Leve, breve, suave

Leve, breve, suave, Um canto de ave Sobe no ar com que principia O dia. Escuto, e passou... Parece que foi só porque escutei Que parou. Nunca, nunca em nada, Raie a madrugada, Ou 'splenda o dia, ou doure no declive, Tive Prazer a durar Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir Gozar.

(Fernando Pessoa)

Quando era criança
Quando era criança Vivi, sem saber, Só para hoje ter Aquela lembrança. É hoje que sinto Aquilo que fui Minha vida flui Feita do que minto. Mas nesta prisão, Livro único, leio O sorriso alheio De quem fui então.

(Fernando Pessoa)

Dobre
Peguei no meu coração E pu-lo na minha mão Olhei-o como quem olha Grãos de areia ou uma folha. Olhei-o pávido e absorto Como quem sabe estar morto; Com a alma só comovida Do sonho e pouco da vida.

(Fernando Pessoa)

Bóiam leves, desatentos

Bóiam leves, desatentos, Meus pensamentos de mágoa, Como, no sono dos ventos, As algas, cabelos lentos Do corpo morto das águas. Bóiam como folhas mortas A tona de águas paradas. São coisas vestindo nadas, Pós remoinhando nas portas Das casas abandonadas. Sono de ser, sem remédio, Vestígio do que não foi, Leve magoa, breve tédio, Não sei se para, se flui; Não sei se existe ou se dói. Fernando Pessoa (4-8-1930)

Aranha

A aranha do meu destino Faz teias de eu não pensar. Não soube o que era em menino,

Sou adulto sem o achar. É que a teia, de espalhada Apanhou-me o querer ir... Sou uma vida baloiçada Na consciência de existir. A aranha da minha sorte Faz teia de muro a muro... Sou presa do meu suporte.

(Fernando Pessoa)

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