperando um termo – pessoa – que. encontramos as estruturas a que Braudel se referia. em vez de privilegiar a individualidade ou a condição de sujeito. nos quais se processa a produção de sentido. vivido e curto –. Focalizamos. pertence ao tempo longo da história. estamos nos posicionando em relação ao uso de certas terminologias que nos colocam diante de dicotomias. 3. indistintamente. o conceito de indivíduo nos remete imediatamente a dicotomias. Essa postura não implica abandonar o indivíduo ou o sujeito. estamos buscando enfatizar nosso foco sobre a dialogia. Portanto.identidades sociais que povoam nosso universo. diretamente associada à compreensão das diversidades e permanências das construções linguísticas dotadas de sentido. Contudo. Por um lado. em última análise. cujo foco é o contexto de sentido (na acepção de Bakhtin). Permanências e diversidades permeiam todos os tempos históricos. é necessariamente um empreendimento sóciohistórico e exige o esforço transdisciplinar de aproximação ao contexto cultural e social em que se inscreve um determinado fenômeno social. em maior ou menor grau. Com o conceito de pessoa. como abordado acima. nem toda diversidade no tempo curto. conceitos fundadores da Psicologia. tais como sujeito-objeto. Resulta daí que a pesquisa sobre produção de sentido. Falar em sujeito pode nos conduzir a dois 34 . mas ressignificá-los à luz da perspectiva construcionista. a terceira dimensão da nossa abordagem: a noção de pessoa.

a Filosofia assumiu como algo próprio da disciplina a questão da pessoa. Como aponta Cuggenberger (1987). Cuggenberger (1987). Semelhantemente. 249. só é possível pensar em pessoas. a pessoa – está em um mundo e não apenas em um ambiente. O caráter relacional está na base da maioria dessas definições. quando quer fazer-se conhecer. desde a época medieval estava claro que o ser da pessoa não pode encerrar-se numa definição formal. O homem – ou. na modernidade. entre outros – se debruçaram sobre a questão da pessoa e propuseram definições a partir de diferentes referenciais teológicos e epistemológicos. a história do conceito de pessoa é uma página particularmente eloquente de uma “teologia do caminho” (p. mais precisamente. Vários pensadores – tais como S. foi aos poucos sendo incorporado pela Filosofia. Porém. a “intersubjetividade” para a qual se costuma apelar como o dado mais originário sobre o qual se deveria fundar a pessoa não oferece uma solução melhor do problema (…) É verdade que a pessoa. Duns Scoto. visto que esta não pode ser apreendida por meio de noções objetivas e objetiváveis. a sua limitação e o seu caráter de não ser um objeto (…) A relação humana apresenta uma amostra do caráter misterioso da pessoa. a relacionalidade com o universo (capacidade de comunicar-se). 35 .caminhos distintos. Como destaca A. aproxima-nos da postura de sujeitável. um que nos conduz a uma distinção essencial entre sujeito e objeto ou outro que. 1987: 244. grifos do autor). tornar-se sujeito a. ou seja. ainda mais complexo e perigoso. Daqui provém o eu no seu caráter fundamental de pessoa. no tópico Pessoa do Dicionário de Teologia. tornando-se objeto de estudo e reflexão. Assim. 239) O conceito de pessoa. como os animais. Tomás de Aquino. porém ambos problemáticos. Por isso. como destaca Cuggenberger. a partir da noção de relação. organizado por Heinrich Fries: O mundo pelo qual a pessoa foi compreendida no decorrer dos séculos é um caso típico do caminho que os conceitos percorrem através dos tempos. cuja base está na Teologia. deve voltar-se ao outro (Cuggenberger.

investindo num futuro curso de Doutorado…”. gosto de ser diferente. num espaço de intersubjetividade ou. olhos verdes. com a presença de outro(s) interlocutor(es). ao próprio processo de produção de sentido nas práticas discursivas do cotidiano. os nossos processos de socialização que possibilitam a construção de narrativas coerentes em torno de eixos comuns. estou à busca da felicidade e de um amor ideal…”. O conteúdo dessas narrativas é orientado pelo contexto argumentativo (Billig. sobrancelha fina. cursando Mestrado e pretendendo dar continuidade à carreira acadêmica. católica não praticante. como por exemplo: “sou fulana de tal. tenho uma sobrinha maravilhosa. mais precisamente. no jogo das relações sociais. A partir dessa noção de que as práticas discursivas compreendem um constante processo de interanimação dialógica. tão coerente quanto a anterior. A mesma personagem. que dependem das posições disponíveis nas nossas práticas discursivas. A pessoa. Dito de outra forma. curto moda alternativa. loira. filha de gaúchos. assim. Posicionar-se implica navegar pelas múltiplas narrativas com que entramos em contato e que se articulam nas práticas discursivas. vivendo em Campinas. sempre uma pergunta aberta com respostas mutáveis. sobre si assim formulada: “sou fulana de tal. Como destacam Davies e Harré (1990). pois. antropóloga. torna-se possível introduzirmos o conceito de posicionamento (Davies & Harré. de interpessoalidade. nascida no interior do Rio Grande do Sul. 36 . 1990) e propor que a produção de sentido é sempre concomitantemente uma produção discursiva de pessoas em interação. é preciso entender as histórias por meio das quais produzimos sentidos em nossas vidas. desenvolvendo trocas simbólicas. pode construir uma narrativa. 1991) que se configura no momento da dialogia.Essa definição nos remete. Dentro dessas práticas. num outro contexto dialógico. solteira. quem somos? é. ao focalizar as práticas discursivas deparamos também com a processualidade das construções identitárias. está inserida num constante processo de negociação.

temos proposto reformulações ao modelo teórico originalmente proposto (Spink. entre outros – são extremamente úteis para analisar a produção de sentido em contextos dialógicos ou em atos de fala impressos. As práticas discursivas. vozes. repertórios interpretativos. Assim. optamos por não apresentar imagem alguma. 37 . à luz das nossas pesquisas empíricas e discussões teórico-epistemológicas. 1993a. silêncios etc. sempre que possível. permitindo a descrição do contexto em que as práticas discursivas de desenvolvem. na busca de enriquecer nossas análises. Contudo. Os conceitos que utilizamos – enunciados.A força constitutiva das práticas discursivas está em poder prover posições de pessoa: uma posição incorpora repertórios interpretativos. convidando o leitor a produzir seu próprio modelo. – na dinâmica das práticas discursivas.11 11 Ao longo dos últimos anos. história e pessoa – têm possibilitado desenvolver pesquisas em que a reflexão teórica não constitui apenas um apêndice à problematização dos temas estudados. speech genres. gestos. portanto. A dialogia não se esgota nem se encerra no diálogo. Embora não constitua diretamente nosso foco de estudos. 1993a). linguagens sociais. consideramos também relevante a linguagem não verbal – expressões faciais. percebe-se a centralidade da linguagem verbal em nossa abordagem. 1999a). registramos tais elementos. as reflexões em torno dessas três dimensões – linguagem. temos nos empenhado em construir uma abordagem teórica que permita uma melhor compreensão dos fenômenos psicossociais e da própria dinâmica da produção de sentido. dando-lhe visibilidade (Spink. posicionamentos. produzimos diferentes desenhos esquemáticos na busca de possibilitar uma melhor compreensão da nossa abordagem. Diante dessas explanações. assim como uma localização num jogo de relações inevitavelmente permeado por relações de poder. implicam necessariamente o uso de repertórios e posicionamentos identitários. posturas. Ao longo dos últimos anos. Em síntese. Para esta coletânea.

as aprendizagens sociais que aprendemos no tempo vivido e os processos dialógicos do tempo curto. a ética como instância com efeito legal. recomendamos. pelo movimento que lhes é dado a partir das produções nos mais variados domínios de saber. apesar das crescentes desmistificações de sua objetividade nas reflexões pós-modernas. a mídia nos leva a uma clara reconfiguração das fronteiras entre os espaços público e privado e à progressiva emergência de uma nova dimensão regulatória. seja porque é pervasiva no mundo contemporâneo e. instrumental na conformação da consciência moderna. também. 1995b). talvez. a leitura do texto de Latour e Woolgar (1997). por exemplo. Propomos. Os conteúdos são continuamente reconstruídos. 12 Para uma reflexão mais detalhada sobre a importância do conhecimento científico. 38 . que a mídia não é apenas um meio poderoso de criar e fazer circular conteúdos simbólicos. a ciência não é o único domínio de saber. no contexto contemporâneo. assim. incluindo aí as novas informações e descobertas.4. Desfamiliarizando conceitos e construindo uma abordagem Como discutido no tópico dois deste capítulo. A ciência foi um dos principais amálgamas da era moderna e. seja porque confere uma visibilidade sem precedentes aos acontecimentos. mas possui um poder transformador ainda pouco estudado – e. entre eles os diversos campos científicos. em nossa abordagem a produção de sentido opera na interface dos três tempos históricos: entre a construção social dos conteúdos culturais do tempo longo. portanto. e não apenas como princípios gerais pertinentes ao campo da moral.12 continua a ser importante esfera geradora de sentidos. Contudo. situada em normas e comitês. como aponta John Thompson (1995a. A mídia assume um papel fundamental na compreensão da produção de sentido. Nessa perspectiva. ainda subestimado – de reestruturação dos espaços de interação propiciando novas configurações aos esforços de produção de sentido.

Segundo ele. e o dominante (ortodoxia). por meio da definição dos objetos de disputas e dos interesses específicos. Em cada campo encontra-se uma luta entre o novo. refere-se ao espaço em que a pessoa pode tomar posição para falar dos objetos de que se ocupa em seu discurso. Alia-se à tradição hermenêutica de processo criativo mediado pelas expectativas e pressupostos que a pessoa traz para a situação. Às posturas construcionistas sobre o conhecimento e aos estudos que levam à desmistificação progressiva do fazer-em-ciência. em Questões de Sociologia. No caso do termo domínios. Um campo se constitui. que tenta defender e expulsar a concorrência. a partir do conceito de campo. se aplicam e se transformam. 39 . Na visão construcionista. mas não determinam. portanto. somam-se as perspectivas políticas da ressignificação da diferença e da denúncia das relações opressivas que se desenham no interior do campo científico. que está entrando (heresia). cujas propriedades dependem das posições nesses espaços. Foucault define o saber como as possibilidades de utilização e de apropriação oferecidas pelo discurso. um modo de pensar e compreender um fenômeno. entre outras coisas. Enfim.Encontramos uma definição de saber bastante rica na obra de Michel Foucault (1987a). à tradição interacionista de valorização da presença – real ou imaginada – do outro e à onipresença da linguagem na perspectiva das práticas discursivas. que torna essa noção mais clara. se definem. remetendo-nos a um conjunto de conhecimentos que orientam. é Pierre Bourdieu (1983a). Temos novamente uma definição prenhe de sentidos: o campo seriam espaços de posições estruturados. que não poderia ter outro nome: A arqueologia do saber. o saber compreende o domínio constituído pelos diferentes objetos que irão ou não adquirir um status científico. a produção de sentido se processa no contexto da ação social. Ao falarmos sobre domínios de saber estamos. define também o campo de coordenação e de subordinação dos enunciados em que os conceitos aparecem. É nesse jogo em que a negociação e o poder se inscrevem.

Com efeito. como sua sugestão de que se pudéssemos chegar aos dados reais. o construcionismo social está interessado em identificar os processos pelos quais as pessoas descrevem. sobretudo. nessa perspectiva. pautada pela visão hermenêutica da produção de conhecimento. a produção do conhecimento deve ser considerada antes como uma atividade construcionista – construída num tempo e espaço específicos e construtiva de uma realidade intersubjetiva – do que como uma aplicação das faculdades especulares. invariavelmente. Como abordado no capítulo um. revelado. adotamos uma postura construcionista social. vale ressaltar que rejeitamos em nossas pesquisas.. tanto o realismo ingênuo. explicam e/ou compreendem o mundo em que vivem. 1994:338). O conhecimento. representacionais. 1994:321). Em nossa perspectiva. representada no pensamento filosófico pelos paradigmas empirista e idealista.. aquele que postula a existência de um mundo que precisa ser descoberto. incluindo elas próprias. que atribui a capacidade de conhecer exclusivamente às propriedades da mente individual. 40 . “aquelas que encontram o que a natureza já fez” (Rorty. o foco de estudos passa das estruturas sociais e mentais para a compreensão das ações e práticas sociais e. não poluídos por nossa escolha de linguagem. estaríamos “embasando” a escolha racional (Rorty. dos sistemas de significação que dão sentido ao mundo. como destaca Richard Rorty: (. não é nem uma interiorização dos processos sociais nem a exteriorização dos processos psicodinâmicos. à subjetividade e aos determinantes psicodinâmicos. como o subjetivismo extremo.Contudo. O foco do construcionismo é a interanimação dialógica. Nesse sentido.) precisamos renunciar tanto à noção de “dados e interpretação”. Adotar a postura construcionista implica. abdicar da epistemologia tradicional que difere interno-subjetivo-mente de externoobjetivo-mundo. por meio de uma relação imediata e invariante entre pesquisador (sujeito) e realidade (objeto). Na tentativa de superar essa dicotomia realismo-subjetivismo.

esteja ele fisicamente presente ou não. versões de mundo. representacional do conhecimento – e adotar a perspectiva de que o conhecimento não é algo que se possui. 13 Essa dimensão metodológica. mas nunca com a pretensão de esgotá-la. entre o rigor e a interpretação. Isso implica abdicar da perspectiva da “mente como espelho da natureza” (Rorty. portanto. 41 .situando-se. pela identificação do velho no novo e vice-versa. não definimos quais métodos têm mais possibilidades de traduzir como os fatos são. num infinito empenho pela verdade. as rupturas históricas. que devemos mantêla fluindo. no espaço da interpessoalidade. entre o consenso e a diversidade. Assim. será melhor explorada no capítulo quatro. aliados à intencionalidade de quem produz e do grau de conformidade de quem recebe. antes de tudo. Rorty propõe que a conversação seja a mola propulsora das ciências. da relação com o outro. Com a aceitação da postura construcionista. buscamos construir um modo de observar os fenômenos sociais que tenha como foco a tensão entre a universalidade e a particularidade. 13 A compreensão das práticas discursivas deve levar em conta tanto as permanências como. o que possibilita a explicitação da dinâmica das transformações históricas e impulsiona sua transformação constante. podendo ter maior ou menor poder performático dependendo do contexto de produção. do momento histórico. com vistas a produzir uma ferramenta útil para transformações da ordem social. 1994) – uma visão especular. mas que se constrói em coletividade. A concepção de fatos como construções sociais pressupõe que os métodos produzam. das relações sociais em que ocorre essa produção. Por meio dessa abordagem. principalmente.

a discussão epistemológica contemporânea. as práticas científicas – aquilo que obedece a determinados princípios. é uma prática social que faz parte de nossa condição humana. assim. regras e métodos definidos pela comunidade científica. Desenvolvemos essa atividade nas relações que compõem o nosso cotidiano. por sua vez. conforme discutido no capítulo anterior. Spink e Vera Mincoff Menegon D ar sentido ao mundo. de grupos que nos são mais próximos (família. o qual. As ideias com as quais convivemos. comunidade. da arte.CAPÍTULO III A PESQUISA COMO PRÁTICA DISCURSIVA: Superando os horrores metodológicos Mary Jane P. da ciência).) e da mídia em geral. em contraposição (quando não em franca oposição). Dessa forma. de um lado. Entretanto. escola. Steve Woolgar (1988) e Karin Knorr-Cetina (1981). vem contribuindo para desfazer essa dicotomização rígida. as categorias que usamos para expressá-las e os conceitos que buscamos formalizar são constituintes de domínios diversos (da religião. Deparamos. com um grande divisor de águas que coloca. passível. o senso comum – o conhecimento pouco sistemático e com fins práticos. portanto. tanto fazer ciência como desempenhar as atividades rotineiras (ou não) de nosso cotidiano passam a ser ressignificados como formas de produzir sentido sobre os eventos do mundo. de outro. da filosofia. principalmente aquela proveniente da moderna Sociologia do Conhecimento associada a Bruno Latour (1987). Essa aproximação 42 . de produzir o conhecimento legítimo – e. É comum pensar que dar sentido é atividade que diz respeito apenas ao cotidiano interpretado como os fazeres assistemáticos do senso comum. é atravessado por práticas discursivas construídas a partir de uma multiplicidade de vozes. meio profissional etc.

de modo a discutir os pressupostos metodológicos da pesquisa construcionista. requer um esforço continuado de ressignificação de aspectos implicados no desenvolvimento de uma metodologia de pesquisa. entretanto. 1 Conforme discutido no capítulo dois. tendo como pressuposto o fato de que a pesquisa também é uma prática social. 1996c. speech genres1 e linguagens sociais distintas que demarcam a produção de sentido em diferentes domínios de nossas atividades. 43 . há regras. que são utilizados em contextos específicos. 1999a. A pesquisa científica. De modo a situar essa discussão sobre metodologia no conjunto dos empreendimentos científicos. mais especificamente.paulatina. mais ou menos estáveis. algumas definições iniciais se fazem necessárias. Nascidas de preocupações associadas aos processos de ensino e orientação de pesquisa na pós-graduação. Buscaremos. incluindo aí os diferentes domínios de pesquisa. os critérios utilizados para estabelecer o status de cientificidade estão intrinsecamente vinculados a definições historicamente situadas sobre o que vem a ser ciência. Conforme afirma Cecília Minayo (1992). Nessa perspectiva. seja no campo teórico. está inserida num sistema de regras pautadas por estratégias de validação há muito consagradas pela tradição. vista como discurso institucionalizado. Trata-se de reflexões que têm elas também a sua história. seja no metodológico. situar a diversidade desses fazeres. 1999b). as ideias aqui discutidas foram apresentadas em outros fóruns e publicadas em diferentes versões (Spink. mas também uma prática social. a pesquisa remete-nos a um processo inacabado e contínuo que exige uma postura de busca permanente. não reduz uma atividade à outra. desfamiliarizando o debate sobre a diferença – especialmente no que diz respeito à pesquisa nas ciências sociais –. O objetivo deste capítulo é propiciar uma reflexão sobre a natureza dos fazeres em pesquisa científica. os s peech genres são formas de enunciados. Trabalhar essas estratégias como práticas sociais. 1997a. Concebemos a pesquisa científica como uma prática reflexiva e crítica.

Sem abandonar a 2 Algumas das tramas desse debate serão retomadas ao discutirmos mais detalhadamente a postura construcionista na discussão metodológica. 1979/1994). é um ramo da Filosofia que tem por objetivo o estudo do método geral da investigação científica. por sua vez. estaremos problematizando o conceito instituído de pesquisa científica. a seguir. metodologia e epistemologia. seja dada voz às diferentes posturas historicamente constituídas sobre a natureza da ciência. É nessa esfera que emergem os debates atuais sobre a natureza do conhecimento. embasando os procedimentos utilizados na construção do conhecimento científico. segundo Maria Amália Andery et alii (1988). abrindo espaço para a ruptura com o velho conceito de conhecimento como espelhamento da natureza. e que o método científico é. em outros momentos do capítulo. A Metodologia. concedendo à Filosofia a “função cultural de manter as outras disciplinas honestas” (Rorty. passaremos. então. De maneira simultânea. de modo a possibilitar que. à desfamiliarização dessa dicotomia a partir das novas posições disponibilizadas pela Sociologia da Ciência e pela pesquisa feminista e de gênero.Permanece. 44 . Abordaremos. Neste capítulo. sobre o ser humano e sobre o próprio conhecimento. em sua acepção mais geral. volta-se à consistência interna dos procedimentos – inserindo-se na questão maior da Lógica – e à correspondência do conhecimento produzido com as estruturas da realidade. a posição construcionista. Iniciaremos pela apresentação do debate clássico sobre pesquisa. porém.2 Optamos por iniciar a reflexão sobre pesquisa pela apresentação dessas definições gerais e de contornos pouco definidos sobre método. na contraposição entre ciências da natureza e ciências sociais. um conjunto de concepções sobre a natureza. portanto. assim como dos métodos próprios de cada ciência em particular. buscando fazê-lo a partir da reflexão sobre a natureza e uso das categorias. desenhando-se assim como ramo da Epistemologia. o consenso de que esse fazer-em-ciência é uma atividade metódica. A reflexão epistemológica tem uma “vocação fundante”.

The Structure of Scientific Revolutions. um empreendimento ainda recente. (1970). é caracterizado pela formulação e teste de hipóteses. buscaremos. Chicago: University of Chicago Press. Ciência Política e da própria Psicologia – é um fenômeno do século XIX. pois. 1. A tradição positivista associada a Comte requer que – “as novas físicas” – termo cunhado por Comte – adequem-se ao método científico e desenvolvam-se modeladas no padrão instituído pelas ciências da natureza. T. a possibilidade da Sociologia. para finalizar o capítulo. mas também porque a própria ideia de uma ciência do homem não fazia parte do panorama da época. associado principalmente a Galileu. termo que é empregado por Richard Rorty (1994) para se referir às práticas discursivas que emanam da esfera da ciência normal – referindo-se à distinção que Thomas Kuhn3 faz sobre ciência normal e revolucionária. Ambos os modelos são desenhados no interior do discurso normal sobre ciência. Epidemiologia. Antropologia. S. É. O monismo metodológico prega a unidade do método científico para todos os empreendimentos de investigação. O método científico. especialmente a física teórica.possibilidade do rigor. 3 Kuhn. Seguindo a reflexão de Michel Foucault (1966/1987b). a emergência do homem como objeto legítimo da ciência normal – e. Debate clássico sobre qualitativo e quantitativo Historicamente contamos com dois modelos instituídos para pensar a pesquisa científica nas ciências humanas: o monismo metodológico e a epistemologia da diferença – uma espécie de ação afirmativa em favor das ciências humanas. 45 . Economia. Esse método reinou absoluto não só porque os objetos de investigação – derivados basicamente das ciências físicas e da natureza – a ele se adequavam. discutir formas de lidar com os horrores metodológicos e delinear as condições de possibilidade da pesquisa pautada pela ética. portanto.

ou seja.4 Popper defende a postura de que todas as ciências teóricas ou generalizantes devem fazer uso do mesmo método. sendo que “o método de testar hipóteses é sempre o mesmo”. se o método não se aplica. Delineia-se. pela forma como concebe o teste de hipótese. é porque a disciplina em questão não é ciência. o que possibilita formular o corolário de que. Primeiramente. Reproduzido em: Bynner. o “entendimento”. segundo o autor. porque ele rejeita o indutivismo. mas pela falsificação de hipótese. 46 . afirmando que sempre procedemos a partir de hipóteses. New York: Longman/Open University Press. uma pré-ciência. o método é o mesmo para todas as ciências. & Stribley. Tendo como cenário o monismo metodológico e a circunscrição do que pode ser ciência normal. sendo. do livro A miséria do historicismo. Segundo a versão do debate apresentada por Rorty (1994). e não pode substituir. K. M. The Unity of Method. No entanto. na discussão metodológica. a preocupação central da ciência está voltada para as explicações. um segundo modelo pautado por uma epistemologia da diferença que defende a necessidade de métodos apropriados para as ciências humanas. em essência. Em segundo lugar. J. O outro lado disse que o entendimento é simplesmente 4 Popper. predições e testes. Há especificidades na forma em que Popper define método científico. K. Mas implica aplicar a todas a mesma definição de ciência.Modernamente o discurso do monismo metodológico é ainda prevalente e encarnado em autores influentes como Karl Popper. (1957). No capítulo intitulado A unidade do método.. Social Research Principles and Procedures. emerge uma acirrada discussão sobre o colonialismo que as ciências da natureza (Naturwissenschaften) exercem sobre as ciências humanas (Geistewissenschaften) emergentes.) pressupõe. (1979). no máximo. não implica negar que existam diferenças entre as ciências da natureza e da sociedade. Isso. a tradicional querela sobre a “filosofia das ciências sociais” desenrolou -se da seguinte maneira: Um lado disse que “explicação” (. rejeitando a postura verificacionista e propondo que avancemos não pela corroboração.

intimamente associado à fenomenologia. adotando o termo Geisteswissenschaften para denominar a esfera do método compreensivo. c) a rejeição do conceito tradicional de explicação. Obviamente. nem todos os domínios do saber na esfera das ciências humanas pautam-se pela epistemologia da diferença ou adotam o método fenomenológico. foi Dilthey quem a sistematizou. pensamentos e motivações do objeto de estudo. introduzindo-se aqui a clássica distinção entre explicação e compreensão. b) a distinção entre ciências nomotéticas – que buscam leis gerais – e ciências ideográficas – que enfatizam as características singulares – . há consideráveis variações inter e intradisciplina. embora Droysen tenha sido o primeiro a introduzir essa distinção – rotulando os dois polos de Erklären (ciências da explicação) e Verstehen (ciências da compreensão) –. No Brasil. a recriação na mente do pesquisador da atmosfera mental. A característica principal desse método. dos sentimentos. explicitadas nas discussões travadas nos anos sessenta e setenta sobre a correta inserção da Psicologia nos cursos universitários: se 47 . Von Wright define três características principais da postura hermenêutica: a) a rejeição do monismo e da adoção das ciências da natureza como padrão. 341). Segundo Von Wright. é a compreensão baseada na empatia.a capacidade de explicar. a defesa de métodos específicos para as Geistewissenschaften tem ligações históricas com o idealismo e está associada à diferenciação entre espírito (o eu transcendental) e a natureza (o eu empírico). como no caso de Rorty). que o que seus opositores chamam “entendimento” é meramente o estágio primitivo do tatear em busca de hipóteses explicativas (p. e a afiliação à perspectiva ideográfica. Historiando o debate a partir da perspectiva das ciências sociais (e não da Filosofia. Na versão de Von Wright (1978) sobre essa querela entre explicação e compreensão.

o pêndulo metafórico a que se referia Kenneth Gergen (1985) – que balança entre a perspectiva exogênica alinhada aos empiricistas e a endogênica associada aos fenomenologistas – continua em movimento. Usamos a expressão infeliz pela resultante dicotomia que associa mensuração com rigor e tudo o que não pode ser mensurado com subjetividade.5 principalmente na segunda metade da década de oitenta. o movimento de mudança de concepções metodológicas chega mais tardiamente. ordinais e de intervalo – são ignoradas. à excessiva simplificação da objetividade em pesquisa. 2. os métodos qualitativos têm longa tradição. É nesse contexto de afiliação ao monismo e adesão à epistemologia da diferença que se desenha a infeliz distinção entre métodos qualitativos e quantitativos. destaca a importância das pesquisas e propostas efetuadas por militantes de movimentos feministas que. Esse movimento. e. por sua afinidade com o campo e com os problemas da educação. como o Behaviorismo. Desfamiliarizando a dicotomia Em algumas disciplinas. e em movimentos identitários associados a afiliações teóricas. numa tentativa igualmente ingênua de controlar a subjetividade do pesquisador. pelo menos no Brasil. Tal postura leva. de outro lado. fundada a partir do método etnográfico que se apoia em grande parte na observação participante e em entrevistas. que mostrava uma “visível tendência de concentração de escolhas 5 Lüdke (1988). numa apropriação ingênua do universo numérico em que a diferença entre as diferentes escalas – nominais. Na Psicologia. de um lado. É o caso da Antropologia. pode ser detectado mediante a situação de intenso desenvolvimento de pesquisas na área da Educação. segundo Menga Lüdke (1988).entre as ciências biológicas ou humanas. como na área de pesquisa em Educação. trouxeram expressiva contribuição. Em outras. embora possibilite a convivência com procedimentos quantitativos. 48 . talvez em maior intensidade do que em outras disciplinas que estudam o homem. à entronização do número.

um contexto propício para reflexões sobre o uso dos métodos qualitativos e quantitativos na pesquisa em Educação. por exemplo. tinha como consequência o aumento de responsabilidade em face dessas escolhas. se por um lado proporcionava “uma riqueza de possibilidades de realização” no campo da pesquisa. exigindo muita seriedade e cuidado. B. que. 49 . Barbosa Franco. Essa virada qualitativa na Psicologia vem sendo amplamente documentada no âmbito 6 Luna. São Paulo (66): 75-80. 1988:62). do outro. 7 Franco. o estatuto dos métodos qualitativos está fortemente associado à emergência de uma vertente teórica crítica pautada em questionamentos de cunho epistemológico e político. (1988). M. na série Temas em Debate. a clareza necessária diante dos fundamentos epistemológicos que embasam sua metodologia. São Paulo. O falso conflito entre tendências metodológicas. Por que o conflito entre tendências metodológicas não é falso. São Paulo (66): 70-74. 7 Essa discussão metodológica. mas todos são questionados”. Os títulos de três artigos publicados em 1988. o que envolve. ilustram a preocupação dos pesquisadores: Como anda o debate sobre metodologias quantitativas e qualitativas na pesquisa em Educação. O falso conflito entre tendências metodológicas. O caminho marcado por regras inquestionáveis era mais fácil de ser trilhado. explicita a preocupação dos pesquisadores diante da ampliação do leque de possibilidades de escolhas metodológicas.metodológicas recaindo sobre as chamadas abordagens qualitativas” (Lüdke. Caderno de Pesquisa. “muitos caminhos são possíveis. Na Psicologia. L. de Luna. S.6 Por que o conflito entre tendências metodológicas não é falso. 1988:61). portanto. (1988). V. A fala de um dos alunos de Lüdke da pós-graduação é autoexplicativa: “Como era fácil ser aluno e ser prof essor de Metodologia de Pesquisa no meu tempo de estudante” (Lüdke. de Lüdke. P. por exemplo. na leitura de Lüdke. de Sérgio V. de Maria Laura P. Caderno de Pesquisa. Com a ampliação do leque de possibilidades. no Caderno de Pesquisa. Cria-se.

(1996). Série Pré-print. 9 Ver por exemplo: Banister. Tindall. a partir da visão hegemônica na qual a ideia de ciência emerge da confluência da postura epistemológica realista (na sua vertente mais ingênua. & Miles. A.. (1994). Já a desmistificação da ciência – como procedimento e valor – vem sendo efetuada tanto a partir da reflexão 8 Por exemplo: Pagés. (1988). Parker. de coletâneas recentes sobre o acervo atual de métodos 9 ou de compêndios sobre técnicas computacionais especificamente relacionadas às análises qualitativas. ou melhor. São Paulo: Atlas.. (org. T. USA: Open University Press. O realismo. Bonetti. Desmistificando a ciência: a sociologia da ciência e a pesquisa feminista A controvérsia sobre metodologias qualitativas dá-se.da disciplina seja a partir de discussões sobre métodos específicos 8. M. Buscaremos situar o novo estatuto desses métodos. Computer Programs for Qualitative Data Analysis: a software sourcebook. B. T. Richardson. E.. C. & Descendre. V. M. S. UK: BPS Books.. a pesquisa feminista e a epistemologia construcionista. D. & Sawaia. (1995). de correspondência direta entre objeto e representação. Acción y Discurso. M. (1987) O Poder das Organizações. De Gaulejac.). diferenciando-os da relação desenhada no âmbito dos modelos anteriores – o monismo metodológico e a epistemologia da diferença – e pontuando sua emergência na confluência de três esferas de atuação: a sociologia da ciência. será abordado no próximo item.10 Vários fatores convergem para a atual ressignificação dos métodos qualitativos nas ciências humanas em geral e na Psicologia em particular. B. E. São Paulo: Educ (publicado em Montero. P. M. California: Sage 50 . Taylor. E.. Handbook of Qualitative Research Methods... (org. Qualitative Methods in Psychology: a Research Guide. Thousand Oaks. as consequências das novas posturas construcionistas. em grande parte. Caracas: Eduven). 10 Por exemplo: Weitzman. M. ou na vertente mediada) com a mística criada em torno da ciência-como-valor.). UK/Philadelphia. I. M. B. J. Buckingham. Psicologia: Ciência ou Política. Burman. Leicester. Lane.

The Structure of Scientific Revolutions. Essa visão tradicional vem sendo paulatinamente questionada a partir dos estudos etnográficos das atividades desenvolvidas nos laboratórios. em Kuhn11 –. sendo determinantes últimos do conhecimento científico. ou soft. De acordo com Woolgar (1996). Os resultados desses estudos apontam para a característica contingente da atividade científica. ou seja. ‘corrente’ ou ‘tradicional’ de ciência” (p. como na Física. sendo esta circunscrita às condições e oportunidades locais. abarca três pressupostos: a) os objetos do mundo natural são objetivos e reais e existem independentemente dos seres humanos. individualista e mentalista. S. até mesmo quanto ao uso de instrumentos de pesquisa (sejam estes tecnologias hard. c) a atividade da ciência é racional. e Woolgar (1988). T. “grande parte dos trabalhos recentes na área de estudos sociais da ciência (descritos. Esses instrumentos têm a 11 Kuhn. Latour (1987). 13). 51 . destacando-se aí os trabalhos de Knorr-Cetina (1981). Fica claro – para quem quer ou pode entender esses resultados – que “os cientistas não estão apenas engajados na descrição passiva de fatos preexistentes sobre o mundo. como na escolha de escalas e questionários na Psicologia). 1996:15). mas também estão engajados na formulação ou construção ativa das características desse mundo” (Woolgar. Latour e Woolgar (1979/1997). b) a ciência compreende um conjunto unitário de métodos e procedimentos sobre os quais há um alto grau de consenso.interna da Filosofia da Ciência – por exemplo. como a partir das reflexões da Sociologia da Ciência. (1970). como estudos ‘pós-kuhnianos’ ou ‘construtivistas sociais’) são expressos na forma de crítica à visão ‘dada’. A atividade científica é permeada por decisões. difundida a partir de livros de texto ou do próprio senso comum. Chicago: University of Chicago Press. também. Essa visão.

A princípio buscava-se mostrar que as experiências das mulheres não tinham visibilidade em função dos vieses androcêntricos presentes nos pressupostos e nas práticas da ciência. especialmente no âmbito do “feminismo pós estruturalista”. todas elas pautadas pelas vicissitudes do pesquisador. que presume uma série de decisões. Uma primeira estratégia foi a identificação e correção dos vieses na pesquisa androcêntrica. sem atribuir conotação avaliatória da veracidade do conhecimento produzido. Ressalta. O autor emprega a expressão constructo social de forma técnica. Woolgar (1996) aponta que o conhecimento científico é determinado pelas relações sociais. atravessada por questões de poder que têm como consequência a hierarquização por gênero e a cristalização da diferença. Essa ressalva é necessária uma vez que o epíteto meramente (ou apenas) “é equivocadamente introduzido por aqueles que caricaturam os estudos sociais da ciência como uma forma de niilismo epistemológico” (p. segundo Karen Henwood (1996). mostravam-se mais adequados para apreender essas experiências. nos estudos sociais da ciência “o que conta como conhecimento científico bem sucedido é um constructo social”. O foco inicial da crítica feminista. políticas e culturais. por serem mais flexíveis e sensíveis ao contexto e aos significados. levando à 52 . Em contraste com a visão tradicional. que isso não significa afirmar que o conhecimento científico é meramente um constructo social. 19). Os métodos qualitativos. sistemas de crenças e valores das comunidades científicas. foi o alijamento da mulher no edifício da ciência. porém. com o passar do tempo. enfatizando-se que os julgamentos sobre verdade e falsidade são eles próprios permeados por questões morais. De forma semelhante. a crítica feminista engendrou três tipos de abordagens em pesquisa. a pesquisa feminista e a de gênero têm trazido importantes contribuições no sentido de desmistificar a ciência e situá-la como prática social. e não pelo “caráter efetivo do mundo físico”. Entretanto. Nessa perspectiva. passou-se a fazer uma reflexão crítica dos fundamentos epistemológicos.sua própria história. De acordo com Erica Burman (1994).

ou “forte”. há um fio condutor – denominado por Harding (1987) de “ponto de vista feminista” – que dá uma unidade de intenção. sendo esta vista como um tipo particular (culturalmente masculino) de subjetividade. uma vez que as três abordagens são “transformativas” e atendem ao projeto feminista de luta pela equidade de gênero nos âmbitos público e privado. A despeito das diferenças entre essas abordagens. devido ao pressuposto básico de que havia uma experiência feminina unitária. na reflexividade. Emerge assim uma terceira vertente. sobretudo por feministas negras e lésbicas. em termos de qual é a experiência que está sendo representada e validada na pesquisa. esses movimentos variados geram turbulências que redefinem o debate entre métodos qualitativos e quantitativos. mas a diferença das experiências. que focalizou não mais a exclusão da mulher dos paradigmas dominantes. as intervenções metodológicas feministas focalizam na experiência. como uma crítica à objetividade. 53 . Assim. expressas também nas práticas de pesquisa (1994:124). loucura etc. Como não poderia deixar de ser. A segunda estratégia está associada ao “feminismo separatista ou essencialista”.abordagem chamada de “empiricismo feminista” que buscava suplementar as lacunas focalizando a perspectiva da mulher em temas variados: trabalho. Como afirmam Burman et alii: apesar das versões variadas. aos estudos que levam à desmistificação progressiva do fazerem-ciência. Essas abordagens passaram a ser contestadas. somam-se as perspectivas mais políticas da ressignificação da diferença e da emergência de denúncia sobre as relações de poder opressivas que se desenham no interior do campo científico. Tais preocupações ontológicas ou experienciais vinculam-se ao projeto de explicitação das relações de poder opressivas nas práticas sociais em geral. para atingir a clareza reflexiva sobre as condições de produção da pesquisa. muitas vezes intitulada de “relativismo feminista” ou “feminismo pós -estruturalista”. e no uso consciente de uma subjetividade crítica.

1985:267). a produção de conhecimento alinha-se à vertente da pesquisa edificante. possibilita manter a conversação fluindo em vez de fechar precocemente a discussão. produtos das trocas historicamente situadas entre as pessoas” (Gergen. O debate desloca-se. passando a alinhar-se a uma postura epistemológica específica. Isso implica abdicar da visão representacional do conhecimento que está colada à concepção de mente como “espelho da natureza” (Rorty. Nessa perspectiva. É o posicionamento no debate entre realismo e construcionismo que informa a postura metodológica. 54 . O cerne do construcionismo. O método propriamente dito.12 Difere substantivamente da epistemologia tradicional porque transfere a explicação dos processos de conhecimento das regiões internas da mente para a exterioridade dos processos e estruturas da interação humana. A metodologia qualitativa na vertente da pesquisa edificante deixa de ser uma opção meramente técnica. como na triangulação metodológica. 12 No capitulo um desta coletânea. cumpre o papel de abertura continuada ao novo e. os pressupostos do construcionismo social são abordados de maneira mais detalhada. nessa proposta. dessa forma. pode ser único ou múltiplo. incluindo a si mesmas.2.2. associada aos objetivos da investigação. É a hermenêutica que. uma vez definido o alinhamento epistemológico. A epistemologia construcionista No construcionismo. explicam ou contabilizam o mundo no qual vivem. é a compreensão de que “os termos em que o mundo é compreendido são artefatos sociais. da dicotomia entre quantidade e qualidade para a dicotomia entre realismo e construcionismo. a investigação construcionista tem como foco principal a explicação dos processos pelos quais as pessoas descrevem. na perspectiva da teoria do conhecimento. combinando estratégias quantitativas e qualitativas. O termo pesquisa edificante é utilizado à semelhança da “filosofia edificante” referida por Rorty (1994). dessa forma.

W. de nuestras convenciones y de nuestras prácticas. um construcionista radical. sendo o objetivo da ciência a aproximação cada vez mais precisa aos objetos. A adoção de uma postura construcionista implica a ressignificação da relação entre sujeito e objeto. relatada por Walter Anderson. Dito de outra forma. USA: Harper San Francisco. O segundo diz: “Existem lances válidos e impedimentos. na perspectiva construcionista tanto o objeto como o sujeito são construções sócio-históricas: o modo como acessamos a realidade institui os objetos que constituem a realidade. Há duas posturas que alimentam essa dicotomia: a) o empirismo (a perspectiva exogênica).1994). bebericando suas cervejas e um deles diz: “Existem lances válidos e impedimentos. assim coloca a questão: Ningún objeto existe como tal en la realidad. científico o no. o segundo acata a mediação da subjetividade. a realidade não existe independentemente do nosso modo de acessá-la. sendo universais e necessárias para que se chegue ao conhecimento. (1990). b) o idealismo (a perspectiva endogênica). em que o objeto é a determinação última do conhecimento. e eu os nomeio tal qual eles são”. e o terceiro é um construcionista radical. Reality isn’t What it Used to be. O terceiro diz: “Existem lances válidos e impedimentos. O primeiro juiz alinha -se com o realismo. mas algo que as elas fazem juntas. que pressupõe a desfamiliarização com a ideia cristalizada de dualidade. em que as categorias de entendimento são constitutivas da mente humana. Em contraste. por supuesto el conocimiento. no es cierto que el mundo está constituido por un número determinado de objetos que están ahí fuera de una vez por todas y con independencia de nosotros. Três juízes de futebol estão reunidos. las categorías conceptuales 13 Anderson.13 que ilustra bem a diferença entre as três posturas. Lo que tomamos por objetos naturales no son sino objetivaciones que resultan de nuestras características. Há uma velha anedota. 55 . T. mas eles nada são até que eu os nomeie”. adotando a perspectiva de que o conhecimento não é uma coisa que as pessoas possuem em suas cabeças. Tomás Ibáñez. e eu os nomeio da maneira como os vejo”. Esas prácticas de objetivación incluyen.

não se trata mais de definir que métodos – qualitativos ou quantitativos – têm mais possibilidades de traduzir como são de fato as coisas. procurando distinguir “as posições epistemológicas (pressupostos sobre as bases do conhecimento) da metodologia de pesquisa (uma análise teórica que define um problema de pesquisa. Assim. dois cuidados interrelacionados: a) não cair na cilada de identificar quantidade com realismo e qualidade com construcionismo. conforme alerta Henwood (1996). A crescente sofisticação e legitimação da metodologia qualitativa impõe. e como a pesquisa deveria proceder) e esta. sua produção obedece a restrições que orientam o relato possível. e b) buscar entender as diferenças existentes no âmbito das metodologias qualitativas. quantitativa e qualitativa.que hemos forjado. Não se trata de um convite aberto ao relativismo. O construcionismo é um convite a examinar essas convenções e entendê-las como regras socialmente situadas. 1996:23). não estamos dizendo que os resultados dependem da idiossincrasia de quem o produziu. É justamente a aceitação plena da natureza socialmente construída do fazer-ciência que leva ao aprofundamento da reflexão sobre os métodos qualitativos. quando afirmamos que algo foi construído. não escapamos das convenções aí desenhadas. por sua vez. o mérito de tornar ma is claro “o quanto compartilhamos com nossos participantes todos os problemas e possibilidades de dar sentido ao mundo” (Woolgar. 56 . las convenciones que utilizamos. talvez. Somos essencialmente produtos de nossas épocas e de nossos contextos sociais. Com a aceitação plena da postura construcionista. Como afirma o próprio Ibáñez (1994). Ambas as metodologias. o conhecimento não é uma ficção desenfreada. A opção pela vertente qualitativa em pesquisa tem. do método específico (ou seja. el lenguaje en lo cual se hace posible la operación de pensar (1993a:112). da estratégia ou técnica efetivamente adotada)” (1996:31). produzem versões sobre o mundo.

gestual. e está presente nos modelos computacionais de mente. ou das grandes categorias criadas para serem utilizadas como eixo de análise na compreensão do mundo e das relações aí estabelecidas. Já outras categorias podem gerar debates acirrados. As categorias constituem importantes estratégias linguísticas estando presentes na própria organização da linguagem (verbal. consciência.3. gênero. tais como natureza. poder. no cotidiano das pessoas. na ciência etc. As categorias. como no caso das categorias qualitativo e quantitativo nas pesquisas científicas. cuja extensão fornece a noção de múltiplo. Categorias como práticas discursivas A discussão sobre o uso de categorias nas nossas práticas discursivas – incluindo aí a pesquisa – possibilita trazer um novo olhar para a discussão sobre a contraposição do qualitativo e quantitativo. para ficarmos apenas com algumas das mais conhecidas. Utilizamos categorias para organizar. O que estaremos discutindo a seguir é a natureza das categorias como estratégias linguísticas e seu uso de forma situada. classificamos as cores e damos nomes a animais sem demorar na análise da natureza dessas categorias. nesse caso. 57 . não questionamos se a cadeira pertence ou não ao grupo de objetos categorizados como destinados a servir de assento. alienação. escrita.2. E sse conceito de membros equivalentes nos remete ao conceito de unicidade (herança de Platão). portanto. em que temos um conceito uno. tendo por referência o conceito de categorias como grupos de “membros equivalentes”. a teoria clássica de categoria está identificada com uma tradição que vem desde Aristóteles. Por exemplo. Falamos por categorias. Por exemplo. nas artes. o conceito de homem será: o homem é uma multiplicidade. Grande parte dessas categorizações está tão presente nas falas do cotidiano que não nos damos conta de sua existência. classificar e explicar o mundo. inconsciente. mas permanece preso ao conceito original. O argumento a ser desenvolvido aqui é que as categorias. a unidade do conceito de homem recobre a multiplicidade dos homens existentes. estão presentes nas mais variadas formas de conhecimento. expressas por meio de práticas discursivas. na filosofia. são estratégias linguísticas delineadas para 14 Segundo Edwards (1991).14 na religião. Falamos de dias e noites. icônica). Já para Bergson. o próprio conceito de uno é uma multiplicidade. que existirão ou existiram. sendo compreendido a priori como passível de ressignificações continuadas.

e especialmente as variações de uso por uma mesma pessoa.conversar. ou. 15 A discussão sobre indexicalidade será feita mais adiante ao se abordar a superação dos horrores metodológicos. D’Andrade. é dada ênfase às suas propriedades universais e à representação mental. 1990. No entender de Derek Edwards (1991). há espaço para estudá-las à luz do contexto em que são utilizadas e da finalidade com que se organiza uma determinada retórica. Ou seja. Contrapondo essa visão à concepção de categorização postulada pela abordagem cognitiva. 58 . A abordagem cognitiva tende a tratar as categorias como evidência de algo. apoiadas no uso de categorias cuja função é dar sentido à experiência. Apesar de reconhecer que as categorias são fenômenos linguísticos culturalmente variáveis. 1991). seriam questões que mereceriam estudos cognitivos mais pormenorizados. da validade ou capacidade para traduzir os fenômenos – do plano conceitual. estando seu uso subordinado aos processos e estruturas de conhecimento. dessa forma. organizar e dar sentido ao mundo. sujeitas à indexicalidade15 e à retórica. explicar. É a cognição que dirige as práticas discursivas. 1969. cujas especificidades estão vinculadas ao contexto que as produzem. citados por Edwards. portanto – para sua função no âmbito das práticas sociais. A cultura propriamente dita tende a ser vista como uma espécie de organização cognitiva socialmente compartilhada (Tyler. Estamos nos referindo à multiplicidade com que uma categoria pode ser empregada. o estudo das categorizações pode ser muito rico se as categorias forem compreendidas como práticas discursivas situadas. o autor afirma que um dos pontos-chave do cognitivismo é a ideia de que as categorias e as categorizações são propriedades mentais compartilhadas. regionais ou universais. como ironiza Edwards. passíveis de remover essas diferenças. Isso significa que a variabilidade na forma como as pessoas categorizam as coisas. requereriam procedimentos metodológicos mais sofisticados. decorrentes de modelos culturais. O debate desloca-se.

Há. mas para conversar e falar sobre os fenômenos que nos rodeiam e sobre nós mesmos. embora frequentemente consensuais. Jonathan Potter e Margareth Wetherell 16 Os aspectos habituais dos processos comunicativos a que nos referíamos no capítulo dois. As análises de conversa e de discurso têm mostrado que os participantes empregam descrições categoriais de maneira reflexiva e em conformidade com o contexto interacional. refutação. acusação etc. entretanto. sugerindo que o sistema de categorias de linguagem não funciona simplesmente como estratégia para organizar e compreender o mundo. usálas em novas combinações. como entender os usos a que se prestam nos processos dialógicos de comunicação. 59 . podem. nessa perspectiva. trata a conversa e os textos como formas sociais de ação e não como representações de cognições pré-formadas (mesmo quando reconhecido o papel da cultura). utilizadas para a consecução de ações (persuasão. e construções situadas. e de dar visibilidade às consequências interacionais daí decorrentes. implica tanto entender que determinadas categorias foram socialmente construídas. aos requisitos necessários para as descrições e às diferenças de perspectivas. Nas conversas. portanto. gerando espaço para controvérsias. a abordagem discursiva. elas carregam a possibilidade de expor o posicionamento do emissor da fala. um aspecto pragmático do uso de categorias que extrapola o âmbito puramente semântico. Tendo em vista que as descrições categoriais envolvem escolha e reorganização retórica. As categorias de linguagem são adaptáveis à situação em que ocorre a conversa.). permitindo múltiplas e contrastantes possibilidades de uso. pautadas pelo uso do sentido mais hegemônico e cristalizado.Em contraste. as pessoas podem empregar categorias a partir dos usos habituais. negação. na visão de Edwards (1991). A categorização é tomada como construção em duplo sentido: construções culturais que estão disponíveis para dar sentido à experiência. culpabilização. Também no campo da pesquisa científica as categorias são utilizadas para produzir versões variadas. As categorias semânticas. 16 têm limites de pertencimento fluidos. O processo de desfamiliarização.

