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Plinio Arruda Sampaio (org.)

DESAFIOS

DA

LUTA

PELO

SOCIALISMO

Plinio Arruda Sampaio (org.)

DESAFIOS

DA

LUTA

PELO

SOCIALISMO

EDITORA EXPRESSÃO POPULAR

Copyright © 2002, by Editora Expressão Popular

Projeto gráfico, capa e diagramação ZAP Design

Tradução e revisão:

Geraldo Martins de Azevedo Filho Maria de Almeida

Ilustração da capa José Clemente Orozco A trincheira (1923-1924), afresco, Cidade do México - México. Evocada de maneira visual bastante explícita neste mural, em que o soldado do meio está deitado de braços abertos como se pregado em uma cruz, a metáfora, cristã, representa as classes sociais e retrata o sofrimento.

Impressão e acabamento Cromosete

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) Biblioteca Central da UEM. Maringá - PR.

P314S

Desafios da luta pelo socialismo / Plinio Arruda Sampaio, organizador. -- São Paulo : Expressão Popular, 2002. 104 p. Indexado em GeoDados - http://www.geodados.uem.br

ISBN 85-87394-33-9

1. Socialismo. 2. Sociologia. 3. Ciências políticas. I. Sampaio, Plinio Arruda, org.

CDD 21.ed. 306.345 CIP-NBR 12899

Vilma Apª Feliciano CRB 9/1152

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorização da editora.

1ª edição: agosto de 2002

EDITORA EXPRESSÃO POPULAR Rua Bernardo da Veiga, 14 CEP 01252-020 - São Paulo-SP Fone/Fax: (11) 3105-9500 Correio eletrônico: vendas@expressaopopular.com.br www.expressaopopular.com.br

Sumário

APRESENTAÇÃO

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I - O SIGNIFICADO DO SOCIALISMO CHINÊS Zhou Shixiu

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II

- O SOCIALISMO E AS NOVAS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO

E

SOCIAIS NECESSÁRIAS

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Fernando Martínez Heredia

III

- AS RELAÇÕES DE PROPRIEDADE E AS RELAÇÕES

SOCIAIS DE PRODUÇÃO NA LUTA PELO SOCIALISMO François Chesnais

45

IV

- A REFUNDAÇÃO

59

Fausto Bertinotti

V

- SOCIALISMO

75

Michael Löwy

VI

- A LUTA PELO SOCIALISMO NA ATUALIDADE

83

James Petras

APRESENTAÇÃO

Socialismo: o que permanece, o que muda

Todo socialista está em busca de uma adequação do socialis- mo às condições de um mundo que se transformou completa- mente a uma velocidade vertiginosa. Portanto, nada mais natural que houvesse um seminário especial sobre os rumos do socialis- mo, no Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Afinal, as cin- qüenta mil pessoas, vindas de todas as partes do mundo, que se reuniram na capital gaucha, em janeiro de 2002, se propunham a pensar “um outro mundo possível”. Esta publicação reproduz as seis exposições apresentadas no seminário. Elas permitirão ao leitor entrar no âmago das questões postas para todos aqueles que não se deixaram abater pelas derro- tas sofridas pelo movimento socialista no final do século XX, nem se deslumbraram com as aparências do mundo pós-moderno. Nada, neste mundo novo, invalida a utopia socialista e isto ficou muito claro no seminário. A idéia generosa de uma socie- dade igualitária, fraterna, solidária, formada por homens e mu- lheres livres do jugo do capital e do preconceito, continua sendo

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a melhor garantia da humanidade contra o risco, sempre presente

e agora mais do que nunca agravado, da barbárie. Nada, também, nas novas feições assumidas pelo capital – a globalização, a produção “toyotista”, a importância da informa- ção no processo produtivo – anula a necessidade de substituir a propriedade privada dos meios de produção pela propriedade coletiva; e de substituir a livre iniciativa dos donos do capital pela produção planificada. Evidentemente, isto não exclui a crí- tica à maneira pela qual as experiências socialistas do século XX realizaram essas reformas. Mas uma coisa é criticar para corrigir; outra, muito diferente, é para renegar. Do mesmo modo, as mudanças na composição da categoria de seres humanos que transferem mais-valia para o capital des- truíram as teorias a respeito dos sujeitos sociais da revolução so- cialista. Os antigos operários de macacão transformaram-se em “trabalhadores rotineiros”, “prestadores de serviços pessoais”, “ana- listas simbólicos” – o que seja, mas esses novos trabalhadores, responsáveis por uma produção mais do que nunca socializada, transferem, como os velhos operários dos séculos de dominação capitalista, parte dos valores que criam para uma classe de para- sitas sociais. Esses novos trabalhadores são o sujeito de uma revo- lução socialista, a qual, hoje, mais do que nunca, ou será mundial ou não será. À luta deles soma-se atualmente a da multidão dos “descartáveis” do capitalismo em razão de falta de sua serventia para o mundo da produção automatizada. A leitura das seis exposições constantes desta publicação evi- denciará que há uma razoável concordância entre todos a respeito dos aspectos básicos do socialismo. Na verdade, quem os renega já deixou de ser socialista. Mas, se todos esses aspectos continuam, em sua essência, inalterados na doutrina socialista, o que precisa mudar?

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O esforço de retomada do movimento socialista mundial, depois da grande derrota do final do século XX, deve concen-

trar-se na estratégia, nas táticas, nos estilos e nas estruturas dos partidos socialistas. Aí sim, mudanças radicais são necessárias. Excusado dizer que não surgirão da pena de algum iluminado, mas da reflexão teórica acerca da prática revolucionária de mi- lhares de militantes socialistas espalhados em todos os movimen- tos sociais neste conturbado mundo do capitalismo global. Os seis textos, da lavra de intelectuais comprometidos com esta prática, sugerem algumas das correções sobre as quais deve- mos nos debruçar. Sem preocupação de sistematizar essas contri- buições, mas apenas de provocar a reflexão sobre elas, vão aqui citadas, ao acaso, algumas que podem causar mais impacto nas formas de organizar a atual luta de resistência anticapitalista:

– Para fazer avançar o socialismo, não basta montar uma

estrutura partidária e desenvolver uma estratégia exitosa de conquista do poder. É indispensável começar a pensar e a experimentar, desde já, formas de transformar o poder do Estado.

– O empenho transformador da sociedade atual precisa foca-

lizar, ao mesmo tempo e com igual peso, as instituições e a socie- dade. A transformação socialista não se circunscreve à economia e ao Estado, mas a toda a organização da vida social. A sociedade socialista, que pretendemos implantar, é um projeto de civiliza- ção mais generoso e humano do que a civilização belicosa e indi- vidualista criada pelo capital.

– O novo intelectual coletivo do processo revolucionário so-

cialista não é mais o partido e sim o movimento. Os movimen- tos é que mobilizarão os novos sujeitos sociais para a tarefa civilizatória de destruir a dominação burguesa. Esta constatação não exclui, entretanto, a necessidade de uma idéia-força unitária

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e, conseqüentemente, de um sujeito político capaz de produzi-la. Só que este não será uma “vanguarda” a dar “direção” ao conjun- to, mas um instrumento de coordenação e sinergia a serviço dos movimentos. – Para que as metas da planificação socialista não sejam im- postas aos produtores por uma tecnoburocracia estatal, é indis- pensável encontrar formas adequadas de efetiva participação popular neste processo.

Se pudermos levar alguma contribuição sobre esses pontos ao 3º Fórum Social Mundial, a realizar-se em janeiro de 2003, sem dúvida, o movimento socialista dará um grande salto quali- tativo. Outra não é a ambição da Editora Expressão Popular ao editar este livro.

Plinio Arruda Sampaio Agosto de 2002.

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I - O SIGNIFICADO DO SOCIALISMO CHINÊS

Zhou Shixiu

Em 1º de outubro de 1949, Mao Zedong * proclamou a Re- pública Popular da China em Beijing. Começou, nessa impor- tante data, a nova história da China. Essa história é densa e teve uma primordial importância para a China, e também para o mundo inteiro, porque a sociedade chinesa entrou no período socialista e o socialismo modificou essencialmente esse país. Existia, nos anos 40, um país pobre, extremamente atrasado, predominantemente rural, que havia sido destruído pela guer- ra civil e pela invasão estrangeira. Um país no qual, naquela época, pouca gente acreditava. Em pouco mais de 50 anos, de 1949 para cá, o socialismo alterou totalmente esse quadro. Fez da China uma potência in- dustrial, melhorou profundamente os padrões sociais da China, transformou o país numa das grandes potências do mundo. Uma potência que se desenvolve a uma taxa de expansão que é, nos

* A pronúncia que se consolidou no mundo ocidental, Mao Tsé-Tung, não é a mais correta, e sim a que aqui se apresenta.

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Fernando Martínez Heredia

últimos 20 anos, de 8 a 9% ao ano, provavelmente a maior do mundo. Cito as palavras do embaixador brasileiro Afonso de Ouro Preto, “a China é um país que nós conhecemos, potência com a qual o nosso Brasil deseja manter estreitas relações de aproxima- ção, apesar da distância geográfica. Queremos estar política e economicamente perto da China.” Alexandre Lilov, diretor do Instituto Búlgaro de Estratégia e ex-presidente do Partido Socialista Búlgaro, apresentou caloro- sas congratulações à China no seu 50º aniversário, consideran- do-a um exemplo no mundo. O “Jornal dos Chineses na Europa” publicou um editorial salientando que a China vem se transfor- mando num país forte e próspero, considerando este fato um milagre criado pela nação chinesa. O triunfo da China, especialmente os avanços dos últimos 20 anos, é uma realidade que é conhecida no mundo todo. Hoje, aqui no Fórum Social Mundial, quando nós debatemos o “Socia- lismo”, quero enfatizar que este sucesso se deve ao Socialismo. Embora saibamos que a maioria dos países socialistas tenham tido insucesso, o socialismo desenvolvido na China conseguiu trilhar um caminho que levou o país a um êxito extraordinário. Quero abordar, neste Fórum, três temas sobre socialismo tipo chinês: A prática do socialismo na China; o que é o socialismo tipo chinês; as perspectivas do socialismo chinês.

A prática do socialismo na China

Desde a fundação da RPC, em 1949, a China participa da sociedade socialista. Esta história pode ser dividida em dois períodos:

1º) de 1949 a 1976 – época de Mão; 2º) de 1976 até hoje – período de reforma.

Desafios da luta pelo socialismo

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Ao falar sobre esses dois períodos, faz-se necessário falar so- bre duas personalidades históricas: Mao e Deng. Mao Zedong é considerado o principal criador da Nova Chi- na. No século passado havia uma canção popular – “Vermelho Oriental” – cujos versos diziam: “O oriente está vermelho, o sol se levantou. Nasceu Mao Zedong na China. Ele trabalha pela felicidade da nação e é o salvador do povo chinês”. Até hoje, o povo chinês considera Mao um herói nacional. No período entre o fim da década de 50 e o fim da década de 70, a China percorreu um caminho acidentado e sinuoso na cons- trução socialista. Criado na década de 1950 e tendo como modelo a então União Soviética, o sistema socialista da China teve o exemplo soviético como eixo fundamental no seu desenvolvimento eco- nômico. O socialismo soviético caracterizava-se pela procura do alto grau de nacionalização do sistema de propriedades e pela econo- mia planejada e centralizada no desenvolvimento econômico. No decorrer do tempo, a economia planejada começou a mostrar seus aspectos negativos na mobilização das iniciativas coletivas e individuais. Devido a esse fator, alguns dirigentes chineses ten- taram fazer algumas emendas no modelo soviético, cedendo (em 1956) o direito de autonomia às empresas e permitindo a exis- tência de algumas empresas particulares como suplemento à eco- nomia socialista. Em resumo, esses dirigentes chineses queriam que o mercado desenvolvesse seu papel de reajuste sem prejuízo à estrutura fundamental do sistema de economia planejada. Foi lamentável, mas Mao não aceitou as idéias dos colegas e a China não soube conduzir correta e efetivamente os esforços destinados à reforma do sistema econômico, que incluía o au- mento da diversificação e a flexibilidade da economia socialista.

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Fernando Martínez Heredia

A partir de 1957, e por um período de 20 anos, o governo

chinês continuou a obstinada intensificação da economia plane-

jada, fundamentado na concepção de que o socialismo era repre- sentado por essa economia e, quanto maior fosse a propriedade pública, maior seria a oportunidade de desenvolvimento. Com um entendimento parcial sobre a natureza do socialismo, os pro- blemas relacionados ao sistema econômico centralizado e à pro- priedade única permaneceram sem solução e, durante um longo tempo, serviram de obstáculos ao desenvolvimento da produti- vidade.

A falta de conhecimento e o desvio político provocaram ain-

da o grande caos nacional, isto é, a “Grande Revolução Cultu- ral”, que durou 10 anos. Mesmo assim, a China obteve alguns êxitos nos 20 anos se- guintes. Apesar das vicissitudes, a produção industrial anual au- mentou em média 11,2%. Foram lançados, com êxito, as bombas atômicas, os mísseis e os satélites artificiais. Além disso, das gran- des instalações básicas existentes atualmente para o desenvolvi- mento do país, 70% foram construídas nos anos 60 e 70. Comparando com os primeiros anos da proclamação da Repú- blica Popular da China, a vida do povo melhorou visivelmente, o número de pobres diminuiu, as condições de assistência médica foram aprimoradas, o nível de educação se elevou e cresceu a expectativa de vida do povo. Inaugurada a Nova China em 1º de outubro de 1949, Mao colocou em prática a sua idéia de dominação absoluta, conse-

guindo resultados positivos. Na área econômica, Mao insistiu no modelo de economia estatal, diminuindo o espaço da inicia- tiva privada, causando uma cisão na realidade chinesa e ocasio- nando a carência no abastecimento de mercadorias para o povo. Em relação aos intelectuais, Mao considerou que eles pertenciam

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à classe burocrata e deveriam ser reeducados. Em 1957, ele ini-

ciou uma campanha contra as tendências de direita, prejudican-

do os intelectuais, dentre os quais cerca de 500 mil foram julgados

e condenados a uma reeducação, o que significou jornadas em

campos de trabalho forçado. Segundo Mao, o motor de arranque da sociedade era a luta de classes. Depois de conquistar o poder nacional em 1949, an- tes ocupado por Chiang Kai-Shek (1887 – 1975), Mao descui- dou-se da construção do país e deu prioridade à luta de classes, promovendo diversas campanhas políticas, tais como: a luta con- tra as tendências de direita, a luta contra as tendências direitistas dentro do Partido, as “Quatro Limpezas”, e a “Grande Revolu- ção Cultural”, que levou o país ao caos e resultou em calamidade nacional. O modelo de Mao foi aplicado inclusive na área eco- nômica, em 1957, provocando o “Grande Salto”, em que a Chi- na iria superar a Inglaterra no curto período de 15 anos. Mao criou no campo a “Comuna Popular”, uma instituição de poder que agrupava operários, camponeses, intelectuais e comercian- tes, cuja finalidade era administrar a agricultura, a educação, a indústria e o comércio. Imaginou que, dessa forma, a sociedade chinesa poderia chegar mais rápido à sociedade comunista. Mao negou a economia de mercado e limitou a produção de merca- dorias, considerando-as como próprias de países capitalistas e, conseqüentemente, inadequada à sociedade socialista, o que re- sultou em prejuízo para o desenvolvimento do país. Em relação aos assuntos internacionais, logo após a fundação da Nova China, Mao aplicou uma política paralela à URSS, par- ticipando da Guerra da Coréia (1950 – 1953). Na década de 70, Mao tinha a idéia de que o mundo se dividia em três partes:

países hegemônicos, como os EUA e URSS; países capitalistas desenvolvidos e países em desenvolvimento, como os da Ásia, da

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Fernando Martínez Heredia

África e da América Latina. Acreditando nessa idéia, usou como estratégia a construção de frentes unitárias nos países em desen- volvimento, aproveitando a divergência da “Guerra Fria”, para lutar contra os países hegemônicos, construindo assim uma nova ordem mundial. (v. BANDUNG, Conferência). Diante desse posicionamento de Mao, a China projetou-se internacionalmente e, para o povo chinês, ele foi considerado um herói nacional, visto que sob a sua direção a China passou da condição de um país fraco e facilmente invadido pelos imperialistas à de um país proeminente nos assuntos internacionais e poderoso na defesa nacional. Depois da morte de Mao Zedong, em 1976, Deng Xiaoping tornou-se o núcleo da nova geração de governo. Sob o dois co- mandos, a Nova China estabelecida por Mao Zedong deu aos chineses dignidade e confiança; Deng Xiaoping iniciou o pro- grama de reforma e abertura, dirigindo o povo chinês para o enriquecimento. Após a fundação da República Popular da China, em 1949, Deng Xiaoping, como um dos criadores da Nova China, duran- te 30 anos dedicou-se à administração da economia nacional e, posteriormente, assumiu o cargo de vice-primeiro-ministro do Conselho do Estado. Graças ao seu trabalho na economia nacio- nal, Deng Xiaoping implantou o conceito prático, que foi dura- mente criticado devido à estagnação ideológica da China, e ele terminou sendo exonerado de seu cargo. Em 1976, após o fim da “Grande Revolução Cultural” que durou 10 anos, Deng Xiaoping voltou ao palco político e reiniciou a aplicação da nova política relativa às reformas no interior do país e a abertura ao exterior. Deng Xiaoping estudou o processo de desenvolvimento da Nova China nos 30 anos de sua fundação e concluiu que a Chi-

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na não podia seguir o modelo de desenvolvimento da então União Soviética e, sim, deveria procurar adotar um novo modelo. A partir daí, as reformas que se seguiram tiveram como objetivo o melhoramento do sistema socialista, que levaria o país à constru- ção de um socialismo com características chinesas. Quanto às reformas internas, Deng enfatizou a construção da economia como o trabalho central do governo em todo o país. Por outro lado, considerou que a mudança no modo admi- nistrativo da economia nacional levaria o funcionamento do mercado a desempenhar o papel de ajustamento. Enquanto aplicava as reformas no interior do país, Deng, ao mesmo tempo, promovia ativamente a abertura ao exterior. Nos

30 anos anteriores à aplicação da abertura, a política chinesa com

o exterior possuía características da época da “Guerra Fria”. Mas

Deng incentivou a abertura do comércio exterior a todos os pa- íses, tomando importantes decisões, tais como: estabelecimento da zona econômica especial; abertura de mais de 10 portos marí- timos com finalidade de criar uma faixa litorânea de abertura econômica ao exterior. Num curto espaço de tempo, as zonas econômicas especiais e as zonas de abertura econômica obtive- ram rápido desenvolvimento e impulsionaram a abertura de todo

o país ao exterior. As reformas levaram a China a um socialismo

com características chinesas e desencadearam um desenvolvimen-

to contínuo, estável e rápido. Mais de 200 milhões de chineses livraram-se da pobreza.

O significado do socialismo chinês

Segundo o resultado da prática do socialismo na China, es-

pecialmente na época de Deng Xiaoping, podemos conhecer o socialismo típico da China. Então, o que é o socialismo de tipo

chinês?

