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Cristologia: a Pessoa e a Obra de Nosso Senhor Jesus Cristo


Kelson Mota T. Oliveira

Parte III - A Contestação da Divindade do Filho


"Até quando nos deixarás a mente em suspenso? Se tu és o Cristo, dize-o francamente?" (Jo 10:24)

No estudo anterior, o testemunho de várias passagens bíblicas, bem como a própria idéia que
Jesus tinha sobre si mesmo, claramente demonstram a Sua divindade. Ninguém ao ler honestamente
o NT, iluminado pelo Espírito Santo, terá uma visão de Jesus menor que o de seu status divino. No
entanto, vários grupos no decorrer de vinte séculos de história cristã, tem procurado contestar a
divindade de Jesus, ou então reduzi-la há um status menor que o divino.
Boa parte dessa contestação surge de um detalhe curioso acerca da pregação de Jesus: apesar
de ter demonstrado mui claramente, por meio de suas obras, a sua natureza plenamente divina, em
nenhuma parte dos evangelhos Jesus disse explicitamente que era o Deus encarnado das Escrituras,
mesmo quando interpelado pelos fariseus (Jo 10:24). Os escritores do NT, em suas epístolas,
claramente o fazem mais tarde, identificando Jesus como Deus (Cl 2:9; Fp 2:1-5; Hb 1:8; I Jo 5:20;
II Pe 1,1), mas a atitude de Jesus suscita falácias em incrédulos, e por vezes, dúvidas entre cristãos.
Qual a razão da recusa de Jesus em se revelar explicitamente, por palavras claras, como o
Verbo preexistente, o Deus Todo-Poderoso do AT? Há explicações plausíveis e coerentes com a
Palavra de Deus. Antes de chegarmos a uma resposta a essa pergunta, convém vermos rapidamente
duas das principais heresias históricas, que se opõem a doutrina da plena divindade de Cristo, que
por vezes ainda persiste em nossos dias em seitas ditas cristãs.

1. Distanciamentos Históricos da Doutrina Bíblica da Plena Divindade de Jesus

1.1. O Ebionismo
Os ebionitas, seita herética de judeus ditos cristãos, que pregava uma vida de austeridade e
pobreza, negavam completamente a divindade de Jesus. Em suas crenças principais encontramos:
• Jesus era apenas um homem comum, imbuído de dons naturais incomuns, tais como sabedoria e
retidão.
• Jesus era filho natural de José e Maria.
• Na ocasião de seu batismo, o homem Jesus foi revestido do Cristo de Deus, tornando então a
pessoa Jesus Cristo.
• Em sua morte na cruz, o Cristo de Deus se afastou do homem Jesus, e este morreu,
ressuscitando-o mais tarde.
Para essa seita, Jesus era apenas um homem imbuído do poder de Deus, que o controlava
ativamente. Hoje em dia, algumas seitas gnósticas aceitam a idéia ebionita do revestimento do
Cristo de Deus. Algumas alas da Maçonaria fazem a distinção entre Jesus e o Cristo, como duas
pessoas diferentes. A Legião da Boa Vontade (LBV), raramente se refere à pessoa humana de Jesus,
antes preferem chamá-lo de o Cristo de Deus, como uma entidade separada do homem Jesus.
Acreditam que o mesmo Cristo Cósmico que baixou no Jesus Homem um dia voltará a tomará para
si um outro homem. Isso nada mais é do que a velha heresia ebionita. O cristão sábio fará bem em
rejeitá-la.

