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Reencarnação E Carma
À Luz Das Modernas Concepções Da Ciência
Natural

Rudolf Steiner
Por ter afirmado que os animais, mesmo os mais inferiores, nascem
mediante reprodução, o naturalista italiano Francesco Redi, do século
XVII, foi considerado pela sabedoria da época um herege de grande
periculosidade e por pouco escapou do mesmo destino de mártir de
um Giordano Bruno ou de um Galileu Galilei. Os ortodoxos sábios de
então acreditavam que os vermes, os insetos e os próprios peixes
nasciam da lama inanimada. Outra coisa não disse Redi senão aquilo
que hoje é universalmente aceito, ou seja, que todo ser vivo provém
de outro ser vivo. Cometeu ele, no entanto, o pecado de reconhecer
uma importante verdade dois séculos antes de a Ciência ter
encontrado a correspondente ‘prova irrefutável’. Depois das inves-
tigações levadas a efeito por Pasteur, tornou-se impossível negar
tratar-se simplesmente de uma ilusão quando outrora as pessoas
acreditavam que certos seres vivos podiam nascer de substâncias sem
vida, mediante ‘geração espontânea’. Os germes vitais que penetram
nessas substâncias escapavam-lhes à observação. Valendo-se de
meios seguros, Pasteur impediu o ingresso desses germes em
substâncias onde habitualmente surgiam seres vivos diminutos, e não
mais apareceu qualquer vestígio de vida. O vivo, pois, só pode provir
de um germe vital. Redi tinha toda a razão.
É em situação semelhante à do pensador italiano que se encontra hoje
o antropósofo. Pelo conhecimento que possui, este dirá do anímico o
mesmo que Redi disse do vivo. Sustentará que todo anímico só pode
provir do anímico. E dirá que se a Ciência Natural ainda se encontra
na mesma linha de pensamento que segue desde o século XVII, tempo
virá em que ela mesma, por seus próprios meios, adotará esta
convicção, já que — e urge acentuar sempre isto — hoje a concepção

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antroposófica se baseia exatamente no mesmo modo de pensar em
que se baseia a Ciência Natural para afirmar que os insetos, os vermes
e os peixes não nascem da lama, e sim de germes vitais. A afirmação
antroposófica de que “todo anímico provém do anímico” tem o
mesmo sentido e possui a mesma transcendência da lei científico-
natural segundo a qual “todo vivo provém do vivo”.(1)
Os costumes de hoje são diferentes dos do século XVII. Porém os
sentimentos que norteiam os costumes não mudaram muito. No
século XVII, as concepções heréticas eram combatidas com meios
atualmente considerados desumanos. Hoje os antropósofos não são
ameaçados com a morte na fogueira: para torná-los inofensivos, basta
qualificá-los como confusos e fanáticos. Os suplicios da antiga
Inquisição foram substituídos por um novo tipo de tortura: a
jornalística. Assim, os antropósofos continuam vivendo: consola-os a
certeza de que chegará o momento em que um Virchow qualquer1
dirá mais ou menos isto: “Houve época — felizmente já ultrapassada
— em que se acreditava que a alma nasce por si mesma, quando
certos complicados processos físico-químicos ocorrem no interior do
crânio. Hoje em dia, porém, essas idéias ingênuas foram totalmente
eliminadas de qualquer pesquisa séria, e eis que todo anímico provém
do anímico.” E o coro dos jornalista ‘esclarecidos’ das mais variadas
orientações sectárias, excluído o jornalismo ingênuo, dirá: “O genial
cientista ‘X’ desfraldou corajosamente a bandeira da psicologia
esclarecida, dela banindo a concepção mecanicista da natureza,
superstição que ainda em 1903, numa reunião de cientistas naturais,
fora triunfalmente proclamada pelo químico Ladenburg, de Breslau”
Não cometamos, no entanto, a insensatez de pretender que a Ciência
Espiritual comprove suas verdades partindo unicamente da Ciência
Natural. O que importa é ressaltar a circunstância de a Ciência Espiri-
tual possuir o mesmo caráter da Ciência Natural. O antropósofo
apenas completa, na esfera da alma, o que o cientista natural procura
obter com o auxílio do que pode ver com os olhos e ouvir com os
ouvidos. Entre a legítima investigação natural e a Ciência Espiritual
não há nem pode haver contradição alguma. O antropósofo mostra
que as leis adotadas por ele em relação à vida anímica guardam

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Rudolf Virchow (1821—1902). patologista alemão. (N.E.)

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correspondência com as leis que regem os fenômenos da natureza
exterior; e assim pode proceder por saber que o sentimento cognitivo
do ser humano só se dá por satisfeito ao constatar que existe
harmonia, e não contradição, entre os diversos domínios de
manifestação da existência. Hoje, muitos dos que revelam um esforço
pelo conhecimento e pela verdade são conhecidos como partidários de
determinadas opiniões. Tais verdades chegam até as demais pessoas,
por assim dizer, rolando pelas ruas. Os suplementos literários dos
jornais levam às pessoas cultas, e também às incultas, as leis segundo
as quais os animais superiores evoluem a partir dos inferiores, bem
como o total parentesco que existe entre o homem e os animais
superiores. E os apressados escritores dos semanários não se cansam
de inculcar nos leitores o que estes devem pensar a respeito do
‘espírito’ na era do ‘grande Darwin’. Só muito raramente acrescentam
que na obra principal de Darwin se encontra também este trecho:
“Julgo que todos os seres orgânicos que existem ou existiram sobre a
Terra descendem de um arquétipo cuja vida foi soprada pelo Criador.”
Numa época destas, torna-se cada vez mais necessário mostrar que,
embora a Antroposofia não lide assim tão facilmente com o ‘sopro da
vida’ ou ‘da alma’, como fazem Darwin e muitos darwinistas, suas
verdades em nada se opõem aos legítimos resultados da Ciência
Natural. A Antroposofia não pretende entrar nos segredos da vida
espiritual apoiada nas muletas da Ciência Natural contemporânea,
mas quer tão-somente dizer: — Conhecendo as leis da vida espiritual,
ao desceres para a região onde podes ver com os olhos e ouvir com os
ouvidos, encontrarás a correspondente confirmação daquelas leis
superiores. — A Ciência Natural, em seu atual estágio, não está em
contradição com a Ciência Espiritual, senão que ela própria é uma
ciência espiritual elementar. Haeckel só obteve tão belos resultados
no domínio da vida animal porque aplicou no estudo da evolução dos
animais as mesmas leis que o psicólogo há tanto tempo aplica à alma.
Não importa que ele não se tenha convencido disto, por desconhecer
as leis da alma e ignorar completamente as pesquisas possíveis nesse
campo. Isto em nada diminuí a importância dos resultados a que
chegou em seu campo. Os grandes homens têm os defeitos de suas
virtudes. É nosso dever mostrar que nos domínios onde se sente em
casa, Haeckel não é outra coisa senão antropósofo.