Para tanto. ao comentarem sobre o número dos tipos de câncer passíveis de cura. quando Leonardo Pisano (conhecido como Fibonacci) publicou sua obra magistral – o Liber Abaci. Essa estratégia possibilitava. Frequentemente esquecemos quão recente é a utilização do sistema indo-arábico de numeração no Ocidente. aos debatedores. uma quantidade relacional – um por cento – a uma quantidade que utiliza um número absoluto – um quarto de um milhão. Rio de Janeiro: Campus. assim. os números também têm história. Data apenas do século XIII. Procuraram. Para os autores. P. a quantificação é um dos mais poderosos instrumentos de legitimação das afirmações: cômputos numéricos são frequentemente contrastados com as versões “vagas”. (1977). os produtores do programa utilizam a seguinte estratégia linguística: um por cento de um quarto de um milhão de tipos de câncer são curáveis. sobre câncer). não se trata apenas de entender o uso que é feito do número. Esquecemos. assim. examinar como os números são utilizados numa prática situada de debate sobre eficácia de investimento em pesquisa (no caso. sobretudo. “pouco precisas”. mas com a introdução dessa notação numérica abriram-se novas possibilidades de cálculo. Nesse caso específico. a instituição beneficente tem interesse em mostrar o valor de seu trabalho. que os números são convenções e não expressões de quantidades naturais. O Desafio dos Deuses – a fascinante história do risco. competia aos debatedores problematizar as afirmações dos representantes da instituição.17 Não que não existisse a matemática. que os números que usamos em muitas de nossas 17 Apud Bernstein. Esquecemos. Contrapunham.(1991) analisaram o debate travado em um programa de televisão sobre a eficácia das instituições beneficentes de câncer. Entretanto. focalizando o uso da quantificação de modo a compreender como os números são utilizados para produzir versões compatíveis com o ponto de vista defendido. “mais subjetivas” de eventos analisados qualitativamente. 60 . questionar a eficiência do investimento em pesquisa – objetivo da instituição beneficente. portanto.

3. essa querela continua na ordem do dia. Apresentamos. em outubro de 1998. nosso objetivo não foi discutir a pertinência dos métodos qualitativos e quantitativos. com artigos publicados em janeiro de 1996. a contraposição entre quantitativo e qualitativo assume relevância quando vamos do dentro dos procedimentos consagrados no âmbito de cada campo disciplinar para o campo maior da interdisciplinaridade.práticas discursivas na pesquisa científica são notações decorrentes do uso de escalas com estatuto bastante diferenciado (as escalas nominais. Nessas esferas. mas mostrar que as categorias não podem ser compreendidas de forma desvinculada do uso e da história de sua construção. alguns aspectos dos artigos publicados em outubro de 1998. ordinais e de intervalo). As categorias não têm um valor ou sentido que lhes seja intrínseco. o embate em torno da questão do método – se quantitativo ou qualitativo – ainda assume papel central. que dão sentidos distintos às expressões numéricas que nelas se sustentam! Ao apresentar a análise de Potter e Wetherell como exemplo. a seguir. O que particularmente nos chamou a atenção foi que. Que ciência é essa? Apesar das pesquisas qualitativas terem conquistado certa respeitabilidade. apesar do esforço de algumas áreas em procurar desfamiliarizar a dicotomia em torno dos métodos.1. O debate continua Em 1995 a revista The Psychologist publicou uma edição especial sobre pesquisa qualitativa. 3. por último. em abril de 1997 e. desencadeando um debate entre pesquisadores da área da saúde. 61 .

Michael Morgan. pode adotar ou criar um método apropriado de investigação – incluindo a quantificação. não se diz convencido de que a esfera social requeira alternativas radicalmente diferentes daquelas utilizadas em pesquisas tradicionais. a pesquisa qualitativa permite compreender o ser humano na fluidez das relações sociais. 18 Morgan. afirmam que Morgan não compactua com a ideia de que ciência seja uma atividade social. The Psychologist 11(10):484-485. segundo o autor. O pesquisador afirma: tenho que ser convencido de que as técnicas [da Psicologia qualitativa] vão além daquelas de uma boa investigação jornalística. N. da Universidade de Newcastle. M. (Dr. Além disso. uma vez que não possui métodos padronizados de pesquisa que. 19 no artigo ‘New Science’ and Psychology. Dra. School of Health Sciences. Contrapondo-se a esse posicionamento. Neil Cooper e Chris Stevenson.) 62 . entendem que a visão “ciência = bom” tem servido apenas para amarrar a Psicologia. Além disso. C. Para esses autores. de Anatomia e Desenvolvimento Biológico da University College London). Morgan é do Instituto de Oftalmologia e do Depto. quando necessária – e trabalhar com métodos qualitativos não apenas como um “bom jornalismo investigativo”. Neil Cooper é Senior Lecturer em Estudos da Saúde na University of Sunderland. partindo de uma postura reflexiva de fazer pesquisa. (1988). mas não deveria requerer um status científico para os seus estudos qualitativos. (Dr. Estabelecer relações com as pessoas é trabalho de qualquer um. são imprescindíveis para uma ciência objetiva. argumenta que a pesquisa qualitativa em Psicologia fornece subsídios para a compreensão da “mente humana”. Escola de Neurociência da Divisão de Psiquiatria. O “novo pesquisador científico”. Science or Pseuco-science? The Psychologist 11(10):481-483. Chris Stevenson é Lecturer em Prática de Enfermagem Psiquiátrica. Espera-se algo mais dos cientistas (1988:481).18 no artigo Science or Pseudo-science?. New Science and Psychology. 19 Cooper. marginalizando-a de outras conversações possíveis. (1988). não vejo razão em pagar pesquisadores para desempenhar essa função. & Stevenson.

A outra pesquisadora presente nesse debate. Carol Sherrard é do Depto. que dentre os argumentos utilizados pelos pesquisadores que advogam o uso do método qualitativo. a expressão e produção de práticas discursivas aí situadas 20 Sherrard. como aponta Edgard Morin (1985) ao falar do anel do conhecimento. também se contrapõe a Morgan. A busca de elementos comuns põe em evidência o caráter processual da pesquisa – numa aceitação plena do dinamismo. que as pesquisas qualitativas passam a buscar sua identidade no confronto entre métodos. porém. Fica claro. Põe em evidência. Vale ressaltar. sem contudo refutar a utilidade do quantitativo. serão utilizados na compreensão e interpretação do que o outro está dizendo. (1998). ao abordarmos a entrevista como uma situação relacional por excelência. em última instância. defendendo a utilização das duas abordagens – qualitativa e quantitativa – e ressaltando que o fato de diferentes pesquisadores utilizarem os mesmos métodos não garante que os mesmos dados sejam obtidos (embora dados totalmente discrepantes também sejam estranhos). seja no sentido mais amplo de que toda pesquisa tem o caráter de colaboração. Por exemplo.20 no artigo Social Dimensions of Research. ainda. The Psychologist 11(10): 486-487. pois possuem diferentes conceitos e experiências que. historicidade e contextualidade implícita do nosso conhecimento sobre o mundo. (Dra. o posicionamento da pesquisa como uma prática social assume papel de destaque. seja no sentido mais restrito que lhe dão Carol Tindall (1994) de que pesquisador e participantes são considerados colaboradores na produção de conhecimento. de Psicologia da University of Leeds. Social Dimensions of Research. no conjunto sempre crescente de opções metodológicas e no debate metodológico mais amplo sobre a objetividade. C. O argumento apresentado é que os próprios pesquisadores diferem entre si.) 63 . Essa postura aponta para o reconhecimento crescente da responsabilidade do pesquisador durante todo o processo da pesquisa e não apenas na apresentação de um produto. Carol Sherrard. a dialogia e intersubjetividade intrínseca do processo de pesquisa.

Esse abismo faz-se presente de três formas. 64 . assim como a reconceituação dos parâmetros de rigor e validade. é regida por condutas regradas que visam superar o abismo entre nossas representações e a realidade. ou vinculação com o contexto: o sentido muda à medida que a situação muda. são pessoas ativas no processo de produção de sentidos. Os dois critérios estão associados ao instrumento de medida ou de acesso à realidade. exigindo reflexões sobre ética e poder na relação que se estabelece entre pesquisador e pesquisado. portanto. portanto. Superando os horrores metodológicos: Objetividade e rigor na pesquisa qualitativa A pesquisa. Implica. abandonando a questão da validade e fidedignidade e trazendo para o cenário a polissemia. os integrantes. assim como as características da pesquisa tomada como prática social atravessada por questões de poder. Adotando essa postura. a reflexão sobre a natureza do conhecimento. (A ética na pesquisa e a pesquisa ética serão abordadas na sequência. a reflexão sobre rigor e validação exige um novo enquadre.) 3. estaremos discutindo a questão da objetividade e do rigor.devem ser compreendidas também como fruto dessa interação. denominadas por Woolgar (1988) de “horrores metodológicos”: indexicalidade. é definida pela replicabilidade dessas medidas. inconclusividade e reflexividade. ou seja. No próximo item. na perspectiva realista. a reflexividade e a ética. A entrevista passa então a ser reconhecida como um processo de interanimação dialógica.2. A validade refere-se ao grau de correspondência entre a medida e o que está sendo medido. Indexicalidade A indexicalidade refere-se à situacionalidade. por sua vez. incluindo o pesquisador. a fidedignidade. Na perspectiva realista o controle da indexicalidade dá-se a partir dos critérios de validade e fidedignidade. As implicações desta concepção extrapolam o confronto entre técnicas quantitativas e qualitativas.

o uso combinado de diferentes métodos. A estratégia. Como afirma Uwe Flick (1992). Num primeiro momento. cultural e dinâmico –. “o objetivo da pesquisa qualitativa não é a replicabilidade e sim a especificidade” (p. fontes de dados ou abordagens teóricas. originalmente proposta por Denzin (1978). As soluções buscadas variam do ideal da pesquisa em laboratório. de modo a maximizar a validade da pesquisa. na medida em que se tornou mais claro – pelo menos para os pesquisadores alinhados a uma epistemologia construcionista – que cada método configurava o objeto de uma forma específica. passando a ser um elemento intrínseco dos procedimentos de pesquisa. constituindo-se em um dos caminhos de busca de credibilidade perante a comunidade científica. A indexicalidade deixa assim de ser um horror metodológico. esses critérios precisam ser reconceituados. o horror que essa complexidade gera prende-se à impossibilidade de generalização dos resultados. na qual a complexidade é domada pela seleção das variáveis – comprometendo a 65 . Como apontam Ian Parker (1994). a conceituação de validade e fidedignidade a partir da mediação dos instrumentos de coleta de dados levou os pesquisadores que utilizavam métodos qualitativos a propor o uso de triangulação metodológica: ou seja. 11) . Inconclusividade A inconclusividade refere-se à complexidade dos fenômenos sociais e à impossibilidade de controlar todas as variáveis intervenientes.Na perspectiva construcionista – sendo a realidade entendida como um fenômeno histórico. abandonando-se a referência à validação a favor do enriquecimento da interpretação. capazes de trazer à baila resultados contrastantes ou complementares que possibilitam uma visão caleidoscópica do fenômeno em estudo. envolvia um complexo processo de contraposição de métodos. tornando-se responsabilidade do pesquisador a descrição e exploração plena do contexto de pesquisa. Na perspectiva da epistemologia realista. A triangulação assim reconceituada busca a combinação de métodos heterogêneos. o sentido da triangulação foi se modificando.

amplamente utilizado em pesquisas biomédicas. para muitos. continua sendo possível. aqui potencializado. Mas. A pesquisa informada por epistemologias construcionistas. Na pesquisa direcionada pelas epistemologias realistas. igualmente. 1994). vista como conteúdo. quando vista a partir da perspectiva dos processos de produção de sentido. levou a inúmeras considerações sobre a neutralidade do pesquisador. explorando-se as maneiras pelas quais a subjetividade do pesquisador estruturou a forma em que o fenômeno foi definido (Parker. e as possíveis consequências dessa escolha devem. o horror metodológico. pelo menos nas duas vertentes propostas por Tindall 66 . transforma a subjetividade num recurso a mais. fica comprometida. numa abordagem qualitativa. em contraste. às agruras da pesquisa de campo. Reflexividade A reflexividade refere-se à espiral da interpretação e aos efeitos da presença do pesquisador nos resultados da pesquisa. O controle da subjetividade latente levou ao desenvolvimento de desenhos consagrados – como o duplo cego. mesmo se reinterpretada como ilustração das inúmeras possibilidades de sentido. As implicações para a escolha dos participantes são importantes: não se trata mais de delinear amostras representativas porque há pleno reconhecimento da variabilidade de experiências. em que a complexidade é domada pela sofisticação das técnicas de amostragem – comprometendo a compreensão do sentido às custas de uma padronização excessiva das informações obtidas. O rigor na pesquisa qualitativa passa a ser a explicitação da posição do pesquisador. Mas os critérios de escolha dos participantes devem ser explicitados. ser exploradas. um fator positivo e indicador da possibilidade de transformação social. A generalização. Procura-se chegar o mais próximo possível do relato objetivo do fenômeno em questão. Na pesquisa qualitativa há uma aceitação plena da processualidade dos fenômenos sociais e a mudança – induzida até pela participação num protocolo de pesquisa – é.aproximação possível com a realidade extralaboratório –.

Na medida em que esse aspecto público da atividade científica do novo paradigma é explicitamente assumido. 67 . O rigor e a avaliação são. a ressignificação da objetividade abre espaço para o debate em torno da ética. elemento primeiro e fundador da verdade e da validade das teorias científicas. A reflexividade funcional volta-se para a comunidade e para a maneira como “quem somos” influi no processo de pesquisa e em seus resultados. que será retomado no capítulo quatro. assim. a objetividade supõe: a) concordância de resultados. à objetividade possível diante do que Morin (1985) denomina de “problema epistemológico da complexidade”. A avaliação dos resultados das pesquisas qualitativas prende-se. c) a comunicação intersubjetiva entre observadores e experimentadores. segundo Morin. fenômenos da ordem da intersubjetividade e prendem-se à possibilidade de socializar o processo interpretativo. podem ter concepções opostas. b) considerar o nível de desenvolvimento tecnológico de uma cultura e de uma sociedade. assim como os dados acessórios provenientes da postura reflexiva acima descrita. segundo esse autor.(1994): a) reflexividade pessoal e b) reflexividade funcional. Isso implica colocar à disposição da comunidade – científica ou não – os dados brutos da pesquisa. “a objetividade. pode ser considerada como o último produto de um consenso sociocultural e histórico da comunidade/sociedade científica” (Morin. portanto. está fragilmente vinculada às observações empíricas. A reflexividade pessoal implica a reflexão sobre quem sou eu-pesquisador. em alguns casos. A objetividade dos dados. envolvendo diferentes observadores ou experimentadores que. 1985:16). Para ser reconhecida. e como meus interesses e valores incidem sobre o delineamento da pesquisa e sobre minhas interpretações. Em suma.

3. apesar de não terem força de lei. em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS). São Paulo: Pioneira. elaboradas pelo Conselho para Organizações Internacionais de Ciências Médicas/CIOMS. movidas pelo horror das revelações dos bastidores da grande guerra. S. elaborados de modo a proteger a sociedade contra possíveis abusos. Naquele momento histórico.Proposed revision of the World Medical Association Declaration of Helsinki. W. são importantes na medida em que influenciam a legislação de cada país. W. Chile. pela primeira vez. A Ética e a Metodologia – pesquisa médica. (Document: 17. redigido durante o julgamento dos médicos nazistas. A ética na pesquisa e a pesquisa ética A ética na pesquisa está mais vinculada a prescrições e normatizações – algo que vem de fora. pela Resolução 1/88 do Conselho Nacional de Saúde e revisada em 1996. S. sucederam-se num movimento continuado de aperfeiçoamento das diretrizes: o Código de Nuremberg em 1947. São Paulo: Pioneira.C/Rev1/98 . além de servirem como parâmetro para as políticas das agências financiadoras de pesquisa. Esses códigos. estabeleceu ser obrigatório obter o consentimento do participante de pesquisa clínica (Vieira & Hossne). 21 a Declaração de Helsinque em 1964 (revista em 1996). S. publicadas em 1982 e revistas em 1993. 22 as Diretrizes Internacionais para Pesquisas Biomédicas Envolvendo Seres Humanos. No Brasil. A Ética e a Metodologia – pesquisa médica. S.23 Mesmo não estando isentos de interpretações e interesses variados. Os códigos de ética.) 23 Vieira. a mobilização maior foi das instituições internacionais que se autointitulam guardiãs do fazer ético em pesquisa. a normatização para pesquisas envolvendo seres humanos foi promulgada.3. em abril de 1999. 22 Uma nova revisão da Declaração de Helsinque está em curso e foi discutida em Santiago. esses códigos e diretrizes representam a abertura metafórica das portas dos 21 Vieira. 68 . & Hossne. declarações e diretrizes. Essa ética científica foi tema central das discussões travadas nos anos cinquenta e sessenta. (1998). (1998). & Hossne.

Convive mais facilmente com as pesquisas alinhadas às epistemologias construcionistas.laboratórios. O consentimento informado é o acordo inicial que sela a colaboração e. é instrumento essencial para discutir as informações e pressupostos que norteiam a pesquisa. A transparência tem difícil convivência com muitos dos pressupostos da pesquisa alinhada às epistemologias realistas. criando oportunidades únicas para a reflexão ética. No que se refere à relação entre pesquisadores e participantes. O princípio básico do consentimento informado é a transparência quanto aos procedimentos e quanto aos direitos e deveres de todos os envolvidos no processo de pesquisa. e 3) aceitar que a dialogia é intrínseca à relação que se estabelece entre pesquisadores e participantes. e o resguardo do uso abusivo do poder na relação entre pesquisador e participantes. 2) garantir a visibilidade dos procedimentos de coleta e análise dos dados (objeto de discussão do próximo capítulo). passam a ser três os cuidados éticos essenciais da pesquisa qualitativa: os consentimentos informados. adotando uma postura reflexiva em face do que significa produzir conhecimento (abordado ao longo dos itens anteriores). a pesquisa ética configura-se pelo compromisso e aceitação de alguns aspectos que consideramos imprescindíveis: 1) pensar a pesquisa como uma prática social. Entretanto. uma vez que o próprio processo de participação traz novas possibilidades de interpretação sobre a pesquisa. trazendo o fazer-em-pesquisa para o debate público. dada a aceitação implícita da reflexividade no processo de 69 . a possibilidade de desfazer o acordo é cláusula fundamental do consentimento informado. a proteção do anonimato. As posturas construcionistas criam o cenário propício para a discussão da ética a partir de dentro do próprio processo de pesquisa. Nessa perspectiva. passível de ser revisto em diferentes momentos. É um consentimento inicial. como tal. nossa proposta de pesquisa ética vai além de diretrizes oficiais. dada a tradição aí estabelecida de que o conhecimento dos objetivos enviesa os resultados da pesquisa.

os objetivos estão presentes nas hipóteses que os participantes – concebidos como colaboradores ativos no processo de pesquisa – elaboram sobre o que deles é esperado. É frequentemente entendido como confidencialidade. a postura ética implica o estabelecimento de uma relação de confiança em que é assegurado aos participantes o direito de não resposta. a não revelação ou a revelação velada. pode gerar um conhecimento normalizador. zelando para que a curiosidade seja controlada pelo princípio do respeito à intimidade e da não disrupção das estratégias de enfrentamento presentes na interlocução. Já do ponto de vista dos pesquisadores. O anonimato é um mecanismo de proteção que implica a não revelação de informações que possibilitem a identificação dos participantes. o que. enfatizar nossa responsabilidade na escolha do tipo de ciência que queremos produzir. Garantir o anonimato. pelo contrário. é o compromisso ético possível. buscamos.pesquisa. 70 . embora muitos pesquisadores considerem que o caráter público da pesquisa é incompatível com o segredo implícito na confidencialidade. o cuidado que se coloca é o da sensibilidade quanto aos limites apropriados da revelação. alienante e autoritário ou. Ou seja. como nos adverte Ibáñez (1993b). para muitos. Quanto ao resguardo das relações de poder abusivas. revelados ou não. um conhecimento libertário que contribua para a luta contra a dominação. ou seja. Ao adotarmos esses princípios norteadores. em última instância. como no pedido de desligamento do gravador.

por exemplo. Entretanto. Spink e Helena Lima O objetivo deste capítulo é apresentar algumas estratégias por nós desenvolvidas com a finalidade de dar visibilidade ao processo de interpretação na pesquisa e.CAPÍTULO IV RIGOR E VISIBILIDADE: A explicitação dos passos de interpretação Mary Jane P. o conceito subjacente de evidência que nos possibilita atribuir aos nossos dados o estatuto de representante do real? Como nos apropriamos dessas evidências 71 . Estamos partindo do pressuposto – conforme discutido nos capítulos anteriores – de que fazer ciência é uma prática social e. em vez de nos apoiarmos na estratégia consagrada de privilegiar o desenho da pesquisa (o método). como em qualquer forma de sociabilidade. dos passos da análise e da interpretação a que chegamos. seu sucesso e legitimação estão intrinsecamente associados à possibilidade de comunicação de seus resultados. Entretanto. A comunicação. Essa é uma proposição aparentemente simples e suficientemente compreendida por todos nós que passamos por processos de formação em pesquisa que incluem. entre outras coisas. fazem-se necessários alguns esclarecimentos de modo a situar o conceito de rigor com o qual estamos trabalhando. o aprendizado de elaboração de relatórios e de artigos para publicação em revistas científicas. Qual é. É sobretudo necessário justificar por que estamos depositando o rigor na explicitação do processo de interpretação. em ciência. antes de proceder à apresentação das técnicas de visualização. dessa forma. implica a apresentação do acervo de informações com os quais estamos lidando. a aparente simplicidade das regras da boa apresentação escondem questões deveras complexas. garantir o rigor da análise.

e as traduzimos. entre eles – que se pautavam por 1 Hacking adverte que não se trata da necessidade lógica contemporânea. Da autoridade dos textos à leitura da natureza: a evidência das coisas Só recentemente a evidência das coisas passou a fundamentar a ciência. da física. assim. Buscamos. não sendo esse seu objetivo principal) algumas pistas valiosas para entender os meandros da evolução da noção de evidência e as possibilidades atuais da interpretação dos dados de pesquisa. fornece (inadvertidamente. discorrer sobre a natureza do processo de interpretação e situar o conceito de objetividade com o qual estamos trabalhando. neste capítulo. Associando rigor a visibilidade. por exemplo. ciência é conhecimento de verdades universais que são verdades por necessidade. em suma. 1. Mas não só a scientia movia os fazeres humanos. para uma nova linguagem – a da interpretação? Qual.1 Além do conhecimento das verdades primeiras – inquestionáveis por serem tão simples e fundamentais –. talvez. problematizar a noção de evidência. Era essa a tarefa dos saberes nobres. conceito que emerge apenas no século XVII. o estatuto de objetividade que resulta dessa confluência de evidência e interpretação? Propomos. desenvolvemos algumas estratégias de interpretação das informações disponíveis e de apresentação dos resultados de nossas pesquisas. de seus estados brutos. ainda. se podia chegar ao conhecimento por meio da demonstração a partir de proposições. De modo a situar a gênese da noção de probabilidade que viria a embasar a teoria matemática da probabilidade. Ian Hacking (1975/1984). na epistemologia medieval. definir o que entendemos por rigor. Estas serão apresentadas na parte final do capítulo. Havia saberes outros – o da alquimia e o da medicina. Hacking focaliza a transição da scientia medieval para os primórdios do método experimental. Lembra-nos que. 72 . da matemática. filósofo que tomou para si a tarefa de estudar a emergência do conceito moderno de probabilidade.

Hoje. Foucault (1966/1987b) nos conta que.. legitimando a evidência-dascoisas em detrimento da evidência do testemunho e da autoridade. Não se trata ainda do realismo dominante hoje. da alma e do corpo.. aemulatio – o 2 São Tomás de Aquino viveu no século XIII. fica plenamente explicitada apenas na Lógica de Port Royal. pautavam-se na autoridade. A distinção entre esses dois tipos de evidência.) os autores chamam a evidência do testemunho de externa ou extrínseca. as crenças ou doutrinas que não decorrem da demonstração. Pertencentes ao domínio da argumentação e da disputa. como ainda hoje. Mas na Renascença a visão era outra: o testemunho e a autoridade precediam a evidência das coisas e estas só contavam como evidência quando se assemelhavam ao testemunho de observadores ou à autoridade dos livros. a Renascença busca retornar ao verdadeiro testemunho: aquilo que está escrito na natureza. durante o século XVI. Para isso. era necessário aprender a ler o livro da natureza desvendando seus signos. obra que data de 1661: “(. A filosofia Tomista teve papel importante na vitória do aristotelismo contra o platonismo na Idade Média.outra forma de pensar: a opinio. 73 . Central nesse processo foi a ressignificação do conceito de evidência. A evidência das coisas é chamada interna” (1984:33). utilizamos testemunhos – como por exemplo nos tribunais da justiça – quando nos reconhecemos ignorantes da evidência das coisas. entretanto. por exemplo. Entramos assim numa nova etapa. e não na demonstração. segundo Hacking. constituindo um corpus organizado que incorporava quatro noções: convenientia – o ajuste. Foram necessárias várias ressignificações para que a epistemologia Tomista2 pudesse dar lugar à ciência moderna. a interpretação dos signos trabalhava com a unidade mínima da semelhança. a evidência primária passa a ser a evidência das coisas: interna e não externa. Buscando liberar-se da autoridade dos textos. em que. especialmente no âmbito do Catolicismo. tem ainda hoje importantes repercussões. O período de transição da evidência-baseada-em-autoridade (de pessoas ou textos) para a evidênciadas-coisas tem como elemento central uma teoria dos signos.

A dissecação implicava o desmonte de algo para ver o que está dentro. fosse sempre confiável. a falsa semelhança. num sentido lateral. a aventura. em contraste. apud Hacking. as teorias do signo e das técnicas de interpretação tinham como substrato uma definição perfeitamente clara de todos os tipos possíveis de semelhança. Dessa forma. Possibilitavam duas formas de engendramento: o cognitio. era a imagem de uma propriedade invisível e oculta. de uma semelhança a outra. Portanto. de forma que os atributos eram como que o reflexo de uns e outros (as sete partes do rosto como emulação do céu com seus sete planetas). a diagnose e a dissecação. a assinatura que. que ia de uma semelhança superficial a outra mais profunda. como as propriedades visíveis de um indivíduo. Estavam polarizadas. torna-se problemática essa leitura pois. “embora a leitura do livro do universo. O teste. que se delineiam as novas formas de empirismo. estáveis e passíveis de se tornarem leis. nesse período. nem todo signo era confiável e as regularidades. ou seja. nós não conseguimos ainda ler a grande sentença que está escrita no firmamento. herdeiras das baixas ciências medievais. havia muitos tipos de experimentos na era medieval: o teste. A disposição dos signos ocorria num espaço homogêneo. Mas. desse modo. e o divinatio. a identidade das relações entre duas ou mais substâncias distintas. a metáfora do grande livro do universo. que era o passo. linear. também. que constituía o conhecimento em profundidade. Torna-se endêmica. e temos que confiar no microcosmo que nos circunda” (Frascatoro. É nesse espaço. como fazia Vesalius em seus estudos anatômicos. legitimado pelo mundo que fundamentava as semelhanças.paralelismo dos atributos de substâncias ou seres distintos. e o simulacrum. analogia. propiciando leituras restritas e interpretações predeterminadas. como adverte Hacking. e signatura. operava pela 74 . Digo novas formas porque. paralelamente. se completa. passaram a fazer parte da técnica de leitura do mundo. as duas formas de conhecimento: o consensus. 1984:43).

era preciso inferir as causas a partir do experimento” (Hacking. 1984:37). em A Natureza Humana. Muitas das atividades da alquimia inseriam-se nessa perspectiva. mas nada pode concluir de sua verdade” 3. que se distinguisse entre signos convencionais e naturais. mas jamais a certeza: “a experiência nada conclui universalmente. e isso ocorreria já na Lógica de Port Royal. era pura e simples exploração. 1650. a scientia procedia por meio da demonstração dos efeitos a partir das causas primeiras. a diagnose medieval implicava inferência: a partir da observação. Em contraste. Essas novas causas eram causas eficientes: explicavam como as coisas funcionavam. ora uma atividade central para o entendimento dos fenômenos. a problemática moderna da evidência: o signo torna-se conjectura. 1984:48. gerando um novo conceito de evidência: não mais um simples olhar. 1984:37). Citado em Hacking. mas de algo que lhe é básico. Não estamos falando aqui das origens do que se convencionou chamar de método experimental. É aqui que a leitura dos signos e a experimentação dão-se as mãos. nem o mero teste ou o adivinhar os contornos de uma nova lei à luz da aventura: “trata -se da evidência de algo que aponta para além de si mesmo” (Hacking. Fica instaurada a suspeita que fará da hermenêutica ora uma prática maldita. nesse espaço. Se os signos ocorrem vinte vezes para cada uma falha. 75 . Já a aventura não era guiada por teoria. assim como na obra de Hobbes.visão interna chamada dedução: a comprovação da teoria. As regularidades lhes dão sustento. um homem pode fazer uma aposta de vinte para um no evento. inferia-se o que havia de errado com o paciente. 3 Hume. Delineia-se. Muita água teria que rolar antes que o conceito de signo pudesse passar da linguagem do médico renascentista para o signo deliberado que pode ser tomado como expressão da evidência interna: seria necessário sobretudo. Nas palavras de Hacking: “Na velha tradição aristotélica. Na nova ciência.

Freud e Nietzsche. e somente no século XIX novas possibilidades de interpretação se configurarão no pensamento ocidental. à profundidade: mas. partindo de uma dimensão do que poderíamos qualificar de profundidade. a partir de uma reflexão sobre a interpretação em Marx. 1987c:17). É preciso que o intérprete desça. “(. posto que a semelhança não permitia extrapolações. Essas novas possibilidades fundamentam-se na referência ao intérprete: “as técnicas de interpretação nos dizem respeito e nós.2. As técnicas interpretativas assumem um caráter não linear. modificando a natureza do signo e a forma usual de interpretação: do caráter limitado e linear das técnicas interpretativas utilizadas no século XVI. temos que nos interpretar a partir destas técnicas” (Foucault.. 76 . Considera que as críticas baconiana e cartesiana da semelhança deixaram em suspenso as formas de interpretação fundamentadas no século XVI. fundamentadas na semelhança. os signos escalonam-se. senão para restituir a exterioridade resplandecente que foi recoberta e enterrada” (1987c:19). e a interpretação era tarefa finita e pautada em noções predeterminadas. como intérpretes.) na realidade não se pode recorrer a esta linha descendente sempre que se interpreta. digamos. Da possibilidade de uma hermenêutica Em belíssimo texto escrito originalmente em 1975. a partir do século XIX os signos passam a se encadear numa trama inesgotável – porque tinham amplitude e abertura irredutíveis. adverte Foucault.. Se no século XVI os signos remetiam-se entre si de modo restrito. A dogmatização da ciência e a cristalização do critério de verdade única tornaram a tarefa do intérprete algo submetido a leis rígidas e a critérios hermenêuticos e científicos ingenuamente tomados como capazes de apresentar uma leitura única dos fenômenos da existência. a partir do século XIX num espaço mais diferenciado. Michel Foucault busca entender a que sistema de interpretação pertencemos hoje.

como por exemplo que não há nada a interpretar. resolver e romper a golpes de martelo” (Foucault. reinventando-se a cada nova trama engendrada. quando o princípio da semelhança provava a benevolência de Deus e aproximava signo e significado.. a existência de um ponto de ruptura. assim. mas a interpretação de outros símbolos”. dessa forma. seria uma relação de violência mais do que de elucidação. uma certa ambiguidade e malevolência. “Não há algo absolutamente primário a interpretar. de uma interpretação que já está ali. ela necessita apoderar-se. porque no fundo já é tudo interpretação. A interpretação.. então. que deve trucidar. e a sua densidade própria abriuse. e pôde então precipitar-se na abertura em direção a todos os conceitos negativos que até então tinham permanecido alheios à teoria dos símbolos (Foucault. e violentamente. O limite entre o ponto da interpretação absoluta e o desaparecimento do próprio intérprete sinalizaria o início do retrocesso da interpretação. 77 . o caráter simples e benévolo que tinha no século XVI. Adquire. É a primazia da interpretação em relação aos signos que dá um valor decisivo à hermenêutica moderna.A interpretação passa a ter o caráter de inacabado. Segundo Foucault. estruturais (referentes aos padrões articulados de associações) e interacionais (referentes ao contexto da interanimação dialógica). 4 Estamos utilizando símbolo e signo como “formas simbólicas convencionais” que pressupõem aspectos históricos (relativos ao estabelecimento das convenções). 1987c:25). O signo perde. redescobrindo-se em formas e conteúdos de possibilidades infinitas. passam a ser interpretações que têm que se justificar. o caráter inesgotável da interpretação pode suscitar conclusões precipitadas e restritivas.) a interpretação não aclara uma matéria que com o fim de ser interpretada se oferece passivamente. No dizer de Foucault: O símbolo4 ao adquirir esta nova função de encobrimento da interpretação perdeu a sua simplicidade do significante que todavia possuía na época do Renascimento. ou seja: “(. 1987c:23). cada símbolo é em si mesmo não a coisa que se oferece à interpretação.

ou ainda que haja linguagens que se articulam em formas não verbais. o significado ‘que está por baixo’” (Foucault. seria “(. Primeiramente. 1987c:14). Crer na existência absoluta do signo é abandonar a violência e o inacabado da interpretação. um significado menor que anuncia outro que. Em consonância com as reflexões de Richard Rorty (1979/1994). é compreender que não há mais do que interpretações. Como diz Rorty: 78 . o que sustenta a interpretação não é a existência de uma matriz disciplinar comum.Duas consequências se depreendem dessas considerações. A linguagem engendra ainda a suspeita que há muitas outras coisas que falam e que não são linguagem. A morte da interpretação. A segunda consequência é a circularidade da interpretação: ao interpretar-se a si mesma. a suspeita de que a linguagem não diz exatamente o que diz e que o sentido que se apreende e que se manifesta de forma imediata seria apenas uma das possibilidades de sentido. 1987c:26). Nessa perspectiva. concebemos hermenêutica como a relação entre discursos variados considerados como partes integrantes de uma conversação possível. como marcas coerentes. pertinentes e sistemáticas. é crer que há signos que existem por si mesmos. É deixar.. nos diz Foucault. A vida da interpretação. pontuam o sentido possível da hermenêutica na perspectiva construcionista. mas a esperança de que a concordância é possível contanto que seja possível manter a conversação fluindo. entretanto. “para fazer reinar o terror do índice e suspeitar da linguagem” (Foucault. 1987b:27). que a interpretação é sempre a interpretação de alguém: “O princípio da interpretação não é mais do que o intérprete” (Foucault. Essa articulação entre linguagem e interpretação.) o significado mais importante. por sua vez. não pode deixar de voltar-se sobre si mesma.. Primeiro. aflorarem as antigas suspeitas que são produzidas na articulação da linguagem e da interpretação. em suma. e as suspeitas aí engendradas. É por isso que a hermenêutica e a semiologia são ferozes inimigas.

Para muitos. Re-situando a racionalidade no plano da argumentação. Abandona. dialeticamente.. compreendê-las para poder participar da conversação. generabilidade e fidedignidade. ao menos. ou.1. Na perspectiva construcionista o rigor 79 . ou de cair num relativismo malévolo. sendo essas noções tributárias do parâmetro científico de verdade concebida como correspondência com a realidade. 1994:312). deixa de ser o nome de uma disciplina. parece. 1994:314)..Essa esperança não é a esperança da descoberta de terreno comum anteriormente existente. o rigor fica frequentemente depositado na triangulação entre replicabilidade. Implica. 2. Situar a interpretação no plano da conversação não implica. mas simplesmente a esperança de concordância. como dizem os críticos de Feyerabend e Kuhn. na perspectiva construcionista. porém. discordância interessante e frutífera (Rorty. a mera sugestão de que talvez não haja esse terreno comum parece colocar em perigo o projeto de racionalidade. um método ou um programa de pesquisa. abrir mão do projeto da racionalidade. A interpretação e o rigor na perspectiva construcionista A hermenêutica. fazer uma revisão do conceito de rigor. conforme discutido no capítulo três –. assim. propor sua negação. e até mesmo para. que se trata de advogar o uso da força em vez da persuasão. rever o sentido da racionalidade. a tarefa interpretativa passa a ser coextensiva com a compreensão das regras de conversação que pautam o fazer em ciência. O construcionismo permite.) um conjunto de regras que nos diga como pode ser alcançada uma concordância racional. ou de “(. abrindo mão da associação estrita entre esta e a objetividade pensada como relação de correspondência com a realidade. Trata-se de entender o longo processo de construção dessas regras e de compreender as características das linguagens sociais que aí se engendraram. Na perspectiva da comensurabilidade – do monismo metodológico. enfim. a partir da qual se decidiria a questão sobre todo ponto em que as colocações parecem conflitar” (Rorty. entretanto. o projeto de comensurabilidade – de busca de um terreno comum.

palavras e conceitos – e das mutilações decorrentes de articulações insuficientemente trabalhadas. encontrando-se preso aos processos históricos e sociais e ainda às vicissitudes dos relacionamentos humanos.) tentaram salvaguardar um núcleo de objetividade e de racionalidade no seio do pensamento científico” (Morin. em princípio. outros “(. Esse diálogo. associada aos conceitos de complicação e confusão. Popper. 2. 1985:14). relacionada ao problema da dificuldade de pensar. que deixou de ser sinônimo de certeza para se tornar sinônimo de incerteza” (Morin. A partir desse momento alguns se entregaram a uma dúvida generalizada. sim. porque o pensamento é um embate das articulações possíveis entre lógica. Embora a palavra complexidade seja. assim. É dessa forma que Morin introduz o problema da objetividade.2. 80 . desenvolvido no âmbito da pesquisa que se quer científica. ela não se restringe a isso: estaria. Segundo Edgar Morin: “Pode -se dizer que a epistemologia anglo-saxônica dos anos 50-60 descobriu que nenhuma teoria científica pode pretender-se absolutamente certa. aspecto de sua teoria da complexidade que nos interessa particularmente. transformou o próprio conceito de ciência. ser revisto e re-situado como processo intersubjetivo. não é um processo livre.. abre possibilidades de reflexão acerca do fazer científico. artesão capital desta evolução.. A complexidade do problema da objetividade Um dos aspectos mais importantes da crise do pensamento contemporâneo é a crise dos fundamentos do conhecimento científico – a saber. a objetividade dos enunciados e a coerência lógica das teorias que tomavam esses dados como substrato. 1985:14). O paradigma da complexidade ao mesmo tempo em que desmistifica o dogmatismo científico. O conceito de objetividade precisa.passa a ser concebido como a possibilidade de explicitar os passos da análise e da interpretação de modo a propiciar o diálogo. do conhecimento e mesmo do critério de verdade/realidade.

mas. Cria-se. também. um elo entre objetividade e intersubjetividade. A objetividade não petrifica ou paralisa o espírito humano. para ser reconhecida.) o elemento primeiro e fundador da verdade e da validade das teorias científicas. portanto. é preciso que a concordância dos resultados seja estabelecida por observadores vários que poderão inclusive ter concepções opostas. É preciso. a cultura. pode ser considerado ao mesmo tempo como o último produto de um consenso sociocultural e histórico da comunidade/sociedade científica” (1985:16). pressupõe-se a existência de uma comunidade científica com regras definidas para que se aceite (ou não) os resultados da observação. 81 . assim. Não se trata necessariamente de regras do jogo da pesquisa. Ou seja. Morin propõe que a objetividade vem da observação. Para que essa comunidade funcione. Não pode ser concebida nem como um a priori. É preciso. aparece como uma espiral dinâmica. A cientificidade. Num interessante esquema das dimensões implicadas na objetividade.. que existam técnicas de observação. ainda. que existam meios para que se efetue a comunicação intersubjetiva. encadeando autoprodução e reconstrução.. a sociedade – mobiliza-os. nem como ponto de partida absoluto. o que nos reenvia a problemas históricos e culturais pertinentes ao contexto mais amplo da ciência. sendo a objetividade ao mesmo tempo o fundamento e a consequência da intersubjetividade. é a parte emersa de um iceberg profundo de não cientificidade.Morin considera que a objetividade. Todos os elementos constitutivos do conhecimento científico – alguns com suas raízes na cultura. A descoberta de que a ciência não é totalmente científica é. na sociedade. a objetividade está perpassada pela dialogia. é preciso. são regras que nos falam das aspirações mais profundas de busca de saber. claro. a pessoa. sendo “(. que necessariamente estão associadas ao estágio tecnológico de uma dada cultura. ou seja. É na entropia gerada pelo consenso-antagonismo-conflitualidade entre concepções e teorias que se configura o caráter objetivo da investigação. de valores e crenças sobre a missão da ciência. que haja uma tradição crítica. uma grande descoberta científica – que ainda não foi realizada pela maior parte dos cientistas. segundo Morin.

portanto. Como atividade-meio. priorizar. momentos distintos entre o levantamento das informações e a interpretação. selecionar são todos decorrências do sentido que atribuímos aos eventos que compõem o nosso percurso de pesquisa. A exemplo dos diálogos travados em tantos outros domínios de nossas vidas. O sentido é. posicionar. É com esse intuito que temos buscado desenvolver técnicas de análise que sejam caminhos de visualização. sem abandonar a objetividade. em nossas pesquisas. como um processo de produção de sentido. concebida como pressuposto básico da intersubjetividade. assim. Não haveria. dessa forma. hipóteses e informações contextuais variadas. A interpretação emerge. assim como a compreensão da dialogia na dupla acepção de elemento básico da produção de sentido no encontro entre entrevistador e a voz do entrevistado (ao vivo ou cristalizada em texto ou imagem).outros no modo de organização das ideias. Coloca-nos necessariamente o problema do conhecimento e somos levados a encarar a relação entre espírito humano. teoria e o que tomamos como real. propomos que o diálogo travado com as informações que elegemos como nossa matéria-prima de pesquisa nos impõe a necessidade de dar sentido: conversar. que o processo de interpretação é concebido. entender esses eventos à luz de categorias. Como atividade-fim. de início. na teoria – obrigam-nos a uma interrogação que excede o quadro da epistemologia clássica. É 82 . O desafio que portanto se coloca é o de. Durante todo o percurso da pesquisa estamos imersos no processo de interpretação. aqui. buscamos. buscar novas informações. explicitamos os sentidos resultantes do processo de interpretação apresentando os resultados da análise por nós realizada. como elemento intrínseco do processo de pesquisa. Estão imbricadas aí a explicitação do processo de interpretação – tomando-o como circular e inacabado –. ressignificá-la como visibilidade. o meio e o fim de nossa tarefa de pesquisa. 3. e do sentido da interpretação no encontro entre pesquisador e seus pares. Visibilidade e interpretação na pesquisa com práticas discursivas Cumpre-nos esclarecer.

e não apenas como atividades-fim com a função de dar visibilidade ao processo de interpretação.nesse momento que as várias técnicas de visibilização que serão apresentadas a seguir se constituem como estratégias para assegurar o rigor 5 – entendido sempre como a objetividade possível no âmbito da intersubjetividade. É desse confronto inicial que emergem nossas categorias de análise. Tendo em vista a centralidade dos repertórios interpretativos na abordagem utilizada para a compreensão da produção de sentido. com mais atenção que nunca. e. igualmente. tratando de surpreender sob as palavras um discurso que seria mais essencial” (1987:14). contudo. falar-nos. 83 . tendo como foco o processo de produção de sentido.. Para fazer aflorar os 5 Embora essas técnicas também façam parte da dinâmica do processo de interpretação. constituindo-se como atividades-meio – elementos importantes da espiral da interpretação –. Mas não são apenas os conteúdos que nos interessam. Como é comum em pesquisas que buscam entender o sentido dos fenômenos sociais. sem encapsular os dados em categorias.6 Mas não apenas os conteúdos verbais. as formas de análise propostas têm buscado trabalhar a dialogia implícita na produção de sentido e o encadeamento das associações de ideias. “(. textos etc. conforme discutido no segundo capítulo desta coletânea. classificações e tematizações apriorísticas não façam parte do processo de análise. Buscamos. analisar o material que temos ao nosso dispor (entrevistas. Como aponta Foucault. tais processos de categorização não são impositivos. 6 Ao fazer esta afirmação temos plena consciência de que não se esgota aí as possibilidades da linguagem. na perspectiva conversacional de análise. a análise inicia-se com uma imersão no conjunto de informações coletadas. a análise tende a privilegiar a linguagem verbal.) os gestos mudos. a partir do século XIX. Há um confronto possível entre sentidos construídos no processo de pesquisa e de interpretação e aqueles decorrentes da familiarização prévia com nosso campo de estudo (nossa revisão bibliográfica) e de nossas teorias de base. procurando deixar aflorar os sentidos. classificações ou tematizações definidas a priori. discussões de grupos. Não que essas categorias. estamos dispostos a escutar toda essa possível linguagem. as enfermidades e todo o tumulto que nos rodeia pode.) a partir dessas categorias. então..

É com essa finalidade que desenvolvemos os mapas de associação de ideias. apenas sendo deslocado para as colunas previamente definidas em função dos objetivos da pesquisa. o uso feito desses conteúdos. A construção dos mapas.sentidos. o próprio processo de análise pode levar à redefinição das categorias. Nesse primeiro momento. de natureza temática. os mapas não são técnicas fechadas. até porque rompe com as formas usuais de análise categorial (como na análise de conteúdo) ou 84 . é simples. também. que refletem os objetivos da pesquisa. Há um processo interativo entre análise dos conteúdos (e consequente disposição destes nas colunas) e elaboração das categorias. A construção dos mapas inicia-se pela definição de categorias gerais. Para a consecução desse objetivo o diálogo é mantido intacto – sem fragmentação –. Constituem instrumentos de visualização que têm duplo objetivo: dar subsídios ao processo de interpretação e facilitar a comunicação dos passos subjacentes ao processo interpretativo. Os mapas de associação de ideias Os mapas têm o objetivo de sistematizar o processo de análise das práticas discursivas em busca dos aspectos formais da construção linguística. 3.1. Busca-se organizar os conteúdos a partir dessas categorias – a exemplo das análises de conteúdo – mas procura-se preservar a sequência das falas (evitando. embora a técnica possa gerar algumas dificuldades. uma vez entendidos seus objetivos. Com o duplo objetivo de dar subsídios para a análise e dar visibilidade aos seus resultados. que refletem sobretudo os objetivos da pesquisa. dos repertórios utilizados nessa construção e da dialogia implícita na produção de sentido. constituem formas de visualização das dimensões teóricas. embora iniciando com categorias teóricas. precisamos entender. gerando uma aproximação paulatina com os sentidos vistos como atividade-fim. dessa forma descontextualizar os conteúdos) e identificar os processos de interanimação dialógica a partir da esquematização visual da entrevista como um todo (ou de trechos selecionados da entrevista). Dessa forma.

A fim de analisar os repertórios utilizados e a produção de sentido.1. Obtém-se. A técnica envolve os seguintes passos:    utiliza-se um processador de dados. frutos das discussões de caso – realizadas pelo coletivo de pesquisadores – e do próprio processo de refinamento contínuo decorrente das demais etapas analíticas. a hipertensão arterial essencial foi escolhida como cenário para o estudo das relações médico-paciente tanto pela prevalência desse agravo à saúde na sociedade moderna. 85 . 1994a) Nesse estudo. tipo Microsoft Word.1. como pela falta de conhecimentos precisos e consensuais sobre sua etiologia. dada a proximidade diferencial com a informação científica.temática (como na análise clínica). como resultado. usa-se as funções cortar e colar para transferir o conteúdo do texto para as colunas. conforme pode ser visualizado nos exemplos a seguir. um efeito escada. Partindo do pressuposto de que as possibilidades de sentido para o médico e para os pacientes seriam diferentes. Os programas de processamento de texto adequam-se melhor às alterações continuadas (de construção de categorias. constrói-se uma tabela com um número de colunas correspondente às categorias a serem utilizadas. respeitando a sequência do diálogo. havia interesse também em entender como as diferentes visões eram negociadas na consulta. 3. Exemplo 1: Os mapas de associações de ideias na pesquisa sobre permanência e diversidade nos sentidos da hipertensão arterial essencial (Spink. e digitase toda a entrevista. as entrevistas realizadas com um médico clínico geral e com quatro pacientes foram gravadas e posteriormente transcritas. O objetivo principal da pesquisa era entender quais os repertórios disponíveis para dar sentido à hipertensão arterial essencial e as possibilidades de ação decorrentes dos sentidos assim produzidos. assim como de disposição de conteúdos nas colunas do mapa).

as drogas. tem 86 .. apesar de não se saber a causa profundamente. Muitas vezes. Existe este tipo de coisa. A Medicina. “Erre o diagnóstico. o tratamento é bem conhecido.Mapa 1. reduzir a pressão com remédio. O que a gente não sabe é dar atenção para a parte do paciente (. Mas é um tratamento que depende da colaboração deles. mas acerte a conduta”. que no fundo o que o paciente precisa é a conduta. porque ele tem que se conscientizar. Tratamento Eu Paciente Investimento afetivo Mas é claro que se a gente pode esclarecê-lo mais ele também vai colaborar nessa conduta Nós sabemos muito tratar. A gente resolve uma parte Mas fica sempre um paciente muito angustiado e ao menor descuido a pressão sobe.) remédio nós temos muitos: às vezes o paciente tá recebendo 3 ou 4 remédios e ninguém conversou com ele sobre o que ele está vivendo. os médicos e a hipertensão arterial essencial A doença Hipertensão Hipertenso Medicina Existe uma coisa interessante na Medicina..

respeitando a ordem da fala original.que tomar uma dieta que não gosta. referências à natureza da hipertensão ou às características biopsicossociais dos portadores de hipertensão. entender o que era hipertensão e que formas de tratamento eram viáveis. resultando daí o uso de seis colunas. referente à entrevista com o médico. sem dar atenção para esse lado. no exemplo aqui apresentado. na visão do médico). 87 . para ilustração. como a hipertensão é tratada (na perspectiva da Medicina. Na nossa área de atuação. não havia. precisa tomar remédios que o fazem sentir muito mal Então é aí que vem a dificuldade A maioria dos médicos trabalha pouco isto Eu procuro trabalhar isto. portanto. com o paciente. um trecho da entrevista em que o médico discorre sobre as formas de tratamento. não há uma boa resolução. nessa pesquisa. Interessava sobretudo. Escolhemos. um pouco porque já senti que. seria o conversar mesmo. Seguindo os passos básicos da construção dos mapas de associação de ideia. Dessa forma. criar um vínculo médicopaciente. três categorias foram utilizadas para análise: o que é hipertensão (para o médico e para o paciente. do médico e do paciente) e o investimento afetivo presente na fala do entrevistado. a fala foi transposta em sua totalidade para as colunas.