1.2. O Arianismo
Heresia de meados do século III, ensinada pelo presbítero alexandrino chamado Ário, que cria
ser Jesus não totalmente Deus, e sim um tipo deus menor, diferente do Deus Todo-Poderoso do AT.
Suas crenças principais são:
• Somente o Deus do AT, Jeová, é transcendente e incriado, e origem de todas as coisas. Jeová é
identificado com sendo o Pai.
• Jesus, o Verbo, é criatura. O primeiro e o mais elevado dos seres criados pelo Pai. Apesar de
perfeito, não possui vida e existência própria. Um deus pequeno e inferior.
• Aceitam que Jesus é divinamente semelhante ao Pai, mas não igual em essência
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• Usam uma extensa coleção de textos bíblicos fora de seu contexto global para confirmar suas
heresias, entre eles destaca-se Jo 14:28 em que Jesus afirma ser menor que o Pai (em sua
encarnação, sua posição foi voluntariamente menor que a do Pai e do Espírito Santo, veja Fp 2:
5-11). Gostam de citar passagem em que Jesus é acometido de fraqueza física, ignorância e
sofrimento (por exemplo: Mc 11:13 e 13:32, Cl 1:18), como prova de sua inferioridade.
Atualmente, o posto de Ário é ocupado principalmente pelo grupo herético conhecido como
Testemunhas de Jeová, que não aceitam a plena divindade de Jesus, chamando-o de deus, com "D"
minúsculo, completamente inferior ao Pai e diferente dEle em essência, contudo superior aos anjos
e aos homens. Sua interpretação parcial da Bíblia, os levou a editar sua própria bíblia, com tradução
aleijada por suas heresias, e a proclamar a presença viva de Cristo na figura do corpo dirigente,
chamado Torre de Vigia, sua única liderança e autoridade sobre a face da terra.
Atualmente muitos grupos, apesar de não questionarem abertamente a divindade de Jesus,
preferem olhá-lO como um grande homem, um espírito iluminado, um profundo sábio ou um
perspicaz revolucionário. Parecem títulos piedosos, mas tiram completamente a glória de Deus na
pessoa de Jesus Cristo, e o remetem a uma posição meramente humana.
Mesmo alguns grupos de evangélicos de nosso dias, tem perdido a reverência ante a divindade
de Jesus. Pastores e líderes tem proclamado a Jesus com títulos tão humanos que destoam
completamente das sagradas Escrituras. Pregações do tipo "Jesus é uma coisa quentinha e gostosa"
(ora! isso é descrição de cafezinho) ou "você já bateu um papo com o amigão do peito, Jesus?"
(amigão do peito é o Fofão da turma do Balão Mágico), ainda que pareçam joviais e
contextualizadas, trazem em seu bojo o grande perigo de perdermos de vista a reverência (hoje
artigo raríssimo entre cristãos) na presença da Majestade nas Alturas (Is 66:1,2; Jo 20:28; Ap
1:13,17). Tratando a Jesus de maneira displicente e casual, cedo ou tarde trataremos sua Palavra e as
bênçãos eternas com descaso e impiedade.
Permita o Senhor que O tratemos com devida reverência que sua natureza divina exige, e que
não descaiamos da graça de crescermos no pleno conhecimento de Jesus.

2. Por que Jesus não disse explicitamente que era o Deus revelado nas Escrituras do
AT?

São várias as razões. Nenhuma delas é suficiente em si mesma. Muitas delas se confundem e
se entrelaçam, da mesma forma que um cesto de vime não é formado somente de um fio de palha,
mais de muitos, e contudo dando a entender, de relance, que é formado de uma única fibra. Talvez a
maior de todas seja o fato do Pai ter querido que assim fosse, e, como cristãos, já deveríamos nos
dar por satisfeitos ante este motivo. Contudo, como os incrédulos sempre questionam esse ponto,
convém listar algumas das principais razões, de fundo bíblico, porque tal se deu.

2.1. Por Razões Culturais e Religiosas da Época


A cultura judaica pós-cativeiro babilônico, tornou-se rigidamente monoteísta. Isso se deveu ao
fato de terem sido levados ao cativeiro como resultado do julgamento de Deus em face da
vergonhosa idolatria de Judá (Jr 2:1-3:5; 10:1-8). Aprenderam a lição e voltaram do cativeiro
convictos e dispostos a não se contaminarem com qualquer forma de idolatria, afirmando
zelosamente ser, o Senhor Deus de Israel, o único e eterno Deus. Assim renegaram toda cultura
pagã e estranha ao judaísmo.
A cultura judia de então não se permitia a idéia de Deus em forma de imagens e ídolos, e
muito menos em forma humana encarnada. A idéia de um Messias divino estava completamente
fora de cogitação e não se imaginava ou se aceitava o conceito de Deus vivendo entre os homens,
mesmo que as escrituras se referissem ao Messias pelo nome divino de Emanuel (Deus está
conosco em nosso meio, Is 7:14 e 9:6,7). Várias vezes os judeus pegaram em pedras quando
captaram afirmações de Jesus, que davam a entender sobre sua natureza divina (Mt 13:41; Mc 2:57;
Jo 10:29-31).
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Se Jesus disse-se abertamente ser o Deus dos antigos profetas, estava fadado a um julgamento
sumário, acusado de blasfêmia com posterior apedrejamento. Isso seria o fim de seu ministério
terreno, antes mesmo de cumprir a missão para o qual havia sido enviado: buscar e salvar o que
estava perdido (Lc 19:10). Não havia em Jesus o sentimento de medo em morrer ou ser apedrejado,
antes sua conduta em relação à cultura religiosa da época era de zelo pela obra de Deus. Ademais,
muitas pessoas deixaram de segui-lO simplesmente por ter dito que era o Pão que desceu dos céus
(Jo 6:33,34, 41,51,60,66), imagine o que teria então acontecido se abertamente declarasse ser Deus.

