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PROPOSTA DE PROVA DE EXAME

12.° ANO DE ESCOLARIDADE

Duração da prova: 120 minutos

PROVA ESCRITA DE PORTUGUÊS

GRUPO I

A

Leia atentamente o seguinte texto.

Grita o povinho furiosos impropérios aos condenados, guincham as mulheres debruçadas dos peitoris, alanzoam os frades, a procissão é uma serpente enorme que não cabe direita no Rossio e por isso se vai curvando e recurvando como se determinasse chegar a toda a parte ou oferecer o espectáculo edificante a toda a

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cidade, aquele que ali vai é Simeão de Oliveira e Sousa, sem mester nem benefício, mas que do Santo Ofício declarava ser qualificador, e sendo secular dizia missa, confessava e pregava, e ao mesmo tempo que isto fazia proclamava ser herege e judeu, raro se viu confusão assim, e para ser ela maior tanto se chamava padre Teodoro Pereira de Sousa como frei Manuel da Conceição, ou frei Manuel da Graça,

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ou ainda Belchior Carneiro, ou Manuel Lencastre, quem sabe que outros nomes teria e todos verdadeiros, porque deveria ser um direito do homem escolher o seu próprio nome e mudá-lo cem vezes ao dia, um nome não é nada, e aquele é Domingos Afonso Lagareiro, natural e morador que foi em Portel, que fingia visões para ser tido por santo, e fazia curas usando de bênçãos, palavras e cruzes, e

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outras semelhantes superstições, imagine-se, como se tivesse sido ele o primeiro, e aquele é o padre António Teixeira de Sousa, da ilha de S. Jorge, por culpas de solicitar mulheres, maneira canónica de dizer que as apalpava e fornicava, decerto começando na palavra do confessionário e terminando no acto recato da sacristia, enquanto não vai corporalmente acabar em Angola, para onde irá degredado por

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toda a vida, e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos o são, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e

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orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola, e tendo ouvido as sentenças, as minhas e mais de quem comigo vai nesta procissão, não ouvi que se falasse da minha filha, é seu nome Blimunda, onde

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estará, onde estás Blimunda, se não foste presa depois de mim, aqui hás-de vir saber da tua mãe, e eu te verei se no meio dessa multidão estiveres, que só para te ver quero agora os olhos, a boca me amordaçaram, não os olhos, olhos que não te viram, coração que sente e sentiu, ó coração meu, salta-me no peito se Blimunda aí estiver, entre aquela gente que está cuspindo para mim e atirando cascas de

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melancia e imundícies, ai como estão enganados, só eu sei que todos poderiam ser santos, assim o quisessem, e não posso gritá-lo, enfim o peito me deu sinal, gemeu profundamente o coração, vou ver Blimunda, vou vê-la, ai, ali está, Blimunda,

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Blimunda, Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um

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quarto, já me viu, e ao lado dela está o padre Bartolomeu Lourenço, não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles, poder meu, pelas roupas soldado, pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeus Blimunda que não te verei

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mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis.

José Saramago, Memorial do Convento, Ed. Caminho

Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1. Estabeleça um contraste entre as personagens colectivas e aquelas que surgem individualizadas.

2. Comente a expressividade presente na imagem “a procissão é uma serpente enorme que não cabe direita no Rossio e por isso se vai curvando e recurvando” (linhas 2-3).

3. Caracterize a tensão emocional que marca Sebastiana ao longo do excerto.

4. Explique em que medida é que o tom irónico que caracteriza o excerto ajuda a construir a postura crítica do narrador em relação aos eventos narrados.

5. Aponte e clarifique a simbologia que marca o primeiro encontro entre Baltasar e Blimunda.

B

Exponha, num texto de sessenta a cento e vinte palavras, a sua opinião sobre a visão da História que José Saramago apresenta em Memorial do Convento.

Observações:

1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo

quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.:/dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independen-

temente dos algarismos que o constituam (ex.:/2008/).

2. Um desvio dos limites de extensão indicados implica uma penalização até 5 (cinco) pontos do texto produzido.

GRUPO II

Leia, atentamente, o texto a seguir transcrito.

Há cento e cinquenta anos, nas páginas do prefácio da sua Contribuição para a Crítica da Economia Política, Karl Marx partilhava connosco a sua convicção profunda acerca do futuro promissor da Humanidade. A aposta de Marx no progresso humano estava tingida de cores sombrias, mas era uma clara crença numa

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Para Marx, a metamorfose das sociedades assentaria numa dialéctica fundada

no conceito de “desenvolvimento” (Entwicklung). Ele era o fio condutor que

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colocava, nas épocas de crise, as forças produtivas e as relações de produção numa rota de colisão, que só se resolveria na edificação de uma nova “formação social” (Gesellschaftsformation). Esta, por seu turno, permitiria um novo equilíbrio dinâmico, abrindo para um novo ciclo de desenvolvimento, acompanhado por novas configurações institucionais, por novos tipos de representação social, pelo aumento

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da liberdade e da autoconsciência humana quanto ao significado da existência e da nossa capacidade de autodeterminação, transformando o destino numa escolha, cada vez mais transparente e participada dos caminhos do futuro. Por isso, o seu

testemunho de fé era claro: “(

)

a Humanidade só coloca a si própria tarefas que

está em condições de resolver”.