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Fernando Martínez Heredia

1º) O socialismo é o caminho correto e razoável para o povo chinês. Ao seguir esse caminho, o povo chinês conseguiu a inde- pendência nacional e a liberdade e estruturou um sistema eco- nômico nacional relativamente completo. 2º) O ponto chave do socialismo para um país socialista é desenvolver a produtividade. O governo deve trabalhar com a concretização da construção da economia. O socialismo não é contraditório à economia de mercado e nem a economia de mer- cado é patente do capitalismo. O país socialista também tem mercado. 3º) O caminho do socialismo é uma “Grande Marcha”. De- pois de 50 anos da fundação da Nova China, o país ainda está na etapa inicial do socialismo. 4º) O fundamento do socialismo é sempre tratar o povo como o objetivo da construção socialista e investir todo esforço na melhoria da vida do povo, permitindo o enriquecimento de al- gumas pessoas no início para atingir o enriquecimento de todo o povo no final. Concluindo, o socialismo de tipo chinês consiste na libera- ção e no desenvolvimento das forças produtivas, eliminação da exploração, equilíbrio da distribuição de rendas e, finalmente, em concretizar o enriquecimento comum do povo. 5º) O socialismo deve saber administrar juridicamente o país, lutar contra a corrupção e desenvolver a política democrática socialista. O socialismo não despreza a herança da excelente tra- dição cultural de seu país, ainda que absorva todos os traços cul- turais estrangeiros.

Futuro do socialismo chinês

Os próximos 5 a 10 anos condensam um período muito im- portante para o desenvolvimento econômico-social da China e

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também a fase mais espinhosa da reforma chinesa. Por isso, a Chi-

na definiu um plano de desenvolvimento econômico-social nacio-

nal para os próximos 10 anos e desenhou as perspectivas de desenvolvimento para os próximos 5 anos. O desenvolvimento será o tema principal; o ajuste estrutural, o eixo; a reforma, a aber- tura e o progresso científico-tecnológico, a força de propulsão; e a qualificação do nível de vida popular será o ponto de partida. Para conseguir realizar esses objetivos, será necessário um ajuste com- pleto às estruturas produtivas, regional, urbano-rural e do sistema

de propriedade, colocando em prática a estratégia de desenvolver

o grande oeste, que tem como meta central a construção de infra- estruturas e a melhoria do meio ambiente. Além disso, o país pla- neja fomentar a ciência e a educação, destinando investimentos na formação dos recursos humanos, nas inovações científico-

tecnológicas e estruturais e acelerando o processo da informatização.

O esforço conjunto terá como objetivo alcançar o equilíbrio do

desenvolvimento econômico e social, conseguir que as reformas avancem paralelamente e governar o país de acordo com a lei e a moralidade. Este é o primeiro ano na execução do 10º Plano Qüinqüenal, que contou com um início positivo. No contexto da

desaceleração geral da economia mundial, a China tem mantido a

tendência de rápido crescimento. A taxa de crescimento do PIB chinês, no primeiro semestre deste ano, foi de 7,9%. Recentemen-

te, na 18ª Reunião do Grupo de Trabalho Mundial de Comércio

sobre a China, foram aprovados todos os documentos legais em relação à entrada da China naquela organização.

Segundo Sima Qian, o mais famoso historiador chinês antes

de Cristo, o objetivo do historiador é estudar a relação entre o

homem e a natureza, conhecer as razões das mudanças e das re-

formas de uma sociedade.

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Fernando Martínez Heredia

Há dois mil anos atrás, Sima Qian, pai da história chinesa, assinalou a China na história. Hoje, participando deste Fórum Social Mundial, posso assegurar que um brilhante futuro socia- lista é possível, é realidade. O povo chinês percorreu um longo e acidentado caminho, mas, com persistência e disciplina, encon- trou o caminho adequado e, hoje, a nação chinesa se projeta no cenário mundial. Acredito que todos os países poderão encon- trar seus próprios caminhos, espelhando-se ou não na experiên- cia chinesa, convictos de que o progresso de uma nação depende sobretudo de seus cidadãos. Almejo a todos os participantes e aos seus povos que alcan- cem o desenvolvimento sem abrir mão da humanidade e que a “Paz” seja o objetivo de todos.

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II - O SOCIALISMO E AS NOVAS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO E SOCIAIS NECESSÁRIAS

Fernando Martínez Heredia

Venho falar de socialismo, mas, para fazê-lo, antes de tudo quero expressar aqui minha solidariedade, como cubano, com a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, com os Atingidos

por Barragens, com todos os demais que resistem e lutam, no Bra- sil e em todas partes do mundo; minha solidariedade com a Via Campesina, com os organizadores deste seminário, onde nos cabe debater e trocar idéias sobre o socialismo. A formação, o debate e o estudo não são divagações na luta pelo socialismo; são uma forma importante dessa mesma luta, que nos torna mais fortes e mais efi- cazes e também nos proporciona, como hoje, neste lugar, a emoção

e o encontro, a arte da dança nos pés dos filhos dos camponeses e a

canção internacional dos trabalhadores cantada em todas as línguas,

em todos os idiomas que os povos inventaram para expressar o amor,

o trabalho e a busca da felicidade e da liberdade.

Pensar o socialismo

Quando se fala de socialismo, surge a necessidade de distin- guir entre as propostas e o dever ser do socialismo, por um lado,

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Fernando Martínez Heredia

e as formas concretas que existiram e existem em países e regiões,

a partir das lutas de libertação anticapitalistas, e nas sociedades

que realizaram transições socialistas. A prefiguração, os ideais, a profecia, o projeto são a alma e a razão de ser do socialismo e forjam a meta que inspira a combater. Contudo, as experiências são a própria matéria da luta e da esperança; por meio delas, o socialismo avança e por elas é avaliado. Esta distinção é básica, mas não é a única distinção impor- tante na reflexão sobre o socialismo. Quando queremos conhe- cer uma experiência socialista, nos deparamos com um problema interno do país em questão: como se dão, ali, as relações entre o poder existente e poder desejado; e com outro problema, este externo: aquele que se refere às relações entre o país em transição socialista e o restante do mundo. Na realidade, são dois proble- mas, mas não estão separados: as práticas de cada um deles afe- tam o outro e, em grande medida, os definem. As questões apresentadas até aqui não existem em separado, nem em estado “puro”. Devem ser enfrentadas simultaneamente

e estão mescladas ou combinadas, ajudando-se, dificultando-se

ou confrontando-se, exigindo esforços ou sugerindo esquecimen- tos e adiamentos fatais. Suas realidades – e outras situações e

êxitos contrários – condicionam em certa medida cada processo. Cada transição socialista se debate entre as mudanças civilizatórias

e as mudanças de libertação conquistadas ou não; as correlações

entre graus de liberdade que se tem e necessidades que o obri- gam, as motivações e atitudes dos indivíduos, que são os que fazem o socialismo e qualquer outra coisa, a razão de Estado e o internacionalismo, e outros dilemas e problemas. Para que o pen- samento cumpra sua função decisiva, neste empenho nunca an- tes visto, de ir contra o conjunto das relações de opressão que têm existido e criar um mundo novo, é necessário que a reflexão

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se ocupe dos problemas centrais. Alguns problemas teóricos mais

gerais são de valor permanente, como o da necessidade da revo-

lução em escala mundial frente ao âmbito nacional de cada ex- periência socialista e frente a um capitalismo que tem sido cada vez mais profundamente globalizado; ou o problema de definir

o que é fundamental desenvolver nas sociedades que empreen- dem um caminho de instituição do socialismo. Porém, não devo continuar sem responder a uma pergunta

urgente: o que é que o socialismo tem a ver conosco? Opino que a única alternativa prática ao capitalismo atual é o socialis- mo, e não a extinção ou o aperfeiçoamento da chamada globalização, que é uma vaga referência ao grau em que o capi- talismo transnacional e de dinheiro parasitário exerce sua do- minação no mundo atual; tampouco será alternativa o fim do neoliberalismo, palavra que serve para descrever determinadas políticas e a principal forma ideológica adotada pelo grande capitalismo atual. Estes conceitos não são inocentes; a lingua- gem nunca é inocente. Quando se aceita que a “globalização é inevitável”, está-se ajudando a escamotear a consciência das atuais formas de exploração e de dominação imperialista, e sua longa história de mundialização da pilhagem aberta e das do- minações sutis, classificando-se como fenômeno natural – como

se fosse o clima – uma cruel forma histórica de oprimir as maio-

rias. O repúdio ao neoliberalismo indica um avanço importan-

te de consciência e é uma instância unificadora nas lutas sociais

e políticas; porém, o capitalismo é muito mais abrangente, in-

cluindo o neoliberalismo e todas as vantagens “não liberais” de seu sistema econômico e de seus poderes que dominam o Esta- do, a política, os meios de comunicação, a escola, a corrupção e a “luta” contra ela etc. Dominar tudo através da imposição de uma linguagem que condiciona os pensamentos possíveis faz

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Fernando Martínez Heredia

parte da guerra cultural desenvolvida pelo capitalismo em es- cala mundial. É pela sua própria natureza que o sistema capitalista se torna sinistro para a maioria da população do planeta e para o próprio planeta, e não por suas supostas aberrações, por uma malformação que pode ser extirpada ou por um equívoco que pode ser corrigi- do. O capitalismo chegou a um ponto de seu desenvolvimento em que colocou em prática toda a capacidade do sistema, com um alcance mundial, mas sua essência continua sendo o lucro e a avidez pelo lucro; é a dominação, a exploração, a opressão, a marginalização ou a exclusão da maioria das pessoas, é a trans- formação de tudo em mercadoria, a depredação do mundo em que vivemos, a guerra e todas as formas de violência que lhe servem para se impor, ou para dividir e contrapor os dominados entre si. Só a eliminação do poder do capitalismo e um combate criativo, amplo e muito prolongado contra a persistência de sua natureza poderá nos salvar. A única proposta capaz de impulsio- nar tarefas tão incontestáveis e extraordinárias é o socialismo. Porém, a afirmação do socialismo é a pressuposição do enfrentamento de um poderoso grupo de perguntas e desafios. O socialismo é uma opção realizável, é viável? Pode existir e persistir em países ou regiões do mundo sem controle dos centros econô- micos do mundo? É um regime político e de propriedade, e uma forma de distribuição de riquezas, ou está obrigado a desenvolver uma nova cultura, diferente, oposta e mais humana que a cultura do capitalismo? Por sua história, o socialismo não está também incluído no fracasso das idéias e das práticas “modernas”, que se propuseram a aperfeiçoar as sociedades e as pessoas? Não se pode esquecer nem dissimular nenhum desses desafios, precisamente para dar uma base firme à idéia socialista, tirar proveito de suas experiências e ter mais possibilidades de realizá-la.

Desafios da luta pelo socialismo

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É certo que, recentemente, as lutas populares têm sofrido

muitas derrotas no mundo e que a dominação parece mais pode-

rosa do que nunca, embora na realidade, também tenha grandes debilidades e elementos contra si. O maior potencial adverso da dominação é uma enorme cultura acumulada de experiências em conflitos sociais e políticos – e de avanços obtidos pela Hu- manidade – cultura de resistências e rebeldias que fomentam identidades, idéias e consciência, e manifesta reações e exigências colossais e urgentes. Tudo isso favorece a opção de sentir, neces- sitar, pensar e lutar por avanços e criações novas. Essas lutas se- rão socialistas. Desejo que meus comentários sejam uma modesta contribuição ao debate e à formação política, que são indispen- sáveis para o aperfeiçoamento desses propósitos. Escolho apenas umas poucas questões, dado o tempo de que disponho, sabendo que serei bastante parcial em minha exposição. Temos visto duas maneiras diferentes de entender o socialis- mo no mundo do século 20: o socialismo que temos vivenciado ou o socialismo com que temos sonhado. Elas têm estado muito relacionadas entre si, costumam reivindicar a mesma origem his- tórica, não têm sido excludentes. Mas, atenho-me aqui às dife- renças entre elas, porque são elas que nos permitem vislumbrar o essencial.

A primeira é um socialismo que pretende mudar totalmente

o sistema econômico mediante a racionalização dos processos de

produção e de trabalho, a eliminação do lucro, o crescimento sustentado das riquezas e a chamada satisfação crescente das ne-

cessidades. Propõe-se a eliminar o caráter contraditório do pro- gresso, cumprir o sentido da história, concluir a obra da civilização

e

o ideal da modernidade. Seu material cultural prévio tem sido

o

pensamento europeu, que contribuiu com a fonte de doutri-

nas cívicas por excelência do Ocidente. Este socialismo propõe

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Fernando Martínez Heredia

cumprir a promessa de modernidade, introduzindo a Justiça e a harmonia universal. Para consegui-lo, necessita de um grande desenvolvimento econômico e de grande liberdade para os tra- balhadores, a tal ponto que a economia deixe de ser medida pelo tempo de trabalho. A democracia seria realizada por este socialis- mo em um grau muito superior aos projetos anteriores mais ra- dicais. Liberdades individuais completas, garantidas, instituições intermediárias, (entre o produtor e o consumidor), controle ci- dadão (sic), extinção progressiva dos poderes. Em uma palavra, toda a democracia e toda a proposta comunista de uma associa- ção de produtores livres. Seu pressuposto é que, racionalmente, não é possível ao capitalismo a realização daqueles fins tão eleva- dos: só o socialismo pode torná-los realidade. A outra maneira de entender o socialismo tem sido a de rea- lizar em um país a libertação nacional e social, criando um novo poder, pondo fim ao regime de exploração capitalista e sua pro- priedade, eliminando a opressão, acabando com a miséria e pro- movendo uma grande redistribuição das riquezas e da Justiça. Tem na base de suas práticas outros pontos de partida. Suas ma- ravilhosas conquistas são o respeito à integridade e à dignidade humana, a obtenção de alimentação, serviços de saúde e educa- ção, emprego e demais condições para uma qualidade de vida decente para todos, e o estabelecimento de prioridade dos direi- tos das maiorias e das premissas de igualdade efetiva das pessoas de diferentes posições social, de raça ou de gênero. Propõe ga- rantir sua ordem social e um desenvolvimento econômico mediante o poder e a organização revolucionária a serviço da causa, da honestidade administrativa, da centralização dos re- cursos e sua destinação aos fins econômicos e sociais seleciona- dos ou urgentes; da conquista de relações econômicas internacionais menos injustas e dos planos de desenvolvimento.

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Este socialismo deve percorrer um penoso e longo caminho para garantir a satisfação das necessidades básicas, promover enérgica

resistência a seus inimigos e combater suas debilidades; criar ins- tituições democráticas e um Estado de direito e desenvolver uma nova cultura, diferente e oposta à do capitalismo. No âmbito do primeiro socialismo, é privilegiado o significa- do burguês do Estado, da Nação e do nacionalismo, que são vistos como instituições da dominação e da manipulação. No âmbito do segundo socialismo, a libertação nacional e a plena soberania têm um peso crucial, porque a ação e o pensamento socialistas deverão exterminar o binômio dominante estrangeiro- nativo e combinar com êxito o desejo de justiça social com o de liberdade e de autodeterminação, frente ao domínio exercido pelas metrópoles coloniais e neocoloniais. As profundas diferenças existentes neste terreno – entre o socialismo realizado em regiões do mundo desenvolvido e o produzido no mundo que foi subju- gado pela expansão mundial do capitalismo – têm conduzido a grandes desacertos teóricos e políticos e a graves desencontros práticos.

A exploração do trabalho assalariado e a missão do proletariado

têm um lugar prioritário na ideologia do primeiro socialismo; nas práticas do segundo, o ponto central são as reivindicações de todos os oprimidos, explorados ou humilhados. A profunda mudança nas vidas das maiorias não pode esperar, qualquer que seja o critério que se tenha sobre os procedimentos utilizados ou os debates que, com toda razão, se produzam acerca dos riscos

implicados, porque a força deste tipo de revolução socialista não está em uma racionalidade que se cumpre, mas sim em potenciais humanos que afloram.

A liberdade social – e sublinho social – é priorizada neste se-

gundo tipo de socialismo como uma conquista obtida pelos pró-

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prios participantes, mais que as liberdades individuais e os recur- sos conseguidos de um Estado de direito; é uma liberdade que se goza ou que faz exigências a seu próprio poder nos planos sociais, e é aquela que gera mais autovalorizações e expectativas cidadãs. A legitimidade do poder está ligada a sua origem revolucionária, ao pacto social que está na base da política e à capacidade que esse poder tem de representar o espírito libertário que se deixou enqua- drar por ele, de manter o rumo e de defender o projeto. O segundo tipo de socialismo não pode desprezar o esforço civilizatório como um objetivo inferior ao socialismo. Deve pro-

porcionar roupa, sapatos, emprego, atendimento à saúde e instru- ção a todos; mas, a seguir, todos querem ler jornais e até livros; e, quando ficam sabendo que existe a Internet, querem navegar nela.

O auge das expectativas de qualquer pessoa no mundo atual pode

ser imenso. E este socialismo dos pobres revela então o que a pri- meira vista pareceria um paradoxo: o socialismo que está a seu alcance e o projeto que pretende realizar está obrigado a ir muito além do que o cumprimento dos ideais da razão e da modernidade; deve compreender que seu caminho é negar que a nova sociedade seja resultado da evolução do capitalismo e negar a ilusão de que basta a expropriação dos instrumentos do capitalismo e será possí-

vel construir uma sociedade que o “supere”. Ou seja, este socialis- mo se vê obrigado a trabalhar pela criação de uma nova concepção

da vida e do mundo, ao mesmo tempo que se põe em prática.

E então aparece também outra questão principal. Do mesmo modo que todas as revoluções anticapitalistas triunfantes não acon-

teceram em países com maior desenvolvimento econômico – dei- xando de cumprir, portanto, o dogma que postula o contrário – e no último meio século todas essas revoluções aconteceram no chamado Terceiro Mundo, o socialismo factível e desejável não depende da evolução progressiva do crescimento das forças produtivas, nem da

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antiga exigência de “correspondência entre as forças produtivas e as relações de produção”, mas sim de uma mudança radical de perspec- tiva social e econômica e de uma conjunção de forças sociais e polí- ticas unificadas por um projeto de libertação humana. Nessa perspectiva é preciso qualificar – e avaliar de maneira apropriada – os fatores necessários para empreender e fazer avan- çar a transição socialista. Dou exemplos. Destruir os limites do possível torna-se um fator fundamental, e que a confiança de não existirem limites para a ação transformadora se torne um fenôme- no de massa. Dentro do possível modernizações são alcançadas, mas a transição constituída por elas só produz, ao final, moderni- zações da dominação e novas integrações ao capitalismo mundial. A educação tampouco pode estar em nível com a economia: deve ser, precisamente, muito superior a ela e muito criativa. Esta edu- cação socialista não se propõe formar indivíduos para submeter-se à dominação e interiorizar seus valores; ao contrário, deve ser um território antiautoritário e, ao mesmo tempo, um veículo para as- sumir capacidades e conscientização, uma educação obrigada a ser superior às condições de reprodução da sociedade, porque deve ser criadora de novas forças para a libertação. Diante da falta de tempo, reúno perguntas sobre questões cruciais: o desenvolvimento econômico é um pressuposto do socialismo, ou o socialismo é um pressuposto do que até agora temos chamado de desenvolvimento econômico? Que objetivos pode e deve ter realmente a “economia” dos regimes de transição socialista? Que crítica socialista do desenvolvimento econômico é necessária neste século 21? Outro campo de perguntas: Através do aperfeiçoamento da democracia marcha-se em direção ao so- cialismo, ou através do crescimento do socialismo marcha-se ao aprofundamento da democracia? Como passar da ditadura revo- lucionária, que abre caminhos para a libertação humana, para

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Fernando Martínez Heredia

formas cada vez mais democráticas que, com seus novos conteú- dos e procedimentos, assegurem a preservação, a continuidade e

o aprofundamento daqueles caminhos? Como conseguir e asse-

gurar que a transição socialista inclua sucessivas revoluções na

revolução?