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Esta correlação com o conhecimento científico atual oferece ao
cientista espiritual ainda um outro recurso. Os objetos da natureza
exterior, de certo modo podemos tê-los na mão. Por isso é fácil
explicar suas leis. Não há qualquer dificuldade para termos presente
em nossa mente que as plantas se modificam quando transportadas de
uma região para outra. A demonstração do fenômeno pelo qual certos
animais perdem a faculdade de ver ao permanecerem por muito tempo
em cavernas escuras não requer grande capacidade de representação.
Mas quando as leis que regem esses fenômenos se tornam evidentes,
podemos então, partindo delas, chegar com mais facilidade às leis
menos visualizáveis e menos compreensíveis que nos confundem no
terreno psíquico.
Ao socorrer-se da Ciência Natural, outra coisa não colima o
antropósofo senão ilustrar. Ele deve mostrar que as verdades
antroposóficas são reencontráveis nesses domínios, e que a Ciência
Natural outra coisa não poderá ser senão uma ciência espiritual
rudimentar; e terá de servir-se das concepções científico-naturais para
poder chegar às suas concepções, mais elevadas, assernelhada s
àquelas.
É possível objetar que, neste terreno, qualquer inclinação para as
concepções científico-naturais hoje vigentes poderia levar a Ciência
Espiritual a uma situação equívoca, já que essas concepções não
possuem qualquer embasamento seguro. Está certo: alguns in-
vestigadores da natureza consideram certos princípios do darwinismo
como verdades irrefutáveis, ao passo que outros já estão falando na
‘crise do darwinismo’. Uns encontram na ‘onipotência da seleção
natural’ e na ‘luta pela existência’ as bases firmes de uma explicação
completa da evolução dos seres vivos, mas outros acham que essa
‘luta pela existência’ é a doença infantil da nova Ciência Natural, e
passam a discorrer sobre a ‘impotência da seleção natural’.
Enquanto a discussão gira somente em torno desses pontos
específicos, o melhor que o antropósofo teria a fazer seria não se
preocupar com isto, aguardan do momento mais oportuno para a
Antroposofia e a Ciência Natural entrarem em acordo. Mas o
importante não é exatamente isto, e sim uma determinada men-
talidade, um modo de pensar dos cientistas naturais de nosso tempo,
determinadas grandes linhas diretivas respeitadas em toda a parte,

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ainda que exista uma profunda divergência entre pesquisadores e
pensadores a respeito de algumas questões específicas. É verdade: as
concepções de Ernst Haeckel e de Virchow sobre a ‘origem do
homem’ diferem enormemente entre si. Mas quem propende para a
Antroposofia só pode alegrar-se ao ver personalidades reconhecidas
como autoridades raciocinar, quanto a determinados enfoques sobre a
vida anímica, de maneira tão clara como estes antagonistas o fazem a
respeito do que sempre defenderam como algo absolutamente seguro.
Nem os seguidores de Haeckel nem os de Virchow buscam hoje a
origem dos vermes na lama inanimada, e nem os primeiros ou os
segundo duvidam do princípio de que “tudo o que é vivo provém do
vivo”, no sentido acima indicado. Na Psicologia, no entanto, ainda
não fomos tão longe. Seus enfoques, por absoluta falta de clareza, não
podem ser comparados aos persuasivos fundamentos da Ciência
Natural. Quem deseja explicar a forma e o modo de vida de um verme
sabe que terá de chegar ao embrião do verme e seus antepassados.
Conhece, portanto, o rumo de sua investigação, embora sobre tudo o
mais reinem variadas opiniões, ou até se diga que os tempos ainda não
estão maduros para a formação de um juízo relativo a certos pontos.
Onde semelhante clareza na psicologia? A circunstância de a alma(2)
possuir qualidades espirituais e o verme atributos físicos impede que
se chegue a uma dessas realidades com o mesmo modo de pensar
utilizado para atingir a outra. Nossa época, entretanto, encontra-se sob
o influxo de hábitos de pensar que fazem com que inúmeras pessoas,
dentre as que se ocupam destas coisas, não concordem com essa
exigência de tratamento diferenciado. Aceita-se, é verdade, como algo
necessário que as qualidades anímicas do homem devam provir de
algum lugar, tal como as físicas. A este respeito, teceram-se
considerações sobre como explicar o fato de serem tão diferentes as
almas de crianças crescidas em circunstâncias semelhantes, e de até
mesmo gêmeos se diferenciarem tanto um do outro em suas
características essenciais, embora sempre tivessem estado sob os
cuidados de uma mesma ama, num mesmo lugar. Ocasionalmente é
referido também que os últimos anos de vida dos irmãos siameses
teriam sido muito desgastantes, em conseqüência de suas simpatias