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A atmosfera intelectual neste início do século XXI está muito longe de partilhar o optimismo de Marx e do seu tempo. O surpreendente surto da ciência e da técnica, que fez multiplicar a população e a riqueza num ritmo sem paralelo histórico, não trouxe apenas boas notícias. Conhecemos hoje, por experiência própria, os efeitos colaterais nefastos da técnica. Quando procuramos identificar a hierarquia dos

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riscos que nos separam do futuro, aqueles que são colocados no topo da lista são os decorrentes da acção humana sobre o precário equilíbrio ecológico e ambiental do planeta. Estamos em vias de mudar o clima de forma tão profunda como inédita. Tornamos, em cada dia que passa, as regiões que habitamos em lugares onde

diminui a diversidade biológica e onde se enfraquece a capacidade de suporte para

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a

nossa própria existência duradoura, sustentável, como civilização humana. Por

outro lado, o aumento da riqueza não foi acompanhado pela correcção das injustiças sociais. Antes pelo contrário. Nunca como no nosso tempo existiu um tão grande abismo entre pobres e ricos, mesmo dentro das sociedades mais desenvolvidas. Como se não bastasse o perigo mortal que o Homem parece estar prestes a infligir

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si próprio, o nosso conhecimento da história natural planetária, extraordinariamente ampliado nas últimas décadas, dá-nos uma imagem cruel da nossa morada cósmica.

a

Viriato Soromenho-Marques, in http://www.viriatosoromenho-marques.com/Imagens/PDFs/JL%20A%20Crise%20do%20Progresso%2020.07.2005.pdf (consultado em 25-09-2008)

Para cada um dos seis itens que se seguem (1. a 6.) escreva, na sua folha de respostas, a letra correspondente à alternativa correcta, de acordo com o sentido do texto.

1. A crença de Marx no progresso humano

a) perspectivava o desenvolvimento individual e social da Humanidade.

b) assentava numa única e sombria linha unificadora.

c) era uma metamorfose dialéctica.

d) interpretava a História à luz das filosofias de há 150 anos.

2. A expressão “o fio condutor” (linha 9) refere-se

a) a metamorfose dialéctica.

b) as forças produtivas.

c) ao conceito de “desenvolvimento”.

d) a metamorfose social.

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3.

A

expressão “a Humanidade só coloca a si própria tarefas que está em condições de resolver.”

(linhas 18-19)

a) é uma ironia em relação ao anteriormente exposto.

b) clarifica a crença marxista no futuro do ser humano.

c) funciona como síntese da lógica marxista.

d) é um argumento marxista de desenvolvimento social.

4.

A expressão “o seu testemunho de fé” (linhas 17-18) remete para

a) a capacidade de autodeterminação.

b) a fé na Humanidade.

c)

Karl Marx.

d) o progresso humano.

5.

A expressão “não trouxe apenas boas notícias” (linhas 22- 23) significa que

a) o surto de ciência e tecnologia trouxe consequências negativas.

b) o surto de ciência e tecnologia revelou-se mais negativo que positivo.

c) o surto de ciência e tecnologia revelou-se mais positivo que negativo.

d) o surto de ciência e tecnologia teve um impacto exclusivamente negativo.

6.

A expressão “os decorrentes da acção humana sobre o precário equilíbrio ecológico e

ambiental do planeta.” (linhas 26-27) refere

a) a hierarquia dos riscos.

b) os principais problemas que ameaçam o Homem.

c) os efeitos colaterais nefastos da técnica.

d) os riscos.

7.

Faça corresponder aos quatro elementos da coluna A quatro elementos da coluna B, de modo

a obter afirmações verdadeiras.

A

1. Com a expressão “neste início do século XXI” (linha 20)

2. Ao utilizar “de forma tão profunda como inédita” (linha 27)

3. Com o uso de “antes pelo contrário” (linha 32)

4. Com a expressão “abismo” (linha 33)

B

a. o enunciador confirma a afirmação precedente.

b. o enunciador individualiza um elemento de importância superior.

c. o enunciador enfatiza metaforicamente uma característica do contexto que refere.

d. o enunciador refere uma síntese da enumeração anterior.

e. o enunciador abre caminho para uma caracterização específica.

f. o enunciador caracteriza uma eventualidade futura.

g. o enunciador evoca conhecimento partilhado de características contextuais.

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GRUPO III

CPEN-P12 © Porto Editora GRUPO III Elabore um texto de duzentas a duzentas e cinquenta palavras

Elabore um texto de duzentas a duzentas e cinquenta palavras em que reflicta sobre as questões sociais levantadas pela imagem apresentada, relacionando a sua reflexão com a peça Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro.

Observações:

1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo

quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.:/dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independen-

temente dos algarismos que o constituam (ex.:/2008/).

2. Um desvio dos limites de extensão indicados implica uma penalização até 5 (cinco) pontos do texto produzido.