2.2. Por Razões Políticas


O povo judeu vivia sob dominação romana, e portanto submisso ao domínio de César,
considerado pelos seus súditos como um deus, em seu papel de imperador. Qualquer um que tivesse
a intenção de ser rei tornava-se automaticamente inimigo do império e réu de morte violenta. Aliás,
essa foi a acusação oficial que as autoridades judaicas apresentaram a Pilatos para terem do que
acusar legalmente a Jesus (Lc 23:1,2).
Se Cristo Jesus tivesse assumido seu papel divino publicamente por palavras explícitas, isso
implicaria na imediata instauração de um reinado judaico, uma vez que o Messias era tido pelos
judeus como o rei que governaria a nação e os lideraria a um estado forte e livre das opressões dos
povos pagãos das vizinhanças. Por tabela isso também levaria a guerras, alianças políticas e
derrubada da família real judia da época - a de Herodes.
Mesmo se Jesus tivesse apenas assumido publicamente o seu papel de Messias (Ele o fez
particularmente a seus apóstolos em Mt 16:13-20), já seria motivo suficiente para se tornar inimigo
político de Roma. O medo de se falar sobre a pessoa do Messias, e ser preso por insurreição, nos
dias da peregrinação de Jesus, era grande. Na cura dos dois cegos de Jericó, o simples fato destes
clamarem a Jesus, chamando-O de Filho de Davi (um dos títulos do Messias), tomava ares
políticos, a ponto da população local ordenar que se calassem (Mt 20:29-31). Mesmo os fariseus
tentaram por vezes fazer Jesus se indispor com César, tornando-se assim alvo da inimizade romana
(Mt 22:17,18).
Dizer franca e abertamente que era o Cristo era se arriscar a uma revolução política, e se
dissesse ser Deus a uma cruzada político-religiosa. E mesmo Jesus não tinha a intenção de assumir
um reinado temporal (Jo 6:14,15). Essa não era a missão de Jesus. Seu reino não era um reino
político (Jo 18:36), e sua missão não era libertar Israel do império romano, e sim a todo homem do
pecado e do império das trevas (Lc 19:10; Cl 1:13). Sua missão era primariamente de natureza
espiritual, e não política, e a revolução que veio proclamar se travaria no coração do homem
decaído e não em campos de batalhas.

2.3. Por Razões Hierárquicas/Funcional


Sendo Jesus Deus, não julgou com isso ser obrigação dos homens adorá-lO como Tal, e nem
os obrigou a isso. Nem mesmo usou de seus atributos divinos em proveito próprio. Antes se
esvaziou e assumiu em sua condição divina, a limitada condição humana, por um tempo
determinado (Fp 2: 5-8). Como Deus, Ele desce a condição humana, e como Homem Ele se
submete completamente ao senhorio do Pai, dando testemunho da posição de superioridade do Pai
(Jo 8: 49-50 e 14:28). Também deixa bastante claro sua completa dependência a Ele (Jo 5:19,20;
6:38; 15:10; 12:49).
O Filho tem prazer em ser submisso ao Pai (Jo 15:10), sendo toda glória creditada a Ele por
meio do Filho (Jo 5:23), inclusive o título de Deus (Jo 5:44). Não que Jesus deixou de ser Deus, ou
perdeu os seus atributos divinos ao encarnar. Antes Ele se despiu de sua posição de glória,
submetendo-se funcionalmente ao Pai e ao Espírito Santo, por um breve tempo, nada fazendo de
sua própria vontade.
Assumindo o papel de Filho, Jesus quis que os homens vissem nEle, por meio de suas obras, o
Pai em sua revelação mais plena (Jo 10:38), e não simplesmente por causa de suas palavras e
afirmações acerca de si mesmo. Como diz aquele adágio e que se mostra verdadeiro nas obras do
Filho: as palavras convencem, mas os exemplo arrastam.
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Dessa forma, temporalmente o Filho de Deus assume plenamente a postura de homem