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opostas quanto à guerra civil norte-americana.2 Aliás, não seria de
modo algum correto afirmar que não tenham sido realizadas
cuidadosas observações e reflexões sobre tais fenômenos, e que não
existam trabalhos notáveis a este respeito. Mas, quanto ao anímico,
esses trabalhos habitualmente se comportam do mesmo modo como o
cientista natural se comportava com relação ao vivo ao afirmar
simplesmente que o vivo descende da lama inanimada. É de todo
justificável que, para explicar as qualidades anímicas inferiores, suba-
se até aos antepassados e se fale de transmissão hereditária, tal como
se faz quanto às peculiaridades corporais. Porém, quando se segue
esta mesma orientação para explicar as qualidades superiores da alma,
ou seja, aquilo que o homem possui de verdadeiramente espiritual,
então é porque se quer fechar os olhos diante do que de mais essencial
existe. As pessoas já se habituaram a considerar as qualidades aní-
micas superiores como um aprimoramento ou um grau mais elevado
das inferiores. E por isto acham que lhes basta uma explicação
orientada no mesmo sentido da que é destinada às qualidades
anímicas dos animais.
É inegável que a observação do desempenho de certas funções
anímicas dos animais superiores pode facilmente conduzir a esse
modo de ver. Para tanto, é suficiente referir os cães, que dão provas
notáveis de possuírem uma memória fiel; ou os cavalos que, sentindo
a falta de uma ferradura, dirigem-se por si ao ferreiro onde costumam
ser ferrados; basta pensar nos animais que abrem a tranqueta do
compartimento onde foram encarcerados, e tantas outras coisas
semelhantes que nos espantam. Certamente, tampouco o antropósofo
deixará de reconhecer todos esses aprimoramentos da capacidade
animal. Dever-se-á, porém, em razão disto, deixar de distinguir a
diferença existente entre as características animais inferiores, que o
homem tem em comum com os animais, e as qualidades espirituais
superiores, que somente ele possui? Só podem pensar assim aqueles a
quem os dogmas preconceituosos da ‘ciência’ tenham deixado
inteiramente cegos, aqueles que queiram permanecer presos ao que é
sensorial e tosco. Consideremos apenas o fato aceito e indubitável de

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Chang e Eng, gêmeos nascidos na Tailândia em 1811 e falecidos em Nova Iorque em 1874. Eram ligados por
uma membrana na altura do tórax, tendo dado origem à denominação ‘gêmeos siameses’ (xifópagos). (N.E.)

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que os animais, mesmo os mais evoluídos, não conseguem contar e,
assim, não aprendem a calcular. Nos antigos centros de sabedoria,
emprestava-se a maior importância ao fato de os homens serem capa-
zes de contar, porque isto os distinguia dos animais.
Poder contar é a mais simples e trivial capacidade anímica.
Justamente por isto é trazida aqui como o ponto-limítrofe onde o
anímico-animal chega à fronteira do anímico-espiritual, do humano-
superior. Também aqui se torna, obviamente, facílimo apresentar
objeções. Primeiramente, é possível alegar que a última palavra ainda
não foi dada, podendo muito bem ser que um dia se consiga o que até
hoje não aconteceu: ensinar certos animais inteligentes a contar. Em
segundo lugar, pode-se acenar para o fato de o cérebro do homem ser
muito mais perfeito que o dos animais, o que é explicável em razão
das funções anímicas superiores do ser humano. É de aplaudir — não
uma, mas cem vezes — o autor dessas objeções. Contudo, diante
delas fica-se na mesma situação de quem, ante o fato de que todo vivo
provém do vivo, segue explicando: “Mas as leis físicas e químicas
que imperam no verme são as mesmas que atuam na lama, sendo
apenas mais complexas.” É deveras difícil ajudar quem julga possível
desvendar os segredos da natureza com o auxílio de trivialidades e
obviedades. Certas pessoas acham que o grau de conhecimento
alcançado por elas é o mais alto imaginável, e por isto não lhe ocorre
que outra pessoa poderia ter formulado essas mesmas objeções triviais
mas não o fez simplesmente por ter constatado sua nenhuma valia.
Nada há a objetar quanto à afirmação de que todas as funções
superiores no mundo são apenas um aperfeiçoamento das inferiores, e
de que as leis vigentes no verme são um aperfeiçoamento das que se
apresentam na lama. Todavia, assim como hoje nenhuma pessoa bem
informada dirá que o verme se origina da lama, do mesmo modo
nenhum pensador lúcido poderá pretender explicar o anímico-
espiritual com o mesmo conceito-padrão próprio do anímico-
espiritual. Assim como se fica com uma sucessão de seres vivos para
explicar a origem do vivo, ter-se-á de permanecer no domínio do
anímico-espiritual para entender de onde ele provém.
Existem fatos, observáveis em toda parte, presenciados por inúmeras
pessoas sem que lhes ocorra qualquer pensamento especial a respeito
deles. No entanto, um dia chega alguém que enxerga nesse fato, aces-

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sível a todos, uma verdade importante. Ao observar uma lâmpada que
oscilava pendurada ao teto de uma igreja, Galileu constatou a magna
lei da oscilação do pêndulo. Anteriormente, inúmeras pessoas haviam
visto lâmpadas de igreja a balançar, mas não foram capazes de fazer
esta profunda observação, O que importa é ligar pensamentos corretos
às coisas que se vêem. Há um fato, inteiramente acessível a qualquer
pessoa, o qual se corretamente observado projeta luz sobre o caráter
do anímico-espiritual. Referimo-nos à simples verdade de que toda
pessoa possui uma biografia, mas o animal não. Certamente muitos
hão de retrucar: não será acaso possível descrever a história da vida
de um gato ou de um cão? Deve-se responder que sim, sem dúvida,
mas que também existem deveres escolares pelos quais se exige da
criança a narração das vicissitudes de uma caneta. “Todavia, o que
cumpre ressaltar é que a biografia tem, para cada ser humano consi-
derado individualmente, o mesmo interesse fundamental que, para o
animal, tem a descrição de sua espécie. No mesmo sentido em que no
caso do leão interessame a descrição da espécie leão, no caso de
determinada pessoa o que me interessa é sua biografia. Descrevendo a
espécie humana, à qual pertencem Schiller, Göethe e Heine, não
esgotamos o conhecimento sobre estas personalidades no mesmo
sentido em que esgotamos o conhecimento sobre o leão ao conhecê-lo
como exemplar de uma espécie. O homem singular é mais do que um
exemplar do gênero humano. Possui em comum com seus
antepassados físicos as características de sua espécie, e isto no mesmo
sentido em que os animais. Mas onde termina a conformidade à
espécie começa, para o homem, o que determina a singularidade de
sua atuação é sua missão no mundo. E onde isto começa, cessa
qualquer possibilidade de explicação segundo os padrões da
hereditariedade físico-animal. Posso atribuir o nariz, os cabelos de
Schiller e talvez mesmo certas qualidades de seu temperamento a seus
antepassados, mas não posso fazer o mesmo com seu gênio. E
obviamente isto não é válido unicamente para Schiller. Vale também
para a dona Maria da província. Também nela encontramos — é só
querer — o anímico-espiritual, que nunca será o mesmo encontrável
em seus pais e avós como o serão seu nariz e seus olhos azuis. Göethe
efetivamente disse que do pai tinha a estatura e também a seriedade
diante da vida, enquanto que da mãezinha herdara a natureza alegre e