O balanço crítico das experiências socialistas que existiram e existem é um exercício indispensável em toda atividade de for- mação sobre o socialismo. Nunca o esqueço, mas não me toca

fazê-lo em minha intervenção. Limito-me então a reiterar – de passagem – que os principais inimigos internos das experiências fracassadas de transição socialista foram a incapacidade de for- mar gradualmente campos culturais próprios, diferentes e opos- tos à cultura do capitalismo, e a recaída progressiva dessas experiências nos modos capitalistas de reprodução da vida social

e da dominação. E, do mesmo modo, reiterar que, apesar de

tudo, as lutas anticapitalistas e de libertação do século 20, e a acumulação cultural que essas lutas produziram, são os fatos mais transcendentes do século que terminou. Enquanto o capitalis- mo, cada vez mais centralizado e excludente, produziu mons- tros, sufocou ideais em um mar de sangue e de lama e perdeu sua

capacidade de promessa, tão atrativa. Por isso é que hoje o capi- talismo esforça-se para consumar o escamoteio de cada ideal e de cada transcendência e de reduzir os tempos apenas ao presente, sem passado nem futuro, para nos impedir de recuperar a me- mória e formular novos projetos, essas duas armas nossas, tão poderosas.

A experiência cubana

Os estudos e os debates sobre a experiência da revolução so- cialista de libertação nacional cubana podem ser muito valiosos para os objetivos de formação que se tem aqui. Cuba é um pe-

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queno país latino-americano com uma história muito rica. Pas- sou pela colonização, por integrações sucessivas ao capitalismo mundial, por lutas tremendas por sua libertação, o que criou o Estado nacional e uma consciência política nacionalista muito forte e de caráter popular, uma precoce e completa subordinação neocolonial aos Estados Unidos, grandes e muito ativos movi- mentos operários e sociais, difusão de idéias de justiça social e socialistas, uma grande insurreição popular e uma história de mais de 40 anos de poder revolucionário de transição socialista, que tem tido relações com praticamente com todos os movi- mentos e eventos significativos dessas últimas décadas. Serei bas- tante seletivo em minha exposição, por razão de tempo, chamando mais a atenção sobre traços principais do que sobre fatos e dados. Na origem, houve um processo muito intenso desde a insur- reição nacional até a liquidação de toda ordem interna e de sujei- ção neocolonial vigentes, mediante um novo poder popular e mobilizações praticamente permanentes de massas cada vez maio- res, que mudavam as relações e as instituições sociais, ao mesmo tempo que mudavam a si mesmas. O tempo se condensou e as idéias, a confiança e os sentimentos a respeito da vida cívica e de grande parte da vida cotidiana foram transformadas; o povo se apoderou de seu próprio país, aprendeu a viver nele de outra maneira e adminsitrar seu funcionamento. Para sobreviver, se- guir em frente e continuar produzindo mudanças foi necessário um novo poder muito forte, que partiu de princípios diferentes, atuou com grande decisão e criatividade, levantou um novo sis- tema de instituições e relações sociais e políticas, e recebeu uma credibilidade ilimitada. Os limites do possível retrocederam – e algumas vezes se romperam – os que dominavam foram expro- priados e a propriedade privada foi dessacralizada; marcharam

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juntos longamente o espírito libertário e o poder revolucionário; todas as oposições, ataques, resistências às mudanças e as míni-

mas insuficiências foram vencidos, em jornadas e anos maravi- lhosos e traumáticos. É difícil exagerar o alcance que teve a grande revolução, e é impossível entender a Cuba atual sem levar em conta todo esse processo. Não me deterei nas décadas em que o país multiplicou suas forças, agora de maneira sistemática, e em que a transição socia- lista encontrou os limites de suas possibilidades. Os esforços su- premos, os trabalhos diários, os acertos e as conquistas, os erros,

a sistemática agressão imperialista, os obstáculos, as vinganças

da geopolítica, o internacionalismo, os desvios de rumo e as de- formações filhas do próprio processo, as más influências, a mag- nífica resistência antiimperialista sem concessões – e outros temas

– tornariam interminável a mais sucinta análise e debate de uma

experiência latino-americana que, no entanto, é preciso conhe- cer. Faço somente breves comentários sobre a Cuba atual * . A existência de Cuba socialista é escandalosa, porque nega uma exigência básica da ideologia dominante no mundo atual: que é necessário resignar-se ao domínio do capitalismo sobre a existên-

cia cotidiana, a organização social e a vida dos países em todo o mundo. O país sofreu, pela segunda vez, um corte brusco e súbito de suas relações econômicas principais, apenas 30 anos depois que os Estados Unidos provocaram o primeiro – corte que causou uma crise econômica profundíssima e uma grande deterioração da qua- lidade da vida – e outra vez conseguiu sobreviver. Cuba não se

* Os parágrafos que seguem sobre Cuba foram tirados, com pequenas reduções, do capí- tulo IV do ensaio de minha autoria “A alternativa cubana”, publicado três semanas após a realização deste II Fórum Social Mundial, in “HEREDIA, F. Martinez. El corrimiento hacia el rojo. Editorial Letras Cubanas, La Habana.”

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somou à sucessão das “quedas do socialismo”, apesar dos agravan- tes causados pelo fim de uma ampla e longa bipolaridade, e de um

formidável desprestígio mundial do socialismo. Empregou esfor- ços gigantescos e sistemáticos ao longo dos anos 90 para que sua sobrevivência se transformasse na viabilidade de seu regime; hoje, todos reconhecem que o objetivo foi alcançado. A Cuba atual é um complexo composto por sua acumulação social revolucioná- ria, pelos elementos da crise dos anos 90 e por suas transformações

e permanências em curso. A continuidade de seu tipo socialista de

organização social é o dominante em suas expressões políticas e no

balanço que pode ser feito de sua sociedade. Cuba demonstrou ser uma alternativa viável ao não aplicar,

em suas crises, as políticas econômicas exigidas no mundo atual,

e foi em frente sem prejudicar a vida das maiorias, ao contrário

do que se tornou usual. Seu Estado continuou sendo muito forte

e intervencionista, em alto grau, na economia, ao contrário do

que se exige. Desde 1995 até hoje, sua economia vem se recupe- rando em ritmo gradual, mas constante, e ganha em eficiência apesar das enormes mudanças que precisou implementar. * Uma

* A evolução do Produto Interno Bruto real (para 1993 = 100) foi estimada pelo Instituto Nacional de Estatística de Cuba em: 1995 = 103,2; 1996 = 111,2; 1998 = 115,6; 1999 = 122,8; 2000 = 130,2 (La Habana, 2000). A previsão foi superada pelo crescimento real de 2000 em 5,6%; a produtividade do trabalho cresceu 4,6% (Informes de Osvaldo Martinez, Presidente da Comissão de Assuntos Econômicos, e de José Luís Rodrígues, Ministro da Economia e Planejamento, à Assembléia Nacional do Poder Popular. Granma. La Habana. 22-12-2000, p. 4, e 23-12-2000, p. 4). Contudo, Rodríguez esclarece que, com isso, foi possível chegar a apenas 85% do PIB de 1989, ainda que com “uma econo- mia mais eficiente, assegurando um desenvolvimento qualitativamente superior”. Em “Desconexão, reinserção e socialismo em Cuba” (1992), questiona o valor das compara- ções diretas dos dados econômicos de Cuba 1974-1991 com os dados de anos anteriores e seguintes (in Em el horno de los 90, Edit. Barbarroja, Buenos Aires, 1998, p. 85). Os investimentos internos em 2000 (3 100 milhões de dólares) (sic) foram mais do que o dobro dos investimentos em 1995 e 16% superiores aos de 1999. Efetivamente, os inves- timentos cresceram 5.8%.

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primeira razão básica desse êxito é que Cuba utiliza com eficá- cia suas próprias forças. Sua população tem níveis gerais e capa- cidades úteis que, em muitos aspectos, são realmente notáveis

e estão bem consolidados; a economia possui apreciáveis níveis

de reprodução, controle, diversificação e outros traços positi- vos; a infra-estrutura tem desenvolvimento; o sistema de servi- ços sociais está entre os mais avançados do mundo, e tem resistido bem à deterioração produzida pela crise; a paz social e

política favorecem em muito a atividade econômica; o Estado

e as estruturas de poder em geral se mostram capazes na reali-

zação de suas tarefas. Torna-se extraordinária a combinação de capacidade na ati- vidade econômica, flexibilidade e exercício de controles severos, que pode se observar mencionando apenas alguns assuntos da última década. O turismo, que quase não existia, contribuiu em 1998 com 50% do total da receita nas exportações de bens e serviços e já é um setor consolidado e dinâmico. A economia açucareira decresceu a partir de 1993, mas não entrou em colap- so, nem pôs fim a sua enorme massa de trabalhadores; recupe- rou-se até quatro milhões de TM em 2000, é cada vez mais eficiente e busca sua diversificação. O níquel multiplicou sua importância e registra uma sólida expansão produtiva (72 000 TM em 2000) e comercial (vende para mais de trinta países), alta eficiência, proveitosa associação com o capital estrangeiro e renovação tecnológica. O setor energético é um caso exemplar: o holding estatal Cubapetróleo aproveitou o enorme conhecimen-

to acumulado e, em plena crise, continuou a expansão produtiva

e estabeleceu empresas mistas com companhias de vários países;

passou de 0,8 milhões de TM em 1991 para 3,3 em 2000, e agora aproveita o gás associado ao petróleo. Cerca de 70% da eletricidade é produzida com petróleo nacional; em 2001 há pre-

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visão para alcançar 90%, e uma produção de quatro milhões de TM de petróleo e gás.

Junto a uma reorientação radical do comércio exterior, fo- ram realizadas inumeráveis gestões e negócios no setor externo. Internamente, o país, com o maior percentual de terra estatal do mundo, entregou, em usufruto gratuito, a maior parte das gran- jas estatais a seus coletivos de trabalhadores, com seus equipa- mentos e rebanhos (1993); uma distribuição singular que transformou em cooperativistas um grande número de trabalha- dores. Estabeleceu-se a circulação legal do dólar junto ao peso cubano (1993), medida ousada para um regime rigorosamente antiimperialista, que franquiou uma grande captação de divisas pelas remessas feitas por emigrantes a seus familiares em Cuba e uma rede comercial estatal; o peso está cotado a 27 por dólar. Um país com 94,4% de emprego estatal, em 1988 abriu espaço legal ao trabalho por conta própria, que mantém certa amplitu- de, embora dentro de normas restritivas. Apesar de todos os elementos positivos mencionados, Cuba não pôde evitar de se deparar com uma situação muito difícil,

a partir dos limites de seu desenvolvimento e do duplo efeito

da aguda crise por que passou nos anos 90 e do agravamento da situação da maioria dos países em relação ao altíssimo grau de centralização do sistema capitalista mundial e da natureza

de sua forma dominante transnacional e parasitária atual. Cuba

é muito vulnerável em suas relações econômicas internacio-

nais, pelos intercâmbios desiguais e pelo escasso controle das

condições em que se realizam, o que eterniza seu crônico desequilíbrio comercial, pela vulnerabilidade frente ao movi- mento das finanças e seu alto endividamento externo. As fon- tes de financiamento externo, ou estão vedadas, ou se tornam muito difíceis e onerosas. Se o País não naufraga nessa situa-

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ção tão adversa é precisamente pelas forças que retira de seu regime social. Por outro lado, o crescimento das desigualdades sociais tem sido uma conseqüência da situação e das medidas adotadas, o que é grave, pois afeta a essência igualitária quanto à redistribuição de riqueza e oportunidades do sistema de transi- ção socialista cubano. A desigualdade principal é pela renda e pelo acesso ao consumo. É mais desgastante porque está associa- da à dupla moeda; os dólares não são obtidos pela realização de trabalhos mais complexos ou por atitudes individuais credoras de maior reconhecimento pela sociedade. Obtém-se, sobretu- do, de atividades relacionadas com a economia mista, com o turismo, com algo aleatório como receber remessas, e com uma ampla gama de atos que vão, desde o oferecimento privado de serviços e produtos, até o enriquecimento de intermediários e negócios ilegais, nas duas moedas. Os preços informais em moeda cubana são demasiadamente altos para a renda pessoal e familiar da maioria. A corrupção – esse demônio da falsa moral pública atual do capitalismo – devia ser analisada em suas fun- ções sociais em cada caso concreto. Na Cuba atual tem um papel silencioso. Nessa nova situação se integram grupos privilegiados e, em seu entorno, vão se formando constelações sociais. O certo é que ainda são de procedência realmente variada e carecem de toda legitimidade que acompanhe sua capacidade aquisitiva, mas a cultura política nacional é suficientemente sólida para que se deduza que esses grupos poderiam chegar a ser mais privilegia- dos, integrar-se mais e desenvolver auto-identificações e proje- tos. Um efeito extremamente prejudicial desta realidade social é o sério desgaste das motivações e dos valores socialistas, gerando um sutil desarmamento ideológico cotidiano, alheio à violência

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e às decisões dos enfrentamentos políticos, mas, a longo prazo, mais perigosos que estes para a vigência do socialismo.

A cultura socialista é vigorosamente sustentada pela política social do regime. A realocação de recursos através do orçamento central do Estado é um mecanismo que redistribui a renda em favor dos serviços, setores estatais e de interesse da sociedade e mantém a confiança no objetivo das medidas econômicas. Ofe- reço alguns dados de ano 2000. O desemprego tem sido evitado

e combatido; de 8,1% da PEA em 1995 caiu até 5,5%. A renda

média do trabalhador foi de 359 pesos, alta vinculada ao aumen- to do salário médio (7,3%) e a estímulos variados que entre um terço e mais da metade do total dos assalariados recebem: paga- mento por produção, em divisas, alimentos, roupa e sapatos, outros artigos. O Estado subsidiou produtos regulamentados ao consumidor em 755 milhões de pesos e está aumentado, de al- guma forma, sua oferta de alimentos nos mercados “liberados”,

a preços mais baixos que o setor privado. A alimentação total per

capita foi estimada em 2.585 quilocalorias e 68 gramas de proteí- nas. Houve aumento em diversos serviços e se enfrenta a grande deterioração sofrida pela infra-estrutura. Mesmo assim, os infor-

mes oficiais qualificam como discreto o avanço nas condições de vida da população. A seguridade social atendeu a 1,4 milhão de pessoas (12% da população); são atendidos de maneira diferen- ciada aqueles com baixos rendimentos e outros menos favoreci- dos, através da assistência social. O montante e a proporção a respeito do total nos gastos públicos correspondentes à saúde, educação e seguridade social vêm crescendo durante toda a década anterior até hoje. *

* A situação social de Cuba continua sendo excepcional na América Latina, segundo dados de organismos internacionais, como pode ser visto em dois informes recentes: o do Laboratório Latino-Americano de Avaliação da Qualidade da Educação aos Ministros da

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A cultura política dos cubanos é decisiva. Aponto apenas dois

traços seus, embora muito relevantes. O primeiro, a atitude frente

aos objetivos do trabalho e da relação indireta entre seus resultados

e as retribuições, que caracterizam a transição socialista – tão dife-

rentes ao que é normal no capitalismo – continua se manifestando na abnegação com que enormes massas de trabalhadores e técni- cos deram e dão continuidade à produção e aos serviços, em novas condições nas quais a finalidade do trabalho e as retribuições socia-

listas são debilitadas e obscurecidas, reforçando-se a retribuição direta e o egoísmo. O segundo, a peculiar relação com o consumo criada pela revolução, que faz parte da cultura cubana contempo- rânea, tem resistido à tremenda ofensiva de uma década de mu- danças e influências que, em grande medida, favorecem modificações das necessidades e dos desejos, assim como também

a adoção de representações e relações capitalistas. Apesar da deterio- ração registrada, aquela relação com o consumo continua sendo um valor socialista, e um fator decisivo para a estratégia e para o desempenho econômicos do País, desde o ângulo do apoio ou da rejeição da população, quando, em um caso como o cubano, a disposição favorável da maioria é indispensável.

A acumulação revolucionário prévia foi decisiva nos anos de

crise aguda e conserva um papel principal apesar das modifica- ções da situação. O fenômeno político de massa, fundamental dos anos 90, foi o predomínio da coesão, da disciplina e da ativi- dade social em apoio da maneira de viver que fora construída nas três décadas anteriores, o que se expressa, não somente nas

Educação dos países da América Latina na VII Reunião Intergovernamental do PROMEDLAC; Cuba ocupa o 1 o lugar na região, com índices duas vezes superiores à média regional (Cochabamba, março de 2001); outro, de risco de saúde sexual e reprodutiva: Cuba tem a menor taxa da região (Population Action International: Investi- gação em 133 países).

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instituições e na legislação, mas também na consciência social, nos costumes, nas representações que se estendem aos diversos espaços públicos e privados. Esse comportamento social majori- tário tem sido a chave da política do período. Entendo que sua motivação fundamental em escala mais geral da sociedade se apóia em três pontos: a) a unidade entre os cubanos é vital para enfren- tar todas as questões cruciais que vêm se apresentando desde fi- nais do anos 80; b) o regime político vigente dedica-se a manter ativamente a maneira de viver que a revolução e a transição socia- lista construíram, defende eficazmente a soberania nacional e controla a economia nacional; c) um retorno ao capitalismo em Cuba significaria para a maioria dos cubanos, um desastre, em perda de direitos sociais e de qualidade de vida, em exploração do trabalho, pobreza e humilhações e em soberania popular. A atuação social consciente tem dado ao sistema um elevado grau de autonomia política. O poder político tem utilizado essa autonomia para conduzir o País pelas situações de todos esses anos, mantendo sob seu estrito controle variáveis fundamentais, que são o setor econômico estatal majoritário, que inclui os ban- cos, as comunicações e o comércio exterior – um bloco ainda maior, se somarmos as cooperativas rurais criadas em 1993 – e as economias mista e privada, sujeitas a um controle muito amplo; uma enorme capacidade negociadora exterior, a exemplar políti- ca social; o sistema político, os meios de comunicação, a educa- ção e outros campos da produção espiritual. O desgaste do discurso político já era percebível desde antes de 1989, e os anos mais críticos sem dúvida deterioraram em certa medida a credibilidade e a aceitação do regime. Contudo, este nunca se deslegitimou, e a firmeza e a eficiência de sua atuação lhe permi- tiram recuperar terreno. A administração pública e a manuten- ção da ordem se baseiam no consenso e não na repressão. O

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mesmo poder político que garante todas as mudanças e as medi- das tão diversas da transição atual é claramente percebido como defensor do socialismo e da soberania. Hoje, é o eixo da situação cubana e, por sua vez, depositário das esperanças da maioria. A formação social cubana atual é de transição em dois senti- dos: a) é de transição socialista, porque reproduz as condições econômicas e políticas que dão continuidade a este regime e esta é a base da forma de governo; b) está em um processo de reinserção limitada no sistema de economia mundial controlado pelo capi- talismo, de tal modo que até agora administra todas as suas variá- veis favoráveis para manter o controle, tomar decisões e alocar recursos; ou seja, para continuar sendo de transição socialista em vez de realizar uma integração progressiva ao capitalismo mun- dial. Seus principais trunfos são seu tipo de relação entre poder econômico e poder político, e o consenso majoritário com que conta. Uma e outra – embora com diferenças entre si – baseiam sua legitimidade na revolução realizada e no regime de transição socialista, e não na reinserção em curso. Isso proporciona enor- me firmeza ao regime vigente. Mas, para um futuro não deter- minado, constitui uma séria interrogação se se poderá ou não evitar: a) a contaminação de atores ou beneficiários das relações econômicas não socialistas e suas constelações sociais dentro do desejo de participar na forma capitalista de vida que vêem ou imaginam, e que essa influência se estenda a outras camadas da sociedade; b) que a transição socialista vá perdendo lentamente seu caráter dominante frente à atração das relações de tipo capi- talista, tanto econômicas quanto todo seu complexo cultural, e o regime seja permeado e ganho para a integração ao capitalismo mundial, com suas especificidades nacionais. Se este é o problema principal, então as tensões e batalhas fundamentais não se dão, hoje, nos terrenos da economia ou da

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política, mas, sim, no terreno ideológico, ou, mais exatamente, em um terreno cultural em que as ideologias estão incluídas. É ób- vio que, nesta luta, as influências externas cumprem papéis mui- to maiores do lado capitalista que do lado socialista, o qual tem conseqüências muito diversas. De maneira muito particular, Cuba também participa na atual guerra cultural mundial. A reabsorção de Cuba pelo capitalismo exigiria atos de von- tade para os quais não existem hoje legitimidade alguma, nem conjuntura favorável nem forças sociais dispostas e suficientes. Este fato, e o alto grau de controle efetivo que possui, dão ao regime cubano todo um período a seu favor. É preciso aproveitá- lo, agindo acertadamente. Volta a ser decisiva a atuação qualifi- cada para fazer que uma tendência e não a outra seja triunfante. Esta atuação não pode se limitar a repetir o que, em outros tem- pos, foi eficaz, porque o meio e as variáveis que incidem atual- mente são diferentes: tem de ser uma atuação criativa e original. A transição socialista está obrigada a se basear na intencionalidade da construção social e no uso cada vez mais e melhor planejado dos meios e das idéias com que conta; e basear-se na participação democrática cada vez maior da população, porque ela é a força fundamental do regime e sua motivação e sua eficiência depen- dem dos elementos envolvidos numa construção social tão radi- calmente nova e diferente. O cubano tem percorrido todo o caminho “moderno” da individualização e tem aprendido a criar e a ampliar vínculos de solidariedade para enfrentar e superar a modernidade mercantil capitalista. Se a extraordinária cultura política dos cubanos se mobiliza e exerce seu discernimento e sua ação frente aos problemas e perigos reais de hoje, se suas idéias, opiniões, iniciativas e esforços forem utilizados, essa cul- tura será decisiva para o aperfeiçoamento das pessoas e das insti- tuições no sentido socialista.