Decorre daí o empenho na reflexão sobre a objetividade na pesquisa qualitativa (num primeiro momento) e na abordagem construcionista (num segundo momento). Tendo como objetivo a exploração de técnicas qualitativas para o estudo do câncer. primeiras associações. explicações das associações e os qualificadores.1. “o que tem isso a ver com você?” e “foi sempre assim?”. por nós intitulada de entrevista associativa. Para esta pesquisa. Exemplo 2: Os mapas de associação de ideias na pesquisa sobre os sentidos do câncer da mama para as mulheres (Spink & Gimenes. O exemplo a seguir. desenvolvemos uma técnica específica de entrevista. Dra. utilizamos quatro colunas para a construção dos mapas: o objeto da associação (em cada bloco e sub-bloco). referente ao bloco de associações sobre o corpo. 88 . usamos um roteiro de entrevista que se dividia em blocos temáticos de associação de ideias. Apoio: CNPq. seio. Como a ordem das associações. permite visualizar o procedimento e contrastá-lo com o anterior.2. Gimenes. Buscando entender a relação entre os sentidos de corpo (e seio) e doença (incluindo o câncer de mama) e as estratégias de prevenção. em cada bloco da entrevista. e suas implicações para as estratégias de prevenção. Cada bloco incorporava três p erguntas: “o que vem à sua cabeça quando se fala a palavra (corpo. 7 Pesquisa desenvolvida em colaboração com a Profa. 19947) Essa pesquisa visava investigar de forma retroativa o enfrentamento do diagnóstico de câncer da mama. era para nós importante. assim como entender o sentido dado ao câncer por mulheres que não haviam passado pela experiência de um diagnóstico positivo. a pesquisa gerou um espaço propício para o desenvolvimento de técnicas de análise que pudessem ser acatadas por profissionais da área biomédica. Maria da Gloria G.3. saúde e câncer)?”.

a primeira coluna – objetos – serviu de marcador para a introdução de um novo bloco associativo. seu corpo. aos vários objetos de associação definidos no roteiro. O que isso tem a ver com o seu corpo?”. 8 Os nomes aqui utilizados são fictícios. Em suma. muito perfeitos. portanto. Pense agora no seu corpo. 89 . saúde e câncer) e sub-blocos (por exemplo.. A gente entristece quando perde alguma coisa. eu acho a anatomia muito bonita. ah. a anatomia masculina. a anatomia feminina. seio. muito bonitos mesmo.A primeira coisa que eu queria saber é o que vem à sua cabeça quando eu falo a palavra corpo? E.. Por exemplo: “Você disse que acha a anatomia linda. tem as diferenças. perfeitos. acho linda. Primeiras associações Explicações das associações Qualificadores Considerando que a entrevista associativa subdividia-se em blocos (corpo.Corpo. foi sempre assim).Mapa 2: O corpo para Aparecida (entrevista 28) 8 Objetos L. eu acho os dois muito lindos. estando assim intrinsecamente vinculada às perguntas do entrevistador e às suas sínteses visando encerrar um bloco e passar para outro bloco ou sub-bloco. a primeira coluna foi reservada às perguntas que inauguravam blocos associativos e às sínteses que os encerravam. Ficou restrita.

denominada nesta pesquisa de qualificadores. no processo de análise. Ficou óbvio. como as do entrevistado. foram colocadas as falas que explicitavam a tonalidade afetiva das associações: emoções. assim. É importante assinalar que o mapa do exemplo 2. denominada primeiras associações. é apropriado à análise dos conteúdos referentes à entrevista associativa. utilizar a mesma estratégia analítica. incluímos no roteiro uma segunda parte voltada à experiência passada com doenças. Essa coluna constituiu o principal apoio para a busca dos repertórios disponíveis para falar sobre corpo.. Saímos. que objetiva a visualização das associações relacionadas aos blocos e sub-blocos. Nossa!”. englobou todas as explicações e esclarecimentos sobre o sentido das associações constantes da segunda coluna: englobava. na quarta coluna.. as explicitações do conteúdo das associações. Foram colocadas aí. Finalmente. as figuras de linguagem. Reiteramos que as colunas (nesse exemplo. como nos demais usos feitos dessa técnica) retratam sempre a sequencialidade e dialogia. portanto. Optou-se por assinalar esses trechos usando reticências entre parênteses. seio etc. na pesquisa sobre o câncer de mama. do âmbito das associações para o das narrativas. que as entrevistas são conversas que fluem ao sabor das perguntas. incluindo os pedidos de esclarecimento feitos pelo entrevistador. neste caso. assinalando a temática [por exemplo. Tornou-se difícil.Na segunda coluna. tanto as associações do entrevistador.narrativa sobre a operação de 90 . pois as categorias de análise não se adequavam à forma discursiva. podendo englobar falas do entrevistado e do entrevistador. também. que pudessem servir de subsídio para a compreensão da ruptura cognitiva/emocional que determinadas perguntas e intervenções do entrevistador geravam no entrevistado (e vice-versa). sentimentos e valores. consideradas pelas nossas entrevistadas como vivências particularmente marcantes. assim. (. tal como “Ai meu Deus!. Inadvertidamente. foram colocadas apenas as respostas à pergunta efetuada na primeira coluna. Compreendia. mais densa. A terceira coluna.

entender as singularidades da produção de sentido. ou sequência predeterminada de categorias. “é só isso!”) ou. fundamentalmente. do tipo de pesquisa realizada. com as afirmações conclusivas do entrevistado (por exemplo. temos que a leitura vertical das colunas possibilita a leitura dos repertórios. Em comum. No caso específico da pesquisa sobre câncer da mama a construção das árvores de associação (assim denominadas pelas ramificações geradas por esse procedimento de análise) obedeceu à estrutura da entrevista associativa. presas tanto à história de cada pessoa quanto à dialogia intrínseca do processo de entrevista. É um processo de construção que está intimamente relacionado ao objetivo da investigação e aos repertórios disponíveis. sendo delimitada pelos indicadores de início e término de cada bloco ou sub-bloco. nas colunas do mapa para uma leitura horizontal das mesmas. dessa forma. É quando se visualiza a dialogia e a coconstrução das formas discursivas que se torna possível compreender o processo de interanimação que faz da pesquisa uma prática social. As árvores de associação As árvores de associação constituem mais um recurso para entender como um determinado argumento é construído no afã de produzir sentido num contexto dialógico.. usando linhas simples para o desenrolar das associações dos entrevistados e linhas duplas para as intervenções do entrevistador..)]. assim. Têm como ponto de origem a pergunta do entrevistador e literalmente seguem o fluxo do discurso. com a formulação de uma nova pergunta. 3. Comparando os dois exemplos.útero. Não há número fixo de colunas. O esquema abaixo ilustra esses procedimentos: 91 .2. e analisar o trecho posteriormente utilizando a técnica das linhas narrativas. ainda. fica óbvio que a construção das categorias de análise depende. enquanto a leitura horizontal permite a compreensão da dialogia. Apoia-se. que será discutida posteriormente neste capítulo. Permitem visualizar o fluxo das associações de ideias inaugurado pela pergunta do entrevistador e encerrado com suas sínteses. Possibilitam.

a fala do entrevistador é incluída na árvore de associação.Árvore de associações 1: Bloco corpo da entrevista com Aparecida (E28) Corpo acho a anatomia muito bonita/linda feminina e masculina (lindos/perfeitos/muito bonitos) a gente entristece quando perde alguma coisa Muitas vezes. é necessário muitas vezes abreviar as falas para entender o fluxo de associações.O corpo para Elisa (E05) Corpo? Para ter corpo firme tem que ter mente boa corpo tem várias interpretações não só o externo mas o que me vem de momento é isso [firme?] Ágil Fazer algum esporte Sentir bem [cabeça boa?] quando a mente está boa diminuo ansiedade esteticamente fico melhor quando psicologicamente não estou bem como um monte de chocolate acabo ficando gorda fico com muita ansiedade a mente precisa estar boa para ter o corpo que gostaria de ter o interno também Em entrevistas de cunho mais narrativo. gerada a partir das intervenções do entrevistador. diferenciada pelo uso de linhas duplas. Por exemplo: Árvore 2 . o fluxo de associações resulta de uma coconstrução. como no caso da pesquisa sobre hipertensão arterial essencial. restringindo as árvores à ideia 92 . Nesses casos.

3. O exemplo abaixo formata em árvore o trecho reproduzido no mapa 1. São. Constituem. estratégias potentes de visualização da construção argumentativa.A Medicina e a hipertensão arterial essencial Em suma. em que buscamos entender a construção (ou coconstrução) do argumento. em segundo lugar.3. mais sintéticas e. As linhas narrativas As linhas narrativas são apropriadas para esquematizar os conteúdos das histórias utilizadas como ilustrações e/ou posicionamentos identitários 93 . focalizando apenas sinalizadores considerados fundamentais para a compreensão do processo de construção do argumento. as árvores associativas são estratégias adequadas para a compreensão de determinadas passagens das entrevistas (ou de qualquer outro material discursivo). Árvore 3 . assim.central que está sendo expressa na fala. estratégias analíticas complementares aos mapas. por isso mesmo. por não necessariamente reproduzirem as falas. Diferem dos mapas em dois aspectos: primeiramente por serem utilizadas em passagens específicas do material disponível (e não em sua totalidade) e. portanto.

no contexto de uma entrevista ou texto. Constitui. eles pensou que ia aparecer. tudo. Podia voltar e podia não voltar. cabelo. Sempre que. Podia voltar. foi até particular. mais simples. Sarou completamente? Sarou completamente. falou assim se eu demorasse muito que não tinha nem mais jeito. Decorre daí a necessidade e a riqueza do uso de múltiplas técnicas de análise que se interpenetram e se complementam. Mas não voltou. eu tinha dezessete anos. sem dúvida. Quando eu tive neném. Ela começa coçando tudo. pode-se usar a linha narrativa como recurso analítico. Surgiu de repente? De repente. pele. É um negócio que come toda a pele. visto que busca situar cronologicamente (numa linha horizontal) os eventos marcadores da história contada. então você não aguenta. emergir uma narrativa. é sarda que fala? Acho que é. Acho que foi só esta. eles fizeram vários exames. Por exemplo. uma imposição de linearidade. Exemplo 1: Sarda. 3. Quando foi que aconteceu? Ah. O primeiro. Eu peguei aquilo lá eu não sei como.1. As narrativas estão presentes até mesmo em contextos que não são explicitamente narrativos. Utilizaremos dois exemplos como ilustração.3. Pelo corpo inteiro. sabe.no decorrer da entrevista. São feridas? 94 . quando eu engravidei. Ela comeu a minha pele. as linhas narrativas constituem esforços de compreensão pautados numa perspectiva temporal que nem sempre faz justiça à construção argumentativa. Aí eu tive que ir ao médico correndo. a doença mais marcante para Antonia (E01) Qual foi a doença mais marcante para você? Que eu já tive? É. as respostas às perguntas de um questionário fechado podem ser entendidas como encadeamentos resultantes de posicionamentos identitários decorrentes de uma narrativa subjacente sobre “quem sou eu” na situação de pesquisa. É sarda. Como nem sempre as histórias são contadas de forma linear. Aí ele passou remédio. Foi a mais marcante. Graças a Deus. Autores como Somers (1994) e Murray (1997) destacam que as narrativas constituem uma das formas discursivas mais presentes no cotidiano. Aí não apareceu mais. é proveniente da pesquisa sobre câncer da mama.

não é? Tinha de ser uma coisa particular. Os textos jornalísticos frequentemente apoiam-se em estratégias narrativas. tendo em vista a estrutura narrativa das comunicações do cotidiano. porque fazia pouco que eu cheguei aqui. Tinha dois dias. e só então. Se tinha médico assim particular.Comeu tudo a pele. seja porque essa forma de expressão é de fácil compreensão. para ser rápido. no segundo exemplo – uma matéria de jornal. Que come tudo. respondendo à entrevistadora. A linha narrativa da doença mais marcante para Antonia: peguei com 17 anos | um negócio que come a pele | peguei não sei como aí fui ao médico | ele passou remédio | sarou completamente quando engravidei | eles pensou que ia aparecer | não apareceu. foi o máximo que eu aguentei. Aí voltou tudo ao normal. Podia voltar mas não voltou começa coçando tudo | você não aguenta Essa é uma história contada a dois. publicada por ocasião da morte da princesa Diana – o texto está explicitamente organizado por uma cronologia de eventos. seja porque possibilitam a organização sintética de material complexo. perto da outra que nasceu. se deixar come tudo. tipo. que é de graça. no cabelo. Não deu tempo nem de. Antonia fornece alguns dos elementos espontaneamente e outros em resposta às perguntas da entrevistadora. Descreve primeiramente a doença. até ir ao médico. aí ele passou pomada. no corpo todo. eu não sabia muito bem. vou no Hospital das Clínicas. Até arrumar o médico. sequência de ações e implicações futuras. situa a doença em uma linha histórica: época em que surgiu. Em contraste. caiu minha unha. 95 . Meu corpo ficou todo cheio de mancha branca. para ir correndo. minha pele ficou diferente.

lorde Fermoy. inicialmente. “uma virgem de boa fé”. Diana ia à escola Silfield. Quase sem perceber. comprou um apartamento no b airro de Earl’s Court. Era radiante e. Charles estava sob intensa pressão tanto do público quanto de seus pais para encontrar a futura rainha. e. Sandrigham. para a qual Diana e sua irmã Sarah haviam sido convidadas. em King’s Lynn. do The Independent). Diana sempre se lembraria de uma discussão violenta entre seus pais. Com o dinheiro herdado ao completar 18 anos. todas as condições estavam dadas para uma infância de sonhos. Em 1979. Diana se encaixava perfeitamente. passou a dar aula a pré-escolares. ruiu. 18 meses depois do divórcio dos pais. afável e rapidamente fez novos amigos. seu irmão Charles assumiu como visconde Althorp e ela e suas duas irmãs se tornaram ladies. Para seus pais. quando Diana tinha quase 14 anos. Ela era alegre. 96 . Trecho da matéria publicada na FSP em 01/09/1997 (reprodução de artigo de Rupert Cornwell. seu pai se tornou o oitavo duque Spencer. Segundo o biógrafo Andrew Morton. Com 6 anos. foi um desapontamento: esperavam o nascimento de um filho homem para manter vivo o nome Spencer. fo i mandada para uma escola preparatória. Mas o sonho. Em 1967. O pai conseguiu a custódia dos filhos. Com a morte de seu avô. Para a garotinha. sempre mais aparente que real. a terceira filha do visconde e da viscondessa Althorp. Aos 30 anos. Em 1975.3. nas palavras de seu tio. Sarah é quem seria a pretensa pretendente do príncipe. com o nascimento de seu irmão Charles. Charles foi ficando encantado pela alegre e simples irmã mais nova que estava se tornando uma bela e cativante mulher diante de seus olhos. os Althorp se separaram depois de 14 anos de casamento. Diana se tornou uma peça num caso de divórcio. Em termos escolares não se destacava.2. próximo da corte britânica por mais de quatro séculos – apenas três anos depois. Adquiriu gosto por dançar e uma paixão pelos esportes que iria levar para a vida toda. novas mudanças. O herdeiro do trono britânico encontrou sua futura princesa numa festa em Sandrigham em janeiro daquele ano.3. Exemplo 2: Divórcio selou vitória de Diana Diana Frances Spencer nasceu no final da tarde de 10 de julho de 1961 em Park House. foi um trauma que marcaria sua vida.

apaixonada. bela. em Londres 1980 1981 casamento   tinham pouco em comum: Charles é cerebral/ tradicional. cativante Charles encantado com a irmã mais jovem Diana radiante. pai ficou com custódia 68/69 começa prepschool 1970 1982 nasce William 1997 morte dá aula para pré-escolares depressão pós-parto  Charles conhece sua futura princesa longas separações distúrbios alimentares crises de depressão retomada da relação de Charles e Camilla tentativas de suicídio 97 . impulsiva o fantasma vivo de Camilla o casamento começa a desmoronar 1984 nasce Harry 1985 primeiras notícias da discórdia     1990 1992 sai biografia de Andrew Morton separação era para ela que se voltavam as câmaras simpatia do público ficou do seu lado 1961 EVENTOS nascimento da 3a filha do visconde Althorp 1964 nasce o irmão.“virgem de boa fé” Charles sob pressão para encontrar a futura rainha esplendor  Diana rivalizada Diana Ela Diana vitoriosa CONOTAÇÃO AFETIVA Desapontamento condições dos pais para infância de sonho Diana é “peça” no divórcio dos pais não se destacava academicamente queriam um filho homem trauma que marcaria sua vida gostava de dançar e de esportes Diana tornava-se uma bela e cativante mulher 1975 Visconde vira conde Diana vira lady 1979 compra apto. Charles 1967 separação dos pais.97 Divórcio selou a vitória de Diana: linha narrativa NOMEAÇÃO Diana Diana garotinha Diana afável e alegre Ela Diana: alegre. Diana é expansiva.

Os eventos (nascimento. casamento. daqui para a frente. a nomeação utilizada para referir-se a Diana e a conotação afetiva do discurso. vitoriosa) constitui um importante sinalizador dos repertórios que estão sendo empregados para argumentar a favor da tese que está sendo veiculada: que a morte selou a vitória (e não a derrota) de Diana. anos de escola. as conversas do cotidiano como recurso metodológico na prática de pesquisa (capítulo oito). a mídia como estratégia central de construção e circulação de repertórios na sociedade contemporânea (capítulo nove) e o cinema como processo dialógico de 98 . a função dos próximos capítulos não é exemplificar o uso dessas técnicas de análise. buscamos. as entrevistas entendidas como práticas discursivas (capítulo sete). morte etc. neste capítulo. por si sós. cumprir a dupla tarefa de discutir o conceito de rigor que embasa a pesquisa construcionista e de introduzir algumas técnicas desenvolvidas de forma a dar visibilidade ao processo de interpretação. rivalizada. Em contraste. a conotação afetiva nos informa sobre o processo de escolha dos elementos narrativos e de seu papel na construção da história e do argumento. as bases de dados como exemplos de processos de legitimação da ciência normal (capítulo seis). Entretanto. é abordar a diversidade de formas de coletar informações para dar subsídios à compreensão dos processos de produção de sentido a partir das práticas discursivas. focalizar as diferentes maneiras em que a construção dialógica do sentido se faz presente no cotidiano: os documentos de domínio público como processos sócio-históricos de construção de saberes e fazeres (capítulo cinco). Elegemos. virgem de boa fé. dificilmente deixam aflorar a construção do sentido. Finalmente. Concluindo. O que buscamos fazer. a nomeação utilizada para falar sobre Diana (garotinha. associamos a linha narrativa ao uso de categorias analíticas relacionadas a três elementos de apoio utilizados pelo autor da matéria: os eventos. Entretanto. Algumas dessas estratégias farão parte dos relatos apresentados nos capítulos seguintes desta coletânea. divórcio. assim.Nesse exemplo.) constituem os elementos mais imediatos da construção das linhas narrativas.

99 .interanimação entre imaginação criativa – em sua produção – e apreensão criativa – por parte de quem assiste (capítulo dez).

segue quase sempre regras 100 . Consequentemente. preferindo trabalhar com documentos. Os historiadores se queixam das exageradas tendências à teorização do campo social e os teóricos sociais. registros e anotações produzidos durante o período específico de seus estudos. A investigação nas ciências sociais. incluindo aí a Psicologia Social. por sua vez.CAPÍTULO V ANÁLISE DE DOCUMENTOS DE DOMÍNIO PÚBLICO Peter Spink 1. que se tornam claras ao examinar as pesquisas feitas por uma e por outra disciplina. como será mostrado adiante. por outro lado. mesmo sendo disciplinas vizinhas. os historiadores não necessariamente colecionam datas e eventos e. Na prática. narrativas e outras recordações orais. muitos historiadores ainda suspeitam da utilidade de relatos pessoais. não surpreende descobrir que o mesmo se aplica à confiança sobre as diferentes fontes de dados. e especificamente na Psicologia Social. questionários e discussões de grupo – o mundo das práticas discursivas do aqui e agora? E por que. Psicólogos sociais e historiadores P or que muitos psicólogos sociais ainda tendem a favorecer entrevistas. chamou a atenção para o curioso fato de que. reclamam da excessiva preocupação dos historiadores com fatos. as visões de uma sobre a outra tendem a ser estereotipadas e seu diálogo quase inexistente. estão tão avançados quanto a área social na análise do polissêmico dia a dia. mesmo quando aquelas outras técnicas estão potencialmente disponíveis? Peter Burke (1992a) em seu ensaio sobre a história e a teoria social. Outra dificuldade reside nas diferentes tradições sobre método. datas e acontecimentos. Parte da dificuldade está na falta de conhecimento de um campo sobre o outro.

O resultado. Essa discussão existe. Era óbvio para o scholar tradicional que era preciso ler amplamente e em tantos idiomas quanto possível. Haverá. perdemos. uma preocupação em registrar as fontes. sim. uma fotografia de uma cena de rua ou o diário oficial de um governo são tão presentativos (no sentido de que está presente) quanto uma entrevista ou discussão de grupo. em grande parte. essa aparente mistura de elementos. fontes e meios serve no máximo para ambientar ou contextualizar seu trabalho. mas tende a ocupar seu próprio espaço. 1988:200). Na sua essência. incluídas como capítulo ou seção específica nos relatos. Consequentemente. todos – por existirem num determinado momento – têm uma presença. mas raramente é seu foco. A astúcia individual é aspecto intrínseco da erudição ( scholarship) tradicional. mas haverá pouca referência obrigatória ou reprodução formalizada da discussão sobre o método e sobre o que é história. normalmente. Uma terceira dificuldade na interação com os historiadores decorre do fato de os psicólogos poderem conversar com o foco de seus estudos e os historiadores não (em geral. assim como a habilidade de fazer conexões entre fenômenos aparentemente díspares (Billig. Essa preocupação de explicitar o como não é encontrada no trabalho de um historiador. é um texto elaborado muito mais no estilo daquilo que Michael Billig (1988) distinguiu como traditional scholarship. Um especialista nas ligas de cidades da Idade Média ou na Revolução Francesa não pode ouvir as conversas das 101 . scholarship reflete um respeito pela diversidade de formas a partir das quais os processos sociais se fazem presentes e pela natureza coletiva das tentativas humanas de refletir sobre seu sentido. o hábito da especulação e reflexão sobre elementos diferentes porém potencialmente interligados. Por meio de extensas leituras podia ser adquirido o conhecimento amplo e profundo. porque há também interseções na área de história oral ou na psicologia analítica de Jung). tornando redundante a própria noção da representatividade. um recorte de jornal. Para os psicólogos sociais em geral.metodológicas enunciadas antecipadamente. Nenhum é mais representativo do que o outro.

Todos os seus dados são produzidos pelos diferentes elementos do campo. que pertencem exclusivamente àquele estudo específico. No aqui e agora que representa o foco mais comum da Psicologia Social. Os documentos de domínio público. Os documentos de domínio público refletem duas práticas discursivas: como gênero de circulação. enquanto linguagem em ação. as pessoas sempre estão em tempo [para usar a definição de História de Marc Bloch (1954/1992) –. 1979. por que não dizer. em relação àquilo que está impresso em suas páginas. porque não há outra maneira de acessar os focos de seus estudos. aliada à valorização da entrevista como parte da identidade dos psicólogos. quando não sectárias. As exigências disciplinares. sua intersubjetividade é produto da interação com um 102 . de discussão e de opção por determinados métodos e.pessoas na rua e muito menos organizar um grupo focal sobre o feudalismo ou entrevistar diferentes atores sociais sobre a propriedade das terras e o direito de associação. P. como artefatos do sentido de tornar público. a facilidade analítica de reduzir o campo somente aos dados ativa e explicitamente coletados – assim podendo ignorar o aparente caos e falta de conectividade entre os múltiplos elementos presentes – também têm seu papel. enquanto registros. os dados continuam ocorrendo naturalmente. Mas essas fontes são frequentemente ignoradas ou relegadas a um segundo plano. O resultado é um processo de laboratorialização simbólica que leva os psicólogos sociais a fugir do barulho denso e assincrônico do cotidiano enquanto lugar de estruturação constante (Giddens. são documentos tornados públicos. completam e competem com a narrativa e a memória. sem dúvida contribui. Esquecem que as práticas discursivas. conversar e buscar dados novos. e no seu tempo. complementam. Consequentemente. 1996). estão presentes de forma ubíqua tanto nas imagens e artefatos quanto nas palavras. A tentação criada pela possibilidade de poder falar. a ciência de pessoas em tempo]. São produtos em tempo e componentes significativos do cotidiano. os historiadores tiveram que se especializar em trabalhar a partir daquilo que acham. recentes ou originais. Spink. e como conteúdo. afinal. independentemente de língua ou forma.

a identificação de regularidades linguísticas nos processos de formação e ressignificação discursiva e a polissemia como fenômeno que permite a representação simultânea de ideias diferentes. em tempo. o tempo vivido e o tempo curto –. em constante formação. Foi Fernand Braudel quem fez da discussão de tempo uma parte central de sua argumentação. São dimensões que se intercruzam num ponto que é produto e produtor social. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Jurgen (1984). São documentos que estão à disposição. para poder trabalhar as práticas discursivas enquanto multiplicidade de fontes de posicionamento em tempos diferentes – o tempo longo.outro desconhecido. São públicos porque não são privados. Sua presença reflete o adensamento e ressignificação do tornar-se público e do manter-se privado. 103 . É fato que 1066 e 1500 existiram. Braudel foi um crítico severo da história tradicional dos acontecimentos políticos que chamou de história dos eventos (événementielle). Porque. essa é também uma postura assumida por historiadores. como também os eventos a 1 Habermas. de rejeitar a noção simples de tempo como algo que avança a cada sessenta segundos. de saberes e fazeres. 1 2. Aprendendo com os historiadores Central à concepção de práticas discursivas é o reconhecimento dos enunciados construídos intersubjetivamente. A necessidade. oferece a possibilidade de reiniciar o diálogo com a história. para os quais a simples sequência de eventos é de pouco relevância. processo que tem como seu foco recente a própria construção social do espaço público. Mudança Estrutural da Esfera Pública: investigações enquanto uma categoria da sociedade burguesa. em oposição ao imaginário disciplinar. Ele a considerou superficial e potencialmente relevante só na medida em que refletia outras forças e processos subjacentes. porém significativo e frequentemente coletivo. apontada por Mary Jane Spink (1993a). simultaneamente traços de ação social e a própria ação social.

dos acontecimentos.. ele traz esse enfoque para a temática do inconsciente. por si sós. 2 Todorov. como por exemplo os swinging sixties). 1989). Quanto à história. Os homens tiveram sempre a impressão. do “microtempo”. os tempos dos sistemas econômicos. oferecendo uma clara ponte com a Psicologia Social: “Os homens fazem a história. como por exemplo a Revolução Francesa.).eles associados. a tendência social de organizar assuntos em décadas. o que se nos volta a pôr com um nome novo. em si. Todos nós temos a sensação.. de uma história de massa. De fato é. Num dos seus ensaios. (1982). ora da redefinição ocidental do outro. Ainda não há muito. das sociedades. dos Estados. para além de nossa própria vida. na verdade. todo o problema do tempo breve. mas ignoram que a fazem”. a linguística acreditava poder deduzir tudo das palavras. vivendo no seu tempo. São Paulo: Martins Fontes.2 ainda em disputa. 104 . concluído no século XVII. uma vez mais. e os tempos dos episódios.). T..1989: 23-24). mas fáceis de perceber que as suas leis ou a sua duração (Braudel. das formas de pensamento. publicado em 1958. mas não resolve o problema. A fórmula de Marx esclarece de certo modo. de captar dia a dia o seu desenvolvimento (. entretanto.. A Conquista da América: a questão do outro. são somente parte dos processos ora de criação gradativa do Estado na Europa. parte da longa historia ocidental da liberdade (Braudel. Ele chamou a atenção em toda a sua obra para a importância de se compreender outros tempos: os tempos das civilizações e a relação dos seres humanos com seu ambiente. que não é somente um acontecimento de 1789. forjou a ilusão de que tudo podia ser deduzido dos acontecimentos (. mas um período ou fase mais longo de reconfiguração que é. Também Braudel demonstrava pouco entusiasmo com as versões agregadas da história em que o tempo é visto como estando convenientemente organizado em décadas. ou até séculos (interessaria sim. em que o movimento da história é lento. cujo poder e cujo impulso são.

mais interessante talvez sejam as decisões menos lembradas: as de número 88 (15 de maio de 1829). Diariamente. Boa parte das pessoas que nascem dentro da esfera de influência – ou hegemonia – da cultura ocidental judaico-cristã vê a história como algo óbvio e que faz parte do dia a dia. não é um tratado lógico-dedutivo. para usar o termo de Harold Garfinkel (1967). gostamos de histórias e nossa visão de mundo é histórica. séculos. De fato. 3 Reitoria da Universidade de São Paulo (1953). também. que criou dois centros de ciências jurídicas e sociais – um na cidade de São Paulo e outro em Olinda. Entretanto. em 1952. um elemento de nossa etnometodologia. data que continua sendo lembrada pelo hábito de pendurar contas em comemoração. descobrimentos e termos como tradicional. ao contrário é uma coletânea de narrativas. 105 .Os psicólogos são. e talvez seja de sua socialização como pessoas que vem a maior dificuldade na interação com os historiadores. São Paulo: Universidade de São Paulo.3 Iniciando pela criação provisória de um curso jurídico na Corte. as crianças continuam dormindo aos sons de era uma vez… Infelizmente essa etno versão sobre o que é a História deixa muito a desejar como guia prático para um estudo mais rigoroso que frequentemente precisa começar pela desfamiliarização das narrativas existentes. sabemos contar histórias. antes de mais nada. a Universidade de São Paulo publicou uma revisão de toda a legislação federal sobre o ensino superior dos anos 1825-1952. O quarto item nesse compêndio é a Lei Imperial de Dom Pedro I. que continua sendo um referencial importante para os nossos valores e práticas sociais. segue pelos registros de cirurgiões formados nas escolas de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia até o reconhecimento dos cursos de Juiz de Fora e o Instituto La-Fayette. 112 (27 de junho de 1829) e 135 (6 de agosto de 1829). de 11 de agosto de 1827. Podemos usar como ilustração um exemplo retirado do âmbito universitário brasileiro. Algo que todo mundo sabe fazer e nasce fazendo. Legislação Federal do Ensino Superior 1825-1952. Décadas. clássico e origem se tornam menos confiáveis do que imaginamos. Em 1955. A Bíblia. taken for granted. pessoas.

enquanto evento. tais registros seriam suficientes para um alerta em contrário. influenciadas pelo conteúdo das tais representações teatrais. São Paulo: Editora Brasiliense 106 .seguidas pela decisão 229 (5 de agosto de 1831). (1988). Isso levaria sem dúvida a uma outra linha de investigação sobre por que no Brasil se inicia um processo diferente das demais experiências universitárias. indiferentes à falta de frequência e aprovações iméritas de seus discípulos. Para o pesquisador da área social. São produtos da discussão e argumentação entre atores organizacionais e institucionais diferentes sobre a temática de controle e. em sequência: a proibição de que os estudantes dos cursos jurídicos façam representações nos teatros públicos (e mesmo particulares) em tempo letivo. Essas Decisões dificilmente podem ser explicadas unicamente pelo conhecido autoritarismo de Dom Pedro I. em que. lembremos como era a universidade na Idade Média. a explicação do aviso sobre representações teatrais. Os Intelectuais na Idade Média. com scholarship. Nessas se encontram as seguintes instruções. seu sentido permanece um mistério. incluindo aí o papel dos exames e das teses. a determinação de que sejam apontados os estudantes dos cursos jurídicos que se retirarem das aulas sem a licença do lente. 4 Le Goff. será difícil aceitar a sugestão de que a História é algo mais do que aquilo que todos sabem fazer. sem dúvida. Entretanto. Pelo menos as autoridades foram salvas de uma possível retaliação: somente 150 anos mais tarde os bonecos gigantes apareceriam no carnaval de Olinda. em muitos casos. acostumado a buscar ou consultar um livro básico sobre método ou metodologia.4 prestando atenção à sua gradativa construção como instituição. a não ser que. J. Para aqueles que imaginam que a presença obrigatória em aula é parte do entulho autoritário do regime militar ou até algo que sempre fez parte da vida universitária. A visão da Psicologia Social da História enquanto contexto ou raízes cria uma versão distorcida desta como algo que se preocupa com acontecimentos que não mais existem: um território que cuida do passado e termina onde o presente começa. a presença em aula continua sendo opcional. e a decisão sobre a incúria e desleixo de alguns lentes do Curso Jurídico de São Paulo.

A Inglaterra também produziu novas concepções sobre a história dos processos sociais. Thompson vão buscar nos relatos e registros locais a compreensão da cultura popular em seu confronto com o status quo. ou o cuidado com que autores como E. muitos elementos e vozes vão se entrelaçando de formas diferentes. Para esses autores a História não é a busca de uma causalidade simples. da qual eu fazia parte. a história de cima para baixo (history from above).Felizmente para os psicólogos sociais. elaborou um trabalho retrospectivo sobre as experiências inglesas de autogestão na organização de trabalho na extração de carvão no período pós-guerra (1951-1955) que resultaram na elaboração 5 Thompson. entre outros (ver Burke. algumas das mesmas questões que geraram na Psicologia uma apreciação das práticas discursivas como processos de produção de sentido também produziram. ao contrário. Os conselhos da arquivista Em 1977. embora mais cedo. 3. P. 6 Corbin. 1992b). Ao ver autores como Bloch (1954) e Eric Hobsbawm (1997) discutindo o que fazem.5 ou como Alain Corbin 6 identifica os múltiplos elementos. a chamada história de baixo para cima (history from below) em contrapartida à história de eventos ditos importantes. London: Penguin 107 . das Letras). uma reflexão sobre formas de pensamento ( mentalité) na história. Busca-se a compreensão desses processos humanos às vezes só reconhecíveis em períodos compridos. E. e busca-se também formas em que isso pode ser relatado (ver Burke. New York: The New Press (traduzido pela Cia. P. Customs in Common: studies in traditional popular culture. uma equipe de pesquisa do Tavistock Institute de Londres. A não produz B. que ao longo do século XVIII contribuíram para inverter as imagens e usos do mar. conexos e desconexos. especialmente na França e na chamada Escola dos Anais – uma referência à revista Anais de História Econômica e Social fundada em 1929 por Marc Bloch e Lucien Febvre. (1993). 1990). (1995). The Lure of the Sea: the discovery of the seaside: 1750-1840. A. temos uma compreensão melhor do que implica o scholarship ao qual Billig se referiu.

no norte da Inglaterra. Os mineiros aposentados que haviam participado da criação do método chamado de composto (composite) não lembravam muito de outras experiências. especialmente as perguntas que vocês. a NCB guardava todo o material produzido. A. E. tinha virado uma paisagem de pequenos vilarejos. muitas das 130 minas que existiam na área de Durham – incluindo a de Chopwell – já haviam sido fechadas. Higgin. chaminés e torres de elevação. mas conforme eles mesmo mencionaram. investigadores. 108 . estudos e registros. por ser uma tecno-burocracia pública com uma ética de responsabilidade. (1963). e estando os campos de carvão espalhados pelo país inteiro. Por outro lado. foram experiências isoladas ou se ideias similares tinham sido adotadas em outras partes da mesma região ou em outras regiões. G. Só que a arquivista alertava: O grande problema com arquivos é que eles nunca são organizados para responder a perguntas que queremos fazer. a vida na época centrava-se muito na vila. em negociação com a gerência local da Companhia Estatal de Carvão (National Coal Board.. Sendo o carvão – especialmente no período pós-guerra – uma parte fundamental da estratégia energética do país. tais como relatórios. No início da pesquisa. fizemos uma visita à arquivista chefe da NCB para aprender a forma como os arquivos da companhia haviam sido organizados e pedir acesso aos mesmos para fins de pesquisa. mais tarde querem elaborar.. Ao contrário.da teoria sociotécnica de escolha organizacional. são organizados de acordo com os usos que os depositários querem fazer deles. H. NCB). Murray. rodovias e carros. de guardar material que não precisam mas que 7 Trist. com um transporte público precário. e uma parte importante da organização sindical e das negociações eram também locais. London: Tavistock. & Pollock. O que era antes uma paisagem de fumaça de carvão. morros verdes. não foi surpresa descobrir que a organização dos arquivos havia também sido regionalizada. Em 1977. Organizational Choice.7 Parte do estudo envolvia a tentativa de descobrir se as inovações desenvolvidas pelos mineiros da mina do vilarejo de Chopwell.

Palavras como composite ou all-in eram possíveis indicações de métodos de trabalho semiautônomo e de formas de dividir igualmente os resultados salariais. É um trabalho de detetive. após esse início promissor. Não serão as categorias ligadas aos conceitos que vocês usam. Já tínhamos como ponto de partida os livros de registro de negociações anuais produzidos pela associação sindical da área de Durham. administração regional. vocês vão ter que indagar aonde podem estar as informações úteis para seu estudo. Os registros não precisavam ser detalhados e era impossível saber por quanto tempo um acordo havia sido efetivo. não conseguimos avançar. mas achava que os outros talvez ainda existissem no depósito do sindicato do condado. Infelizmente. mas os dados eram esporádicos e tivemos pouca confiança na nossa análise. Com o fechamento da mina. a organização local do sindicato havia sido desativada. conseguimos localizar boa parte dos volumes anuais. e sempre por ano e mês. Chegamos à conclusão de que ou éramos péssimos detetives ou não havia nada para descobrir. Os livros registravam os acordos assinados e. se necessário: por departamento. às vezes. incluíam menção ao tipo e método de extração. Entretanto. Mas era um início e. Seu último secretário tinha guardado alguns documentos numa caixa de papelão que nos mostrou durante uma das entrevistas.pertence à NCB. outros formatos organizacionais e por ano. organizado por subárea geográfica. A ideia parecia interessante. entre o depósito – literalmente – do sindicato e o arquivo regional. por prédio. do tamanho de seis campos de vôlei. entretanto rapidamente assumiu suas devidas proporções. o livro anual era somente um guia geral e refletia apenas as informações enviadas para registro. que emergiram da visita feita ao vilarejo de Chopwell. departamento. As categorias que eles usaram são as que eles precisam para depois retirar. Os resultados apontavam para alguma presença de auto gestão no condado por volta desse período (1951-1955). Ele possuía somente três volumes. raramente por assunto. por área. quando entramos no grande galpão do arquivo regional do nordeste do país. Quase no último dia de trabalho na região e com todas as 109 . mina.

Os contratos eram agrupados em quatro tipos distintos: (a) individual. O grito de felicidade com o qual chamei os colegas foi acompanhado pelo reconhecimento da importância da sorte na educação dos pesquisadores. Dentro de uma caixa intitulada diversos. que foi um período importante no processo de mecanização. que isso variava por região do país. no final. (b) por seção (pequenos grupos fazendo a mesma tarefa). Parei numa mina que não nos interessava. decidimos passar uma última vez nos arquivos e por alguma razão – talvez o cansaço – desisti das minhas buscas organizadas e perambulei pelos corredores de três metros de altura de documentos organizados por departamento e data. Finalmente podíamos ter uma visão melhor da presença de métodos semiautônomos na indústria. deixando simplesmente os olhos correrem por onde quisessem. Não foi tão fácil assim. estava uma cópia de um questionário anexado a uma carta informando sobre o estudo salarial anual de 1956 e alertando para o aumento de perguntas feitas naquele ano devido à necessidade de estudar a estrutura salarial para a indústria como um todo. porque muitos dos dados originais – os questionários de cada mina – tinham sido perdidos ou não depositados. mas. e fui folhear os documentos guardados por volta da época do estudo original. fechada há muito tempo. Este último vinha acompanhado por uma descrição clara e sucinta do que significava esse contrato: um agrupamento de pessoas com múltiplas habilidades.entrevistas feitas. (c) all-in (ou distribuição igual de tarefas entre os membros da equipe). Junto com os nomes dos cargos. mais importante. pudemos determinar que algo em torno de 6% das frentes de carvão tinham um grau significativo de auto-organização e. Agora era só uma questão de seguir os traços do estudo salarial anual de 1956. com compartilhamento total de ganhos salariais. arquivo por arquivo. e (d) composite. indo atrás dos resultados. valor e todos os demais elementos de uma pesquisa salarial. A importância desses dados cresce quando se lembra 110 . Abri o questionário e lá no meio das questões descobri as perguntas que eu não tinha sabido fazer. havia uma referência ao tipo de contrato. refletindo tradições anteriores de organização e práticas de negociação. pelo menos em 1956. dos relatórios regionais e dos relatórios finais no arquivo central. auto gerenciado.

O final dessa história. Report to the Social Science Research Council... tanto a referência salarial do método composite quanto o mineiro composto desapareceram.que os agrupamentos auto-organizados do método composite foram formados por cerca de quarenta a sessenta pessoas.700 diferentes tipos de trabalho ou nomes para diferentes tipos de trabalho (. Os psicólogos sociais não são historiadores nem arquivistas. temos mais de 15 nomes para o collier [mineiro de face]. 1969) – three follow up studies. Viraram a categoria de mineiro F1. P. quanto a discussão sobre o olhar e analisar.). Ao ser firmada a revisão da estrutura de cargos para a indústria. Métodos e fontes Os arquivistas e os historiadores – os guardadores de dados pelo tempo e os analistas de dados em tempo –. 1955. o seu secretário reclamou: Temos 1. London: Tavistock Institute of Human Relations.. 8 Murray. em 1952. não é feliz – especialmente para aqueles que lutam por melhores condições de trabalho e para o reconhecimento da competência e capacidade organizativa dos trabalhadores.. com salário individual. ambos apontam caminhos para a busca e a interpretação.. a composite worker (. Todos estes são nomes para o mesmo trabalho. (1979).) temos que dividi-los de acordo com uma nomenclatura e reduzi-los para cerca de 300. junto com uma nova estrutura salarial. a collier (. & Spink.) a filler (.) a stripper. H.8 4. entretanto. doc 2T 204. mas podem aprender com ambos tanto a variedade de maneiras de acessar o sentido em produção. A pergunta sobre os saberes e fazeres refletidos nas palavras locais não foi feita – o momento foi de consolidação nacional.. 111 . Por exemplo. No congresso anual do NUM. Socio-Technical Systems in Mining (1951. Descobrimos que o estudo anual também havia sido usado para apoiar as negociações entre a NCB e o sindicato nacional dos mineiros (NUM) para simplificar os nomes dados aos cargos de trabalho na indústria...

em 1935 (1979). guardado ou deixado pela passagem do cotidiano. pelos agrupamentos e coletivos que dão forma ao informal. Os documentos de domínio público são produtos sociais tornados públicos. Podem refletir as transformações lentas em posições e posturas institucionais assumidas pelos aparelhos simbólicos que permeiam o dia a dia ou. permitindo acesso às coalizões de pensamento e diálogo que Ludwik Fleck denominou. A escolha de material pode ser feita a partir de uma análise inicial do campo. como por exemplo no uso feito por Mary 112 . manuais de instrução e relatórios anuais são algumas das possibilidades. refletindo o ir e vir de versões circulantes assumidas ou advogadas. jornais e revistas. na expressão dos etnometodologos. a valorização daquilo que é produzido no fazer do cotidiano. a abertura aos possíveis sentidos ou caminhos do material coletado e os debates sobre textos. Para os grupos profissionais.Versões mais densas e assimétricas de tempo. ao parar de assumi-lo como dado – ou. diários oficiais e registros. de coletivos de pensamento – denkkollektiv – a partir de sua análise sociocultural da construção da sífilis. A desfamiliarização do dia a dia se inicia dessa forma. começamos a nos tornar conscientes do universo de possibilidades que existem e da densidade e variedade dos elementos presentes na produção de sentido. anúncios. taken for granted – e começar a registrar seus elementos e artefatos. Arquivos diversos. Se há um primeiro passo. publicidade. Eticamente estão abertos para análise por pertencerem ao espaço público. ou seja: parar de pensar sobre o que nos interessa e prestar atenção ao que é criado. por terem sido tornados públicos de uma forma que permite a responsabilização. os documentos de domínio público assumem formas diferentes. o mundo das publicações é igualmente rico. Feita essa inversão. o problema maior é aprender a ouvir. situados simultaneamente no institucional e no dia a dia. Enquanto práticas discursivas. Tudo tem algo a contar. narrativas tomadas como discurso e a representação histórica influenciada por Hayden White (1987) estão entre os procedimentos que podem ser aprofundados. no âmbito das redes sociais. talvez seja aquele ao qual a arquivista se referia.

os pesquisadores no campo da produção de sentido aprendem a ser catadores permanentes de materiais possivelmente pertinentes. dicionários dos séculos passados. Palavras e Instituições durante a Revolução Francesa: o caso do ensino científico e técnico “revolucionário”. quando disponíveis. 5.9 Nos primeiros anos do ensino de Psicologia aprendemos que não se deve procurar as definições nos dicionários – nem mesmo nos dicionários científicos. Um bom dicionário não vai resolver as questões do pesquisador – mas pode ajudar a criar questões. O acaso é um elemento importante e nunca deve ser descartado. Burke & R. no Oxford Dictionary e suas raízes nos relatos honestos sobre contas e eventos. por exemplo. são fascinantes fontes de reflexão sobre a produção de sentido. Por exemplo. o seu derivado revolucionário tem uma origem mais clara: 1789 e os comitês e tribunais revolucionários da Revolução Francesa. Dicionários. A presença muito discutida do termo accountability em concepções da democracia anglo-saxã só começa a fazer sentido quando se percebe o número de páginas que ocupa. debatida nas revistas apropriadas e nos livros autorizados. (1996). a definição de algo é uma decisão científica. sobre os saberes e fazeres. São Paulo: Editora da UNESP. O que um entende por representação e o que o outro entende por versão é uma questão de precisão teórica. In P.).Jane Spink (1994a) do JAMA e da Lancet em seu estudo sobre a hipertensão. Aqui também há muito a ser desaprendido. J. 113 . História Social da Linguagem. mesmo que o termo revolução já tivesse sido usado por Copérnico (a revolução das orbes celestes) e entrado no discurso político. Porter (orgs. Afinal. especialmente aqueles elaborados com princípios etimológicos e. As palavras. ou pode emergir de forma mais aleatória a partir daquilo que se apresenta. 9 Langins. na busca de compreender as sutis transformações nos termos e expressões que formam este ou aquele terreno de sentidos. os dicionários e os jornais diários Às vezes são as palavras que levam os pesquisadores aos documentos de domínio público.

Dissertação de mestrado. PUC-SP. para pessoas. São Paulo: EDUC 114 . de Chico Rei. E. como parte de uma pesquisa sobre as noções de grupo usadas por intervencionistas em dinâmica de grupo. parte do pano de fundo do dia a dia. Junto com os dicionários. pode ser feita para uma palavra recém-chegada ao espaço público: empregabilidade. No Diário de Pernambuco de 9 de agosto de 1950 lemos: “Sofreu o popular violenta agressão”. E.. Em 8 de maio de 1968. 11 Spink. o mesmo Diário de Pernambuco comenta a fuga de um louco varrido de um hospital. entretanto. 2 de dezembro de 1995). em 1995. S. Que nome. ao inverso. Mutirão. lemos o seguinte: “milhares de pessoas nas vias centrais dão um aspecto invulgar de movimentação à cidade – centenas de populares amanheceram nas praças e jardins para assistir a ‘alvorada solene’ e demais festividades promovidas pela Associação das Emissoras de São Paulo”. preso depois por populares. sua descendência é tupi: moti’rõ. A. Empregabilidade. mais de trezentas palavras referentes à forma de ação coletiva. muito usado na área urbana para trabalho coletivo. povo e povão? Pergunta similar. J.). Empregabilidade e Educação: novos caminhos no mundo de trabalho. comemorando o 9 de Julho de 1954.11 10 Renteria Perez. cinco mil pessoas eram esperadas para assistir ao espetáculo Maracatu. O que significa a transição de popular. In Casali. sob o título “Festeja o povo nas ruas a epopeia de 32”. em destaque na primeira página. Grupos e Intervenções Grupais: relações e implicações na perspectiva de profissionais que trabalham com grupos. ou as massas cujas ações levaram Gustave Le Bon a iniciar uma das primeiras reflexões sociopsicológicas sobre o coletivo em 1895 ( Psychologie des foules). o crowd. no Parque da Independência em São Paulo (Diário Popular. P. (1997). vem do uso anterior para o auxílio que os lavradores prestam uns aos outros. por exemplo. I. (1997). Entretanto. Teixeira. (orgs. os grandes jornais diários são ótima vitrines para as idas e vindas dos sentidos. Rios. enquanto nome de pessoa incógnita. por exemplo.Erico Renteria10 levantou.. & Cortella M. é dado às pessoas que povoam o dia a dia: o proletariado de Marx. e no Diário de São Paulo.