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o gosto de fabular, razão pela qual nada de original havia a mencionar
quanto à sua insignificante pessoa. Apesar disto, ninguém pretenderá
explicar os dons de Göethe como herança paterna ou materna,
dizendo-se satisfeito com isto, tal como se contenta ao explicar a
forma e o modo de vida do leão em função de seus ascendentes. Eis o
rumo que a psicologia terá de tomar se quiser unir estes dois
princípios: “Todo vivo provém do vivo” e “Todo anímico só é
explicável pelo anímico”. Adiante, prosseguindo sempre nesta mesma
direção, mostraremos que as leis da reencarnação e do carma, quando
assim vistas, tornam-se uma necessidade científico-espiritual.
É deveras estranho que tantas pessoas deixem de lado o problema da
origem da alma humana unicamente por medo de estarem entrando
numa região insegura do saber. E preciso que saibam o que Carl
Gegenbaur, o grande pesquisador da natureza, disse do darwinismo.
Ainda que as afirmações imediatas de Darwin não sejam corretas,
conduziram a descobertas que de outro modo não teriam sido feitas.
Darwin mostrou, esclarecedoramente, como as formas vitais evoluem
umas das outras, e isto estimulou o conhecimento das correlações
entre essas formas. Mesmo os que combatem os erros do darwinismo
deveriam ter sempre presente que este mesmo darwinismo trouxe
clareza e segurança à investigação da evolução dos animais e das
plantas, conseguindo assim trazer luz à obscura região da atuação
natural. Seus erros, ele próprio os sobrepujará. Se não existisse o
darwinismo, não poderíamos dispor dos resultados por ele obtidos. E
quanto às concepções antroposóficas sobre a vida espiritual, idêntica
aceitação deveriam manifestar mesmos aqueles que se sentem
inseguros diante de tais ensinamentos. Ainda que estas convicções
não fossem totalmente corretas, elas são, por si sós, capazes de
projetar luz sobre os enigmas da alma. Também a elas muito devem a
clareza e a segurança. E como isto está relacionado com nosso destino
espiritual, com a finalidade de nossa condição humana e com nossa
verdadeira missão, a consecução dessa clareza e desta segurança
deveria ser a preocupação maior de nossa vida. Neste domínio, todo
esforço para obtenção de conhecimentos é, simultaneamente, uma
necessidade moral e um compromisso ético irrenunciável.
Com sua obra intitulada Der alte and neue Glaube [A crença antiga e
a crença moderna], surgida em 1872, David Friedrich Strauss quis

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oferecer uma espécie de bíblia do homem moderno ‘esclarecido’. A
‘crença moderna’ apóia-se nas revelações da Ciência Natural e não,
como querem os chamados apóstolos do iluminismo, já ultrapassados,
nas revelações da ‘crença antiga’. A nova bíblia foi escrita sob a
influência das idéias darwinistas e provém de uma individualidade
que assim se expressa a seu próprio respeito: “Quem, como eu, se
considera destituído de preconceitos, há muito, mesmo antes de
Darwin, não acredita na ‘revelação sobrenatural’ e seus milagres.”
Strauss foi claro: as leis que governam a natureza são necessárias e
imutáveis, e o que a Bíblia nos relata como milagre seria uma
perturbação ou quebra dessas leis, o que não pode ocorrer. Sabemos,
pelas leis naturais, que nenhum morto retorna à vida. Portanto, nem
mesmo Jesus poderia ter ressuscitado Lázaro. Havia, no entanto —
prossegue nosso despreconcebido pensador — uma lacuna em nossa
explicação da natureza. Pelas leis imutáveis da natureza, podíamos
explicar os fenômenos somente onde não existe vida; mas quanto ao
surgimento das múltiplas espécies de plantas e animais, bem corno do
próprio homem, não podíamos formar qualquer representação
compatível com leis naturais. Acreditávamos que, também aí, as leis a
serem consideradas seriam leis naturais necessárias; mas quais seriam
elas e como atuariam, a tal respeito nada sabíamos. Apesar dos
esforços feitos, nada era possivel opor razoavelmente ao que Lineu, o
grande naturalista do século XVI1I, afirmou: “As espécies existentes
no reino animal e vegetal são tantas quantas no princípio foram
originalmente criadas.” Não estávamos, aí, diante de tantos milagres
da Criação quantas eram as espécies de plantas e de animais? De que
nos servia nossa convicção de que Deus não podia ter ressuscitado
Lázaro por uma intromissão sobrenatural na ordem natural, por um
milagre, se éramos obrigados a aceitar todos esses incontáveis
acontecimentos sobrenaturais? Veio então Darwin e nos mostrou que,
por leis naturais imutáveis — a da adaptação e a da luta pela
existência — as espécies vegetais e animais surgem à semelhança dos
fenômenos da natureza inanimada. Ficou, assim, preenchida a lacuna
que havia em nossa explicação da natureza.
Coerente com o posicionamento desta convicção, David Friedrich
Strauss escreveu em seu livro já mencionado estas palavras:

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Nós, filósofos e teólogos críticos, fizemos bem em eliminar o milagre,
mas nossa autoridade resultou inútil por julgarmos dispensável
demonstrar a existência de uma força natural capaz de substituir o
que até então era tido como de todo indispensável. Darwin
comprovou a existência desta força natural, destes processos
naturais; abriu a porta pela qual uma posteridade mais feliz jogará
fora para sempre o milagre. Qualquer pessoa que saiba o que está
implícito no milagre irá louvá-lo, com razão, como um dos maiores
benfeitores do gênero humano.
Há um clima de vitória nestas palavras. E todos quantos
experimentam o mesmo sentimento de Strauss darão início a uma
‘nova crença’ baseada nesta visão: um dia, outrora, pequenas
partículas sem vida, por virtude de forças inatas, aglomeraram-se de
modo a produzir matéria viva; esta evoluiu segundo leis necessárias e
formou o ser vivo mais simples e imperfeito, o qual, seguindo leis
igualmente necessárias, transformou-se em verme, em peixe, em
serpente, em marsupial e, por fim, em macaco. E visto que Huxley, o
grande naturalista inglês3, demonstrou que a constituição do ser
humano é muito mais semelhante à dos símios inferiores, qual a
objeção possível à crença de que o próprio homem haja evoluído dos
símios superiores, segundo estas mesmas leis naturais? E mais: acaso
não encontramos nos animais, em estado imperfeito, o que chamamos
de atividade espiritual superior do homem, ou moral? Cabe-nos
duvidar que os animais, quando sua constituição se aperfeiçoar e
evoluir no sentido da forma humana, com base em leis meramente
físicas, possam atingir o pináculo humano, inclusive quanto à
atividade racional e moral, que já se encontra neles?
Tudo aqui parece efetivamente harmonizar-se da melhor maneira. É
verdade que somos todos obrigados a concordar que nosso
conhecimento da natureza será por muito tempo ainda insuficiente
para compreender em detalhes o modo como isto ocorrerá por si.
Todavia, novos fatos e novas leis serão continuamente descobertos e
tornarão cada vez mais sólidos os fundamentos da ‘nova crença’.