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O apolitismo e o pensamento e os sentimentos conservado- res têm registrado avanços em Cuba nesses últimos anos. Mas

não têm se generalizado; estamos em meio a uma intensa bata- lha de valores. É necessário derrotar as crenças sobre as relações

e representações capitalistas como algo dado, de origem exter-

na, que é inevitável aceitar. E impedir que se converta em algo “natural” para os cubanos a existência de desigualdades sociais

e hierarquias devido ao poder do dinheiro. Está se desfazendo

também a questão crucial do vínculo entre o cubano e o socia- lismo, que estiveram unidos na identidade nacional durante décadas. Identidade e nacionalismo integraram, em seu núcleo,

a justiça social, o que os enriqueceu decisivamente e significou uma contribuição muito valiosa de Cuba ao pensamento e às lutas pela libertação no chamado Terceiro Mundo. As reela-

borações do problema devem constituir um aspecto central da cultura cubana atual. Cuba descobre o vigor e a complexidade de suas diversidades sociais – antigas ou emergentes – com sentimentos diferencia- dos; é compreensível porque a revolução destruiu os sentidos da sujeição da sociedade ao poder da república burguesa neocolonial, mudou a vida social e construiu seu próprio sistema de relações

e instituições sociedade-poder e sociedade-Estado. A crise dos

anos 90 e as desigualdades sociais recentes têm muito a ver com tudo isto, mas seria absurdo reduzir a questão a elas, ou acreditar que uma diversidade social ativa expressa a debilidade do Esta- do. Este erro participa da desastrosa confusão entre o Estado e o

socialismo, que tanto dano causou às experiências do século 20. A diversidade social em movimento é uma grande riqueza do país e um potencial de renovação de todos os aspectos da vida social, que pode fortalecer muito o socialismo, se seus ideais, atividades e organizações sentirem que o socialismo é seu condu-

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tor, e se os órgãos e a cultura socialista forem capazes de hege- monizá-la. Cuba socialista é uma alternativa latino-americana ao capita- lismo, alternativa que existe e que mostra, com suas conquistas e suas realidades, que é possível viver de outra maneira, mais hu- mana, e que os países podem ser outra coisa além de lugares de contradições inaceitáveis, frustrações e iniqüidades. Cuba man- tém o sistema social e a estratégia que lhe permitem conservar sua maneira de viver, sua soberania nacional e sua autonomia no mundo atual. Os obstáculos e tarefas que tem diante de si não podem ser enfrentados por um país capitalista dependente, seja pequeno ou grande . Porém não lhe bastará persistir. Frente às opções e aos problemas de hoje e os que virão, acertará se avan- çar no caminho do socialismo, em vez de retroceder. Entre esses avanços estarão a multiplicação dos participantes sistemáticos no controle e nas decisões sobre a economia, a política e a repro- dução das idéias e na elaboração de um projeto socialista mais avançado, integrador e complexo, mais capaz e participativo do que os que têm existido. Estará na continuação da estratégia eco- nômica a base da premissa de que seu primeiro objetivo é o bem- estar da população, do aproveitamento racional dos recursos e de conseguir aumentos de eficiência, mas também de autono- mia em sua inserção internacional. Estará colocar em primeiro plano a batalha pelo predomínio dos vínculos de solidariedade sobre o egoísmo e o individualismo, e fazer que as liberdades e o interesse social se complementem.

Um comentário final

Desculpem-me pela extensão da exposição de alguns aspec- tos da experiência cubana. Pareceu-me conveniente fazê-lo por duas razões. Cuba é um caso exemplar para ilustrar o desenvolvi-

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Fernando Martínez Heredia

mento do segundo tipo de socialismo, influenciado e em muito íntimas relações e contradições com o primeiro; e a vigência de seu regime e da luta por seu projeto nos permitem, por sua vez, confiar que nossos sonhos são viáveis e dispor de uma realidade para estudar os traços, conflitos e possibilidades de nossos empe- nhos socialistas. Além disso, por ser cubano, parece-me um de- ver internacionalista dar informações honestas sobre Cuba socialista, um laboratório social que também é de todos vocês. Não se pode ser socialista sem ser internacionalista. Na atual situação, seria sumamente prejudicial tentar obrigar aqueles que lutam conseqüentemente pelo socialismo a escolher entre man- ter sua autonomia e dos interesses e ideais de sua luta, ou subme- ter-se a relações que exigem o comprometimento com outros objetivos que não sejam os da libertação humana. Temos de ela- borar, antes de mais nada, estratégias para coordenações interna- cionais flexíveis que, por sua vez, constituam exemplos e avanços daquilo que buscamos. Temos toda razão quando dizemos que o socialismo não pode esperar que se consolide um poder para es- tabelecer novas regras nas relações humanas e na convivência democrática. Os cubanos – como todos aqueles que têm pratica- do realmente o internacionalismo – sabemos que quem mais contribui em uma relação internacionalista é quem acaba mais beneficiado por ela, porque se desenvolve humanamente, por- que amplia mais sua capacidade de ser superior à reprodução egoísta das relações e do mundo existente, e ajuda a criar um campo prático de relações novas, contra o sentido comum, que é sempre burguês, e contra a reprodução do capitalismo dentro de cada um de nós, que é a mais poderosa e sutil forma da existência do capitalismo. Outro mundo é possível. A luta pelo socialismo é o caminho imprescindível para conquistar este outro mundo.

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III - AS RELAÇÕES DE PROPRIEDADE E AS RELAÇÕES SOCIAIS DE PRODUÇÃO NA LUTA PELO SOCIALISMO

François Chesnais

Companheiros e companheiras, é com muita emoção que faço uso da palavra neste grande auditório. É com muita emoção que venho aqui como convidado da Via Campesina e do MST, no contexto de duríssimos combates pela terra, cujos objetivos entendo e com os quais compartilho totalmente. Antes de entrar no tema, vou dedicar minha intervenção aos estudantes da Plaza de Tiananmen. Eles foram e são nossos irmãos e irmãs e não podemos conversar sobre o socialismo – e temos a participação nesta mesa de um representante da China – sem recordar que não pode haver socialismo sem respeito absoluto às liberdades de expressão política e de organização. Para nós, reunidos hoje nesta sala, neste ciclo de seminários, nos foi dada a tarefa de restabelecer o projeto do socialismo ou comunismo (para mim, ambos são sinônimos) em sua dimensão mais fundamental: como projeto de emancipação humana cole- tiva e individual, tanto social quanto de cada homem e mulher enquanto indivíduo, mas temos de fazê-lo com base nos proces- sos econômicos e políticos e das lutas sociais que estão se dando e se produzindo hoje em dia.

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François Chesnais

Dar forma teórica e respostas políticas a processos econômi- cos e políticos concretos Companheiros, companheiras, no Manifesto Comunista, Marx e Engels afirmam que as posições dos comunistas não são outra coisa – e eu diria que não podem e não devem ser outra coisa – que a expressão geral das condições reais e efetivas da luta de classes existente em um momento histórico dado, de um movimento que se descortina diante de nossos olhos. É neste marco que eu vou colocar algumas questões. Hoje, nossa tarefa é propor este projeto de emancipação humana coletiva e individual dentro do movimento multiforme chamado “antiglobalização”, que busca os caminhos de sua coor- denação no combate contra o capitalismo globalizado. Este movimento ainda tem de alcançar plena consciência de si mes- mo e, neste sentido, nossa tarefa é ajudá-lo a encontrar uma saída verdadeira, um caminho para a superação do capitalismo e para a destruição de seus aparelhos de dominação. Os ho- mens e as mulheres dominados e explorados buscam novamente um meio de tomar, em suas mãos, o combate para sua emanci- pação. Ninguém pode fazer isso por eles. O princípio funda- mental estabelecido por Marx e Engels no Manifesto afirma que a emancipação da classe trabalhadora só pode ser obra da própria classe trabalhadora. Este princípio vale igualmente para este novo movimento social e político contra a globalização capitalista e imperialista, este novo movimento em direção de um internacionalismo atuante. A única coisa que nós, comunistas, podemos fazer é estabele- cer, em cada etapa da luta, tanto imediata quanto a longo prazo, as prioridades da ação e as opções para as formas de luta. Quais devem ser, no âmbito internacional atual e dentro des- ta perspectiva internacionalista – sobre a qual o companheiro

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cubano insistiu tão justamente – as prioridades de nosso movi- mento? Em primeiro lugar, minha opinião é que, hoje em dia, a prio- ridade entre as prioridades é a de defender o processo revolucio- nário incipiente na Argentina, contra as ameaças externas já declaradas e as ameaças internas que se darão mais adiante. Em segundo lugar, e relacionado com o anterior, temos de estar prontos para atuar contra qualquer intervenção na Colôm- bia, Venezuela e Cuba. Temos de levar a sério as ameaças de George Bush, entender que, para este senhor e seu governo, nós somos terroristas, na medida em que questionamos a ordem ca- pitalista e imperialista e lutamos contra isso. Portanto, devemos compreender que a terceira grande prioridade é nos dirigir à ju- ventude, à classe trabalhadora e aos organismos antiglobalização nos Estados Unidos para trazê-los para o nosso lado. Não pode- mos deixar de combater esperando que as forças que se reuniram em Seattle voltem a se reunir outra vez para lutar contra os pla- nos de George Bush na América Latina e no Caribe. No final dos anos 50 e 60, a revolução cubana soube buscar um forte apoio na juventude e na intelectualidade norte-americanas. O povo do Vietnam também soube fazê-lo. Isto deve se repetir, e se torna vital, já que o militarismo imperialista só pode ser detido desta maneira.

Socialismo e liberdades de pensamento, de expressão política e de organização

Tenho utilizado a expressão “socialismo ou comunismo” como projeto de emancipação humana coletiva e individual. Este foi o projeto de Marx, não só do “jovem Marx”, mas também do Marx da Comuna de Paris, do Marx dos comentários dos programas do Partido Social Democrata Alemão, de Marx até sua morte.

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François Chesnais

Tenho utilizado a expressão de emancipação humana coletiva e individual, mas não há neutralidade na escolha desta definição; pelo contrário, ela traz consigo uma série de conseqüências fun- damentais, tanto para o amanhã quanto para hoje. Para o amanhã, significa que, uma vez superado o momento inicial do isolamento político e da destruição organizativa e físi- ca dos aparelhos e estruturas de dominação capitalista e imperi- alista, bem como dos que defendem essa dominação, não pode haver socialismo sem o respeito – sem exceção – dos direitos de expressão política e cultural, de organização de reunião nos pla- nos econômico, político e cultural. Todos os passos que foram dados para restringir estes direitos – primeiro, fora do partido bolchevique contra outros partidos; de- pois, rapidamente, dentro do próprio partido – prepararam as con- dições para a ditadura stalinista e para o domínio econômico, político e social de uma burocracia, bem como para a reconstru- ção de uma sociedade de dominação social. No caso da China, minha opinião é que, como em todos os países onde a revolução foi conduzida para se estruturar de acordo com o modelo soviético stalinista, estes direitos foram negados desde o início e a Praça de Tiananmen é a expressão mais dura de tudo isto. Hoje, conhece- mos as conseqüências, sabemos o resultado final: a restauração capitalista, e este caminho não pode voltar a ser o nosso. Esta conclusão não é uma nova abstração, mas tem conseqüên- cias práticas para o momento atual. Vamos encontra-las no pla- no do reconhecimento dos movimentos sociais e das formas alternativas de luta, que têm traços que anunciam ou prefiguram as relações constitutivas do socialismo. Tem conseqüências prá- ticas também nas relações que temos de estabelecer entre mili- tantes, quanto como entre os movimentos sociais, as organizações políticas e os sindicatos. A liberdade de expressão e o respeito às

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posições dos demais é algo que temos de construir hoje mesmo e, assim como o fazemos nesta sala, temos de fazê-lo em toda a ação política.

O lugar teórico estratégico do conceito de relações de propriedade

Companheiros, companheiras, em que consiste o projeto emancipador? Ou, mais precisamente, baseado em que tipo de relações sociais este projeto pode se sustentar? A resposta que proponho é dizer que o projeto emancipador tem de se sustentar em relações de propriedade e de produção que permitam aos trabalhadores da cidade e do campo duas questões fundamen- tais: em primeiro lugar, eles mesmos determinarem e decidirem, através de mecanismos coletivos de decisão política, a destinação social e o uso dos meios de produção, comunicação e intercâm- bio acumulados socialmente ou legados pela natureza e pelo tra- balho de gerações anteriores. Em segundo lugar, no marco das decisões tomadas neste nível, organizar, de forma autônoma, o trabalho nos níveis descentralizados onde se desenvolvem as ca- pacidades de produção. O conceito de relações de propriedade, a partir de um enfoque teórico e político marxista, não se refere ao mero aspecto superficial – o que é meu, o que é teu, o que é deles – nem sequer apenas ao que determina de forma imediata o nível de vida, mas se refere às relações que determinam a destinação social, o uso e também o não uso da terra – que vocês conhecem melhor do que eu – dos recursos naturais, dos meios de produção e comunicação e da dis- tribuição dos produtos coletivos do trabalho social. Atualmente, uma das maiores contradições – cujas conseqüên- cias estão em alta na tomada de consciência do movimento “antiglobalização”, mas que á preciso ainda compreender me-

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François Chesnais

lhor – é a contradição entre o autogoverno da socialização e internacionalização dos meios de produção e comunicação e sua

apropriação privada de forma concentrada em mãos de uns pou- cos. Vivemos em uma sociedade em que a produção está alta- mente socializada. A grande maioria dos produtos industriais é o resultado de uma corporação produtiva complexa e intensa; in- clusive uma grande parte da produção agrícola também se apóia nos resultados dessa corporação do setor industrial. No entanto,

a sociedade dos produtores manuais e intelectuais hoje está sepa-

rada de qualquer influência sobre a destinação de seu trabalho. Vivemos, efetivamente, em uma sociedade em que as decisões

mais importantes tomadas a respeito da destinação social, ao uso

e ao não uso dos meios de produção e à distribuição dos resulta-

dos do trabalho socializado estão concentradas em poucas mãos,

e inclusive se encontram fora do alcance dos mecanismos políti-

cos das instituições parlamentares eleitas. Esta é a primeira di- mensão da relação tão decisiva que os trabalhadores mantêm com os meios de produção. A segunda dimensão, inseparável da primeira, diz respeito à

relação de cada coletivo de trabalho, fábrica, oficina, fazenda, com os meios de produção com os quais os trabalhadores desse coletivo de trabalho realizam seu trabalho concreto. Hoje em dia, esses meios de produção são propriedade privada de empre- sas, de grupos industriais, de latifundiários e de acionistas. O trabalho social acumulado é concebido como propriedade do capital e, portanto, como uma força alheia aos trabalhadores. A relação que os trabalhadores mantêm com os meios de produção consiste em serem explorados como assalariados do capital e é essa relação que tem de ser rompida. Hoje em dia, a relação passa pela intermediação do mercado de trabalho e pela determina-

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ção, a todo momento e de forma brutal, de os proprietários dos meios de produção decidirem descentralizar a atividade produtiva fora da fábrica, ou transferir a produção a países ou nações nos quais a taxa de lucro possa ser mais alta para eles.

Enfrentamentos com a burguesia no terreno da propriedade

Tanto as relações de propriedade quanto as relações concre- tas dos trabalhadores com seus meios de produção são centrais na obra de Marx e em muitos escritos de Engels. Sua compreen- são foi pormenorizada por muitos comentários de Marx e temos de voltar a esses conceitos. A importância teórica, frente a esses conceitos, tem conseqüências políticas muito importantes. Primeiro, para determinar a pretensão de uma sociedade pós- revolucionária de denominar-se socialista e que essa sociedade tenha um futuro como economia não capitalista. E entendo a capacidade de Cuba de resistir, porque, nesse país, ao menos há traços dessas relações diretas dos trabalhadores com seus meios de produção, e é por isso que a sociedade cubana resiste. Segundo, a importância teórica desses conceitos nos permite identificar e reconhecer reivindicações, demandas e formas de ação que desafiam a burguesia no plano das relações de proprie- dade, ou que aproximam, mesmo que seja de forma transitória, de uma nova forma de relação dos trabalhadores com seus meios de produção. É neste ponto da intervenção que devo ressaltar a importân- cia que tem para mim estar aqui presente, como convidado da Via Campesina e do MST, e, mais ainda, ressaltar a importância que, no meu entender, tem a reivindicação defendida pelo MST de negar que os proprietários tenham o direito de, através do uso inadequado e prejudicial, tornarem as terras improdutivas. Sua

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François Chesnais

ação é um desafio no plano das relações de propriedade da terra

e significa entender que as relações de propriedade dos meios de produção é uma relação determinante para combater a burgue- sia e para construir novas formas de relação social. Venho da tradição política de Rosa Luxemburgo, de Gramsci

e de Trotsky, na qual a greve geral com ocupação de fábricas, o

tipo de greves de Torino, da França de 36 e de 68, eram greves para lutar e estabelecer elementos de controle dos trabalhadores

sobre a produção. Estas são formas de luta que desafiam a bur- guesia na base do seu poder.