limitado e se deixa guiar única e exclusivamente por Deus Pai, creditando a Ele todas as suas obras.
Se Jesus, assumisse claramente que era o Deus Eterno, estaria tirando vantagem de sua natureza
divina e usando-a a seu favor, obscurecendo a glória do Pai. Aliás, essa possibilidade passou pela
cabeça de satanás ao tentá-lO (Lc 4:12), pois a tentação consistiu justamente em levar a Jesus a
tomar aquilo que por direito é seu, passando por cima da autoridade do Pai. É interessante lembrar
que foi o próprio Espírito santo que guiou Jesus ao deserto, no qual foi tentado. Jesus se submete,
em sua função de servo, voluntária e obedientemente às outras duas Pessoas da trindade.

2.4. Por Razões Teológicas


Jesus veio restaurar um princípio esquecido pelos judeus: a salvação que vem por meio
unicamente da fé (Hc 2:4; Rm 1:17). Pela conduta, palavras e obras do Filho, era do eterno
propósito do Deus Triúno que os homens reconhecessem o Pai no Filho (Jo 10:25), e o servissem
livremente.
O testemunho de Jesus por palavras e obras, era suficiente para os judeus reconhecerem o
pleno cumprimento das promessas sobre o Messias (Jo 5:39). Se Jesus tivesse inicialmente se
declarado e mostrado como Deus que Ele é, os homens seriam forçados a servi-lO, não por fé, mas
por constatação das evidências mostradas e por obrigação. Em outras palavras, seria uma conversão
forçada, externa, não de coração e sem qualquer liberdade.
A segunda tentação de Jesus, foi que Ele se jogasse do pináculo do templo em Jerusalém, pois
os anjos de Deus O susteriam antes que tocasse no chão. Isso levaria o povo daquela cidade a
reconhecer a divindade de Jesus, e O seguir pelo peso das evidencias e não por uma sincera e
amorosa disposição de coração em obedecê-lO. O seguiriam e O serviriam, mas dificilmente O
amariam da forma como Deus quer ser amado. Jesus rejeitou caminho.
Com sua morte na cruz e ressurreição, instaurou-se a Graça salvadora, que vem por meio do
antigo princípio da fé (Ef 2:8). A salvação é somente pela fé, e evidenciada externamente por obras.
E mesmo hoje a morte de Cristo pelos pecadores é válida, pois Ele pela morte tornou-se Senhor dos
vivos e dos mortos (Rm 5: 6-11)
Talvez, essa seja a razão pela qual não temos quase nenhuma evidência histórica, fora o fiel
testemunho das Escrituras e de seus mártires, de que Jesus realmente ressuscitou: para que creiamos
pela fé, e livremente nos entreguemos a Deus de coração, pois está escrito "Bem-aventurados os
que não viram e creram" (Jo 20: 29b).

3. Conclusões

Várias foram e são as heresias que tentam destituir Jesus de sua natureza divina. Os ebionitas
afirmando que Jesus não era Deus e os arianistas que Jesus não era totalmente Deus. Contudo, elas
e outras que campeiam no meio cristão, serão desmascaradas, e seus seguidores haverão de
reconhecer no último dia que Jesus é Senhor, para glória de Deus Pai (Fp 2:11), seguindo então para
o julgamento.
Quanto ao fato de Jesus não ter dito explicitamente que não era Deus, seu testemunho, as
palavras e as obras que realizou, dificilmente seriam realizadas por alguém menos que Deus.
Mesmo motivado por razões culturais, políticas, hierárquicas e teológicas, Jesus muitas vezes
deixou patente a sua divindade, a ponto de dizer que sua pessoa e obras revelavam plenamente o
Pai, que O enviou (JO 14: 8-11). Ainda que não declarado abertamente, como os inimigos da fé tão
veementemente gostam de lembrar, Jesus se mostrou plenamente como Deus em obras e palavras.
A salvação, portanto, consiste ainda em crer, por meio da fé, na veracidade, genuinidade e
fidelidade do testemunho de Cristo, de acordo com as Escrituras. Não fazê-lo é tomar para si a
condenação reservada àqueles que segundo a sua dureza e coração impenitente, acumulam contra
si mesmos ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus (Rm 2:5). Guarde-nos o
Senhor Deus de cometermos tão grande impiedade.

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