Independentemente dos elementos de preconceito. No dia 15 de junho a revista Veja saiu com uma matéria de capa intitulada “Por que o partido de Lula brilha e assusta”. a questão da relação candidato-partido e candidato-partido-aliança remete a uma discussão mais ampla. (1989). alterações nas práticas discursivas. aqui. e às vezes não tão sutis. a significação e ressignificação de partido e pessoa emergiu tanto nos artigos escritos por protagonistas quanto por jornalistas. o candidato do PT tinha 41% das intenções de voto contra 19% de seu principal rival do PSDB. não precisa ser medido em anos ou partes de um século. em terceiro lugar. às vezes. Lula e. As eleições presidenciais brasileiras de 1994 foram essencialmente uma disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva do PT e Fernando Henrique Cardoso do PSDB. Dilemas da Consolidação da Democracia.12 Acompanhando o processo eleitoral num dos jornais diários brasileiros que faz da precisão e da responsabilidade um de seus elementos de identidade (a Folha de São Paulo). No início de agosto. A. sobre a consolidação democrática e a temática de transições. Um dos temas presentes no espaço público foi a questão de partido. econômicos e sociais as sutis. com uma leve vantagem para o candidato do PSDB. Como e Onde se Bloqueiam as Transições para a Democracia? In Moises & Albuquerque (orgs. os críticos da candidatura de Lula regularmente produziram textos com uma densidade alta de uso das palavras PT. alguns dos próprios defensores do candidato do PT 12 Przeworski. Em meados de junho daquele ano. o que permite aos pesquisadores voltarem a eles de forma mais ordenada. buscando compreender nas entrelinhas dos movimentos políticos. Nesse período também. seguir o cronômetro interno das ações (seus horizontes próprios) pode ser uma fonte de questões e reflexões. Luiz Inácio Lula da Silva era referido desde o início como Lula. São Paulo: Editora Paz e Terra. enquanto Fernando Henrique Cardoso era referido como Fernando Henrique Cardoso. Tempo.Os grandes jornais diários tendem a guardar suas edições durante anos. 115 . que serviu de foco para uma série de comentários sobre a qualidade da pessoa versus a dominação do partido. que estarão sempre presentes num confronto de classes e que são parte intrínseca de toda eleição.). militância.

produziram textos em que havia muito mais menção às ideias e às qualidades de Luiz Inácio Lula da Silva enquanto pessoa do que à sua plataforma partidária. As reportagens da equipe própria da redação da Folha sempre mantiveram, durante grande parte do processo, e para todos os candidatos, a disciplina do nome completo seguido pela sigla partidária. No final de agosto e início de setembro, o candidato do PSDB era cada vez mais citado como FHC, e as palavras mais comuns nos textos de comentaristas de todas as inclinações eram PT – Lula e Fernando Henrique Cardoso – programa FHC. Parecia que as iniciais FHC acabavam por criar seu próprio símbolo partidário – escondendo os inúmeros interesses já presentes em sua coalizão. Ao comentar a pesquisa Datafolha do dia 10 de setembro, com resultados de 45% contra 23%, a Folha abre uma manchete com as palavras Vantagem de FHC se estabiliza. Nas páginas internas, (Caderno Especial, Super eleição, p.4), ao discutir os resultados, o comentarista disse:
As regiões Nordeste e Sul, que foram, até o final de julho, os principais motores da liderança da candidatura Luiz Inácio Lula da Silva, agora ajudam o seu principal adversário, Fernando Henrique Cardoso, a consolidar a vantagem sobre o petista.

No restante do texto, de vinte centímetros ou meia coluna, FHC é mencionado sete vezes, Lula, seis, e em nenhum momento o primeiro é chamado de peessedebista. Esses recortes não devem ser entendidos como críticas ao jornal; pelo contrário, demonstram que, mesmo em situações em que há uma forte ênfase no estilo, o sentido se produz nas entrelinhas das práticas discursivas. A nossa transição democrática continua, de certa forma, bloqueada. Trabalhar com jornais, ou outro tipo de mídia estabelecida, requer o reconhecimento das regras a partir das quais os textos são gerados. Requer também a disposição de ler e acompanhar aquilo que é escrito dia após dia. Às vezes é possível identificar uma coluna regular ou uma parte do jornal que seja mais pertinente ao tópico em estudo, mas mesmo assim é necessário ampliar o olhar para ver o texto mais amplo dentro do qual o texto específico está sendo produzido. Essa atenção às dimensões do texto é
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característica dos analistas de discurso, como Norman Fairclough (1995), que se agregam em volta da revista Discourse and Society, editada por Teun A. van Dijk (1997). Os textos utilizados nos artigos são sempre apresentados em trechos amplos e nunca fragmentados; não é a frase que é importante, mas o discurso do qual faz parte. Por exemplo, Fairclough,13 usou anúncios de programas e cursos universitários, e também anúncios para postos de professor em várias universidades inglesas, para discutir o que chamou de mercantilização do discurso público. Dorte Salskov-Iversen14 usou os documentos oficiais de dois municípios ingleses para continuar essa reflexão na interseção do discurso gerencial com o da cidadania no contexto local. John Flowerdew demonstrou como os discursos e documentos públicos do último governador da colônia britânica de Hong Kong poderiam servir para uma reflexão sobre o discurso da retirada colonial, dando destaque ao papel da produção de elementos míticos.15 A mudança radical que representou na Grã-Bretanha o governo de Margareth Thatcher também estimulou um grande número de estudos e o trabalho de Louise Phillips,16 que utilizou textos oficiais dos partidos políticos britânicos, material de jornal e falas de partidários, apontando para a centralidade da escolha (choice) na construção da retórica thatcheriana. Da revista Text, da qual saiu a revista Discourse and Society, vale a pena citar, entre outras, uma referência ao trabalho de Gino Eelen, analisando documentos das Nações Unidas em relação à temática da autoridade durante a crise do Congo em 1960,17 e ao de Barbie Zelizer18 sobre
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Fairclough, N. (1993). Critical Discourse Analysis and the Marketization of Public Discourse: the universities. Discourse and Society 4, 2, 133-168. 14 Salskov-Iversen, D. (1997). A Discursive Perspective on British Local Government’s Response to Change: a tale of two cities. Discourse and Society 8, 3, 391-415. 15 Flowerdew, J (1997) The Discourse of Colonial Withdrawl: a case study in the creation of mythic discourse. Discourse and Society 8, 4, 453-477. 16 Phillips, L.(1996). Rhetoric and the Spread of the Discourse of Thatcherism. Discourse and Society 7, 2, 209-241. 17 Eelen, G. (1993). Authority in International Political Discourse: a pragmatic analysis of United Nations documents on the Congo crisis (1960). Text 13, 1, 29-63. 18 Zelizer, B. (1989). “Saying” as Collective Practice: quoting and differential address in the news. Text 9, 4, 369-388.

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as práticas de citação utilizadas por jornalistas em diferentes mídias. Como ela aponta, em observação que tem ramificações bem maiores: “as práticas de citação são os cartões de crédito do discurso público contemporâneo; emprestam crédito a quem fala e as utiliza em seus recados” (p. 369). 6. Bricolage Às vezes não é um documento ou uma série específica de documentos que importa, mas a presença ubíqua de uma temática em documentos distintos que serve como sinal para a desfamiliarização inicial. Quatro pequenos exemplos podem ser utilizados para demonstrar essa abordagem que junta o olhar do catador com o bricoleur de Lévi-Strauss. As relações de raça e de gênero continuam sendo campos bastante pantanosos no cotidiano brasileiro; as tentativas de abordar a questão são frequentemente rejeitadas como exageradas – em muitos casos nem sequer se admite que há algo a discutir. Nos últimos quatro anos coletamos alguns exemplos de documentos de domínio público que demonstram o outro lado do taken for granted da nossa cordialidade. Primeiro, de Santarém, veio um anúncio público ou outdoor (também documento) com o título de “Mutirão da Vacinação 31 de julho a 10 de agosto”,19 assinado pela Secretaria Municipal de Saúde: Participe da Campanha Municipal de Multivacinação na Grande. Área do Santarenzinho, para crianças, mulheres e animais domésticos. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo produziu um panfleto para ajudar os mesários nas eleições presidenciais e estaduais de 3 de outubro de 1994. Elaborado em forma de quadradinhos, o documento explica o papel e as tarefas de seis personagens, cada um com um número na sua camisa – os mesários. Dos seis, cinco são homens, um dos quais negro com lábios em forma de banana, e uma é mulher, loira de cabelos soltos, sobrancelhas e busto amplo. Ao analisar o papel de cada personagem, descobrimos que um vai ficar na porta verificando se o título
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Fotografado por nossa colega Vera Menegon.

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do eleitor é daquela zona e seção; o segundo vai verificar o título no caderno de votação e mostrar onde o leitor deve assinar; um terceiro vai entregar a cédula eleitoral; um quarto ficará de pé na sala para mostrar onde fica a urna e levar o comprovante do terceiro para o sexto personagem, que vai entregá-lo para o eleitor antes de sair; o quinto personagem vai sentar ao lado da urna e após a primeira votação vai entregar uma segunda cédula; o quarto personagem vai mostrar de novo o caminho da urna. Talvez não seja óbvio, a primeira vista, que é a mulher loira que fica com a responsabilidade da urna; mas, num país que nega problemas raciais, não deve ser difícil descobrir quem fica de pé na sala mostrando o caminho da urna e levando os comprovantes de um lado para o outro. De novo a temática de gênero: em 1997, a agora extinta TELESP conseguiu a proeza de colocar na frente da conta telefônica do dia das mães um desenho, provavelmente tirado de uma coletânea de desenhos computadorizados, de uma mulher loira sentada juntamente com a filha loira, de tranças compridas, em um sofá de pelo menos cinco lugares (de estilo norte-americano). Aqui não se trata de uma crítica sobre a falta de savoir faire político desta ou daquela organização ou instituição pública, mas de demonstrar o quanto certas temáticas se manifestam de forma transparente no agir público, sendo consideradas como totalmente normais. Em todos os casos, a decisão de publicar ou imprimir não foi de indivíduos mas de uma cadeia decisória e hierárquica em que, sem dúvida, diferentes ideias e exemplos foram discutidos. Finalmente vem do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem de São Paulo (DERSA) o programa da operação verão, decorrente dos problemas criados pelos milhares de carros que saem da área metropolitana para o litoral paulista nos fins de semana e nos feriados. A história em quadrinhos tem o título de “Dersinha em operação verão 98”. Os personagens, pai e mãe com casal de filhos de 7-10 anos, são claramente brasileiros e seu carro é pequeno, quadradinho e popular. O estilo dos desenhos é leve e bastante colorido. A família vai passar o fim de semana na praia. Após calibrar os pneus e colocar o cinto, a viagem começa:
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filho: Pai, o senhor ligou para o número 0800-555510? mãe: Ei, vocês dois agora estão falando em código? pai: Código? Ah, Ah, Ah! pai: Sim, já liguei, está tudo normal. mãe: Vocês estão me deixando curiosa, podem explicar melhor? filho: Claro, mamãe, o número 0800-555510 é do DISQUE-DERSA, já esqueceu? mãe: Puxa, é mesmo, mas isso aqui não esqueci (mostrando o cupom). filho: O cupom de pedágio! filha: Já vamos ganhar um tempinho! No dia seguinte, na praia: mãe: Está tudo muito gostoso e as crianças estão aproveitando bem, mas… pai: Já sei, você está preocupada com a volta, não é? pai: Eu também estou... e não gostaria de pegar a rodovia muito cheia. mãe: Seria muito cansativo se isso acontecesse! filho: Calma pessoal, a… filho: Viagem de volta será tranquila! pai: Ah, já sei o que fazer! pai (no orelhão): Alô! DISQUE-DERSA? Eu gostaria de saber o melhor horário para subir…

No carro:
filho: Claro, a DERSA se preocupa com o nosso conforto. mãe: Puxa, esse pessoal da DERSA sabe mesmo o que faz!

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pai: E nos ensina os melhores caminhos… pai: É só telefonar para o DISQUE-DERSA e prestar atenção nas informações! filho ou filha: Foi muito legal este fim de semana! mãe: E como o papai aqui descansou!… pai: Nem fale! Quem é Dersinha? A filha que só aparece visualmente ou a mãe que esquece o número mágico da DERSA e está feliz que o papai descansou? A função da história é para lembrar o leitor e a leitora do serviço de informação da DERSA – pelo menos uma de suas versões. As revistas escolhidas foram The Lancet. e o ponto de partida foram os primeiros números existentes na biblioteca da Faculdade de Medicina da USP – 1899 para a Lancet e 1912 para o JAMA. Em ambos os casos. A partir disso foi possível seguir as diferentes perspectivas sobre a hipertensão desde a sua configuração enquanto doença até sua substituição pela noção de risco. expressão oficial do corpo editorial. e o Journal of the American Medical Association (JAMA). que têm uma presença no campo de interesse e que são produzidos regularmente e de forma seriada. Documentos de domínio público seriados Em seu trabalho sobre hipertensão. 7. Usar documentos desse tipo. representando – quase que institucionalmente – a opinião médica da época. são revistas clássicas nos seus respectivos países. 121 . Mary Jane Spink (1994a) buscou localizar em tempo os diferentes elementos identificados nas entrevistas com um médico clínico geral. inglesa. A escolha prática de iniciar onde era possível teve resultados: a primeira menção de hipertensão essencial foi encontrada em 1912 no caso da JAMA e em 1929 no caso da Lancet. é um excelente caminho para a compreensão da gradativa emergência. A seção das revistas escolhida para análise foram os editoriais. a partir de uma análise retrospectiva de revistas de medicina.

consolidação e reformulações dos saberes e fazeres. Para a Psicologia. uma vez que conseguimos nos des-familiarizar de seu conteúdo enquanto psicólogos e perceber que estamos diante de uma prática discursiva. OIT. O que fazemos nessas circunstâncias? A resposta mais simples é reconhecer que a nota de rodapé faz parte da retórica da responsabilização e que qualquer tentativa de associar diretamente as ideias com a organização terá pouco efeito. por serem publicadas. durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Banco Interamericano). É nesse terreno intermediário. do é mas não é que as posições mais visíveis 20 Incluindo as agências específicas (OMS. da busca de uma cronologia ou ponto 0 – porque isso nada mas seria do que a construção moderna de uma versão narrativizada do tópico em foco –. as revistas oficiais das sociedades e as publicações institucionalizadas. lembramos. passam a assumir um papel mais ativo enquanto organizações de referência a partir da configuração do sistema das Nações Unidas. produto dos eventos e ideias que influenciaram a discussão diplomática e profissional sobre a regulação e a interdependência antes. Sendo eles. Não é incomum descobrir um relatório ou um artigo com uma nota de rodapé explicando que as opiniões apresentadas são do autor e não da instituição.20 Uma busca cuidadosa dentro da flora e fauna das publicações dessas organizações demonstrará. como por exemplo o Annual Review of Psychology. que nem sempre o publicado e público é aquilo que parece. como o BID. ou seja. mas da identificação dos conflitos e diálogos diferentes que refletem a processualidade das práticas discursivas. Por outro lado. entretanto. UNESCO) e o sistema financeiro consolidado na reunião de Bretton-Woods (o Banco Mundial e os bancos regionais de desenvolvimento. Não se trata. em muitos casos. representem práticas discursivas circulantes que são parte da sombra da produção oficial. Documentos seriados e relatórios anuais também fazem parte das práticas discursivas de uma outra categoria de organizações: os organismos internacionais. oferecem muitas possibilidades. podemos analisar quais são os critérios de revisão escolhidos e quais as razões dadas por esta ou aquela ênfase ou exclusão. não há como negar que as ideias. 122 .

um por um. os relatórios de congressos específicos e o próprio Bulletin da Organização Mundial da Saúde (iniciado em 1946 e ainda em circulação) são algumas dentre as fontes disponíveis para buscar compreender a construção do espaço internacional no debate sobre o HIV. A gradativa hegemonia do Banco Mundial. ano por ano. buscando compreender sua lógica e sua forma de composição como prática discursiva. gerando o que Sabatier e Jenkins Smith (1993) chamaram de coalizões advocatórias. as críticas e os debates apresentados frequentemente são relatados como sendo dos autores e não da organização: é mas não é. desenvolvimento humano (PNUD) e o World Development Report do Banco Mundial. Mas o que devem fazer os pesquisadores? Aceitar a ética da citação é necessário.são formadas e testadas. países membros. De fato. Um caminho complementar é ir atrás dos relatórios verdadeiramente declarados como oficiais. por exemplo. e seguir pacientemente. Na área da saúde. os representantes das instituições internacionais estão sendo coerentes consigo mesmos quando afirmam que os pontos de vista não são das organizações ou. Essa dificuldade fica mais visível após a criação dos diversos relatórios mundiais: saúde (World Health Report). Tal como a criação de um desenho animado em folhas de papel sucessivas. mais frequentemente. narrativas e versões que se entrelaçam com saberes e fazeres produzindo sentido. o ir e vir paciente entre anos e momentos diferentes revela as dimensões do movimento das perspectivas. Mais variadas e contundentes no seu conteúdo. mas a noção do espaço das versões circulantes é também útil. seu papel na legitimação de perspectivas individualizadas sobre a pobreza e na criação do modelo good housekeeping de gestão financeira e governança proposta para os países em desenvolvimento são parte também de uma produção mais ampla: a da retórica da globalização. Relatórios oficiais de congressos 123 . atento às pequenas modificações que denotam a incorporação de palavras e ideias.

por exemplo – também oferecem pistas importantes de reflexão. o que é relevante? Estou. Reforma do Estado e Administração Pública Gerencial. Rio de Janeiro. e não necessariamente todo o material produzido. Editora da Fundação Getulio Vargas. para os analistas da construção de sentido. PUC-SP. por exemplo. mas nem sempre incluem material original de mais de cinco anos atrás. L. Os serviços de identificação anual de material produzido numa área específica frequentemente focalizam os cem ou 150 trabalhos julgados mais relevantes. Dissertação de Mestrado. In Bresser Pereira. K. sobre a Conferência das Nações Unidas sobre População e Desenvolvimento (Cairo. P. 124 . 22 Uma das múltiplas fontes disponíveis sobre a área latinoamericana é o Handbook of Latin American Studies. ajudam a identificar fontes. Possibilidades Técnicas e Imperativos Políticos em 70 anos de Reforma Administrativa. (1998).temáticos – sobre habitação ou sobre população e desenvolvimento. Fontes de revisão de material também são úteis. 21 Infelizmente. (orgs. Margareth Arilha (1999). nossas bibliotecas tendem a não ter séries completas de certos documentos oficiais. 1994).). Isso implica um ir e vir constante entre materiais coletados em bibliotecas e arquivos diferentes. envolvido em um programa de pesquisa sobre as versões circulantes na produção de sentido dos processos de reforma administrativa na América Latina desde o período dos anos vinte. P. mas não necessariamente pelas razões mais óbvias. isso pode ser suficiente. A solução é ficar sempre alerta às possibilidades e lembrar que os documentos nem sempre estão nos lugares mais óbvios. & Spink. mas. em muitos casos. Para o pesquisador que está interessado em se manter atualizado em seu campo. há quatro anos. livro que é produzido anualmente desde 1935 com pequenos resumos de itens publicados sobre a América Latina numa variedade de áreas e com atenção específica na 21 Ver.C. Às vezes os novos meios. entre narrativas diferentes sobre qual é a história de reforma e uma apreciação dos processos sociais e políticos dentro dos quais se inserem. como a Internet. Masculinidades e Gênero: discursos sobre responsabilidade na reprodução. leva a um outro nível de reflexão: afinal. 22 Spink.

A coordenação da área de governo passa a ser feita exclusivamente por acadêmicos de ciência 125 . nas inúmeras mudanças publicadas na estrutura organizacional e nas palestras públicas sobre a temática de governo. Durante o período 1937-1946. o dia a dia do processo administrativo. Cada capítulo portanto é um reflexo daquilo que é produzido. Para consultar o Handbook. como também na cidade de São Paulo e em outras partes da América Latina”. como para consultar qualquer livro de referências. O resultado é um quadro de governos que fazem as coisas que todos os governos fazem: organizando. O tópico governo foi incluído no Handbook em 1936 e compilado por um dos bibliotecários da Biblioteca do Congresso. reorganizando. Childs concentrou-se nos relatos dos governos da região sobre as suas administrações públicas. ao mesmo tempo. por falta de espaço foram eliminadas duas seções: uma sobre as mudanças em administração – coordenada por Childs – e outra sobre Tratados. sem dúvida influenciado pelo já ativo envolvimento econômico e político nos países da região. Em 1947. O Handbook surgiu nos Estados Unidos em 1935 no contexto do Advisory Committee on Latin American Studies do American Council of Learned Societies. Na introdução ao capítulo de 1936.produção dos países da região. aplicando técnicas – enfim. os comentários gerais sobre os problemas de governo e os desafios a serem enfrentados. comum nos estados dos Estados Unidos da América. Convenções e Atos. o primeiro focalizando as mudanças nas administrações e o segundo. seu conteúdo e as práticas discursivas que lhe dão sentido – sua forma em tempo. Childs. quando é publicado o volume do Handbook para 1944. Childs dividiu a seção de governo com um professor de ciência política. B. está presente na mensagem do governador do estado de São Paulo. é portanto necessário trabalhar. discutindo eficácia e eficiência. ele comenta: “o interesse na reorganização e eficiência administrativa. mas também forma uma narrativa porque seria impossível itemizar ou identificar todos os materiais produzidos pertinentes a um determinado tópico em todos os países da América Latina – que por sinal é uma denominação de origem francesa que data do século XIX. J.

No processo. S.política. Vale a pergunta: os resumos geram a versão ou a versão gera os resumos? Esses pequenos períodos e passagens podem ser poucos para os historiadores e sem dúvida refletem outras questões e temas. Isso é visível tanto em discursos e documentos de organizações internacionais quanto na fala inaugural do presidente Truman. a América Latina seria reinterpretada como subdesenvolvida mas com potencial (mais tarde as palavras seriam em desenvolvimento ou emergente) e seus governos como difíceis e faltando competência. 23 Sachs. 126 . escritas por comentaristas. London: Zed Books. Cambridge: Polity Press. The Development Dictionary. (1996). O número de trabalhos resumidos na língua inglesa sobe de 4% para 11%. The Westernization of the World. dos Estados Unidos da América. Latouche. W. O ponto quatro do presidente Truman abre um caminho que levaria à Aliança para o Progresso e o Tratado de Punta del Este (1961). para os psicólogos sociais são um passo inicial para a compreensão da ubiquidade das práticas discursivas produzidas nas interações organizacionais e sociais que formam o cotidiano barulhento. No período pós-Segunda Guerra Mundial e especificamente nos anos de 1946-1950. e a grande maioria dos documentos escolhidos para citação passa a ser análises gerais. Porém. Talvez seja essa a nossa contribuição ao espaço interdisciplinar.) (1992). a construção social do desenvolvimento e da ocidentalização23 estava em pleno avanço. (ed.

em geral. procuram apoio na produção científica utilizando-a como fonte para levantamentos bibliográficos. e tempo curto (da interação face a face). também. compreendida como um fenômeno sociolinguístico. Para tanto. como fonte de informações. apresentada nos quatro primeiros capítulos desta coletânea. a produção de sentido. como os repertórios interpretativos utilizados nas produções discursivas. Nessa abordagem. como forma de legitimação etc. nos apoiamos na abordagem teórico-metodológica de produção de sentido e práticas discursivas.CAPÍTULO VI GARIMPANDO SENTIDOS EM BASES DE DADOS Lia Yara Lima Mirim A s atividades de pesquisa. As produções discursivas desses domínios. busca entender tanto as práticas discursivas que atravessam o cotidiano. derivam de contextos marcados por diferentes temporalidades: tempo longo (que marca as produções culturais da humanidade). A proposta deste capítulo é discutir a utilização da literatura científica como recurso metodológico em pesquisa. tempo vivido (que enfoca as linguagens sociais presentes nos processos de socialização). A adoção dessa abordagem teórica possibilita. inclusive sobre si mesmos. como nos apontam as crescentes desmitificações de sua objetividade as reflexões de Bruno Latour e Steve Woolgar (1979/1997). entre eles os campos científicos. Esses repertórios. 127 . que circulam na sociedade e que utilizamos para dar sentido às nossas experiências. contribuem para a formação e a difusão de repertórios interpretativos variados que continuamente reconstroem conteúdos e geram novos sentidos. estudos que privilegiam investigações nos vários domínios do saber.

também. Agradeço. A seguir. periódicos etc. a Medicina. apresentaremos um exemplo de uso dessa base de dados. já cristalizadas na forma de artigos. a História etc. com suas peculiares formas de apresentação e de circulação de seus discursos.Neste capítulo. com o trabalho realizado para a dissertação de mestrado intitulado. que antecedem a realização de um projeto de pesquisa. teses. daremos especial atenção ao uso das produções discursivas da ciência. como prática social de um grupo específico da sociedade. também. para a amiga e parceira em pesquisa Vera Menegon pelas sugestões no decorrer deste trabalho e para José Marinho companheiro de todas as horas. que variam dentro dos vários domínios do saber – tais como a Psicologia. atualmente disponíveis online. desenvolve uma linguagem social muito peculiar. a Sociologia. como fonte de pesquisa. Muitas pesquisas realizadas na área da saúde incluem investigações na esfera dos vários domínios do saber que compõem esta área. Muitos desses estudos focalizam a produção discursiva na literatura científica em pelo menos uma das etapas do projeto de pesquisa. A construção do sentido do teste HIV: uma leitura psicossocial da literatura médica (Mirim. livros. 128 . 1 Agradecimentos especiais para a professora e orientadora Mary Jane Paris Spink por suas contribuições de pesquisadora de mão cheia e pela confiança. A ciência como linguagem social A ciência. Iniciamos discutindo a ciência como linguagem social. editoriais. que auxiliam a sua elaboração e que podem. integrar etapas de sua execução. privilegiando a base de dados Medline. portanto.1 1. 1998). comentários. notícias. Ao final. a Antropologia. são exemplos de incursões na literatura científica a fim de alcançar parte de sua produção discursiva. Os levantamentos bibliográficos. destacando a crescente importância das bases de dados como via de acesso à literatura científica. com regras próprias de construção e de apresentação de suas produções.. trataremos da utilização das bases de dados para pesquisa. capítulos de livro. aos colegas do Núcleo de Pesquisa em Psicologia Social e Saúde da PUC-SP.

comentários. ou seja. o discurso escrito é de certa forma parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele 2 Para aprofundar esta reflexão ver capítulo dois desta coletânea. de um estilo de produção literária.). editoriais. comentado e criticado. essas várias formas de apresentação da produção discursiva da literatura científica. notícias etc. e também objeto de discussões ativas sob a forma de diálogo. Para estes autores. artigos. dito de outra forma: O ato de fala sob a forma de livro é sempre orientado em função das intervenções anteriores na mesma esfera de atividade. Assim. recuperadas a partir dos levantamentos bibliográficos. 129 . discursos peculiares a um estrato específico da sociedade (uma profissão. Ainda nos orientando nos trabalhos fecundos de Bakhtin (1995). mesmo nas formas imobilizadas da escrita. sendo produzido para ser apreendido de maneira ativa. as notícias. os comentários e os artigos que podem ser anteriores ou subsequentes à publicação de um artigo em um periódico científico. são concebidas como discursos. Nessa perspectiva. em uma determinada época (Bakhtin. são produzidas para serem compreendidas. 1990: 45). capítulos de livros. um ato de fala impresso. sendo que a institucionalização pode ocorrer 2 em nível disciplinar. ou seja. político. as enunciações. cultural e de pequenos grupos. tanto do próprio autor como das de outros autores: ele decorre portanto da situação particular de um problema científico. “os discursos podem competir entre si ou criar versões da realidade que são distintas e incompatíveis. num determinado sistema. um grupo etário etc. periódicos. teses. seja na perspectiva das reações impressas: os editoriais. um discurso é entendido como o uso institucionalizado da linguagem e de sinais de tipo linguístico. ou seja. 1929/1995) e como tal. pois. são orientadas para uma leitura no contexto da vida científica ou da realidade literária historicamente situada. seja no quadro do discurso interior. são uma resposta a alguma coisa e são construídas como tal. Conhecer alguma coisa é conhecer em termos de um ou mais discursos” (Davies & Harré. cartas.Esses levantamentos bibliográficos permitem ao pesquisador ter acesso às produções da ciência já cristalizadas na forma de livros. estudado a fundo. O artigo científico é.

da personalidade e da filiação institucional dos atores. refuta. consagram produções conforme os princípios da ciência oficial. procura apoio etc. As revistas científicas. Aspecto importante em relação às revistas científicas é levantado por Pierre Bourdieu: Pela seleção que operam em função de critérios dominantes. Essas bases de dados. o exemplo do que merece o nome de ciências. 1997). Cabe lembrar que as várias publicações representam posições concorrenciais dentro do campo científico. editoriais. Para que uma operação seja bem sucedida. do caráter inédito do que está em jogo. Um complexo sistema de publicação coloca em circulação a produção discursiva da ciência. Um artigo científico publicado pode transformar os tipos de enunciados. confirma. são a principal via de acesso para a pesquisa de referências bibliográficas que irão compor os levantamentos bibliográficos. antecipa as respostas e objeções potenciais. Este sistema também engendra um sistema formal. oferecendo assim. que se traduzirão na possibilidade de indexação do periódico nas várias bases de dados disponíveis para pesquisa. é similar a qualquer outro campo de controvérsias (Latour & Woolgar. ou os periódicos científicos (assim denominados convencionalmente pela comunidade científica) são as publicações que mais rapidamente colocam em circulação as produções da ciência. das apostas e do estilo do artigo. regido por estratégias de validação há muito consagradas pela tradição. continuamente. 1995: 123). atualmente. seja rejeitando-as expressamente ou desencorajando simplesmente a intenção de publicar pela definição do publicável que elas propõem (1994: 138). A ciência. e as várias posições que já constituem o campo influenciam as chances que um argumento tem de produzir um efeito. ela depende do número de atores na área. 130 . comentários e notícias publicadas. cartas.responde a alguma coisa. e exercendo uma censura de fato sobre as produções heréticas. (Bakhtin. como um campo agnóstico. já cristalizadas na forma de artigos.

temos disponíveis sistemas de pesquisa via computador. 3 O Index Medicus. com suas regras de organização e seus sistemas de pesquisa. ou seja. também. a Internet nos oferece inovadora e revolucionária forma de pesquisa. Obviamente. o tempo disponível para atendimento dos vários e diversos usuários desses serviços. além de nos convidar e propiciar que realizemos nossas próprias pesquisas nos diversos bancos de dados disponíveis online. Trabalhando com as bases de dados Como nos referimos anteriormente. são. Além disso. Para que os técnicos em pesquisa pudessem nos auxiliar e nos facilitar a obtenção de levantamentos bibliográficos. a pesquisa nessas bases de dados era feita manualmente por meio dos Index.3 Atualmente. acabava por limitar nossas possibilidades de construção de variadas estratégias de pesquisa nas bases de dados. produções da ciência com as quais temos que nos familiarizar. e podemos ter acesso a elas em CD ROM ou via online. Até há alguns anos. o que nem sempre era possível. com certeza. Essas bases de dados. também foi sendo desenvolvido um sistema formal para pesquisá-las. 131 . várias bases de dados foram organizadas para facilitar o acesso dos pesquisadores à produção científica. aos artigos. Inovadora e revolucionária porque nos permite acesso às principais e mais completas bibliotecas do mundo. Neste final de século.2. por exemplo. ou seja. Ao longo do tempo. A construção de variadas e sucessivas estratégias de pesquisa e a análise de seus resultados contribuem. tínhamos que traduzir-lhes nossa motivação para tal levantamento. sem a intermediação de “técnicos em pesquisa” (profissionais especializados em prestar auxílio na realização de levantamentos bibliográficos nas bibliotecas). nas bibliotecas. de interesse para seu projeto de pesquisa. começou a ser elaborado no final do século XIX. aos textos etc. da estratégia que elegemos para acessar referências bibliográficas valiosas (segundo nossos critérios) para nosso estudo. para a elaboração de nossa estratégia. ou seja. permitem ao pesquisador ter acesso à produção científica já cristalizada.. ao mesmo tempo que foram construídas essas bases de dados. 2. os levantamentos bibliográficos realizados via base de dados.

N. também. Siegel.. 7:166-171. Bibliographic retrieval: a survey of individual users of MEDLINE. pode fazer circular a publicação de maneira muito mais ágil e rápida do que quaisquer das bases de dados organizadas e disponibilizadas também via Internet. com acesso via sistemas de computador. Humphreys. J. 1998) a base de dados Medline foi selecionada como fonte de pesquisa da literatura médica para a elaboração de um banco de publicações sobre o teste HIV5 que abordassem as várias e diversas questões relacionadas à 4 Lowe H. ou seja. como recurso de pesquisa e informação e a tendência dos pesquisadores em realizar suas próprias pesquisas bibliográficas. & Barnet G. porque a Internet possibilita aos pesquisadores de qualquer parte do mundo e de qualquer afiliação institucional a publicarem suas pesquisas mesmo antes destas estarem concluídas (não ainda cristalizadas). B. R. tanto para publicação quanto para pesquisa da produção discursiva da ciência. Wallingford. T. Characteristic of early adopters of end-user online searching inthe health professions.. para as mãos do(s) pesquisador(es). (1994). Understanding and using the medical subject headings (MeSH) vocabulary to perform literature searches. 271:1103-1108. oferecem alternativas atrativas que dificultam previsões e fogem de nossos propósitos. Bull Med Libr Assoc. Os desdobramentos futuros da utilização da Internet. Selinger. tão somente. JAMA. Inovadora e revolucionária porque a definição de publicável passa. E. Marshall. 77:48-55.Inovadora e revolucionária. introduzem um número cada vez maior de usuários – não necessariamente especialistas em pesquisar literatura científica – ao manejo dessas bases de dados. (1990). (1989).O. A crescente importância da utilização das bases de dados. MD Comput. Além disso. em tempo real. J.G. K. 5 Desde os primeiros Boletins Epidemiológicos publicados pelo Ministério da Saúde encontramos – teste anti-HIV ou simplesmente teste – como denominação para os exames sorológicos para diagnóstico da infecção pelo HIV. E. Atualmente a denominação simplificada 132 . muito embora não pudéssemos deixar de mencioná-las. a velocidade desse meio de comunicação. na dissertação de mestrado intitulada A construção do sentido do teste HIV: uma leitura psicossocial da literatura médica (Mirim. L..4 Neste cenário.

Antropologia da doença de François Laplantine publicada em 1986/1991. 6 Foi no ano de 1985 que os exames sorológicos para diagnóstico da infecção pelo HIV tornaram-se disponíveis para uso de rotina nos Estados Unidos. focalizando a produção discursiva na literatura médica. as notícias e os comentários publicados como discursos. ou seja. Buscamos artigos científicos publicados entre 1985 e 1997 sobre o teste HIV. Dentre as obras importantes para essa reflexão destacamos: As classes sociais e o corpo de Luc Boltanski publicada em 1979. ou seja. principalmente a da área biomédica. Neste estudo. A arqueologia do saber de Michel Foucault publicada em 1979/1995. o contexto em que se deu o desenvolvimento desses exames na história da AIDS (1981 a 1984). do ano de 19856 ao ano de 1997. 7 Vale pontuar que na nossa abordagem o termo discurso é empregado para referir às produções presentes em áreas já formalizadas e regulamentadas. Para estudar a construção do sentido do teste HIV na literatura médica.realização dos testes sorológicos para diagnóstico da infecção pelo HIV ao longo dos treze primeiros anos de sua disponibilização para uso de rotina. pois são eles as publicações científicas que mais rapidamente colocam em circulação as produções da ciência cristalizadas. optamos pela análise dos periódicos científicos internacionalmente indexados. contribuiu de maneira expressiva para a formação e a difusão de grande variedade de repertórios interpretativos sobre a saúde e a doença. 7 Por que escolher a literatura médica para nos auxiliar na busca da construção do sentido do teste HIV? Vários autores têm afirmado que a produção discursiva da área da saúde. não deixamos de considerar o período que antecedeu a disponibilização do teste. visto que 1985 foi o ano em que os exames sorológicos para diagnóstico da infecção pelo HIV tornaram-se disponíveis para uso de rotina. No entanto. as cartas. Utilizamos dois procedimentos complementares para coleta do material sobre o teste HIV na literatura médica: – teste HIV – é a denominação mais frequentemente adotada pelos profissionais de saúde para esses exames. cujo objetivo foi entender a construção do sentido do teste HIV na literatura médica. privilegiamos a investigação na esfera dos domínios do saber. 133 . tomando os artigos.

sobremaneira.a) As publicações do Center for Disease Control and Prevention (CDC) 8 publicadas pelo Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR). dos procedimentos utilizados na testagem ou decorrentes da testagem. apresenta-se como uma das mais importantes bases de dados da literatura biomédica internacional e uma das mais frequentemente utilizada por pesquisadores e profissionais de saúde do mundo inteiro. 9 Por que escolher a base de dados Medline10 para a elaboração do banco de publicações sobre o teste HIV? A base de dados Medline como fonte de pesquisa e informação para a área da saúde. uma vez que as práticas discursivas11 no cotidiano de pesquisa em que uma pessoa poderia se engajar são múltiplas e contraditórias. (1997). 9 O banco de publicações constituído a partir do Medline foi utilizado para estudar a construção do sentido do teste HIV a partir da problematização dos aspectos técnicos. listagem. de algumas outras bases de dados que podem ser úteis em pesquisa. buscou-se entender as possíveis permanências e rupturas no discurso sobre o teste HIV. 8 Escolhemos as publicações do Center for Disease Control and Prevention (CDC) publicadas pelo Morbidity Mortality Weekly Report (MMWR) devido ao lugar de destaque que esse periódico ocupou na definição dos contornos da AIDS na literatura médica. Ver em Greenhalgh. Portanto. uma dentre as múltiplas versões possíveis da literatura médica sobre o teste HIV a partir da base de dados Medline. os argumentos/justificativas utilizados para justificar o uso do teste ao longo dos anos. dos usos. Em seguida. How to read a paper. T. Ver discussão no capítulo dois desta coletânea. com descrição breve. ou seja. A possibilidade de escolha está inevitavelmente envolvida em pesquisa. BMJ. as publicações subsequentes. ou seja. Esse conjunto de publicações foi utilizado para contextualização histórica do teste HIV. b) O banco de publicações sobre o teste HIV do Medline a partir da revisão da literatura médica nessa base de dados. 134 . das implicações dos usos do teste e das populações testadas ao longo do tempo. 11 Em nossa perspectiva podemos definir práticas discursivas como linguagem em ação. The Medline database. 10 A base de dados Medline é uma dentre as várias bases de dados organizadas e disponíveis hoje para pesquisa. influenciando. as maneiras como as pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas. ou seja. 315:180-3. tornou-se crucial para esse estudo nossa familiarização com a base de dados Medline e com seu manejo online para que pudéssemos construir uma estratégia de pesquisa que resultasse em um conjunto de publicações que se tornaria nosso banco de publicações.

resumo do artigo em inglês (abstract.nlm. Ciências Sociais etc. Pretendemos. se disponível). afiliação dos autores. odontologia. desde 1966.800 periódicos internacionais publicados nos Estados Unidos e em outros 70 países. O Medline contém todas as citações publicadas no Index Medicus.nih.ca//medline. enfermagem.12 O Medline contém referências de mais de 3. ainda. tipo de publicação. 13 Atualmente vários web sites disponibilizam acesso direto e gratuito ao Medline. que reúne mais de 9. descritores de assunto. dessa forma. Apesar desta extensa cobertura. Os registros da base de dados Medline contêm um conjunto de informações que descreve um determinado artigo ou documento e incluem informações como: título.library.S. discutir as possibilidades básicas de pesquisa nessa base de dados e apontar soluções para alguns dos problemas mais comuns enfrentados. 3. Essas informações estão reunidas e organizadas em campos de dados. tais como: igm. fonte.br. mais de 80% das citações indexadas no Medline provêm de fontes de língua inglesa. medicina veterinária. Nacional Library of Medicine – NLM). A base de dados Medline Medline é uma enorme base de dados criada. A base de dados Medline é atualizada semanalmente e está disponível para distribuição online13 e em CD-ROM. Para processar uma pesquisa. delphi.gov. com todos os recursos da 12 Alguns capítulos e artigos de algumas monografias selecionadas também podem ser encontrados no Medline nos últimos anos. autores. compilada e mantida pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos ( U.htm (site que disponibiliza várias outras bases de dados sobre Psicologia. nas áreas de medicina.2 milhões de referências bibliográficas da literatura biomédica internacional. língua etc.bireme.yorku. assistência à saúde e ciências pré-clínicas. não apreendemos sua peculiar linguagem.Em seguida apresentaremos a base de dados Medline descrevendo sua organização. ao mesmo tempo que discutiremos sua utilização em pesquisa. Mais de dois terços dessas referências incluem resumos dos artigos em inglês. e corresponde em parte ao Internacional Nursing Index e ao Index to Dental Literature. quando. 135 .) e www.

Os registros da base de dados Medline podem ser rastreados de duas maneiras principais: por meio de palavras listadas nos campos de dados. (1997). The Medline database AUTHORS: Greenhalgh T AUTHOR AFFILIATION: Department of Primary Care and Population Sciences. palavraschaves) que identificam o tema do artigo. How to read a paper. 315:180-3. quando do manejo dessa base de dados online para pesquisa via sistemas de computador.315(7101):180-3 CITATION IDS: PMID: 9251552 UI: 97395413 COMMENT: Comment in: BMJ 1998 Apr 11.greenhalgh@ucl. University College London Medical School/Royal Free Hospital School of Medicine. é necessário conhecer como estão organizados os campos de dados e seus conteúdos. na grande maioria das vezes. The Medline database.uk SOURCE: BMJ 1997 Jul 19. Segue abaixo um exemplo de uma citação do Medline recuperada via online: TITLE: How to read a paper. United States 14 15 Greenhalgh. e por meio de descritores de assunto (termos. T. da instituição onde a pesquisa foi realizada. do periódico em que o artigo foi publicado etc. 136 .ac.interface de recuperação desses artigos. Além disso. BMJ. do nome dos autores. London. 14 Estes descritores de assunto fazem parte de um vocabulário controlado – medical subject heading terms (MeSH)15 – produzido pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos (NLM) e usado para a indexação (descrição do assunto) e para a recuperação dos registros ingressados na base de dados Medline. Neste capítulo vários termos foram utilizados em inglês para facilitar a descrição e a compreensão da utilização e do manejo do Medline (uma base de dados americana). Medline/*standards ADDITIONAL MESH HEADINGS: Sensitivity and Specificity. Whittington Hospital. p. que incluem palavras do título. do resumo do artigo.316(7138):1166 MAIN MESH HEADINGS: Abstracting and Indexing/*standards. somos obrigados a conhecê-los em inglês.

estamos pesquisando principalmente palavras contidas no título dos artigos. Os campos de busca e os operadores lógicos boleanos  Campo de busca para pesquisa por assunto ou por palavras [TW] Esse campo de busca permite a pesquisa do assunto/tema em todos os campos da citação. Porém. Nesse tipo de busca. Aqueles em que o título original está em outro idioma têm o título traduzido para o inglês. no resumo dos artigos. é necessário conhecer como estão organizados os campos de dados e seus conteúdos. satisfazendo aos propósitos de recuperação do mesmo. esses artigos também serão recuperados.1 Pesquisando no Medline16 Como dissemos anteriormente. via sistemas de computador” (Robert Day. além de permitir relacionar dois ou mais assuntos/temas a serem pesquisados simultaneamente. em nossos dias. já mencionados anteriormente. 137 . Deve-se lembrar que o título de uma referência deve conter “ o menor número de palavras que descreve adequadamente o conteúdo de um artigo. poder-se-á usar termos identificados por uma ou mais palavras. A seguir.PUBLICATION TYPES: Journal Article. no campo de autor. Review. apresentaremos os principais campos de dados do Medline. A maior parte dos artigos tem o título original em inglês. se a palavra pesquisada constar em outro campo de dado da citação. Tutorial LANGUAGES: English 3. por exemplo. e nos descritores de assunto. para processar uma pesquisa. com todos os recursos da interface de recuperação desses artigos.  Campo de busca para pesquisa por título do artigo [TI] Esse campo permite a busca de palavras que compõem o título do artigo. Para recuperação de 16 Este subitem foi elaborado com auxílio das informações sobre o Medline e seu manejo obtidas nos vários sites que disponibilizam acesso direto e gratuito ao Medline.1990:15). ou seja. a. seus conteúdos e sua utilização como campos de busca de citações.

Para recuperar artigos de um determinado autor. Podemos limitar nossa busca a um ou mais anos. Deve-se utilizá-lo quando se deseja especificar o idioma do texto dos artigos a serem recuperados.citações. a pesquisa pode ser realizada por meio do nome completo da publicação. Entretanto. além de podermos fixar dia e mês para precisar ainda 138 . que o campo de dados título é o campo que nos permite recuperar citações sem os filtros decorrentes da organização do banco de dados em questão. Lembramos que no Medline o título do artigo e o resumo do artigo aparecem sempre em inglês.  Campo de busca para pesquisa por periódico [TA] Esse campo pode ser utilizado para recuperar citações publicadas em determinado periódico.  Campo de busca para pesquisa por autor [AU] No Medline. mas nem sempre o idioma utilizado no texto do artigo está em inglês.  Campo de busca para pesquisa por idioma [LA] Esse campo de dados – língua – corresponde ao idioma no qual o texto do artigo foi publicado. sem separações por vírgulas entre eles e as iniciais do nome. deve-se digitar uma ou mais palavras que se espera encontrar no título dos artigos. sem ponto entre elas. Podemos também usar o campo de citações para recuperar uma citação específica ou itens indexados de um volume particular.  Campo de busca para pesquisa por data da publicação [DP] O conteúdo desse campo de dados refere-se ao ano de publicação do artigo no periódico indexado ao Medline. utilizando este campo da base de dados. os autores estão indicados pelo sobrenome e pelas iniciais do nome. O conteúdo desse campo é o título do periódico indexado no Medline abreviado segundo as normas da NLM. Vale a pena notar. deve-se inserir “sobrenome e primeira inicial” entre aspas duplas. pois esse campo de busca é constituído por palavras selecionadas pelo(s) autor(es) das referências a serem recuperadas.

ou seja. Oldmedline é uma base de dados. O mesmo ocorre quando relacionamos com and dois ou mais campos de busca. o artigo ingressa no Medline e a mesma citação é retirada do Premedline. or e not. tanto no campo para ano inicial da pesquisa quanto. no campo para ano final da pesquisa. 17 Os sistemas de pesquisa online já nos apresentam campos onde serão digitados o intervalo de tempo de nossa busca. disponível a partir de agosto de 1996.18  Os operadores lógicos boleanos Para obter melhores resultados na pesquisa. devemos entrar com este ano. AND – interseção: este operador quando utilizado recupera todos os artigos que apresentam simultaneamente estes termos/palavras. OR – união: este operador soma e portanto recupera as citações que têm qualquer um dos termos de pesquisa. NOT – exclusão: este operador é utilizado para excluir as citações que contenham um ou mais termos de uma pesquisa.17 Mais recentemente. 139 . que fornece informações básicas das citações e resumos dos artigos antes destes ingressarem no Medline. além de conhecer os campos de dados disponíveis. O mesmo ocorre quando utilizamos este operador para relacionar dois ou mais campos de busca. apresentando em seus menus intervalos para pesquisa que correspondem aos últimos 30 e 60 dias e últimos 6 e 12 meses. disponível desde dezembro de 1996. 18 No Oldmedline não é possível entrada pelo mês das publicações. que contém citações originalmente publicadas no período de 1960 a 1965. enquanto a indexação não está completamente concluída. Alguns sistemas também apresentam a possibilidade de pesquisa das publicações mais recentes. Premedline é uma base de dados. São eles: and. foram adicionadas duas novas bases de dados complementares ao Medline: Premedline e Oldmedline. que podem relacionar dois ou mais termos de um mesmo campo de busca ou ainda relacionar dois ou mais campos de busca. atualizada em novembro de 1998.mais nosso período de pesquisa. Alguns intervalos de anos preestabelecidos já estão disponíveis em menus nesses sistemas. Uma vez terminada a indexação. Note-se que para pesquisar um único ano. necessitamos conhecer os operadores lógicos boleanos.

Algumas frases já são.. em seguida or e por último not. b. Podemos usar apenas o sufixo de palavras correlacionadas e truncar seu final. o sistema processa primeiramente os termos entre parênteses..000 termos. colocar um asterisco no final do sufixo comum a um grupo de palavras.. traduzidas pelos sistemas de pesquisa online. Assim. Os descritores de assunto [MeSH Terms]  O vocabulário MeSH – Medical Subject Heading Terms O vocabulário MeSH é um conjunto de descritores (termos. em seguida. A ordem de prioridade dos operadores é primeiro and.  Outros recursos para pesquisa Truncamento – mais um recurso para pesquisa (. os incorporar como unidade no processamento da estratégia global. ”). que traduz em detalhes a estratégia de pesquisa que será ou foi executada para recuperação das citações no Medline. temos que ordená-los para o processamento da busca. para. Podemos utilizar parênteses para ordenar nossas prioridades no processamento da estratégia de pesquisa. palavraschaves) controlado pela NLM com aproximadamente 19.Quando usamos mais de um operador boleano em uma expressão de pesquisa. à medida que selecionamos e relacionamos os termos nos campos de busca. Assim. O 140 .*). ou seja. Um importante recurso disponível nos sistemas de busca disponíveis online é o campo Details of Search.. assim. estaremos recuperando todas as referências indexadas pelo grupo de palavras iniciado pelo sufixo truncado colocado para busca. devemos colocá-la entre aspas duplas. Busca por frases ou termos compostos – entre aspas duplas (“. Quando se coloca para busca um conceito formado por uma frase e pretende-se que esta seja reconhecida em seu conjunto. Este recurso permite visualizar como o sistema irá processar nossa estratégia de pesquisa.