O capitalismo neoliberal põe a sociedade em perigo

Companheiros, companheiras, entramos em uma nova fase histórica, que exige de nossa parte a maior atenção e a maior das lutas. Entramos em uma fase histórica marcada pelo início de um processo de colapso de países e de suas estruturas econômi- cas, sociais e políticas, sob o peso da especulação promovida pelo capital financeiro internacional. Isto é algo novo. No século 20, os momentos de colapso social radical derivaram diretamente das guerras interimperialistas. No século 21, os momentos de colapso social serão o resultado da atuação do capital financeiro, das potências hegemônicas e das instituições internacionais encabeçadas pelo FMI. Na verdade, o processo começou na dé- cada de 1990, mas foi difícil caracterizá-lo com precisão por es- tar ligado, tanto às condições particulares de desintegração dos Estados multinacionais dirigidos pela burocracia stalinista, ou por seus Estados-satélite, e às condições particulares dos Estados multinacionais criados na África de forma totalmente artificial, quanto ao resultado do triplo processo de colonização, descolonização e recolonização neoliberal. O colapso da socieda- de indonésia também poderia ser interpretado em termos de uma

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combinação entre o impacto da crise financeira e fatores de luta nacional e religiosa particulares. Mas, com à Argentina, estamos enfrentando um caso de ver- dadeiro colapso das estruturas sociais, justamente em um dos países mais desenvolvidos fora do grupo dos países centrais do imperialismo. Este colapso é o resultado da integração total e completa da Argentina aos mecanismos da chamada “economia globalizada” e da adesão absoluta – sem restrições – da burguesia parasitária local e de todos os seus partidos políticos aos patrões do chamado “neoliberalismo”. Quais são os objetivos do neoliberalismo? Os objetivos per- seguidos por estas políticas têm sido a liberação, a desregula- mentação e a privatização da economia com fins deliberados por parte do capital financeiro, em todas as suas configurações – gru- pos industriais e multinacionais, bancos internacionais e fundos de investimento financeiro – que atuam para devolver a este ca- pital toda a sua liberdade, ou seja, a totalidade das prerrogativas que tinham antes da crise dos anos 30 e dos processos revolucio- nários da II Guerra Mundial. O capital deveria ser liberado, ter sua liberdade devolvida. As regras de trabalho que prejudicam as relações entre o capital e as empresas deveriam ser desregulamentadas. Deveria ser proposta a compra de todas as indústrias do Estado, ou serem nacionaliza- das. Deveria haver liberdade de ação no campo dos investimen- tos e da saúde. Os sistemas de investimento público deveriam ser desmontados para serem submetidos aos mercados financeiros. Por último, deveriam ser criados novos direitos para a proprieda- de privada, como esse novo direito à propriedade científica e às patentes. Este processo tem beneficiado o capital mais concentrado em todas as suas formas e todas as configurações do capital fi-

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nanceiro, mas tem sido feito sempre da forma mais intensa em favor e sob o domínio do setor mais “financeirizado” do capital financeiro. Os ganhadores têm sido os portadores de títulos de dívidas públicas e de empresas, o sistema acionista, os bancos internacionais e as bolsas de valores mundiais, em cujo centro estão Wall Street e NASDAQ. Na verdade, estamos vivendo, te- mos vivido e estamos combatendo no marco do capital financei- ro puro, no auge da renda como categoria econômica, política e social dominante, no auge de todos os privilégios no interior do capitalismo, de exploração sem investimento ou com investimen- to mínimo e de extração de mais-valia. O domínio da renda é o domínio da pilhagem. Estamos diante de um sistema que não se dirige à reprodução ampliada do capital, mas à pura reprodução do domínio de uma oligarquia financeira e de seus aparelhos de poder e de dominação. Isto fica totalmente claro nos discursos de Bush quando fala em nome daqueles que não têm outro objetivo senão o de man- ter e reproduzir sua dominação, qualquer que seja o custo para o mundo inteiro.

Defender o direito de autodeterminação política e social do povo argentino

Companheiros, companheiras, termino minha intervenção com algumas considerações a respeito da solidariedade que de- vemos à Argentina, diante da magnitude e da brutalidade do colapso econômico e social do povo argentino, que gerou uma rebelião popular importantíssima. A sociedade argentina foi arruinada em suas estruturas por este capitalismo que traz, no âmbito do neoliberalismo, até suas últimas conseqüências, as tendências destrutivas que estão anali- sadas na obra de Marx e dos grandes teóricos marxistas. Isto nós

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já sabíamos. O que não se podia prever com certeza é que, frente ao colapso da sociedade argentina, assistíssemos a esta grande rebelião, a esta insurreição de todo o povo contra a brutal des- truição social sofrida pela Nação, enquanto povo explorado e dominado. Isto, hoje, é o fato que consideramos de real impor- tância, de uma importância extraordinária. Quais são os aspectos mais importantes deste processo ar- gentino? Sem dúvida alguma, para mim, o aspecto mais impor- tante é a capacidade de autoconvocação e de auto-organização que vem demonstrando. A esta altura do processo de reorganiza- ção do povo para defender sua própria existência, as assembléias de comunidades, como a assembléia interbairros do Parque Cen- tenário, por um lado, e o movimento “piqueteiro”, por outro, são as duas principais instituições que caracterizam a auto-orga- nização. Quais poderiam ser as respostas aos desafios de enfrentamento entre o povo argentino e a oligarquia local e o imperialismo – imperialismo do FMI, dos bancos e das multinacionais, tanto européias quanto norte-americanas – que se depreendem da aná- lise sobre as relações de produção e de propriedade apresentadas nesta intervenção? Em primeiro lugar, trata-se obviamente de defender o povo argentino e suas organizações no momento em que decidam to- mar uma série de medidas urgentes para deter a saída de recursos e terminar com os mecanismos de pilhagem, da integral capta- ção do produto do trabalho daquele país. Terminar com a pilha- gem supõe, com certeza, o repúdio à dívida externa, que não é do povo, mas sim da oligarquia “nacional” e dos governos suces- sivos, começando pelos da ditadura militar. Mas pressupõe tam- bém uma série de medidas para impedir a fuga de recursos: o controle do câmbio, o congelamento dos lucros das empresas

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François Chesnais

estrangeiras, a interdição da exportação de capital e a quebra do sigilo bancário. Isto, por sua vez, supõe, não só medidas executi- vas, mas também a atuação direta dos trabalhadores dos bancos e do sistema financeiro. Se os trabalhadores desse setor atuarem nesse sentido, temos de estar com eles para lhes dar nosso apoio. Já sabemos, pelas notícias trazidas por companheiros argen- tinos, que as assembléias nos bairros estão tomando iniciativas sempre mais audazes para atender às necessidades básicas, por

exemplo, em matéria de saúde (financiamento e abastecimento dos hospitais). Considero que, à medida que as crises econômica

e a crise política (que não são idênticas, mas interligadas) se agra- varem, e que as multinacionais começarem a sair do país por medo do processo, que é revolucionário em sua essência, os tra- balhadores argentinos vão se deparar com a necessidade de esta- belecer formas de controle operário sobre a produção nas fábricas. Teremos de estar prontos para apoiar tal formação de comitês de fábrica, é algo que temos de apoiar. Mais adiante pode acontecer que seja proposta a expropriação das empresas estrangeiras. Mas este processo, como já disse o camarada cubano, só pode existir, só tem futuro se puder contar realmente com o apoio internacionalista. É por isso que eu quero fazer uma pro- posta ao MST, ao companheiro João Pedro, a proposta – incluída

a demanda – de que do setor do movimento social deste Fórum

saia uma reivindicação, uma convocatória a todos os trabalha- dores da América Latina e de fora da América Latina para que apóiem a Argentina, para que apóiem Cuba. Mas, particular- mente, uma declaração de apoio a essa incipiente revolução Argentina para que eu possa também levá-la em meu regresso à Europa. Um chamamento de solidariedade total e de manifes- tação de seu repúdio à dívida pública, de apoio à construção de assembléias nos bairros, nas fábricas, de criação de um novo

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processo institucional, porque a única saída é a construção de uma nova ordem política. Tudo isto não é uma abstração, mas significa a criação de relações de produção e instituições de um novo tipo de poder. Isto é o socialismo, e quando começa a se colocar, como creio que a Argentina está fazendo, temos de afirmar a nossa solidarie- dade. Isto é internacionalismo. Isto é a luta pelo socialismo.

IV - A REFUNDAÇÃO

Fausto Bertinotti

Podemos definir a nova ordem mundial como uma “revolu- ção capitalista restauradora”. “Revolução” porque, sem dúvida alguma, trata-se de uma transformação de grandes dimensões. “Capitalista” porque esta enorme mudança mantém intacta a natureza do processo capitalista, onde tudo muda, mas a forma de produção continua a mesma. “Restauradora” porque mani- festa formas de um novo domínio sobre o mundo. Esta revolução capitalista restauradora tem sua origem na derrota do movimento operário, na crise do ciclo fordista- keinesiano e na queda dos regimes do Leste Europeu. Na Euro- pa, nasce com a derrota da última tentativa de contestação contra o capitalismo representada pela grande revolução estudantil e operária dos anos 70. A queda dos regimes do Leste Europeu e a derrota do movi- mento operário possibilitaram ao capital a introdução da idéia de um mundo unificado, no qual se verifica uma acumulação ilimitada e onde o trabalhador se transformou no verdadeiro alvo do sistema: difundiu-se, pois, nesses últimos anos, uma gigan-

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Fausto Bertinotti

tesca inovação que modificou a composição social do capital, que modificou a composição do trabalho e que produziu uma nova hegemonia cultural das classes dominantes. Desta hegemonia cultural o núcleo forte é a inovação, a palavra chave é “novo”. Pareceu-nos assistir ao renascimento de um novo positivismo, a um novo baile Excelsior. Esta grande inovação modificou substancialmente a relação entre a produção e a natureza, entre a produção e as pessoas, entre a produção e a organização social. A sua filosofia é a da absolutização da competição. E, em seu nome, aumentam as desigualdades e as injustiças. Neste mundo globalizado, a cada dez segundos uma mulher ou um homem morre porque não tem água para beber; a renda de 600 milhões de pessoas que se encontram nos quarenta e três países mais pobres equivale à ren- da de três pessoas supermilionárias. Em 1820, no início da revo- lução industrial, os países ricos tinham uma renda que equivalia ao triplo daquela dos países pobres; em 1920, era 15 vezes àque- la; depois da II Guerra Mundial, 30 vezes; hoje, os países ricos têm uma renda equivalente a 80 vezes àquela dos pobres. Mas esta revolução é tão forte que conquista enormes con- sensos, e os conquista enquanto se agravam os desequilíbrios, aumentam a distância entre ricos e pobres, entre Norte e Sul, terminando por derrubar as conquistas fundamentais do mun- do do trabalho. O mundo ao qual dá espaço não é o do “fim do trabalho”, mas o do “trabalho sem fim”. Seu modelo é o social norte-americano, porque mais flexível no trabalho e porque privado de um antagonismo de classe orga- nizado. Com esta revolução foram estabelecidas as bases de um pro- cesso universal de privatização de toda forma de intervenção do

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governo na economia e de liberalização do mercado de trabalho. Os governos nacionais entraram em crise e modificaram o pró- prio papel. A soberania e a democracia foram substituídas por governos legitimados exclusivamente pelas funções que assumem e não pelo consenso que têm junto aos povos. Nessa revolução, os principais sujeitos do compromisso social e democrático – os partidos do movimento operário e os sindicatos – entraram de modo subalterno. A globalização, então, produziu novas instituições, produziu hegemonia, produziu o pensamento único, mudou os sujeitos políticos, a natureza dos governos nacionais e das grandes for- mações do movimento operário. Mudou as formas de governo. E a sua força e hegemonia pareceram irresistíveis mesmo diante das denúncias que contra elas se fizeram. Foram denunciadas as injustiças e as contradições. Foi denunciado o agravamento das condições econômicas no Hemisfério Sul, o aumento da distân- cia entre ricos e pobres, as novas formas de exploração do traba- lho. Mas sua hegemonia se manteve porque conseguida através do envolvimento de forças políticas do centro, da esquerda e também daqueles que deveriam ter se oposto àquele processo, mas que terminaram por se preocupar somente em governá-lo.

A segunda globalização

Este processo já entrou em crise, por isso pode-se falar de segunda globalização, a “globalização da crise”. Quais são as di- ferenças entre essas duas fases e em que consiste a passagem de uma à outra? Que a primeira globalização produzisse desigualdades e in- justiças era claro para todos, para os seus difamadores ou os seus apologistas. Mas os últimos sustentavam que, mesmo em pre- sença de aspectos negativos, ela produzia crescimento, desenvol-

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Fausto Bertinotti

vimento, civilização. Hoje, estamos diante da traição das pro- messas sobre as quais a modernização capitalista tinha construído

a própria hegemonia. De um lado, as promessas de civilização

são, progressivamente, substituídas por uma verdadeira crise de civilização; de outro, a idéia de crescimento irrefreável vem sen- do contestado pela própria crise econômica. Substancialmente, bloqueou-se aquele grande e prometido processo que deveria desenvolver-se em nível planetário, que cancelaria qualquer idéia

de crise, que reconduziria à globalização capitalista toda e qual- quer idéia de futuro, diante das quais as injustiças e o progressivo deterioramento da democracia eram considerados secundários. Com ele foi abalada aquela convicção de que o mundo não po- deria ser, de modo algum, diferente deste que a globalização es- tava definindo, aquele pensamento “único” que não dava margem

a dúvidas, contradições e ulteriores aprofundamentos. As crises, porém, reapareciam. O futuro, que deveria ser qua- se cientificamente determinado, está sendo dominado pela in- certeza. A vida cotidiana, que os progressos da ciência e da tecnologia deveriam ter coberto de segurança, encontra-se, por sua vez, exposta à arbitrariedade e ao medo. Um caso que se oferece como exemplo perfeito: “a vaca louca”. A exploração da matéria viva, que teria de dominar a fome e a morte, fazendo com que os homens ficassem mais fortes e mais capazes de do- minar a natureza, atingiu o resultado oposto. Mais que dominadores, encontramo-nos ainda mais sujeitos a domínios desconhecidos; mais do que nos distanciando estamos nos apro- ximando da morte. A guerra retorna com violência e, ainda que a globalização tente revertê-la a seu favor, tentando transformá-la em “consti- tuinte”, ela deixa clara (junto ao caráter oligárquico do novo go- verno do mundo) a incapacidade de resolver a exclusão de grandes

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massas do planeta do bem-estar e também das mais elementares possibilidades de sobrevivência. A segunda globalização tem ori-

gem neste segundo quadro, contraditório e instável. Não é um fenômeno e uma mudança insignificantes, e tam- bém não é o único. Manifestou-se com uma violência desconheci- da e se fez evidente no dia 11 de setembro um outro fenômeno que assinala outro aspecto da crise da “primeira globalização”. Fez vir à tona um novo e impensável tipo de exclusão de categorias do pensamento único. Aquela de quem recusa, não somente o mode- lo econômico e social proposto pela modernização capitalista, mas

a própria civilização ocidental. Uma exclusão que promove um

processo cultural que não prevê nem busca algum momento de

integração, no qual se pode desenvolver o fundamentalismo e onde

é possível criar esta mescla cultural de um terrorismo que nasce e se constitui sobre um pensamento político autônomo.

A resposta dada com a guerra, por parte de quem parecia

fechado em certezas inabaláveis e foi atingido, não é mais que o reconhecimento da falência da globalização como momento de hegemonia e de cooptação. É também outra prova de que a pri- meira forma de globalização não consegue mais ser propulsora e

que deve-se readaptar aos tempos da crise, levando em conside- ração, também, o combate violento com aquela parte do mundo não integrada nos processos econômicos, sociais e culturais.

E ela – a guerra – tem um forte componente econômico,

quer porque o controle das reservas petrolíferas é um dos ele- mentos da desavença, quer porque levou a propostas de políticas

econômicas e governamentais que a primeira globalização que- ria eliminar. Refiro-me às abrangentes intervenções públicas que

o governo dos Estados Unidos está planejando. Para revelar plenamente a incoerência do processo de globalização, volta à cena o espectro da crise econômica, que

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investe também contra os Estados Unidos, o país locomotor do desenvolvimento, o país cujo modelo econômico e social é mais favorável aos seus processos. Mas a globalização também entra em crise porque, hoje, um novo sujeito a coloca em discussão. Em uma situação incipiente de incerteza “global”, nasce o movimento não-global, que se revelou no momento em que al- cançou uma massa crítica capaz de evidenciar todas as “crises”, provocadas pela globalização, que ainda não eram visíveis. Evi- denciou-as, conseguiu remontar os efeitos do mal-estar às suas causas. Com este nascimento e neste processo, o pensamento único se rompeu, a globalização perdeu seu caráter exclusivo e fundamental e apareceu no horizonte a idéia de que “um outro mundo é possível”. Quais são, então, as características desta nova fase? A precarie- dade é uma das mais evidentes. Paradoxalmente, podemos dizer que, enquanto a primeira globalização fundou sua estabilidade, sua segurança e também sua agressividade sobre a precariedade do mundo do trabalho, nesta segunda globalização a precarieda- de se transformou em condição geral. Ela governa a existência de todos, inclusive dos próprios processos de modernização. O sím- bolo desta precariedade e desta falibilidade é, exatamente, a des- truição feita por mãos terroristas das duas torres de Manhattan. A segunda característica é a consciência, cada vez mais difun- dida, de que, com a globalização, não estamos diante da “última sociedade”; ela não é a única estrada para definir o futuro, não é o único e possível modelo econômico e social. Perdeu a objetivi- dade que a fazia parecer, aos olhos da maioria, quase um proces- so natural. Pode ser colocada em crise, seja por um movimento que contesta suas razões e propõe um outro modelo, seja por um fenômeno destrutivo. E o crescimento econômico, além de não

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ser o único quadro possível, precisa também levar em considera- ção a possibilidade do aparecimento de uma crise que pode, in- clusive, transformar-se em depressão.

Nada mais é como antes

Não se pode mais, na situação que descrevi, perseguir o objeti- vo mais alto, mais político – a transformação do estado de coisas existente – limitando-se a percorrer, de novo, os caminhos do grande e terrível século XX. É evidente que, para se chegar à transforma- ção do estado de coisas existente, é necessário agir diversamente. É evidente que, antes de tudo, devem ser mudados os sujeitos que se candidatam a perseguir o objetivo da transformação. Por que não podemos mais agir como antes, ao menos na- quela parte do mundo que chamamos de ocidental? Porque re- gistramos uma profunda crise política, em particular, uma crise política da esquerda. Esta revolução capitalista restauradora demoliu o compro- misso social e democrático que, na Europa, tinha-se realizado depois da vitória contra o nazi-facismo. As conquistas dos traba- lhadores, as conquistas da classe operária, as conquistas progres- sistas e as da civilização foram agredidas a tal ponto que foi radicalmente modificado o panorama social, institucional, cul- tural e civil. Nessas condições, produziu-se um obscurecimento, um eclipse da política, porque a natureza restauradora desta reestruturação capitalista colocou em discussão dois pontos do compromisso alcançado até então: uma democracia que, pro- gressivamente, alargasse os próprios horizontes a faixas sociais antes excluídas e a autoridade do estado-nação. Com uma regressão social e civil tão violenta, a moderniza- ção capitalista foi também capaz de exercitar uma hegemonia tão forte que se pôde, então, falar de “pensamento único”.