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Thomas Henry Huxley (1825—1895), naturalista darwinista. Foi avô do escritor inglês Aldous Huxley
(1894—1963). (N.E.)

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Embora na verdade os estudos e as pesquisas mais modernas não
amparem esta crença e, ao contrário, contribuam para enfraquecê-la,
prossegue ela alastrando-se por círculos cada vez maiores e representa
um sério obstáculo para quaisquer outras reflexões.
Não há dúvida de que, se a razão está com David Friedrich Strauss e
seus companheiros de credo, todo e qualquer pronunciamento a
respeito de leis espirituais superiores da existência torna-se um
disparate: a ‘nova crença’ teria de ser erigida com base
exclusivamente nos fundamentos que essas personalidades afirmam
serem derivados do conhecimento da natureza.
No entanto, para quem encara sem preconceitos as explicações desses
‘crentes’, existe um fato singular. E este fato se mostra inatacável,
especialmente quando consideramos os pensamentos daqueles que,
diante das afirmações feitas com tanta segurança pelos iluministas
ortodoxos, guardaram uma certa imparcialidade. Há certos ângulos
obscuros escondidos na confissão dos neocrentes. Quando se descobre
o que neles se oculta, resplandecem os verdadeiros frutos da nova
Ciência Natural com um brilho refulgente, e as opiniões dos
neocrentes a respeito do ser humano começam a esmaecer.(3)
Aclaremos alguns desses ângulos. Detenhamo-nos primeiramente na
figura daquele que é o mais notável e venerável entre todos esses
neocrentes. Na página 804 da nova edição de Natürlicher
Schopfungsgeschichte [História da criação natural], de Haeckel, lê-se:

O resultado final [da comparação entre os animais e os homens] é


que entre as almas animais mais desenvolvidas e as almas humanas
de mais baixo nível existe apenas uma diminuta diferença
quantitativa, mas nenhuma diferença qualitativa; esta diferença é
muito menor do que a existente entre as almas humanas mais
elevadas e as mais inferiores, ou do que a diferença entre as almas
animais mais elevadas e as mais inferiores.
Como se comporta o neocrente diante deste fato? Proclama que a
diferença entre as almas animais mais e menos elevadas são
explicáveis em razão de leis naturais necessárias e imutáveis.
Estudando estas leis, perguntamo-nos: como teria sido possível aos
animais de alma superior evoluir a partir dos que têm alma inferior?

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Procuramos na natureza as condições pelas quais o que é inferior pode
tornar-se superior. Verificamos então, por exemplo, que animais
provenientes de outros lugares tornaram-se cegos ao derivar para as
cavernas do Kentucky. Constatamos que a permanência no escuro
suprime a atividade dos olhos. Neles não mais se cumpre aquela
atividade físico-química que ocorre no ato de ver. A corrente
nutritiva, que antes era aplicada nessa atividade, doravante flui para
outros órgãos. Os animais mudam sua forma. Desse modo podem
surgir novas espécies animais das antigas, caso a natureza produza
nessas espécies mudanças suficientemente grandes e variadas. O que
acontece aí? A natureza efetua modificações em certos seres; e estas
modificações aparecem também em seus descendentes. Diz-se que
elas são herdadas. Fica assim esclarecido o surgimento de novas
espécies de animais e plantas.(4)
E a explicação dos neocrentes prossegue animada. A diferença entre
as almas humanas inferiores e as almas animais superiores não é
assim tão grande. Portanto, determinadas condições de vida a que
foram submetidas almas animais superiores produziram-lhes
modificações mediante as quais elas se tomaram almas humanas
inferiores. O milagre da evolução da alma humana — para usar
palavras de Strauss — foi, assim, definitivamente expulso do templo
da nova crença, ficando o homem, segundo leis ‘eternas e
necessárias’, situado no mesmo nível do mundo animal. Satisfeito
com isto, volta o neocrente a cochilar tranqüilo e, doravante, não quer
avançar mais.
Um pensar honesto necessariamente perturbará sua sonolência, pois
manterá fantasmas vivos junto ao leito onde dormita. Examinemos
mais de perto a afirmação de Haeckel acima referida — a de que “a
diferença [entre os animais superiores e o homem] é muito menor do
que a diferença entre as almas humanas superiores e as inferiores”.
Deve o neocrente, ao concordar com isto, cochilar em paz, julgando
ter explicado como o homem evoluiu do animal superior?
Não, não deve, pois se o fizer estará negando o próprio fundamento
sobre o qual construiu sua convicção. Como reagiria um neocrente
diante de outro que dele se aproximasse e dissesse: “Já demonstrei
como os peixes procedem dos seres vivos inferiores e dou-me por
satisfeito com isto. Demonstrei que tudo evolui — logo, também as