Quando uma nova citação é incorporada ao Medline. ou ainda. J.MeSH é usado para indexar citações em alguns bancos de dados produzidos pela NLM. por exemplo. 141 . Os descritores são organizados e hierarquizados em uma série de quinze categorias principais que dá origem à chamada Estrutura de Árvore do Mesh (The MeSH Tree Structures). Cada descritor de assunto (termo) representa um conceito apresentado na literatura biomédica. Este artigo foi de grande valia para a elaboração do subitem sobre os descritores de assunto deste capítulo. no julgamento dos indexadores da NLM. o Medline.19 O vocabulário MeSH ou os descritores de assunto não são simplesmente uma lista de termos. 271:1103-1108. Se o número de citações recuperadas exceder a um certo limite arbitrário. palavraschaves) não precedidos por asterisco são usados para identificar conceitos discutidos nos artigos. Sendo a literatura médica dinâmica. como. os indexadores da NLM escolhem os descritores apropriados (normalmente 10 a 12 descritores). O descritor ou descritores que representam os principais conceitos (Major Concept) tratados no artigo. em direção a descritores cada vez mais específicos. Understanding and using the medical subject headings (MeSH) vocabulary to perform literature searches. Cada uma dessas categorias é uma rota complexa hierárquica de combinações de descritores mais gerais. o vocabulário MeSH também sofre modificações ao longo do tempo. (1994). em seguida. são precedidos por um asterisco. & Barnet G. 19 Lowe H. O aparecimento de novos conceitos. o pesquisador. JAMA. poderá limitar sua pesquisa ao conceito principal. Muitos especialistas recomendam que inicialmente façamos nossa pesquisa sem limitar a busca às citações indexadas pelo conceito principal (Major Concept). na remoção de alguns desses descritores. não como assuntos/tópicos principais e sim como temas correlatos ao tema principal do artigo. Os descritores de assunto (termos. porém.O. que representam o conteúdo do documento que está ingressando na base de dados. as mudanças e transformações significantes se traduzem ou na incorporação de novos descritores ou na modificação de descritores já existentes.

Geographic Locations [Z] – Localizações Geográficas A Estrutura de Árvore do vocabulário MeSH permite inúmeras estratégias de pesquisa quando pesquisando no Medline. permitem uma visão geral das áreas cobertas pelo vocabulário MeSH. Agricultura e Alimentos 11) 11. Diagnostic and Therapeutic Techniques and Equipment [E] – Análise das Técnicas Diagnósticas e Terapêuticas e dos Equipamentos 6) Psychiatry and Psychology [F]– Psiquiatria e Psicologia 7) Biological Sciences [G] – Ciências Biológicas 8) Physical Sciences [H] – Ciências Físicas 9) Anthropology. Educação. Sociologia e Fenômenos Sociais 10) 10.Essas categorias.Persons [M] – Denominações de Grupos 14) 14. Indústria.Health Care [N] – Cuidados de Saúde 15) 15. ou seja. consequência do extenso entrecruzamento dos seus 142 . pelos descritores de assunto: 1) Anatomy [A] – Termos Anatômicos 2) Organisms [B] – Organismos 3) Diseases [C] – Doenças 4) Chemical and Drugs [D] – Compostos Químicos e Drogas 5) Analytical. Sociology and Social Phenomena [I] – Antropologia. A despeito das inúmeras possibilidades de pesquisa advindas dessa estrutura de árvore do vocabulário MeSH.Humanities [K] – Humanidades 12) 12.Information Science [L] – Ciências da Informação 13) 13.Technology and Food and Beverages [J] – Tecnologia. Education. apresentadas a seguir.

São eles: o tipo de publicação. randomized controlled trial. uma dificuldade fundamental se relaciona ao idioma. Outra estratégia bastante útil para encontrarmos descritores de assunto (Mesh termos) adequados a uma dada pesquisa. várias ferramentas têm sido desenvolvidas. review. mas podem ser usados para rastrear e recuperar artigos. Por exemplo. deve ser traduzida para um vocabulário complexo. o check tags e os termos geográficos. letter. meta-analysis. formulada a partir de suas práticas discursivas. 143 . introduzido em 1991.. a partir do campo de autores de artigos já conhecidos ou de palavras do título..) que auxilia na procura e na escolha dos termos do vocabulário MeSH mais adequados ao tema que estamos pesquisando e que apresenta a hierarquia desses descritores na estrutura de árvore do vocabulário. campos para entrada de termos de uso corrente na linguagem biomédica (MeSH entry terms) conectados ao MeSH vocabulário. editorial. também. é iniciarmos a busca para recuperação de citações.  Os termos MeSH especiais ou descritores especiais O vocabulário MeSH possui alguns tipos de descritores especiais que nunca representam conceitos principais dos registros. que nos permitem entrada e pesquisa neste vocabulário bastante específico. O tipo de publicação é um grupo de termos. podemos especificar: clinical trial. Nesses sistemas há. A maioria dos sistemas de acesso online para pesquisa na base de dados Medline possui um recurso (MeSH Browser ou Find MeSH. Para resolver esta questão. examinarmos os descritores de assunto (MeSH termos) indexados nessas citações recuperadas e utilizá-los numa segunda estratégia de busca via descritores de assunto. A questão do pesquisador. a partir dos outros campos de dados.descritores. rigorosamente controlado e altamente específico. como. que caracteriza o tipo de publicação da citação indexada mais do que seu conteúdo. por exemplo. practice guideline. para em seguida.

22 Em seguida apresentaremos um exemplo de uso da base de dados Medline como recurso metodológico de um estudo realizado para dissertação de mestrado. Para tanto. drug therapy. Support. 144 . estados e cidades.21 Os termos geográficos identificam regiões geográficas.H. complications. U. education.S. diagnosis. Human. nursing. países. continentes. U. therapy e therapeutic use (of drug). Non-U. como por exemplo: Animal. Government.H. Non-P. Case Report. Comparative Study. A estrutura de árvore do vocabulário MeSH governa as combinações válidas possíveis de descritores de assunto principais e de subdescritores. Government. Male. In Vitro. é preferível combinar um descritor de assunto principal com um subdescritor a combinar dois descritores principais. 22 De maneira geral. 20 Os sistemas de busca online no Medline disponibilizam alguns desses descritores especiais para tipo de publicação já organizados em menus. prevention and control.S. epidemiology.historical article etc. P.  Os subdescritores de assunto do vocabulário MeSH Os subdescritores de assunto (subheadings) compõem um grupo de termos usados para qualificar o uso do descritor de assunto principal e permitem ao pesquisador limitar a recuperação das citações que tratem do conceito mais específico. cujo objetivo foi entender a construção do sentido do teste HIV a partir da literatura médica sobre o tema. Support. devemos apenas ativar o campo correspondente ao tipo de publicação nesses menus. para a pesquisa de citações que tratem de um aspecto específico de um tema.S. se desejamos limitar nossa busca especificando o tipo de publicação das citações a ser recuperado. Para exemplificar. 21 Alguns sistemas já disponibilizam alguns descritores desse grupo em campos de busca a serem ativados em seus menus. psychology. Female.S. Support. seguem alguns subdescritores: adverse effects.20 O grupo de termos do designado check tags corresponde a atributos amplos do conteúdo dos artigos. contraindications (of drug). history. Government. Esses termos podem ser usados para limitar nossa pesquisa a citações que tratem de áreas geográficas específicas.S. organization and administration.

buscamos artigos científicos publicados. O uso da base de dados Medline para entender a construção do sentido do teste HIV na literatura médica Como já dissemos. Essa entrada no banco de dados dava acesso às referências bibliográficas das várias áreas/campos de trabalho da área da saúde sem privilegiar uma abordagem especificamente médica sobre o teste HIV e sem privilegiar. entre 1985 e 1997. cujos conteúdos são palavras do título original e traduzido. artigos esses utilizados para a elaboração do projeto inicial de pesquisa. os registros relacionados com o teste HIV foram localizados com base em palavras identificadas anteriormente. e 2) O banco de publicações do Medline sobre o teste HIV.4. ao longo desses anos. A partir dos títulos. por exemplo. a classificação por palavra-chave ou descritor. por meio da análise de uma amostra assistemática de artigos sobre o teste HIV. 23 Esta estratégia possibilitou a obtenção de um banco de publicações sem os filtros decorrentes da organização do banco em questão. 145 .  A construção do banco de publicações do Medline Para a definição do nosso banco de publicações sobre o teste HIV. que abordassem várias e diversas questões relacionadas à realização do teste para diagnóstico da infecção pelo HIV. ao longo do tempo. Observamos que mais da metade dos artigos que traziam alguma das abordagens possíveis sobre o teste HIV. 23 A maior parte dos artigos registrados na base de dados Medline tem o título original em inglês. A seleção de registros no Medline foi feita com base nos Títulos dos Artigos [TI]. HIV testing ou HIV screening. apresentavam no título as palavras – HIV test. também. utilizamos dois procedimentos complementares para coleta do material sobre o teste HIV na literatura médica: l) As publicações do Center for Disease Control and Prevention (CDC) publicadas pelo Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR). um tema específico relacionado ao teste HIV. como.

entre 1983 e 1984.com/). entre franceses e americanos. Embora à primeira vista possa parecer uma amostra excessivamente grande 24 25 la – abreviatura para língua (language) a ser utilizada para pesquisa no campo de dados. que é de fácil manejo e de baixo custo para seus membros associados. acrescentamos os seguintes termos à pesquisa no Medline: antibody to LAV or antibody to HTLVIII in TI and enghish in la e HTLVIII test or LAV test or HTLVIII testing or LAV testing or HTLVIII screening or LAV screening in TI and english in la. como é costume em algumas de nossas bibliotecas. Essas diferentes entradas nas bases de dados contribuem para a definição dos campos de dados que serão pesquisados. a intermediação na pesquisa. Robert Gallo. criada para auxiliar pesquisadores da área médica.24 Isso resultou em 766 referências bibliográficas para compor o nosso banco de publicações. via Internet. 146 . sem a intermediação de pessoas que auxiliam nessa tarefa. ao final. 791 referências bibliográficas sobre o teste HIV. 25 que gerou inicialmente duas denominações – LAV (Lymphadenopathy Associated Virus) e HTLV-III – para o vírus que receberia mais tarde a denominação HIV (Human Immunodeficiency Virus ). Considerando a disputa estabelecida. sob a coordenação do Dr. Obtivemos. uma home page americana. pode empobrecer. então. isto é.A estratégia utilizada relacionou os vários termos : hiv test or hiv testing or hiv screening in TI and english in la. na procura e no isolamento do vírus causador da AIDS. O manejo direto permite uma melhor avaliação dos resultados obtidos nas diferentes incursões possíveis nos campos de dados disponíveis para pesquisa. por meio da Physicians Home Page (http://php. a amostra de referências resultante. Em nossa experiência. O laboratório do Instituto Pasteur na França. Conectamos o Medline. Luc Montagnier e o laboratório do “National Institutes of Health” (NIH) nos EUA.silverplatter. que à primeira vista parece facilitar a tarefa. Optamos pela pesquisa direta na base de dados Medline. Esta estratégia resultou em mais 25 referências bibliográficas. sob a coordenação do Dr.

todas as referências obtidas em nossa pesquisa acima referida na base de dados Medline. contradições. A análise a partir dos títulos desse banco de publicações.para ser manuseada. essencial para embasar a análise mais refinada em busca das transformações. A primeira buscou a construção do sentido do teste HIV a partir da problematização dos aspectos técnicos. diversidades. Diferentemente dos artigos que têm uma estrutura de elaboração complexa. dos usos do teste. oscilações. “O sentido em construção – o teste HIV numa perspectiva dinâmica”.  As estratégias de análise do banco de publicações Para análise deste conjunto de publicações – por nós denominado banco de publicações – utilizamos duas estratégias de análise complementares: 1. aceitação e. além de facilitarem a identificação das possíveis permanências e rupturas na evolução aparentemente contínua e a-histórica do discurso científico. enfim. revisão. Os procedimentos para análise do banco de publicações compreenderam quatro passos: 147 . as cartas. sua publicação. sua análise. ou seja. incluímos no banco de publicações os editoriais. 2. permanências e rupturas do discurso científico sobre o teste HIV. Estas duas estratégias de análise deram conteúdo ao capítulo intitulado. Além dos artigos. das implicações do uso do teste e das populações testadas ao longo do tempo. a compilação do artigo a ser publicado. análise da argumentação. os comentários e as notícias. dos procedimentos utilizados na testagem. contribuindo para a diversidade do material empírico a ser analisado. esses outros estilos poderiam enriquecer a análise. A revisão das referências bibliográficas do banco de publicações de dois periódicos JAMA e AIDS. A segunda buscou entender os argumentos/ justificativas utilizados para justificar o uso do teste HIV ao longo dos anos. esse primeiro recorte nos permitiu uma visão de conjunto dos temas relacionados ao teste HIV que foram abordados ao longo dos anos. com estrutura bastante constante e que demandam um maior tempo entre a realização do estudo.

assim distribuídas: 464 artigos científicos. mas 47. periódico no qual foram publicadas.41% dessas referências estavam concentradas em apenas 20 desses diferentes periódicos. 148 . ano da publicação e tema abordado e população-alvo da referência. 188 cartas. O quadro geral completo está contido em anexo da dissertação. 30 editoriais. Abaixo apresentamos parte do quadro geral do banco de publicações ano 1991  para ilustrar o resultado desse procedimento. Essas 791 referências bibliográficas foram publicadas em mais de 250 periódicos diferentes.1º Passo: descrição geral do banco de publicações O banco de publicações compunha-se de 791 referências bibliográficas. que passaram a compor o banco de publicações desse estudo. 4 comentários e 1 entrevista. Os temas abordados foram construídos a partir do título das referências. 2º Passo: temas abordados e populações alvo ao longo dos anos De posse das referências bibliográficas. a população-alvo da referência. construímos um quadro composto por 4 colunas: título das referências. sempre que possível. sendo identificada. 104 notícias.

no período de 1985 a 1997. Fonte: referências recuperadas da base de dados Medline. Asians given HIV test results by porters. Washington Supreme Court—compulsory HIV test— State v. counseling and partner notification. 4. CDC recommends voluntary HIV testing for health care workers [news]. permanências e rupturas que porventura pudessem existir. Soc-Sci-Med. PERIÓDICO J-Ir-DentAssoc. HIV testing urged for pregnancy. Supports BSN requirement for taking generalist certification exams. e HTLVIII test or LAV test or HTLVIII testing or LAV testing or HTLVIII screening or LAV screening no campo de busca para Título dos Artigos (TI). Não era nossa pretensão fazer uma descrição e uma análise quantitativa dos temas abordados ao longo do tempo. dessa forma. na noção de processualidade do método qualitativo que orientou 149 . oscilações. HIV testing [editorial]. Am-J-LawMed. Am-FamPhysician. variedades. comment]. utilizando as palavras: hiv test or hiv testing or hiv screening. 3º Passo: os quadros-síntese. mas buscar a diversidade.Quadro 1: Quadro geral do banco de publicações ano 1991 (uma ilustração) TÍTULO 1. comment]. Ethical considerations in HIV testing of health care workers and restrictions on seropositive healthcare workers [news]. aconselhamento e notificação de parceiro testagem obrigatória e a Suprema Corte testagem e comportamento sexual homo ativos questões éticas e restrições ao trabalho testagem prof saúde entrega de resultado por oficiais de justiça testagem mulheres com candidíase vaginal testagem grávidas impelida política de testagem hospitais testagem voluntária p/ prof de saúde testagem obrigatória 7. 11. Am-J-Med. The HIV test and sexual behavior in a sample of homosexual active men. 12. Simplified and less expensive confirmatory HIV testing. ANA House of Delegates opposes mandatory HIV testing. Nurs-Times. apontando contradições. Bull-WorldHealth-Organ. AIDS-Care. 3. antibody to LAV or antibody to HTLVIII. 2. HIV testing in women with vaginal candidiasis [letter. TEMA/POPULAÇÃO inespecífico teste confirmatório simplificado e mais barato testagem. Nurs-Times. 10. 8. Bol-AsocMed-P-R. Md-Nurse. Apoiamo-nos. Farmer. 6. JAMA. 9. The HIV testing policies of US hospitals [letter. 5. HIV testing.

150 . para evidenciar exclusões. Para ilustrar o resultado desse procedimento apresentaremos o quadro síntese das populações-alvo identificadas. muitas vezes. Contudo. a quantificação nos prestou auxilio para abordar a interação dos temas entre si e a relação da parte com o todo. sendo quatro deles elaborados a partir dos temas que foram sendo abordados ao longo dos anos: aspectos técnicos do teste HIV. algumas vezes. até mesmo. Além disso.esse estudo. e um quadro elaborado a partir das populações-alvo identificadas. procedimentos da testagem e implicações do uso do teste HIV e temas gerais. o processo interpretativo para elaboração dessa etapa de análise. utilizamos a quantificação para evidenciar um tema abordado ou. usos do teste HIV. ou seja. construímos cinco quadrossíntese. Para facilitar nosso trabalho analítico.

DST/gen. trat.  receptores de transfusão  pacientes com tuberculose  profissionais de saúde trabalhadores de laboratório X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X 85 86 87 88 89 90 91 92 93 94 95 96 97 151 .  pacientes de hospitais todos os pacientes hospitais de serviços de emergência de unidades de diálise em pré-operatório em UTI  doentes mentais e pac. usuários drogas não em trat  homossexuais  soldados/Marinha/Exército  mulheres mulheres grávidas todas as mulheres grávidas mulheres pobres adolescentes femininas mulheres de alto risco mulheres de 18 a 44 anos  recém-nascidos clientes cl. urolog.Quadro 2: As populações-alvo identificadas no banco de publicações ANO População-alvo  pacientes com AIDS  doadores de sangue  “grupos de risco”  hemofílicos  usuários de droga usuários drogas prog. psiq.

empregados de hospitais cirurgiões dentistas  prisioneiros viajantes intern./estrangeiros  pop. geral de 16 a 44 anos  estudantes de odontologia  adolescentes  prostitutas  pessoas em risco  casais  homens hetero  homens de rua  voluntários saudáveis  pop. aborígene  profissionais boxing  pac. velhos c/ SK pele  adolescentes de alto risco X X X

X X X X X X X X X X X X

X X X X X X X X X X X X X X X X

Fonte: referências recuperadas da base de dados Medline, no período de 1985 a 1997, utilizando as palavras: hiv test or hiv testing or hiv screening; antibody to LAV or antibody to HTLVIII; e HTLVIII test or LAV test or HTLVIII testing or LAV testing or HTLVIII screening or LAV screening no campo de busca para Título dos Artigos (TI).

4º Passo: para que e para quem – o discurso sobre o teste HIV. Como última etapa do processo de análise, buscamos as transformações do discurso sobre o teste HIV, no que dizem respeito ao argumento/justificativa que orientou a realização do teste, nos diferentes períodos. As perguntas que nortearam a análise foram: a) Que função tem o teste nos diferentes períodos? b) A que população se destina/se oferece o teste nos diferentes períodos? Para tanto, utilizamos um subconjunto de referências do banco de publicações. Escolhemos para esta última etapa da análise as referências
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publicadas pelos periódicos AIDS e JAMA. Trabalhamos com um total de 74 referências desses dois periódicos (36 referências do JAMA e 38 do AIDS). Em seguida, passamos à etapa de exame/seleção26, ou seja, esses artigos foram examinados quanto ao seu interesse para esta fase de nossa análise. Do total de 74 referências examinadas, selecionamos 29 referências do periódico JAMA e 27 referências do periódico AIDS; 5 referências do periódico AIDS não foram examinadas na seleção, porque não foram possíveis de serem encontradas no Brasil. 13 referências (7 do JAMA e 6 do AIDS) foram excluídas por tratarem de assuntos específicos relacionados ao teste, que não respondiam as nossas questões no corpo do texto. 5º Passo: por último, passamos à leitura das referências selecionadas buscando respostas para as duas questões acima expostas. Na maior parte das vezes, os argumentos/justificativas que orientavam a realização do teste HIV em um dado artigo eram encontrados na justificativa/introdução dos autores para aquela publicação ou na discussão dos seus resultados. Algumas vezes, proposições concorrenciais eram explicitadas, de forma que, quando possível e pertinente para a análise, esses outros argumentos/justificativas também foram por nós utilizados. Diferentemente dos artigos, nas cartas e nos editoriais selecionados para esta última fase da análise, as respostas que procurávamos poderiam estar em qualquer parte do corpo da referência. A descrição detalhada dos procedimentos de análise do banco de publicações do Medline, assim como o resultado da análise global realizada nesse estudo, fogem aos propósitos deste capítulo. No entanto, vale ressaltar que os desdobramentos do uso do teste HIV, ao longo dos anos, nos apontaram para diversas e, muitas vezes, controversas posições concorrenciais no campo científico. Os títulos “ Testagem HIV. O que é bom para o ganso”, “Testagem: onde estamos?”, “Testagem HIV : fazer ou não fazer o teste”, “Testagem HIV: mais do que apenas uma questão de saúde ”
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Exame/seleção denominação utilizada por Ayres (1997: 105) para uma avaliação mais cuidadosa, buscando identificar, no conteúdo dos artigos, as possibilidades de análise a que se propôs o autor. Ayres, José Ricardo C. M. (1997). Sobre o risco – para compreender a Epidemiologia. Editora: Hucitec, São Paulo, p. 1-112.

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e “Testagem mais questões que respostas” podem ilustrar as controvérsias do debate na época.27 Dessa forma, concluímos que a realização do teste para diagnóstico da infecção pelo HIV nos convida, principalmente a nós profissionais de saúde, a uma reflexão sobre as relações de poder no exercício de nossas atividades profissionais diárias e a considerar agir localmente, pensando globalmente, proposta de Mann et alii (1996) para o enfrentamento da epidemia, ou melhor, da pandemia da infecção HIV/AIDS. Para tanto, exige-se um enfoque para a testagem que considere a ética como tema central de nossas reflexões. A ética como instância com efeito legal, “situada” em normas e comitês, e não mais como princípios gerais pertinentes ao campo da moral (Spink, 1997b). A testagem ética e solidária, em lugar da testagem voluntária, de rotina, compulsória, ou de tantos outros qualificadores dados à testagem ao longo desses anos, poderá (quem sabe?) contribuir no enfrentamento da pandemia da infecção HIV/AIDS. 5. Considerações gerais Conhecer a organização e a estruturação de uma base de dados, além de facilitar nossas pesquisas e contribuir para o aprimoramento das mesmas, pode nos propiciar considerações sobre o movimento de formação e difusão das produções discursivas sobre nosso tema de estudo na literatura indexada, visto que essas bases de dados também são constituintes da produção discursiva da ciência. Da mesma forma, nossos levantamentos bibliográficos também podem ser tomados como discursos, pois são eles construídos ativamente para serem compreendidos no contexto de um projeto de pesquisa. O banco de publicações sobre o teste HIV do Medline, a partir da revisão da literatura médica nessa base de dados foi tomado como discurso e
27

Os títulos originais citados: “HIV testing. What’s good for the goose”, “HIV testing: where are we?”, “HIV testing: to test or not to test”, “HIV testing: more than just a health issue”, “HIV testing. More questions than ans wers”.

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como tal foi produzido na interação do cotidiano de pesquisa para ser apreendido de maneira ativa, estudado a fundo, comentado e criticado, seja no quadro do discurso interior, seja na perspectiva das reações impressas na dissertação de mestrado em questão (Bakhtin, 1995). A construção de um levantamento bibliográfico é um exemplo claro da natureza social da pesquisa. Um levantamento bibliográfico é permeado por inúmeras decisões, todas elas pautadas pelas vicissitudes do pesquisador. Assim, o resultado de um levantamento bibliográfico, tomado como discurso, constitui uma dentre as múltiplas versões possíveis sobre o tema pesquisado. A possibilidade de escolha está inevitavelmente envolvida no cotidiano de pesquisa, uma vez que as práticas discursivas em que uma pessoa poderia se engajar são numerosas e contraditórias.

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CAPÍTULO VII

ENTREVISTA: UMA PRÁTICA DISCURSIVA

Odette de Godoy Pinheiro
A entrevista é amplamente utilizada em psicologia, tanto na prática profissional, nos mais diversos contextos, como em pesquisa. Ao mesmo tempo pode se fundamentar em diferentes abordagens teórico-metodológicas. Toda essa diversidade faz com que “nenhum modelo de prática ou análise possa ser determinado de antemão, abstraindo-se o tópico e o contexto de uma investigação particular” (Banister, 1994).

P

ara não cairmos em definição genérica, ou ao contrario, em enumeração exaustiva de características, optamos por discutir a entrevista tal como foi por nós trabalhada na pesquisa. O sentido das queixas em usuários de um serviço de saúde mental (Pinheiro, 1998). Esta opção permitirá entender de que forma a escolha do instrumento se relaciona com os propósitos do pesquisador e ao mesmo tempo como os pressupostos teóricos nortearam as interpretações. Sem dúvida a forma escolhida para a discussão é parte de posicionamento que privilegia a pesquisa qualitativa com todas as implicações metodológicas desenvolvidas pelos autores do quarto capítulo desta publicação. O nosso interesse, nascido da prática profissional, foi dirigido para o primeiro encontro entre clientes e profissionais de Saúde Mental, num contexto institucional de serviço de saúde. Este encontro, chamado de entrevista inicial ou sessão de triagem, é considerado de extrema importância para que sejam entendidas as necessidades expressas pelos

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usuários e, ao mesmo tempo, se possa atendê-las ou redimensioná-las através da oferta de respostas que correspondem às políticas institucionais. Na maioria das vezes esse atendimento é social é institucionalmente descontextualizado e reduzido a uma relação entre duas pessoas, em que uma delas supostamente tem condições de interpretar o pedido da outra, muito além do que ela mesmo é capaz de expressar, o que é respaldado pelas próprias concepções teóricas do profissional. O foco de nossa investigação, mais especificamente definido, foi este outro que pede ajuda, procurando entender como chega no serviço de saúde (e na saúde mental especificamente) o que pede e a quem pede ajuda. Dito de outra forma, pretendíamos compreender como se constrói a relação inicial entre o usuário e o serviço de saúde mental numa unidade básica de saúde, a partir dos encaminhamentos que precedem o atendimento propriamente dito, na versão da pessoa atendida e à luz de suas vivências passadas. Em serviços desta natureza a entrevista aparece como prática consagrada para o estabelecimento de relação entre clientela e instituição. No entanto, para analisá-la sob o ângulo pretendido se fazia necessário enfocar essa relação despojada de qualquer aproximação diagnostica que reproduziria a relação do cliente que não sabe e o profissional que sabe e buscar uma forma de análise que possibilitasse maior aproximação com a versão do usuário. Na busca de um enfoque teórico metodológico que abrisse perspectivas de respostas ao problema levantado encontramos as propostas da psicologia discursiva entendida por Edwards e Potter (1992), como a psicologia que “geralmente está relacionada com as práticas das pessoas : comunicação, interação, argumento; e com a organização dessas práticas em diferentes tipos de situação” (1992:156). Em Psicologia, segundo os autores, as pesquisas orientadas para o discurso e sua análise surgem a partir da crítica a conceitos teóricos, perspectivas ou práticas analíticas existentes. Os autores reivindicam o reconhecimento da análise do discurso dentro da Psicologia, não apenas como estratégia analítica alternativa, mas
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1996c. os argumentos utilizados e a explicação dada para torná-lo plausível. a ação de relatar é ela mesma explicativa na sua relação com o contexto. Outro aspecto a ser considerado relaciona-se às práticas discursivas como conhecimento social. A continuidade dos estudos e o aprofundamento das leituras nos levaram a substituir o termo discurso pelo de práticas discursivas seguindo critérios expostos no segundo capítulo.como uma perspectiva teórico-metodológica consistente. mas o interesse da análise está em compreender como as noções mentalizadas são construídas e usadas. o sentido. A definição de práticas discursivas de Davies e Harré deixa isto claro: “práticas discursivas são as diferentes maneiras em que as pessoas. através dos discursos ativamente produzem realidades psicológicas e sociais” (1990:45). 1999a. As ações não seriam vistas como consequência de processos ou entidades mentais. o que ocorre numa dada situação. No relato. Em se tratando de relato. A psicologia discursiva. como se elas estivessem distorcendo o que a pessoa realmente pensa e sabe. o movimento. portanto. Não se pretende excluir as variáveis que interferem nesse relato. ou seja. 1996b. discutido no capítulo dois desta coletânea e explicitado em diversas publicações de Spink (1995. está em foco. mas buscar no discurso o processo. 1996:141). dentro de uma sequência de atividades. o que a pessoa traz. 158 . significaria uma oposição a qualquer postura realista ou mentalista. seja sociológica ou psicológica” (Gill. O conceito inclui dois aspectos que podem ser diferentemente privilegiados por autores. significaria não abordar o discurso como “meio de captar uma realidade assumida que permanece sob o discurso. Um primeiro aspecto refere-se à ideia de ação claramente introduzido pelo termo prática. assim entendida. As práticas discursivas são atividades cognitivas quando referidas ao conhecimento social entendido como construção da realidade. Esse conhecimento é funcional e permite a produção do sentido. 1999b).

os trechos de histórias. As mudanças de posição assinaladas pela mobilidade do pronome eu numa conversação apontam para o que os autores denominam de contradições entre os múltiplos selves e a 159 . as figuras. embora inter-relacionados. por meio dele. Os dois aspectos mencionados. em múltiplas e contraditórias narrativas). pretende-se chegar a uma compreensão da pessoa em sua continuidade (identidade) e multiplicidade (selves posicionados. por meio da qual se produzem sentidos e se constroem versões da realidade. fundamentaram a nossa análise e serão abordados na sequência. As posições não são irrevogáveis. Esta interação se dá em um certo contexto. como interação. mas continuamente negociadas. ou seja. Dado que muitas histórias podem ser contadas.Essa aproximação nos levou a considerar a entrevista como prática discursiva. melhor dizendo. através do qual os selves são situados numa conversação como participantes observáveis. os personagens que correspondem ao posicionamento assumido diante do outro que é posicionado por ele. Numa conversa o locutor posiciona-se e posiciona o outro. selecionamos o tom. O termo negociação é encontrado em Davies e Harré ao se referirem ao conceito de posicionamento definido como “um processo discursivo. ou. entendê-la como ação (interação) situada e contextualizada. 1. O conceito de posicionamento vai além de um conceito analítico. entendendo-a como ação. “As concepções que as pessoas têm de si mesmas são desarticuladas até o momento em que elas passam a estar localizadas numa história. pois. mesmo em se tratando de um único evento. quando falamos. numa relação constantemente negociada. Entrevista: interação negociada e posicionamento Ao abordar a entrevista inicial como prática discursiva estamos antes de mais nada. ou seja. subjetivamente coerentes em linhas de história conjuntamente produzidas” (1990:48). segue que temos muitos selves coerentes possíveis” (1990:59).

na cena discursiva muitas vozes se fazem ouvir e não apenas as dos que enunciam perguntas e respostas. poderia favorecer uma aproximação menos formal dos participantes desvinculando-a do atendimento institucional. o que nos interessava. o que foi proposto. em consulta ou sessão de triagem. indicações. de competência social para dar respostas. objeto das análises de Davies e Harré. conselhos. não tem a mobilidade das interações verbais do cotidiano. Aparentemente. ele vai selecionar trechos de sua experiência que incluem ele mesmo em diferentes fases de vida e os outros com ele relacionados. personagens introduzidas. e aceito por elas. A essa variação e descontinuidade é dado um sentido pelo indivíduo. trata-se de uma situação prédefinida. No entanto mesmo em situações como essa ocorrem negociações sutis devido ao posicionamento dos interlocutores. ou uma situação em que os papéis prescritos são os mais atuantes. Uma pessoa pede ajuda a outra a quem é atribuída uma posição de autoridade. diagnósticos. A situação enfocada. Desta forma. Qual a linha narrativa que a pessoa seleciona? Quais os argumentos que utiliza para se incluir ou excluir do atendimento em saúde mental? As personagens que aparecem em seu relato são parte desse argumento. ou seja.necessidade de um posicionamento coerente numa linha de história definida. Em nossa pesquisa as entrevistas foram realizadas na residência das pessoas. dado o 160 . a nosso ver. identificando melhor quais os selves presentes nessa situação e quais as coerências e contradições de tal apresentação. pois é marcada por posições social e institucionalmente estabelecida. Este procedimento. Quando se pergunta ao cliente qual a história de seu problema. A multiplicidade dos selves advém das múltiplas práticas discursivas através das quais o indivíduo participa e posiciona-se. o encontro entre o usuário e o profissional (ou o serviço). A análise das falas nesta situação (linhas de história. a partir de sua experiência singular. interação com a entrevistadora) possibilitam o entendimento desse posicionamento.

foi atendida no mesmo dia pelo clínico geral que pediu alguns exames (eletrocardiograma entre eles). O 3 – E antes disso? L 4 – Antes disso só vinha aqui no fim de semana. de outro.objetivo da investigação. receitou medicamento e a encaminhou para a Saúde Mental. Eu fui só o primeiro dia. Casei no dia 10 de fevereiro e vim para cá. 2 A letra O indica as falas de Odette (a entrevistadora) e L. No trecho inicial da entrevista com Luzia1. com um filho de aproximadamente um ano... que antecederam a realização da entrevista. 161 . Entretanto mesmo nesse contexto existiam posições pré-definidas.. desta casa. Meu marido tem uns sete anos que mora aqui. as de Luzia (a entrevistada). a pessoa (possível cliente do setor) que se dispôs a ser entrevistada. Após o nascimento do filho. Aí… Depois que saí de lá. Os números correspondem à sequência das falas. o psicólogo que fazia uma pesquisa sobre o percurso das pessoas que chegavam ao setor de Saúde Mental do Centro de Saúde – psicólogo esse que não trabalhava no local – e. havia. quem fala e o que é falado. Nascida na Bahia. Considerado caso para pronto atendimento. Aí me deu crise. procurou novamente o ginecologista (suspeita de gravidez) dado o “nervosismo intenso”. Depois que casei. 1 Luzia é uma mulher de 23 anos. Cursou o primeiro grau até a quinta série. casada. de um lado. quando iniciou o acompanhamento prénatal com o ginecologista. podemos perceber a busca de definição da situação e das posições relativas dos interlocutores: o que está ocorrendo. reside em São Paulo há aproximadamente seis anos. A partir das apresentações feitas no Centro de Saúde. O 12 – Faz tempo que você mora aqui? L 2 – Acho que tem um ano e meio. o fim de semana passava aqui. mais ou menos.. O 5 – E você trabalhava? O que você fazia? L 6 – Eu trabalhava de empregada doméstica lá na Vila Nova Conceição e morava no emprego.1 Há um ano fez sua matrícula no Centro de Saúde. Depois que casei. nunca mais eu arrumei emprego. depois que conheci ele. O último que eu arrumei faz 22 dias.

Cursou o primeiro grau incompleto e procurou o Centro de Saúde para exames ginecológicos de rotina. Luzia responde. a de conferir dados obtidos na matrícula. Na ocasião da matrícula. usando o local de moradia presente como referência e não ela (onde morava ou o que fazia antes). ou seja. A uma pergunta um tanto vaga da entrevistadora (O 3). A inclusão da crise neste momento também indica que é na posição de possível cliente do serviço de Saúde Mental que Luzia fala. entre suas finalidades. foi encaminhada ao setor de Saúde Mental. você está dizendo? O5 – Você entendeu aqui em São Paulo? R6 – Não… entendi aqui no prédio. 162 . Aqui em São Paulo. como se estivesse preenchendo uma ficha. A posição atribuída ao pesquisador é a de alguém do Centro e o sentido da resposta vai nessa direção. Com Rosa3 a outra pessoa entrevistada o diálogo inicial é o que se segue: O1 – Há quanto tempo você mora aqui? R2 – Eu… vai fazer… quatro anos. 3 Rosa é uma mulher de 31 anos. as pessoas atendidas devem residir na área de abrangência do serviço. atendendo à sua solicitação. verificando o local de moradia que é o critério de atendimento. Luzia responde com dados objetivos e datas precisas. O3– Sempre neste lugar? R4 – Não. dando à pergunta feita o sentido de registro de informações. Eu morei no Brás uns quatro anos. residente há sete anos em São Paulo. A visita domiciliar do profissional do Centro de Saúde tem. nascida no Nordeste. e… depois a gente viemos pra cá. a fim de estabelecer o diálogo e iniciar a entrevista. O7 – E em São Paulo? R8 – Em São Paulo vai fazer oito anos. o que a coloca na posição de usuária do serviço.À nossa primeira pergunta.

Como dissemos anteriormente. Você sabe o que é. a gente e o povo. evidência a busca de um enquadre que possibilite a comunicação e a definição de posições dos interlocutores. entendeu? Rosa responde referindo-se ao lugar onde mora atualmente. que irão dar consistência à história e aos argumentos apresentados. 163 . na entrevista são evocados o que denominamos personagens. o termo é traduzido para “lésbica”. invertendo uma posição definida pela assimetria de conhecimentos ou posição social. irmã. Na sequência. A sequência de perguntas e respostas. marido). Dada a não compreensão da entrevistadora. Dão condições para percebermos as alterações sutis que ocorrem no posicionamento das pessoas em sua interação. A pergunta sobre quantas pessoas moram no apartamento e desde quando. R16 – Somos lebis… lésbicas. O diálogo estabelece as posições dos interlocutores. um “entendido” e o outro “que não entende”.O13 – Lá no Brás também morava junto com eles? R14 – Não. A palavra “entendida” se refere ao código de um grupo e a não compreensão da entrevistadora a situa em outro grupo. nós somos entendidas. mas não tem certeza se é esse o sentido da pergunta. essa definição se torna mais clara. Na entrevista de Luzia foram destacados os seguintes personagens: ela (as patroas) eles (os médicos). levam Rosa a esclarecer (veja bem é o que introduz a afirmação) que ela e a irmã são “entendidas”. né? O15 – Não. palavra que Rosa pronuncia com alguma dificuldade. mãe. veja bem… Eu e minha irmã. No trecho que se segue vários desses personagens são evocados. Diante disso a entrevistadora fica em dúvida quanto à resposta dada. membros da família (pai. semelhante a um diálogo de surdos.

colocando-a dentro da normalidade. Luzia traz a fala do povo (o sangue preso causa a crise). Tem mulher que leva até um ano pra descer (pausa). do mesmo jeito que ela puxou ao pai) ou os que estão do 164 . Falei como eu vou engravidar se tenho uma criança de cinco meses? Vou ter outro agora? Sendo que eu estava amamentando. e corresponde à teoria explicativa das pessoas de seu universo. Usa a autoridade da ginecologista para responder à patroa e como argumento que assegura a sua posição de doente (não está grávida e tem um problema). A voz do povo “está na sua cabeça”. Alguns deles apareceram na entrevista de Luzia. Aí fico em dúvida! Tem tanta coisa que o povo põe na cabeça da gente que. Por mais que as minhas regras sempre foi descontrolada. médicos. No relato de Rosa aparecem: família. as explicações que ouve no cotidiano e que a colocam em situação de dúvida. c omo Luzia relata. Porque ela achava que eu tava grávida. na ginecologista e ela falou que isto é normal. Tem gente que fala: “Ah. A voz da patroa é a voz do opressor que.. Parei de amamentar com 4 meses. a patroa levanta a suspeita (o que coloca Luzia na posição de infratora). mas emergem num contexto diferente. é a voz que emerge de seu posicionamento de empregada doméstica explorada e incompreendida. Suspeitava que eu tava grávida. “quer o trabalho e não a pessoa”. que são trazidos pela narrativa de Luzia. gente. Nesse trecho temos o confronto de vários personagens (vozes). Os membros da família que aparecem no decorrer da história contada são trazidos como pessoas iguais a ela (a irmã que é entendida. Deus. (em tom de voz mais alto). Só que passei na médica.L29 – Porque ela suspeitava do que eu tinha. nunca desceram certo. Ele está com 6 meses. até agora não desceu.. a irmã que é mais escura e que. afirmando que muitas mulheres demoram para menstruar depois que interrompem a amamentação. A voz da médica é a da autoridade médica que pode atestar a ausência de gravidez. este peso que você sente na cabeça. pode até ser por conta do sangue que está preso. Em relação à crise. amigos. pontuando uma história de discriminação.

transgredindo regras que instituem um local apropriado para as orações. sinceramente. Deus mantém e atesta sua sanidade. R. Deus é invocado para fortalecer sua posição. pode até ser.. mas “Deus a quer ver feliz do jeito que for”. mas ao mesmo tempo pede ajuda e compreensão para o que chama de problemas psicológicos existentes desde a sua infância. De repente.. é normal. quem soluciona os seus problemas. distinguindo sua religiosidade das práticas religiosas da Igreja. No entanto... a ilumina.Para mim. até mesmo no banheiro. não é Deus é outro personagem que destacamos na história de Rosa. problema.. a irmã que a humilhava por ter puxado o pai negro).22… muita gente acha que isto é. O seu posicionamento é de minoria incompreendida. como ilustra o trecho a seguir onde aparece gente (muita gente) como personagem. que é até de doença. não aceitaria “a vida que leva”. 165 . porém argumenta “mas se eu não estou fazendo mal para ninguém” e conclui “se estou fazen do mal é para mim mesma”.. 62 … Pra mim. enqua nto tal. Aparece como quem a põe no lugar. Não encaro como bicho de sete cabeças.lado oposto (irmã que não aceita o fato de ser lésbica. A instituição.. Suas orações podem ocorrer em qualquer lugar. Rosa parece não conseguir nunca fechar a questão como se sempre surgisse uma nova voz contestando sua afirmação. Seus personagens são parte de argumentos algumas vezes contraditórios de que a sua escolha sexual não é doença que justifique o atendimento de um profissional. quem a protege de pensamentos negativos. no final da entrevista. Quando o tema religião é reintroduzido pela entrevistadora mais no final da entrevista. é a pessoa que quer se esconder. ou seja.. vai aparecer uma dúvida “Para Deus o que eu faço pode não ser legal”. só que eu não penso assim. R. como muita gente fala que é isto. Rosa fala de Deus.

intralinguística. mas no discurso que faz da linguagem a ferramenta para a construção da realidade. estamos assumindo que os sentidos não estão na linguagem enquanto materialidade. para Shotter. Vivemos num mundo de sentidos conflitantes e contraditórios. 166 . Shotter (1993) afirma que. Ao relacionar práticas discursivas com produção de sentidos. Lidamos não com o sentido dado pelo significado de uma palavra ou conceito que espelham o mundo real. o indivíduo vai se posicionando e buscando uma coerência discursiva. Essas circunstâncias são parcialmente estruturadas e o sentido que damos ou emprestamos a elas.2. o que nos leva à escolha de versões entre as múltiplas existentes. socialmente negociada e construída” (1993:8). dentro de uma realidade (imediata ou proposta). recolhendo e processando narrativas que vão lhe dar a identidade. Lidamos com uma realidade polissêmica e discursiva. A linguagem. Versões compartilhadas por diferentes grupos sociais e cristalizadas em discursos oficiais ou institucionalizados são difusamente veiculadas pelos meios de comunicação e pelo próprio mundo interanimado em que vivemos. inseparável da pessoa que a conhece. Segundo o autor. as ciências comportamentais e sociais vêm aumentando seu interesse pelo como falamos e escrevemos sobre determinados assuntos mais do que pela natureza dos assuntos abordados. mas com sentidos múltiplos. Produção de sentidos na entrevista. vem sendo seriamente assumido que “damos sentido para tudo o que fazemos (antes. dá uma forma e possibilita a comunicação desse sentido aos que estão ao nosso redor e que falam a mesma linguagem. nos últimos anos. durante ou depois da ação). Ao longo de sua história de vida. é um instrumento ou ferramenta psicológica pela qual estabelecemos diferentes relações com os que nos cercam e produzimos sentido para nossas circunstâncias.

poderão falar ou ouvir. afirma que. incluindo interlocutores presentes e ausentes. são agrupadas e ressignificadas. processadas por ela ao longo de suas experiências de vida e que. O sentido é dado em função do contexto.Em outras palavras. o sentido dado à situação presente é prenhe de funcionalidade. É sob esse ângulo que o diálogo amplia-se. No entanto. não haveria queixa. A clássica pergunta que inaugura a relação do profissional de saúde com seu cliente: “Qual o motivo de sua vinda? Qual o seu problema?”. na situação de consulta. inibindo o aparecimento da polissemia. imaginariamente. Ao mesmo tempo. a argumentação tende a ser afetada pela assimetria da relação. será definida a resposta da instituição ao problema. dado que. por exemplo. mas todos “os outros” que ainda falam. pede uma resposta que é a busca de sentido para o mal que o aflige. a pessoa recorre às informações que circulam em seu meio. Sem a atribuição de sentido. que ainda ouvem ou que. nem a procura de uma ajuda ou a efetivação de outras ações que aliviam o sofrimento. buscando um sentido para o sofrimento para o qual pede atenção e solução. a partir desse contato. há a possibilidade de aparecerem múltiplas narrativas dentro dessa aparente unidade. recorrendo a pessoa – muitas vezes de forma contraditória – a discursos médicos ou psicológicos. tendo em vista a interação que aí se estabelece. a saberes populares e a conhecimentos divulgados através dos meios de comunicação. Para buscar o sentido atribuído ao sofrimento psíquico utilizamos os procedimentos apresentados no capítulo quatro. Quando Spink (1996c) discorre sobre a polissemia e a multiplicidade de narrativas sobre os eventos do mundo. Quando o usuário procura um serviço de saúde. Para responder às perguntas feitas. o sentido é produzido interativamente e a interação presente não inclui apenas alguém que fala e um outro que ouve. Após a apreensão global da entrevista em seus aspectos dinâmicos e interativos foi possível identificar 167 . num contexto de relação socialmente instituída (como. vai ter que recorrer aos relatos verbais referentes ao seu mal-estar. qualquer que seja a natureza de seu sofrimento. a do profissional da saúde com o cliente).

tendo o objetivo da pesquisa como pano de fundo. o que faz o profissional. denominado pelas autoras de Mapas de Associação de Ideias (ver capítulo quatro) e foi por nós apresentado (Pinheiro.1993. as descrições feitas e as explicações da pessoa entrevistada ou de outras pessoas mencionadas em seu relato (ver Quadros 1A 1B e 1C). às ajudas profissionais e ao atendimento no Centro de Saúde. quem atendeu e como avaliou a efetividade do tratamento e/ou atendimento recebidos (ver Quadro 2). os Mapas possibilitaram as interpretações que se seguem onde se inserem referências a autor (Duarte. Os trechos da entrevista referentes ao sofrimento psíquico. em colunas correspondentes às categorias descritivas que emergiram dos objetivos da pesquisa e da leitura da própria entrevista. 4 Neste capítulo estamos om compreensão do leitor da metodologia como um todo. como explica. 168 . c) Centro de Saúde: como chega. 1994).1.temas que emergiram e foram introduzidos pela entrevistadora ou pessoa entrevistada. Esse mapeamento corresponde à técnica de análise utilizada por Spink e Gimenez (1994). Em seguida. quem atende. como descreve. foram analisados os trechos que diziam respeito às ajudas profissionais anteriores ao atendimento atual: por que procurou. o que diz. foram transcritos.4 2. o que falam os outros. 1988. o que falam. como avalia. respeitada a sequência da enunciação. cujos trabalhos sobre o assunto não podem ser ignorados. b) ajudas profissionais: como chega. onde chega. quem atende. como avalia. 1998) em quadros referentes a: a) sofrimento psíquico: como nomeia. As crises de Luzia Analisamos em primeiro lugar os trechos da entrevista em que apareciam os nomes dados ao sofrimento psíquico. Os temas corresponderam a uma primeira organização das falas. Na entrevista de Luzia. quem encaminhou.

aí eu vou comer.. como é isso que você sente. O22 – E daí? Você fica sentindo isso e ... o coração fica acelerado. Depois que tomo Diazepan melhora. de onde vem.. O24 – E aí você foi trabalhar e . (em tom de voz mais alto) Aí me dá aquela fome..O SOFRIMENTO PSÍQUICO: Trecho da entrevista de L9 a L37 COMO NOMEIA L9 -… Aí me deu crise.. O16 – Você acha que está mais na barriga? Onde você sente? L17 – ( sorrindo) A ansiedade O18 – E você não sabe sinto mais no peito. sinto a minha cabeça ficar bastante pesada.QUADRO 1A . aí eu não sustento(?).. De repente torna a começar tudo novamente. aquela tremura. L23 – Aí eu tomo Diazepan. mais me dá tremura.... Às vezes me dá até dor de barriga (faz gestos acompanhando) Sem ter motivo nenhum. Às vezes a minha cabeça. O14 – Mas o que você sente L13 – Sem ter motivo para chamar ansiedade? nenhum L15 – Fico assim com uma agonia assim por dentro de mim.. O20 – E começa de repente? L21 – Começa de repente.. Tem dia que eu sinto ansiedade.. O12 – Como é ansiedade. Quanto mais eu como. Aí a mulher veio me trazer aqui e daí não teve nem como trabalhar mais… porque… COMO DESCREVE COMO EXPLICA O QUE DIZEM OS OUTROS O10 – Como é que deu crise? o que você sente? L11 – Às vezes… às vezes..eu sinto várias espécies diferentes. L19 – Não sei. L25 – Fui 169 .