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A crise política na Europa foi, sobretudo, uma crise política da esquerda, que se manifestou na crise de todos os partidos co- munistas da Europa e em uma grande parte daquele que chama- mos ocidente, com uma mudança radical das formações socialdemocráticas, que se transformaram, segundo a inspiração da “terceira via”, em formações neoliberais e neocentristas. O eclipse da política e a crise política da esquerda não de- terminaram uma total destruição porque se acenderam algu- mas chamas de resistência política e social em nome de identidades, em nome de ideologias, em nome de reivindica- ções sociais. Em todo caso, resistência. Uma resistência impor- tante, mas cujos modelos, sujeitos, conteúdos não são mais capazes de serem propulsores e regeneradores da política. Não se pode mais agir como antes. Pode-se, porém, recomeçar. A globalização capitalista já en- trou em crise. O que quer dizer, simplesmente, que suas injusti- ças, suas contradições, seus desequilíbrios vieram à luz. Isto já se tinha verificado e era já sabido, em maior ou menor medida. Sabia-se que aumentava a distância entre ricos e pobres, que cres- cia o número de mortos por fome no mundo, que as conquistas da civilização vinham sendo devastadas nos países de capitalis- mo avançado e que uma tecnocracia neocapitalista tomava o lu- gar da soberania nacional e da democracia. Hoje, podem-se ver outras coisas. Vê-se a crise da globalização, ou seja, a sua incapa- cidade de dar espaço, não mais a uma igualdade social, negada já na raiz, mas também a um desenvolvimento quantitativo. Por outro lado, a política renasce a partir dos movimentos que se constituíram na crítica e na contestação a esta moderniza- ção capitalista, devido à traição de expectativas criadas ao redor da modernização, enquanto se consuma a falência de todas as políticas de colaboração tentadas com ela. O centro-esquerda,

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desde Clinton a Schroeder, a Blair, a D’Alema, faliu totalmente. Faliu em relação à tarefa de dar à política a missão de governar esta revolução através da moderação das políticas neoliberais e através de novas regras. Esta hipótese foi eliminada, mas acabou por emergir como novo fundamento de uma política de esquer- da, uma crítica radical à globalização. A última fronteira de uma política que, definindo-se reformista, foi somente um acompa- nhamento da revolução capitalista, reduziu-se a cacos e emergiu por sua vez como única possível refundação da política, um movimento que contesta nas raízes a lógica e a inspiração, a na- tureza da globalização. Efetivamente, este movimento, de Seattle, fala de um outro mundo, possível, redescobrindo a política no seu ponto mais alto, a idéia de transformação do mundo e da sociedade existentes.

O primeiro movimento depois do século XX

Que movimento é este e o que pede? É o primeiro movimen- to pós-novecentos. Distingue-se de todos os movimentos operá- rios e de contestação que vivenciaram este grande e terrível século.

É uma nova subjetividade que representará o futuro do mundo.

Este movimento, na verdade, não é um fenômeno excepcional e conjuntural. É uma longa onda que tem o mesmo sentido que o movimento operário teve no século XX. Atravessará o futuro como uma crítica permanente a esta globalização capitalista. Naturalmente, está construção e, por isso, é complexo, não tem, ainda, uma “idéia força” unitária, mas contém todos os elemen-

tos críticos à globalização: os de raiz operária, os que se origina- ram com o feminismo e com a cultura de gênero, os ambientalistas

e ecologistas, os que nasceram a partir de necessidades sociais

insustentáveis e dramáticas, da fome e doenças do sul do mundo

e da alienação do norte do mundo.

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Fausto Bertinotti

Nos últimos anos, desde Seattle até os dias de hoje, este mo- vimento manteve sua marcha, não permanecendo, porém, igual ao que tem sido. Dentro da idéia de que um outro mundo é possível, vem crescendo a capacidade de uma outra proposta política. Não é verdade que este movimento tenha vocações pre- dominantemente éticas e redistribuidoras. Certamente, não se resolveu a questão do sujeito e dos sujeitos da transformação:

mas esta questão já foi colocada. Ao mesmo modo, amadureceu um nível de consciência crítica agora já mais anticapitalista que antiliberal. Isso não significa que tenha sido completamente ela- borada uma hipótese de superação do sistema, mas o processo que nos leva, desde a denúncia de injustiças sociais e econômicas até a individualização de suas causas, é iniciado e já se encontra “em andamento”. Quando, por exemplo, se fala de direito à água como necessidade essencial, universal, coloca-se em movimento um percurso reivindicador, de dimensão tanto local quanto glo- bal, que pode fazer explodir instâncias transformadoras, não so- mente relativas à relação da humanidade com o meio-ambiente, mas também relativas às composições políticas, aos poderes, à propriedade. No movimento existem também tendências, propensões, di- versidades significativas. Em Porto Alegre entraram em cena, pela primeira vez, os “reformistas”. Uma demonstração, uma nova demonstração de que o movimento é capaz de atravessar territó- rios que, até hoje, lhe tinham sido proibidos a priori, ganhando consensos em âmbitos não afins e que, usando uma terminolo- gia clássica, ganhando hegemonia. É também a demonstração de que uma parte dos reformistas, diante da crise irreversível do “reformismo real”, diante da derrota mundial do centro-esquer- da, intui a capacidade de abrir, de qualquer modo, uma nova estação. Penso a Soares, como exemplo de todos aqueles que,

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mesmo permanecendo no interior de uma lógica reformista, ad- vertem para a necessidade de uma refundação, que têm um com- portamento diverso da cínica arrogância dos reformistas reais ainda no poder, como Blair e Schroeder. Trata-se de uma interessante estratégia de atenção, quase uma forma de “neomoroteísmo”. Diante dos movimentos de 68 e 69, Aldo Moro propôs equilíbros mais avançados. Hoje, por parte dos reformistas, estamos diante de algo análogo. Mas, no movimento, em relação e em reação aos reformistas, toma corpo uma tendência que podemos definir antipartidária,

que tenta preservá-lo de toda contaminação através de uma es- pécie de barreira separatista. O movimento pode somente fazer

o

movimento, afirma-se. Estas são, por exemplo, as posições da ATTAC francesa. Há, também, uma terceira componente, aquela que propõe

o

socialismo como meta final do mundo possível de ser

construído. É uma idéia que não percorre as vias tradicionais da ciência da revolução, mas se expressa, sobretudo, por meio de experiência social radical. A idéia socialista que há entre os metalúrgicos da CUT, entre os militantes de Via Campesina,

entre os Sem Terra brasileiros, não é periférica e também não é vivida como herança histórica: reapresenta-se quase, em um es- tado nascente, como solução racional para as injustiças do mun- do, com êxito possível da necessidade de liberdade. Estas tendências lançam de novo, com força, a relação entre “new glo- bal” e partidos anticapitalistas e comunistas.

A refundação da política

Este movimento é a grande novidade do nosso tempo e é uma verdadeira ocasião para a refundação da política. Uma oca- sião enorme e extrema. Grande porque é uma oportunidade.

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Extrema porque, se a política da esquerda perder esta ocasião, perde a possibilidade de se refundar no novo século. Estamos, então, diante de uma passagem crucial. Quanto maior é a possi- bilidade de dar nova vida à política, tanto mais alto é o risco de morte. O movimento existe e, de qualquer forma, irá pela sua estrada, mas sem esta refundação da política, encontrar-se-á sem- pre privado de uma força, da possibilidade de se propor ao inte- rior da batalha que o novo adversário histórico propõe. Quem tem origem na história do movimento operário e co- munista tem a obrigação de se confrontar com o problema da ruptura histórica com aquele que denominamos modelo alemão, ou seja, com o modelo lassalliano de relação partido-sindicato- cooperativas, que inspirou todos os movimentos socialistas, co- munistas, socialdemocráticos. Para redescobrir a validez das razões do nascimento do movimento operário, aquele modelo tem de ser superado, definindo uma nova relação entre as forças políti- cas e o movimento, que não pode mais ser uma relação entre pai e filho. As forças políticas de esquerda, quer se chamem comu- nistas, quer de outro modo, devem perder a presunção teórica de serem o guia externo do movimento em nome de uma primazia ideológica teórica, de uma cátedra que ninguém está disposto a lhe reconhecer. A reconstrução de uma esquerda radical, neocomunista, passa por recolocação em discussão esta relação hierárquica. De que modo? Antes de tudo, modificando a relação entre o empenho na sociedade e o empenho nas instituições. As instituções são importantes, mas o pêndulo da política há de ser levado à sociedade, entre as forças que nela agem, às subjetivida- des críticas. Não sei se as instituições seguirão o passo. Digo, porém, que a refundação da política tem de ser reconstruída na sociedade.

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Tem, também, de ser revista a relação entre poder e processo de transformação. Não no sentido de que o poder não é impor- tante, mas no sentido de se perder o hábito mental de fazer pre- ceder a conquista do poder ao processo de transformação. É este hábito mental que nos levou da conquista do Palácio de Inverno à dramaticidade das condições e à ruína dos países do Leste Eu- ropeu. E que, hoje, leva a esquerda no poder a governar os pro- cessos existentes sem mudar nada, ou quase nada. Ou então introduzindo, sim, uma mudança, mas na natureza da esquerda, em sua identidade, nas suas categorias, reduzindo-a àquela parte do mundo que se deveria combater. Deve-se recolocar em discussão a relação entre formação de decisões no interior do partido e formação de decisões no movi- mento. O partido deve ter a ambição de fazer uma proposta, mas deverá também confrontá-la com o movimento e aceitar as conclusões que derivam deste confronto. Naturalmente, seria somente um início, mas seria o início de uma esquerda alternativa, isto é, de uma nova esquerda anticapitalista da qual os comunistas poderiam ser uma parte, mas não o todo, o início de um processo de transformação, ou seja, um processo revolucionário. Seria, no final das contas, o início do retorno a um caminho em direção ao comunismo.

O socialismo hoje

O socialismo hoje é necessário, depois da derrota do movi- mento operário do século XX e diante de um capitalismo, o da globalização, que se fez ainda mais perigoso. O grande confron- to do movimento operário com o capitalismo, no século passa- do, terminou com a nossa derrota, mas esta derrota não cancela, ao contrário, reforça as razões pelas quais nasceu o socialismo, e

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Fausto Bertinotti

à luta de classes resta um instrumento decisivo para o desenvol- vimento da civilização e da história.

O problema da revolução é atual. Se faz ainda mais atual neste novo capitalismo, que transforma o mundo deixando inalterado o poder do capital, ou melhor, criando um novo domínio. Não é só uma questão de injustiça, é também uma questão de barbárie. Esta revolução capitalista corre o risco de destruir a hu- manidade e, efetivamente, precisa da guerra para poder funcionar. Este capitalismo produz uma nova barbárie. Como afirmava Karl Marx, se a luta de classes não produz uma nova civilização,

o risco é a dissolução de ambas as classes em luta. Por isso o

socialismo é necessário. E hoje é também possível. Depois da escuridão desses anos, chegou de novo o dia. Este é o amanhecer do movimento dos movimentos, dos povos de Seattle. Que não

se iludam os novos padrões do mundo e os senhores da guerra:

este movimento irá longe. Neste movimento existem forças di- versas, histórias diversas, culturas diversas, mas, pela primeira vez, estas diferenças não são um ponto fraco, mas sim um ponto de força. Este movimento, em todo o mundo, trouxe ao cenário político uma nova geração. Não é ainda um movimento com- pletamente anticapitalista, mas contém todas as potencialidades para sê-lo, para construir uma alternativa ao capitalismo, para construir um outro mundo . Este movimento permite que se mantenham juntas todas as forças críticas, sobre bases discriminantes simples. Podem e devem fazer parte dele todos os que são contra a guerra e contra as políti-

cas neoliberais. Ele é o nosso futuro, mas necessitamos nos per- guntar o que ainda falta para que o futuro possa ser conquistado. Para recomeçar, devemos fazer as contas com a nossa história, re- fletindo também sobre erros e tragédias que a atravessaram, senão não conseguiremos entender porque fomos derrotados. Somos

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anões sentados sobre as costas dos gigantes, mas devemos ter a coragem intelectual de criticar os gigantes, de examinar critica-

mente o movimento socialista. Movimento que, no século passa- do, teve três funções fundamentais: foi o movimento de luta de todas as classes subalternas no mundo, foi uma teoria de crítica ao capitalismo e foi a base da construção de governos nacionais que se disseram socialistas. Temos de ter a coragem de admitir que esta última experiência morreu, e que não é repetível. É necessário dizê- lo agora para que o morto não coma o vivo. Aquela experiência não foi derrotada somente pelo capitalismo, foi-o, sobretudo, pe- los seus próprios erros. Foi vencida porque uma grande idéia de liberação do mundo se transformou em uma forma de opressão estatal. Temos de deixar esses erros para trás de forma definitiva, valorizando a experiência de luta do proletariado no mundo e redescobrindo o extraordinário valor do ponto de partida de Marx. No século passado, aprendemos algumas coisas importantes:

a revolução, a transformação da sociedade capitalista ou é mun- dial ou não o é. Aprendemos que não é suficiente tomar o poder,

é necessário transformar o poder se quisermos transformar a so-

ciedade. Aprendemos que a primazia da política não vive nas instituições e no governo, mas na realidade social e na vida das classes e das pessoas. Que a ciência, a economia e o governo não são neutros. Que precisamos construir, nós mesmos, uma nova ciência da sociedade e, para construí-la, não são suficientes os conhecimentos e os saberes oficiais e formalizados. Não basta o que se aprende na universidade, serve aquilo que se aprende na

vida. Serve a experiência. Então, sem a experiência dos campo- neses, dos trabalhadores, dos jovens, das mulheres, não se cons- trói a nova ciência da sociedade. O que precisamos aprender ainda? Temos de aprender a nos abrirmos ao mundo, deixarmos de lado as nossas prevenções teóri-

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Fausto Bertinotti

cas, como também as ambições vanguardistas dos partidos do movimento operário. A política do socialismo deve estar no povo como o peixe está na água. Necessitamos construir uma cultura porque a nossa cultura de classe é necessária, mas não suficiente. Há outras culturas críticas igualmente importantes: a cultura das mulheres, a cultura dos ecologistas, a cultura da paz, as culturas do Hemisfério Sul. Temos de nos abrir a experiências diversas da nos- sa. É importante a reivindicação e a luta operária, mas são igual- mente importantes experiências de vida de outras realidades que, mesmo não sendo socialistas, exprimem instâncias de liberação. Para construir o socialismo, precisamos construir um novo movimento operário em escala mundial e um novo proletariado, composto não somente pelos que trabalham nas fábricas, mas por todos aqueles e todas aquelas que se encontram subordina- dos ao domínio capitalista: um novo proletariado para uma nova estratégia da liberação. Precisamos de um novo sujeito político que, creio, estamos começando a construir. A refundação de uma estratégia da transformação da socie- dade capitalista e a refundação dos partidos que querem o socia- lismo recomeça com a participação popular e com a crítica dos povos ao poder capitalista. Gramsci falava sobre o partido da transformação socialista como se se tratasse de um intelectual coletivo. Creio que devemos ter, agora, a coragem da transfor- mação: não é o partido que deve ser o intelectual coletivo, é o movimento que tem de ser o intelectual coletivo, que deve pen- sar na revolução e praticar a transformação. Dentro do movimento, pode viver o projeto de uma força política; fora do movimento, perde o socialismo e o capitalismo vence. O movimento nos oferece, hoje, uma ocasião. Esforcemo- nos para não perdê-la.

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V - SOCIALISMO

Michael Löwy

Ser socialista significa ser radical. A palavra “radical” vem do latim radix, “raiz”. Radical é aquele que ataca os problemas pela raiz. Como, or exemplo, os companheiros do MST e da Confe- deração Camponesa da França que, no ano passado, por ocasião do 1 o Fórum Social Mundial, organizaram um passeio pelo inte- rior do Rio Grande do Sul para arrancar, pela raiz, plantações transgênicas da multinacional Monsanto. Qual é a raiz dos pro- blemas sofridos pela humanidade neste começo de século? Qual é a raiz do desemprego, da pobreza, da monstruosa desigualdade social? Qual é a raiz do neoliberalismo, da dívida externa, da especulação financeira incontrolável, dos programas de “ajuste estrutural”, da ditadura do FMI? A raiz é o sistema capitalista mundial, a lógica global da acumulação capitalista, a hegemonia mundial do grande capital financeiro, a propriedade capitalista do meios de produção. Muitos nesse Fórum Social Mundial com- partilhamos este diagnóstico. Mas precisamos começar a discutir as alternativas. E, se buscamos uma alternativa radical, é a ques- tão do socialismo que se coloca na ordem do dia.