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espécies que se situam acima dos peixes evoluíram como eles.”
Responderia, sem dúvida, o neocrente: “Não tem fundamento esta tua
idéia de uma evolução geral, pois te falta compreender como surgem
os mamíferos, já que a diferença entre eles e os peixes é maior do que
a existente entre os peixes e os animais que lhes são imediatamente
inferiores.” E o que sucederia caso o neocrente fosse realmente fiel a
seu credo? Teria de dizer: “A diferença entre as almas humanas
superiores e inferiores é maior do que a existente entre estas últimas e
as almas animais situadas logo abaixo delas; devo, pois, reconhecer
que existem no Universo causas que produzem modificações nas
almas humanas inferiores, transformando-as tal como as causas por
mim constatadas transformam os animais inferiores em superiores. Se
não pensar assim, então também o surgimento das espécies de almas
humanas continuará a ser para mim um milagre, tal como, para os que
não acreditam na modificação do ser vivo segundo leis naturais,
constituem milagre as diferentes espécies de animais.”
E isto é absolutamente certo: os neocrentes, que se julgam tão
esclarecidos por achar que ‘expulsaram’ o milagre do mundo vivo,
são milagreiros, sim, pois rendem culto ao milagre no domínio do
inundo anímico. E só não são iguais aos milagreiros que tanto
desprezam porque estes admitem honestamente sua crença; aqueles,
porém, sequer suspeitam que foram acometidos da mais sombria
superstição.
Aclaremos agora um outro ângulo obscuro da ‘nova crença’. O dr.
Paul Topinard coordenou admiravelmente bem, em sua obra
Anthropologie [Antropologia], os resultados da moderna doutrina da
origem humana. Na parte final do livro, recapitula resumidamente o
modo como, segundo Haeckel, as formas animais superiores se
desenvolveram nas diversas etapas da Terra:

No início do período terrestre que os geólogos chamam de


laurenciano, sucedeu que, sob condições ocorridas provavelmente
apenas nessa época, do encontro casual de alguns elementos —
carbono, oxigênio, hidrogênio e azoto — formaram-se as primeiras
parcelas de albumina. Delas resultaram, por geração espontânea, as
moneras — os mais ínfimos e imperfeitos seres vivos. A seguir, estas
se dividiram e se multiplicaram, ordenaram-se em órgãos e, por fim,

15
após sofrer uma série de transformações que Haeckel fixou em nove,
deram vida a alguns vertebrados da espécie amphioxus lanceolatus
(pequenos peixes lanceolados).
Deixando de lado o modo como se processaram as subseqüentes
espécies animais, passemos logo à parte final da exposição de
Topinard:
No vigésimo grau [de transformações] surge o antropóide [macaco
semelhante ao homem], aproximadamente durante o período
mesozóico; no vigésimo-primeiro surge o homem-macaco, que ainda
não possui a fala e um cérebro correspondente a esta. No vigésimo-
segundo, finalmente, aparece o homem assim como o conhecemos, ao
menos em sua forma menos perfeita.
Neste ponto, após expor os ‘fundamentos científicos da nova crença’,
Topinard faz em poucas palavras uma importante confissão. Eis o que
diz:

A enumeração é aqui interrompida. Esqueceu-se Haeckel do


vigésimo-terceiro grau, onde fulguram um Lamarck e um Newton.
Há, assim, na confissão do neocrente um ângulo de onde ele, tão
claramente quanto possível, acena para fatos que contradizem sua
própria confissão. Sucede, no entanto, que o neocrente não quer,
valendo-se dos mesmos conceitos que utiliza para compreender o
restante da natureza, ascender à região do anímico-humano. Se fizesse
isto estaria, com seu modo de pensar adquirido na natureza exterior,
entrando no campo que Topinard chama de vigésimo terceiro grau, e
então teria de dizer a si mesmo: “Se pela evolução posso fazer a
espécie animal superior derivar da inferior, também posso, por meio
dela, fazer a espécie anímica superior derivar da inferior. Não me é
possível compreender a alma de Newton se não a considero como
proveniente de um ser anímico predecessor. E este ser anímico jamais
poderá ser buscado nos antepassados físicos — pois quem quisesse
procurá-lo aí teria de inverter completamente o espírito da Ciência
Natural. Com efeito, como poderia um investigador da natureza
pretender que uma espécie animal evoluísse de outra, se esta última

16
fosse fisicamente tão diferente da primeira quanto Newton o é
animicamente de seus antepassados? É concebível que uma espécie
animal evoluísse de outra, se esta última fosse fisicamente tão
diferente da primeira quanto Newton o é animicarnente de seus
antepassados? É concebível que uma espécie animal derive de outra
que lhe seja semelhante, situada apenas um grau abaixo dela. Logo, a
alma de Newton deve provir de outra que lhe seja semelhante,
animicamente situada apenas um grau abaixo. O que é anímico em
Newton deve integrar sua biografia. Conheço Newton através dessa
sua biografia, assim como conheço um leão pela descrição de sua
espécie. E conheço a espécie leão quando imagino que provém de
outra inferior, a ela relacionada. Portanto, só entendo aquilo que
incluo na biografia de Newton se considero isto como evolução da
biografia de uma alma que lhe é semelhante, que lhe é afim como
alma. Por conseguinte, a alma de Newton já existiu sob outra forma.
Um pensar claro não foge a esta conclusão. Os neocrentes não
chegam a ela porque não têm coragem de levar seus pensamentos
efetivamente até às últimas conseqüências. Estes pensamentos, no
entanto, atestam o ressurgimento da entidade que incluímos na
biografia. Ou deixamos ruir toda a doutrina evolucionista da Ciência
Natural, ou a estendemos à evolução anímica. Não há outra
alternativa: ou toda alma é criada por milagre, como também
milagrosamente teriam sido criadas as espécies animais, ou a alma
evolui e já existiu sob outra forma, tal como as espécies animais.
Alguns pensadores contemporâneos, que conservaram uma certa
clareza e coragem para manter coerentes suas idéias, são uma prova
viva desta realidade — tal como os neocrentes acima caracterizados
não são capazes de chegar à compreensão da idéia da evolução da
alma, tão insólita na época de hoje. Mas tiveram ao menos a coragem
de declarar-se partidários da única outra opinião possível: o milagre
da criação da alma. Assim é que no livro de Johannes Remke,
professor de Greifswald e um dos melhores pensadores da atualidade,
lê-se:

A idéia da Criação [...] parece-nos ser [...] a única capaz de


favorecer alguma compreensão a respeito do mistério do surgimento
das almas.