. Porque ela achava que eu tava grávida.. Aí ela veio me trazer em casa . né. Não quis explicar tudo para ela. a cabeça muito pesada. Por mais que as minhas regras sempre foi descontrolada..Ela falou que gostou do meu trabalho e tudo. que era o que sempre sentia Aí ela falou. Sendo que eu estava amamentando. já tinha feito todas as coisas. (em tom de voz mais alto.. . perguntou se eu queria tomar remédio. COMO DESCREVE COMO EXPLICA O QUE DIZEM OS OUTROS O26– E o que você fez? L27– Aí eu só falei para ela que não estava me sentindo bem. estava servindo o almoço e na hora que eu estava servindo o almoço para eles começou a me dar crise.... nunca desceram certo. O28– E por quê? L29– Porque ela suspeitava do que eu tinha.. Ele está com 6 170 . Parei de amamentar com 4 meses. mas queria os exames para ela ver.) Falei como eu vou engravidar se tenho uma criança de cinco meses? ...COMO NOMEIA trabalhar. Só falei que estava sentindo dor de cabeça.

. na ginecologista e ela falou que isto é normal. este peso que você sente na cabeça pode até ser por conta do sangue que está preso. Eu fiquei mais presa por dentro. Aí fico em dúvida.. sempre reclamando... O32– Falavam isso. até agora não desceu O QUE DIZEM OS OUTROS Só que passei na médica. Tinha gente que falava: “Você parece que não é uma menina são... Tem mulher que leva até um ano pra descer... como eu sempre sentia cansaço e falta de ar. às vezes o povo suspeitava: “Será que você não sofre do coração? E isto e aquilo outro . Você está sempre se queixando de alguma coisa. De uns tempos para cá eu dei para ficar presa.. L33– Falavam isso.. 171 .COMO NOMEIA COMO DESCREVE COMO EXPLICA meses.. Não ando reclamando para ninguém. Tem tanta coisa que o povo põe na cabeça da gente que. assim.. O34 – E o que você acha? Sempre reclama? L35 – Olha eu sempre. (pausa) Tem gente que fala “Ah. O30– Que coisas que as pessoas já falaram para você? L31– Há muito tempo atrás.

. 172 . Eu falo: “Ah meu Deus.. Então quando eu lembro e penso nisso...COMO NOMEIA COMO DESCREVE bastante assustada. me dá medo.. Porque eu estou boa e de repente ela começa. e.. né? Às vezes. (inaudível) COMO EXPLICA O QUE DIZEM OS OUTROS O36 – Você pensa às vezes que pode ser isto? L37 – Ah! eu nem sei o que pensar. O meu pai e os meus irmãos a maioria do tempo passa mais (inaudível) do que normal. parece que eu vou morrer. isto é uma coisa que me perturba bastante. será que eu vou morrer?” Fico lembrando das pessoas que já morreram.

chorava. eu acordo com o coração disparado.começando assim com ansiedade assim…eu já tava trabalhando em casa de família… isto eu já tenho desde os meus dezenove anos. Às vezes eu estou dormindo. Porque eu estou boa e de repente ela começa. depois é que teve as crises. Mesmo eu estando trabalhando. chorava. chorava bastante. O62 – Esta é a crise? L63 – Aí de uns tempos para cá o meu braço deu para ficar dormente… COMO DESCREVE COMO EXPLICA O QUE DIZEM OS OUTROS 173 .O SOFRIMENTO PSÍQUICO: Trecho da entrevista de O54 a L63 COMO NOMEIA O54 – Estas coisas que você sente. Fico assustada. L59 – Só que antes a única crise que eu tinha era de chorar Chorava. e a cabeça meio pesada. O60 – Então esta crise que era de chorar ficou como? L61 – Depois que esta crise caiu ( ? ) …então veio este problema..QUADRO 1B . que idade você tinha quando sentiu a primeira vez? L55 – Eu estava com…eu . O56 – Desde os dezenove anos que você começou a sentir assim? L57 – Ah! Eu nem sei o que pensar.. né? O58 – Então você ficava nervosa.

compreendem um núcleo mais ou menos constante de sintomas físicos. Era tão ruim. Os psicológicos. junto da janela.. como as denomina. Eu tava dormindo. A crise abrange uma série de acontecimentos físicos (sintomas – o que aparece): coração acelerado. daí eu tomava aquele susto. tremura. são. dor na barriga.. Duarte (1988) afirma que as perturbações físico morais1. ansiedade... Não sei se é porque na gravidez dele eu também levei bastante susto …Tomei muito susto na gravidez dele.. cabeça pesada.me dá essas crises… . refere-se a um núcleo explicativo em que a comida aparece como transmitindo força ao organismo. 1 Para Duarte. se assim pudéssemos chamá-los. No seu estudo. O nervoso está entre as perturbações de origem física. agonia. Luzia usa termos semelhantes ao explicar o que acontece quando se sente mal. que ele denomina físico-moral.O SOFRIMENTO PSÍQUICO: Trecho da entrevista de L113 a L115 COMO NOMEIA L113 – A única coisa é isso. O114 – Susto com o quê? L115 – Aqui mora muitas pessoas que bebe. Ensaiando um mapeamento dos sintomas do nervoso.QUADRO 1C . mas que tem um sentido no espaço cultural do grupo estudado. espacialmente situados tendo o corpo como referência: ansiedade no peito. embaralha-as e interliga-as. Esses sintomas incluem os mencionados por Luzia e vão desde a tremura até o desmaio e a perda de consciência. 174 . frequentemente chamada de sustância. orgânica e as de caráter religioso. de algum modo. agonia dentro. sendo o tema introduzido por ela mesma no início da entrevista e em vários momentos reintroduzido. Eles brigava tarde da noite. sentido este que não pode ser isolado dos discursos médicos e psicológicos difundidos em nossa sociedade. o nervoso das classes urbanas trabalhadoras tem um sentido ambíguo. … A gente ficava com nervoso COMO DESCREVE COMO EXPLICA OS OUTROS Luzia chama de crise o que a levou a procurar o atendimento na Saúde Mental..

ela afirma que é comumente usado quando as pessoas comem e saciam a fome. L85 -… Na família de meu pai. Eles brigava tarde da noite. de vez em quando. justificando a necessidade de atendimento urgente. perturbação. Crise é a palavra que dá sentido para o que sente. aí eu não sustento(2). daí eu tomava aquele susto. semelhantes às dela. todo mundo é assim. tal como as crises de nervos mencionadas por Duarte (1988). de forma dramática. dá crise.. aquela tremura. Todos. O susto na gravidez pode ser a origem da crise. fúria.De repente torna a começar tudo novamente… Quanto mais eu com. aí eu vou comer.. Ela relaciona o repentino da crise é relacionado ao susto que leva. O88 – O que eles fazem? 2 Comentando o termo utilizado com pessoa do Nordeste. A crise também aparece como outro modo de se referir ao “nervoso” característico da família: as crises epilética das irmãs e as do pai.o mais me dá tremura. junto da janela. Já os chamados “morais” por Duarte (1988) equivaleriam aos que estamos chamando de psíquicos e incluem tristeza. agitação. 175 . L113 -… me dá essas crises… Não sei se é porque na gravidez dele eu também levei bastante susto… Tomei muito susto na gravidez dele… O 114 – Susto com o quê? L115 – Aqui mora muitas pessoas que bebe. Eu tava dormindo.. Era tão ruim. O86 – Assim como? L87 – Todos são nervosos.L3 – Aí eu tomo Diazepan. Depois que tomo Diazepan melhora… (em tom de voz mais alto) Aí me dá aquela fome. ao ser acordada à noite e que “acelera o coração”. depressão. Várias vezes é repetido que a crise ocorre “de repente” “sem motivo”.

já sente a cabeça pesada. se solta sob a forma de crise: choro incontrolável no passado e sintomas físicos agora. hoje eles não desmaiam mais porque fizeram tratamento. Como é a crise deles? L91 – Oi. chorava. tem insônia… Relacionando esse trecho da entrevista com outros em que aparece o nervoso (a patroa que era nervosa. chorava bastante. Tem uns que desmaia. A crise é episódica (“de vez em quando dá crise”) e o nervoso permanente (“todos são nervosos”). Chorava.L89 – O meu pai toma (nome de remédio) já tem mais de trinta anos.meu pai... Ao contar a história de seus problemas. tem os que desmaia.. a empregada…). fica preso. Só que hoje não tem mais. Acho que… hoje foi que veio… L59 –… antes a única crise que eu tinha era de chorar. L57 – Só que eu não sentia essas crises assim…sabe…ficava com o nervoso preso por dentro de mim. 176 . já meu pai.. por exemplo. O90 – Você disse que todos eles são nervosos e têm crise. podemos dizer que crise e nervoso dão sentido para diferentes coisas. a distinção aparece novamente. O nervoso que não se expressa.

Tem mulher que fica assim… Então ele falou que eu tinha que fazer um tratamento e que eu continuasse a tomar o Diazepan. as queixas aparecem muito cedo: o povo achava 177 .AS AJUDAS PROFISSIONAIS ANTERIORES: Trechos da entrevista de L71 COMO CHEGA ONDE CHEGA/ QUEM ATENDE L71 – . na verdade eu vinha me sentindo … como ela veio a apertar bastante. Só que a próxima consulta. como vai demorar. Em seu relato. eu sempre estava indo no Pronto Socorro.QUADRO 2 . que eu tinha que me controlar E eu ia na Santa Casa eles só passou Diazepan para mim. sempre eu estava indo na Vitorino Camilo. Aí eles falaram para mim que eu tinha que fazer um tratamento. vê se você faz isto particular. Analisando o quadro 2 referente às ajudas profissionais anteriores: motivos da procura e os atendimentos recebido percebemos como Luzia foi buscando as explicações e os nomes que justificavam a busca de ajuda ou tratamento. Então eles falavam para mim que isto era nervoso. Tirava a pressão.. que eu pago para você”. na Santa Casa O QUE FAZ/ O QUE DIZ O PROFISSIONAL COMO AVALIA O ATENDIMENTO Na Vitorino Camilo. quando eu chegava eles só me aplicava injeção. aí tava muito longe. né? Teve um médico que chegou a suspeitar que foi do parto. a pressão estava boa. né? Aí meu pai falou: “Então. consulta que ele passou ainda seria no dia 17 deste mês..

2. Luzia diz que só deram injeção. portanto. levam-na a pensar em atendimento de médico particular (sugestão do pai) como alternativa. pagando. Na história das doenças familiares. A sexualidade de Rosa Pela recorrência do tema e pelas associações que Rosa faz entre sua opção sexual e seus problemas psicológicos. é indefinido. era nervoso que ela deveria controlar. Rosa se posiciona. destacado no quadro 2 (L71). para ela. em suas falas. assim. como se sente. não é lá que busca atendimento. A conotação orgânica da doença e o agravamento das mesmas levam-na ao Pronto Socorro e à Santa Casa. foi destacado e analisado a partir de Mapas de Associação de Ideias (Quadros 3 A e 3 B) que indicam como. considera que.que poderia sofrer do coração ou não ser sadio. O médico. conforme a maioria das pessoas usuárias da rede pública. A demora do atendimento em serviços públicos associada à falta de atenção dos médicos. disse que ela não tinha nada. 2. Luzia. como é por ela chamado). ao medir a pressão e constatar que estava normal. No trecho da entrevista. em seu relato. contando o que a levou a procurar ajuda de profissionais. A doença orgânica e a sensação de morte justificariam o pedido de atenção urgente. em época em que a família tinha melhores condições de vida. Apesar de Luzia já estar matriculada no Centro de Saúde (no postinho. Mas ninguém comprova nada e. só deram Diazepan. como explica e o que dizem os outros a respeito 178 . Os atendimentos que foi recebendo nos diferentes locais deixam-na oscilante entre uma doença orgânica e um nervoso (moral?). mostrando que esperava algo mais. Ao relatar o atendimento médico recebido nessas instituições. Luzia conta o percurso seguido. é sugerido um tratamento que. ou ela é uma descontrolada ou o problema está relacionado ao parto e. o chefe arcava com as despesas médicas. como é nomeado o seu sofrimento. obterá um atendimento imediato e mais eficaz. apresenta o pai como provedor e.

O19 – E para você isto é tranquilo? R20 – Sossegado. Bem.Tenho seis anos de entendida. que eu quero… Não vou lhe dizer tipo como é relação com homem porque eu nunca tive.. nós somos entendidas. R22 – … até os meus 24 anos. Homem para mim é amizade e mais nada Quer dizer… COMO SE SENTE COMO EXPLICA O QUE DIZEM OS OUTROS 179 . não sinto mesmo. né? O primeiro caso e agora o segundo. quando a gente morava no Brás. né? O15 – Não. nunca tive contato com homem. tenho agora 31. não mora comigo.. antes de eu me descobrir. veja bem… Eu e minha irmã. tá? E não sinto vontade. né? Eu convivi com duas pessoas. o caso da minha irmã tinha este apartamento e então convidou a gente para vir morar cá.. Você sabe o que é.QUADRO 3A – SEXUALIDADE: Trecho da entrevista de R14 a R22 COMO SE POSICIONA R14 -Não. muito menos com mulher. O17 – Não mora com você… R18 – Não.. Depois dos 24 anos. E… então… a gente mora com o caso dela e eu tenho o meu caso a parte. né?… uhm… eu já tinha assim os meus problemas psicológicos. Só no final de semana… uma vez ou duas por semana.lésbicas. R16 – Somos lebis. entendeu? Então. Eu acho que é psicológico… então eu acho que isto aí não influi em nada. É uma coisa que eu gosto.

Me sinto bem… 180 . sinceramente.. Para mim não é. É uma coisa que eu gosto realmente de fazer.muita gente acha que isto é… problema… é a pessoa que quer se esconder..

só que eu prefiro mais sozinha...doença eu já tinha. Todo mundo sabe… minha família. né? Falou que isto poderia ser doença não sei o que… que leva… vai tratar… -Imagine! Doença nada. como muita gente fala… que é isto… que é até doença. né. né. não tenho mesmo... Sou assumida. De repente pode até ser.mesmo lá no nordeste. porque tipo assim muita gente não dá pra falar assim à vontade... Não tenho vergonha... a minha irmã. da sua relação sexual. Isto pra mim não é vergonha. e você tem que falar.chorou muito. porque queria fazer o meu casamento igual fez da mais nova. só que eu não penso assim. Uma das minhas irmãs que demorou a aceitar a ideia..conversei com ela.. se descabelou. O63 – Quem você já ouviu falar isto.. Normal. 181 . COMO SE SENTE COMO EXPLICA O QUE DIZEM OS OUTROS . que é doença? Que pessoas falam isto? R64 – Ah ! Amizades.. Se é doença eu já tinha bem antes. Não encaro como um bicho sete cabeças. Eu não ia falar que tinha contato com homem se eu não tinha. e tal. Pra mim é normal. Eu levo… como… normal. Tanto é que eu falei pra esta menina… (a atendente do setor de matrícula). Inclusive ela é mãe de santo.. né? Não tenho vergonha de dizer que sou entendida. não é peso nenhum. porque elas pergunta.QUADRO 3B – SEXUALIDADE: Trecho da entrevista de R60 a R70 COMO SE POSICIONA R62 – … Bom… eu achei legal. né..

. o que é traduzido por “lésbica”. Rosa explica sua escolha sexual dizendo: R22 -… até os meus 24 anos. nunca tive contato com homem. é assumida.A escolha sexual de Rosa aparece como tema recorrente na entrevista. as afirmações feitas a respeito da escolha são: “é sossegado. Na fala inicial. de “pecados”. é normal. sugerida pela entrevistadora que pergunta: “Para você... Depois dos 24 anos. né? O primeiro caso e agora o segundo. numa leitura ao inverso. não tem vergonha”.” e. Destaca. isso é tranquilo?” – as outras afirmações remetem aos “outros” frente aos quais se posiciona. como seus “casos”. de certa forma. tenho agora 31. Rosa usa para descrever sua escolha as seguintes expressões: “É uma coisa que eu gosto. Quando se diz “assumida”. palavra ambígua que indica a estabilidade relativa dessa relação. como se houvesse graus de “castidade” ou. o aspecto do homoerotismo de uma 182 . Além de se identificar como “entendida”. a primeira e a atual. conforme foi comentado anterior mente. Com exceção da primeira palavra – que foi. É introduzido logo no início e é retomado por Rosa ao contar a história dos seus “problemas psicológicos” e ao falar sobre o atendimento no Centro de Saúde. A expressão “muito menos com mulheres” acentua a diferença entre as escolhas de parceiro. Me sinto bem…”. encontramos condensados todos os conteúdos que ressurgirão depois. No presente. mais adiante.. muito menos com mulher. diz:” é uma coisa que eu gosto realmente de fazer. Rosa se refere às suas companheiras. que eu quero. nessa última frase.Tenho seis anos de entendida. né? Eu convivi com duas pessoas. como se fosse a abertura de uma peça musical cujo tema se desenvolverá em múltiplas variações. bem como seu caráter marginal e transgressor diante do que é considerado uma relação sexual socialmente aceitável.

Há um entrelaçamento entre o aspecto moral (comportamento diferente e proibido. quando R avalia a triagem feita em grupo. né. mas antecipandose a qualquer conclusão da entrevistadora (ou do Centro de Saúde)..eu achei legal. Tanto é que eu falei pra esta menina… ( a atendente do setor de matrícula). e você tem que falar. não é peso nenhum. Todo mundo sabe… minha família. Mas Rosa refere-se ao tempo anterior à sua primeira relação como “antes de me descobrir”. né. ou seja. Desde suas primeiras falas. da sua relação sexual. Mas necessita de atendimento na Saúde Mental porque existe um sofrimento que pode estar até relacionado com sua escolha. e tal. Sou assumida. como muita gente fala… que é isto… que é até doença. né? Não tenho vergonha de dizer que sou entendida. Na medida em que se assume como homossexual publicamente. de que isso poderia ser atribuído ao fato de ser entendida. Normal. no Centro de Saúde: R62 – Bom. argumenta dizendo que não tem vergonha. não tenho mesmo. as duas coisas se confundem. mas não é a causa. O tema reaparece no final da entrevista. que todo mundo sabe e que. não tenho vergonha. só que eu não penso assim. fortalecendo o argumento de que não tem vergonha do que faz. enquanto.. inclusive. Não encaro como um bicho de sete cabeças. Para Rosa.. no Setor de Matrícula do Centro de Saúde. este é um eu “doente” que esconde o “normal”. De repente.. Pra mim é normal. Rosa diz que não fica à vontade com muita gente. escondido) e o físico (doença que deve ser tratada). falou disso para a atendente. né. Eu levo… como… normal. pode até ser. para ela. porque elas pergunta. para os outros. os “outros” aparecem. Isto pra mim não é vergonha. 183 . conversei com ela.forma explícita e inequívoca... só que eu prefiro mais sozinha…porque tipo assim muita gente não dá pra falar assim à vontade. então isso não é doença. Eu não ia falar que tinha contato com homem se eu não tinha. Os outros acham que sua preferência sexual surge em “pessoa que quer se esconder”. o eu verdadeiro foi descoberto.

No contexto de uma consulta. as pessoas entrevistadas trouxeram suas queixas. 184 . Tal como acontece em situação de primeira consulta. por mais que o profissional se proponha ao “ouvir empático” ao compreender. o que define a interação é o posicionamento de alguém que pesquisa o que provoca as queixas (doenças. problemas etc. e que tem frente ao queixoso uma posição legitimada de alguém que a partir de suas descobertas é capaz de resolver o problema e\ou aliviar o sofrimento.) ou que dinamismos explicariam essa forma de se manifestarem. fundamentada em abordagens teóricometodológicas as mais diversas. xiii). a entrevista pode ser utilizada nos mais diferentes contextos. a citação de Foucault foi feita para a partir dela pontuar que a análise discursiva tal como proposta nos fez entrar em contato principalmente com os embaraços da linguagem e abriu a jaula desta relação dual introduzindo o contexto em suas múltiplas dimensões e muitos outros interlocutores. espécie de contato anterior a todo discurso e livre dos embaraços da linguagem pelo qual dois indivíduos vivos estão enjaulados em uma situação incomum mas não recíproca” (p. e não capturá-lo em categorias definidas a priori. tal como proposta na atualidade. além dos dois presentes. Conclusões possíveis: avaliando a metodologia Como afirmamos no início do capítulo. sem conceito. Definir a entrevista como prática discursiva possibilitou captar o sentido da queixa ou do motivo da procura de um serviço de Saúde Mental. entre um golpe de vista e um corpo mudo. síndromes. Sem ignorar que as diferentes teorias psicodinâmicas tem propostas de compreensão que não são análogas à clínica médica. tal como emerge das falas do usuário. termo utilizado tanto na clínica médica como na psicológica. Foucault (1977) ao abordar a clínica médica. critica a noção dessa experiência muitas vezes traduzida no vocábulo encontro entendido como o “confronto simples. entre um olhar e um rosto.3.

foco da entrevista. Alguns dos termos utilizados. muito próximo da definição encontrada em qualquer dicionário da Língua Portuguesa. As pessoas que chegam a um serviço de Saúde Mental trazem para a situação suas histórias de sofrimento e de múltiplos posicionamentos.A análise de personagens dessa narrativa nos possibilitou a apreensão do aspecto argumentativo e interativo da situação. complexo. como por exemplo: crise. médicos e psicológicos. como também são encontrados em conversas do cotidiano. Crise é uma das palavras presente nas duas entrevistas analisadas. a análise foi mostrando a interanimação da narrativa e assinalando a mobilidade do self que vai se posicionando de formas às vezes contraditória. As palavras utilizadas para nomear o sofrimento psíquico circulam na sociedade com os seus múltiplos sentidos e foram por assim dizer colhidas pelas pessoas em suas experiências de vida.3 No cotidiano. a 3 Segundo o Dicionário Aurélio. e sobre a qual parece existir um consenso semântico. Crise adquire uma realidade cristalizada num único sentido. o que nos levaria a concluir que crise é crise não importa quem fala ou em que contexto o faz. a palavra é frequentemente utilizada. dando conta da polissemia do discurso sobre o sofrimento psíquico. 185 . crise é uma alteração sobrevinda no curso de uma doença. trazendo ao mesmo tempo as contradições entre as práticas discursivas referentes ao tema em questão. Ao mesmo tempo. Há o confronto das práticas discursivas dos grupos primários e secundários aos quais se sobrepõem os discursos religiosos. e nem tão pouco como dados documentais sobre os antecedentes pessoais e familiares. ansiedade. É a partir dessa situação que falam. dando coerência a sua história de vida. Os vários personagens que apareceram nas entrevistas não foram interpretados como criação dramatúrgica e intencional. não apenas estão presentes no discurso psiquiátrico e psicológico. Ao mesmo tempo. Consideramos que a sua evocação se deu na busca do sentido de um sofrimento contribuindo para a compreensão do processo através do qual as pessoas ressignificaram a história deste sofrimento. Problema psicológico.

O sentido mais ou menos compartilhado pelos que vivem e interagem no dia a dia. um choro incontrolável ou a persistência inexplicável de pensamentos negativos. se a crise vivida e sofrida pela pessoa não se resolve. Nas análises feitas percebemos o quanto o termo crise. o acesso à consulta médica. mas dela se afasta na medida em que passa a fazer parte de uma linguagem compartilhada por um grupo específico de profissionais. que aparentemente se aproxima da linguagem do cotidiano. explicitando o aspecto interacional das práticas discursivas. Quando o usuário fala de suas crises a elas é também dado o sentido de sintomas para os quais devem existir explicações médicas ou psicológicas e soluções terapêuticas eficientes. a fala do profissional psi é mais uma entre outras podendo se sobrepor as demais por sua autoridade ou por sua compreensão. No entanto. A palavra foi destacada por trazer no contexto analisado o sentido do sofrimento na situação de ajuda pretendida. intersubjetivamente construídos. afirma Dalmaso (1996 p. O ser atendido imediatamente tem um valor indiscutível para os usuários. principalmente a realizada de forma imediata. não importa qual seja. Ao analisar a chamada demanda espontânea em unidades básicas de saúde. como avalia claramente Luzia.151). carente de serviços públicos e cada vez mais doente. Fazendo o raciocínio inverso diria que o sentido de crise dado ao sofrimento é num primeiro momento corroborado pela resposta imediata do serviço. como a brasileira. seja um ataque epiléptico. foi recriado pelas pessoas em um jogo caleidoscópico de ações e interações que as situam e ressituam no mundo das coisas e das pessoas. mais ou menos cristalizado pelos discursos científicos e divulgados pelos meios de comunicação. “em uma sociedade.palavra está presente no discurso psiquiátrico e psicológico com um sentido explicativo e diagnóstico. correndo-se o risco de se perder os sentidos do sofrimento. no contexto discursivo. o tema 186 . Se crise se destaca na entrevista de Luzia. passou a ser muitas vezes considerado problema premente e direito básico da população”. deu sentido para o sem sentido: o que irrompe sem controle.

os das explicações psiquiátricas e psicológicas e todos os outros. Por um lado. atenuando a insegurança de enfrentar uma instituição pública de saúde cujos serviços são percebidos como destinados á mulher reprodutora. Rosa na busca de sentidos do sofrimento se apropria das práticas discursivas sobre o tema: desde os diferentes termos que utiliza para se identificar (sapatão. além ouvir. O complexo. do desvio ou doença mental. A sessão de triagem em Saúde Mental deveria ser reinterpretada como atividade que possibilita a circulação de todos os sentidos. ouvir o impronunciável e incapazes de explicar aos outros como e o que fazem. ressignificá-las. antes de mais nada. 187 . De certa forma a explicação psicológica abre as portas para um acolhimento que a incluirá nos serviços oferecidos pelo Centro de Saúde. aproxima a Saúde Mental da polissemia ou polifonia do sofrimento psíquico que se traduz em pedidos de ajuda nem sempre claros. ao mesmo tempo uma delas e maestros capazes de facilitar o aparecimento de dissonâncias (conflito de posições) e dissolver falsas homogeneidades de uma população resignada. dá o sentido psicodinâmico ao sofrimento de uma vida inteira de alguém diferente dos outros e por isso “complexada”. lésbica). entendida. e ao mesmo tempo a aproxima do código da entrevistadora psicóloga. grupo a que a usuária não pertence. o discurso do gozo conflitando com os discursos do pecado. lugar de profissionais com a capacidade de ver o invisível. Ao nos aproximarmos da versão do usuário que procura um Serviço de Saúde Mental. termo emprestado da psicanálise. compreender ou acolher as queixas é. Neste coro de vozes os profissionais são. Por outro a confina com os “seus loucos” em um espaço que pouco se comunica com os demais.emergente para Rosa é a homossexualidade e a busca de sentido para o sofrimento que acompanha a sua opção sexual. Esse lugar institucional de dar sentido para o que não faz sentido para os outros (profissionais ou não) pode ser interpretado de diferentes maneiras. A ressignificação não ocorre apenas em processos psicoterapêuticos mas em todas as interações com usuários e com os outros profissionais que trabalham na instituição. pudemos concluir que o importante.

em seguida. Ribeiro pela leitura cuidadosa e pelos comentários feitos. A conversa como prática discursiva Conversar é uma das maneiras por meio das quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam nas relações que estabelecem no cotidiano. Pinheiro e à Maria Auxiliadora T. Procurando contribuir para a reflexão sobre esse campo social. apresentada nos quatro primeiros capítulos desta coletânea. dificilmente pensamos na riqueza e nas peculiaridades que possam estar presentes nessa forma de comunicação. 1. agradeço também. apresentarmos o trabalho que realizamos com conversas do cotidiano. Mas. dedico este capítulo ao Marco. 188 . por serem consideradas corriqueiras. Com base na abordagem de produção de sentidos. a proposta deste capítulo é discutir a utilização de conversas do cotidiano na prática de pesquisa. discutiremos a utilização das conversas como recurso metodológico em pesquisa para. à Natasha e à Luana.CAPÍTULO VIII POR QUE JOGAR CONVERSA FORA? Pesquisando no cotidiano 1 Vera Mincoff Menegon A s conversas do cotidiano permeiam as mais variadas esferas de interação social. Num primeiro momento. apoiando-nos na abordagem teórico-metodológica sobre práticas discursivas e produção de sentido. Na sequência. faremos algumas considerações sobre a importância das conversas como espaço privilegiado de interação social e de produção de sentido. à Odette G. à Rose Mary Frezza. Meus agradecimentos especiais ao Benedito Medrado pelas contribuições que foram cruciais para a produção deste texto. apresentada no 1 Pelas conversas muito especiais. cujo assunto em pauta é a menopausa.

4 Sejam eles interiores ou exteriores (Bakhtin. e é neste elemento que se acham submersas todas as formas e aspectos da criação ideológica ininterrupta: as conversas de corredor. utilizamos a expressão práticas discursivas. ainda.2 é um importante interlocutor para refletirmos sobre a importância da conversa. o discurso interior e a consciência autorreferente. para as linguagens em uso. enfatizando sua importância como prática social: A psicologia do corpo social3 é justamente o meio-ambiente inicial dos atos de fala de toda a espécie. situa a conversação como algo extremamente rico e importante na arena da comunicação na vida cotidiana. Não é utilizado no sentido metafísico de “alma coletiva”. por ter trabalhado com o conceito de parole (fala) numa perspectiva de produção coletiva.capítulo dois. as conversas representam modalidades privilegiadas para o estudo da produção de sentidos. Considerando. arte. as trocas de opiniões no teatro e no concerto. o modo de reação verbal face às realidades da vida e aos acontecimentos do dia a dia. 189 .). a informalidade das situações em que ocorrem. vinculando-a aos processos de produção em geral. assim como às esferas das diversas ideologias especializadas e formalizadas. ao discutir a interação verbal. nas diferentes reuniões sociais. Bakhtin. o termo discurso é empregado para nos referirmos às produções presentes em áreas já formalizadas e regulamentadas. “espírito do povo” etc. podemos afirmar que as conversas são práticas discursivas. A psicologia do corpo social se manifesta essencialmente nos mais diversos aspectos da enunciação sob a forma de diferentes modos de discursos. compreendidas como linguagens em ação. as trocas puramente fortuitas. sua abordagem de enunciado (efetivo apenas entre falantes) difere da perspectiva advogada por Ferdinand de Saussure em que a língua – la langue – é entendida como um sistema de formas sociais e a fala – la parole – como o ato da enunciação individual. 4 Vale pontuar que na nossa abordagem. “inconsciente coletivo”. 2 Segundo Bakhtin (1995). O autor lista algumas situações típicas de conversas. destaques do autor). a regulamentação social etc. religião etc. 1995: 42. Mikhail Bakhtin (1929/1995). que tem na interação verbal sua materialização. 3 Psicologia do corpo social é utilizada na concepção marxista como uma espécie de elo entre estrutura sócio-política e ideologia no sentido estrito do termo (ciência.

complexamente organizados (Bakhtin. que se articulam em ações situadas. a especialistas de áreas específicas. espacial e socialmente distantes: o enunciado pode ser endereçado a um interlocutor-participante de um diálogo cotidiano. já “os estratos mais profundos da sua estrutura são determinados pelas pressões sociais mais substanciais e duráveis a que está submetido o locutor” (1995: 114). E. como já discutimos. expressa seu horizonte conceitual. a fala (parole). constitui-se num dos elos de uma corrente de outros enunciados. Qualquer enunciado. ou seja. 1994b). resultante da significação e/ou ressignificação de n vozes. e a inter-relação estabelecida entre o tempo curto da situação relacional e o contexto mais amplo de circulação das ideias numa dada cultura – o tempo longo – que inclui as linguagens sociais presentes no processo de socialização – o tempo vivido. é entendida como o ponto de vista da pessoa. a forma e os estilos da enunciação ocasional são determinados pela situação e pelos seus integrantes mais imediatos. a voz ou vozes às quais um enunciado é direcionado. sendo expressa pela pessoa por meio de palavras e sentenças. portanto. que se leve em consideração três aspectos: o conceito de enunciado. 190 . a pessoas hierarquicamente diferentes. A pessoa. ao formular um enunciado. nas interações do cotidiano. a tipicidade da situação. do contexto imediato em que ocorre a conversa. para Bakhtin (1995). segundo James Wertsch (1991). a grupos específicos. por sua vez. O primeiro aspecto – o conceito de enunciado – está inerentemente ligado ao conceito de voz e de direcionamento. Com relação ao direcionamento. que tem na enunciação o produto da interação entre falantes. O trabalho com conversas do cotidiano pressupõe. constituindo-se o enunciado no produto da fala que envolve pelo menos duas vozes. Para esse autor. assim. pois isto a restringiria às condições psicofisiológicas do emissor. podem estar temporal. A voz. a enunciação é de natureza social. não pode ser considerada como um ato individual estrito senso.Para Bakhtin. intenção e visão de mundo.

é interessante refletirmos a respeito de algumas características que exprimem a informalidade de uma conversa. é importante destacar que a informalidade da situação possibilita um certo descompromisso disciplinar. Nessa perspectiva. a serem apresentadas mais à frente. Ou seja. como em relação aos seus integrantes – quem está falando. afirma que:  os participantes podem ter clareza e expressar o seu ponto de vista sobre o tema em pauta. um grupo específico). 191 . além das noções de vozes. aqui. mesmo que seu enunciado esteja povoado por múltiplas vozes – e a quem a enunciação está sendo direcionada. No que se refere ao local. religião. no segundo aspecto que é o contexto imediato da situação. Esse duplo caminho significa que as práticas discursivas e.. configurar-se num outro indefinido. ou não. Já entramos. O foco volta-se para as especificidades que compõem uma conversa. ao analisar o tipo de relação que se estabelece numa conversa. para analisarmos uma conversa torna-se necessário entendermos quem está falando – a enunciação tem um autor. de direcionamento e da dialogia aí existentes. podendo. dificilmente. também. Nas análises das conversas.com maior ou menor grau de familiaridade etc. utilizaria numa situação de trabalho e vice-versa. do mesmo ponto de vista. John Shotter (1993). teremos a oportunidade de ver que um profissional pode utilizar repertórios interpretativos numa conversa de bar que. compartilhando. as conversas são marcadas pela dialogia. Ainda nos reportando aos integrantes. tanto em relação ao local – onde ocorre a conversa –. portanto. permite maior desvinculação de linguagens ligadas a determinados estratos sociais (profissão. que vozes podem ser percebidas e a quem é direcionado o enunciado.

1994a) – está presente na própria noção de vozes e na ideia de que os enunciados são sempre elos de uma cadeia mais ampla de sentidos. silêncios etc. caso uma expressão não seja compreendida pelo(s) ouvinte(s) é passível de ser substituída imediatamente. por estar numa relação face a face. estão permeadas por linguagens sociais mais hegemônicas que se configuram como estruturas cristalizadas e compartilhadas que. 192 . tem a possibilidade de observar o impacto (expressões verbais. lugares-comuns e figuras de linguagem) que compõem as práticas discursivas. sendo estabelecida e reestabelecida no próprio curso da conversa. o participante de uma conversa. mas o assunto sobre o qual se fala e o modo como se fala. apesar da forma específica que possam adquirir em decorrência do contexto imediato. as pessoas sabem sobre o que estão falando. vão se desenvolvendo no decorrer das inter-relações. para Bakhtin. a ordem que porventura exista na conversação não obedece a regras formais. O terceiro aspecto a ser considerado numa conversa – a inter-relação estabelecida entre o tempo curto da situação relacional e o tempo longo (o grande tempo.    Entendemos que. descrições. da frouxidão de regras e na possibilidade de vários posicionamentos frente ao leque de repertórios interpretativos disponibilizados aos falantes. corporais. as conversas expressas nas práticas discursivas. nas conversas. segundo Bakhtin (1995). as condições propícias para a reafirmação ou produção de outros sentidos estejam nos sulcos da flexibilidade. Dessa maneira. Por repertórios interpretativos nos referimos aos elementos (termos ou conjuntos de termos. explicitam as pressões sociais mais substanciais e duráveis a que estão submetidos os integrantes de uma conversa.) de seu enunciado nas pessoas presentes. a fala dos locutores não é disciplinada em função de uma única narrativa.

El Análisis de la Conversación: qué és? Podemos usarlo los psicólogos? In: Lopez. (orgs) Psicologías. J. Madrid: Visor. deparamo-nos. como referência a análise de conversação (AC). Segundo Amanda Kottler e Sally Swartz.Nesse terceiro aspecto. A. E. A. E. dessa forma. criando-se possibilidades de produção de outros sentidos. No tempo da interação face a face. ao mesmo tempo. maiores serão as chances de manter a conversação fluindo. (1996). abrindo a possibilidade de construção de versões variadas de nossas pessoas. & Swartz. com a circularidade que reforça a cristalização e a naturalização de repertórios interpretativos. em particular. estamos lidando com a dimensão histórica da produção de sentidos. Rompe-se. Na abordagem com a qual estamos trabalhando. a conversa cotidiana insere-se na escala da interação face a face (tempo curto) – marcada pela dialogia – em que os repertórios interpretativos adquiridos se presentificam e são enunciados por meio do gesto e da fala. S. recomendamos a leitura do capítulo dois desta coletânea. cujos estudos passaram a valorizar o conhecimento no senso comum e as relações estabelecidas no cotidiano das pessoas. 2. o tempo-vivido – que enfoca as linguagens sociais presentes nos processos de socialização das pessoas. e o tempo-curto – que se refere às relações face a face. L. tendo suas raízes nos trabalhos da etnometodologia – abordagem desenvolvida a partir dos trabalhos do sociólogo Harold Garfinkel (1967). Discursos y Poder. 5 Para maior compreensão dessas dimensões históricas. com a produção situada e a processualidade desses repertórios. conforme discutido no capítulo dois. essa dimensão engloba três tempos históricos: o tempo-longo – que marca as produções culturais da humanidade. J. Quanto maior o leque de repertórios disponíveis. 193 . cujos sentidos seriam perpetuados pelo uso. A conversa do cotidiano como recurso metodológico O trabalho com conversas tem.6 essa forma de análise não é nova em metodologias de pesquisa. 6 Kottler. & Linaza. em geral.5 Em resumo.

Não é nosso objetivo discutir a análise de conversação (AC), 7 mas gostaríamos de apontar alguns aspectos que marcam essa forma de trabalho. De maneira geral, as conversas são coletadas sem a interferência do pesquisador (ele não é um dos participantes da conversa), o foco de análise está na interação dos integrantes da conversa, considerando-se apenas as vozes dos participantes presentes na situação analisada. Uma das críticas que se faz a esse tipo de abordagem é que, por enfatizar o trabalho descritivo da interação, perde-se a perspectiva de contexto. Conforme discutimos no item anterior, nossa abordagem sobre as conversas do cotidiano, pressupõe a dialogia (vozes) que presentifica, também, interlocutores ausentes da situação da conversa e, além do contexto imediato da situação relacional, leva em conta a inter-relação estabelecida entre o tempo curto e o contexto mais amplo de circulação das ideias. De qualquer forma, o nosso propósito neste item, é refletir sobre o uso das conversas como recurso metodológico, feitas a partir do trabalho que realizamos. Entendemos que a opção por utilizar a conversa como fonte de informação pressupõe clareza sobre o que pretendemos pesquisar, assim como as possibilidades e os limites presentes nos procedimentos escolhidos. O trabalho com situações de interação face a face, ou com um outro tipo de instrumento (análise de documentos, mídia, filmes, literatura especializada etc.), ou ainda, uma combinação entre fontes de informação, deve estar interrelacionado aos objetivos da pesquisa, assim como à abordagem teóricometodológica adotada, incluindo-se aí os pressupostos epistemológicos. Os recursos escolhidos não são intrinsicamente bons ou ruins, sua eficácia está ligada a aspectos tais como: a concepção que temos a respeito do instrumento com que estamos trabalhando, suas possibilidades e limites; a maneira como o utilizamos; e o uso que se pretende fazer das informações obtidas. Entendemos, portanto, ser pertinente situarmos as conversas do
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Para este propósito recomendamos o texto: Kottler, A. E. & Swartz, S. (1996). El Análisis de la Conversación: qué és? Podemos usarlo los psicólogos? In: Lopez, A. J. E. & Linaza, J. L. (orgs) Psicologías, Discursos y Poder, Madrid: Visor.

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cotidiano em relação a outras situações de interação face a face, que vêm sendo utilizadas no âmbito da pesquisa. De forma genérica, nas situações marcadas pela linguagem verbal, temos: l) a entrevista (instrumento tradicionalmente usado na pesquisa qualitativa), podendo ser caracterizada por graus de formalização variados (fechada, semiaberta e aberta);8 2) o grupo em suas diferentes concepções, por exemplo, o grupo focal; e 3) as conversas do cotidiano, que apresentam o menor grau de formalização. Sobre a pertinência do grupo focal em pesquisa, Judith Green, 9 no livro Risk and Misfortune, relata que, ao pesquisar a construção social de acidentes, utilizando entrevistas semiabertas e grupos focais, observou que nas entrevistas as “histórias sobre acidentes” eram desviadas para narrativas pessoais, por vezes totalmente distantes da ideia de acidente; era como se o questionamento direto sobre acidentes os dissolvesse: os entrevistados começavam a contar uma história, depois afirmavam que “na realidade não havia sido um acidente”, restringindo-se a explicações hegemônicas, do tipo, acidente é uma fatalidade. Nos grupos focais, por outro lado, as histórias sobre acidentes fluíam de forma mais ”natural” e diversificada, não se detectando a necessidade de dar explicações “formais”. Além disso, a autora comenta sobre as barganhas de sentido que se estabeleciam nos grupos. Em seu entender, os grupos focais, comparados à situação de entrevista, apresentam uma situação mais próxima dos contextos interacionais do dia a dia, propiciando, portanto, em nossa leitura, uma interanimação dialógica povoada por um contingente mais rico de vozes, em que a negociação de versões e posicionamentos é mais visível. 10
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Sobre a utilização da entrevista como uma situação relacional, que implica a aceitação da dialogia entre entrevistado e entrevistador, recomendamos a leitura do capítulo sete desta coletânea. 9 Green, J. (1997). Risk and Misfortune: the social construction of accidents. London: UCL Press. 10 Como já mencionamos, não se trata de estabelecer a primazia de um instrumento sobre outro, mas exemplificar a pertinência de um tipo de fonte em função do foco da pesquisa. Se

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As conversas, por sua vez, são expressões vivas desses contextos interacionais do dia a dia, marcadas por características, tais como: 1) flexibilidade temporal (podem ser fugazes ou apresentarem maior duração em função do encadeamento de enunciados); 2) flexibilidade espacial (acontecem nos mais diferentes lugares); 3) variabilidade na composição dos participantes (número, idade, sexo e condição social); e 4) descompromisso disciplinar de seus participantes, ou seja, dependendo da informalidade da conversa, os participantes desvinculam-se de linguagens ligadas a estratos sociais específicos. Mas exatamente por se tratarem de situações do dia a dia, em que o inesperado é o padrão possível, a utilização de conversas como fonte de pesquisa, se por um lado enriquece nossas opções metodológicas e nos coloca em contato com práticas discursivas produzidas de maneiras menos esperadas, por outro lado, acarreta alguns desafios: dificuldade de registro, clareza sobre os limites da análise possível e postura ética. Ressaltamos, ainda, conforme discutido no capítulo três, que com a aceitação da reflexividade (efeitos da presença do pesquisador) como parte do processo de pesquisa, nas situações de interação face a face, as práticas discursivas devem ser compreendidas também como fruto dessa interação, ou seja, os integrantes, incluindo o(a) pesquisador(a), são pessoas ativas no processo de produção de sentidos. Um outro aspecto importante é que, ao utilizarmos, em pesquisa, as conversas como práticas discursivas, podemos trabalhar com todos os elementos que as constituem: a dialogia (os enunciados orientados por vozes), os speech genres (formas mais ou menos estáveis de enunciados) e os repertórios interpretativos (os conteúdos), ou privilegiar um desses elementos, sem contudo, desconsiderar a existência dos outros componentes. Assim, em nossa pesquisa, a opção pelas conversas do cotidiano como recurso metodológico foi direcionada pela concepção da conversa
o objetivo fosse compreender como as pessoas enfrentaram acidentes ao longo da vida, a entrevista (com narrativas pessoais) poderia ser o meio mais adequado.

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como prática discursiva (fato este ligado à abordagem teóricometodológica) e ao objetivo específico da pesquisa – estudar a circulação e o uso de repertórios interpretativos associados à menopausa nas situações do cotidiano. As conversas, por permearem esferas variadas de interação social, mostraram ser uma fonte preciosa de pesquisa.11 3. O assunto é menopausa O trabalho realizado com conversas do cotidiano, aqui ilustrado, faz parte da pesquisa desenvolvida para a dissertação de mestrado intitulada, Menopausa: imaginário social e conversas do cotidiano (Menegon, 1998). Essa pesquisa teve como objetivo geral compreender o processo de construção dos conhecimentos e dos sentidos atribuídos à menopausa, assim como detectar aspectos que pudessem estar contribuindo para a naturalização da menopausa como um problema. Procurando manter estreita inter-relação entre pressupostos epistemológicos, abordagem teórica e delineamento da metodologia, utilizamos dois planos de levantamento de informações: 1) as conversas do cotidiano – que consistiu no foco de análise; e 2) a literatura científica da área da saúde (biomédicas, psicologia e ciências sociais). Nas conversas, como já afirmamos, elegemos como foco central de análise a circulação e o uso de repertórios interpretativos que apareciam associados à menopausa. Já na literatura científica (incluindo produções remotas e contemporâneas), o objetivo foi nos familiarizar com o contexto mais amplo de circulação de ideias sobre a menopausa.12
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Essa riqueza das conversas foi, a princípio, detectada a partir do diário de campo que estávamos fazendo desde o início do projeto de pesquisa. 12 Nesse levantamento, trabalhamos com 13 artigos históricos (desenvolvemos uma retrospectiva histórica sobre a menopausa); trabalhamos, ainda, com 508 títulos de artigos e 113 resumos, com os quais produzimos um painel contemporâneo da menopausa. Como fonte da literatura utilizamos duas bases de dados: o Medline (Base de dados da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos), no período de 1966 a 1995; e o PsycLit (Base de dados da Associação Psicológica Americana - APA), abrangendo o período de 1973 a 1995.