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Michael Löwy

O socialismo a que me refiro não é aquele “socialismo” que desmoronou depois da queda do muro de Berlim, pobre carica- tura burocratica de um sistema político que há muito tempo já havia perdido seu espírito revolucionário inicial. Tampouco é aquele “socialismo” de certos partidos que se declaram socialistas ou socialdemocratas, mas não passam de social-liberais, simples administradores da ordem estabelecida. Quando me refiro ao socialismo, refiro-me à utopia socialista, ao sonho radical de jus- tiça social e da comunidade de bens, que tem séculos de história e que encontramos nas palavras de fogo dos profetas bíblicos, na prática fraternal das primeiras comunidades cristãs, nas revoltas camponesas da Idade Média; um sonho que encontrou sua for- ma moderna e revolucionária no pensamento e na ação de Karl Marx e Frederico Engels. O socialismo de que estou falando é aquele que inspirou os mártires do “1° de Maio”, de Chicago, e tantos outros combatentes assassinados pelas classes dominan- tes, que sacrificaram suas vidas pelo ideal socialista da emancipa- ção dos trabalhadores da cidade e do campo: Emiliano Zapata e Rosa Luxemburgo, Farabundo Marti e Leon Trotsky, Buenaven- tura Durruti e Antonio Gramsci, Camilo Torres e Ernesto Guevara, Carlos Marighella e Chico Mendes. No que consiste o socialismo? Ele não tem nada de misterioso ou obscuro. Seu princípio fundamental é transparente e claro como água da cascata: os meios de produção devem pertencer à socieda- de e as grandes decisões sobre investimentos, produção e distribui- ção não devem ser abandonadas às leis cegas do mercado, a um punhado de exploradores, ou a uma camarilha burocrática, mas tomadas, depois de um amplo e pluralista debate democrático, pelo conjunto da população. Nada mais simples, mas exige, para ser realizado, uma verdadeira revolução, a supressão do sistema capitalista e do poder das classes dominantes

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O socialismo significa, concretamente, que a produção não será mais submetida às exigências do lucro, da acumulação do capital, da produção em massa de mercadorias inúteis ou noci- vas, mas voltada para a satisfação das necessidades sociais: ali- mentação, vestuário, habitação, saneamento básico, água, educação, saúde, cultura. Significa também o fim da discrimina- ção racial – contra o negro, o mestiço, o indígena – da opressão das mulheres, da desigualdade social, da destruição do meio

ambiente, das guerras imperialistas. E aqui, na América Latina, significa antes de tudo: o fim de séculos de dominação colonial e imperialista sobre os povos de nosso continente. Um dos primeiros marxistas latino-americanos, o peruano José Carlos Mariátegui, já escrevia em 1928: “Contra uma América do Norte capitalista, plutocrática, imperialista, só é possível opor, de maneira eficáz, uma América, latina ou ibera, socialista”. 1 Qua- renta anos mais tarde, Che Guevara retoma esta bandeira socialis-

ta e antiimperialista, que havia sido esquecida por tanto tempo, e,

polemizando com os partidários de uma suposta “revolução de- mocrático-nacional em aliança com a burguesia nacional” (políti- ca que predominava na esquerda latino-americana nesta época)

afirma: “as burguesias autóctones perderam toda sua capacidade

de oposição ao imperialismo – se é que alguma vez a tiveram – e agora são apenas seu reboque. Não há mudanças a fazer, ou revo- lução socialista ou caricatura de revolução”. 2 Com esta conclusão de sua famosa “Mensagem à Tricontinental”, de 1967, ele cortou

o nó que amarrava a esquerda no continente latino-americano e

1 J.C.Mariátegui, “Aniversario y Balance”, 1928, Indeologia y Politica. Lima, Amauta, 1971, p. 248.

2 Ernesto Che Guevara, “Mensaje a la Tricontinental”, 1967, in Obra revolucionaria. Mexico, ERA, 1973, p. 645.

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abriu um formidável horizonte de esperanças que até hoje ilumina nossas consciências. Qual socialismo? Cada vez mais crítico, nos seus últimos anos, em relação às experiências socialistas européias, Ernesto Guevara buscava, para Cuba e para a América Latina, um novo caminho socialista. Também aqui suas idéias coincidem com as idéias de José Carlos Mariátegui, que havia escrito no mesmo documento de 1928: “Não queremos, certamente, que o socialismo seja nas Américas calco e cópia. Deve ser criação heróica. Temos de dar vida, com nossa própria realidade, com nossa própria lingua- gem, ao socialismo indo-americano”. 3 Não sabemos se Guevara conhecia este texto de Mariátegui. 4 Mas, de qualquer forma, se pode-se considerar que boa parte de sua reflexão e de sua prática política, sobretudo no curso dos anos 60, tinha como objetivo sair do beco sem saída a que levava a imitação, o “calco e cópia”, do modelo soviético. Suas idéias sobre a construção do socialismo são uma tentativa de “criação heróica” de algo novo, a busca – interrompida por sua morte – de um paradigma de socialismo diferente das caricaturas buro- cráticas até então existentes. O motor essencial dessa busca de um novo caminho (mais além de questões econômicas específicas) é a convicção de que o socialismo não tem sentido – e não pode triunfar – se não repre- senta um projeto de civilização, uma ética social, um modelo de sociedade totalmente antagônico aos valores do individualismo mesquinho, do egoísmo feroz, da competição, da guerra de to-

3 J.C. Mariátegui, op.cit., p. 249.

4 Possivelmente o havia lido, posto que sua primeira companheira, a socialista peruana Hilda Gadea, lhe havia emprestado os escritos deste autor nos anos que precederam a revolução cubana.

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dos contra todos da “civilização capitalista” – este mundo no qual, dizia Che, o “homem é um lobo para os outros homens”.

A construção do socialismo é inseparável de certos valores

éticos, contrariamente ao que afirmavam as concepções dogmáticas e economicistas, que só consideravam “o desenvolvi- mento das forças produtivas”. Na famosa entrevista com o jor- nalista francês Jean Daniel (julho de 1963), Guevara insistia: “o socialismo econômico sem a moral comunista não me interessa.

Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a aliena-

Se o comunismo passar por cima dos fatos da consciên-

cia, poderá ser um método de distribuição, mas não será mais uma moral revolucionária”. 5 Se o socialismo pretende lutar con- tra o capitalismo e vencê-lo em seu próprio terreno (o terreno do produtivismo e do consumismo), utilizando suas próprias armas

(a forma mercantil, a concorrência), está condenado ao fracasso.

O socialismo para o Che era o projeto histórico de uma nova

sociedade, baseada em valores de igualdade, solidariedade, cole- tivismo, livre discussão e participação popular. Tanto suas críti- cas – crescentes – ao modelo soviético, quanto sua prática como dirigente político e sua reflexão sobre a experiência cubana são

inspiradas por esta utopia revolucionária.

A questão da planificação socialista ocupa um lugar central

em seus escritos econômicos. Mas, em seus últimos anos, a ques- tão da democracia socialista na planificação começa a aparecer como uma questão essencial. Por exemplo, numa crítica ao Ma- nual de Economia Política da Academia de Ciências da URSS, redigida por volta de 1965-66, ele avança um princípio demo- crático fundamental: na planificação socialista, é o próprio povo,

ção. (

)

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os trabalhadores, “as massas”, que deve tomar as grandes deci- sões econômicas:

“Em contradição com uma concepção do plano como deci- são econômica das massas conscientes dos interesses populares, se oferece um placebo, no qual só os elementos econômicos de- cidem o destino coletivo. É um procedimento mecanicista, antimarxista. As massas devem ter a possibilidade de dirigir seu destino, de decidir qual é a parte da produção que será destinada à acumulação e qual deverá ser consumida. A técnica econômica deve operar nos limites dessas indicações e a consciência das massas deve assegurar sua realização”. 6 Contra a monopolização das decisões por um punhado de tecnocratas, o Che insistia na necessidade de uma verdadeira participação popular: os grandes problemas socioeconômicos de uma nação não são técnicos, mas, sim, políticos e devem ser ob- jeto de debate e decisão democrática. A reflexão de Guevara sobre o socialismo não concerne uni- camente à Cuba e à América Latina: ela é universal, mundial, internacional. Para o Che, o verdadeiro socialista, o verdadeiro revolucionário é aquele que considera sempre os grandes proble- mas da humanidade como seus problemas pessoais, é aquele que é capaz de “sentir-se angustiado quando se assassina um ser hu- mano em qualquer lugar do mundo e sentir-se entusiasmado quando, em algum lugar do mundo, se levanta uma nova ban- deira de liberdade”. 7 Há uma frase de José Marti que Ernesto

6 Por razões inexplicáveis, este documento ainda não foi publicado. Citamos uma passa- gem mencionada no artigo do economista cubano Carlos Tablada, “Le marxisme du Che Guevara”. Alternatives Sud, vol. III, 1996, 2, p. 173.

7 E. Che Guevara, Obras 1957-1967. La Habana, Casa de las Americas, 1970, tomo II,

pp. 173, 307, cf. também p. 432: “La revolución cubana

caracteristicas humanistas. Es solidaria con todos los pueblos oprimidos del mundo”.

es una revolución con

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Guevara citava com freqüência em seus discursos e na qual via “a bandeira da dignidade humana”: “Todo ser humano verdadeiro deve sentir na sua face a bofetada dada em qualquer outro ser humano”. O internacionalismo para Guevara – ao mesmo tem- po modo de vida, fé profana, imperativo categórico e pátria espi- ritual – era inseparável da idéia mesma de socialismo, enquanto humanismo revolucionário, enquanto emancipação dos explo- rados e dos oprimidos do mundo inteiro, numa luta sem tréguas nem fronteiras contra o imperialismo e contra a ditadura do ca- pital. As balas assasinas da CIA e de seus sócios bolivianos inter- romperam em outubro de 1967 este trabalho de “criação herói- ca” de um novo socialismo revolucionário, democrático, humanista e internacionalista. Nos últimos trinta anos, aprendemos a enriquecer nossa idéia do socialismo com a contribuição do movimento das mulheres, dos movimentos ecológicos, das lutas de negros e indígenas con- tra a dicriminação. Assim é o processo de construção do projeto socialista: não um edifício pronto e acabado, mas um imenso canteiro de obras, onde se trabalha para o futuro, sem esquecer as lições do passado. O socialismo exige uma transformação revolucionária da so- ciedade. Não se trata de esperar que o capitalismo desmorone por suas próprias contradições. Como dizia Walter Benjamin, nossa geração aprendeu uma lição importante: o capitalismo não vai morrer de morte natural. Para que desapareça o mais rapida-

Como disse simples e poeticamente Roberto Fernandez Retamar: ao Che “no le preocupaba estar al dia: lo que le preocupaba era ofrecer al mediodia de la justicia el caudal de sus conocimientos. Y la justicia le reclamo vincularse con los humillados y ofendidos, echar su suerte con los pobres de la tierra”, “El Che, imagen del pueblo”, Contracorriente. La Habana, diciembre, 1996, n° 6, p. 4.

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mente possível, não devemos esperar que “as condições amadu- reçam”, mas agir plantando as sementes do socialismo. Cada le- vante indígena, como o dos zapatistas, em Chiapas, ou da CONAIE, no Equador, cada ocupação de terras do MST, cada insurreição popular, como o “argentinazo”, cada mobilização contra a globalização capitalista, como as de Seattle ou de Gêno- va, cada reunião como esta, de dezenas de milhares de pessõas que sonham com um futuro diferente, é uma semente de socia- lismo. Depende de nós que estas sementes cresçam, dêem árvo- res, galhos, folhas e frutos.

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VI - A LUTA PELO SOCIALISMO NA ATUALIDADE

James Petras

Introdução

Uma discussão sobre a luta pelo socialismo nos dias de hoje deveria começar pela definição do que é e do que não é socialis- mo. É importante ter clareza política, não só das falsas alterna- tivas, mas também dos componentes básicos da sociedade socialista. Este ensaio tratará do assunto, analisando critica- mente três das mais influentes ideologias anti-socialistas, de- fensoras de uma esquerda renovada e que apresentam um enfoque alternativo de socialismo. Em seguida, será apresenta- da uma discussão da via militante ao socialismo e uma crítica das ilusões a respeito da política eleitoral. Por último, será exa- minado o atual contexto mundial e os desafios e oportunida- des que se apresentam à Esquerda frente à ofensiva imperialista de Washington.

O que não é socialismo

A esquerda enfrenta, em essência, três alternativas falsas de socialismo: 1) a “terceira via”, promovida por Tony Blair; a

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Socialdemocracia européia e do Terceiro Mundo e 3) o “socialismo de mercado” ao estilo chinês.

A “Terceira Via”, proposta pelo líder do Partido Trabalhista

inglês, Tony Blair, pretende apresentar uma outra relação (uma

terceira via) entre a propriedade pública dos meios de produção

e dos serviços sociais e o mercado liberal não regulamentado. De

fato, reúne o que há de pior:uma enorme e dispendiosa burocra- cia estatal, a serviço das poderosas instituições financeiras e dos

banqueiros, e uma legislação autoritária, que transgride as liber- dades individuais. Na prática, a “Terceira Via” de Blair é um caminho direto para a guerra, para a crise e para a intensificação das privatizações às custas dos consumidores, do meio ambiente

e dos trabalhadores. O regime de Blair tem sido um ativo e sub- misso colaborador de Washington nos selvagens bombardeios

de civis na Iugoslávia, no Afeganistão e no Iraque, assim como na conquista e ocupação do Afeganistão, de Kôsovo e da Macedônia. A “Terceira Via” promoveu a desindustrialização da Inglaterra, o “boom” especulativo das telecomunicações e seu colapso, precipitando o país na atual recessão. O programa de privatizações de Blair solapou o plano nacional de saúde, trans- formou o sistema de transporte e de infra-estrutura no pior da Europa Ocidental e jogou os trabalhadores ingleses no pior lu- gar em relação aos direitos sociais. Sem dúvida alguma, a “Ter- ceira Via” não passa de um eufemismo para o neoliberalismo autoritário e para o militarismo.

A segunda versão da burguesia para o socialismo é a

socialdemocracia. Durante os últimos vinte anos, os partidos socialdemocratas e populistas da Europa e da América Latina abandonaram seus programas reformistas, de bem-estar social, em prol de políticas neoliberais, subordinando-se à hegemonia imperialista dos Estados Unidos, e, na América Latina, adotan-

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do programas de ajusta estrutural do FMI. Num breve espaço de tempo, os socialdemocratas e os populistas converteram-se ao

neoliberalismo, fazendo a redistribuição da riqueza entre as clas- ses altas e o capital estrangeiro. Não são mais partidos reformis- tas das classes trabalhadoras, são partidos reacionários, pró-imperialistas e neoliberais. Os melhores exemplos desta con- versão são, no Brasil, o PSDB, de Fernando Henrique Cardoso,

e, na Argentina, o Partido Peronista.

O terceiro exemplo de falso socialismo é o chamado “socia- lismo de mercado” chinês. A realidade política da China nos mostra a subordinação da propriedade social ao mercado capita- lista. O “socialismo” chinês não tem absolutamente nada de so- cialista: os trabalhadores chineses têm as jornadas de trabalho mais extensas, os piores salários e os menores direitos sociais de todos os trabalhadores asiáticos. Os capitalistas chineses e seus sócios de outros países têm lucros altíssimos e, ilegalmente, en- viam ao estrangeiro, anualmente, entre 30 e 40 bilhões de dóla- res, provocando o surgimento das maiores desigualdades sociais da Ásia. O Estado socializa as dívidas das empresas privadas e das elites estatais corruptas, que roubam milhões do tesouro nacio- nal para financiar seus investimentos,suas contas no estrangeiro

e seus estilos de vida de um luxo obsceno. O “Socialismo de

Mercado” é uma ideologia usada para justificar a transferência

da propriedade coletiva para o capitalismo selvagem.

O que o socialismo significa atualmente

Em contraposição a tais exemplos de “falso socialismo”, atualmente o verdadeiro socialismo, em primeiro lugar, implica na socialização dos meios de produção, na transformação da propriedade e no controle dos bancos, das fábricas, da terra, dos serviços sociais, do comércio exterior, assim como na transferência

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do poder dos capitalistas para os produtores diretos, para os consumidores e para os defensores do meio ambiente. O socialismo significa oposição a todas as guerras imperialistas, às intervenções militares, significa o apoio à autodeterminação das nações e dos movimentos de libertação nacional. Num regime socialista, a representação e as eleições terão lugar nos locais de trabalho, nos bairros e nas cooperativas, buscando a formação de uma assembléia nacional, que devera prestar contas diretamente

às organizações dos trabalhadores, dos camponeses e dos consumi- dores. O socialismo promoverá profundas reformas na família, no trabalho e nos serviços sociais para facilitar a igualdade entre homens e mulheres O orçamento deverá ser modificado para, em vez de subsidiar os capitalistas e de pagar a dívida externa, ser canalizado para um amplo e gratuito serviço de saúde, educação e lazer para o povo em geral.

As diferenças entre o verdadeiro e o falso socialismo são fun-

damentais e das quais não se pode esquivar. Não existem bases para uma aliança com o falso socialismo. Os antagonismos sociais entre as classes manifestam-se no conflito entre o verdadeiro e o falso socialismo. As diferenças não são apenas intelectuais; são,

também, práticas.

A via militante ao socialismo

O caminho para o socialismo implica numa série de ativi-

dades práticas para os militantes socialistas, em contrapartida às práticas elitistas dos líderes políticos do falso socialismo. Na

luta pelo socialismo, os militantes atuam em vários níveis de ação: 1) no comprometimento direto com as lutas cotidianas nos bairros, nos locais de trabalho e nas ruas; 2) na organização do movimento de massas, sem sectarismos, para promover uma reforma agrária integral, para promover a socialização das fá-

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bricas, da propriedade pública e dos bancos, assim como pro- mover o controle estatal do comércio exterior; 3) na organiza- ção dos militantes para a tomada do poder político – e não dando importância apenas à participação em fóruns internacio- nais, ou se reunindo com outros turistas de esquerda sem ne- nhuma base social em seus países de origem; 4) na reunião dos militantes em busca da solução dos problemas do dia-a-dia, dos problemas das massas e para estudar os processos políticos, as estruturas do poder, assim como a elaboração de alternativas revolucionárias; 5) na coordenação das lutas das massas com a criação de formas socialistas de organização e de participação em assembléias deliberativas; 6) na não aceitação de líderes que cultivam o personalismo e que subordinam as lutas e as organi- zações populares a seu poder pessoal; 7) no investimento de tempo e recursos pelos militantes na educação política de diri- gentes e organizadores, para que sejam capazes de tomar deci- sões difíceis, com discussão das táticas e da estratégia nas assembléias; 8) no enfrentamento, pelos dirigentes, dos mes- mos riscos a que estão sujeitos os seus dirigidos – os dirigentes de vem estar na linha de frente da luta, deixand0o de lado a política de gabinete. Para inspirar, na luta de massas, uma ati- tude resoluta, é importante “mostrar a cara”. A história e a experiência nos mostram que a ação popular direta de massas é o único caminho viável para se conseguir as mudanças fundamentais no poder, na propriedade e na auto- estima. Eleições para parlamentos impotentes não conduziram a nenhuma reforma digna desse nome nos últimos vinte e cinco anos. Dirigentes populares que começam seu trabalho político na esquerda e, depois, são eleitos para o parlamento, são assimi- lados pelo sistema e acabam discursando ao povo e trabalhando para o capital. No caso, a trajetória de Lula confirma esta análise.

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Ele começou liderando lutas populares e terminou abraçando a direita neoliberal em uma coligação eleitoral.

Combater ilusões: Eleições, a via parlamentar e as reformas

A aproximação do Partido dos Trabalhadores , no Brasil, à po- lítica neoliberal a possível escolha pelo candidato a Presidente da República pelo PT – Lula – de um grande empresário direitista – José de Alencar – como candidato à vice-Presidência na chapa petista, revela a decadência da esquerda parlamentar em sua evo- lução rumo à direita. Durante os últimos 25 anos de eleições par- lamentares, em que as massas, de maneira uniforme, serviram de base aos políticos burgueses e aos grandes financiadores em todas as campanhas eleitorais, a grande maioria da classe trabalhadora, dos camponeses e dos desempregados, sofreu uma severa queda em seu nível de vida. As campanhas eleitorais burguesas serviram de fachada para legitimar o poder e as decisões das elites não eleitas do FMI, do Banco Mundial e dos funcionários nativos a serviço da burguesia no poder. Como resultado, os líderes políticos eleitos levam adiante políticas conservadoras: a concentração das terras às custas dos camponeses sem terra e dos pequenos produtores; a corrosão dos direitos democráticos populares ao governar por de- creto e ao apoiar uma legislação antitrabalhadores; a imposição de uma política macroeconômica (o “neoliberalismo”), que destrói o mercado interno, desgasta o controle da coisa pública e solapa a propriedade dos setores estratégicos da produção, das matérias- primas e das finanças. Contrapondo aos fracassos das políticas elei- torais, a política da ação direta dos movimentos sócio-políticos do Brasil, Equador, Argentina e de outros lugares, têm acumulado vitórias com mudanças sociais e políticas significativas. O Movi- mento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Brasil, atra-

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vés de sua política de ocupações de terras, conseguiu o assenta- mento de mais de 250.000 famílias. A CONAIE, do Equador, já conseguiu destituir dois presidentes. Na Argentina, a união das forças dos movimentos de desempregados (Piqueteiros), das orga- nizações de vizinhos (panelas vazias) e dos jovens ativistas conse- guiram o não-pagamento da dívida externa, a destituição de cinco presidentes e, finalmente, criar um movimento popular de âmbito nacional contra toda a classe política burguesa. Em contraste com as vitórias práticas dos movimentos sócio- políticos comprometidos com a ação direta de massas, a impotên- cia, a corrupção e a cooptação da esquerda eleitoral salta à vista. O processo eleitoral não tem impacto sobre as políticas dos candidatos eleitos. Várias vezes, durante as campanhas eleitorais, os candidatos burgueses e os de esquerda prometem a criação de empregos, o ataque ao “neoliberalismo” e a defesa de um sistema econômico mais eqüitativo. Entretanto, quando assumem seus cargos, aprofundam e ampliam as privatizações, impõem novas políticas de ajuste estrutural e aumentam a repressão à luta dos movimentos populares. Os candidatos eleitos pelos partidos de esquerda se vêem impotentes na oposição ou, muito pior, evolu- em para alianças e colaboração com a direita, recebem grandes salários e, paulatinamente, se distanciam das lutas das massas, priorizando as atividades nas instituições. Freqüentemente, os políticos de esquerda transformam os militantes que os ajuda- ram a se eleger em funcionários de baixo nível e transformam os movimentos em comitês eleitorais. A transformação dos parti- dos socialdemocratas e populistas e seus líderes em adeptos do neoliberalismo significa que as principais organizações que lu- tam pela reforma agrária, pelo cancelamento da dívida externa, pelo sistema nacional de saúde etc., são os movimentos sociais de ação direta. Os velhos partidos socialdemocratas e populistas

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não são mais reformistas. São partidos que trabalham para o ca- pital local, multinacional e imperialista.