17
Remke chega a reconhecer a existência de um ser universal
consciente que, segundo afirma, “teria, [...] como condição
indispensável para o surgimento das almas, de ser chamado de
‘Criador das Almas’”. Quem assim nos fala é um pensador que não
deseja ser suavemente embalado em sonolência espiritual, após haver
compreendido os processos vitais físicos. Falta-lhe, porém, a
capacidade de aceitar a idéia de que a alma evolui de uma forma
existencial precedente. Johannes Remke possui justamente a coragem
de ir até o milagre, já que não pode chegar ao enfoque antroposófico
do ressurgimento da alma ou reencarnação. A este enfoque, no
entanto, necessariamente chegam os pensadores que se esforçam por
uma Ciência Natural coerente. Assim, na obra de Julius Baumann
(professor de Filosofia de Göttingen) intitulada Neuchristentum und
reale Religion [Neocristianismo e religião objetiva], entre as 39
proposições contidas num ‘Projeto de breve resumo de uma religião
objetiva’, encontramos esta, a vigésima-segunda:
Assim como [...] na natureza inorgânica os elementos e forças físico-
quimicos não perecem, mas apenas se combinam de modo diferente, o
mesmo é de se admitir, segundo o método científico-objetivo,
relativamente às forças orgânicas e orgânico-espirituais. A alma
humana, como unidade formal, como um eu aprisionado, retorna num
novo corpo humano, modo pelo qual consegue atravessar todos os
graus da evolução da humanidade.
Este deverá ser o enfoque de quem se voltar com toda a coragem à
crença da Ciência Natural de hoje. Não se quer, com isto, dizer de
modo algum que os eminentes neocrentes sejam pessoas desanimadas,
na acepção comum da palavra. Foi preciso coragem imensa e muita
luta para que o enfoque científico-natural vencesse as forças
contrárias do século XIX. Mas esta coragem é diferente daquela outra
maior, exigida para a coerência do pensar. E um pensar coerente é o
que falta aos cientistas naturais, que querem construir uma concepção
do mundo a partir dos conhecimentos limitados à sua área de
observação. Não é, pois, desalentador que, numa conferência
pronunciada na última reunião de cientistas, tenha Albert Ladenberg,
químico de Breslau, assim se manifestado: “Acaso conhecemos

18
realmente algum substrato da alma? Eu não conheço nenhum.” E que,
após tal ‘confissão’, este mesmo homem tenha podido dizer: “E como
havereis de considerar a imortalidade? Penso que nesta questão, mais
do que em qualquer outra, predomina o desejo do autor do
pensamento, pois não conheço qualquer fato cientificamente
comprovado sobre o qual nos possamos basear para crer na
imortalidade.” O que diria este ilustre senhor diante de um orador que
afirmasse: “Nada sei a respeito dos fatos químicos. Por tal motivo,
nego as leis químicas, pois não conheço um só fato cientificamente
comprovado capaz de apoiá-las”? Ora, o professor diria: “Não nos
interessa tua ignorância a respeito da ciência química; ocupa-te
primeiramente com a química, para depois falares dela.” Não conhece
o Professor Ladenberg qualquer substrato da alma; não deveria, pois,
importunar os outros com o resultado de sua ignorância.
Tal como o cientista natural busca formas animais das quais outras se
desenvolveram a fim de entender estas, assim também o psicólogo
que se situa no terreno da pesquisa natural deve buscar as formas
anímicas das quais outras evoluíram, para que possa compreendê-las.
Os naturalistas sempre explicam a forma do crânio animal superior
pela transformação do crânio animal inferior. Devem eles, portanto,
explicar tudo o que compõe a biografia de uma alma pela biografia da
alma da qual provém a que têm em vista. Todo estado posterior é
efeito de um estado anterior. Certo — os estados físicos posteriores
são efeito de estados físicos anteriores; mas também os estados
anímicos posteriores são efeitos de estados anímicos anteriores. Este é
o conteúdo da lei do carma, que assim se expressa: tudo quanto me é
possível fazer e faço em minha vida presente não acontece por si,
isoladamente, como que por milagre, mas está, como efeito,
relacionado com as existências anteriores de minha alma e, como
causa, com as posteriores.
Quem observa a vida humana com olhos espirituais abertos, mas não
conhece ou não quer conhecer esta lei abrangente, permanece
continuamente postado diante do enigma da vida. Demos um
exemplo, entre muitos. Begrabene Teinpel [Templo soterrado], de
Maurice Maeterlink, é um livro que fala de tais enigmas, tal como se
apresentam aos pensadores contemporâneos, ou seja, de um modo
distorcido, já que eles não acreditam na magnitude das leis de causa e

19
efeito da vida espiritual, nas leis do carma. Os que se entregaram aos
dogmas extremamente limitados dos neocrentes não vêem sentido
algum em formular questões a respeito desses enigmas. Mas
Maeterlink propõe um deles:

Se, apesar do frio intenso, atiro-me na água para salvar meu


próximo, ou se caio nela ao tentar jogá-lo no lago, serão as mesmas
as conseqüências de meu resfriado, em ambos os casos, e nenhum po-
der no Céu ou na Terra, afora eu mesmo e a outra pessoa (se lhe for
possível), fará com que meus sofrimentos aumentem em razão do
crime que cometi ou diminuam em função da boa ação que pratiquei.

É certo que, para uma observação restrita aos acontecimentos


meramente físicos, as conseqüências relatadas parecem ser as mesmas
nos dois casos. Deverá, porém, esta observação ser considerada
completa desde logo? Quem responder a isto afirmativamente estará,
como pensador, utilizando-se aproximadamente do mesmo enfoque
daquele que, ao observar dois meninos ensinados por dois professores
diferentes, não atenta senão para o fato de que em ambos os casos os
professores dedicam o mesmo número de horas a cada menino e se
desempenham de maneira diferente. Observasse ele os fatos mais a
fundo, poderia talvez perceber uma grande diferença entre os dois
casos, dando-se conta então de que um dos meninos virá a ser um
incapaz, enquanto o outro se tornará um homem primoroso.
Portanto, quem deseja chegar às correlações anímico-espirituais dirá a
si mesmo, ao observar as supramencionadas conseqüências para as
almas das pessoas em questão: “O que aconteceu aqui não pode ser
considerado unicamente em si mesmo. As conseqüências do resfriado
são experiências da alma e, para que não sejam tidas como milagre,
devo tomá-las como causas e efeitos da vida anímica. Ou as
conseqüências produzidas em quem salvou uma vida e no criminoso
decorrem de causas diversas, ou produzem efeitos diferentes num e
noutro caso. E se não consigo encontrar essas causas e efeitos na vida
presente dessas pessoas, se nesta vida tudo lhes corre igual, devo
então buscar o equilíbrio no passado ou no futuro. Deste modo, pro-
cedo exatamente como o naturalista se comporta no campo dos
acontecimentos exteriores: também ele explica a cegueira dos animais