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Partimos do pressuposto de que, nesse jogo de intertextos, poderíamos identificar permanências e rupturas culturais, assim como garantir o acesso à polissemia de sentidos (Spink, 1996b), ou seja, buscávamos também a emergência de repertórios interpretativos singulares. Um outro aspecto implicado na opção pelos dois planos de levantamento de informações é que as conversas estão inseridas num contexto mais abrangente de circulação das ideias na sociedade, uma vez que fazem parte de um mundo que tem história. Apesar de esses dois planos estarem inter-relacionados, coerentes com o objetivo deste capítulo, focalizaremos apenas o trabalho realizado com as conversas. Destacamos, porém, que ao analisarmos o uso dos repertórios interpretativos associados à menopausa, presentes nas conversas do cotidiano, procuramos detectar elos com repertórios presentes nos discursos da literatura por nós analisada. 3.1. Conversando com as pessoas Utilizar conversas do cotidiano como fonte de informação significa estar em campo durante todo o tempo da pesquisa. Ou seja, sempre que surgia o tema menopausa numa conversa eu estava em campo. Registrei conversas em corredores, em festas, em bares, em cafés, em pescaria, durante jogo de baralho, em salas de aula, em clínica de fisioterapia, em sala de espera de consultório etc. O número de pessoas, nível de escolaridade, idade e sexo dos participantes, obviamente, variava de uma situação à outra. Presenciei e participei de várias situações que acabaram se perdendo devido à dificuldade de registro (não registrar durante a conversa ou logo em seguida, por exemplo). Na maioria das situações o registro foi feito de memória, pois o uso de gravador mostrou-se problemático – além de questões éticas envolvidas, algumas conversas eram tão fugazes que não havia tempo hábil para ligar o gravador. A dificuldade era minimizada quando os participantes da conversa auxiliavam nas anotações. Em resumo, foi impossível padronizar a forma de registro; ela acompanhou o inesperado
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Frente a esse tipo de situação. ou seja. foram analisadas as dezoito conversas que puderam ser melhor registradas. a conversa teria de ser gravada ou filmada. As conversas com registros de memória não se aplicam a todo tipo de análise e. Nosso interesse estava no fluxo de associação das ideias ligadas à menopausa e.  No caso de nossa pesquisa. mais particularmente. Para esse tipo de análise. de caráter eminentemente público. Os aspectos éticos envolvidos na coleta e no uso das conversas representaram um outro desafio. por outro lado. 199 . gostaríamos de apontar que as conversas registradas de memória:  não são indicadas para análises que tenham como foco o fluxo da conversa em si. suspiros. Nesse particular. nesse caso. no uso dado a esses repertórios interpretativos. com a garantia do anonimato das pessoas envolvidas. Das dezoito situações que analisamos. cabe ao(à) pesquisador(a) ter clareza de seus objetivos. o relato de uma conversa ocorrida entre garotos dentro de um ônibus. devido à espontaneidade das situações. utilizar os enunciados para discutir aspectos de personalidade. o principal foco de análise foi o uso de repertórios. Isto é. em que todos os elementos da conversa são passíveis de análise (silêncios. apesar de levarmos em conta a dialogia. em três situações. 13 mantido o anonimato. ou correlatos. Como exemplo. diferentes tonalidades dadas às expressões etc. Essa forma de coleta exigiu alguns cuidados e reflexão de nossa parte. obtivemos um material rico para ser analisado. tivemos de aceitar o desafio que representou utilizar esse material.). Se por um lado. foi possível solicitar autorização para o uso do material na pesquisa.das situações do dia a dia. não se colocava a necessidade de autorização. a sequencialidade das falas e a interação de seus participantes. não são indicadas para subsidiar pesquisas que tenham os participantes da conversa como objeto de análise. podemos citar as análises de conversação (AC). Como forma de assegurar ainda 13 Por exemplo. em quinze delas.

acesso ao material. conservamos os elementos que permitissem visualizar a peculiaridade da situação. assim. com vários artigos sobre menopausa espalhados sobre a mesa.mais o anonimato. pois assim que fez o comentário. ao trabalhar com situações de interação face a face. 1998). a descrição do contexto é um aspecto imprescindível. 14 As análises das dezoito conversas não foram integradas ao texto da dissertação. Não foi possível falar sobre minha pesquisa. chamou o número de sua senha. 200 . a. Explicitando os passos da análise O processo de análise das conversas do cotidiano deu-se em duas etapas: a) análise detalhada de cada conversa. mas foram incluídas como anexo (Menegon. Esta conversa foi extremamente fugaz. uma pessoa que trabalha na biblioteca. Análise de cada conversa14 Nessa etapa analisamos um total de dezoito conversas. observando cinco passos principais. Só sabem lamentar e reclamar da vida. e b) síntese temática do conjunto das conversas. 1) Contexto da conversa (local e integrantes) – conforme discutimos no item um deste capítulo. mas alteramos alguns fatores que pudessem dar margem ao reconhecimento das pessoas. 2) Registro da conversa (utilizar nomes fictícios) Exemplo: Jurema (P1): Ai. garantindo. fez um comentário sobre menopausa. principalmente na periferia. Exemplo: Eu estava na biblioteca de uma faculdade de medicina. Chegou uma mulher (aparentando uns 40 anos) e pediu licença para sentar à mesa. ao descrevermos o contexto. mulher na menopausa é um saco (Longo suspiro). além de utilizarmos nomes fictícios. Enquanto eu recolhia os artigos.

demos destaque às vozes presentificadas nas falas (Jurema. 15 Os pormenores dessa forma de análise são apresentados no capítulo quatro desta coletânea.. os colegas de profissão). Pelo teor da conversa e a referência a receitar remédio. Quando percebem que estão envelhecendo. inaugurando-se o fluxo de associação pela pergunta do pesquisador. a árvore pode começar pela fala de qualquer participante. deduz-se que seja médica. do exemplo apresentado no capítulo quatro. não é para todo mundo que receito hormônio.. mudança e tal. mulheres na menopausa. no caso das conversas. Obs. Elas sofrem bastante. P = participante 3) Árvore de associação das ideias 15 – em função da especificidade das conversas. mas eu acho que essa lamúria toda é mais questão de cabeça. começam a ver o que foi a vida delas. receitam logo hormônio. 201 . mas eu não posso consertar tudo o que deu errado na vida delas. em alguns aspectos.Alguns colegas não querem nem escutar. Naquela situação. mesmo para senhoras mais idosas. Vera (P2): Por que você acha que elas lamentam tanto? Jurema (P1): Tem o problema hormonal. (Neste momento chamam o número de sua senha e Jurema sai). Eu já sou mais cuidadosa. o uso que fiz da árvore de associação de ideias difere. Além disso. são analisadas entrevistas associativas.

hormônio (medicamento). no campo da interpretação16 (exemplos de interpretação dada às conversas serão apresentados no próximo item). envelhecimento Mulher na menopausa (da periferia): um “saco”. 202 . Esse procedimento facilitou o agrupamento de associações para definirmos as categorias da síntese temática.Exemplo: P1. 16 A discussão sobre interpretação apresentada no capítulo quatro desta coletânea é importante para refletirmos sobre o uso da interpretação na prática de pesquisa. lamento. sofrimento 5) Uso dos repertórios interpretativos – neste item. reclamação. Exemplo: Menopausa: problema hormonal. procuramos articular o uso dado aos repertórios durante a conversa. mudança de vida. Estamos. buscando ressonâncias na literatura analisada na primeira fase da pesquisa. obviamente. Mulher na menopausa é um saco  só sabem lamentar  reclamar principalmente da periferia  uns colegas receitam logo hormônio  mesmo p/ idosas  eu mais cuidadosa  não receito hormônio para todas P2 : [Por que você acha que elas lamentam tanto?] P1: Problema hormonal  mudança e tal eu acho lamúria  mais de cabeça  (elas) estão envelhecendo  (reveem) vida delas  sofrem  eu não posso consertar  o que deu errado na vida delas 4) Repertórios interpretativos – este item está diretamente ligado ao objetivo da pesquisa e visa destacar os repertórios utilizados para falar da menopausa.

vinculadas à abordagem teórico-metodológica e aos objetivos da pesquisa. trabalhando com categorias situadas – suas especificidades têm elos com o contexto em que foram criadas. dar visibilidade ao processo de análise (explicitar os passos da análise e da interpretação) está também ligado ao esforço de ressignificar a noção de rigor que decorre da revalorização dos métodos qualitativos como formas legítimas de fazer ciência. 3) o referencial teórico-metodológico. utilizamos categorias para organizar. o material bruto e o tipo de trabalho analítico realizado ficam disponíveis como uma forma de propiciar o diálogo com outros(as) pesquisadores(as). b) Síntese temática das conversas Conforme discutido no capítulo três desta coletânea.Essa forma de análise detalhada permite maior visualização do processo analítico. Ou seja.3 . que estaremos apresentando a seguir. portanto.Categorias como práticas discursivas). O seu uso envolve escolha e reorganização retórica. 17 Para maiores detalhes sobre o uso situado de categorias. no entanto. consultar o capítulo três desta coletânea (item 2. 203 . Estamos. 2) a literatura com a qual entramos em contato durante a pesquisa. Conforme discutido nos capítulos três e quatro desta coletânea. foram criadas no entrelaçamento de pelo menos quatro aspectos: 1) o uso dado pelos participantes das conversas aos repertórios interpretativos sobre a menopausa. fornece subsídios para a interpretação e facilita o desenvolvimento dos passos subsequentes. basicamente. Já as categorias da síntese temática. não possuem um valor e um sentido intrínsecos. estão vinculadas aos fatores implicados no desenvolvimento da pesquisa e fazem parte do processo de interpretação. classificar e explicar o mundo. e 4) a minha interpretação como pesquisadora. na primeira etapa – análise de cada conversa – as categorias utilizadas para organizar o material bruto estão. 17 Ou seja. Por exemplo. Na prática de pesquisa isso se traduz em compromisso e reflexão sobre as condições implicadas na criação das categorias. Falamos por categorias que.

em sua sexualidade e em sua procriação. na síntese temática foram apresentados separados e exemplificados com trechos extraídos das conversas. agrupamos repertórios cujo sentido de uso atribui ao sangue menstrual poderes que exercem influência na saúde da mulher. escolhemos uma das conversas que sintetiza parte dos temas acima. partindo da análise das conversas. em sua feminilidade. é como se eu estivesse purificada. Trecho da conversa (4 mulheres – 43 a 65 anos. Apesar de esses temas estarem inter-relacionados nas conversas. Dalila (44): Puxa. a seguir. local: clínica de fisioterapia).3. e 3) menopausa na perspectiva dos homens. agregamos os repertórios interpretativos em torno de alguns temas e definimos três blocos de categorias temáticas. Magia e poder do sangue menstrual Nesse bloco. a referência ao sangue menstrual está vinculada aos impactos atribuídos à falta desse sangue. No caso da menopausa. Apresentamos. 2) medicalização. Subjacente à associação entre sangue menstrual e sexualidade está uma outra associação: sangue menstrual . Eu também comecei a tomar o remédio. alguns recortes da síntese temática. a saber: 1) magia e poder do sangue menstrual.sexualidade . Eleonor (52): Você sabe que o médico me diz que a menstruação realmente funciona como um eliminador das impurezas.3. 204 . aquele remédio que o médico receitou é realmente bom.procriação. Interpretando as conversas Conforme detalhamos acima. saúde e símbolo da identidade de ser mulher. trazendo simbolismos que explicitam uma simbiose entre sentidos antigos e novos: purificação do corpo. a mulher com menstruação tem mais saúde. Leonor. Eu também acho. Como exemplo. Sabe que depois de dois anos sem menstruação desceu na semana passada? Estou me sentindo tão bem.

para ficarmos apenas com uma das vinculações possíveis. É interessante notarmos a menção do parecer de um médico. Mas sem a menstruação eu fiquei meio sem vontade. O uso desses repertórios nos remete à medicina dos humores em que se atribui ao sangue menstrual o sentido de equilíbrio para a saúde (purificação das impurezas). Dalila (44): Ah! Eu gosto de fazer sexo com meu marido. porque eu nunca gostei. ainda. Agora. Antes eu achava um saco esse negócio de menstruação. na conversa. Fazia por obrigação.Vera (43): Desculpe-me a intromissão. 205 . no cristianismo o sangue do cordeiro tem o sentido de purificação dos pecados. contemporâneo. Essa concepção medicamentosa contemporânea é utilizada por essas mulheres com um sentido similar ao atribuído aos medicamentos ministrados há séculos. o sentido de saúde associado ao sangue menstrual fundamenta-se na versão da purificação do corpo pelo sangue. O hormônio. que remédio é esse? Dalila e Eleonor: A gente não sabe o nome. faz dez anos que parou de descer para mim. da discussão sobre o gerenciamento da menopausa por meio de medicamento: a reposição hormonal. tinha mais disposição. cuja eficácia provocaria a vazão do sangue poluído. como aval dessa explicação. Conceição (65): Acho que já estou velha para tomar esse remédio. Agora não sou mais a mesma mulher. Vera (43): Como assim? Conceição (65): Antes eu era mais animada. Agora que desceu de novo me sinto mulher novamente. graças a Deus meu marido ficou impotente e não me amola mais. Nessa conversa. mas depois que parou é que eu vi como era bom para a saúde da gente. não é utilizado para repor algo (versão contemporânea da “falta hormonal”). Por exemplo.18 O uso dos repertórios nos fala. mas é hormônio. Não por essas coisas de sexo. Sua retenção provocaria a destruição e envelhecimento dos órgãos. e sim para expelir o sangue 18 As associações entre sangue e purificação vão além da prática da medicina.

J. [Willbush. faz a conexão entre ovários e sistema nervoso central. introduzindo a concepção de “involução ovariana”. Tilt. Por exemplo. a diminuição da libido sexual e outros problemas relacionados aos órgãos genitais femininos são sobejamente abordados. Para essa mulher. na literatura científica. Rejeita a “teoria do sangue sobre as doenças ligadas à mudança de vida” e propõe a “teoria dos nervos”. principalmente nas linhas mais biologicistas. A lógica de menstruar para ter sexo é quebrada pela senhora mais velha quando lembra que achava a menstruação um saco: fazia sexo por obrigação. (1980). a menopausa pode ter significado um alívio. a menarca simboliza a entrada na vida procriativa e a menopausa. Em nossa cultura. A pressão social e cultural exercida pela ideia de fim de linha pode ser detectada nas expressões não sou mais a mesma mulher e me sinto mulher novamente (com a reposição hormonal e a volta do sangramento mensal). pela John Churchill London. The change of life in health and disease. O sentido que atribui ao desejo de voltar a menstruar não inclui o anseio por uma vida sexual ativa. 19 A sexualidade também aparece fortemente associada ao sangue menstrual. a completude desse ciclo. o médico irlandês. depositando essa possibilidade na existência do sangue menstrual. fala-se de ter desejo e ser desejada sexualmente. J. As falas da conversa acima indicam que o sangue menstrual estaria garantindo uma vida sexual ativa. 206 . 19 Segundo Willbush. Edward John Tilt. também. A practical treatise on the nervous and other affections incidental to women at the decline of life. and the change of life (1857) the only work on the subject in the English Language. Menstruação e vida sexual indesejada estavam intimamente ligadas.eliminador de impurezas (versão que imperou desde a época da medicina hipocrática até meados do século XIX). O que está em pauta não é a procriação. E. na obra publicada em 1857. Agora que o marido está impotente até gostaria de voltar a menstruar para ter melhor saúde – sentido este que foi sendo reafirmado pelas participantes da conversa. nos discursos científicos da área da saúde. Essa ideia de fim de linha está bastante arraigada na memória cultural e. Maturitas. 2:259-267.

tinha? Marta (65): Imagina.. e 3) aspectos emocionais (vistos como problemáticos por ocasião da menopausa: depressão. tristeza.. nunca pensei que entrar na menopausa fosse tão arriscado.). insônia. Changing ideas: the medicalization of menopause..Medicalização20 Nesse bloco. ele (um médico) falou tanta coisa que nem me lembro mais. Disse que toda mulher na menopausa tem que consultar um ginecologista.. devendo. Nem se falava de tratamento. A seguir. 2) intervenção medicamentosa (apontando o sentido mágico atribuído ao medicamento e a ambivalência com relação a possíveis efeitos colaterais). o uso de medicamentos (Bell. Vera (44): O que você acha disso tudo? Marina (54): Nem sei ainda. o conceito de medicalização não inclui. Fui assistir uma palestra sobre menopausa. Social Science and Medicine. agrupamos os repertórios cujos sentidos de uso explicitavam: 1) a expansão da medicalização (menopausa vista cada vez mais como algo indesejável. esta semana lembrei de você e da pesquisa que você está fazendo. portanto. na época que você passou pela menopausa não tinha nada disso. ser tratada).. 207 . doença cardíaca.. (. obrigatoriamente. 20 Apoiando-nos em Suzan Bell. crise etc. que a medicalização está ligada ao uso de vocabulário e de modelos médicos e/ou de outros especialistas da área da saúde para definir um “problema”. osteoporose. de maneira resumida. instabilidade emocional. fazer todos os exames de prevenção para fazer a terapia de reposição hormonal.. É depressão. uma conversa que fala da expansão da medicalização: Trecho da Conversa (três mulheres . S. Marta. Eu lembro que chorei muito quando minha menstruação parou de vir. fiquei pasma.. local: varanda de uma residência) Marina (54): Vera.entre 44 e 65 anos. 24(6): 535:542). .) Fiquei muito deprimida porque aí era o fim da minha esperança de ter um filho. ondas de calor. podemos dizer. 1987. Enquanto eu estava menstruando sempre tinha esperança. Nesse sentido.. sei lá.

estejam elas presentes ou ausentes (Bakhtin na leitura de Wertsch. por sua vez. É. interesses mercantis (laboratórios farmacêuticos) etc. Será que se agora eu fizer tratamento melhora essa onda de calor? Vou perguntar para o meu médico. aglutina outras vozes: pesquisas científicas. coloca seu dilema frente à necessidade de tratamento como prevenção de futuros possíveis problemas. vê-se frente à possibilidade de um tratamento retroativo. que afirma não sentir nada. das amigas que também enfrentam o mesmo dilema. 208 . Marina (54): Eu não esperei parar a menstruação para adotar os filhos. Ressignifica também sua depressão. A mulher que está entrando na menopausa. redimensionando o sentido das ondas de calor como se fosse uma sequela da sua menopausa. práticas clínicas de outros tantos médicos. até hoje tenho. ou não. Só depois que começou dar ondas de calor. Depois eu decido o que fazer. e as vozes discordantes dos médicos que receitam. Ainda bem. Como mencionado anteriormente neste capítulo. o caráter social do processo de produção de sentido é explicitado pela interanimação de diferentes vozes que emergem nas falas.. Marta (65): É. a outra vai num médico que ela sabe que dá hormônio Essa conversa mostra o confronto entre o novo e o antigo.. acho que sim. endereçando-a ao fim da esperança de ter um filho.Marina (54): Você ficou deprimida porque viu que não podia mais ter filhos. vai procurar um médico que ela sabe que é contra tomar hormônio. As informações recebidas na palestra nos remetem à voz do médico. A mulher que já passou pela menopausa. não foi por causa da menopausa. hormônios. Minhas amigas estão todas divididas: uma me disse que não vai tomar hormônio. Eu não sinto nada. 1991). Essa multiplicidade de vozes é confrontada com outras vozes: da mulher que coloca a vivência da própria menopausa. Esta. fora isso não senti nada. Mas vou fazer os exames.

22 Segundo Bell Op. doença cardíaca. mãe. portanto.. Refere-se. a questão hormonal passa a ser eixo explicativo sobre a menopausa. 24(6): 535:542). e interacional – quando o médico define ou trata as queixas do paciente como sendo um problema médico (Bell.. Social Science and Medicine. ainda. osteoporose. traduz a forma contemporânea de abordar a menopausa. e cujo sentido atribuído à menopausa se dá pela convivência com a mulher (esposa. Pelas versões apresentadas por esses homens. Na década de sessenta a difusão da medicalização havia alcançado os três níveis: conceitual. amiga. sei lá ).. cujos sentidos se referem a: 1) impacto na vida pública (ações consideradas inerentes à 21 Segundo Bell. incluindo-se. Conceitual – quando o vocabulário ou modelo médico é utilizado para definir um problema.22 A menopausa na perspectiva dos homens Esse bloco foi produzido em função das associações sobre menopausa trazidas por homens que participaram das conversas. em termos conceituais. 209 . companheira. mesmo estando fisicamente ausente. principalmente pela Medicina alopática. a partir do início da década de quarenta. 1987. as discordâncias e controvérsias geradas no âmbito dessa mesma Medicina em torno da reposição hormonal. 21 A voz do médico está presente na dialogia da conversa. ondas de calor. Changing ideas: the medicalization of menopause. irmã) e pelas práticas discursivas que fazem parte de seu cotidiano e de sua cultura. à perspectiva dos homens presentes nas conversas analisadas. nessa conversa. dividimos as análises em três categorias. Consideramos importante essa análise uma vez que o homem se constitui no outro que dá sentido a um fenômeno que não faz parte de sua biologia.. pudemos observar que a construção dos sentidos atribuídos à menopausa estão vinculados às interrelações estabelecidas nas práticas sociais do cotidiano. cit.. Para melhor compreensão. insônia. essa difusão começou nos Estados Unidos na década de quarenta.Presentifica-se. S. apresentada na palestra. o processo de difusão da medicalização em termos interacionais (relação médico x paciente). institucional e relacional. A lista de problemas creditados à menopausa (depressão. institucional – quando os profissionais legitimam essas diretrizes na rede organizacional de sua profissão.

Perder uma perna e um braço é um acidente. dificilmente utilizaria os repertórios que expressou na conversa de mesa de bar se fosse. refere-se à desvinculação de linguagens ligadas a determinados estratos sociais (profissão. Agora.). por exemplo. conforme discutimos anteriormente neste capítulo.23 pois Rafael (um psicólogo).. religião etc. e um homem – 27 anos.. 2) ideias de finitude (ligadas ao fim da procriação. não está na natureza. local: mesa de bar) Vera (43): O tema da minha pesquisa é menopausa. Vera: É? O que isso faz você lembrar? Rafael: Sei lá. a menopausa é da natureza da mulher. Mas não pode ser comparada a um aleijão. Vera: Aleijão? Não entendi.mulher na menopausa e que trariam consequências negativas em seu desempenho profissional e intelectual). parto) A conversa a seguir – que fala de finitude – é um exemplo típico do que denominamos de descompromisso disciplinar.. fim da menstruação. A mulher perde a capacidade de gerar um filho. fica como uma árvore seca. um braço. gravidez. Mas fico pensando que a mulher deve sofrer muito. (Chegaram outras pessoas e a conversa dispersou-se. à perda de atrativos considerados definidores da feminilidade e da sexualidade).. Clara (25): Acho que deve ser difícil entrar na menopausa. e 3) ideias de estranhamento (refere ao temor e incompreensão do homem frente às singularidades biológicas da mulher: menstruação. é como se fosse um aleijão. Trecho da conversa (duas mulheres – 43 e 25 anos. Rafael (27): Menopausa? Que assunto horrível. Rafael: É como alguém perder uma perna. entrevistado oficialmente como um psicólogo emitindo um parecer sobre menopausa. 210 .) 23 Descompromisso disciplinar.

Op. uma árvore seca. das mamas e demais caracteres sexuais femininos. acarretando uma rápida atrofia dos genitais. In: Collected Papers.24 por exemplo. principalmente na primeira metade deste século. Nessa perspectiva. 156:773-787. Para termos uma dimensão de como os domínios de saber e os sentidos produzidos no cotidiano se retroalimentam. N. De sangrias. v.. (1994). H. cit. (Apud Ballinger. cit. S. Ao nos determos na formação de psicólogo desse jovem e recorrermos à arqueologia de formação dos repertórios.. 211 . porém. 2(2):314-343. (1990). (1917). British Journal of Psychiatric. tabus e poderes: a menstruação numa perspectiva socioantropológica. 2: 456-487. vamos encontrar essa ideia de finitude fortemente enraizada também em algumas linhas psicológicas. ela cometeu um grande erro ao fazer com que a produção de estrogênios pelos ovários também decline e cesse a partir desta época.) 27 Sardenberger. M. a natureza teve suas razões para terminar a vida reprodutiva feminina antes dos 50 anos. mostra que Freud25 associou a “perda do potencial reprodutivo” a “luto e melancolia” e Helen Deutsch26 entendia que a vida se tornava “opaca e sem sentido”. B. Revista Estudos Femininos. B. C. apenas “resignação sem compensação”.Aqui temos a menopausa personificando tanto o fim da capacidade procriativa como o da própria vida. achamos oportuno transcrever uma citação feita por Cecília Sardenberg 27 de um discurso médico que ressalta a importância do estrogênio para o corpo da mulher. para Rafael a condição de existência esgota-se com o fim da possibilidade de procriação: a mulher ao ser despojada do único papel social que lhe fora atribuído é vista como alguém deficiente e inútil. Op. 4 (1956). C. em sua revisão sobre os sentidos atribuídos à menopausa pela Psicanálise. In: The Psychology of Women. (Apud Ballinger. Ballinger. As terríveis consequências deste evento ‘fisiológico’ para a 24 Ballinger. Epilogue: the climacterium. Considerando-se a enorme sobrecarga anatômica e fisiológica que a gravidez e o parto impõem à mulher.York: Grune & Stratton. London: Horgath Press. (1945). em que nem psicoterapia adiantaria. 25 Freud. Mourning and Melancholia.) 26 Deutsh. Psychiatric aspects of the menopause.

O fato de termos analisado as conversas. ou seja. enfatizando a perda de características consideradas definidoras da feminilidade.) 212 .mulher são sobejamente conhecidas. função. possibilitou-nos compreender que cada versão explicativa sobre a menopausa se apresenta como um dos elos da rede de conhecimentos e de sentidos que foram sendo produzidos. as relações de gênero/poder. p. Contribuições das conversas: para além do estudo da menopausa A análise das conversas. dentre os quais podemos citar: o processo de medicalização da menopausa. devido à rápida atrofia pósmenopáusica de seus tecidos estrogênio-dependentes – os órgãos sexuais e demais caracteres físicos da feminilidade (Soucasoux. associada à incursão pela literatura da área da saúde. atribuídos à menopausa. levando em consideração o jogo de intertextos – tempo curto (conversas) e tempo longo. detectados nas falas das mulheres e assumindo conotações mais depreciativas nas falas dos homens. incluindo as linguagens sociais do tempo vivido (literatura da área da saúde) – possibilitou-nos compreender que a hegemonia de sentidos negativos. Essa forma médica de descrever a menopausa está vinculada à Medicina alopática – hegemônica na cultura ocidental.4. cit. O que nos interessa comentar é que as imagens suscitadas nesse fragmento de texto desenham a mesma decadência evidenciada na fala do Rafael. N. no entanto. apesar de seu poder hegemônico. 28 Soucasoux. 1993. Imago. Registramos. símbolo e arquétipo. e a conotação negativa dada ao envelhecimento na cultura ocidental. Op. encontramos vozes dissonantes. explicita que a mulher na menopausa deixa de ser mulher. grifos meus). (1993). 10-11 (citado por Sardenberg 1994. 1994: 342. Os órgãos sexuais femininos: forma. Rio de Janeiro. a ideia de crise – cristalizada como algo inerente a esse período. mesmo entre profissionais que atuam com esse referencial médico. por meio de práticas sociais. é resultante de vários fatores.28 citado por Sardenberg. em diferentes tempos e espaços. 3. que.

Nesse particular. emergiu de formas variadas. apresentadas como naturalmente dadas. No entanto. entre eles: Foucault (1995). são frutos de um processo de construção social. abrimos a possibilidade de desfamiliarização de sentidos. cuja repetição de uso os tornaram hegemônicos e cristalizados. Mas é importante ressaltar que o uso de repertórios hegemônicos. Em resumo. Boltanski (1979). Spink (1994c). a análise das conversas trouxe à tona o quanto o chamado conhecimento do senso comum está permeado por repertórios interpretativos produzidos nos domínios de saber (conhecimentos formalizados). Se registramos a repetição e reafirmação de sentidos cristalizados. Spink nos alerta para não cairmos na falácia reducionista de que as teorias médicas teriam o poder de instituir uma determinada ordem social. além de nos ajudar a compreender que determinadas características. Isso significa que. Laplantine (1991). mostrando que. A variabilidade de sentidos que encontramos nas conversas nos aponta para a riqueza dessa forma corriqueira de comunicação. A esse respeito. muitas vezes. ao entrarem em contato com outras versões podem ser reinterpretados e. nas explicações e classificações dadas pelas pessoas sobre categorias de percepção do próprio corpo. seja porque esse discurso naturalista sobre o corpo se traduz em práticas disciplinares que efetivamente moldam as relações entre pessoas e classes sociais” (1994c:94). ao termos acesso a versões variadas. não se pode ignorar o seu poder de legitimação: “seja por produzirem um discurso natural sobre uma realidade que é socialmente construída.Nas conversas do cotidiano pudemos identificar o uso de repertórios presentes nos discursos da área da saúde. até porque se constituem elas próprias em produtos. nas conversas. perdem as conexões com os sentidos que lhes deram origem. as conversas mostraram que não estamos condenados ao uso circular de sentidos já produzidos. tem sido apontada por vários autores. registramos também a existência de 213 . A hegemonia exercida pela ciência (área de biomédicas nesse caso). saúde e doença.

quiçá. Dessa forma. as conversas desempenham um papel importante na difusão. na manutenção e.um processo dinâmico de ressignificação que possibilita a produção de sentidos singulares. por permearem diferentes esferas de interação social. na reinterpretação e produção de outros sentidos que possam levar a transformações sociais. 214 .

Marly (sempre presente). Thereza Christina Pegoraro – que sabe muito bem fazer uso das interações mediadas e quase-mediadas –. produções midiáticas. conforme abordado nos capítulos três e quatro. faz uso dos conceitos teóricos apresentados no capítulo dois. desenvolvidas ao longo dos últimos anos. mesmo distante. discutimos a 1 Dedico este trabalho a Germano. como material de análise. descritos no capítulo um desta coletânea. enfim. especialmente em relação à pesquisa sobre a construção da AIDS-notícia. Essas reflexões constituem um diálogo permanente entre a abordagem teórico-metodológica sobre produção de sentido e práticas discursivas e experiências de pesquisa. Gostaria de agradecer as inúmeras e imensuráveis contribuições de Vera Menegon às reflexões apresentadas neste capítulo. pela construção de textos que rompem barreiras de tempo e espaço. Gostaria de agradecer a cuidadosa leitura de Ricardo Pimentel – o pai do Caio e marido da Ercília –. e Jorge Lyra–. os argumentos aqui apresentados acompanham os debates que marcam o percurso histórico dessa abordagem e as reflexões sobre construcionismo em Psicologia Social. Assim. o trabalho de John Thompson (1995a. no plano epistemológico. 1995b). na sociedade contemporânea. 215 . Agradeço. e rigor e interpretação nos processos de análise. que tiveram. pela atenção e cuidado com que se mostra próximo. Tendo como referência. Betania e Bruna. tais como: pesquisa ética e postura construcionista. a uma estrela que se faz aqui presente nos subtextos.CAPÍTULO IX TEXTOS EM CENA: A mídia como prática discursiva1 Benedito Medrado O objetivo deste capítulo é apresentar algumas reflexões sobre a importância da mídia na construção e circulação de repertórios. e emprega princípios. A proposta principal deste capítulo é apresentar um ensaio sobre conceitos e processos centrais aos estudos em mídia.

apresentamos o modelo analítico tríplice de Thompson. 3 Por exemplo. por fim. definimos mídia. esse sistema possui uma dimensão simbólica – num constante jogo entre signos e sentidos 2 –. armazenamento. conforme matéria publicada dia 21 de julho de 1996. superando inclusive os refrigeradores. textos científicos constituem instrumentos midiáticos. divulgados via Internet e. inclusive. apresentamos. Por outro lado. que compreende a (re)construção. Em linhas gerais. consequente 2 Para uma discussão sobre sentidos e signos. sua afluência de público3 e. tendo por base experiências de pesquisa. 216 . reprodução e circulação de produtos repletos de sentidos. espectadores. compreende também uma dimensão contextual – temporal e espacial –. Paulo. desenvolvidas individualmente e em coletividade.). pelo jornal Folha de S.reconfiguração entre as dimensões público e privado que a mídia proporciona. na medida em que esses produtos são fenômenos sociais. revistas ou livros. intitulada País deverá ser o 2º em venda de TVs . situados em contextos. Para ilustrar alguns processos que caracterizam a produção midiática. o Brasil é o terceiro país do mundo em venda de aparelhos de televisão. apresentados em TV ou rádio. com base nas reflexões de Thompson (1995b). que constituem um dos mais elevados itens de consumo da população. A partir desses pressupostos. Por um lado. propondo uma ruptura da dicotomia emissão-recepção e desfamiliarizando a noção de autoria. a mídia assumiu um papel fundamental no processo de construção e circulação de repertórios. por meio de seu poder de dar visibilidade a fenômenos sociais e de construir novas dinâmicas interacionais. É inegável que. que têm aspectos técnicos e comunicativos e propriedades estruturadas e estruturantes. na sociedade contemporânea. tendo em vista. recomendamos a leitura do capítulo quatro desta coletânea. algumas reflexões. como um sistema cultural complexo. principalmente. tanto para quem os produziu (os media) como para quem os consome (leitores. como um sistema cultural. telespectadores etc. Textos e imagens publicados em jornais.

Spink. Inclui também a possibilidade de fazer uso dos cinco sentidos básicos – visão. 4 Ver discussão sobre o conceito de pessoa no capítulo dois desta coletânea. 1997b). Nesse tipo de interação. A interação mediada envolve diretamente o uso de meios técnicos (papel. 1995b. levando a uma reconfiguração das fronteiras entre o espaço público e o privado. Thompson. Esse autor propõe pelo menos três modalidades de interação que caracterizam o cotidiano contemporâneo: a tradicional interação face a face. olfato. cabos elétricos. 1993. Nesse tipo de interação. que se encontra distante espacial e/ou temporalmente. de coparticipação. informações e descobertas. Entre o público e o privado: A mídia e seu poder de dar visibilidade a fenômenos sociais A mídia introduziu transformações substantivas nas práticas discursivas cotidianas. é o tipo de comunicação que transcorre num contexto de troca direta. 1995a. Segundo Thompson. ou seja.influência sobre o cotidiano das pessoas. reduzindo barreiras espaciais e temporais e permitindo comunicações para além da interação face a face (Giddens. A interação face a face é a conversa cotidiana por excelência. ondas eletromagnéticas etc. em que os participantes estão imediatamente presentes e compartilham um sistema de referências espaciais e temporais comuns.4 Desse modo. nas formas como as pessoas produzem sentidos sobre fenômenos sociais e se posicionam. a interação mediada e a interação quase-mediada. 1. audição. ela confere uma visibilidade sem precedentes aos acontecimentos.) que permitem com que conteúdos linguísticos possam ser transmitidos de uma pessoa a outra. 217 . A abordagem de Thompson (1995b) nos possibilita compreender essas transformações a partir de uma reconceituação do conceito de interação. paladar e tato. os participantes contam com uma multiplicidade de apoios linguísticos compartilhados para transmitir e interpretar as mensagens.

jornais. os adjetivos mediada e quasi-mediada são aqui empregados para demarcar. segundo. níveis distintos de interação humana gerados pela inovação tecnológica. A visibilidade de fenômenos sociais gerada pelos tipos de interação mediada e quasi-mediada passa. necessariamente. a comunicação se processa rompendo barreiras espaciais e/ou temporais. o sistema de correios e telégrafos. a assumir um lugar importante nas discussões contemporâneas. por exemplo: livros. propiciando novas configurações aos esforços de produção de sentido. O espaço fluido – sem fronteiras espaciais e temporais – que a mídia propicia leva.podemos incluir. Partindo do pressuposto de que as interações são sempre mediadas. Como na interação mediada. propomos que a mídia não é apenas um meio poderoso de criar e fazer circular repertórios. porque o fluxo de trocas entre os falantes não é imediatamente recíproco. os participantes não dispõem da troca direta. havendo uma expressiva lacuna temporal entre a emissão e a recepção. 1997b). mas difere em dois aspectos: primeiro. a reconceituar a divisão estabelecida na modernidade clássica entre privado e público (Spink. assim. chats da Internet. Não há. revistas. antes de tudo. inevitavelmente. Nesse tipo de interação. seja por dispositivos eletrônicos ou pela diversidade de vozes e pelo jogo de posicionamentos5 que se fazem presentes no momento da dialogia. a interanimação dialógica – trocas simbólicas entre os falantes – continua ocorrendo. porque a comunicação não é dirigida especificamente a uma pessoa (mas a um outro generalizado). o compartilhamento de um sistema comum de referência espacial e temporal. mas que tem um poder transformador de reestruturação dos espaços de interação. televisão e sites da Internet. 218 . por exemplo. Contudo. sistema telefônico. A necessidade de gerir conteúdos torna-se cada 5 Os conceitos de vozes e posicionamentos são abordados no capítulo dois desta coletânea. correio eletrônico etc. Desse modo. A interação quasi-mediada refere-se às relações sociais produzidas com o advento da comunicação de massa.

na bibliografia geral e especializada. No Brasil. os investimentos da sociedade civil e do próprio Estado para regular a programação televisiva é um exemplo desses esforços. diz o Código Brasileiro de Auto-regulamentação Publicitária: Na publicidade pela Televisão atender-se-á especialmente aos seguintes requisitos: a) os comerciais e mensagens de outra natureza. por exemplo. em que AIDS deixará de ser uma sigla e passará a ser grafada como um substantivo comum: AIDS. No campo da publicidade televisiva. desfamiliarizando conceitos ainda presos ao tipo de interação face a face e 6 Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (1978). de dicionarização do termo. Do mesmo modo.7 esses esforços ficam ainda mais patentes. Anexo A (Bebidas Alcoólicas) e Anexo J (Produtos de Fumo). por exemplo. 7 Optamos pelo uso do termo AIDS. em caixa baixa. destacamos o processo. torna-se imprescindível construir uma abordagem metodológica que possibilite analisar processos e produtos midiáticos. 1997b).6 No caso da epidemia da AIDS. exceção feita aos eventos especiais patrocinados cuja determinação de horário independa do controle do veículo ou do Anunciante. algumas restrições à exibição indiscriminada de comerciais de bebidas alcóolicas e de produtos de fumo ao longo da programação televisiva brasileira. seguindo recomendações da Coordenação Nacional de DST e AIDS e em acordo com o uso corrente. o Conselho Nacional de Autorregulamentação (CONAR) estabeleceu. entre outros (Spink. já iniciado. só serão transmitidos nos horários que vão das 21 às 6 horas. No que se refere a esses dois itens de produtos.vez mais necessária. Formal ou informalmente. particularmente. grupo de risco. nas orientações das organizações não governamentais (as ONG/AIDS) e da Coordenação Nacional de DST e AIDS aos jornalistas para evitar o uso de termos e expressões preconceituosas. em 1978. inclusive o chamado “merchandising” pela televisão. tais como aidético. São Paulo. mecanismos de controle e moralização vêm continuamente sendo propostos. 219 . Código brasileiro de autorregulamentação publicitária. No Brasil.

a partir da análise sócio-histórica e pesquisa etnográfica. que apresenta uma estrutura articulada. O segundo aspecto da comunicação de massa seria a construção da mensagem. Esses processos. Contudo. 2. Figura 1: Desenvolvimento metodológico do enforque tríplice Produção e transmissão ou difusão Enfoque tríplice Construção Recepção eapropriação Fonte: Thompson (1995a) Análise sócio-histórica e interpretação da doxa Análise formal ou discursiva Análise sócio-histórica e interpretação da doxa Interpretação do caráter ideológico das mensagens A produção e transmissão ou difusão das formas simbólicas da comunicação midiática compreende o processo de produção das formas simbólicas e de transmissão via canais de difusão seletiva. cujo processo de análise discursiva considera a mensagem comunicativa como uma construção simbólica complexa. embora a análise das 220 .entendendo a complexa dinâmica que se estabelece nas interações mediadas por dispositivos técnicos ou via comunicação de massa. 2) a construção da mensagem dos meios de comunicação e 3) a recepção e apropriação. torna-se possível apreender esses processos. segundo Thompson. Thompson (1995a) propõe um enfoque analítico tríplice (tripatite approach) que envolve três dimensões: 1) a produção e transmissão ou difusão das formas simbólicas. Um enfoque analítico tríplice: Desfamiliarizando conceitos Para análise das interações mediadas e quasi-mediadas. Portanto. estão situados dentro de circunstâncias sócio-históricas específicas e geralmente envolvem acordos institucionais particulares. salienta Thompson.

ele tem suas limitações: (. esses processos que compreendem a produção midiática. podemos identificar e examinar as circunstâncias e as condições socialmente diferenciadas em que as mensagens são recebidas por pessoas particulares. mostrando como os vários aspectos se alimentam e se iluminam mutuamente (Thompson. sob certos aspectos. é preciso combinar uma metodologia de análise que envolva essas três dimensões. limitada. A interanimação dialógica está presente tanto para o emissor como para o receptor.. Do mesmo modo que a análise da produção e transmissão. mas na interação entre leitor (categoria que inclui também o pesquisador) e produto. 1995a: 392). ele é prejudicado quando é tomado isoladamente dos aspectos comunicativos que ele necessariamente pressupõe. mas que ignora na prática. Todavia. em nossas análises. Nesse caso. Assim.. 221 .características estruturais internas das mensagens seja um empreendimento perfeitamente legítimo. para entender a dinâmica dos processos de produção midiática. Não reproduzimos. salienta Thompson.) muitas vezes. nessa perspectiva. Não há. senão. a análise dos processos de recepção e apropriação pode ser realizada por meio de uma combinação da análise sócio-histórica e das pesquisas etnográficas. 1995a: 395). isto é. a produção/transmissão e a recepção/apropriação das mensagens dos meios de comunicação (Thompson. Um enfoque compreensivo do estudo da comunicação de massa exige a capacidade de relacionar entre si os resultados dessas diferentes análises. a clássica dicotomia emissão-recepção. Segundo ele: O fato de que cada um desses campos se constrói através da abstração dos outros aspectos da comunicação de massa implica que uma análise centrada num campo objetivo singular será. buscamos considerar. reconhecendo que o sentido de um produto midiático não se localiza nem se esgota no momento de produção. uma distinção temporal. A recepção e a apropriação das mensagens dos meios constituem o terceiro elemento do enfoque tríplice proposto por Thompson.

de seu livro Modernização dos sentidos. um site para Internet. como a TV e. também. Como nos adverte Gumbrecht (1998). as origens do conceito de autor merecem ser resgatadas à luz da noção de plurivocalidade. Em sua abordagem. uma prática social. entre uma multiplicidade de vozes presentes ou presentificadas. 8 Dragonnetti. seja ela oral. está em constante processo dialógico. 1998: 97). como Paul Zumthor. (1980) La vie de la lettre au Moyen Âge. apresentada no capítulo dois desta coletânea. consequentemente. Mesmo quando isolada. a linguagem. a produção e. Desnecessário dizer que aqueles dentre os medievalistas que. um programa de TV. presente na obra de Bakhtin. os estudiosos da idade média foram os primeiros a mostrar como nosso conceito contemporâneo de autor é inadequado para compreender as formas de significação que existiam antes da invenção da imprensa. 222 . Quando um autor está produzindo uma obra (uma pintura. Nos dias de hoje. em que a imprensa concorre com outras formas de significação e circulação de sentidos (algumas inclusive de alcance marcadamente mais amplo. no capítulo Autor como máscara. uma peça publicitária. é impossível pensar a ideia de um emissor puro. Na visão bakhtiniana. a noção contemporânea de autoria. sublinham o caráter vocal da produção textual na Idade Média contribuem também para a historicidade dos papéis elementares da comunicação literária (Gumbrecht. Lembremos a insistência de Roger Dragonetti8 na plurivocalidade do latim auctor. de um primeiro locutor a quebrar o silêncio do universo. por definição. uma matéria de jornal. escrita ou mediada por dispositivos técnicos é. mais recentemente. a Internet). ou mesmo um enunciado). a recepção são uma permanente atividade retórica de negociação entre sentidos possíveis.Desfamiliarizamos. R. Paris: Seuil. perfeitamente compreensível a partir do conceito de vozes. cujos referentes variam entre Deus (autor de todo ato) e o copista de um manuscrito – sem reservar lugar àquele que ‘inventa’ um texto.

obedecem a certas regras. construídas por um grupo social específico (os media). mais precisamente. por exemplo. cursos de formação e capacitação –. Esses repertórios funcionam como substratos na composição da linha argumentativa ou retórica midiática. adquirem maior visibilidade e passam a tornar-se disponíveis às pessoas. Conforme capítulo dois desta coletânea. Essas regras são aprendidas sob a forma de habitus que orientam o cotidiano da produção midiática. apresentaremos alguns resultados de três experiências distintas: uma pesquisa sobre a análise de matérias sobre o rodízio de carros. quando nos referimos à produção de sentido estamos ressaltando os processos de construção de um (ou mais) sentido(s). por meio delas. em última análise. publicadas em 1994. a produção publicitária. em que adotamos como foco as práticas discursivas que se processam no cotidiano ou. a interanimação dialógica (trocas simbólicas entre os falantes que se animam mutuamente). realizada em 1997. aprendidas durante o processo de socialização secundária. atravessado pelos tempos vivido e longo. por intermédio de cursos de formação e capacitação profissional. Elas ampliam o leque de repertórios disponíveis às pessoas. possibilitando a produção de outros sentidos e a construção de versões diversas sobre si e o mundo a sua volta. uma pesquisa sobre a construção das matérias sobre AIDS nas principais agências jornalísticas brasileiras. como domínio de saber. Nessa abordagem. Ao focalizarmos as produções midiáticas. Dispomos de um conjunto de regras formais – manuais. podendo compor suas práticas discursivas cotidianas. pela Folha de S. Para dar subsídios a essas reflexões e permitir a explicitação de alguns processos que caracterizam a produção midiática. práticas sociais de caráter discursivo. e 223 .As produções da mídia. as produções midiáticas constituem. estamos identificando repertórios que possam compor essas produções discursivas e que. que regulamentam e embasam. que ocorre no tempo curto. Paulo. a partir da seleção e reconfiguração de determinados repertórios.