O enfraquecimento do reformismo socialdemocrata está re-

lacionado com o fato de que a burguesia dominante já não é “nacional” – produz para o mercado estrangeiro, deposita seus lucros no estrangeiro, depende de financiamentos estrangeiros e de tecnologia estrangeira Está integrada nos circuitos imperialis- tas do capital. Os socialdemocratas dependem do capital exter-

no e não podem promover reformas sociais sem sofrer fugas de

capital, pressões financeiras etc

cas de colaboração de classes e a construir poderosos movimen- tos de massas para realizar “reformas”, os socialdemocratas esquecem as reformas e se acomodam nos interesses de seus sócios capitalistas estrangeiros. O abandono pelos socialdemocratas de

seus programas reformistas de “bem-estar” social ilustra sua su- bordinação e sua dependência da orientação do capitalismo de mercado, das finanças e das redes imperialistas.

O fato de movimentos sócio-políticos, sindicatos e marxistas

continuarem apoiando “criticamente” os partidos ex-socialde- mocratas, converte-os em reféns da burguesia neoliberal e em traidores de seu compromisso com a transformação social. Com o colapso do projeto neoliberal – ilustrado pela falência da Argentina e pela recessão mundial – a possibilidade de refor- mas sociais e de uma recuperação do estado de bem-estar capita- lista é remota. As reformas pelo estado de bem-estar aconteceram num período de expansão capitalista na Europa e nos Estados

Instados a abandonar as políti-

Unidos, durante o período de 1950-1972, e na América Latina, entre os anos de 1940 e 1970. Atualmente, os capitalistas vêem os operários e os camponeses enquanto custo de produção para os mercados externos e não como um consumidor para o mercado interno.

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A polarização mundial provocada pela atual ofensiva militar

dos Estados Unidos enfraquece qualquer tentativa de as forças

reformistas organizarem coligações progressistas. O apoio dos socialdemocratas à cruzada contra-revolucionária de Washing- ton reforça as forças repressivas do Estado e a legislação repressi- va dirigida contra as reformas propostas pelos movimentos populares. Os socialdemocratas, enredados na polarização cada vez mais profunda entre o imperialismo e os movimentos populares, aban- donam sua oposição ao militarismo, à ALCA e à dívida externa. A recessão e a queda da arrecadação tornam impossível aos socialdemocratas subsidiar as exportações e as empresas falidas, socorrer instituições financeiras, pagar a dívida externa e, ao mes- mo tempo, financiar reformas sociais para as classes populares.

A queda das exportações, a diminuição dos investimentos

estrangeiros e a queda do Produto Interno Bruto significam que o projeto reformista, de apoiar o neoliberalismo ao mesmo tem- po em que incrementa os gastos sociais, não é viável. O compro- misso socialdemocrata de incrementar um modelo neoliberal no momento em que os Estados imperialistas aumentam o protecio- nismo e expandem a concessão de subsídios à sua agricultura, significa que a crise socioeconômica na América Latina será aprofundada e que seu regime político estará em crise perma- nente. A possibilidade de se combinar reformas sociais com regi- mes neoliberais é virtualmente nula. Somente os movimentos populares revolucionários ou ra-

dicais podem levar a cabo reformas, no transcurso de uma ação direta de massas, que edifiquem novas formas populares de representação. As reformas duradouras somente serão pos- síveis sob um novo Estado revolucionário de operários e cam- poneses.

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A conjuntura atual: Obstáculos e oportunidades

A luta pelo socialismo nesta conjuntura exige que evitemos

dois conceitos errados: 1) a suposição de que o imperialismo americano é onipotente e onipresente, que Washington automa- ticamente terá êxito em tudo o que diz ou faz; 2) a suposição de que o aumento das lutas populares na América atina, particular- mente na Argentina, significa que estamos entrando em um novo período revolucionário – em uma luta pelo Poder.

A ofensiva militar mundial dos Estados Unidos (sua rejeição

unilateral aos tratados de Kioto, de mísseis, de armas biológicas etc., a marginalização da Europa/OTAN pelos americanos no

massacre do Afeganistão, seu apoio incondicional aos israelenses no massacre dos palestinos, suas propostas de novas guerras con- tra o Irã, o Iraque e a Coréia do Norte, a intervenção americana em grande escala na Colômbia, a campanha para desestabilizar o Presidente da Venezuela, Chávez, o colossal aumento dos gastos

tem a função de deter o declínio de seu poder e a

influência no mundo. Antes dos acontecimentos de 11 de se- tembro de 2001, o Irã conseguiu enfraquecer o boicote dos Esta- dos Unidos, ob tendo financiamentos e promovendo o comércio com a Europa e a Ásia. O Iraque tornou-se membro efetivo da OPEP e da organização internacional dos países islâmicos. A Intifada Palestina e o Hezbollah, no Líbano, desafiam o poder israelense. Na América Latina, Chávez, na Venezuela, rechaçou a política imperialista americana – o bombardeio do Afeganistão, o Plano Colômbia, os vôos americanos sobre o espaço aéreo

militares

)

venezuelano e o cronograma dos Estados Unidos para a ALCA. Os avanços militares e políticos das FARCs e a degradação do regime fantoche de Pastrana, ameaçam o domínio americano e seu controle sobre a Colômbia. O colapso do regime pró-Esta- dos Unidos na Argentina, em dezembro, e os movimentos po-

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pulares ameaçaram o domínio americano em um país-chave na América Latina. No Brasil, a radicalização do eleitorado, os cres- centes protestos contra a ALCA, o crescimento dos movimentos populares (como o MST) e o enfraquecimento do governo FHC refletiram a queda da influência americana no maior e mais im- portante país latino-americano.

A consolidação da União Européia e da sua moeda, o euro,

ameaçou a supremacia do dólar e dos Estados Unidos como san-

tuário para as fugas de capitais. Os conflitos comerciais com a Europa resultantes dos subsídios e do protecionismo americano desafiaram a retórica de Washington sobre mercados livres.

A militarização da política dos Estados Unidos e seu

unilateralismo expõem a volta em direção ao imperialismo neomercantilista. Como reposta aos desafios mencionados, Wa- shington adotou uma nova estratégia: o neomercantilismo. A ALCA está fundamentada na idéia de um bloco comercial com o objetivo de concorrer com a Europa e privilegiar os investimen- tos e as exportações americanas. A defesa das posições econômi- cas monopolistas dos Estados Unidos depende de uma militarização cada vez maior e da intervenção americana para proteger e subsidiar os setores não competitivos de sua econo- mia. O neomercantilismo e a intervenção militar representam, sérias ameaças para os movimentos populares. Entretanto, as bases do poder imperialista dos Estados Unidos são vulneráveis e as contradições e as crises do império americano são profundas e crônicas, criando oportunidades para o avanço da luta pelo socia-

lismo. Enquanto os Estados Unidos expandem seu poderio militar pelo mundo afora e ameaçam os países de quatro continentes, sua economia encontra-se fragilizada, precisando financiar seu enorme déficit de suas contas com o exterior, não através de sua

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produção, mas com a emissão de dólares. Alguns de seus gigan- tes corporativos (Enron, Quest, Crossways) quebraram e os in-

vestidores perderam a confiança nos assessores de investimentos e nas agências contábeis de Wall Street. Os lucros sofreram redu- ção, assim como as exportações. Excedente do orçamento ameri- cano converteu-se num crescente déficit. Enquanto os gastos militares aumentaram, há menos recursos para subsidiar e/ou salvar as multinacionais em processo de quebradeira. E, o mais importante, os bancos americanos e as “agências de crédito” es- tão ameaçados por craques financeiros tipo Argentina, e por ne- gativas ao pagamento da dívida, que pode causar a ruína do império financeiro de Wall Street. As duas forças motrizes do império americano estão se mo- vendo em direções opostas: sua economia está em declínio, en- quanto seus gastos militares expandem-se, o que causa conseqüências insustentáveis. Mais ainda, as conquistas milita- res têm, de um lado, os inevitáveis custos, mas, de outro lado, não produzem lucros a curto ou a médio prazos. Os custos das intermináveis guerras em escala mundial agravarão mais e mais o

já grave desequilíbrio entre os investimentos improdutivos da

expansão militar e a atividade econômica em queda. A outra contradição encontra-se na transição dos Estados Uni- dos para um império neomercantilista. Na versão atual do impé-

rio, o Estado imperialista tem um papel central no estabelecimento

da

primazia econômica das corporações e dos bancos americanos.

O

Estado imperialista aumenta os subsídios agrícolas para con-

quistar mercados externos, mantém ou introduz novas barreiras e assegura, para as multinacionais americanas, contratos de recons-

trução nos países-cliente ao fim das guerras imperialistas. O Esta-

do imperialista provê subsídios para suas empresas exportadoras e

estabelece barreiras alfandegárias e cotas para proteção de suas in-

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dústrias cada vez menos competitivas (aço, automóveis etc.). Os Estados Unidos insistem no Acordo Latino-americano de Livre Comércio, que é um tratado comercial promovido pelo Estado e destinado a privilegiar os investimentos americanos à custa dos competidores europeus e japoneses. A melhor explicação para a postura militarista e unilateral de Washington encontra-se em seu redirecionamento rumo ao neomercantilismo: a intenção de assegurar vantagens comerciais

– não pela competência do mercado, mas através de decretos unilaterais de Estado e pela intervenção militar, que intimida os competidores e enfraquece ou desorienta o desenvolvimento de sua economia. Entretanto, o neomercantilismo acirra os conflitos e provoca maiores rivalidades entre os países imperialistas. A Europa tem denunciado as ameaças americanas contra os Estados produtores de petróleo do Golfo – Iraque e Irã – com os quais vem incrementando, tanto os investimentos, quanto o comércio de petróleo. Os países asiáticos, como a China e a Coréia do Sul, têm contestado as ameaças militares americanas contra a Coréia do Norte – ameaças essas que abalam o comércio e a ampliação dos investimentos interasiáticos. A aliança militar dos Estados Unidos com Estados árabes seus apaniguados é a contrapartida aos esforços da União Européia em tentar estreitar as relações com a Associação dos Estados Islâmicos. Na América Latina, a EU está promovendo um acordo de integração e de livre comér- cio com o MERCOSUL, a organização regional de comércio que inclui o Brasil, a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e a Bolí- via. Enquanto que a diferença de poderio militar entre os EUA e

a

EU se amplia, o mercado integrado da EU e seus vínculos com

o

exterior proporcionam um formidável desafio à construção do

império neomercantilista. À medida que as tensões e os conflitos

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são exacerbados, as rivalidades poderiam causar um impacto com

o enfraquecimento das bases econômicas do império militar

americano e seus esforços para debilitar a sociedade européia. Por exemplo, logo após as conquistas militares americanas no Afeganistão, estes se negam a cooperar com os europeus visando a erradicação dos cultivos de drogas, com um potencial de pro- dução de 4.500 t de ópio e 450 t de heroína – das quais 150 t irão abastecer a Europa e ameaçarão seu tecido social. (Financial Times, 18 de fevereiro de 2002, p. 3) Segundo, a invasão militar americana e os bombardeios vito- riosos não produzem áreas propícias a investimentos e que pro- duzam lucros: áreas potenciais para investimentos são destruídas

e são formadas economias corruptas, tribais e mafiosas, como

aconteceu em Kôsovo, na Albânia, na Macedônia e na Bósnia. No Afeganistão, os senhores tribais da guerra estão combatendo selvagemente por todo o país, inclusive em Cabul. Os regimes apaniguados de Washington acabam como Estados falidos, sem lei, incapazes de impor as mínimas condições de segurança, me- nos ainda de estabelecer as condições básicas para investimentos. Enquanto Rumsfeldt compara favoravelmente a conquista mili- tar do Afeganistão com o uso de alta tecnologia com a “bliekzkrieg” nazista na Europa (Financial Times, 18 de fevereiro de 2002, p. 4), a inovação no uso de armas guiadas pelo laser não produz o menor impacto para tirar os EUA de uma recessão industrial que já dura dois anos. O imperialismo de Washington, exatamente pelo fato de ter

vinculado seus Estados apaniguados do exterior com o mercado americano, espalhou sua crise pelo mundo todo. Todos os assim chamados “Estados protegidos neoliberais” tiveram redução em suas exportações, queda mos preços de suas mercadorias e tiveram muitas de suas empresas falidas. A ban-

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carrota da estratégia de crescimento “com base nas exportações” significa que os Estados apaniguados apresentaram sérias difi- culdades em suas receitas e em seus rendimentos, que os impe- dem de importar alimentos básicos e produtos acabados ou semi-acabados, o que provoca taxas negativas de crescimento, queda nos níveis de vida e pressões pela renacionalização das in- dústrias estratégicas e dos bancos, assim como uma mudança estratégica: a produção para o mercado interno. A oposição ao domínio americano e europeu alastrou-se, desde os desempregados e os pobres do campo a uma classe média empobrecida e com mobilidade social descendente. Isto está bas- tante claro na Argentina, onde a classe média teve todas as suas economias confiscadas pelo regime apaniguado em colaboração com os bancos estrangeiros. Como resultado, pela primeira vez na história recente da Argentina, a classe média desse país radicalizou suas exigências para incluir um amplo conjunto de reivindicações antiimperialistas. Por último, e o mais importante, a intervenção militar dos EUA em defesa de seus apaniguados e sua dependência quase exclusiva da guerra e das ameaças militares, está criando uma polarização favorável à esquerda, o que faz aumentar a oposição aos EUA e o isolamento de seus aliados. As 50.000 pessoas em passeata contra o Acordo de Livre Comércio, por ocasião do II Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em 4 de fevereiro de 2002, representam apenas a ponta de um “iceberg” da crescente oposição popular. Centenas de milhões de dólares de ajuda às forças militares e paramilitares da Colômbia não foram suficientes para modificar o equilíbrio das forças da guerrilha e dos militares desse país. Pelo contrário, de- formou ainda mais a economia do país e fortaleceu a oposição das organizações cívicas.

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Na Bolívia, no Paraguai e no Equador, as mobilizações de massas, as greves gerais e os bloqueios de estradas têm sido mais amplos e efetivos ao paralisar a economia, desacreditando os re- gimes apaniguados. No Brasil, o papel ativo dos movimentos populares e dos partidos de origem marxista nas lutas de massas ainda exerce uma poderosa influência em importantes setores da população. Ainda mais importante, o incessante caráter de massa dos levan- tes populares na Argentina e a renúncia imposta a cinco presi- dentes (“num curtíssimo espaço de tempo”) são indicadores do potencial revolucionário nesse país. Entretanto, esta contra-ofensiva popular – que, apesar da política de militarização global de Washington, segue em frente – tem suas limitações. Muitos dos movimentos de massas lutam por reivindicações específicas (comida e trabalho, por exemplo, para os desempregados argentinos); os movimentos são regio- nais e setoriais e ainda não contam com uma condução nacional capaz de propor o desafio da tomada do poder. Muitos dos diri- gentes ativistas desafiam os regimes apaniguados, mas, rapida- mente, negociam acordos de curto prazo (a maioria dos acordos nunca é cumprida pelo Estado). Dessa forma, entra-se num cír- culo vicioso de mobilização: ação direta – confrontação – nego- ciação – acordos – promessas não cumpridas – mobilização etc. etc. No entanto, já existem sinais importantes de um grande avan- ço nas questões políticas. Muitos dos ativistas e militantes lati- no-americanos estão totalmente desiludidos com os líderes eleitorais de esquerda. O pacto de Lula com o Partido Liberal e seu amplo apoio à política pró-capitalista obrigam à maioria da esquerda conseqüente a se voltar para a ação direta de massas e, possivelmente, para a formação de um novo pólo socialista. Na Argentina, as lutas nos bairros, nos subúrbios empobrecidos da

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classe trabalhadora, dos desempregados, dos setores da classe média com mobilidade social descendente, do funcionalismo, a data significativa não é o 11 de setembro, como quer Bush, mas os dias 19 e 20 de dezembro, os dias das barricadas e da derrota do regime fantoche neoliberal no poder.

Conclusão

Estamos vivendo um período de guerras imperialistas, levan-

tamentos populares, crescente militarização e polarização política

e social.

A intenção de Washington de formar uma aliança contra-

revolucionária mundial mostra fissuras cada vez mais profun- das. As bases econômicas do império apresentam enormes falhas. E a resistência popular está em fase de expansão nos países co-

lonizados. As alternativas reformistas, mesmo que ainda atuantes, já não são viáveis. Os políticos voltados para as eleições e para os parla- mentos encontram-se cada vez mais isolados das grandes con- frontações históricas. As grandes máquinas sindicais já não controlam nem detêm as lutas das massas. E é no interior dessas lutas que o socialismo está ressurgindo, tanto das cinzas da expe- riência stalinista derrotada e desacreditada, quanto de uma socialdemocracia igualmente corrupta e servil, chafurdada na lama neoliberal.

A luta pelo socialismo ressurge inicialmente através de uma

série de reivindicações por mudanças estruturais: reforma agrá-

ria, renacionalização dos bancos, dos sistemas de telecomunica- ções e dos recursos estratégicos. No entanto, o avanço do

socialismo não se desenvolve de forma linear: sofremos derrotas

e retrocessos, com dirigentes históricos da classe trabalhadora, como Lula e o Partido dos Trabalhadores, no Brasil, comprome-

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tendo-se com a reação e desorientando seus partidários da classe operária. Um regime neoliberal é derrubado (De La Rúa) e subs- tituído por outro (Duhalde) na Argentina. Interrupção de rodo- vias e greves na Bolívia desafiam o Estado, mas terminam repentinamente sem tocar nas questões fundamentais. Na Co- lômbia, a insurreição popular desenvolve-se de forma desigual:

poderosa no campo, fraca nas cidades. E as rivalidades pessoais e divisões entre “reformistas” e revolucionários continuam. A coordenação internacional entre os movimentos nacionais e a organização de manifestações internacionais deve ser parte integrante do calendário político. As lutas nacionais, os movi- mentos localizados formam militantes revolucionários conscientes no interior dos movimentos. O império não pode estar sempre em todo lugar, não é onipresente. À medida que a luta pelo socia- lismo se estende dos militantes para as massas, a ameaça da re- pressão e da propaganda contra-revolucionária deixa de intimidar os movimentos de massas. Os desempregados, os empobrecidos, os desamparados, com os olhos famintos e os punhos cerrados, avançam: a questão é quem organizará a luta pelo poder político socialista.