20
nas cavernas escuras em função de vivências anteriores; e pressupõe
que as vivências presentes produzirão efeitos futuros nas formações
das raças e das espécies.”
Só tem o direito de dissertar sobre a evolução no domínio da natureza
exterior quem, simultaneamente, aceita a evolução no domínio do
anímico-espiritual. É claro que esta aceitação, esta ampliação do
conhecimento da natureza para além da própria natureza émais que
simples conhecimento. Ela transmuda o conhecimento em vida: não
apenas enriquece o saber humano, como fornece ao homem a força de
que este necessita para mudar o rumo de sua vida. Mostra-lhe de onde
ele vem e para onde vai. E se persiste no rumo que o conhecimento
lhe indica, descobrirá o de onde e o para onde bem além do
nascimento e da morte. Saberá que tudo o que ele faz entrosa-se num
curso que flui de eternidade em eternidade. Alarga-se e eleva-se cada
vez mais a perspectiva da qual ele pode reger sua vida. Antes de
adquirir este modo de pensar, o homem está envolto num nevoeiro
espesso, pois sequer suspeita de sua verdadeira natureza, de sua
origem e de seus alvos. Ele segue os impulsos naturais, sem poder
compreendê-los. É indispensável o homem dar-se conta de que outros
talvez fossem seus impulsos caso ele iluminasse seu caminho com a
luz do conhecimento. O sentimento de responsabilidade perante a
vida cresce cada vez mais sob o influxo desta maneira de pensar.
Sozinho, o homem não desenvolve em si este sentimento de res-
ponsabilidade e nega o sentido superior de sua condição humana.
Conhecimento que não tenha por alvo o enobrecimento do ser
humano não passa de satisfação de curiosidades válidas. Elevar o
conhecimento à compreensão do espiritual, a fim de que ele seja a
força propulsora de toda a nossa vida, constitui um dever na mais alta
acepção da palavra. Eis por que é dever de todo ser humano procurar
compreender o de onde e o para onde da alma.
O modo como atuam as leis espirituais — a reencarnação e o
carma — será objeto da próxima dissertação.4
Notas do Autor:

4
V. Rudolf Steiner, Como atua o carma, trad. de Gerda Hupfeld (3ª ed. São Paulo, Antroposófica, 1996). (N.E.)

21
1. Isto precisa ser dito expressamente, pois hoje são inúmeros os
leitores supeficiais, sempre prontos a encontrar um possível absurdo
na exposição que faz um pensador qualquer, ainda que este se tenha
esforçado por expressar-se com toda a precisão. Por esta razão, seja
aqui ainda especialmente acrescentado que de modo algum me ocorre
combater os que, com base em pressupostos científico-naturais,
ocupam-se com o problema da ‘geração espontânea’. Todavia,
embora possa ser verídico que meras substâncias sem vida’ se
conjuguem de algum modo com proteína viva, disto não se segue que,
bem compreendida, a concepção de Redi seja falsa.

2. Os devotos da escola de Wundt5 devem ter ficado terrivelmente


chocados por eu falar em ‘alma’ de um modo tão antiquado, já que
eles confiam cegamente na palavra de seu mestre, que proclama não
ser correto falar em ‘alma’ porque desta substância ‘supra-real’,
depois que a “mitificação das aparências evaporou-se no transcenden-
te”, nada mais resta senão um ‘fato coerente’. Pois bem, a sabedoria
de Wundt equivale à afirmação de que ninguém deveria falar em
‘lírio’, porque aí só lidamos com cores, formas, processos de
crescimento, etc. (Veja Wundt, Naturwissenschaft und Psychologie
[Ciência Natural e Psicologia]. Leipzig, 1903.)

3. Existem hoje pessoas que gostariam de ser rapidamente


instruídas sobre os ensinamentos da Ciência Espiritual. Tais pessoas
ficariam totalmente frustradas quando os fatos científico-naturais
começassem a ser-lhes minuciosamente expostos, de modo a poderem
servir de fundamento para uma construção antroposófica. Eles diriam:
“Queremos ouvir algo sobre a Ciência Espiritual e o senhor nos está
relatando coisas da Ciência Natural, do conhecimento de qualquer
pessoa instruída.” Esta objeção mostra claramente como nossos
contemporâneos não querem, em absoluto, pensar seriamente. Os que
assim falam nada sabem, na verdade, sobre a transcendência de seus
conhecimentos: o astrônomo ignora inteiramente as conseqüências da
astronomia, o químico as da química e assim por diante. E para eles
não há salvação, a não ser que eles se tornem modestos e capazes de
5
Wilhelm Wundt (1832-1920), psicólogo alemão. Fundou em Leipzig o primeiro instituto de psicologia
experimental. (N.E.)

22
realmente ouvir quando lhes for explicado que, em razão da
superficialidade de seu pensar, eles nada sabem do que, em sua
petulância, julgavam conhecer inteiramente. E também os
antropósofos julgam muitas vezes desnecessário valerem-se da
Ciência Natural para fundamentar suas convicções acerca do carma e
da reencarnação. Eles ignoram que esta é a missão das sub-raças6 a
que pertencem os habitantes da Europa e da América, e que sem este
fundamento os membros desta raça não teriam condições de
realmente chegar a um conhecimento científico-espiritual. Quem
deseja apenas discorrer sobre o que ouve dos grandes mestres do
Oriente não poderá ser antropósofo na civilização euro-americana.
Contra estas explicações, muitos objetarão que em sua feição atual a
Ciência Natural está em contradição com os ensinamentos
antroposóficos; e que, por exemplo, na Doutrina Secreta de H. P.
Blavatsky se encontra uma teoria genealógica diversa daquela
representada por Haeckel. O modo como esta se comporta
relativamente a isto será explicado mais tarde. Aqui não será
mostrado, de modo algum, como a ‘nova crença’ se comporta diante
da ‘doutrina secreta, mas sim e tão-somente como deveria portar-se
com relação a si mesma, caso compreendesse seus próprios
pressupostos.

Fim.

6
No sentido de raças derivadas das raças-raízes, segundo consta nos textos de Steiner sobre a evolução
primordial da humanidade. (N.E.)

23