 Apelo à consciência e solidariedade – em que se promove e/ou se valoriza a participação da população na Campanha. A retórica na produção jornalística: Repertórios sobre cidadania na imprensa Sob a coordenação da Profª Mary Jane P. Endo e Vera Mincoff Menegon. compreendendo toda a semana anterior. B. 224 . 9 desenvolvemos em 1995 uma pesquisa sobre os sentidos de cidadania nas matérias sobre a campanha Ajude São Paulo a sair do sufoco. identificamos. Debates socioambientais. Posteriormente. dois repertórios distintos. em 1996. V. Spink e a participação de alguns integrantes do Núcleo de Pesquisa em Psicologia Social e Saúde. T. Adesão ao rodízio: do dever solidário à consciência obrigatória. Lima. Para análise. publicadas pelos jornais de maior circulação na cidade de São Paulo. L.. 3. Ano I.uma terceira pesquisa acerca de repertórios sobre masculinidade na propaganda televisiva nacional. destacamos as nomeações (termos e expressões) empregadas pelos jornais para se referir à população paulista. Menegon.. foi feita uma leitura das matérias com o objetivo de identificar interlocutores. M. e publicada no Boletim do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea: Medrado. Como resultado. CEDEC – Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. Paulo. participaram dessa pesquisa: Luiz Antônio Rala. Uma primeira versão dos resultados foi apresentada na 48ª Reunião Anual da SBPC. utilizando procedimento de análise semelhante aos mapas associativos (ver capítulo quatro). realizamos clipping (seleção) das matérias dos jornais Folha de S. L. nº 2 – out/nov/dez-1995 jan-1996. Rala. 11-12. São Paulo. Paulo e O Estado de S. Luís Carlos Araújo Lima. realizada entre 1995 e 1997. Teresa Cristina. A. C. por meio de 9 Além deste autor. pp. publicadas entre 21 de outubro e 04 de novembro. Essa campanha propunha o rodízio de carros como alternativa de combate à poluição. C. Endo.. basicamente. Foi recortado um total de 144 matérias a respeito da Campanha. durante e até a segundafeira posterior à efetivação do rodízio. A. posicionamentos e argumentos centrais dos textos. um dos interlocutores mais presentes na construção das matérias. Inicialmente. (1996). das quais 65 eram da Folha e 79 do Estado..

em que grifamos algumas dessas expressões: A vendedora Gisele de Oliveira gostou da proposta do rodízio e pretende continuar colaborando. marcado pelo inter-relacionamento desses repertórios (apelo à solidariedade. ‘Não é sacrifício algum.  Relação direito-dever – esse repertório aparece. transporte solidário etc. de modo bipolar..expressões como exercício de cidadania. a produção de um texto complexo. configura-se como menção à possibilidade de não participação na campanha do rodízio. 04/09/95. A ênfase no direito. 4). Estado. a atividade profissional da pessoa que inviabiliza a adesão etc. Acho que a experiência legitimou o rodízio para 96” (Entrevista do Secretário do Meio Ambiente Fábio Feldmann. flagrante. restrição. seja resgatando e enfatizando o dever/obrigação da população em aderir a causas coletivas. sendo muitas vezes o motorista que não aderisse ao rodízio designado com o termo infrator e o controle direto identificado como uma medida necessária. seja focalizando o direito do cidadão ao não engajamento na Campanha. Trabalhamos com comportamento coletivo. dever-direito). Produzindo árvores associativas foi possível perceber. colaboração. Paulo. as justificativas ilustradas nas matérias apontam argumentos mais individuais e menos políticos. O foco na noção de dever aparece por meio de expressões como todos devem. na maioria das vezes. mesmo quando a restrição à circulação de veículos for suspensa. Aprendemos com o rodízio. Fazendo isso ainda colaboro para melhoria da qualidade do ar da nossa cidade’ (O Estado de S. 31/08/95. p. algo complexo. porém. Na maioria dos casos. há nos textos uma ênfase no que 225 . produzindo uma mensagem retórica ambígua. Caderno 3. Caderno C. por exemplo: o Estado não dá condições. nas matérias. consciência ecológica. como nos exemplos que se seguem. p. com justificativas variadas. Por um lado. obrigatória. a deficiência do transporte público. “Testamos o grau de consciência da população e aumentamos esse grau. publicada na Folha de S. por sua vez. 4).

a procedência e veracidade das informações atribuídas aos personagens (termo usual em mídia). p. orientaram os motoristas a reorganizar seus compromissos ou optar pelo transporte solidário nos dias em que tiverem de deixar o carro na garagem (Estado. 3). pessoas públicas (artistas. Fábio Feldmann. esses depoimentos. por outro lado. o dever solidário. contraditoriamente. qual a sua funcionalidade. p. políticos). Caderno A. no processo de análise. Caderno C. Caderno C.. Não nos interessava. ela poderá se tornar obrigatória nos meses de inverno a partir de 96 (Folha. “Foi uma operação de alto risco. Caderno C. Considerando a discussão anterior sobre a noção de autoria. no emprego de termos e expressões que denotam um caráter participativo e de interesse comum (você deve ser solidário!). É interessante notar que.denominamos consciência obrigatória. acredita que uma espécie de “constrangimento moral” fará muitos paulistanos aderirem ao programa (. como nos trechos que se seguem: Durante a distribuição de folhetos.. Mas deu certo. técnicos e da população em geral. Se a medida for aceita e apresentar resultados. em que a obrigatoriedade aparece imersa num discurso que enaltece a solidariedade (você tem que ter consciência!). 21/08/96. ou. 4).) “Quem tem consciência do problema não deixa de apoiar” (Estado. ficou constrangido por ter sido flagrado na rua” (Entrevista do Secretário do Meio Ambiente Fábio Feldmann ao jornal O Estado de S. para exemplificar posições contra ou a favor da Campanha. 1). porque até quem não aderiu admitiu a legitimidade do rodízio. 226 . foram tratados como texto. p. em que na apresentação da mensagem se ressalta o dever. considerando que a edição de uma matéria tem. os voluntários responderam a questões sobre o rodízio. Paulo. portanto. 03/09/95. 24/08/95. p. na maioria dessas matérias. mas como aquele depoimento era inserido no corpo da matéria. 1). houve um expressivo uso de depoimentos de figuras de autoridade. O secretário do Meio Ambiente. 27/08/95. que se destaca.

em maior ou menor grau. No caso da AIDS. é possível perceber que a composição de uma informação em mídia está inserida num contexto argumentativo (Billig. a mídia assume dois papéis importantes: por um lado. Para além de uma síndrome. uma construção retórica. a função de apresentar os fatos para o leitor. Dessa forma. pela impressionante dimensão midiática que esse fenômeno assumiu na última década. O que temos em mídia são interpretações. a AIDS tornou-se um fenômeno social marcado pelas tecnologias modernas. em que o compromisso de divulgar informações (conteúdo) não pode ser compreendido isoladamente da forma retórica com que essas mensagens são transmitidas. mas também se mostrou imprescindível na análise de textos sobre DST e AIDS produzidos e veiculados pela imprensa nacional. uma intencionalidade. Com essa frase.sempre. é impossível informar de modo neutro. 1991). o jornal francês Le Figaro destacava um dos aspectos mais marcantes da epidemia da AIDS – sua ampla difusão no mundo. argumentos. de uma epidemia. com base nisso. via meios de comunicação de massa – e a construção de um novo fenômeno social: a AIDS-notícia. discorreríamos nossa análise. mas principalmente. 4. conforme estudo descrito a seguir. no campo das pesquisas médicas. No entanto. é possível identificar vários sentidos em uma matéria. considerando a função interpretativa e analítica do jornal. estaríamos convencidos de que apreenderíamos a realidade e. Essa foi uma característica marcante que identificamos na pesquisa descrita anteriormente. a imprensa anunciou o aparecimento de um novo fenômeno no campo 227 . Se lêssemos os textos jornalísticos com olhos de quem busca a função informativa da imprensa. ou seja. Em última análise. A AIDS-notícia: A construção de um fenômeno midiático “A AIDS é a primeira doença da mídia”. em 30 de outubro de 1985.

desenvolvemos. O período selecionado para análise compreendeu os meses de junho a dezembro de 1996. os artistas e os políticos. Jorge Lyra e Helena Lima e uma equipe de assistentes composta por Roberta Edo. Isabel da Silva Amaral e Fernanda Efigênia Ribeiro. operou a passagem das informações sobre a doença do domínio médico e científico para o registro social. um estudo com o objetivo geral de analisar a visibilidade das matérias sobre DST e AIDS nos jornais brasileiros de maior circulação – Folha de S. subsidiando a produção de matérias para outros jornais. além dos médicos e pesquisadores. Como destacam Claudine Herzlich e Janine Pierret (1992): Desde sua irrupção.da patologia. seus contornos e. ela preocupou não só os atingidos ou ameaçados. a AIDS representou mais do que uma nova doença. a AIDS nos mostra a extensão que uma doença pode tomar no “espaço público”. foram realizadas entrevistas com profissionais envolvidos diretamente nesse processo: repórteres e editores responsáveis pela produção de notícias sobre AIDS. Uma primeira versão dos resultados foi apresentada no II Congresso Nacional de Prevenção às DST e AIDS. sobretudo. do político e do social (p. Menegon. em especial a AIDS. nov. Ministério da Saúde/Coordenação Nacional de DST e AIDS. Paulo. 7). além deste autor. desenhou. 18-21. O Globo e o Jornal do Brasil10. buscando entender o processo de construção dessas matérias. e. O Estado de S. Esses veículos compreendem não apenas os jornais de maior tiragem em âmbito nacional. Ela coloca em evidência de maneira brilhante a articulação do biológico. como também funcionam como agências de notícias. progressivamente. por Vera M. 228 . Cláudia Stella. Paulo. no âmbito do Núcleo de Pesquisa em Psicologia Social e Saúde e com apoio da Coordenação Nacional de DST e AIDS (CN-DST/AIDS). Dada a centralidade da mídia na construção de repertórios sobre as doenças sexualmente transmissíveis. Mobilizando. por outro. mas o conjunto da sociedade. Brasília/DF. período que marca a implantação da Assessoria de Imprensa da CN-DST/AIDS. em 1981. Além disso. tanto nas sedes (Rio de Janeiro e São 10 Essa pesquisa foi coordenada pela Profª Mary Jane Spink e contou com uma equipe de pesquisadores composta. Rapidamente.

particularmente no tocante à epidemia da AIDS.Paulo) como nas sucursais. Os principais critérios para a inserção de uma matéria e seu destaque numa determinada linha editorial são a exclusividade e o ineditismo. referentes à construção de matérias no campo da saúde. Como forma de garantia de qualidade técnica da notícia. Alguns. passam pelos mesmos crivos jornalísticos. No período selecionado. em geral. isto é. possuíam um roteiro mínimo e possibilitavam ampliação dos temas abordados. principalmente o material resultante das entrevistas – enriquecidas por observações – realizadas nos três espaços institucionais (sedes e sucursais dos jornais e sede da CN-DST/AIDS). há por parte da imprensa uma preocupação específica no que se refere às matérias sobre temas relacionadas à área da saúde. direta ou indiretamente. foram registradas 1. em alguns jornais existem redatores especializados que. em Brasília. nosso objetivo é dar visibilidade a alguns processos identificados ao longo dessa pesquisa. o que faz notícia em AIDS? Em linhas gerais. como se pode perceber no trecho abaixo. inclusive. Existem também. dos referidos jornais e profissionais de diferentes unidades da CN-DST/AIDS 11. inclusive atuam como articulistas ou enviados especiais a Congressos da área. acerca das doenças sexualmente transmissíveis. 12 Uma versão completa dos resultados da pesquisa A construção da AIDS notícia se encontra junto à Coordenação Nacional de DST e AIDS. Contudo. não pretendemos apresentar o conjunto dos resultados desse trabalho 12. antes de tudo. as notícias. 229 . recorrentemente. Focalizaremos. orientados pela questão: existe uma especificidade nas notícias sobre AIDS? Ou. Os efeitos de uma informação incorreta nessa área podem ser catastróficos. mais precisamente. Neste capítulo. mas. e/ou AIDS. extraído da entrevista com um dos jornalistas: 11 As entrevistas com os jornalistas e funcionários da CN-DST/AIDS foram semidirigidas. sob a forma de relatório final. buscam assessorar os demais jornalistas na construção de matérias. assim. consultas a profissionais da área da saúde. em particular.728 matérias cujo conteúdo tratava. em geral.

pressupõe um aprofundamento em um tema: evolução. qualquer área vai dar mais destaque pra uma informação exclusiva (. um caderno especial com reportagens sobre problemas relacionados à saúde. e aí se 230 . As matérias de comportamento.) É isso o que define o fato de ser notícia mesmo. Como destacado por um dos entrevistados. ele dizia: “Não. porque ‘continua’ não é notícia”. aquelas que buscam apresentar discussões sobre o cotidiano das pessoas enquadram-se no tipo de pauta fria. só para vocês!”. Já a pauta fria. embora haja a divulgação de dados estatísticos e serviços. eu tinha um professor que dizia que se você botava “tal coisa continua acontecendo”. Por exemplo. não pode ter saído já 20 vezes no jornal. a inclusão de uma matéria e seu formato. furo jornalístico. são mais frequentes as matérias que tratam de comportamento. Há. uma grande presença de matérias sobre AIDS com relatos de vivências da doença... Esse tipo de matéria fica reservada para cadernos especiais. na área de saúde. isso é outro critério fundamental pro jornal. havia.O leitor não quer saber. ser publicada preferencialmente no dia em que ocorre. assim. por exemplo. qualquer. interessa a quem é da área.) Quando alguém diz. havia uma predominância de matérias de comportamento. surgimento. então a gente procura puxar para o lado mais interessante. Reescreve. seja sobre saúde ou não. é sempre permeada pela noção de pauta quente ou fria. Nesse sentido. em alguns casos. Paulo. A pauta quente está ligada ao fato novo.. tratamento de doenças etc. o que já aconteceu. no jornal O Estado de S. ou quem tem uma ligação direta com o problema. cuja razão ele atribui à amplitude do público que se pretende atingir: Eu acho que o leitor se interessa mais pela coisa mais comportamental.. que chame mais a atenção do leitor por ser novidade (. Nesse caderno. Esse é um formato frequente nas matérias sobre temas relacionados à saúde. eu acho que essa coisa de pesquisa. Inclusive. pode ser incluída entre uma tirada e outra de exemplares .. ou seja.. isso é uma coisa importante. mais emoção. aos domingos. tenho uma informação fantástica pra t e passar. Precisa.. “Olha.. portanto. que sempre.

Além disso. a definição do título de uma matéria é um dos itens mais polêmicos no fechamento. digamos.. Nesse caso.)Você tem esse lado estatístico da doença. um dos entrevistados discorreu sobre constante incoerência entre o título e o texto da matéria: Uma matéria que fala que o Ministro da Saúde afirmou. Uma outra regra presente na construção da AIDS-notícia é o que os jornalistas denominam de esquentada. essa estratégia discursiva aparece com frequência: Pensa comigo: em termos de conteúdo. obedecendo aos critérios estabelecidos pelo jornal: número de toques. que é o crescimento da doença (... No entanto. em que se busca tornar a informação menos técnica e mais atraente. por exemplo. a maioria dos repórteres entrevistados relataram que não podem dar título às suas matérias o que. porque tá vivendo aquilo (. você errar é outra história. acaba gerando 231 . (. as duas coisas. vende mais quando tem notícia trágica. Por exemplo.) mais ligadas à área científica... às vezes. esquentar ainda é uma coisa. As duas coisas. você chamar a atenção para o lado trágico da doença. que poderá estudar algum dia a possibilidade de distribuir camisinhas em escolas públicas você vai ver o título assim: O Ministro da Saúde vai distribuir camisinhas em escolas públicas.. que sempre chama a atenção. Você usar termo preconceituoso no título… a gente não usa.) É esquentada mesmo que a gente chama. ou então a pessoa da área médica (. Alguns poucos jornalistas têm a prerrogativa de dar o título à matéria. ou quando tem uma questão de alguma descoberta nova? Em AIDS. né? A gente esquenta. Isso se aplica também às matérias sobre AIDS.) e aí tudo que passa no jornal sobre isso a pessoa quer ver. Uma maneira de esquentar a matéria é aliar um grande volume de informações e novidades à natureza trágica de um fenômeno. Porque a AIDS hoje você tem o lado. No caso da AIDS. ontem. Mas.. como argumentou um dos entrevistados. a forma discursiva torna-se mais importante que o conteúdo da informação.interessa por tudo que fale sobre isso.. podendo gerar conflitos de ordens variadas.

cujo título impresso indicava a cura da AIDS. acontece com qualquer um de nós como leitor. que. Você vai ler a matéria e não é bem aquilo. Foi citado o exemplo de um episódio..) Q uem desenha a página. Não tenho absolutamente nada a ver... contestar isso no dia a dia. ele nunca disse sobre a cura da AIDS naquela matéria – foi o título que disse (. Mas isso também não é uma rotina. isso realmente escapa ao controle do repórter. de forma.). acha que o título não correspondeu ao que foi dito. tendo em vista que o título atribuído pode dar uma dimensão catastrófica que não condiz com o conteúdo da matéria... ou seja. por exemplo. mas como ele estava lá [Vancouver]. [Ficou pra quem estava como editor aqui?] É. A definição do título. conforme um dos jornalistas entrevistados: Acontece. que o repórter tem uma participação direta no título e ele atribui ao repórter a responsabilidade. A matéria não diz isso’.transtornos.. Na imprensa. às vezes. redigiu e enviou uma matéria para o Jornal Folha de S. Por exemplo. não sou eu que faço o título. que é muito bom por sinal. Você lê um título e dá uma dimensão catastrófica.) O Jairo deve dar os títulos para as matérias dele também..(. Paulo.. Como mencionou um dos entrevistados: quem manda no título é a pessoa que diagrama a página (…. se realmente você for. Isso acontece. de você. envolvendo o médico Jairo Bouer. está condicionada à disponibilidade de espaço para publicação. Você leu a matéria. a titulação é feita também com base em critérios técnicos e/ou estéticos. Porque geralmente o leigo – nesse assunto de jornalismo – ele acha que é o repórter que faz o título. eu imagino que ele não pôde dar. aí a convivência fica impossível numa redação… uma pessoa que te deu a entrevista. em Vancouver. na maioria das vezes. na ocasião do Congresso Mundial.. aliados à busca de venda de um produto estão também critérios estilísticos. É ele quem diz o tamanho do título (…) toda 232 .. você esclarece: ‘Olha. Você lava as mãos. embora o conteúdo da matéria não expressasse essa ideia: Com relação a isto. Então. o Jairo Bouer..

é tão importante quanto a própria AIDS. Como bem destaca esse autor. Além dessas dimensões. R. a expansão da AIDS pelo mundo é 13 Parker. o papel dos signos e sentidos. nos seguintes termos: qual a especificidade do fenômeno AIDS? Na visão de Richard Parker (1994)13. político e econômico a teia de sentidos é tecida com aspectos que vão desde a corrida pela formulação de medicamentos novos e mais eficazes até as políticas internacionais e locais de controle e prevenção da doença que tornou ainda mais visível a luta de grupos sexuais excluídos. A AIDS no Brasil.matéria que vai pro alto tem o mesmo tamanho de título. As implicações político-econômicas dessa mudança é que essa população economicamente menos favorecida depende exclusivamente dos serviços públicos de assistência à saúde. a característica mutante da epidemia de AIDS representa um sério desafio: o que foi inicialmente atribuído como uma doença de homossexuais passou a ter impacto sobre a população em geral. (1994) Sexo entre homens: consciência da AIDS e comportamento sexual entre homens homossexuais e bissexuais no Brasil. à nossa pergunta inicial: existe uma especificidade nas notícias sobre AIDS? Propomos uma reformulação dessa questão. Antes mesmo de o ser. Retornamos. Nesse sentido. Rio de Janeiro: ABIA/IMSUERJ/Rulume Dumará. que ajudam a situar a AIDS como um fenômeno social por excelência. O subtítulo é sempre do mesmo tamanho. a proporção de pessoas atingidas pela AIDS era de 40 homens para uma mulher. Outra mudança ocorrida foi no perfil socioeconômico das pessoas atingidas: inicialmente tomada como uma doença de classes sociais mais favorecidas. e só depois se tornou uma evidência médica. 233 . Agosto/97). No Brasil. 129-149. 129). fato este que tem sido referido como pauperização da AIDS. em 1983. no trajeto da epidemia no Brasil. pp. “a AIDS apareceu primeiro como um fenômeno da mídia. a AIDS hoje afeta os setores mais pobres da sociedade. assim. Nos planos ético. em 1997 essa proporção passa a ser quatro homens para uma mulher (CN DST/AIDS. o doente-padrão já estava definido” (p.

expressa por meio de números sempre mais altos. Como destacado por um dos entrevistados: Na verdade. presente na mídia. essa caracterização polissêmica do fenômeno AIDS se inscreve na forma de sua dimensão midiática. podem apoiar-se em números crescentes de vítimas e segmentos da população que passam a fazer parte das pessoas atingidas. 1997:145). Desse modo. portanto. As informações publicadas pela mídia. empregando-o na busca de construir mecanismos discursivos para a ressignificação dos sentidos da AIDS. destacamos a seguir um estudo focalizando as relações de gênero e as masculinidades que nos permite visualizar essa tentativa de construção de novos repertórios. Uma ressignificação que possa ser instrumental para o desenvolvimento de visões mais compatíveis com a ação social responsável e solidária. Para a mídia. que circula. sob a as mais variadas formas. Destacamos. o inédito. Ainda no campo da sexualidade. em matérias sobre os mais variados temas. Assim. “nunca um tema permitiu tantos enfoques e tantas pautas na imprensa como a AIDS” (Biancarelli. é imprescindível entender a dinâmica da construção desse fenômeno midiático. pois vai ao encontro de uma das características fundamentais dos meios de difusão contemporânea: o novo. esse aspecto tem uma função importante. por exemplo. mas principalmente na ampliação dos repertórios disponíveis às pessoas em seu cotidiano. o papel da mídia não apenas na circulação de repertórios. a AIDSnotícia. nos mais variados cadernos e editorias. por incrível que pareça também tem várias matérias sobre AIDS. o segundo caderno. assim. quando vem um balé que trata do tema etc. na imprensa nacional. permitindo a desfamiliarização progressiva de alguns sentidos e construção de outros. 234 . o assunto AIDS dá em todas as editorias. Como consequência. como destaca Biancarelli.

Assim. Ridenti. Unbehaum & Medrado. o objetivo desse estudo foi identificar repertórios sobre masculinidade veiculados pela propaganda televisiva nacional. Los Angeles: University of California Press. como compromisso ético. (1995). Masculinities: knowledge. (1995). São Paulo: Ecos/Editora 34. a pesquisa adotou. atingível por praticamente nenhum homem. impuseram uma reavaliação da noção de masculinidade hegemônica14.5. Benedito (1998). não sendo. Sandra G. subordina outras masculinidades. investigar sobre masculinidade significa também discutir preconceitos e estereótipos e repensar a possibilidade de construir outras versões e sentidos. Gender and power: society. foi desenvolvida a dissertação de mestrado em Psicologia Social. Uma interpretação antropológica da masculinidade. the person and sexual politics. 1994). Connell. intitulada O masculino na mídia (Medrado-Dantas. Lisboa: Fim de Século. da ritualização (no sentido antropológico) das práticas da sociabilidade cotidiana e de uma discursividade que exclui o campo das emoções considerado feminino. (1987). Almeida. Margareth. heterossexual e dominante – é um modelo cultural ideal. Em linhas gerais. como padrão. Homens e masculinidades: outras palavras. A masculinidade hegemônica – branca. impulsionados pelos empreendimentos políticos e acadêmicos acerca das mulheres e homossexuais que. 1983a. Entre 1995 e 1997. power and social change. 1997). ela exerce um efeito controlador. Desse modo. 235 . Robert W. Contudo. Miguel V. Mídia e masculinidade: Entre sentidos hegemônicos e a diversidade Estudos sobre relações de gênero e sexualidade têm enfatizado a necessidade de pesquisas sobre homens e masculinidades. questionando valores tradicionais. Robert W. por meio da incorporação do habitus (Bourdieu. portanto. Além 14 A noção de masculinidade hegemônica é discutida em diferentes trabalhos tais como: Connell. Senhores de si. Arilha. Califórnia: Stanford University Press. a necessidade de analisar e desfamiliarizar o modelo central da masculinidade – a masculinidade hegemônica – que se impõe contra as experiências e posicionamentos de homens e mulheres.

E. particularmente. E. A partir do uso de algumas das técnicas apresentadas no capítulo quatro desta coletânea. durante o ano de 1996. que. 24 (2). 21. da programação referente ao horário nobre (20 às 23h) da Rede Globo. 26. T. os mapas de associação de ideias e as árvores associativas. (1992). Sex role messages in television commercials: An update. um dia em cada mês. e Whipple. quase exclusivamente. Journal of Marketing. dependente. (1989). veiculação e regulamentação de campanhas publicitárias. & Buralli. afetiva e líder expressiva. 11/12. Journal of communications. Newbury Park/London/New Delhi: Sage Publications. C. Strate. W. Em S. onde repertórios sobre masculinidade presentes nas mensagens publicitárias se associam. com base na transcrição de alguns comerciais selecionados e na construção de árvores associativas. foi possível perceber tentativas. P. A. Durkin. Sex role stereotyping in Australian television advertisements. a um padrão heteroerótico de relação. 236 . 52 (2). de apresentar rupturas nos padrões tradicionais. M. Sex roles. em que homens e mulheres desempenham papéis culturalmente tradicionais: o homem como provedor ou líder instrumental da família e a mulher como dona de casa. os resultados encontrados corroboraram pesquisas desenvolvidas em outros países 15. masculinity and the media (pp. Women in TV commercials. L. 15 Por exemplo: Courtney. L. Mazzella. Contudo. (1974). por meio de dispositivos humorísticos. K. 75-85. 7/8. Gilly.. and the United States. 243-59. foram feitas gravações em vídeo. 110-18. ainda discretas. Sex roles in advertising: A comparison of television advertisements in Australia. Craig (org. 78-92). Os comerciais foram então agrupados por meio de uma classificação temática.) Men. T.de entrevistas com profissionais que atuam diretamente na produção. Sex roles. Beer commercials: A manual on masculinity. segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE). Mexico. Lovdal. a partir da qual foi possível identificar algumas tendências. 715-24. (1992). C. Cerini. (1988). procuramos identificar as linhas argumentativas que caracterizavam as peças selecionadas. abrange a emissora e o período de maior audiência da televisão brasileira. De um modo geral.

A composição deixa assim de sugerir um contexto de sedução homoerótica. a destacar uma certa competitividade entre os personagens.Por exemplo.: ‘Dreher desce macio e reanima’”16 Nessa narrativa. num comercial do conhaque Dreher. Agência: DPZ. De repente o sabonete cai no chão. Volta para o homem que. em que se destacam as expressões “que dureza” e “desce macio e reanima”. Anunciante: Heublein do Brasil. 237 . e passa. bem na frente de um deles. Título da peça: Sabonete. mais ainda. o próprio target (público alvo) do produto (homens adultos). Corte para uma garrafa de Dreher. entretanto. levanta o sabonete com o pé. off ass. Essa composição inclui desde o texto. “Três homens tomando banho num vestiário. como se fosse uma bola. O homem responde: ‘que dureza’. ao invés de pegar o sabonete com a mão. o cenário que retrata um espaço tipicamente do universo masculino (vestiário de campo de futebol) e. Loc. que a princípio seria inadmissível dentro do contexto da publicidade televisiva. O desfecho. que fazem alusão à prática homossexual masculina. a composição de elementos textuais e cenográficos sugeriria um contexto de sedução homoerótica. mas dá um drible em seus colegas. chutando o sabonete para o alto. particularmente entre o que deixa o sabonete cair e o que o intima a pegá-lo. a narrativa construída ao longo do comercial resgata uma velha piada machista do “quem pega o sabonete”. até a interação entre os personagens. sob a forma de humor. ao introduzir uma saída estratégica e jocosa para o personagem principal: ele simplesmente não abaixa. Uma competitividade que se mistura entre o bom jogador do futebol à prática 16 Transcrição e fotos extraídas do 21º Anuário de Criação do CCSP. propõe uma quebra na linearidade da mensagem. O outro intima: ‘Pega lá’.

foram realizadas entrevistas com alguns bioquímicos. de caráter retórico (Billig. construídas por um grupo social específico (publicitários). ambos se manifestam nas produções discursivas (formais e informais) dos bioquímicos entrevistados. venda de um produto ou serviço. É interessante ressaltar que os comerciais são. esses profissionais selecionam determinados repertórios sobre masculinidade que. 1991). quando esses cientistas conversavam com pesquisadores sociais. discursos baseados em dados de experimentos. produções discursivas. antes de tudo. há uma tensão nessas produções que faz com que. dentro de um sistema complexo de negociações. cujo princípio básico é: ações e convicções dos cientistas são um meio neutro por meio do qual os fenômenos empíricos se expressam. porém havia uma predominância de repertórios contingenciais. trabalhos de laboratórios. e atividade. consequentemente. A associação entre masculinidade. que visa.sexual. Na análise dessas entrevistas. Todavia. 238 . aquele que produz a mensagem procure neutralizar a contradição. em que poder e sexualidade se misturam e quem ganha é aquele que não leva gol. visam garantir a persuasão do telespectador. ao construir um argumento. Na construção dessas mensagens. construindo uma harmonia em seu texto (oral ou escrito) de modo a defender ou refutar uma proposição. é bastante clara. O que nos chama a atenção nessa pesquisa é o fato de que os tipos de repertórios não são excludentes. 1987: 150). Algumas considerações Num estudo desenvolvido por Jonathan Potter e Margareth Wetherell (1987). cujo princípio básico é: “as ações profissionais e convicções dos cientistas são fortemente influenciadas por fatores externos ao domínio dos fenômenos empíricos” (Potter e Wetherell. esses autores relatam que. associados ao produto/serviço. no plano da sexualidade.). predominam repertórios empiricistas. Em entrevistas informais. em última análise. no âmbito das relações de gênero. à divulgação e. os repertórios empiricistas também eram referidos. papers etc. em contextos formais de pesquisa (seminários.

de modo satisfatório.Um mesmo conjunto de argumentos pode ser arranjado de modo a compor mensagens diametralmente opostas. destacava-se a redução do desemprego. Semelhante ao uso que se faz nas artes. 1987: 156). era apresentada uma imagem reticulada que ia. cujas opiniões e ideias são do interesse do pesquisador e da empresa contratante. por exemplo. assessorados por pesquisas de mercado (cuja metodologia básica é o grupo focal17) dispõem de um 17 Muito usado em pesquisas de mercado. os repertórios compreendem. possibilita às pessoas transitarem por inúmeros contextos e vivenciar variadas situações. elas necessitam dispor de muitos e diferentes repertórios para se adaptar a essas situações” (Potter e Wetherell. antes de tudo. cujo slogan dizia “é possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”. Adolf Hitler: “É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”. guiados por um facilitador. frequentemente em contato com um caleidoscópio mutante de situações. Os participantes são recrutados a partir de uma população alvo. por exemplo. entre seus feitos. Numa das peças de uma série. O texto falava de um homem que tinha conseguido liderar toda uma nação e influenciar a vida de muitas gerações. Paulo. valores. tomando forma. Como destacam esses autores: “pelo fato das pessoas estarem. Um exemplo claro deste artifício dentro da propaganda é uma campanha publicitária do jornal Folha de S. A imagem revelada ao final identificava de quem se tratava. segundo Potter e Wetherell (1987). ao longo da vida. ao poucos. O objetivo dessa técnica é identificar normas sociais. que afetou a história da Humanidade e. produzida para televisão. um conjunto de elementos aprendidos ao longo do nosso desenvolvimento pessoal e que utilizamos para dar sentido às situações que vivenciamos e para produzirmos discursos. premiada em 1989 com o Leão de Ouro. é convidado a falar sobre um (ou mais) tema(s) e/ou produto(s). uma discussão em que um pequeno grupo de informantes. Sessões são usualmente gravadas e o observador também faz anotações durante a discussão. 239 . Os profissionais de mídia. Essa natureza polissêmica dos discursos. prescrições mais amplas que possam. na abordagem da análise de discurso. fornecer orientar o(a) publicitário(a) na elaboração de uma campanha publicitária. o grupo focal é.

diferentes. competir entre si ou podem criar versões distintas e incompatíveis dos mesmos fenômenos sociais. Além disso. Todavia. A mídia.leque de repertórios possíveis para a elaboração de uma mensagem.: Bombril = palha de aço. é importante considerar o potencial que a mídia tem de provocar reflexões e discussões ativas. simplesmente. as campanhas publicitárias que visam associar a marca a um produto. portanto. mesmo no discurso publicitário. transita indiretamente por outras. Em linhas gerais. mas também a oposição. ao identificarmos repertórios em materiais midiáticos. a escolha dos repertórios não é indiscriminada e aleatória. Gillete = lâmina de barbear etc. de outros discursos elaborados pela própria 18 Por exemplo. Trata-se. que ao considerar uma determinada posição. estamos apreendendo alguns sentidos (consensuais e contraditórios) que circulam no cotidiano das pessoas e que podem assumir outras significações no esforço de produção de sentido empreendido pelos espectadores. como nos advertem Bronwyn Davies e Rom Harré (1990). opostas. os quais eles procuram compor de tal modo que a mensagem transmitida para o espectador seja: compre esse produto. contrárias ou. Ex. como práticas discursivas. Isto é. constitui conteúdos potencialmente dinâmicos. os discursos podem se harmonizar. dado que a interpretação é que lhe dá sentido. Ela tem como parâmetro a busca de persuasão do consumidor. 240 . que fundamentam e dão sentido a essa mensagem. encontramos uma série de outros repertórios que se integram à mensagem principal. Como destaca Antônio Fausto-Neto (1997) acerca da relação mídia e AIDS: Os media têm a propriedade especial: de um lado. dentro da mensagem publicitária podemos encontrar não apenas a regularidade e o consenso. em suas práticas discursivas. de caráter argumentativo. Modess = absorvente. que busca incessantemente o consenso18. Assim. a contradição e a polissemia. seu papel de registro/ passagem. de uma produção discursiva. Contudo.

porque deste autor. Vale ressaltar que a análise das produções discursivas que apresentamos ao longo deste capítulo não é nem a percepção dos telespectadores. Essas análises são também uma prática discursiva. sua condição de dispositivo de produção e de semantizações próprias. talvez. sujeitos à força do habitus de nossa classe social. de esquemas de pensamento e de percepção sistemáticos. Trata-se dos limites impostos pelo modo de conhecimento praxiológico (Barbier. grifos do original). mas objetiváveis e generalizáveis porque apoiadas na leitura de textos já produzidos sobre a mesma temática. muito menos corresponde literalmente ao cotidiano das pessoas. nosso fazer científico passe a assumir. Nossas produções cotidianas estão diretamente influenciadas por essas forças e. dentre outros. dependemos (…) de constelações de habitus adquiridos. A análise hermenêutica de discurso a que nos propomos reconhece que. profissão. nem a proposta do profissional que a produziu. 1985: 11. publicidade. somos pessoas. sexo etc. pelo rigor na elaboração das estratégias metodológicas e pela busca de coerência interna das exposições. ao reconhecer isso. de outro. ainda mais. 241 . São interpretações: subjetivas. construções públicas etc. posicionadas dentro da dinâmica de campos concorrenciais. que representam um molde mais ou menos maleável para a minha prática científica e que estão diretamente ligados à minha sociabilidade na minha classe social de origem. 1997: 140). o de mostrá-lo com um locus capaz de dar inteligibilidade à doença (Fausto-Neto. como pesquisadores. um compromisso efetivo com a mudança social.sociedade e. como pessoas. é. segundo as leis que fazem reconhecer o campo dos medias (jornalismo.) como nicho que vai tecendo a oferta de diferentes construções de discursos cujo efeito de sentido. Como destaca René Barbier (1985).

dentro da perspectiva teórica oferecida pelos estudos da linguagem de M. Então. tentarei apresentar os elementos que compõem a linguagem cinematográfica e como trabalhá-los. Ouvimos gotas de água. o que salta à vista deste psicólogo? O cinema. Eles estão em um ambiente com pouca luminosidade. analiticamente. enquanto objeto de estudo para as ciências humanas não é uma novidade. Na parede que está ao fundo do campo. uma casa semiabandonada. Passarelli O que pode um psicólogo social fazer dentro do cinema? Entre outras coisas.CAPÍTULO X IMAGENS EM DIÁLOGO: Filmes que marcaram nossas vidas Carlos André F. Destes. e vemos poças que se formam no chão. em travelling lateral. M. Mas que olhar é este? Ou. que acaba por constituir o campo da análise de filmes? Para tanto. um dos personagens irá explicar ao outro o significado desta equação. embora ainda seja um campo muito pouco investigado. o movimento dos dois homens. a recepção de sons e imagens em movimento. extraio principalmente os conceitos de dialogia e enunciação para tentar compreender que imagens podem se formar no campo da psicologia social a partir daquelas que são projetadas na tela do cinema. Logo em seguida. 1+1=1 Em uma das cenas do filme Nostalgia. claro. Usando o exemplo de que uma gota de água somada a uma outra sempre formará uma 242 . dito de outra forma. Bakhtin. lemos: 1 + 1 = 1. a câmera acompanhando. as perguntas que tento responder ao longo deste capítulo são: o que é um filme? Existem regras para assisti-lo? O que pressupõe este processo. de Andrei Tarkovski. assistir ao filme que estão exibindo. vemos dois personagens andando em fila. que conversam.

mas ele é a resultante de um processo que envolve sua produção. Dessa forma. também. de que o discurso ou a linguagem é sempre uma construção social. tanto estética quanto temática. cenas e outros elementos que veremos a seguir). Todorov (1988) explica-nos o conceito de enunciação. a imagem enquadrada. podemos pensar o filme. público e crítica). Não se trata aqui de analisar esta obra ou mesmo o conjunto dos trabalhos desse cineasta russo. inserido em e formado por um contexto dialógico. diálogos.nova gota e não duas. como aquilo que a extravasa. No entanto. todo o conjunto da obra do diretor que realiza o filme e mesmo outros filmes de outros diretores com os quais um determinado filme “dialoga”. na medida em que a enunciação pressupõe sempre a relação entre interlocutores. de grande complexidade. direção. podemos dizer que um filme não é a soma das cenas ou diálogos que o constituem. como um conjunto de enunciações. Independentemente da filosofia ou fé que esse personagem professa. este personagem fala de uma unidade a ser alcançada. a partir destas cinco características principais: 243 . tomo aqui esse exemplo como ponto de partida para falar da obra cinematográfica. constituem o que chamamos aqui de objeto fílmico. todas essas unidades somadas. sua materialidade (sons. tanto o que está delimitado pela tela. se retomamos a teoria de Bakhtin sobre a linguagem. o filme se derrama da tela. Dito de outra forma. No entanto. sua recepção (o espectador. a separação entre dialogia e enunciação é meramente conceitual. Partindo do pressuposto emprestado de Bakhtin. do objeto fílmico. atores. o filme aqui é entendido como um discurso e sua interpretação ou análise deve levar em consideração todos os atores que participam de seu processo de criação/construção. Assim. isto é. o diálogo. a busca de um princípio único e unificador que garanta ao ser humano uma maneira mais integral de estar no mundo. sendo eminentemente social.

ou 244 . Ou seja. b) Cada enunciação tem uma unidade de sentido ou formal. ordenados em planos e sequências. o sujeito da enunciação cinematográfica não pode ser confundido com o diretor do filme. e) Toda enunciação é sempre dirigida a alguém. Acima. que nasce um sujeito” (Passarelli. uma enunciação termina quando começa uma nova enunciação por um outro sujeito. “o sujeito da enunciação cinematográfica é construído no momento em que alguém assiste a um dado filme. já havíamos esboçado. e é somente na relação entre espectador e objeto fílmico que um sentido sobre o filme pode ser produzido . que lhe é específica. Segundo Xavier (1984). podemos dizer que um filme é composto de sons e imagens em movimento. mas ela sempre traz também uma referência sobre o sujeito da enunciação. timidamente. nem tampouco com um narrador. principalmente naquele cinema denominado de autor. No entanto. Por plano. os elementos que constituem a linguagem cinematográfica.isto é. que são suas possíveis respostas. Reconhecer o objeto é. “o plano corresponde a cada tomada de cena. decifrar a sua gramática. d) Toda enunciação funciona como uma resposta a enunciações passadas e sempre antevê outras.a) O que define os limites de uma dada enunciação é a mudança de interlocutores. inerente. entende-se a imagem delimitada pelo enquadramento fornecido pela tela. Fragmentos de filmes De forma grosseira. um outro interlocutor. p. Não há dúvida que todos os filmes possuem um diretor. 1998. como vemos constantemente nos textos literários. c) Uma enunciação não se refere meramente ao seu objeto. entre outras coisas. 10). que são o ponto de partida para o trabalho de análise de filmes. Essas colocações nos remetem à questão sobre a autoria do filme. Como referi em outro trabalho. única. dentro de uma perspectiva pautada no referencial teórico de Bakhtin. descrevê-lo e decompô-lo em seus fragmentos.

que se encontra no mesmo nível da ação mostrada. descreve um movimento circular. tais como: o cenário. 1998). Embora com variações dentre as várias teorias do cinema. o figurino.geralmente sobre um carro ou grua .descreve um movimento que pode ser para frente. a profundidade de campo. entre outros motivos. além da riqueza de elementos cinematográficos presentes. utilizarei aqui um exemplo extraído de outro trabalho. a montagem e a interpretação dos atores. panorâmica: quando a câmera. ela nos permite diferenciar a linguagem cinematográfica da dramaturgia. plano americano: corresponde ao ponto de vista onde as figuras humanas são mostradas até a cintura aproximadamente. do diretor espanhol Pedro Almodóvar (Passarelli. 245 . quando. primeiro plano: a câmera apresenta um detalhe do corpo ou de um objeto. A fim de apresentá-los de forma menos esquemática. que ocupa quase toda a extensão da tela. Temos ainda o plano sequência. Dependendo do ângulo e dos movimentos da câmera. 19). onde analisei as relações amorosas entre homens no filme A lei do desejo. plano médio ou de conjunto: principalmente em interiores. lateral. com um maior detalhamento.seja. a trilha sonora (músicas. câmera baixa (contra plongé): o oposto de plongé. A escolha dessa cena se dá porque. travelling: quando a câmera. A esses elementos somam-se outros. encontramos também algumas definições sobre os enquadramentos: normal: a câmera localiza-se à altura dos olhos de um observador de estatura média. diagonal (ou inclinado) e vertical. sem deslocar-se em relação ao seu eixo . sons. para trás. E ainda. primeiríssimo plano: uma variante do primeiro plano. “a posição particular da câmera (distância e ângulo) em relação ao objeto” (p. os planos são assim definidos: Plano geral: a câmera mostra todo o espaço da ação. a iluminação. o roteiro. à extensão do filme compreendida entre dois cortes”. em uma única tomada da câmera. a câmera mostra o conjunto de elementos (figuras humanas e cenário) envolvidos na ação. diálogos). temos vários planos em sequência. câmera alta (plongé): a câmera visa os acontecimentos de uma posição mais elevada. deslocando-se em relação ao seu eixo.

impressão essa que é reforçada pelos gestos da atriz. A letra da música que fala de uma separação. nos permite melhor compreender o nervosismo da personagem vivida por Tina. A luz passa a incidir sobre a menina. e seu figurino irão funcionar como um contraponto às ações e ao estado emocional de Tina. isto é. então. em primeiro plano. no filme. A câmera acompanha o movimento de Ada. ou melhor. que se trata de um pedido para que o/a amante não abandone (Ne me quittes pas). que. esse estranhamento é diminuído pela canção que a menina dubla. escutamos os acordes de uma música (Ne me quittes pas. todos eles próprios da linguagem cinematográfica. que nos faz lembrar uma sala de estar. passando para um plano de conjunto. Quando a melodia começa a ser cantada. que depois ficaremos sabendo que é o seu vestido de primeira comunhão. os trilhos de um carro de travelling. é tornado visível ao espectador a materialidade. A iluminação sobre a menina. A música é interrompida. está sobre um carro de travelling. a luz ilumina Tina. No entanto. temos aqui muitos elementos que servirão para uma possível análise. de Jean Cocteau). reforçando no espectador. destacando-a no primeiro plano. onde vemos Tina. enfim. e Ada sai de cena. A câmera descreve um travelling para trás. sendo que Tina fica na penumbra. o detalhe de um trilho de carro de travelling. Ouve-se o som de um telefone tocando. quebrando com um machado os móveis de um cenário. dessa forma. em que Tina e Ada estão representando uma cena de uma peça de teatro (La voix humaine. vestida despojadamente. A música tem. sem que visualizemos seus pés. Em primeiro lugar. Tina passa a falar ao telefone. da produção de um filme. Trata-se de uma cena. 246 . vemos. Ada usa uma roupa com rendas. com a boca e gestos. as palavras da canção. O vestuário de Tina (desleixado) e a maneira como os elementos do cenário estão dispostos (bagunçados) nos dão a impressão que essa personagem está em sua casa e que vive um momento de grande ansiedade e confusão. isto tudo. por assim dizer. a pequena Ada dublando. a função de texto. a percepção da profundidade de campo. não sendo somente um adereço da cena. em primeiro plano. No início. Interrompendo a descrição. de Jacques Brel) ao passo que vemos.Os personagens de nossa cena são Tina e Ada.

isto é. e que. Se bem que. o processo de análise. Retomando. l'objet de l'analyse de film demande à être construit. o objeto da análise de filme pede por ser construído. a descrição pode ser feita por meio de dois instrumentos: a decupagem. evidentemente). pode-se dizer que o objeto da análise de filme só tem relações distantes com o objeto fílmico que é percebido imediatamente pelo espectador na sala de cinema. como assinalam esses autores. Isto porque.. Maysa (a cantora da gravação de Ne me quittes pas) é dublada por Ada. 1 1988:33-34). Dans un certain sens. como nos aponta Aumont e Marie (1988) um primeiro passo no processo de análise da obra cinematográfica. le but de l'analyse est d'élaborer une sorte de 'modèle' du film (au sens cybernétique et non normatif. muitas vezes não guardam uma relação direta com o filme que é assistido na sala de cinema. A descrição de um filme.Certains théoriciens ont même été jusqu'à poser une distinction radicale entre le film. por consequência. unidade analítica” (tradução minha). unidade 'assistida' e o filme. et que par conséquent. 1 “Num certo sentido. então. As suas personagens se encontram em um mesmo plano. E ainda. qualquer que seja a abordagem escolhida. on peut même dire que l'objet de l'analyse de film n'a que des rapports assez lointains avec l'objet-film perçu immédiatement par le spectateur dans la salle de cinéma. unité spectatorielle et le film. 247 . Isto é. a descrição e a análise. C'est que. 1998:109). nas coxias. Tina está falando ao telefone. vemos Ada e sua mãe. Tina percebe a presença dessa mulher e dirige o seu texto para ela. évidemment). unité analytique (Aumont & Marie.Seguindo mais adiante nessa mesma cena. Vemos as imagens de Tina e da mãe de Ada em contraplano. o que era um monólogo é utilizado por Almodóvar como se fora um diálogo.. agora temos três personagens. em planos alternados. quelle que soit l'approche choisie. além de nos distanciar da obra.” (Passarelli. comme tout objet de recherche. Alguns teóricos chegam mesmo a fazer uma distinção radical entre o filme. como todo objeto de pesquisa. para situar Tina. já é. o objetivo da análise é elaborar um tipo de 'modelo' do filme (no sentido cibernético e não normativo. que é a divisão do filme em planos. “com três interlocutores. Fora da cena teatral. sua amante e Ada dentro da narrativa compartilhada por elas. ou de uma cena como fizemos aqui.

esses e outros elementos podem servir como pontos. um corte. segundo as hipóteses e objetivos definidos previamente e. A fim de determinar o início e término de uma sequência. na medida em que ele é mais útil na análise temática de filmes narrativos. em sua natureza. uma alteração de plano. na psicologia social. “uma série de planos ligados por uma unidade narrativa. em que o indivíduo introduz a sua própria pessoa (his self) totalmente ou em parte no interior do objeto para o lesar. 90). p. Vou me deter exclusivamente no segundo instrumento. a entrada de novos personagens. enfim. quaisquer que sejam as teorias eleitas.e a segmentação. ponto que tentarei desenvolver a seguir. na medida em que ele permite o que alguns autores denominam por identificação projetiva. o determinam e o atualizam. quadros e gráficos. Assim. um novo cenário. isto é. o analista deve procurar identificar os elementos da linguagem cinematográfica que podem funcionar como indicadores de mudança da unidade narrativa. fronteiras e suspensões entre uma sequência e outra. isto é. em particular. Tal tipo de divisão (em sequências) permite a identificação de blocos narrativos. portanto comparável. está agora pronto para ser colocado dentro de esquemas. O filme. 1998. principalmente. elas não podem olvidar que o objeto sobre o qual elas se debruçam possui uma íntima relação com outros de mesma natureza e que. que permitem que a descrição das imagens seja pautada por uma grade analítica. a partir das teorias que orientam a análise. vírgulas. à cena no teatro ou ao quadro no cinema dos primeiros tempos” (Passarelli. a expressão identificação projetiva designa “um mecanismo que se traduz por fantasmas (fantasias). por este motivo. No entanto. dessa forma trabalhado. O espelho do mundo O cinema é um campo extremamente rico para a pesquisa em ciências humanas e. que é a divisão do filme em sequências. Segundo Laplanche e Pontalis (1983). propriamente dita. alterações na trilha sonora ou no tempo cronológico da narrativa. Estou falando do filme como resultado de um processo dialógico. Um pouco o que comentávamos acima sobre as características da enunciação. para o 248 . em seu Dicionário de Psicanálise.

portanto. 15). de uma extensão feita por Melanie Klein do conceito freudiano de identificação. Texas. A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of the Cairo). Tomarei emprestado. em que assistimos uma jovem suburbana na Nova York dos anos 30. é o que desenvolve Wim Wenders em Paris. 249 . de seu ator preferido. p. Essa noção de janela (ou às vezes de espelho) aplicada ao retângulo cinematográfico. Um jogo de espelhos semelhante. portanto. Não são pouco os teóricos de cinema que utilizam esses conceitos para falar da relação entre filme e plateia e entre cinema e linguagem. que. em um capítulo intitulado A janela do cinema e a identificação. O exemplo é claro por si só. Na quinta vez que assiste a um mesmo filme. 1984. 1984. ela é surpreendida quando o galã da história sai da tela para convidá-la a ingressar na trama. além de revelar a magia e a sedução que o cinema exerce sobre o seu público. porém não menos poético. Sonho e realidade se confundem. e nessa mistura Woody Allen nos inquieta com a pergunta: quem assiste quem? Assim como os primeiros espectadores do filme dos irmãos Lumiére saíram correndo da sala de projeção quando assistiam um trem que ia na direção da câmera. escreve: “o retângulo da imagem é visto como uma espécie de janela que abre para um universo que existe em si e por si. que refugia-se de seu cotidiano medíocre e infeliz na sala escura de um cinema. vai marcar a incidência de princípios tradicionais à cultura ocidental. que definem a relação entre o mundo da representação artística do mundo dito real” (Xavier. embora separado do nosso mundo pela superfície da tela. Não faltam exemplos dentro da própria história do cinema que ilustram esse processo. durante a exibição de um filme nós somos assaltados pela impressão de quem alguém nos espiona e de que poderemos fazer parte daquilo que vemos. propriamente dita. os dois que já se tornaram clássicos para falar da relação entre a plateia e o filme. Basta um aceno para que vida e ficção sejam uma coisa só. embora mais explícito. Trata -se. 1985.possuir ou para o controlar” (p. como nos mostra Xavier. 302). O primeiro é o filme de Woody Allen.

referir-se-ia não apenas ao diálogo dos personagens no interior do filme. ou ao diálogo entre as várias trilhas (entre a música e a imagem. como o primeiro dessa lista. cujas reações potenciais são levadas em conta” (Stam. 250 . poderia referir-se também ao diálogo que conforma o processo de produção específico (entre produtor e diretor. Além disso. por exemplo. mas pode ser visto por esse(a). Almodóvar. 34). acima de tudo. Irão encontrá-la em um peep-show. p. de uma tela que reflete luz. Wim Wenders. isto é. assim como ao “diálogo” de gêneros ou de vozes de classe no interior do filme. E por falar em amor. mas também ao diálogo do filme com filmes anteriores. na medida em que os interlocutores são separados por um espelho. segundo Júlia Kristeva) permite-nos ver todo texto artístico como estando em diálogo não apenas com outros textos artísticos. são trocadas por meio desse anteparo. diretor e ator).Um pai e seu filho buscam a mulher que os abandonou há muitos anos. Quem fala não vê com quem. M. alegoria da busca de uma unidade perdida. As confissões entre homem e mulher. cineastas de origens. Tarkovski. alegoria do próprio cinema.. Bakhtin. 1992. conversaram neste texto. temáticas e estéticas diversas. alegoria da procura incessante por um ideal. outrora amantes.. também uma forma de amor. assim como às maneiras como o discurso fílmico é conformado pelo público. Esse conceito multidimensional e interdisciplinar do dialogismo. mas também com o seu público. o amor por aquilo que quiséramos ser. por exemplo). mas. A inspiração para usar os conceitos de Bakhtin na análise do cinema me foi dada por Stam. costurados pela linha de um russo. Alegoria do amor. Woody Allen. um local onde mulheres conversam e realizam fantasias sexuais de homens que elas não podem ver. se aplicado a um fenômeno cultural como um filme. que escreve: “a concepção de intertextualidade (versão de dialogismo. que nunca mencionou o cinema em seus inúmeros textos sobre arte literária e linguagem: M.

revelados pelo processo de análise. e podem trocar as cenas daqueles filmes que eu tanto amei. uma que foi bruscamente interrompida pela mudança de um plano geral para um primeiro plano. nem que seja para si mesmo. conversam agora com outros olhos. os sentidos polissêmicos do objeto investigado. que é. 251 . e poder falar. em outras sessões de cinema. de filmes vistos em outras salas. projetadas em retinas cansadas. suportar ver sua imagem refletida. portanto. E também aquelas que estão na memória do olho. também. viver aquela outra realidade e depois sair da sala escura. a outra que teve seu início com uma canção.Assistir um filme será sempre um diálogo. e ainda amo. no diálogo entre filme e espectador que se produz. E essas imagens. em outros tempos. do que passou. Foi só porque me aventurei em tantas salas escuras que eu pude ir descobrindo as imagens que iluminavam projetos de subjetividades. como disse acima. conseguir identificar as muitas enunciações assistidas: aquela que se encerrou num movimento da câmera. na medida em que essa ação pressupõe a capacidade do espectador/analista em deixar-se transportar para a tela. dialógico. É. E nessa fala.

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HELENA LIMA Doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP. adolescência e políticas públicas em drogas. SPINK Professora Titular do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Social da PUC-SP. consultora ad hoc do UNICEF e da Secretaria Nacional de Juventude (pela UNESCO) para questões relativas a infância. integrante do Núcleo de Pesquisas “Práticas discursivas e produção de sentidos” (PUC-SP). MARY JANE P. coordenadora do grupo de pesquisa do CNPq Imaginário e práticas sociais. LIA YARA LIMA MIRIM Médica dermatologista.AUTORES BENEDITO MEDRADO Professor do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFPE. pesquisador e ativista no campo da prevenção em HIV/AIDS. Mestre em Psicologia Social pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da PUC-SP. CARLOS ANDRÉ F. PASSARELLI Doutor em Psicologia Clinica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. 263 . coordenadora do Núcleo de Pesquisa “Práticas discursivas e produção de sentidos” da PUC-SP. coordenador do Núcleo de Pesquisas em Gênero e Masculinidades (Gema/UFPE) e cofundador do Instituto PAPAI.

UNESP. ROSE MARY FREZZA Mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 264 . VERA MINCOFF MENEGON Doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. professora da Faculdade de Ciência e Tecnologia.ODETTE DE GODOY PINHEIRO Doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. PETER SPINK Professor Titular da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo onde é membro do Centro de Estudos em Administração Pública e Governo. integrante do Núcleo de Pesquisas “Práticas discursivas e produção de sentidos” da PUC-SP. professora aposentada da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da PUC-SP.

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